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domingo, 1 de abril de 2018

CRÓNICA | Celebrar a vida | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO



Aproximando-me de mais um aniversário, dei por mim a recordar as muitas coisas que já fiz, vi, conquistei, perdi e as boas, e as menos boas, sensações que experimentei em tantas situações – será que é a isto que chamam o balanço de vida?, bolas, devo estar mesmo a ficar velha. Pensei mesmo que, caramba, já vivi muito, afinal, meio século é realmente muito tempo, apesar de nos parecer sempre pouco. Tendemos a pensar que o tempo não nos chega e que é injusto envelhecermos e morrermos. Na realidade tudo tem um ciclo, um tempo próprio de duração; basta olhar em volta com atenção para constatar que assim é; porque haveria de ser diferente connosco?

Sempre acreditei que a vida - a par da saúde e do amor -, é o que de mais precioso temos e, por isso mesmo, deve ser celebrada, pelo que nunca percebi muito bem as pessoas que dizem detestar comemorar os aniversários. Não será motivo de comemoração o facto de estarmos vivos?! Assinalar um aniversário significa que vivemos mais um ano e que estamos prontos para abraçar outro. Será que a pele que se vai engelhando, as rugas que vão aparecendo, são mais importantes do que tudo o que a vida tem para nos oferecer? O facto de existirem demonstra, precisamente, o muito que já fizemos, sentimos e aprendemos e isso deve ser motivo de orgulho. Só se vive realmente através das sensações, do número de vezes em que os pêlos se nos eriçam de prazer, de expectativa, de receio, de amor… não através das aparências, pois são ocas, fugazes, desprovidas de autenticidade e o tempo… é imparável, não o podemos controlar, por muito que queiramos; façamos dele um aliado e não um inimigo; desfrutemos dele ao invés de andar a combater moinhos de vento.

Admiro as pessoas que apesar das contrariedades tentam sempre viver com gosto. Aplaudo de pé os que não se dão por vencidos e que fazem dos obstáculos ensinamentos e desafios a ultrapassar. São tantos os que não têm braços, pernas, visão e tantas outras coisas que damos como garantidas e que poderiam condicionar a sua vontade de viver com alegria e, no entanto, todos os dias se propõem a superar-se com um sorriso nos lábios e uma vontade férrea. São eles que inspiram outros e que fazem a diferença na vida de milhares.

Percebo a ideia que alguns têm de que quanto mais tempo vivemos mais nos aproximamos do inevitável fim - se bem que ninguém possa dizer quando partirá, se será mais cedo ou mais tarde -, mas, por outro lado, não consigo perceber quem vive a pensar na morte. Essa será, sem dúvida, uma vivência muito triste, desapegada de tudo o que nos impulsiona a ir mais longe, daquilo que nos faz arriscar e vibrar, do prazer puro de existir. Esses são aqueles que não percebem que começamos a morrer no exacto momento em que somos concebidos; são os que, por muito tempo que vivam, não percebem que a vida é apenas uma fracção de tempo para ser apreciada o melhor possível; são os que tentam enganar a inevitabilidade e se lamentam por não serem imortais, sem compreenderem que somos imortais através do que realizamos; são os que já estão mortos e não o sabem.

“Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”
Antoine-Laurent de Lavoisier

segunda-feira, 26 de março de 2018

CRÓNICA | A Fonte dos Livros | VANESSA LOURENÇO

Deixou-se cair na cadeira com o entusiasmo de quem ouve o tiro de partida e arranca, munido do desejo de deixar cair limites e rótulos alheios. Respirou fundo, fitou o monitor com os olhos brilhantes e acariciou com ternura o teclado com as pontas dos dedos. No silêncio, demorou-se ainda a vaguear pelo potencial infinito do mundo que estava prestes a criar, o que sentiria quando tivesse nas mãos a obra nascida do seu trabalho? O que sentiria quando a visse finalmente nascer? Estaria o mundo lá fora, disposto a aceitá-la?

Sorriu, talvez sem sequer se aperceber. Franziu as sobrancelhas, respirou fundo e acendeu um cigarro. Fechou os olhos e disse, de si para si mesmo:

- Mostra-me.

Durante um bom par de minutos, nada aconteceu. O cigarro apagou, a folha de word em branco teimava em fitá-lo com desdém, e começou a sentir-se frustrado. Levantou-se da cadeira, esticou pernas e costas e foi beber um copo de água. Voltou. Sentou-se. Acariciou de novo o monitor com as pontas dos dedos:

- Mostra-me.

Silêncio.
Mexeu-se desconfortavelmente na cadeira, fitou as mãos sem realmente as ver e pousou-as de novo no teclado. Quando se preparava para se levantar de novo em busca de coisa nenhuma, ouviu a Fonte dizer:

- O que queres de mim? Porque me chamaste?

Não ficou surpreendido, nem sequer estremeceu. Conhecia bem a Fonte de outras aventuras, e sabia como podia ser caprichosa:

- Tu sabes o que eu quero. Tão bem como sabes, que não vou suplicar.

A Fonte vangloriou-se:

- Foste um bom aluno.

Esfregou demoradamente a cara com as mãos, fazendo os óculos saltar. Suspirou:

- Ajuda-me a deixá-los entrar. Posso mostrar-lhes o caminho, mas precisam da tua luz. Não te estou a dar novidade nenhuma.

A Fonte riu com prazer, e as suas gargalhadas ecoaram pela divisão fechada. Ele encolheu os ombros e suspirou, impotente. Porque tinha ela que ser sempre assim, arrogante? Finalmente, ela parou de rir:

- Onde está o teu sentido de humor? Sempre tão cheio de recursos, porque não usas uma vela? O que tem a minha luz de especial?

Semicerrou os olhos e murmurou, entredentes:

- Tu sabes perfeitamente porquê, foste tu que me desvendaste esse segredo. As velas podem iluminar o caminho neste mundo, mas só a tua luz ilumina aqueles que, de outros mundos, precisam de luz para cá chegar.

A Fonte ficou em silêncio durante alguns instantes. Tê-la-ia convencido?
Não tardou a descobrir. Uns momentos mais tarde, a Fonte replicou:

- Tu sabes como funciona: uma vez iluminado o caminho, eles vão chegar. E não poderás voltar atrás.

Ele sorriu melancolicamente:

- Sabes tão bem como eu, que a missão deles é inspirar o mundo. E só podem fazê-lo através de nós.

A Fonte suspirou longamente. Finalmente, disse:

- Nem todos estão preparados para os compreender.

Ele respondeu:

- Mas aqueles que estiverem, verão as suas vidas mudadas para sempre. Não foste tu que me ensinaste que eles não querem mudar o mundo, mas apenas abrir a porta a quem quiser entrar?

A Fonte assentiu, ele era sem dúvida um dos seus melhores alunos.
No momento seguinte, ele pousou de novo os dedos no teclado. Respirou fundo, e esperou pacientemente. Ao mesmo tempo, numa dimensão situada algures entre a nossa realidade e o nosso maior potencial, a Fonte Criativa tornou-se luz. E através dela caminharam heróis e vilões, anjos e mestres, obstáculos e verdades capazes de mudar o mundo. Misturadas com dragões e cavalos brancos, castelos distantes e grutas escuras e misteriosas. Um por um, rodearam o escritor. Alguns sentaram-se em redor da secretária, outros pousaram gentilmente as mãos etéreas nos seus ombros. E ele sorriu. Pousou os dedos no teclado, e começou a escrever.




domingo, 25 de março de 2018

CRÓNICA | Trocas e baldrocas horárias | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO



Hoje é dia, mais uma vez, de mudança da hora. Adianta-se uma hora aos relógios para entrarmos no chamado horário de Verão.

Esta ideia foi posta em prática em 1784 por Benjamin Franklin. O objectivo era a poupança de velas. Com a I Guerra Mundial, em 1916, voltou a verificar-se a necessidade de poupança, desta vez de carvão, e novamente se impôs uma alteração horária.

A Alemanha foi o primeiro país a adaptar o seu horário, logo seguida pela Grã-Bretanha, enquanto outros os iam seguindo mais ou menos espaçadamente. A uniformização só teve lugar na década de 70, mais precisamente em 1974, quando os Estados Unidos e vários países europeus foram confrontados com um embargo no petróleo.

Desde essa altura que andamos para a frente e para trás consoante a época do ano. Dois séculos depois da ideia, justificadamente, ter visto a luz do sol pela primeira vez, manipulamos o tempo com base numa solução que em nada se adequa aos dias que vivemos.

Actualmente, as “cabeças pensantes” alegam que mudamos a hora para as crianças não irem para a escola de noite, por exemplo. Que me desculpem, as excelentíssimas sumidades pensadoras, mas qualquer contemplação simples do céu, sem necessidade de estudos complicados ou maquinaria de qualquer espécie, revela que no Inverno o sol nasce entre as 7.30 e as 8 horas, dependendo da zona, no território nacional e põe-se por volta das 17 horas. 
Ora, se os miúdos entram às 8 horas e só vão para casa às 17, 18 ou 19 horas – dependendo da altura em que os pais os vão buscar -, significa que, efectivamente, saem de casa de noite e voltam da mesma forma. Assim como os seus pais, relativamente aos seus empregos, que, normalmente, fechados em cubículos o dia inteiro, a fazer por ganhar aquilo com que se compra as necessidades básicas e os sonhos, vêem alguns raios de sol por quinze ou vinte minutos diários, se tiverem a sorte de sair para almoçar fora do local de trabalho. Se adoptássemos o horário de Verão definitivamente isto já não aconteceria desta forma.

O sol, esse astro essencial a toda a nossa vivência, que tantos benefícios nos dá ao nível da saúde física e mental, está a ser completamente desaproveitado e num país como o nosso, que tem uma taxa de luz solar superior a muitos países, é uma perfeita parvoíce não o aproveitar e continuar a reboque das ideias mais que ultrapassadas de outros.

São já muitos os estudos sobre as vantagens da adopção definitiva do horário de Verão. Ao que parece, está comprovado que os níveis de stress, os acidentes rodoviários, as depressões e os suicídios decrescem. A boa disposição, a produtividade e a imunidade a determinadas doenças aumentam, assim como o tempo de qualidade passado com a família e os amigos. As pessoas têm a sensação de ter mais tempo para as suas tarefas e tudo é feito com mais tranquilidade.

Já vivemos demasiado enclausurados pelas convencionais obrigações diárias. Há coisas que podem e devem ser ajustadas à realidade dos nossos dias. Há coisas que podem e devem ser mudadas. Não tenho dúvida nenhuma que esta é uma delas.  


quinta-feira, 22 de março de 2018

CRÓNICA | VAMOS FALAR das Pequenas/GRANDES Livrarias! | PATRÍCIA REBELO



Quantas e quantas pequenas livrarias, daquelas que nos aconchegam a alma, que nos aquecem com as suas estantes cheias de sonhos, de autores consagrados e de jovens autores que procuram um lugar, estão a fechar?

Quantas já fecharam...?

Quantas ainda vão fechar?

Porque deixamos que isso aconteça?

Porque preferimos livrarias online, grandes grupos livreiros e centros comerciais?

Porque têm mais descontos Patrícia... Porque é mais fácil... porquê é mais cómodo.

Ok...

Sim... tudo isso é verdade.

Mas todos perdemos tanto...

O descobrir as pequenas livrarias...

O fascínio pelas estantes...

Pelos autores consagrados ...

Pelos novos autores que aí conseguem uma oportunidade real...

Pelos livros mais antigos...

Pelos livros raros que não se conseguem encontrar em lado nenhum...

Pelo atendimento personalizado.

Invistam.

Tentem...

Vamos impedir que mais livrarias pequenas fechem.

Frequentem!

Comprem!

Procurem!

Invistam realmente nas pequenas livrarias.

Quando fecham perdemos todos...

Quando fecham... a culpa é de TODOS nós!

Hoje é o dia em que eu, na minha pequenez, enquanto autora, bati o pé e disse basta a esta enorme rede comercial.

Em que quis ter uma palavra a dizer.

Em que me revoltei porque o mundo editorial está mau...

Em que me revoltei porque, cada vez mais, se fecham portas a novos autores, por muitos acharem que como são novos nada valem.

Hoje acreditei desde do primeiro momento que as minhas palavras de revolta poderiam ser de todos nós.

Nós: leitores, autores, escritores, criadores, distribuidores, vendedores, livreiros, editores, entre tantos outros que o mundo literário não fala....

Acreditei e continuo a acreditar...

Podemos sim fazer a diferença e lutar por esta causa, acreditando em cada um dos meus leitores, nas suas partilhas, no seu empenho, na sua atenção e divulgação, sem recorrer a serviços de pagamento de divulgação.

Acredito que quando sentimos que fazemos o bem, esse bem é recompensado.
Para mim chegava se me dissessem:

" Patrícia partilhei... e mais não sei quantas pessoas que conheço também partilharam..."
"Patrícia, hoje comecei a olhar com mais atenção para as pequenas livrarias."
"Patrícia, hoje entrei numa pequena livraria e tenciono frequentar"

Fiz este desabafo, porque o mundo literário merece, na minha opinião, um murro na mesa.

Fiz este desabafo, não por mim nem pelo meu trabalho..., mas por nós.

Por todos nós que sofremos, cada vez que perdemos mais uma casa que nos permite adquirir vários tipos de conhecimentos.

Por todos nós... e pelas pequenas livrarias.

Posso pedir-vos para PARTILHAREM?

Podem ajudar a ganhar força esta mensagem?

Posso pedir-vos para divulgarem?

Não por mim.

Não pelo meu trabalho.

Mas por todos.

Autores, livreiros, leitores, distribuidores, editores...

Por um mundo editorial e livreiro mais competitivo, mais justo e mais próximo do leitor.

#pelaspequenaslivrarias
#pelaslivrariaspequenas
#porummundoeditorialmaisjusto


quarta-feira, 21 de março de 2018

CRÓNICA GASTRONÓMICA | Porque a boca também come: Feijoada tropical | HÉLDER MENOR


A feijoada tropical é sempre um acontecimento. À volta dos pratos, juntam-se a família e os amigos. Convida a recordar histórias antigas, saudosos ausentes e casos de outras épocas e latitudes.

Se formos uns doze entre adultos e crianças, precisamos de uns três quilos de feijão (dois de feijão preto e um de feijão vermelho) um pé de porco, uma orelha, três chouriços vermelhos, dois bocados do tamanho de um punho fechado de toucinho, umas doze costeletas do fundo, uma tira de entrecosto, meio quilo de carne de vaca para guisar (vazia ou aba), azeite, alhos, malagueta, orégãos, dois quilos de tomates e quatro laranjas, coentros, um saco de farinha de mandioca, coentros, limões, gengibre e duas cebolas roxas.

Dois dias antes deita-se o feijão para dentro de água. Pretos e vermelhos juntos, porque a sua natureza é próxima. A água a cobrir, e aviso já que vão ensopar e que vai ser preciso ir acrescentando mais água.

As carnes do porco salgam-se no dia anterior, orelha, pé e pernil (ou lação), mais as costeletas do fundo e a tira de entrecosto inteira.

No próprio dia, de manhã cedo, começa o ritual. Na panela de pressão pomos ao lume o feijão mais a orelha, o pé e o pernil, com algum sal, pouco. Deixar cozer bem. Umas duas horas. Se for preciso abrir e acrescentar água, que seja feito.

Pode ouvir-se música animada e há quem acompanhe a tarefa enquanto dança com uma primeira cerveja.

Façamos o refogado que vai ser a cama da nossa feijoada: No fundo da panela deita-se o azeite a tapar o metal e corta-se um dos cubos do toucinho em tiras! Acende-se o lume baixinho e junta-se o toucinho. Quando o toucinho começa a ficar transparente, entram meia dúzia de dentes de alho picados e as malaguetas. Aqui fica ao vosso critério… eu costumo pôr uma malagueta por pessoa e não mais… porque há sempre alguém que se vai queixar do picante… Os alhos e as malaguetas vão começar a fritar e a chamarem pela cebola. Quando os alhos gritarem “quero a cebola”, e isso vai acontecer quando já começa a ficar castanho, faz-se-lhes a vontade e avançam as duas cebolas cortadas às tiras fininhas. Sobe-se o lume e dá-se a primeira volta com a colher de pau.

Chegam agora os chouriços cortados em rodelas fininhas. Dão duas ou três voltas com a cebola para começarem a fritar. Vem o resto do porco: as costeletas do fundo cortadas em três, mais a tira do entrecosto fatiada mantendo os ossos inteiros.  Duas voltas com a colher de pau e baixa-se o lume.

Entretanto prepara-se a farofa:  numa frigideira larga, corta-se o toucinho que sobrou em tiras fininhas, junta-se mais uns três dentes de alho e meia dúzia de malaguetas, o lume acende-se  baixinho e quando o toucinho estiver bem tostado, sobe-se para o máximo. Acrescenta-se a farinha que absorve toda a gordura e se envolve com o toucinho, os alhos e as malaguetas enquanto torra durante uns três minutos. A colher de pau sempre a mexer. Está pronta. Reserva-se e vai para uma taça grande para ir à mesa.

Voltemos à feijoada… as carnes já estão a  ficar bem cozinhadas… entra o feijão que ainda está quente. A concha, ou uma cafeteira, serve para tirar o feijão e a água de cozer onde as carnes deixaram o sabor fará o molho da feijoada.

Corta-se a orelha e desossa-se e corta-se o pé mais o pernil. Junta-se  tudo na panela, que vai levantando fervura. Agora corta-se a carne de vaca, bem fininha, salga-se, tempera-se com um bocadinho de vinagre e entra também na panela da feijoada. Aumenta-se o lume, envolve-se e assim que ferver em cachão, apaga-se!

Numa travessa funda, corta-se os tomates em cubos pequeninos, mais o gengibre, mais umas doze malaguetas, mais a cebola roxa. Junta-se tudo e envolve-se e tempera-se com sal, coentros e orégãos. As laranjas é só lavar e cortar às rodelas e pôr em pratos também na mesa.

Que se apague o lume e se deixe descansar a feijoada. Dentro de dez minutos estará pronta a ser servida. Sugiro que o façam num prato fundo: duas conchas de feijoada duas colheres de sopa de farofa, uma concha do tomate. Cerveja, vinho, limonada ou mesmo água podem acompanhar. Deve comer-se devagar e pausadamente temperada com gargalhadas, muito afeto e se possível algumas lágrimas de alegria. 

segunda-feira, 19 de março de 2018

CRÓNICA | Gatos e Selfies | VANESSA LOURENÇO


Pegou bruscamente no gato amarelo sem olhar para ele a direito sequer, com uma mão apenas. Na outra, brilhava o ecrã vidrado do telemóvel. Atirou-se para cima da cama, com o gato ainda encaixado no braço, e com as costas da mão que segurava o telemóvel posicionou desajeitadamente as almofadas e alisou a colcha da cama. O gato, incomodado, tentou libertar-se do braço que o prendia, mas ela não permitiu que fugisse. Colocou a câmara do telemóvel em modo selfie, e enquadrou-se a sí e ao animal na imagem reflectida no pequeno ecrã. Sorriu e fez olhinhos de mel, mas depressa franziu o sobrolho, uma das almofadas estava desenquadrada. “Não pode ser”, pensou, “a foto tem que ficar perfeita”. Ajeitou a almofada, mas quando olhou de novo para o pequeno ecrã percebeu que quando se tinha esticado para ajeitar a almofada, tinha enrolado a colcha debaixo de si mesma. Levantou-se com enfado da cama, a bufar e de gato nos braços. Esticou a colcha e deitou-se de novo. Desta feita, o gato já não estava preocupado em mostrar-lhe com gentileza que estava farto de ser tratado como um peluche, e começou a debater-se vigorosamente. Na tentativa de não o deixar fugir, ela deixou cair o telemóvel, que bateu no chão com estrondo. Deu um grito e levou as mãos à cabeça, o que deu ao gato a oportunidade perfeita para desaparecer pela porta do quarto. Saltou da cama num segundo e apanhou o telemóvel do chão, com o coração nas mãos e a respiração acelerada. Se estivesse partido tão cedo não teria direito a outro, e ficaria isolada do mundo. Se não estivesse presente nas redes sociais, o que pensariam os seus amigos? O mundo esquecer-se-ia dela!

Apanhou o aparelho do chão, e confirmou que não estava partido. Suspirou profundamente e apertou-o contra o peito, os olhos fechados de quem não tinha ganho para o susto. Aliviada, depressa se recompôs: caminhou na direcção da cama, ajeitou de novo a colcha e as almofadas, e olhou em volta à procura do gato. Afinal de contas as pessoas adoram gatos, e todas as fotos tiradas com eles tinham muito mais interesse e geravam muito mais interacção na rede do que fotos simples da cara. E com ele podia mais facilmente justificar a vontade de publicar fotos de si própria, sem necessidade de perder a modéstia.

Saiu do quarto à procura dele, mas por muitas voltas que desse não o encontrou: chamou, procurou nos locais mais improváveis e até abriu uma lata de atum, coisa que o fazia sempre aparecer se estivesse por perto. Nada. Só havia uma coisa a fazer:

- MÃE! Viste o gato?

A mãe estava a trabalhar no próximo artigo para o jornal, sentada em frente ao computador. Ergueu ligeiramente os olhos para ela, ajeitando os óculos na ponta do nariz, e respondeu antes de voltar a fitar o monitor:

- Parece-me que saiu para o jardim.

Ela encolheu os ombros, exasperada, e rolou os olhos. Como não tinha pensado nisso? Aquela peste peluda adorava esgueirar-se para fora de casa sempre que lhe era possivel. Dirigiu-se para a porta, pegou nos óculos escuros e saiu, de telemóvel ainda na mão.

Lá fora, mesmo de óculos escuros, não pôde evitar sentir os olhos feridos pela luz do sol durante uns segundos, e só depois reparou no esguio gato amarelo sentado na relva no centro do jardim, a olhar para ela. Esfregou os olhos debaixo dos óculos de sol, e avançou para ele:

- Espero que tenhas perdido a vontade de fugir, isto é importante!

O gato pareceu sorrir, e fechou os olhos enquanto lambia a pata, para depois começar a esfregá-la no focinho vigorosamente. Aproximou-se com ligeireza do pequeno animal e sentou-se ao lado dele, procurando enquadrar no pequeno ecrã do telemóvel a si própria e ao gato ainda sentado ao seu lado. Depois de várias tentativas frustradas, porém, resmungou:

- Bolas! Não consigo tirar uma fotografia de jeito com este sol!

Frustrada, começou desajeitadamente a tentar levantar-se com o telemóvel na mão, e quando percebeu que sentada não conseguia girou o corpo para ficar de joelhos. E nesse momento reparou novamente no gato: já não estava sentado, quieto. Estava a brincar com um pequeno ramo que possuia ainda algumas folhas que se agitavam no ar. Sem pensar, sentou-se de pernas cruzadas e pegou no ramo. Pousou o telemóvel na relva ao seu lado e começou a brincar com ele. Uns segundos depois, rebolavam ambos pela relva e ela ria como nunca, já sem óculos de sol. Longe de o pensar, sentiu que há muito que não se divertia tanto. E se tivesse pensado mais um pouco, teria percebido que não estava ninguém a ver. Ninguém a filmar. Ninguém a fotografar. Ninguém a deixar “gostos” ou “adoros” no que estava a fazer. Ninguém saberia. E, contudo, estava feliz. Era feliz. E podia ser feliz, sem que o mundo precisasse de o saber. Ou de o validar.

domingo, 18 de março de 2018

CRÓNICA | O ser e o parecer | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO


Nos últimos tempos tenho andado mais atenta que o habitual às reacções contraditórias das pessoas e à crescente necessidade de tudo destacar. Talvez por estar a ficar saturada de tanta incongruência e picuinhice, ou, se calhar, sou eu que estou a ficar “avariada” – já tenho dado por mim a pensar, face às inconsistências verificadas.

Há um bocadinho de tudo. Para todos os gostos, como se costuma dizer.

Já repararam que todos os dias se comemora alguma coisa? Mas que raio de necessidade é esta de assinalar “tudo e um par de botas” só porque… sim?! Ele é o dia dos bonitos, dos feios, do pastor, dos tios, dos sobrinhos… blá, blá, blá… do céu nublado, do periquito. Até há – pasmem-se -, o dia da falsidade. Da falsidade! Que coisa bonita e importante, certo? Não! E não! Lembro-me de experimentar uma sensação de tristeza ao saber da existência deste dia - queixamo-nos que andamos tão ocupados e depois temos tempo para estas… -, parecemos autênticas criancinhas invejosas e birrentas - porque aquele tem eu também quero – e disputamos nas redes sociais as criações mais absurdas.

Na mesma arena há quem defenda acerrimamente a obrigatoriedade da limpeza dos terrenos por parte dos proprietários – “têm que limpar, pois claro, quem haveria de ser?, não podemos ter mais incêndios como os do ano passado!” -, para depois vir contestar, com a mesma veemência, a estipulação de prazos para o fazer e a aplicação de multas, caso o prazo não seja cumprido. Mas como raio querem obrigar um país a cumprir os seus deveres?! Onde é que está a razoabilidade de ser defender posições opostas para um mesmo assunto? Ainda se fosse o facto de os prazos serem curtos, seria compreensível.

Há quem diga adorar o tempo de Inverno e ande a rezar a todos os santinhos por umas valentes chuvadas, nestes tempos conturbados de seca extrema, para depois vir bufar para todos os cantos que já não suporta a chuva, o vento e o frio. Esquecem-se rapidamente das necessidades globais. Estes também são aqueles que, habitualmente, ainda o Verão não começou e já andam a suspirar pelo tempo invernoso. Afinal em que é que ficamos?

Constato que hoje vale mais aparecer virtualmente, e a qualquer pretexto, do que ser íntegro e consistente ao defender com paixão aquilo em que verdadeiramente se acredita. Já não se valoriza as conversas puras, olhos nos olhos, em que a linguagem corporal é o espelho das nossas crenças e emoções e desvenda a verdade sem barreiras; onde o toque, o cheiro, todos os sentidos, são fundamentais para saudáveis interacções e vivências. Escondemo-nos cobardemente atrás de um telefone, de um ecrã de computador e fingimos ser aquilo que não somos, consoante ditar a maioria, pois o importante é estar na crista da onda. Privilegiamos o parecer em detrimento do ser e amachucamos o livre-arbítrio, a liberdade individual de existir, para os descartarmos num qualquer caixote esquecido. Consequentemente, vamos perdendo as qualidades que nos fizeram alcançar o patamar de evolução actual e as futuras gerações, crescendo neste panorama de frivolidade, constroem um mundo onde a autenticidade, algo por que nos batemos durante tanto tempo, deixará praticamente de existir.

Pensemos nisto. Onde é que escolhemos deixarmos de ser? Onde é que escolhemos, simplesmente, deixar de viver?


sexta-feira, 16 de março de 2018

CRÓNICA | Férias | MBARRETO CONDADO

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”

*
As férias do Asno eram sempre passadas no Algarve na casa da irmã, sim porque o pai apesar de “arrotar postas de pescada” de que tinha casas por todo o Portugal, na realidade referia-se mesmo a jazigos senhoriais no cemitério do Alto de São João (com vista para o Tejo, o que aumentava o valor da propriedade) roubados às velhas e decrépitas senhoras que furtara durante os seus altos anos (entenda-se por altos em número de furtos de jazigos e não em estatura porque afinal a criatura tinha pouco mais de metro e meio).

As férias do asno eram, sempre um pouco agridoces ou não tivesse ele que tomar conta dos seus dois sobrinhos.

O mais velho influenciado pelo avô materno (também conhecido na alta roda funerária como “O Senhor dos Jazigos”) adquirira as mesmas manias de grandeza, passava os dias sentado numa velha cadeira de praia, como se de um trono de tratasse, com uma velha manta de cor borgonha, ou como diria o asno uma cape bordeaux, com um toco de um velho varão de casa de banho como ceptro, não necessitava de coroa porque o seu áspero cabelo exercia essa função.

Já o mais novo que herdara a beleza símia e sorriso equino de sua mãe (mesmo com esforço os dentes não lhe cabiam todos dentro da enorme boca), passava os dias a saltar de sofá em sofá enquanto deglutia as bananas que a empregada entretanto contratada para ajudar na árdua tarefa da limpeza do bem estruturado T0, lhe trazia todas as manhãs.

Era nesses parcos momentos que o asno se esgueirava para a praia de Faro para descomprimir da sua imberbe existência. Nunca saia de casa sem desenhar com os dedos molhados (possivelmente de óleo de fritar) um caracol na testa que não se mexia um único milímetro nem mesmo depois de apanhar um enxerto de porradas das ondas e de andar enrolado na rebentação já sem calções e com o carnudo rabo ao léu.

Era, contudo, um prazer observá-lo a chegar à praia de Faro. Tinha sempre o cuidado de escolher a praia de frente para a ponte, a única com nadador salvador.

Aparecia no topo do areal sentindo-se o Tarzan Taborda, a minúscula toalha de bidé que retirara da casa de banho da irmã displicentemente atirada por cima do ombro esquerdo (a mesma que tinha para se limpar quando chegasse a casa e durante todo o Verão que permanecesse em casa da irmã, nas palavras da mesma era no poupar que estava o ganho), ajeitava discretamente a sua masculinidade já por si apertada nos calções que tinham sido da juventude do seu pai e que ainda estavam muito em voga apesar de já se terem passado uns meros setenta e seis anos.

Olhava atentamente em volta não à procura de um local desocupado, mas de um que tivesse lotado de estrangeiras (de preferência mais velhas, como o pai lhe ensinara) afinal aquele corpinho tinha que se alimentar bem durante o dia porque o jantar em casa da mana nunca era garantido.

Se ao menos o sobrinho lhe deixasse uma bananinha…



quinta-feira, 15 de março de 2018

CRÓNICA | Vamos Falar de Assédio | PATRÍCIA REBELO




Se existe algo que me choca nesta sociedade é o assédio despudorado, absurdo e surreal que existe em relação às mulheres.

A forma como as mulheres são “abordadas” de forma indirecta, ou seja, pelos olhares, é vergonhosa.

A forma como alguns homens olham, torna-se nojenta e irresponsável, chegando a ser completamente desrespeitosa pela mulher que ele encara.

Quem lhe deu poder para olhar assim?

Quem lhe deu autorização para tal?

Porque é que se sente tão à vontade e tão confiante para olhar de uma forma tão vergonhosa para uma mulher?

Há vários anos que questiono e debato este assunto, porém noutro dia senti isso, de forma notória.

Muitos podem dizer: “Ah, mas ia com uma mini saia ...”

Não. Não ia. Ia de calças.

“Ah, mas deviam ser calças reveladoras...”

Calças reveladoras? O que é isso? Não... era apenas e só calças simples...

“Ah, então era porque tinha um grande decote...”

Também não.

Levava um top e uma camisola de manga comprida e sem decote por cima...

Ou seja, no meu conjunto nada me parecia existir para tal absurdo.

Ah, para acrescentar ... levava ténis.

É demasiado chocante, o olhar depravado de homens para a zona do peito, do rabo ou das pernas.

É demasiado desrespeitoso como é que alguém se acha no direito supremo de olhar para alguém, desse modo...

Eu senti-me desrespeitada.

Completamente desrespeitada e ofendida.

Considero sim que é assédio, e pior, considero que se fala muito pouco sobre isso.

É assédio e por algum motivo que me é desconhecido, muitas mulheres começam a achar esse comportamento normal.

Sim, eu sou a favor de que cada pessoa se deve vestir como quer e de como se sente bem.

Se pretendem ou não provocar determinados olhares, estão no seu direito.

É lógico.

Se se sentem bem e se lhes dá autoestima, força.

Mas, acredito que nem todas as mulheres que se vestem assim, procuram directamente isso...

Se assim fosse... que podemos dizer das camadas cada vez mais jovens, que vestem cada vez mais saias e calções de tamanhos mais curtos e decotes maiores...?

Não é.

Vestem-se assim, por estilo, moda, o que se queira chamar e porque os pais também acham normal (será pano para mangas numa outra crónica).

Mas pronto, em relação a roupas provocantes, muitas opiniões se escutam...

Agora imaginem, que se vestem de forma totalmente normal, sem qualquer roupa que chame a atenção... e SEM QUALQUER INTENÇÃO de chamar a atenção...

Questiono-me se se for a mulher daquele homem, a filha, a mãe, a sobrinha, a neta... se também aceita que outros a olhem assim...

Acredito bem que não. Aí aparece aquela celebre frase, sabem?

“Não, com filha minha nunca. Com neta minha apanhava logo...”

Pois... então pensem antes de olhares nojentos e depravados... Aquela mulher que olham também é filha, neta, mãe, etc...

Se não gostam se é da família deles, porque sujeitam as outras?

Porque é que são sujeitas a olhares?

Porque é que qualquer mulher tem de ser sujeita a esses olhares?

Considero que a liberdade de cada pessoa termina onde começa a do outro, e considero triste e imoral a forma como se desrespeita, só porque sim, alguém.

É raro falar-se deste tipo de assédio.

Mas existe.

É grave!

Muitos até o consideram normal.

Mas é errado... e isso deve ser dito.



quarta-feira, 14 de março de 2018

CRÓNICA | O lobisomem que ia dormir ao palheiro do meu tio | HÉLDER MENOR

Quem acha que os lobisomens são coisa de filme, desengane-se. Os lobisomens são tão reais como eu que te escrevo e tu me lês. Sei de gente que não só os viu como conviveu com um  deles.

Aqui mesmo no Alto do Seixalinho, nos anos 50 do seculo XX havia um lobisomem que alguns recordam. Há ainda muita gente que se lembra do Manel-Cão e das suas “crises”.

O Manuel trabalhava como serralheiro e fazia a sua vidinha normal… mas em certos períodos, influenciado pelas Luas ou por outros fatores igualmente misteriosos, virava lobo. As pessoas na época diziam que virava cão… e nós que somos mais esclarecidos porque já papamos mais séries de Domingo à tarde na televisão, percebemos que o Manel era um lobisomem e que não virava cão, mas sim lobo! O que de resto, genética e cientificamente falando é praticamente a mesma coisa.

Num tempo em que a saúde mental era ainda mais estigmatizada do que hoje é, as crises do Manel-Cão, não eram motivo de internamento compulsivo nem sequer de grande alarme entre a vizinhança. Causava medo e excitação entre os miúdos da rua e constrangimento ao próprio quando voltava a si. Quando a crise vinha, o Manel revirava os olhos e arreganhava os dentes, ficava com as mãos como patas e os dedos como garras, imediatamente caía no chão e passava a andar de quatro. Rebolava-se e babava-se, depois uivava. Uivava muito. Quando acalmava, já não era o Manel, era um cão. Um lobo domesticado pela solidariedade dos homens rudes da época. Ladrava e corria entre pessoas, carros e carroças a disputar à dentada com outros cães a afeição de cadelas ou perseguindo gatos. Levantava a perna para urinar nas esquinas ainda dentro do fato-macaco que ao longo dos dias que durava a crise, se ia transformando em farrapos. Andava assim “virado” lobo durante dias. Às vezes semanas. O meu tio Zé era simultaneamente amigo do Manel e também amigo do cão, nos dias da crise dava-lhe abrigo e comida. Punha-se-lhe umas mantas no palheiro, leva-se-lhe carne cozida e deixava-se-lhe uma tigela de barro com água que o Manel bebia esticando a língua como os cães e os lobos. A minha tia, era uma mulher de armas que acordava todos os dias às quatro da manhã para tratar das vacas e não tinha medo de nada; nesses dias preferia não ir ao palheiro, mas era ela quem cozinhava a carne e quando o lobisomem saia de manhã a correr de gatas pelos campos, era ela quem sacudia as mantas.
Os miúdos fugiam do Manel Cão que os perseguia e ladrava querendo morder. Alguns atiravam pedras e o Manel ainda corria mais. Depois aparecia um homem que fazia “txitó” e batia os pés no chão e o Manel ia embora a rosnar e a ladrar de longe.

Quando a lua mudava, a crise passava… o Manel envergonhado e sem se lembrar o que tinha acontecido, voltava para casa, tomava banho e tratava as mazelas do corpo ganhas nesses dias em que era lobo: unhas partidas, cortes e arranhões nos dedos e nos joelhos, marcas de dentadas de outros cães nos braços e às vezes na cara…

Foram anos assim. Depois levaram o Manel a um senhor em Alcochete que era bruxo e o curou com rezas, chás e visitas à campa do pai. O Manel fez o tratamento e nunca mais virou cão nem lobo nem nada além dele mesmo.

Não foi preciso ir para a fila no centro de saúde nem esperar pela consulta do especialista. Não foram precisos comprimidos para a depressão. Nem psicoterapia, nem sessões de grupo, nem balas de prata, nem padres, nem exorcismos. Apenas umas rezas abastardadas do latim ditadas e escritas num papel pardo pelo vidente de Alcochete, uns chás de ervas embrulhados em jornais e umas idas ao cemitério. 

Nesses tempos remotos, que separam duas gerações, não havia medicina tradicional chinesa nem tratamentos com agulhas. Toda a medicina era alternativa, porque os poucos médicos de bata branca que havia, era em exclusivo para aqueles que tinham dinheiro. Os pobres só recorriam à medicina em situações extremas, muitas vezes para morrer. Quem não tinha dinheiro, resolvia os problemas como podia.

Hoje o Manel tinha sido tratado pelo médico de família com antidepressivos. Se o Manel vivesse agora, não era cão, nem lobisomem seria apenas mais um doente bipolar e o senhor de Alcochete que o curou continuava entretido a pescar enguias virado para Vila Franca.