quinta-feira, 6 de julho de 2017

OPINIÃO | O Velho e o Tempo | MAFALDA PASCOAL


O VELHO perguntou ao TEMPO, há quanto tempo ali estava.

O TEMPO respondeu que ao mesmo tempo do VELHO.

O VELHO pensou e repensou e ao TEMPO retrucou:

- Eu não dei por ti, que aqui estou há tanto tempo!

O TEMPO gesticulou...e serenamente falou:

- Eu vi quando chegaste, acaso não me sentiste, ao mesmo tempo que nasceste?

O VELHO deu de ombros, sacudindo os longos cabelos brancos e com os dedos ossudos e enrugados, penteou a barba longa e branca e meditou...

- Muita coisa aprendi...o TEMPO nasceu comigo e deu-me tempo para aprender o que sei. Deu-me tempo para me perder  no TEMPO, deu-me tempo para conhecer o TEMPO, deu-me tanto tempo para esquecer o TEMPO...deu-me também o direito de perguntar quem és?!

 TEMPO sempre atento, aconchegou o VELHO e docemente sussurrou:

- Eu tenho o tempo da força da tua juventude, da tua força de querer abarcar o Mundo com a tua ansia de aprender, de ensinar e de mudar. Eu tenho o pouco tempo das tuas alegrias e o longo tempo das tuas tristezas. Tenho ainda o tempo que a tua vida tem...

O VELHO com o seu olhar límpido olhou fixamente o TEMPO...

Lentamente, um sorriso aflorou nos seus lábios, a sua cabeça pendeu...

O TEMPO e o VELHO fundiram-se no TEMPO, expirando o tempo de vida do VELHO.

IMG_20160520_202048.jpg Autora
                                               Mafalda Pascoal





sábado, 1 de julho de 2017

OPINIÃO | As voltas que tu deste ao coração da mãe, pá! | ANA KANDSMAR

O Lucas não é meu filho, mas é como se fosse. Na verdade, o Lucas nem sequer é um ser humano. É um cão. Encontrei-o num apelo de uma associação protectora de animais e a foto exposta nas redes sociais mostrava um animal triste, solitário e carente. O meu coração foi tocado. E eu soube que tinha que fazer alguma coisa. Mais, soube que o Lucas andava à minha procura, ou eu à procura dele, embora naquela altura, nem me passasse pela cabeça ter um cão em casa. Mas apaixonei-me. Fazer o quê? Quando dei por mim, já estava a ligar para a tal associação, não para dizer que queria ver o Lucas, mas que queria ficar com o Lucas. Não podia deixá-lo no canil por mais um dia que fosse e no imediato, lá fui eu buscá-lo. Foi uma das melhores decisões que alguma vez tomei. Hoje, o Lucas já está há dois anos comigo e a minha vida nunca mais foi a mesma. Deu um salto qualitativo e quantitativo também, se quisermos mencionar a dose de amor que recebo todos os dias. O Lucas faz-me rir quando tenho vontade de chorar e desafia-me constantemente para brincadeiras que eu me lembro de ter apenas na minha infância ou na infância dos meus filhos. Ter esta criaturinha ternurenta e feliz em casa desperta a minha criança interior e dou por mim a brincar com uma bola, a adormecer depois de uma boa troca de mimos e a acordar de bem com a vida mesmo que o despertador seja uma ruidosa sequência de latidos ou pulos em cima da cama. Nada me incomoda. Nem mesmo os pêlos que todos os dias tenho que aspirar, as cadeiras de pernas roídas, ou os tapetes que é preciso lavar quando há um deslize e o Lucas faz xixi em cima deles. São coisas. Tapetes e cadeiras são coisas. Coisas que se substituem facilmente, ao contrário do Lucas, que quando partir deste mundo, jamais poderei substituir. E é por causa deste amor que lhe tenho que não compreendo como tanta gente é capaz de ser cruel com os animais. Não compreendo os abandonos que todos os anos se multiplicam a cada verão, nem compreendo as imagens de horror que correm nas redes sociais. Recuso-me a partilhá-las. Não por acreditar que não vale a pena fazer a sensibilização com terapia de choque, mas porque não aguento ver essas imagens uma e outra vez. Não sou capaz. Tudo em mim se revolta e a dor que toma conta de mim é insuportável. Não me atrevo a perguntar o que terão essas pessoas no lugar do coração porque nem é de coração que se trata. É de formação. "Se não gostas mantem-te à distância."

Respeito quem assume que não gosta de animais e é capaz de resistir às toneladas de ternura que eles têm para nos dar, mas não posso respeitar quem lhes faz mal. Gente que o faz merece-me ainda menos que desprezo. Quem é capaz de atravessar o peito de um animal com uma foice, regá-lo com gasolina e largar-lhe o fogo, espancá-lo ou induzir-lhe qualquer forma de tortura, merece morrer lentamente e em agonia, merece conhecer o inferno em cada dia da sua vida, em suma...não merece viver. Quem abandona um animal não merece viver.

É certo que a legislação endureceu para os casos de maus tratos e abandonos, mas como em tudo o resto, há sempre quem passe por cima da lei. Ainda bem que há associações. Ainda bem que há gente que se importa. Mas há ainda tanto a fazer que tenho a certeza que seria útil incluir nas escolas, nas aulas de cidadania talvez, esta pedagogia do respeito pelo outro, mesmo quando o outro é um animal. O respeito aprende-se e acredito que de certa forma o amor também. É possível aprender a amar, e as crianças, por serem crianças, estão muito mais receptivas a aprender do que os adultos. Quanto a mim, que tenho o maior respeito por todas as formas de vida, vou continuar a parar o carro para socorrer uma animal atropelado, seja ele um gato, um cão ou um pardal telhado, continuarei a apoiar as associações que cuidam daqueles que acabam na rua e continuarei, não até que o coração me doa, mas até que o coração me pare, a amar o Lucas, sem olhar às diferenças que existem entre nós, mas olhando sempre a tudo o que nos une. Ambos sencientes, ambos almas a habitar um corpo físico e ambos com sangue a correr-nos nas veias. Diferenças? Só vejo uma que vale a pena mencionar: Jamais um animal usará contra um ser humano, o mesmo requinte cruel que tantos (des)humanos usam contra os animais. E isso faz deles (animais), claramente superiores.












Autora
Ana Kandsmar

sexta-feira, 30 de junho de 2017

OPINIÃO | Professores | MARGARIDA VERÍSSIMO

Quando se fala em professores que nos marcaram, que são uma referência na nossa vida, daqueles que fizeram a diferença, sinto sempre um vazio. Como é possível não ter tido um professor desses? Analisando mais fria e objetivamente a questão constato que sinto um vazio porque a minha vida de estudante encheu-se de professores desses. Não tenho AQUELE professor que me marcou, mas tenho vários professores, que por uma razão ou por outra, numa determinada altura ou situação, pontualmente, foram marcando a minha vida e que nela se foram tornando referência.

Uma dessas referências foi o professor de português do liceu, entretanto já falecido. Para além das fantásticas histórias da sua riquíssima e longa vida em África, que tanto adorávamos ouvir e que não só nos faziam sonhar como nos poupava algum tempo à aborrecida matéria da gramática, também nos transmitiu ensinamentos que considero importantíssimos para a vida…pelo menos para a minha vida, uma vez que nunca mais os esqueci e sempre me fazem recordar o professor Barbosa.

Um desses ensinamentos é que a palavra CHATEAR é uma palavra feia e como tal não deve ser usada. Não que seja uma asneira, calão ou gíria, mas é efetivamente uma palavra que não é bonita, é deselegante. Deve-se sempre preferir o verbo ABORRECER, bem mais agradável.

Outro ensinamento que nunca mais esqueci, bem, não foi exatamente um ensinamento, foi mais uma constatação, a propósito dos cheios que lhe recordavam a sua saudosa África, é a evidência de que os cheiros são aqueles fatores que melhor e de forma mais realista nos transportam para as nossas memórias e recordações. Com certeza que pela altura da adolescência eu já teria vivenciado esta situação, mas só a assumi como causa-efeito após a sua constatação pelo professor.

A partir dessa altura a cada cheiro, cada aroma que me transporta para uma situação vivida, páro, fecho os olhos e volto a estar lá, no passado, naquele momento. Se sentirmos o cheiro e fecharmos os olhos quase que conseguimos tocar nas coisas e pessoas que fazem parte dessa memória.
Na faculdade recordo uma professora de história de arte/arquitetura que com paixão exultava a luz de Veneza. A luz existente nas praças, nos edifícios góticos e bizantinos, a luz refletida do sol, no céu, nos edifícios, nas ruas e canais.

Arrependi-me de não ter levado mais a sério esta exaltação quando nas férias seguintes fui fazer o inter-rail e passei por Veneza. Arrependi-me porque assim que sai da estação de comboio de Santa Lucia, em Veneza, não consegui abrir os olhos! Era completamente impossível, com tanta luz, permanecer de olhos abertos! Ora bolas, finalmente em Veneza e não conseguia ver nada! Depois daquelas fantásticas aulas de história é inacreditável como não me lembrei de levar óculos de sol para Veneza!

Em determinados momentos recordo um ou outro ensinamento, uma ou outra situação vivida na sala de aula, um ou outro professor. E é destes momentos que a vida é feita, todas as nossas experiências, todas as pessoas que se cruzam no nosso caminho são importantes.

Não precisei de ter um professor herói, tive muitos professores que me proporcionaram momentos vividos que recordo, que me foram transmitindo ensinamentos, experiências. Situações que no momento, provavelmente, passaram despercebidas, irrelevantes, mas que absorvi, apreendi…. Aprendi.











Autora
Margarida Veríssimo

quinta-feira, 29 de junho de 2017

OPINIÃO | Portugal, Cultura e Religião

Portugal, um país não muito extenso, é de facto muito diversificado em cultura e política; línguas, raças, cores e religiões; clima, etc.

Em cultura, porque a nossa cultura é riquíssima. Não esqueço do que um importante cantor americano, inspirado pelos passeios que deu na cidade de Lisboa, disse quando esteve em Portugal à uns anos atrás, “...a cultura deste país respira-se e sente-se, pois está impregnada no oxigénio e na estrutura das casas...” e gesticulando pouco mais conseguiu argumentar. 

Segundo me parece foi a primeira vez que cá esteve, no entanto teve sensibilidade suficiente para sentir a nossa cultura que, diga-se de passagem, a maior parte de nós, pouco valor lhe dá.
Em línguas, raças e religiões, porque temos tantos imigrantes, de tantos locais do Mundo, que acaba por nos dar uma panóplia de línguas que se vão diluindo na nossa. De raças de várias cores que também se vão misturando e, com o passar do tempo acabará por ficar a raça “morena” que é a mistura dos africanos, dos indianos, e dos brancos.

Obrigatoriamente nesta “mistura” ter-se-á que falar da diversidade das religiões.

Felizmente, vivemos num país onde o acolhimento de diversas correntes de pensamento ou opinião e consequente liberdade de expressão e confronto dessas mesmas ideias, dá-nos o direito de exprimir livremente, quer através da palavra ou imagem, já que temos como pilar absoluto dos sistemas democráticos o pluralismo que nos garante essa mesma liberdade de expressão, porque a democracia pluralista assenta no respeito das várias ideias e correntes, quer seja na política, na religião ou na cultura.

A maioria dos portugueses identificam-se como católicos, mas não me parece que sejam praticantes. Casam pela igreja porque é uma cerimónia muito bonita e, depois fazem o baptizado dos seus filhos pela mesma razão.

Os padres católicos ainda têm um grande poder nas regiões do interior do país, “põem e dispõem” na vida das pessoas menos informadas, e onde existe maior quantidade de idosos que foram educados segundo aquela religião. Segundo a religião católica não se pode comer carne uns dias antes da Páscoa, mas se se pagar a “bula” ao padre já podem comer carne à vontade. Um padre não é Deus, e que religião é esta que ensina as pessoas a viverem amedrontadas com medo de pecar. Que depois se vão confessar ao padre que lhes diz para rezar não sei quantas Ave-Marias e Pais-nossos e pronto ficam livres do pecado?!...eu fui baptizada pela igreja já tinha doze anos, e no mesmo dia fiz a primeira comunhão. Não estou arrependida, mas nunca me confessei ao padre, via os miúdos todos a fazerem fila para se confessarem e pensava para mim, “mas o que é que eles dizem ao padre?!”, perguntavam-me se eu não me confessava, eu respondia que não, sabia lá o que é que havia de dizer ao padre, e não ia.

Não acredito, que Jesus à 2000 anos atrás, tenha falado sobre proibições, obrigações, vergonha, inferno ou castigo. As pessoas confundem devoção com obrigação. Tudo o que Jesus possa ter exemplificado ou dito, não foi para tolher a alma humana e sim para realça-la, exubera-la e enaltecê-la. Ao longo da história sempre houve quem se serviu do nome de Jesus para maltratar, castigar, entristecer, utilizando o Seu nome para escamotear desejos próprios e vãos. Tudo o que Jesus possa ter dito deve resumir-se à frequência da Vida do Amor e da Alma, acredito que tenha sacrificado a Sua vida por essa boa causa, só assim faz sentido esse mesmo sacrifico.       

 A Constituição Portuguesa garante liberdade religiosa total, mas a igualdade entre religiões é contrariada pela existência da Concordata que dá benefícios específicos à Igreja católica. Apesar de a Igreja Católica ter um grande peso a nível social e político, já começamos a ver que, lentamente, essa importância tem cada vez menos peso...

 Temos também os Evangélicos, que se dividem em várias categorias, que vão desde igrejas Pentecostais a igrejas mais conservadoras. Das mais importantes destacam-se a Igreja dos Irmãos, Assembleia de Deus, Baptistas e Igrejas Independentes. Algumas igrejas evangélicas em Portugal associam-se à entidade representativa das mesmas que é a Aliança Evangélica Portuguesa.

Temos também as Testemunhas de Jeová. Durante um ano, todos os domingos de manhã iam a minha casa para me darem a lição, mesmo sabendo desde sempre, que eu não iria converter-me. Admiro a união e solidariedade que as testemunhas de Jeová praticam entre eles. Alguém que não pratique a religião deles, mas que por algum motivo lhes peça ajuda, eles não negam essa ajuda. Esta religião está presente em Portugal desde 1925. A Associação das Testemunhas de Jeová foi oficializada em 1974.

Falando do Judaísmo, a comunidade judaica conseguiu manter-se até à actualidade, apesar de em 1496, por decreto do Rei D. Manuel I, lhes ter dado ordem de expulsão. Muitos foram obrigados a converterem-se ao catolicismo, outros foram presos com consequentes penas decretadas pela Inquisição portuguesa. Apesar de toda a perseguição e massacre de que sempre foram vítimas, os judeus sempre foram persistentes nas suas convicções, nas suas crenças.

Existem ainda outras religiões, na sua maioria, com base em descendentes de imigrantes, os islâmicos e hindus que têm os espíritas, gnósticos e budistas. Na minha opinião o budismo vem originariamente do Tibete. Convém esclarecer que o budismo não é uma religião mas sim um modo de vida. Os budistas são de opinião que devemos seguir “o caminho do meio”, o que me parece, o equivalente aos nossos ditados populares “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, “Nem oito nem oitenta” e ainda “No meio é que está a virtude”.     

Quanto a mim todas as religiões têm um pouco de “verdade”, nem todas estão completamente certas, nem todas estão completamente erradas. Presentemente tenho uma grande tendência para escolher o “caminho do meio” ou seguir a máxima “não fazer aos outros o que não gosto que me façam”.


Todos nós, que nos encontramos no planeta terra, temos algo para aprender e evoluir, senão não estaríamos por aqui. Perante Deus somos todos iguais.     











Autora
Mafalda Pascoal