sábado, 3 de junho de 2017

OPINIÃO | Os Muros e os Murros | ANA KANDSMAR

Somos maus por sermos bons ou somos bons por sermos maus?

Podíamos ter aprendido alguma coisa com séculos de divisão religiosa, racial e étnica. Não aprendemos. Não há sinais de que 2017 venha a ser um ano melhor do que os que o precederam. A Europa continuará a escalar a montanha do autoritarismo liberal e a guerra contra o terror acabará por converter-se numa guerra de extermínio. E a ver bem, tudo isto acontece porque nos tornámos outra vez, adeptos do niilismo. Niilismo em todas as frentes, diga-se. Moral, ético, existencial, político. Diga-se também, que do niilismo à anarquia não vai nenhum passo. Se as sociedades actuais não acreditam em nada, não respeitam nada e exigem total liberdade para tudo e para todos, é porque estão decadentes. Mas isso, todos sabemos, e não é preciso ser especialista em coisa alguma para o perceber. "Um niilista é um homem que não se curva ante qualquer autoridade; nem aceita nenhum princípio, qualquer que seja o respeito que esse princípio envolva". Era assim no tempo de Turguêniev quando escreveu a obra "Pais e Filhos", e continua a ser assim, hoje.

Não aprendemos nada com o alastramento das desigualdades e embora séculos de história nos mostrem que elas trazem ao colo conflitos sociais, continuamos a dissemina-la. Os que ainda nos manipulam, entretanto conscientes da extensão do mal que produzem, vão receando a revolta das marionetas. E diz-se por aí, constroem bunkers, ora para se protegerem de um cataclismo, de uma guerra nuclear, ou, cada vez maior a hipótese, da rebelião dos mais pobres. Há muitas formas de morrer. Talvez um bunker evite algumas. Não evitará certamente a lei da vida. Morre-se de qualquer maneira.

Mas é pena que tenhamos chegado aqui. Enquanto escrevo isto, sinto um pouco do que terá sido a tristeza de Anne Frank ao chegar ali. Ao momento terrível em que já não se pode fazer vista grossa ao conflito, ao ódio e ao temor de perder a vida. E fico ainda mais triste porque sei que os próximos anos, talvez mais 10, 15, serão anos de profundas atribulações e todos eles depois de 2017 serão ainda piores que durante. Deixaremos para os nossos filhos, que aprenderam connosco a intrepidez do niilismo, a necessidade de o repudiarem, às pressas, para então recuperarem o que foi perdido às nossas mãos. Usarão como armas várias paixões mortais: racismo, ultranacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia e homofobia. Estamos então à beira de uma guerra onde o mal combate o mal. E logo nós que temos sempre em mente as guerras entre o mal e o bem, hoje, como podemos observar, tudo mentira. É sempre o mal que combate o mal. Deve ser porque somos afinal humanos e todos os humanos são maus. Ou quase todos. Talvez que o bem se silencie nesta coisa dos conflitos. O bem nunca se quer envolver. E como dizia Mandela, “Para que o mal vença, basta que os bons não façam nada.”

O apartheid, sob diversas modulações, será restaurado graças aos novos impulsos separatistas. Construiremos mais muros. Controlaremos mais fronteiras com policiamentos que não se farão rogados a premir gatilhos e as alianças cada vez mais frágeis acabarão por ruir como castelos de cartas. O mundo tal como era desde o final da Segunda Guerra Mundial, acabou. Sofremos mudanças com a Guerra Fria e a derrota do comunismo, sofremos mudanças com as descolonizações, mas se mantínhamos o mundo respirável era porque ainda queríamos muito acreditar. As democracias entretanto instauradas, a queda do muro de Berlim, tudo isso ainda nos fazia acreditar…. De lá para cá demos um salto gigantesco no vazio. Deixámo-nos de efabulações. Tornámo-nos outra vez niilistas e o mundo tornou-se irrespirável.
O Hunger Games que conhecemos do cinema é uma analogia bem construída daquilo que é afinal a nossa realidade. Começou logo no princípio do século com o choque entre a democracia e o capitalismo. A democracia liberal e o capitalismo neoliberal digladiam-se pelo primeiro lugar no pódio. Os governos economicistas e o povo digladiam-se pelo primeiro lugar no pódio. O Humanismo perdeu, creio que definitivamente, o primeiro lugar no pódio.

Os desejos humanos colocaram a tecnologia num pedestal sagrado e o capitalismo venceu o humanismo nesse processo.

Se há um demónio a culpar por tudo o que já foi feito até aqui, esse demónio chama-se capitalismo. Foi ele que tornou mais profundo o fosso entre ricos e pobres, foi ele que devastou o Médio Oriente, é também ele que muito mais do que qualquer guerra, multiplica refugiados, pois, como alguns já se terão dado conta, mais do que em busca da paz, eles saem em busca daquilo que só o dinheiro pode comprar. E eis que chegámos aqui.

Nos anos 70, e ainda nalguns que se lhe seguiram, os miúdos brincavam na rua. Tudo corria bem até ao momento em que as brincadeiras deixavam de ser pacíficas. Nessa altura, os nossos pais mal nos viam envolvidos em brigas, pegavam-nos pelos braços e obrigavam cada um a seguir para sua casa. Acabava ali a discórdia. Cada um em sua casa. Embora as minhas memórias de infância sejam mal comparadas com o que se vai passando pelo mundo, sinto que é preciso haver “pais” que nos puxem pelo braço e nos obriguem a cada um, a ficar na sua própria casa. Recordo-me que o meu pai, perante a minha insistência em voltar à rua, dava um murro na mesa e dizia “Basta! Cada um no seu canto!” É preciso agora, perante esta guerra entre culturas, entre muçulmanos e cristãos, árabes e ocidentais, que alguém dê o murro na mesa e diga “Basta! Cada um no seu canto”. As medidas de controlo de fronteiras mais não são que um mal necessário. Os “muros” terão de ser cada vez mais para que os “murros” sejam cada vez menos.











AUTORA
Ana Kandsmar

sexta-feira, 2 de junho de 2017

CINEMA | CONSPIRAÇÃO TERRORISTA




LITERATURA | Carlos Quevedo | DESASSOSSEGO - GRUPO SAÍDA DE EMERGÊNCIA





A nova chancela da SDE, a Desassossego, publica hoje o livro E Deus Criou o Mundo de Carlos Quevedo. Um livro essencial para percebermos as diferenças e semelhanças entre os principais credos monoteístas: o Judaísmo, Cristianismo e Islão.


Carlos Quevedo é jornalista. É autor e produtor do programa de rádio E Deus Criou o Mundo, na Antena 1, no qual se promove o diálogo inter-religioso.
Vive em Lisboa. Foi um dos fundadores da revista Kapa. Foi crítico de televisão no jornal O Independente e na revista Visão. Foi crítico de teatro e redactor principal n’O Independente.
Em 1978, mudou-se para Portugal, onde fundou a Companhia de Teatro de Lisboa. Encenou peças de Samuel Beckett, Henrik Ibsen e Harold Pinter, entre outros. Estudou Sociologia e, em Paris, Teoria da Literatura.

Nasceu em 1952, em Buenos Aires





Numa altura em que vivemos tempos de insegurança devido aos ataques terroristas é importante percebermos a base de cada uma das religiões.
O jornalista Carlos Quevedo conversou com três membros influentes dessas comunidades religiosas em Portugal acerca das suas diferentes perspectivas, dos desafios com que os crentes se confrontam todos os dias e do contributo da religião para o mundo moderno. O resultado é este livro que mostra bem as diferenças e semelhanças entre os três credos.

LITERATURA | Eduardo Gomes | SAÍDA DE EMERGÊNCIA



Eduardo Gomes, alfacinha, nascido em 1956. Cursou Direito e formou-se mais tarde em Administração e Gestão de Marketing no IPAM. Na longa carreira profissional, exerceu cargos de chefia em grandes multinacionais da área da electrónica de consumo. Actualmente é autor e dinamizador do projecto As Voltas da História, em colaboração com a Biblioteca Municipal de Cascais - Casa da Horta da Quinta de Santa Clara, série de contos originais com base na História de Portugal apresentados às crianças do concelho.
Terra Queimada é a sua primeira obra.






O romance definitivo sobre as invasões francesas.
O momento mais negro da História de Portugal. Uma das guerras mais cruéis da Europa.


Novembro de 1807. As tropas de Junot chegam a Lisboa e deparam-se com uma estranha situação: a corte havia zarpado para o Brasil; o clero virava a casaca e preparava-se para colaborar com os “diabólicos jacobinos”; maçons e intelectuais exultavam com a esperança de um futuro feito de liberdade, fraternidade e solidariedade. Mas o povo, esse, olhava furioso para as tropas maltrapilhas de Napoleão. Uma das portas de entrada em Portugal para os exércitos inimigos passava em Almeida. E é aí que encontramos uma população disposta a lutar pela independência do país, mas também por uma nova ordem social que os inclua.

Com Portugal à mercê das crueldades dos franceses e sob uma política de terra queimada ordenada por Arthur Wellesley, como resistiram os nossos antepassados a tanta humilhação, fome e morte? É a essa questão que Eduardo Gomes responde com um romance épico, meticulosamente pesquisado e assente numa galeria de personagens inesquecíveis. Se quiser receber um exemplar e falar com o autor, contacte-me. Obrigada!

ARTES | 87ª edição da Feira do Livro de Lisboa | GRUPO SAÍDA DE EMERGÊNCIA


Se ainda não tem programa para este fim de semana recomendamos os pavilhões do grupo SAÍDA DE EMERGÊNCIA onde poderão encontrar um programa repleto de boas ideias. Deixamos aqui algumas ideias para os próximos dias 03 e 04 de Junho.



OPINIÃO | Livros que nos fazem água na boca | MARGARIDA VERÍSSIMO


Pelo título que escolhi poderia parecer que falo de livros de culinária, daqueles cheios de receitas e principalmente fotos de deliciosas e suculentas iguarias, doces ou salgadas, daqueles que nos dão uma vontade enorme de ir a correr saciar uma fome repentina…e que nos fazem meter à boca o primeiro alimento que se atravessar no nosso caminho.

Mas não. Os livros podem (e devem) despertar os nossos sentidos, as nossas emoções. Adquiri um gosto especial por livros que me despertam os sentidos do paladar e do olfato. Livros cuja história e personagens se envolvem de cheiros, sabores, em confeções de refeições, de aromas. Por vezes as descrições são tão pormenorizadas e as evocações aos aromas são tão intensas que as nossas papilas gustativas entram em ação reconhecem e sentem de imediato as substâncias descritas. Situações há em que se faz a descrição de aromas ou sabores que não conhecemos totalmente e então entra também em ação a nossa imaginação e já nos estamos a ver como chefes de renome no ato criativo de uma nova iguaria.

O livro que me despertou completamente estes sentidos e que me fez querer persistir na procura de livros que o continuassem a fazer foi “Como água para chocolate” da Laura Esquivel.

Descobri Joanne Harris com “O vinho mágico”. Não, não foi com “chocolate” por incrível que pareça, eu que tanto gosto de chocolate. A autora é mestre no que diz respeito em nos despertar os sentidos do paladar e do olfato e como tal lá vou alternando os seus livros com outros menos sensoriais. Recordo “Cinco quartos de laranja” e “O aroma das especiarias”.

Há alguns livros, sem que tivesse de antemão qualquer referência, que, ou pelo título sugestivo ou pela sua descrição me levaram a que os adquirisse e se revelaram agradáveis surpresas. Deles destaco “Onde crescem limas não nascem laranjas” de Amanda Smyth, “A viagem dos cem passos” de Richard Morais e “Ingredientes para o amor” de Erica Bauermeister.

Mas falar de livros sensoriais e não referir “O perfume” de Patrick Suskind é impensável. “O perfume” é O livro! Como adorei este livro! É simplesmente genial. Quando derretida olho cheia de amor para os meus filhos e penso “Gosto tanto deles que só me apetece trincar” lembro-me logo deste livro….








Autora
Margarida Veríssimo

quinta-feira, 1 de junho de 2017

ARTES | Dia Internacional da Criança e Feira do Livro de Lisboa





Este ano e pela primeira vez a Feira do Livro de Lisboa tem o seu início no dia Internacional da Criança. 

Conta com um programa variado, vocacionado neste dia para os mais novos e com o apoio das Bibliotecas de Lisboa.

O programa deste primeiro dia tem o seu início às 10h30 e conta com um concerto da Orquestra Tradicional da Casa Pia seguida de uma parada de mascotes, um Mural de ilustrações que ao longo do dia irá sendo colorido com imagens alusivas ao livro e à leitura pelos ilustradores portugueses Paula Galindro, André da Loba e João Rodrigues. 

Serão ainda realizados durante o dia jogos tradicionais e de lógica. Existirá uma oficina de ilustração e outra de reciclagem e contará ainda com a presença do Chapitô, com várias actividades onde o público presente é sempre convidado a participar.

E se ler é um prazer, fazê-lo com o riso das crianças ganha uma nova dimensão.


Autora
Madalena Condado