terça-feira, 11 de julho de 2017

CRÍTICA LITERÁRIA | " Pablo Escobar, o Meu Pai", de Juan Pablo Escobar | Planeta


Texto e Foto: Isabel de Almeida

Crítica Literária | Jornalista

Em Pablo Escobar, o Meu Pai, decorridos mais de vinte anos sobre a morte do Capo do Cartel de Medellín, o seu filho Juan Pablo Escobar dispôs-se a narrar nesta obra biográfica que conjuga relato pessoal e investigação, muitos detalhes e acontecimentos que marcaram o percurso de vida do seu tristemente famoso pai, da Colômbia e do seu respectivo contexto político e social nos anos 80 e 90, durante os quais Pablo Escobar chegou a ser um dos homens mais ricos, poderosos e temidos do mundo devido à sua ligação ao narcotráfico e à escalada de violência associada a esta actividade criminosa.

A proximidade do narrador ao seu pai transporta o leitor para o seio de uma família que estava conotada com os negócios ilícitos de Escobar mas onde também existiam grandes e pequenos dramas, raiva e carinho, traições e lealdades, amores e ódios, e só por aqui já é expectável que fiquemos a conhecer o homem por detrás do traficante, Pablo Escobar é um poço de ambiguidades, de polos que se opõem e é percepcionada ao lermos esta obra.

O tom coloquial, as emoções que fluem da escrita e que oscilam entre carinho, medo, admiração e recriminação, amor familiar e repúdio estão naturalmente integradas neste livro, sendo assumida a subjectividade da escrita.

Pablo Escobar era um homem que, como resulta do olhar do seu filho, e como podemos deduzir de factos históricos conhecidos e de documentos reunidos nesta obra, era composto de ambiguidades. Era um homem inteligente, impulsivo, narcísico e egocêntrico, capaz de gestos nobres mas, também impiedoso para com todos os que se cruzavam no seu caminho e o contrariassem. Ironicamente, praticou actos de generosidade, ajudou os mais pobres, disponibilizou aviões para ajudar nas operações de socorro na sequência de uma erupção vulcânica e quis o impossível. Algures na sua mente criou a firme convicção firme de que era legítimo, aceitável e perfeitamente natural praticar o bem e defender causas políticas e sociais tendo como base de suporte económico os lucros do narcotráfico, e aceitando o preço da perda de vidas humanas (algumas delas inocentes).

De uma vida de opulência, com todas as excentricidades que o dinheiro pode comprar (por exemplo, um jardim zoológico com animais exóticos instalado na sua mais famosa propriedade a Fazenda Nápoles, que, curiosamente, deve o nome à nacionalidade dos pais de Al Capone, um dos seus ídolos) até chegar ao terror da incerteza permanente quanto ao local onde estaria toda a família no dia seguinte, o temer pela própria vida e pela dos seus ente queridos, todo este cenário nos desfila perante os olhos durante a leitura, sendo perceptível a tensão vivenciada pelo autor e pela família.

Podemos encontrar aqui relatos que ilustram a loucura de um homem (Pablo Escobar), mas não se fica indiferente à incoerência e corrupção bem patente em todo um sistema ao mais alto nível (político, militar, policial, segurança interna e relações externas).

No decurso da leitura parece-nos, muitas vezes, estarmos a assistir a mais uma produção televisiva ou cinematográfica sobre a família Escobar, mas, ao racionalizar, o leitor nota que, afinal, em tantos momentos e histórias surgem realidades que se revelam bem mais complexas e assustadoras do que a ficção.

O livro é também, a meu ver, um testemunho de resiliência, de sobrevivência, de reconstrução do autor e da sua família mais próxima.

Juan Pablo Escobar é um filho com uma herança muito pesada e ciente de que, após a morte do pai, o terror não só não abandonou esta família como se elevou a níveis ainda mais assustadores. O autor, a mãe - Victoria Eugenia Henao Vallejo - e a irmã Manuela conseguiram escapar a uma morte quase certa e aqui fica a ideia de que muito devem à coragem da matriarca bastante protectora, que enfrentou e negociou as suas vidas com cartéis concorrentes e com as autoridades que também levantaram obstáculos a uma nova vida que cortasse com o passado.

Também, à sua maneira, Pablo Escobar foi um pai e marido protector que demonstrou gostar da família (embora sejam famosas as suas infidelidades conjugais) e que estaria bastante consciente dos riscos que a esposa e os filhos correriam após a sua morte.

Num plano menos familiar e mais histórico e sociológico, somos confrontados com a extensa rede de ligações perigosas e obscuras que mobilizava aliados inesperados como forças de segurança Colombianas, a DEA (agência governamental Norte Americana que combate o Tráfico de Droga), a CIA (Serviços Secretos Norte Americanos) e os Pepes (Perseguidos por Pablo Escobar, um grupo que incluía paramilitares, membros de cartéis rivais, forças de segurança e familiares das vítimas do Capo do Cartel de Medellín).

O autor, a mãe e a irmã perderam até a identidade (mudaram de nome oficialmente como medida de segurança) encontraram um novo pais para viver. Juan Pablo mostra-se determinado a passar às gerações presentes e futuras uma mensagem bastante útil e pertinente num mundo que atravessa uma crise de valores: a mensagem é a de que nada há de bom e positivo no tráfico e consumo de drogas e no uso de violência aos mesmos associado, sendo o seu pai um exemplo a não seguir.

Numa atitude clara de reconciliação com a sua conturbada narrativa familiar Juan Pablo Escobar (agora Juan Sebastian Marroquín Santos) é pacifista e vem estabelecendo contactos com familiares das inúmeras vítimas do pai, pedindo perdão pelo sucedido.

Um livro revelador, escrito de forma consistente e emotiva e que desperta consciências, lembrando-nos que nada é linear, mada é apenas preto ou branco.


Ficha Técnica do Livro:


Autor: Juan Pablo Escobar

Editora: Planeta

1ª Edição: Março de 2015

3ª Edição: Abril de 2017

Nº de Páginas: 416

Classificação: 5|5 Estrelas

Género: Biografia | Testemunho | Caso Real




CINEMA | O Portal do Guerreiro


domingo, 9 de julho de 2017

OPINIÃO | O estranho caso das apreensões de animais selvagens em Portugal | ANA EMAUZ


Este é um tema com particular interesse para mim. Foi algo que tomei conhecimento há uns anos para trás, e que gostava de partilhar.

A CITES é a convenção sobre o comércio internacional de espécies da flora e fauna ameaçadas de extinção, e que estabelece medidas e quotas de comércio entre países, que permitem assegurar a sobrevivência destas espécies no seu estado selvagem. Além dessas directrizes, cada país pode ainda legislar sobre quais as espécies incluídas nos anexos CITES que o cidadão pode ou não deter em sua casa. No nosso caso, a legislação até é mais estrita que noutros países europeus. Por exemplo, em Portugal não é permitida a detenção de qualquer espécie de primata, felino (à excepção do gato doméstico), urso ou canídeo (à excepçao do cão doméstico), ou qualquer outro animal incluído na lista referente ao anexo da portaria abaixo citada, que por qualquer motivo possa por em causa a sua conservação e bem-estar, mas também a segurança dos cidadãos (Portaria 1226/2009 de 12 de Outubro). Neste ponto a legislação portuguesa está de parabéns, e até podia ser mais abrangente. A verdade é que é difícil colmatar as necessidades físicas e mentais de um animal exótico. Senão vejamos, a suricata (animal cuja detenção é permitida em Portugal) é um mamífero que vive em colónias até várias dezenas de indivíduos, exibindo um reportório de comunicação vocal extremamente complexo. Manter um animal como este a vida inteira numa jaula, isolado de outros membros da mesma espécie é uma crueldade. Para não falar nas dificuldades em oferecer a dieta adequada, em função de cada espécie. Sejamos realistas, se já é difícil satisfazer as necessidades de bem-estar relativas aos animais que vivem em nossas casas, e isto não inclui as necessidades básicas (comida, água, proteção, festas), mas o tempo e atenção que lhes dedicamos ao brincar e estimular mentalmente, o que pensar dos animais cuja ecologia os seus detentores frequentemente desconhecem?
Mas voltando ao assunto em epígrafe, se estamos tão evoluídos em termos de legislação, o mesmo não se pode dizer da aplicação da mesma. E é aqui que a porca torce o rabo.

Sabia o leitor que não existe em Portugal nenhum centro oficial de recolha e recuperação ou santuário para espécies exóticas? E que grande parte dos animais "apreendidos" mantêm-se com o seu tutor até ao fim das suas vidas? Pois é isso mesmo que está a ler. Uma pessoa que tenha comprado um animal cuja detenção seja ilegal em Portugal, como por exemplo um macaco capuchinho (Cebus capucinus), o infractor/detentor incorrerá de uma coima, mas como não existe um local para acolher o animal, permanecerá com o seu tutor na condição de fiel depositário até um local mais apropriado seja encontrado. Acontece que esse local raramente é encontrado, em primeiro lugar porque tem de ser alocado fora do país, em segundo porque de certa forma as nossas instituições dão o problema como "resolvido". Desta forma, o prevaricador acaba por ser recompensado, mas sobretudo, e a meu ver, bastante mais grave, é que o animal viverá até ao resto da sua vida em condições de bem-estar precárias, onde as suas necessidades inerentes à espécie não serão cumpridas.

Os relatórios de apreensões produzidas pelo ICNF relatam os números de animais apreendidos, no entanto, nada dizem sobre o número de animais que foram na realidade retirados aos seus detentores, e quantos ficaram na condição de fiel depositário.

Eu gostaria de deixar um desafio às associações de proteção animal e partidos políticos que se preocupam com esta temática, a questionarem-se sobre estes números, perguntando às instituições responsáveis 1) quantos animais apreendidos em Portugal se encontram na condição de fiel depositário? e 2) há quantos anos se encontram nessa situação?

Aqueles que me ouvem, ficarei eternamente grata se obtiverem uma resposta a qual procuro há um bom  par de anos!















Ana Emauz

sábado, 8 de julho de 2017

OPINIÃO | E agora? Ainda estamos nas mãos de Deus? | ANA KANDSMAR


Falei com a neta de uma senhora que fazia partos em casa. A meio do Séc.XX poucos tinham transporte próprio. Entre as aldeias e o hospital mais próximo ia uma distância que nem sempre era possível percorrer. As gestantes arriscavam a sua e a vida dos filhos que carregavam no ventre com toalhas limpas, bacias de água quente e orações. "Não tinha medo porque sabia que estávamos nas mãos de Deus". Disse-me ela.


No tempo em que Deus ainda tinha os seus filhos nas mãos, a visa era simples e o mundo respirável. Os avanços tecnológicos eram lentos e demoravam a chegar. O mundo que era grande e desconhecido estava então nos livros que poucos sabiam ler e nas viagens que nem a imaginação lhes permitia fazer. No tempo em que tudo era milagre ou maldição, a fé e o temor num velho de barbas brancas sentado sobre as nuvens ditava os dias e apaziguava as noites. Fazer perguntas era uma afronta, pois Deus não gostava de dar respostas. "No dia em que os homens souberem tanto quanto Deus, é o fim do mundo", diziam os antigos. Hoje, época em que já tanto se conhece e os homens sabem quase tanto quanto Deus, talvez não estejamos perante o fim do mundo, mas estamos num ponto de viragem para um novo mundo.


Da Alemanha chegam-nos notícias de que foi legalizado o incesto, no Canadá legalizou-se a zoofilia (sexo com animais), e também no Canadá já é possível aos nascituros, o registo sem definição de género. Por todo o mundo vence a ideologia de Género que permite aos homens serem mulheres, às mulheres serem homens e, em primeira instância, o que eles quiserem. Podemos pois, parir um bebé que mais tarde quererá ser um repolho ou um pé de salsa. Tanto faz. No mundo de hoje em que se mercantiliza a vida e tanto se compram recém-nascidos como bens num supermercado, perdeu-se a batalha contra a venda de humanos para o tráfico de órgãos. Neste mundo de gaiolas douradas, em que nos digladiamos por um salário miserável, perdemos a batalha contra as senzalas, o trabalho a troco de pão e água. Neste mundo em que nos colocamos na montra para sermos apreciados e desejados, perdemos a batalha contra a escravização sexual. Neste mundo em que a ciência avança para a cura de tantas doenças mas nos recusamos a lutar até ao fim, perdemos a batalha contra a eutanásia. E num mundo que valoriza tanto a ascensão total e os sinais exteriores de riqueza, desvalorizamos a vida e a sua essência e perdemos a batalha contra o aborto. Perdemos a batalha em favor da humanidade. Já não estamos nas mãos de Deus. Há muito que o mandámos embora e se hoje ainda teimamos em culpá-lo pelas nossas desgraças, é porque também perdemos a batalha contra o cinismo. Não deixámos de crer em Deus porque nos tornámos auto-suficientes, ou mais espirituais, adeptos da New-Age. Não. Deixámos de crer em Deus porque para além de tudo o resto em que nos tornámos e que em nada abona em  nosso favor, também nos tornámos cínicos. A mim, que ainda não me deixei apanhar pela corrente, haja Deus para me dar a mão. É na mão D'ele que ainda me vou sentindo segura. Nas mãos dos homens é que não confio. Quando me dizem que agora é que a humanidade vai evoluir porque deixámos a Era de Peixes e entrámos na Era de Aquário, não fico mais tranquila. Eu sei que a Era de Peixes era a de Jesus Cristo. E a de Aquário, de quem é? A mim parece-me que esta é a Era do Mal.











Ana Kandsmar








sexta-feira, 7 de julho de 2017

OPINIÃO | Pequenas-Coisas | MARGARIDA VERÍSSIMO


Hoje saí. Ao fim de 3 dias de casa já estava a atrofiar. Saí cedo, antes que se instalassem os 37.º previstos. As recomendações terapêuticas indicavam as caminhadas como parte da minha recuperação. Era isso que ia fazer, caminhar. Vesti roupa confortável e calcei os ténis da ginástica a que já não vou desde há quase 2 anos.

Não costumo passear de manhã, a um dia da semana, pelas ruas da urbanização onde moro há quase 20 anos. Sozinha, sem nada nem ninguém a apressar-me, pude apreciar cada espaço, cada som, cada cheiro. Espaços, sons e cheiros que bom começo mas a que raramente presto atenção.

Moro numa urbanização relativamente plana, cujo traçado das ruas, em quadrícula ortogonal permite percursos longos mas algo monótonos pois os edifícios de apartamentos são todos iguais e desinteressantes. A orientação este-oeste dos arruamentos torna-os luminosos, banhados pelo sol nascente. A cidade romana de Conímbriga, a pouco mais de 1 km de distância, bem podia ter inspirado o traçado desta urbanização e teríamos a praça (fórum) na interseção do cardo máximo, rua principal com traçado norte-sul, com o decumano máximo, com traçado este-oeste. Em vez disso temos uma praça entre 2 arruamentos. Adiante.

Opto por começar pela rua das moradias, junto à floresta.

Àquela hora apenas se ouviam os sons da natureza, a maioria das pessoas já tinha saído para os seus empregos e os miúdos para a escola, último dia de aulas! Hurra! A vivência é completamente diferente ao fim do dia em que a praça se enche de crianças e jovens, chegados da escola, a jogar à bola, a andar de bicicleta ou simplesmente a brincar no escorrega e as esplanadas se animam com gente para quem um dia de trabalho acaba melhor se for a conviver, com uma fresquinha na mão. 

O chilrear cortava o silêncio. Constato que esta é a banda sonora do sítio onde moro. Maravilhoso. Não sou entendida em aves e não identifico os pássaros, apesar de perceber bem a diferença entre uma andorinha, uma garça, um corvo, uma águia e um pelicano, mas reparo que a fauna deve ser generosa pois apercebi-me de sons distintos: o chilrear cantarolado, um arrulhar de rola e uns estalinhos que um passarito fazia pousado num beirado. Ao longe ouvi cacarejar.

Ao meu passar as lagartixas fogem e escondem-se.

A zona das moradias é a mais verdejante, não só porque confina directamente com a floresta, onde no outono vamos apanhar medronhos e de onde saem trilhos que o meu marido percorre de btt nas manhãs de domingo, mas também porque os jardins exibem as mais diversas espécies de árvores. arbustos e demais vegetação ainda florida nesta altura do ano. Há jardins exuberantes na minha urbanização, alguns lembram os trópicos, bem ao estilo colonial, mas outros há bem mais autóctones. Um grande pinheiro manso sombreando uma casa branca recorda-me tempos de infância.

Continuo a caminhar e constato com agrado que mesmo nas ruas dos prédios o verde é uma constante. As grandiosas árvores que pontuam os passeios já têm a altura dos prédios de 4 pisos e as varandas e floreiras estão repletas de plantas. Há divisões em alguns apartamentos que nem devem ver a luz do dia tal a luxuriante vegetação que literalmente cobre as janelas. Há também nestes prédios autênticos jardins, de flores, de catos, catos de várias formas e tamanhos, outros com pequenas árvores e arbustos, outros ainda de ervas de cheiro. Na nossa floreira temos alecrim. Alecrim com perfume tão intenso e delicioso que é sempre usado nos assados e na linguiça regada com mel. Quando floresce aparecem abelhas...gosto de pensar que é este o nosso modesto contributo para a não extinção das abelhas.

O calor começava a apertar. Voltei para casa, queria acabar de ler "A ruína" de Jennifer Egan.














Autora
Margarida Veríssimo

quinta-feira, 6 de julho de 2017

OPINIÃO | O Velho e o Tempo | MAFALDA PASCOAL


O VELHO perguntou ao TEMPO, há quanto tempo ali estava.

O TEMPO respondeu que ao mesmo tempo do VELHO.

O VELHO pensou e repensou e ao TEMPO retrucou:

- Eu não dei por ti, que aqui estou há tanto tempo!

O TEMPO gesticulou...e serenamente falou:

- Eu vi quando chegaste, acaso não me sentiste, ao mesmo tempo que nasceste?

O VELHO deu de ombros, sacudindo os longos cabelos brancos e com os dedos ossudos e enrugados, penteou a barba longa e branca e meditou...

- Muita coisa aprendi...o TEMPO nasceu comigo e deu-me tempo para aprender o que sei. Deu-me tempo para me perder  no TEMPO, deu-me tempo para conhecer o TEMPO, deu-me tanto tempo para esquecer o TEMPO...deu-me também o direito de perguntar quem és?!

 TEMPO sempre atento, aconchegou o VELHO e docemente sussurrou:

- Eu tenho o tempo da força da tua juventude, da tua força de querer abarcar o Mundo com a tua ansia de aprender, de ensinar e de mudar. Eu tenho o pouco tempo das tuas alegrias e o longo tempo das tuas tristezas. Tenho ainda o tempo que a tua vida tem...

O VELHO com o seu olhar límpido olhou fixamente o TEMPO...

Lentamente, um sorriso aflorou nos seus lábios, a sua cabeça pendeu...

O TEMPO e o VELHO fundiram-se no TEMPO, expirando o tempo de vida do VELHO.

IMG_20160520_202048.jpg Autora
                                               Mafalda Pascoal





sábado, 1 de julho de 2017

OPINIÃO | As voltas que tu deste ao coração da mãe, pá! | ANA KANDSMAR

O Lucas não é meu filho, mas é como se fosse. Na verdade, o Lucas nem sequer é um ser humano. É um cão. Encontrei-o num apelo de uma associação protectora de animais e a foto exposta nas redes sociais mostrava um animal triste, solitário e carente. O meu coração foi tocado. E eu soube que tinha que fazer alguma coisa. Mais, soube que o Lucas andava à minha procura, ou eu à procura dele, embora naquela altura, nem me passasse pela cabeça ter um cão em casa. Mas apaixonei-me. Fazer o quê? Quando dei por mim, já estava a ligar para a tal associação, não para dizer que queria ver o Lucas, mas que queria ficar com o Lucas. Não podia deixá-lo no canil por mais um dia que fosse e no imediato, lá fui eu buscá-lo. Foi uma das melhores decisões que alguma vez tomei. Hoje, o Lucas já está há dois anos comigo e a minha vida nunca mais foi a mesma. Deu um salto qualitativo e quantitativo também, se quisermos mencionar a dose de amor que recebo todos os dias. O Lucas faz-me rir quando tenho vontade de chorar e desafia-me constantemente para brincadeiras que eu me lembro de ter apenas na minha infância ou na infância dos meus filhos. Ter esta criaturinha ternurenta e feliz em casa desperta a minha criança interior e dou por mim a brincar com uma bola, a adormecer depois de uma boa troca de mimos e a acordar de bem com a vida mesmo que o despertador seja uma ruidosa sequência de latidos ou pulos em cima da cama. Nada me incomoda. Nem mesmo os pêlos que todos os dias tenho que aspirar, as cadeiras de pernas roídas, ou os tapetes que é preciso lavar quando há um deslize e o Lucas faz xixi em cima deles. São coisas. Tapetes e cadeiras são coisas. Coisas que se substituem facilmente, ao contrário do Lucas, que quando partir deste mundo, jamais poderei substituir. E é por causa deste amor que lhe tenho que não compreendo como tanta gente é capaz de ser cruel com os animais. Não compreendo os abandonos que todos os anos se multiplicam a cada verão, nem compreendo as imagens de horror que correm nas redes sociais. Recuso-me a partilhá-las. Não por acreditar que não vale a pena fazer a sensibilização com terapia de choque, mas porque não aguento ver essas imagens uma e outra vez. Não sou capaz. Tudo em mim se revolta e a dor que toma conta de mim é insuportável. Não me atrevo a perguntar o que terão essas pessoas no lugar do coração porque nem é de coração que se trata. É de formação. "Se não gostas mantem-te à distância."

Respeito quem assume que não gosta de animais e é capaz de resistir às toneladas de ternura que eles têm para nos dar, mas não posso respeitar quem lhes faz mal. Gente que o faz merece-me ainda menos que desprezo. Quem é capaz de atravessar o peito de um animal com uma foice, regá-lo com gasolina e largar-lhe o fogo, espancá-lo ou induzir-lhe qualquer forma de tortura, merece morrer lentamente e em agonia, merece conhecer o inferno em cada dia da sua vida, em suma...não merece viver. Quem abandona um animal não merece viver.

É certo que a legislação endureceu para os casos de maus tratos e abandonos, mas como em tudo o resto, há sempre quem passe por cima da lei. Ainda bem que há associações. Ainda bem que há gente que se importa. Mas há ainda tanto a fazer que tenho a certeza que seria útil incluir nas escolas, nas aulas de cidadania talvez, esta pedagogia do respeito pelo outro, mesmo quando o outro é um animal. O respeito aprende-se e acredito que de certa forma o amor também. É possível aprender a amar, e as crianças, por serem crianças, estão muito mais receptivas a aprender do que os adultos. Quanto a mim, que tenho o maior respeito por todas as formas de vida, vou continuar a parar o carro para socorrer uma animal atropelado, seja ele um gato, um cão ou um pardal telhado, continuarei a apoiar as associações que cuidam daqueles que acabam na rua e continuarei, não até que o coração me doa, mas até que o coração me pare, a amar o Lucas, sem olhar às diferenças que existem entre nós, mas olhando sempre a tudo o que nos une. Ambos sencientes, ambos almas a habitar um corpo físico e ambos com sangue a correr-nos nas veias. Diferenças? Só vejo uma que vale a pena mencionar: Jamais um animal usará contra um ser humano, o mesmo requinte cruel que tantos (des)humanos usam contra os animais. E isso faz deles (animais), claramente superiores.












Autora
Ana Kandsmar