segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O MOSTEIRO, de LUIS ZUECO | ALMA DOS LIVROS

NEM TODOS OS QUE VESTEM UM HÁBITO PROCURAM A LUZ DE DEUS.

Na imponente encosta do Moncayo, envolto numa paisagem de névoas e silêncios, ergue-se o Mosteiro de Santa María de Veruela – uma construção grandiosa que ambiciona tornar-se o reflexo do Paraíso na Terra.

Estamos no turbulento século XIV, em plena guerra entre as coroas de Castela e Aragão. Bizén, um homem enigmático e com um passado misterioso, chega ao mosteiro de Santa María de Veruela com uma missão específica e delicada: recuperar os restos mortais que repousam numa antiga tumba do convento.

O abade do mosteiro recusa-se terminantemente a permitir tal exumação, levantando suspeitas quanto aos verdadeiros segredos que aquela sepultura guarda. Enquanto Bizén tenta desvendar os mistérios que se escondem sob o silêncio monástico, um dos monges da abadia é encontrado morto em circunstâncias sinistras.

A tranquilidade aparente do mosteiro esconde uma densa rede de intrigas, ambições e velhas rivalidades, e, como se não bastasse, quanto mais Bizén se aproxima da verdade, mais arriscado se torna o seu papel dentro do mosteiro –, pois, se o assassino não for descoberto a tempo, o seu próprio segredo poderá ser revelado, colocando a sua vida em risco.

Entre jogos de poder, traições e o peso do sagrado, O Mosteiro revela os recantos mais obscuros da alma humana e das instituições que se dizem puras. Luis Zueco conduz-nos, com mestria, através de um enredo envolvente, onde o suspense se entrelaça com a história.

 

domingo, 30 de agosto de 2026

ONZE MINUTOS, de INÊS VALADAS | EUFORIA

Onze Minutos, de Inês Valadas, é um romance dark romance, publicado em Portugal pela chancela Euforia, da Guerra e Paz. A obra, publicada em junho de 2026, constitui a estreia literária da autora e apresenta-se como uma narrativa de elevada intensidade emocional, abordando temas cruciais que chamam à atenção para a importância da saúde mental.

Não é um livro fácil — e talvez seja precisamente essa uma das suas maiores virtudes. Onze Minutos assume sem hesitação os códigos do dark romance, mas procura ir além da mera exploração da relação amorosa intensa, perigosa e tóxica. O resultado é uma narrativa sombria, por vezes desconfortável, construída sobre personagens emocionalmente marcadas e sobre uma relação que, embora tóxica e perturbadora, possui uma força narrativa capaz de prender o leitor até à última página.

Laurell e Adrian são os protagonistas de uma história na qual amor e sofrimento surgem quase indissociáveis. Sete anos depois de o destino os ter unido, as suas vidas voltam a cruzar-se num contexto em que nada parece verdadeiramente resolvido. O passado não desapareceu; regressa sob a forma de segredos, feridas abertas, promessas quebradas e de uma ligação afetiva que permanece demasiado forte para ser ignorada.

É nessa permanência do passado que Inês Valadas encontra uma das linhas de força do romance. Laurell e Adrian não são simplesmente um casal em conflito: são duas personagens condicionadas por experiências pessoais que continuam a determinar as suas escolhas. A relação entre ambos adquire, por isso, uma dimensão quase claustrofóbica, em que desejo, dependência, medo, lealdade e necessidade de reparação se confundem.

A escrita distingue-se pela intensidade e por uma evidente preocupação estilística. Há momentos em que a linguagem se aproxima de uma escrita mais literária e sensorial, afastando-se de uma construção puramente funcional ou comercial da narrativa romântica. A autora procura que as emoções sejam sentidas fisicamente pelo leitor, e não apenas compreendidas. O resultado são páginas que, em determinados momentos, provocam genuíno desconforto e funcionam quase como um impacto físico.

Mas Onze Minutos não se esgota na história de amor. A saúde mental constitui uma dimensão particularmente relevante do romance, mediante alusões a ansiedade, ataques de pânico e depressão profunda. A própria autora adverte, no início da obra, para a presença destes conteúdos e esclarece que as referências a Psicologia, Psiquiatria e determinadas intervenções terapêuticas obedecem às necessidades ficcionais da narrativa, tendo-se permitido alguma liberdade narrativa ao invés de obedecer ao rigor científico.

Esta ressalva é importante porque o livro convoca uma terminologia e situações relacionadas com áreas clínicas particularmente sensíveis. A narrativa beneficia quando o leitor mantém presente que está perante uma construção ficcional e não perante uma representação técnica ou científica dos processos psicológicos e psiquiátricos. A distinção é especialmente relevante: a Psicologia é uma ciência que estuda o comportamento e os processos mentais, enquanto a Psiquiatria é uma especialidade médica, embora ambas as áreas se cruzem e complementem em múltiplos contextos.

Ainda assim, a utilização desses elementos cumpre uma função narrativa eficaz. O sofrimento psicológico das personagens não aparece simplesmente como adereço para intensificar o drama romântico; contribui para compreender a forma como experiências pessoais e familiares podem repercutir-se na construção da identidade e na maneira como cada indivíduo estabelece relações consigo próprio e com os outros.

É também neste ponto que o romance adquire uma dimensão mais interessante. Por detrás do dark romance, existe uma reflexão sobre aquilo que fazemos com as feridas que transportamos e sobre a forma como o passado pode continuar a determinar o presente. O amor não surge necessariamente como solução ou cura, aliás, pode ser simultaneamente refúgio, dependência, instrumento de poder e fonte de destruição.

A intensidade da relação entre Laurell e Adrian constitui, por isso, tanto a principal força como a característica que mais exigirá do leitor, a narrativa é pautada por muitos episódios imensamente duros em termos emocionais, e aborda temas sensíveis que causam ostensivamente desconforto no leitor. As advertências da autora são mesmo para levar a sério, pois é importante aferir da capacidade do leitor para suportar o peso emocional e psicológico desta obra.

Esta não é, portanto, uma leitura recomendável sem reservas a todos os públicos. Mas para quem procura dark romance e aceita confrontar-se com uma narrativa intensa, sombria e emocionalmente exigente, Onze Minutos oferece uma proposta particularmente ambiciosa para uma estreia e denota-se na escrita a entrega da autora ao realizar um trabalho cuidado em termos literários e de abordagem dos conteúdos, revelando-se uma perspetiva algo catártica na escrita de Inês Valadas, sendo a autora conhecida entre as leitoras portuguesas do género dark romance, não isento de polémica, mas que é inequivocamente uma tendência literária atual.

Inês Valadas consegue, sobretudo, criar duas personagens que permanecem na memória dos leitores muito tempo depois de encerrado o livro. Laurell e Adrian são personagens marcantes porque a sua história não assenta apenas na atração ou no conflito romântico: assenta nas marcas que as experiências familiares e pessoais deixam nas pessoas e na dificuldade de separar amor, dor, identidade e sobrevivência.

Onze Minutos é, assim, um romance intenso, duro, apaixonante e perturbador, mas também uma obra que convida à reflexão sobre saúde mental, bem-estar e sobre a forma como as narrativas pessoais e familiares podem repercutir-se profundamente na construção de quem somos. A estreia de Inês Valadas revela uma autora consciente do género que escolheu, mas igualmente interessada em explorar as suas possibilidades para além do puro entretenimento.

Um dark romance português que não pretende simplesmente reproduzir uma fórmula internacional: procura encontrar, dentro dela, uma voz própria. E, sobretudo, deixa uma pergunta desconfortável depois de terminada a leitura: até onde pode ir o amor antes de deixar de ser salvação e passar a ser destruição?

A ler conscientemente e apenas se validar as advertências da autora!


Texto: Isabel de Almeida | Jornalista | Crítica Literária

sábado, 29 de agosto de 2026

MARIA MONTESSORI E A ESCOLA DA VIDA, de LAURA BALDINI | ALMA DOS LIVROS

A HISTÓRIA DE MARIA MONTESSORI. UMA MULHER EXTRAORDINÁRIA QUE DESAFIOU AS CONVENÇÕES DO SEU TEMPO E QUE NUNCA DEIXOU DE LUTAR PELOS SEUS SONHOS.

Roma, 1896. A jovem Maria Montessori torna-se a primeira mulher em Itália a formar-se em medicina. Desde muito cedo que havia decidido não seguir o caminho que a sociedade esperava das mulheres no seu tempo.

Numa visita à ala psiquiátrica de um hospital, fica desconcertada ao contactar com um grupo de crianças que ali vive. Na sala, melancólica, impera um silêncio aterrador. Os rostos das crianças voltam-se para ela, desesperadamente tristes.

Montessori decide intervir e fazer algo por elas. Vencendo a resistência dos demais, consegue oferecer-lhes alguns objetos para brincarem com a intenção de aguçar a sua curiosidade. Subitamente, aquelas crianças parecem ganhar vida. Os médicos que a acompanham ficam estupefactos com a transformação que ocorre diante dos seus olhos.

Este evento singular vai mudar a sua vida para sempre. Assim se dá o início de uma carreira inédita na área da pedagogia, contra todas as barreiras sociais impostas pela época em que vive. Corajosa, forte e única, Montessori enfrenta todos os obstáculos, e consegue estabelecer o seu método e operar uma verdadeira revolução. O seu desafio torna-se maior, porém, ao apaixonar-se por um colega, e ao ser confrontada com a decisão mais difícil de toda a sua vida.

Um romance histórico emocionante e inspirador, que é um mergulho na vida de uma das maiores educadoras da história. Uma mulher extraordinária, cujo alcance da obra e impacto do trabalho se refletem, ainda hoje, na educação das crianças em todo o mundo.

SÉRIE COM MAIS DE 500 MIL EXEMPLARES VENDIDOS

Os romances históricos da série Mulheres que Mudaram o Mundo trazem aos leitores a vida de figuras extraordinárias.

 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

PORTUGAL A HISTÓRIA DE UMA NAÇÃO, de HENRY MORSE STEPHENS | ALMA DOS LIVROS


«A nação portuguesa é um produto da sua História: isto dá à História de Portugal um valor eminente». É assim que Henry Morse Stephens, docente da Universidade da Califórnia, começa esta obra notável, que em muito contribui para trazer ao conhecimento comum diversos acontecimentos até agora desconhecidos da História de Portugal.

Abrange a instauração da nacionalidade, a consolidação do território e da independência, atravessa o período heroico dos Descobrimentos e a criação de um império global, as navegações em África, na Índia, no Próximo Oriente e no Brasil, e culmina no período de declínio, que começa na fatídica batalha de Alcácer Quibir e se prolonga mais ou menos até aos nossos dias, iluminado aqui e ali com alguns lampejos de uma glória fugaz.

Na primeira fase, aliou-se uma força combatente a uma sabedoria administrativa e um tato de governo que granjearam o respeito de toda a Europa. Na segunda, a dos Descobrimentos, a visão estratégica dos principais dirigentes do reino e o insuperável heroísmo dos navegadores trouxeram glória e poder à alma lusa. Finalmente, com a perda da independência e as respetivas consequências, Portugal entra na fase mais negra da sua História.

Este é um livro essencial para entender o contexto e os acontecimentos que conferiram ao reino uma individualidade e uma existência nacionais de que justamente se orgulha e para vislumbrar como conseguiu um país tão pequeno erguer o primeiro império global da História.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O CAMINHO DO PEREGRINO, de JOHN BUNYAN | ALMA DOS LIVROS

 

N.º 1 DA LISTA «OS MELHORES LIVROS DE SEMPRE» DO THE GUARDIAN.

O Caminho do Peregrino é considerado, depois da Bíblia, o livro mais vendido de sempre.

Nenhum outro foi traduzido em tantos idiomas, teve tantas edições ou inspirou tantos milhões de leitores em todo o mundo.

A OBRA DE FICÇÃO MAIS IMPORTANTE NA HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

A obra descreve os passos de um peregrino através do caminho da vida e oferece uma profunda mensagem espiritual para aqueles que estão decididos a viver de um modo mais verdadeiro , em consonância com aquilo que trazem gravado no coração.

No decorrer da viagem, desde o instante em que decide deixar a sua antiga cidade e percorrer o caminho que o levará à cidade celestial, o peregrino encontra diferentes personagens e lugares, e estes representam cada uma das etapas que deve ultrapassar para alcançar o seu destino. Em cada encruzilhada, um novo desafio. Em cada vitória, uma nova responsabilidade. Uma incrível experiência humana e espiritual.

O SEGREDO DA FELICIDADE. O PODER DA FÉ. A FORÇA LIBERTADORA DO AMOR.

Para milhões de pessoas do mundo inteiro, O Caminho do Peregrino carrega uma mensagem de esperança e é um modelo ímpar da perseverança e do alento no meio das dificuldades da vida. É verdadeiramente inspirador e motiva a reflexão sobre aquilo que estamos dispostos a abandonar ou a guardar connosco quando decidimos seguir a nossa verdadeira vocação e o nosso coração.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

FARAWAY INN - ONDE MORA A MAGIA, de SARAH BETH DURST | SINGULAR

Faraway Inn — Onde mora a magia, de Sarah Beth Durst, é um romance de fantasia juvenil, de inspiração cozy fantasy, publicado em Portugal pela chancela Singular, Grupo Porto Editora. A edição portuguesa chegou às livrarias em maio deste ano.

Depois de um desgosto amoroso, Calisa procura distância suficiente para reconstruir a própria vida e aceita passar o verão na estalagem da tia-avó. O cenário que encontra, porém, está muito longe do refúgio acolhedor que imaginava: a propriedade encontra-se decadente, a tia-avó Zee é uma figura excêntrica e pouco receptiva e até os hóspedes parecem esconder alguma coisa. É precisamente nesse contraste entre a expectativa e a realidade que Sarah Beth Durst constrói o encanto de Faraway Inn.

A premissa pode parecer simples, mas a autora sabe trabalhar com competência os ingredientes fundamentais da chamada cozy fantasy: um espaço simultaneamente doméstico e mágico, uma protagonista em processo de reconstrução emocional, personagens peculiares, um animal de estimação incomum e com personalidade própria, um romance a despontar e, sobretudo, a sensação de que por detrás da aparente normalidade existe um mundo muito maior à espera de ser descoberto.

Calisa chega à estalagem fragilizada por uma desilusão amorosa e em busca de um novo sentido. A reconstrução do edifício transforma-se, gradualmente, numa reconstrução pessoal.

Ao tentar devolver vida à velha hospedaria, a protagonista começa também a recuperar sonhos e possibilidades que pareciam perdidos. A magia funciona, assim, não apenas como elemento fantástico, mas como metáfora para a possibilidade de recomeçar.

O verdadeiro encanto do livro está, contudo, na própria estalagem. Corredores que parecem não obedecer às regras do espaço convencional, hóspedes misteriosos e acontecimentos que ultrapassam a lógica quotidiana transformam o edifício numa personagem por direito próprio.

A casa deixa de ser simplesmente o cenário da história para se tornar o centro de um pequeno universo mágico que Calisa terá de aprender a compreender e onde virá a ter um papel de relevo.

Também aqui a fantasia não se limita ao maravilhoso pelo maravilhoso. A história trabalha temas como pertença, família, perda, afecto e a descoberta de que os laços mais importantes nem sempre são aqueles que nos são impostos pelo sangue. A ideia de família escolhida atravessa o romance e confere-lhe uma dimensão emocional que impede que a narrativa seja apenas uma sucessão de situações mágicas.

O romance amoroso, por sua vez, surge integrado nessa atmosfera de conforto, sem dominar completamente a narrativa. A aproximação ao filho do caseiro acrescenta uma tensão romântica agradável, mas é a relação de Calisa com a própria estalagem e com as pessoas — e criaturas — que nela habitam que constitui o verdadeiro coração da história.

É uma leitura particularmente indicada para quem procura uma pausa da realidade e prefere uma fantasia que privilegia o aconchego, o humor e a emoção em detrimento do conflito épico. A autora não pretende criar uma fantasia sombria ou de grande escala; procura antes construir um pequeno mundo onde a magia se encontra nos detalhes, nos espaços inesperados e nas relações que se estabelecem entre as personagens.

Há, naturalmente, quem possa desejar maior intensidade narrativa ou uma exploração mais profunda do universo mágico. A simplicidade da fórmula pode parecer previsível a leitores habituados a fantasias mais complexas. Mas é justamente essa simplicidade que constitui parte da sua proposta: Faraway Inn não quer inquietar o leitor, quer acolhê-lo.

Sarah Beth Durst consegue transformar uma estalagem decadente num lugar de descoberta, pertença e possibilidade. O resultado é uma cozy fantasy delicada e envolvente, com magia, mistério, romance e uma boa dose de escapismo — uma leitura para saborear devagar, idealmente num lugar confortável, com uma chávena de chá e uma fatia de bolo por perto.

Por: Isabel de Almeida | Jornalista | Crítica Literária

terça-feira, 25 de agosto de 2026

O FARMACÊUTICO DE AUSCHWITZ, de PATRICIA POSNER | ALMA DOS LIVROS

O Farmacêutico de Auschwitz relata a história pouco conhecida de Victor Capesius, um vendedor de produtos farmacêuticos que, em 1943, entrou para a SS e rapidamente se tornou o farmacêutico-chefe de Auschwitz, o maior campo da morte da Alemanha nazi.

Baseando-se em arquivos secretos e documentos até agora confidenciais, Patricia Posner revela o reinado de terror de Capesius naquele campo, a sua fuga à justiça – em parte alimentada pelo ouro que ele tinha roubado das bocas de cadáveres – e também como um punhado de corajosos sobreviventes e um destemido promotor público, finalmente, o levaram a julgamento por assassínio vinte anos depois do fim da guerra.

O Farmacêutico de Auschwitz apresenta-nos um vislumbre fascinante do pacto do Diabo feito entre os nazis e o maior grupo empresarial da Alemanha, a I. G. Farben.

Esta é uma história de homicídio e de ganância com as suas raízes no coração do Holocausto. É relatada por meio de figuras de proa nazis e industriais transformados em criminosos de guerra, agentes secretos e promotores zelosos, intrépidos sobreviventes dos campos de concentração e caçadores de nazis.

Num cenário que abarca a guerra lançada por Hitler para conquistar a Europa, a Solução Final e os esforços da Alemanha do pós-guerra para encarar o seu passado sombrio, Patricia Posner mostra-nos as terríveis profundezas às quais homens banais são capazes de submergir, quando desconhecem limites impostos pela consciência e pela mais vaga noção de moral.

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A HISTÓRIA SECRETA DOS REIS DE PORTUGAL, de PEDRO RABAÇAL | ALMA DOS LIVROS

Vidas exemplares? Ou nem tanto?

A História Secreta dos Reis de Portugal está longe de ser apenas uma sucessão de datas e conquistas. É um enredo vibrante, humano e surpreendente, tecido com casamentos por conveniência, paixões proibidas, conspirações palacianas, fidelidades improváveis e traições fatais. Entre batalhas, coroas e juramentos, escondem-se vidas de excessos, profunda devoção religiosa, luxúria desmedida e solidão absoluta.

Alguns reis foram boémios encantadores, poetas e amantes da boa vida; outros, visionários destemidos que disputaram amores à espada e, reza a lenda, comeram o coração dos inimigos. Houve os que governaram com disciplina ao romper da aurora e os que jamais mostraram vocação para o trono. Entre vícios, virtudes e temperamentos extremos; de amantes incansáveis a maridos surpreendentemente fiéis; de excomungados e fanáticos a tímidos, cruéis, depressivos, frouxos ou brilhantes, estes homens, divididos entre o poder e o prazer, acabaram por moldar o destino do país.

De gestos heroicos e misérias humanas, de camas desfeitas a batalhas sangrentas, os reis e rainhas de Portugal surgem aqui despidos de mitos, revelados na sua grandiosidade e nas suas fraquezas. 

Um retrato fascinante e inesperado daqueles que foram, durante séculos, a força vital do reino – por vezes sábio, por vezes desastroso, mas sempre imensamente humano.

Neste livro, viajamos pelos segredos e curiosidades da monarquia portuguesa para descobrir:

●    Que rei português foi o mais amado pelo povo?
●    Qual reinou durante mais tempo? E qual viveu mais anos?
●    Que monarca português foi oficialmente assassinado?
●    Por que razão, a partir de certa data, nenhum monarca voltou a usar a Coroa Real?
●    Que rei quis iluminar Lisboa? E que rainha o conseguiu?

Um livro para quem gosta de História, mas, sobretudo, para quem adora descobrir o lado desconhecido dos reis e rainhas de Portugal.

 

domingo, 23 de agosto de 2026

CAESAR: THE CONQUEST OF ETERNITY, by ALBERTO ANGELA | CRÍTICA


There are men who belong to history. And then there are men who seem to have escaped it. Julius Caesar belongs to the second category.

Two thousand years after his death, his name is still spoken, studied and debated. His wars remain in the history books, his decisions continue to fuel interpretations, and his image survives somewhere between the man he was and the character he helped create himself.

It is precisely this boundary that Alberto Angela explores in Caesar – The Conquest of Eternity, a book that begins with the conquest of Gaul but tells far more than the story of a military campaign. Angela takes the reader into first-century BC Rome, a society dominated by ambition, wealth, alliances and a relentless struggle for power.

The result is a biography that reads almost like a journalistic account of a man at the centre of an era in turmoil.

Angela does not present Caesar as a figure carved in marble. Quite the opposite. He shows us an ambitious, calculating, courageous and, at times, brutal man — but also a writer, intellectual, husband, father and lover. A politician and military commander who understood something fundamental: conquering territories mattered, but controlling the narrative surrounding those conquests could be even more powerful.

It is in the account of the Gallic campaign that this approach becomes particularly effective.

A legion is no longer simply a number. It becomes a group of men marching for hours, facing cold, hunger and fear, obeying orders, killing and knowing that they themselves may die. A battle ceases to be a date in a school textbook and becomes mud, blood, fire, strategy and decisions made within seconds.

Angela's writing has an almost cinematic quality here. The reader does not simply observe events from a distance; the reader is placed inside them.

But in Caesar's world, war can never be separated from politics.

Military victories meant wealth, prestige and power. They also meant the loyalty of his soldiers. Caesar needed to win, but he also needed to explain his victories. The way events were told was itself part of his political strategy.

Perhaps this is one of the book's most contemporary questions: whoever controls the narrative controls, to some extent, the memory of history.

Around Caesar, characters, family alliances, marriages, rivalries and economic interests help reveal how the Roman Republic functioned during its final years. Rome emerges as a society in which politics was rarely just about politics. Power, money, military prestige, personal relationships and individual ambition were deeply intertwined.

It is here, too, that the book acquires its human dimension.

Caesar is not presented merely as the great conqueror. He is shown as a man who needed people around him, who forged alliances, calculated risks and understood the importance of image. The historical figure begins to merge with the public persona that Caesar himself constructed.

Another particularly striking element is the use of visual reconstructions supported by artificial intelligence and developed with the participation of specialists. Technology becomes a tool for bringing a vanished world closer to the reader, giving greater substance to its places, faces and events.

But the book inevitably leaves us with another question:

Who was left out of Caesar's history?

We know what Caesar wanted to tell us. We know how he described his campaigns and how he presented his decisions. But we know far less about those who stood on the other side.

What happened to the conquered populations? To the unnamed dead? To the men and women who watched their lands being destroyed? To those who had no Caesar, no chronicler and no historian to tell their version of events?

It is at this point that Caesar – The Conquest of Eternity moves beyond the biography of a conqueror.

The book becomes, instead, a reflection on the very construction of history.

The title is therefore particularly fitting. Caesar conquered Gaul. He conquered power, wealth and glory. But his greatest conquest may have been something else entirely: he succeeded in making himself impossible to forget.

And he achieved this partly through writing.

By writing about his own campaigns, Caesar did not simply record events. He participated in the creation of the historical character who has reached us. Between the man who existed and the myth that survived, there is a narrative that continues to be read two thousand years later.

That is Alberto Angela's great strength: turning historical knowledge into experience.

The author does not require the reader to have a previous knowledge of Rome. Instead, he builds an accessible, visual and engaging narrative, capable of appealing both to those already familiar with Roman history and to those discovering it for the first time.

In the end, the most interesting question is no longer simply, “Who was Julius Caesar?”

It becomes something else: How can a man transform his own life into a story capable of surviving his death?

Perhaps that is, after all, the true conquest of eternity.

Not remaining untouched in the past, like a marble statue, but continuing, centuries later, to provoke questions.

Why I recommend this book

Because Alberto Angela achieves something that is not always easy in historical writing: he turns information into experience. History ceases to be a succession of dates and names and acquires movement, conflict, fear, ambition and humanity.

The book's greatest strength

Its ability to humanise Caesar without diminishing the political and military scale of his achievements — and, above all, to show how Caesar himself participated in creating the myth that has survived him.

The question that remains

Where does the man Caesar was end, and where does the character Caesar chose to leave to history begin?

It is precisely on this frontier between reality, propaganda and memory that Caesar – The Conquest of Eternity finds its most compelling dimension.

And it is also there that Alberto Angela succeeds in bringing Julius Caesar into the present.


By: Madalena Condado

 

CÉSAR – A CONQUISTA DA ETERNIDADE, de ALBERTO ANGELA | CRÍTICA

Há homens que pertencem à História. E há homens que parecem ter conseguido escapar-lhe. Júlio César pertence à segunda categoria.

Dois mil anos depois da sua morte, o seu nome continua a ser pronunciado, estudado e discutido. As suas guerras permanecem nos livros, as suas decisões continuam a alimentar interpretações e a sua figura sobrevive entre o homem que foi e o personagem que ele próprio ajudou a construir.

É precisamente essa fronteira que Alberto Angela explora em César – A Conquista da Eternidade, uma obra que parte da conquista da Gália para contar muito mais do que a história de uma campanha militar. O autor leva o leitor para dentro da Roma do século I a.C., uma sociedade dominada pela ambição, pela riqueza, pelas alianças e por uma luta permanente pelo poder.

O resultado é uma biografia que se lê quase como uma reportagem sobre um homem no centro de uma época em convulsão.

Angela não apresenta um César transformado em estátua. Pelo contrário. Mostra um homem ambicioso, calculista, corajoso e, por vezes, brutal, mas também escritor, intelectual, marido, pai e amante. Um político e militar que percebeu uma coisa fundamental: conquistar territórios era importante, mas conquistar a narrativa sobre essas conquistas podia ser ainda mais poderoso.

É na campanha da Gália que essa abordagem se torna particularmente eficaz.

Uma legião deixa de ser apenas um número. Passa a ser constituída por homens que marcham durante horas, enfrentam o frio, a fome e o medo, obedecem, matam e podem morrer. Uma batalha deixa de ser uma data num manual escolar e transforma-se em lama, sangue, fogo, estratégia e decisões tomadas em poucos segundos.

A escrita de Alberto Angela tem aqui uma qualidade quase cinematográfica. O leitor não observa simplesmente os acontecimentos à distância: é colocado dentro deles.

Mas a guerra, em César, nunca está separada da política.

As vitórias militares significavam riqueza, prestígio e poder. Significavam também a fidelidade dos soldados. César precisava de vencer, mas precisava igualmente de explicar as suas vitórias. A forma como os acontecimentos eram contados fazia parte da própria estratégia política.

É talvez uma das questões mais contemporâneas do livro: quem controla a narrativa controla, em parte, a memória da História.

Ao lado de César surgem personagens, alianças familiares, casamentos, rivalidades e interesses económicos que ajudam a perceber como funcionava a República Romana nos seus últimos anos. Roma aparece como uma sociedade onde a política raramente era apenas política. Poder, dinheiro, prestígio militar, relações pessoais e ambição individual estavam profundamente ligados.

É também aqui que o livro ganha dimensão humana.

César não é apresentado apenas como o grande conquistador. É apresentado como alguém que precisava de pessoas à sua volta, que estabelecia alianças, que calculava riscos e que compreendia a importância da imagem. A figura histórica começa, assim, a confundir-se com a figura pública que o próprio César construiu.

Outro elemento particularmente interessante são as reconstruções visuais apoiadas por inteligência artificial, desenvolvidas com a participação de especialistas. A tecnologia surge como uma ferramenta para aproximar o leitor de um mundo desaparecido, dando maior concretização a lugares, rostos e acontecimentos.

Mas existe uma pergunta que o livro inevitavelmente deixa no ar.

Quem ficou de fora da História de César?

Sabemos aquilo que César quis contar. Sabemos como descreveu as suas campanhas e como apresentou as suas decisões. Mas sabemos muito menos sobre aqueles que estavam do outro lado.

O que aconteceu às populações conquistadas? Aos mortos sem nome? Aos homens e mulheres que viram as suas terras destruídas? Àqueles que não tiveram um César, um cronista ou um historiador para contar a sua versão?

É neste ponto que César – A Conquista da Eternidade ultrapassa a biografia de um conquistador. O livro passa a ser também uma reflexão sobre a própria construção da História. O título é, por isso, particularmente feliz. César conquistou a Gália. Conquistou poder, riqueza e glória. Mas a sua maior conquista poderá ter sido outra: conseguiu tornar-se impossível de esquecer. E fê-lo também através da escrita.

Ao escrever sobre as suas próprias campanhas, César não se limitou a registar acontecimentos. Participou na criação da personagem histórica que chegou até nós. Entre o homem que existiu e o mito que sobreviveu, há uma narrativa que continua a ser lida dois mil anos depois.

É essa a grande força de Alberto Angela: transformar conhecimento histórico em experiência. O autor não exige ao leitor conhecimentos prévios sobre Roma. Em vez disso, constrói uma narrativa acessível, visual e envolvente, capaz de interessar tanto quem já conhece a História romana como quem se aproxima dela pela primeira vez.

No final, a pergunta mais interessante deixa de ser apenas “quem foi Júlio César?”

Passa a ser outra: como consegue um homem transformar a própria vida numa história capaz de sobreviver à sua morte?

Talvez seja essa, afinal, a verdadeira conquista da eternidade. Não permanecer intocável no passado, como uma estátua de mármore, mas continuar, séculos depois, a provocar perguntas.

Recomendo a leitura porque Alberto Angela consegue fazer aquilo que nem sempre é fácil na divulgação histórica: transformar informação em experiência. A História deixa de ser uma sucessão de datas e nomes e passa a ter movimento, conflito, medo, ambição e humanidade.

O ponto mais forte é a capacidade de humanizar César sem apagar a dimensão política e militar da sua figura — e, sobretudo, de mostrar como o próprio César participou na construção do mito que chegou até nós.

A questão que permanece: onde termina o homem que César foi e começa o personagem que César decidiu deixar para a História?

É nessa fronteira entre realidade, propaganda e memória que César – A Conquista da Eternidade encontra a sua dimensão mais interessante.

E é também aí que Alberto Angela consegue trazer Júlio César para o presente.


Por: Madalena Condado

 

sábado, 22 de agosto de 2026

FEIRA DO LIVRO DO PORTO | APRESENTAÇÃO DE LUSITÂNIA DE ANDRÉ SIMÕES


 

AMIGAS ATÉ AO FIM, de LUCINDA BERRY | ALMA DOS LIVROS

Bestseller N.º 1 internacional

Da autora de A Filha Perfeita e O Dia em Que Ela Voltou

Três mães veem as suas vidas desfeitas por uma tragédia envolvendo os seus filhos adolescentes.

Lindsey, Kendra e Dani são melhores amigas. Mas agora enfrentam o pior dos pesadelos quando um trágico acidente atinge os três adolescentes. O filho de uma delas morre, outro fica em coma e o terceiro fica tão traumatizado que perde a capacidade de falar.

Ainda a recuperar do pior momento das suas vidas, as três lançam-se numa investigação desesperada para descobrir como algo tão terrível pôde acontecer no próspero subúrbio do sul da Califórnia onde vivem.

O que aconteceu realmente naquela noite?

À medida que mais segredos vêm à tona, um clima de dúvida e suspeita ameaça envenenar as suas famílias, as suas amizades e toda a comunidade. Será que conhecem realmente os seus filhos? E umas às outras?

Com a ilusão de felicidade e segurança desfeita, estas três mulheres terão de enfrentar a dor da perda, as consequências da inveja e os perigos de vidas construídas sobre segredos.

Porque algumas verdades têm o poder de mudar tudo para sempre.

 

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A RAPARIGA QUE MATASTE, de LESLIE WOLFE | ALMA DOS LIVROS


 E se o marido dela for um assassino?

«Leslie Wolfe oferece-nos thrillers psicológicos brilhantes e imparáveis, repletos de reviravoltas e que mantêm os leitores presos até à última página.» Amazon 

A rapariga que tu mataste está a olhar por ti do paraíso com uma margarita na mão, e a desejar que tenhas tudo o que mereces nesta vida depois de ela se ter ido. Adeus, meu amor. Tu foste o tal. 

Andrea e Craig tinham a vida quase perfeita. Acabadinhos de se mudar para um dos subúrbios mais desejados de Houston, planeavam desfrutar da nova casa e do bairro onde viviam.

Porém, alguns meses mais tarde, Craig vê-se preso numa teia intrincada e acusado do assassínio da sua jovem esposa. Assassino ou vítima? As opiniões dividem-se, e o julgamento polariza a cidade. O caso, altamente mediatizado, alimenta a imprensa e as redes sociais.

O seu casamento está na boca do mundo e é exposto e esmiuçado ao detalhe. Mas a névoa não se dissipa. A vida de Andrea continua um mistério que nem a polícia consegue resolver. Seria ela a esposa feliz e dedicada que todos julgavam ser? Ou era tudo uma grande mentira?

Quando estás a ser manipulada psicologicamente, depressa aprendes que não tens valor, que o teu sofrimento não tem importância e que não há escapatória

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

PERSUASÃO, de JANE AUSTEN | PORTO EDITORA


 

Última obra completa de Jane Austen, Persuasão é um romance sobre a força silenciosa do amor. Anne Elliot, sensível e discreta, foi convencida na juventude a renunciar ao homem que amava, o então modesto Frederick Wentworth. Oito anos depois, eles reencontram-se.

Apesar dos silêncios e mal-entendidos que os mantêm à distância, uma carta inesperada abre caminho para uma segunda oportunidade.

Persuasão é uma reflexão luminosa sobre maturidade, coragem e a capacidade de desafiar convenções sociais, um dos retratos mais comoventes da literatura de Austen.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

PERGUNTA PELA ANDREA, de NOELLE W. IHLI | CULTURA


Pergunta pela Andrea, de Noelle W. Ihli, é um thriller psicológico com elementos sobrenaturais, publicado em Portugal pela chancela Cultura. A edição portuguesa, traduzida por Alexandra Cardoso, chegou às livrarias em maio de 2025 sendo que a obra foioriginalmente publicada em inglês, com o título Ask for Andrea, pela Dynamite Books, em 2022.

Há géneros literários particularmente vulneráveis à repetição de fórmulas narrativas. O thriller é, sem dúvida, um deles: assassinos metódicos, vítimas perseguidas, investigadores determinados e reviravoltas sucessivas fazem parte de um repertório que o leitor conhece demasiado bem. Todavia, Noelle W. Ihli encontra uma forma engenhosa de inverter uma dessas premissas mais cliché. Aqui, sabemos relativamente cedo quem é o assassino. A verdadeira incógnita não está na identidade do criminoso, mas naquilo que as suas vítimas, depois da morte, poderão fazer para o deter e para revelar a sua identidade.

Meghan, Brecia e Skye foram assassinadas pelo mesmo homem, que usa a internet para se apresentar como o solteiro perfeito e transformar encontros amorosos em armadilhas mortais. O ponto de partida é particularmente perturbador porquanto explora um perigo contemporâneo e reconhecível: a construção deliberada de uma identidade sedutora como instrumento de manipulação e violência. Mas é depois da morte que a narrativa encontra a sua verdadeira originalidade. As três mulheres não desaparecem da história; pelo contrário, passam a constituir uma espécie de força colectiva determinada a impedir que o assassino faça novas vítimas.

É neste movimento que Pergunta pela Andrea se afasta do thriller convencional. Em vez de acompanhar exclusivamente a perseguição ao criminoso, o leitor é colocado próximo das próprias vítimas, conhecendo as suas histórias, os seus medos, os vínculos que deixaram para trás e, sobretudo, as razões que as impedem de simplesmente partir. Uma quer que o seu corpo seja encontrado; outra deseja que a família conheça finalmente a verdade; outra está determinada a evitar que outras mulheres tenham o mesmo destino. A morte, assim, não encerra as personagens: transforma-se no ponto de partida de uma segunda luta.

A dimensão sobrenatural poderia facilmente conduzir a narrativa para os lugares comuns do terror. Ihli, porém, opta por uma utilização mais contida dos fantasmas. Seria interessante, talvez, encontrar espíritos mais activos e uma presença sobrenatural mais intensa no processo de assombração. Mas essa relativa contenção acaba por funcionar a favor do livro: as aparições não substituem as personagens nem transformam a história num simples exercício de horror. Os fantasmas continuam a ser, antes de tudo, mulheres com personalidade, memórias, relações e assuntos por resolver. É precisamente na construção das personagens femininas que o romance encontra uma das suas maiores forças. Meghan, Brecia e Skye possuem densidade psicológica e não são reduzidas à condição de vítimas de um serial killer. O leitor é conduzido para uma empatia pouco habitual: acompanha mulheres que já morreram, mas cuja individualidade permanece viva na narrativa. A estratégia permite também criar uma relação particularmente inquietante com as pessoas próximas do assassino, obrigando o leitor a olhar para a violência não apenas através das vítimas, mas também através daqueles que permanecem vivos e que, muitas vezes, desconhecem quem realmente têm diante de si.

O resultado é um thriller de ritmo acelerado, de leitura fluida e com uma premissa suficientemente original para escapar aos clichés do género. A autora consegue equilibrar suspense, dimensão psicológica e sobrenatural sem deixar que nenhum destes elementos anule os restantes. Mais do que descobrir quem matou — porque essa resposta é deliberadamente oferecida ao leitor —, interessa perceber se as vítimas conseguirão finalmente encontrar uma forma de justiça.

Pergunta pela Andrea é, por isso, uma inversão inteligente do thriller de perseguição: desta vez, não são apenas os vivos que caçam o assassino. São as próprias vítimas que regressam para o perseguir. E é nessa inversão, simultaneamente perturbadora e emotiva, que Noelle W.Ihli encontra a identidade própria do romance.


Texto: Isabel de Almeida | Jornalista | Crítica Literária

terça-feira, 18 de agosto de 2026

CRÍTICA | CÊNTIMOS, de PEPPER WINTERS | ALMA DOS LIVROS


 Cêntimos, de Pepper Winters, é um dark romance elevado ao máximo expoente deste género literário, publicado em Portugal com chancela Alma dos Livros. A obra acompanha Pim, uma jovem estudante de Psicologia raptada e mantida durante dois anos num duro cativeiro onde é exposta a violência extrema e isolamento social, até ao momento em que no seu estranho mundo chega um misterioso desconhecido de seu nome Elder Prest. 

Há livros que utilizam a violência como elemento narrativo , ao passo que outros forçam o leitor a presenciar a violência como elemento chave da existência, digamos que Cêntimos pertence indubitavelmente à segunda categoria. Pepper Winters escreve dentro dos códigos do dark romance, mas fá-lo sem procurar suavizar a brutalidade do universo em que coloca a protagonista. O resultado é uma leitura viciante e profundamente desconfortável, que exige do leitor disponibilidade para enfrentar violência física e psicológica, trauma, isolamento e relações marcadas por uma enorme assimetria de poder.

Pim é uma personagem particularmente inolvidável. Raptada e transformada em prisioneira de um mundo que lhe roubou a liberdade, a voz e a própria perceção de identidade, aprende a sobreviver através de mecanismos de defesa que lhe permitem preservar aquilo que ainda pode considerar seu. A sua resistência não é apresentada como uma força ostensiva ou heroica no sentido convencional. Estamos perante uma resistência silenciosa, construída através da capacidade de suportar, observar, esconder e conservar dentro de si um espaço que o agressor não consegue dominar completamente.

Sob o ponto de vista do perfil psicológico da protagonista feminina, destaca-se a sua invulgar resiliência e o recurso à dissociação como mecanismo de defesa protetor em relação à extrema violência a que se vê sujeita. Pim deixa a sua mente vagar para um plano mental alternativo, afastando-se internamente da experiência imediata quando a realidade se torna insuportável. É esta dissociação que, efetivamente, a ajuda a suportar a dor que lhe é infligida. A mente transforma-se, paradoxalmente, no último reduto de liberdade de uma personagem a quem praticamente todas as formas externas de autonomia foram extirpadas.

Esta dimensão psicológica é uma das mais interessantes do romance, porque permite compreender a sobrevivência de Pim não apenas como uma sucessão de atos de resistência física, mas como um processo interno de preservação do self. A personagem não deixa de sentir a violência; encontra, antes, uma forma de se distanciar dela para conseguir continuar a existir. A dissociação assume, destarte, uma função narrativa que ultrapassa o mero recurso estilístico: torna visível a fragmentação psicológica provocada pelo trauma e a extraordinária capacidade adaptativa de uma mente colocada perante circunstâncias extremas.

É também através deste mecanismo que o romance proporciona ao leitor uma experiência particularmente claustrofóbica. O leitor sabe que Pim está presa, mas percebe progressivamente que a sua prisão não é apenas física. O espaço exterior é controlado por outros; o espaço interior é aquele que ela tenta desesperadamente preservar a todo o custo. A pergunta fundamental deixa então de ser apenas «como conseguirá fugir?» para passar a ser «quanto de si conseguirá preservar?».

O mundo criado por Pepper Winters é hostil, isolado e intencionalmente perturbador. A violência, gráfica ou apenas sugerida, constitui uma presença permanente e não é adequada a todos os leitores. O livro deve, por isso, ser lido tendo em devida conta as advertências de conteúdo e a sensibilidade individual perante temas relacionados com abuso, violência e trauma.

Quando neste contexto isolado surge Elder Prest, esta personagem, o nosso anti-herói confere uma nova e inesperada dinâmica na narrativa. Misterioso, frio e moralmente ambíguo, Elder não corresponde à figura convencional do herói romântico, assumidamente um anti-herói cuja presença acrescenta uma nova aura de mistério e de incerteza à história. Prest assume uma posição ambígua e transporta as suas próprias sombras, denotando-se que terá experienciado também situações extremas, e irá firmar com Pim uma relação que apresenta alguma ambivalência, deixando o leitor curioso perante os futuros desenvolvimentos que esta relação venha a assumir. 

A ligação entre ambos é deveras complexa. Não se trata de um romance convencional entre duas pessoas livres para escolher. A relação nasce dentro de um contexto de violência, vulnerabilidade e desequilíbrio de poder, o que obriga o leitor a questionar continuamente a natureza dos sentimentos que se desenvolvem entre as personagens. É precisamente essa ambiguidade que impede Elder de se tornar uma figura romântica previsível.

A autora constrói-o como uma personagem densa, misteriosa e fascinante, e a sua ligação inesperada com Pim constitui um dos elementos que mais alimentam a curiosidade narrativa. Há nele qualquer coisa de deliberadamente indecifrável, suficientemente forte para sustentar a expectativa relativamente aos títulos seguintes da série.

Se há uma fragilidade estrutural em Cêntimos, ela encontra-se no ritmo. O desenvolvimento inicial é algo desigual e existem momentos em que determinadas pontas da ação e aspetos do percurso de Pim parecem receber menos atenção do que seria desejável. Em contrapartida, o último terço ganha uma intensidade muito superior: a narrativa acelera, as perguntas acumulam-se e a curiosidade do leitor torna-se progressivamente mais difícil de controlar.

Essa opção acaba por produzir um efeito paradoxal. Alguns elementos permanecem deliberadamente sem resposta, mas o vazio não é forçosamente um defeito. A ausência de explicações sobre a família de Pim, os amigos e os esforços eventualmente realizados para a encontrar é, em si mesma, perturbadora. O leitor é levado a perguntar repetidamente: onde está a família? Onde estão os amigos? O que fizeram para a localizar? A inexistência imediata de respostas reforça a sensação de abandono e isolamento da protagonista.

E é precisamente nesse vazio que o romance encontra uma das suas maiores forças. Pim não está apenas fisicamente afastada do mundo: parece ter sido apagada dele. A sua sobrevivência torna-se, por isso, ainda mais impressionante, porque acontece num contexto em que praticamente nenhuma rede exterior de proteção parece funcionar.

Cêntimos é, em última análise, um livro de violência, mas também um livro sobre sobrevivência. A sua maior força não reside apenas na capacidade de chocar ou perturbar: assenta na construção psicológica de uma protagonista que encontra dentro de si mecanismos para continuar a existir quando tudo à sua volta parece concebido para a destruir.

Não é uma leitura para qualquer leitor, nem pretende sê-lo. É emocionalmente pesada, contém violência física e psicológica e aborda situações potencialmente perturbadoras, pelo que leitores particularmente sensíveis deverão considerar as advertências de conteúdo antes de iniciar a obra.

Mas para quem procura dark romance numa das suas expressões mais intensas, Cêntimos oferece uma experiência narrativa difícil de abandonar. Pepper Winters não apresenta uma história de amor confortável nem personagens facilmente classificáveis entre bons e maus. A obra arrasta o leitor para um território assumidamente desconfortável em termos morais e humanos. 

Pim é, claramente, a personagem que permanece. Não porque seja invulnerável, mas precisamente pelo contrário: porque a sua extraordinária resiliência resulta da vulnerabilidade e da capacidade de encontrar, mesmo no seio da violência extrema, um lugar mental onde ainda consegue ser ela própria.

Elder Prest deixa muitas perguntas sem resposta. Pim deixa uma certeza: uma pessoa pode ser privada de quase tudo e, ainda assim, encontrar dentro da própria mente o último espaço que ninguém conseguiu conquistar, a preservação da sua identidade, da sua essência frágil mas, ainda assim, humana.


Texto: Isabel de Almeida | Crítica Literária | Jornalista

Foto: Nova Gazeta - D.R.


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

ORGULHO E PRECONCEITO, de JANE AUSTEN | PORTO EDITORA

Brilhante e atemporal, Orgulho e Preconceito acompanha Elizabeth Bennet, uma jovem inteligente e sagaz, e o reservado senhor Darcy que, apesar da frieza inicial, esconde sentimentos bem mais profundos.

Desencontros e diálogos afiados aproximam ambos enquanto ela questiona os seus julgamentos e ele luta contra o orgulho que o afasta do amor. A certa altura, a honra da família Bennet é posta em causa, mas um gesto silencioso de Darcy transforma tudo, incluindo os sentimentos de Elizabeth.

Em Orgulho e Preconceito, Jane Austen usa a sua mestria incomparável para construir um enredo envolvente que alia crítica social, romance e ironia. Esta obra é uma celebração de escolhas feitas com o coração e uma defesa subtil da importância de se ver além das primeiras impressões.