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terça-feira, 6 de março de 2018

DE OLHO NO CLIMA | Quando as atuais práticas agrícolas podem causar falta de alimentos em 2050 | PAULO DA COSTA GONÇALVES

A alimentação como necessidade humana básica que é, passa por diversas etapas antes de chegar ao nosso prato, como seja: a sua produção, armazenamento, transformação, embalagem, transporte, preparação e, por fim, servida ao consumidor. Em cada uma destas etapas, por mais saudável que seja a dieta, são emitidos gases com efeito de estufa para a atmosfera. 

A produtividade das culturas depende de inúmeros fatores como o clima, a estrutura do terreno, as características da água de regadio e, também, do modo como se trabalha e nutre a terra, no entanto a necessidade de produzir mais alimentos originam uma agricultura intensiva nas terras já utilizadas e a práticas pouco sustentáveis como, por exemplo, o sistema de lavoura profunda ou o uso abusivo de adubos azotados, que libertam emissões de óxido nitroso e contribuem para as alterações climáticas. 
Considerando que a procura mundial de alimentos tenderá a aumentar em função não só do crescimento demográfico previsto, mas também devido à alteração dos hábitos alimentares não surpreende que, um pouco por todo o mundo, as zonas mais adequadas à agricultura já estejam em grande medida cultivadas e a procura de novas terras para cultivo leve à conversão de inúmeras zonas florestais num processo que, por um lado, gera ainda mais emissões de gases com efeito de estufa e, por outro lado, põe a biodiversidade em risco, comprometendo ainda mais a capacidade da natureza para resistir aos efeitos das alterações climáticas. Ou seja, o impacto da atividade humana na produção de alimentos pode, nos próximos anos, vir a praticamente duplicar os gases de efeito de estufa que daí são provenientes. 

Em suma, a agricultura contribui para as alterações climáticas e é afetada por elas. Um paradoxo de complexa, mas não de impossível solução.

Tendo em conta a importância da alimentação na nossa vida a redução das emissões de gases com efeito de estufa na agricultura aparenta-se difícil e como um enorme desfio para a humanidade, mas é possível reduzir as emissões ligadas à produção alimentar. 

Sem reduzir a quantidade de alimentos produzidos, o que poria em risco a segurança alimentar do mundo para além de provocar o aumento de preços à escala global e dificultar o acesso a alimentos nutritivos e a preços razoáveis às populações como será então possível satisfazer a maior procura mundial por alimentos e, ao mesmo tempo, reduzir os seus impactos ambientais na produção e no consumo?

Atualmente as alterações climáticas e os seus efeitos nas temperaturas do ar já afetam a duração dos períodos de cultivo, as datas de floração e as colheita que ocorrem, em muitos casos, mais cedo, sendo previsível que estas mudanças continuem, onde já ocorrem, e se alarguem a outras regiões do mundo.

Por exemplo, nos países do norte da Europa, com temperaturas mais quentes e menores ocorrências de geadas, e com isso um aumento do período de cultivo, a produtividade agrícola poderá ser aumentado e alargado a novas culturas. Já no sul e devido ao aumento das ondas de calor, à redução da precipitação e da água disponível é previsível que a produtividade e a variação de culturas sejam prejudicadas. No entanto, é provável que em determinadas zonas mediterrânicas algumas culturas estivais possam passar a ser cultivadas no inverno, devido ao calor extremo e ao stresse hídrico nos meses de verão. Noutras zonas, prevê-se uma redução efetiva do rendimento das culturas devido à impossibilidade de transferir a sua produção para o inverno.
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Também é provável que todas estas alterações possam vir a influenciar a proliferação e a propagação de algumas espécies de insetos, de ervas daninhas invasivas ou de doenças, que certamente irão afetar o rendimento das culturas, mas que poderão ser compensadas com a rotação de culturas, o ajustamento das datas das sementeiras à temperatura e à precipitação e por uma opção a variedades mais adequadas às novas condições climáticas. A redução do consumo de alimentos que exigem imensos recursos e produzem uma enormidade de gases com efeito de estufa, como é o caso da carne será também uma obrigatoriedade.

Em suma, a necessidade, por um lado, de aumento na produtividade e simultaneamente a redução do uso de produtos agroquímicos e os seus efeitos ambientais e, por outro lado, diminuir o desperdício alimentar e o consumo de alimentos que exigem demasiados recursos sem pôr em causa, principalmente nos países em desenvolvimento, a segurança alimentar e o acesso a alimentos com valor nutricional adequado às necessidades do ser humano obrigará a que todo o sistema alimentar se transforme totalmente e utilize os recursos de forma muito mais eficiente. 

A solução mais provável e que se tornará controversa por questões sociopolíticas acabará por passar por uma solução global: Quem pode produzir, o que pode produzir e onde pode produzir.

Esta será sempre uma solução complexa e que, face às alterações climáticas e à competição por recursos, exigirá uma abordagem política coerente e integrada em matéria de alterações climáticas, energia e segurança alimentar. 



Fontes: Agencia Europeia do Ambiente e a revista “Nature Climate Change”.

Foto: Direitos Reservados



terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

CRÓNICA | Dia Zero - O Dia em que as Torneiras vão secar | PAULO DA COSTA GONÇALVES

Apesar dos sucessivos adiamentos continua a ser muito provável que o primeiro Dia Zero de uma metrópole urbana acontecerá a 4 de Junho do presente ano na Cidade do Cabo a segunda maior da África do Sul. Ou seja, a água que por enquanto ainda vai vertendo das torneiras, e é contada ao segundo, parece ter os dias contados e provavelmente esgotar-se-á devido à pior seca dos últimos 100 anos e que ocorre há 3 anos. 

Segundo o hidrogeólogo português Rui Hugman, que há perto de um ano integra o projeto de abastecimento da água de emergia na Cidade do Cabo: “O Dia Zero é o dia em que as barragens chegam ao nível mínimo de água e em que deixa de haver o suficiente para o abastecimento da população. O dia em que as torneiras vão secar.” 

Fruto do fenómeno climatérico “El Niño” tanto as chuvas de verão, não ocorreram, como as de inverno, por norma mais substanciais, também continuam fora das previsões meteorológicas. Por consequência as barragens continuam a secar, apesar de todos os racionamentos em vigor.

Inicialmente vaticinado para 16 de Abril, foi posteriormente presumido para 11 de Maio e agora está previsto para 4 de Junho. Os esforços da cidade para limitar o consumo com interrupções significativas, a sensibilização de grande parte da população local para um uso contido e o declínio no uso da agricultura têm contribuído para os sucessivos adiamentos do Dia Zero. No entanto os bairros mais densamente povoados já correm o perigo de desenvolver focos de doença pela ausência de água corrente.

Se o “Dia Zero” se tornar um facto no próximo 4 de Junho ou em qualquer outra data posterior, os habitantes da Cidade do Cabo e segundo o governo regional, passarão a dispor de apenas 200 pontos de recolha de água, onde poderão receber, no máximo, 25 litros de água por dia por pessoa.
Mas os problemas relacionados com o acesso a água potável não se limitam aos cerca de 4 milhões de habitantes da Cidade do Cabo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as secas estão cada vez mais severas e afetam já aproximadamente 850 milhões de pessoas um pouco por todo o mundo e por isso, para além de inacreditável é inaceitável que um recurso natural essencial, como o é a água, ainda seja tão desperdiçado quando menos de 1% da água de todo planeta é doce e está disponível para o consumo humano.

Por exemplo, de acordo com a GIZ (consultora ambiental alemã) nos países em desenvolvimento e emergentes, cerca de 80% da água é perdida em vazamentos por deficiências nas infraestruturas de distribuição às populações. Mas essa tipologia de desperdício é também um facto em algumas áreas de muitos dos países mais desenvolvidos, onde chegam a atingir os 50%.

Algumas fontes (ONU, UNICEF, etc.) estimam que atualmente um bilhão e 200 milhões de pessoas (35% da população mundial) não têm acesso a água potável tratada. Cerca de um bilhão e 800 milhões de pessoas (43% da população mundial) também não acessão a serviços adequados de saneamento básico e devido a estas ocorrências constatam que anualmente e em decorrência de doenças, principalmente intestinais transmitidas pelo consumo de água não tratada, morrem dez milhões de pessoas no mundo. As mesmas fontes estimam ainda que há uma grande probabilidade de, nos próximos 25 anos, dois em cada três habitantes do planeta, enfrentarem problemas no abastecimento de água potável devido ao crescimento populacional, à poluição das águas, ao desperdício na distribuição e uso, e principalmente devido às mudanças climáticas.

As mudanças climáticas irão originar em que vivamos num mundo em que a água se torna um desafio cada vez maior e onde a sua escassez será agravada, por um lado, em virtude da desigualdade social, e por outro lado, da falta de manejo no uso sustentável deste recurso natural onde apenas 6% se destina a uso “doméstico”, 73% à irrigação agrícola e 21% para a indústria. 

Diante deste cenário o recurso tecnológico para uma maior aplicação de soluções “inteligentes” na gestão da água é mais um desafio dos líderes políticos que não podem, tal como numa crónica anterior chamei a atenção por já estarem em falha com os atuais refugiados climáticos, separar a política populacional da do abastecimento de água.



Foto: Direitos Reservados | Internet

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

CRÓNICA | Os Apátridas do pálido ponto azul | PAULO DA COSTA GONÇALVES


Há já alguns anos que, quase diariamente nos meios de comunicação, nos deparamos com as expressões de migrantes e/ou refugiados que “nos batem à porta”, um pouco por todo o mundo mais desenvolvido, sob a forma de intensos fluxos migratórios deixando para trás territórios inóspitos já só resta das outrora fascinantes e sedutoras paisagens.

Eles não são já apenas e só alguns milhares, mas milhões e contrariamente ao que pensamos, na sua maioria são migrantes/refugiados que se deslocam anualmente e fogem, não de guerras, mas de catástrofes climáticas extremas, tais como secas prolongadas, inundações repentinas, tempestades, furacões, terremotos, tsunamis, vulcões e incêndios que, em muitos casos, deixam os territórios inabitáveis para sempre ou caso a ação humana seja refreada, e deixe de levar o clima para territórios desconhecidos, por várias gerações.

Segundo uma estimativa do Internal Displacement Monitoring Centre (IDMC) nos últimos 10 anos cerca de 185 milhões desses migrantes/refugiados são pessoas deslocadas, interna ou externamente, em consequência de desastres naturais. Os dados referentes ao ano de 2016, referem que dos 31,1 milhões das pessoas que se viram obrigadas a deslocar 24,4 milhões fizeram-no devido a desastres. Ou seja, o relatório do IDMC confirma que as deslocações associadas a desastres ambientais superaram os de conflitos e violência. Um outro estudo recente, da United Nations International Strategy for Disaster Risk Reduction (UNISDR), contatou que, nos últimos 20 anos, 90% dos desastres naturais estão ligados às alterações climáticas.

Ainda assim, pouca é a atenção dada à combinação dos dois principais desafios globais da atualidade: alterações climáticas e migrações.

Quantos de nós pensa que vive em cidades ou mesmo países que podem vir a desaparecer nas próximas décadas? Ou que tem a perceção que a desertificação de muitos dos interiores também se deve ao facto de a agricultura se ter tornado impraticável?

Esse cenário não é apenas uma ameaça, mas já uma realidade, em diversos pontos do planeta, tanto para as populações costeiras que sofrem não só com a subida dos oceanos, como com as infiltrações de água marinha nos seus mananciais de água doce, mas igualmente para as populações que vivem em regiões mais interiores e sistematicamente afetadas por secas devastadoras e uma contínua degradação ambiental.

Estes e outros exemplos, ainda timidamente, vão chamando a atenção para um tema que
ganha “força” nos debates sobre o aquecimento global: as questões climáticas e de mobilidade humana, também apelidadas de “deslocados ambientais”, “refugiados ambientais” ou “refugiados do clima”.

Em 2015 um dos pontos positivos do Acordo de Paris foi o que respeita à inclusão dos direitos humanos no texto e a referência aos direitos dos migrantes face à mudança do clima e a adoção de medidas para enfrentar as migrações com origem nos impactos adversos das mudanças climáticas. No entanto apesar de nas versões anteriores do Acordo estar previsto a criação de um organismo de coordenação das migrações, provocadas pelas mudanças climáticas, este acabou por ser suprimido do texto final impossibilitando o que poderia ter sido uma grande conquista em termos das migrações ambientais e infelizmente nos acordos e painéis sobre as alterações climáticas vão continuando ausentes ações de maior monta, por parte de governos e sociedades, para mitigar estas deslocações forçadas. Em suma, uma contradição alarmante devido às projeções científicas que estimam deslocações em massa e nunca vista.

A falta de um consenso conceitual para designar os indivíduos que se deslocam por motivos das alterações climáticas é a maior dificuldade enfrentada, por estes migrantes/refugiados e vai muito para além das inerentes ao abandono dos seus países ou locais de origem. A expressão “refugiado ambiental” não é reconhecida pelo direito internacional com o argumento de que o termo “refugiado ambiental” poderia gerar confusão em relação aos refugiados, denominados como tal, pela Convenção Relativa ao Estatuto do Refugiado de 1951. Ou seja, atualmente, só é considerado refugiado aquele que é obrigado a deixar seu país devido a perseguições políticas, conflitos armados, violência generalizada ou violação massiva dos direitos humanos. Os afetados pelas alterações climáticas não se enquadram como tal.

Se hoje os líderes políticos já estão em falha com os atuais refugiados ao não legitimar, no atual regime de asilo, a procura por refúgio dos que já sofrem e cujos números são ainda bem menores, não nos devemos questionar, individualmente e coletivamente, como é que os Estados e sociedades pertentem lidar futuramente com o tendencial aumento dos migrantes/refugiados em consequência de alterações climáticas quando os especialistas preveem, no melhor dos cenários, até 2050 pelo menos mais 200 milhões?

Todos nos lembramos do filme The Terminal (Terminal de aeroporto) de Steven Spielberg (2004) que narra a história de Viktor Navorski, protagonizado por Tom Hanks, preso num terminal de aeroporto, por ter sua entrada nos Estados Unidos negada e, também, não poder retornar ao seu país de origem, a fictícia Krakozhia, que devido a um golpe de Estado o deixou sem nacionalidade.

Hoje, quais Viktor Navorski, os grandes fluxos de migrantes/refugiados “climáticos” que, também sem pátria, erram pelas estradas do mundo numa migração forçada e sem destino são uma das principais calamidades do planeta e da humanidade.

É um facto inegável que as alterações climáticas estão a ter os seus efeitos. Os exemplos, são os mais variados e vão muito além dos que nos é dado a conhecer.

As alterações climáticas também destabilizam sociedades, desencadeiam conflitos e forçam pessoas a saírem dos seus países.

Em função do que é factual urge redefinir o estatuto de refugiado, porque o que existe é redutor!


domingo, 7 de janeiro de 2018

CRÓNICA | De olho no Clima - Quando apenas mais 1°C é o melhor cenário possível | PAULO DA COSTA GONÇALVES


   Desde o início da Revolução Industrial que a economia mundial passa por uma aceleração que tem como principal motor da indústria as fontes emissoras de gases do efeito estufa, o que fez com que a temperatura média do nosso planeta tenha aumentado. Ou seja, segundo análises da NASA, a média da temperatura da superfície da Terra subiu 1,1°C desde o final do século XIX, uma mudança provocada pelo aumento das emissões de dióxido de carbono na atmosfera. É a primeira vez que se regista um aumento dessa magnitude e parece claro que a acção humana está a levar o clima para um território desconhecido. 

  Os especialistas estão convencidos que com este aumento a Humanidade acaba de chegar ao meio de um caminho considerado sem volta rumo a mudanças climáticas de grande impacto perspectivando que, se o aumento da temperatura global chegar à marca de 2°C, o homem perderá o controlo sobre o meio ambiente. Hoje, a temperatura média do planeta é de cerca de 14°C e apesar de parecer uma temperatura algo insignificante torna-se significativa porque considera a temperatura medida em todo o planeta, a dos pólos incluída. 

   A média global de temperaturas superficiais sobre a terra e os oceanos registadas nos últimos anos foi 0,99°C mais quente do que a média do século XX o que pode levar os termómetros a aumentar até mais 4°C antes do início do próximo século.

  No entanto é importante referir que, e apesar de não haver consenso, para os climatologistas as temperaturas sobem não só por efeito dos gases estufa, mas também do evento natural El Niño (os registos deste evento existem desde 1877-1878 e ocorrem irregularmente em intervalos de 2 a 7 anos, com uma média de 3 a 4 anos e tratam-se de alterações significativas de curta duração, entre 15 a 18 meses, na distribuição da temperatura da superfície da água do Oceano Pacífico) e é quase certo que a nova edição do El Niño estará entre as mais intensas desde meados do século XX.

  Mas, apesar de a temperatura média na superfície terrestre e oceânica estar a bater recordes consecutivamente nos últimos anos e serem as mais altas registadas desde 1880, segundo Gavin Schmidt, diretor do Instituto Goddard para Estudos Espaciais da Nasa: "Não esperamos anos recordes todos os anos, mas a tendência de aquecimento a longo prazo é clara".