quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

ESCRITORA R.C. VICENTE NOVA CRONISTA

A partir do próximo dia 02 de Fevereiro, passamos a contar com a presença semanal da escritora R. C. Vicente como cronista do nosso Jornal




R.C. Vicente nasceu a 20 de Setembro de 1995 na cidade de Santarém, Portugal. Por volta dos seus cinco anos começou a criar as suas primeiras histórias. Contos esses que se desenvolveram com o passar dos anos e deram origem a “As Crónicas de Amindrius, Bérnia e Efendes”. Passou quatro anos da sua vida em Espanha, onde se tornou fluente em castellano. E com quinze e dezasseis anos, já em Portugal, venceu dois primeiros prémios literários na sua cidade. Participou ainda em diversas iniciativas literárias. “O Ressurgir dos Eternos Titãs” é a sua primeira obra e o primeiro volume de “As Crónicas de Amindrius, Bérnia e Efendes”. 

ESCRITORA CRISTINA DAS NEVES ALEIXO NOVA CRONISTA

A partir do próximo dia 04 de Fevereiro, passamos a contar com a presença semanal da escritora Cristina Das Neves Aleixo como cronista do nosso Jornal. 

Nasceu e cresceu no Barreiro. Já adulta toma-se de amores por Lisboa e aí reside até hoje. Profissionalmente desempenhou cargos tão diversos como os de escrituraria, recepcionista, tradutora, secretária, assistente de direcção. Chefiou departamentos empresariais, brincou com a locução de rádio e aos modelos fotográficos e publicitários, foi empresária.

Durante quase 30 anos fez do mundo empresarial privado a sua casa, enquanto, secretamente e desde a adolescência, se realizava verdadeiramente com a escrita. Academicamente brilhava na área de eleição: letras. A formação em escrita criativa foi inevitável.

O seu primeiro livro publicado em Maio de 2015, com a chancela da Capital Books, "Joaninha e o jardim encantado", alerta os jovens, e também os adultos, para os valores da amizade, da diversidade e incute o gosto pela aprendizagem. Em Julho do mesmo ano dá a sua contribuição em "Todos por um", uma antologia de contos comemorativa do aniversário da editora, com um policial ligeiro: "O caso das pedras preciosas".

Um ano depois, em Junho de 2016 e num registo mais uma vez diferente, mantém os laços com a editora que a viu nascer e lança, na Feira do Livro de Lisboa, "Por amor, tudo(?)" com prefácio do Dr. Daniel Cotrim da APAV. Esta é uma estória centrada na violência doméstica, fruto de um trabalho de campo muito sério junto de vítimas reais e que lhe valeu um elogio público. Este é, também, um livro que a autora fez questão que fosse solidário e apresenta o selo da APAV - uma parte das receitas reverte para a instituição. Diz que para si "escrever é como respirar: uma necessidade"; diz, a brincar, que "talvez sejam os genes" - é prima de António Aleixo.


CRÓNICA | O Nascimento de um Asno | MBARRETO CONDADO

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”

Todos, pelo menos uma vez na vida, conhecemos pessoas tão vazias, insignificantes, porém com trejeitos de grandes feitos, criaturas que se rodeiam dos seus similares numa efémera tentativa de se encontrarem na sua triste e insignificante passagem entre nós. No fim não deixam saudades, memórias, e o que eventualmente fica acaba por ser destruído pelo próprio tempo. Por esse motivo as “Crónicas de Nunes, um asno” tenta ser um retrato vivo do que não queremos para os nossos filhos e filhas.
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Numa quente tarde de maio nascia Nunes de cognome um asno. O seu inesperado nascimento vinha trocar as voltas de final de vida ao seu velho pai que nunca pensou que na sua provecta idade tivesse que ouvir os gritos daquela criança insegura que numa demonstração da sua fraqueza vinham sempre acompanhados por rios de baba. O velho sentou-se num cadeirão do quarto do hospital da Cruz Vermelha, sim porque o menino tinha que nascer num local frequentado pelos brasonados de Lisboa, mesmo que para isso tivessem que comer língua de vaca durante uns meses (a mesma subentenda-se, que isto de comprar várias era um desperdício de dinheiro), pousou a cabeça entre as mãos e naquele momento tomou as decisões que melhor lhe facilitariam a sua coexistência com este novo rebento, enviaria o seu filho mais velho para um colégio interno de padres de preferência bem longe de Lisboa (quanto mais longe mais barato) e a sua filha, bem como era meio doidivana tinha esperanças que fugisse de casa. Estava decidido, levantou-se de repente satisfeito com a sua decisão, o corpo podia estar velho, mas a sua cabeça ainda funcionava a cem por cento. Uma coisa era certa nunca mais se deitaria excitado (o que já era raro) com a mulher, sempre que tivesse ideias infelizes tomaria um banho de água tépida, na sua idade já não era necessário o uso abusivo de água fria até porque lhe fazia mal ao reumático.

O Nunes que dormia no berço ao lado da cama da mãe acordou assustado começando a berrar. A mãe nem se mexeu, finalmente descansava merecidamente, tinham sido nove árduos meses a transportar aquele infeliz que parecia já ter nascido com dentes e uma aptidão invulgar para apertar os atacadores. Entrava uma enfermeira incomodada pelo choro da criança, a um sacudir de mão da mãe levou-a com ela para o berçário.

A verdade é que estes primeiros momentos da vida de Nunes iriam influenciar toda a sua vida futura, na tentativa infrutífera de conquistar a admiração e respeito do pai bem como a atenção da mãe. E seria somente aos seus 33 anos que o conseguiria, ao exemplo de seu pai encontraria uma mulher disposta a financiar as suas ideias de grandeza e melhor ainda, que o trataria como um filho o que a sua mãe nunca fizera.

Naquele dia nascia aquele, cujas crónicas começam hoje.


quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

LITERATURA | Parem Todos os Relógios de NUNO AMADO | OFICINA DO LIVRO

Nas livrarias a 23 de Janeiro


Aos trinta e seis anos, a professora de literatura Helena Remington apaixona-se loucamente por um italiano de visita a Lisboa. O romance entre os dois, intenso e tórrido, é porém abruptamente interrompido por um acidente de automóvel na costa italiana onde ambos passavam férias.

Decorridos vinte anos sem notícias de Fabrizio, Helena recebe uma carta da filha dele com um pedido ousado e urgente. Para o satisfazer, terá de lançar-se na mais arriscada aventura da sua vida, envolvendo-se com gente perigosa numa autêntica corrida contra o tempo. Tudo para salvar o homem que tanto amou.

Muitos anos mais tarde, Carlos – o sobrinho-neto preferido de Helena – conhece Francesca, uma rapariga italiana que também precisa de ser salva e que o destino transforma em tradutora de cartas de amor.

Parem todos os Relógios é uma narrativa fluida e aliciante sobre as consequências do amor, que combina magistralmente elementos de thriller policial, história de amor e épico familiar.












CRÓNICA | Eu não vou em futebóis | FERNANDA PALMEIRA



Quantas vezes não ouvimos dizer… “eu cá não vou em futebóis”, como quem diz ai eu cá estou muito acima disso, dessa coisa que move multidões e transforma simples cidadãos em turba, como quem se demarca dessa ‘plebe’ e se isola no pedestal das elites.

Esta coisa dos rótulos que castram a expressão da individualidade é mais uma daquelas coisas que me atormenta. Sim… sou uma alma constantemente atormentada pelos catálogos em que seres humanos se ‘aprisionam’ uns aos outros e jamais conformada com isso mesmo.

Desde sempre alguém tentou cercear ‘o outro’, enformá-lo em caixas, defini-lo de acordo com os seus padrões que, como diz a expressão são apenas e só os seus padrões, fruto também eles de uma individualidade que a determinada altura apenas teve o ‘poder’ de criar norma com o intuito disso mesmo: normalizar…

Cansada de me dizerem… como é que alguém como tu, pessoa inteligente e que gosta de livros, boa música, cinema, arte em geral, que cultiva amigos e amizades, consegue gostar dessa coisa que é o futebol, essa coisa irracional. Ao menos, se era para gostar dessa coisa menor é o desporto, gostavas de uma modalidade de jeito, uma modalidade decente… vá lá, sei lá, um rugby, um ténis, ou no máximo um basquetebol. O leque é tão abrangente e logo tinhas que ir gostar do que move o povo. Logo eu, que sempre pratiquei desporto e sou adepta de tantos. Mas, sim, para mim, o futebol é um desporto ‘maior’.

Esse desdém acicata, e sim, é nesse momento que a irracionalidade desperta verdadeiramente, que se deixa de ser politicamente correto. Verdadeiramente o que desperta a irracionalidade é o princípio do julgamento… julgar ‘o outro’ é que é irracional.

Gostar de futebol é gostar de emoções, é estar vivo, tão vivo como quando se aprecia um bom livro, como quando se aprecia uma conversa com amigos. Catalogar ‘o outro’ porque gosta de futebol ou por qualquer outro motivo é não olhar para si. Quando julgamos os outros estamos a julgar-nos a nós próprios e a refletir nos outros as nossas falhas.

Deixemos os carimbos para os papéis. Os seres humanos não se enquadram, por definição, em catálogos nem em caixas. O que é bom e válido para um não o é necessariamente para outro.
Eu “vou em futebóis”, e em livros, e em copos e conversas com amigos, e em pés de dança, e em peças de teatro e exposições... Como eu, milhares dos que gritam golo ao meu lado também têm, certamente, outras paixões na vida e ainda bem que assim é, são seres humanos saudáveis e felizes.

A felicidade é o ensejo último do ser humano. Que cada um seja feliz por si e para si. Só assim teremos uma verdadeira Humanidade.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

LITERATURA | A Pura Inscrição do Amor de NUNO JÚDICE | DOM QUIXOTE (Poesia)

Nas livrarias a 30 de Janeiro



A Pura Inscrição do Amor reúne poemas que o autor escreveu ao longo dos anos e que são dedicados a este tema.

Nele se incluem, a abrir, os conjuntos de poemas Pedro, Lembrando Inês e Carta de Orfeu a Eurídice, ambos publicados em simultâneo em Abril de 2001 sob o título Pedro, Lembrando Inês, que se encontrava esgotado há muito tempo.

Os poemas reunidos em Novo Tratado de Pintura são inéditos em Portugal embora alguns deles tenham sido publicados na Colômbia, em 2014, sob o título Breve Tratado de Pintura (Frailejón Editores).

Por sua vez, Cântico teve uma edição em livro de artista em Espanha, em 2015, com o título Cântico dos Cânticos, com ilustrações do pintor Pedro Castrortega (Segundo Santos Ediciones).

Em ambos os casos, esta é a sua primeira edição em Portugal.

O poema A Mulher Deitada, que encerra o livro, é inédito.

CRÓNICA | Os Apátridas do pálido ponto azul | PAULO DA COSTA GONÇALVES


Há já alguns anos que, quase diariamente nos meios de comunicação, nos deparamos com as expressões de migrantes e/ou refugiados que “nos batem à porta”, um pouco por todo o mundo mais desenvolvido, sob a forma de intensos fluxos migratórios deixando para trás territórios inóspitos já só resta das outrora fascinantes e sedutoras paisagens.

Eles não são já apenas e só alguns milhares, mas milhões e contrariamente ao que pensamos, na sua maioria são migrantes/refugiados que se deslocam anualmente e fogem, não de guerras, mas de catástrofes climáticas extremas, tais como secas prolongadas, inundações repentinas, tempestades, furacões, terremotos, tsunamis, vulcões e incêndios que, em muitos casos, deixam os territórios inabitáveis para sempre ou caso a ação humana seja refreada, e deixe de levar o clima para territórios desconhecidos, por várias gerações.

Segundo uma estimativa do Internal Displacement Monitoring Centre (IDMC) nos últimos 10 anos cerca de 185 milhões desses migrantes/refugiados são pessoas deslocadas, interna ou externamente, em consequência de desastres naturais. Os dados referentes ao ano de 2016, referem que dos 31,1 milhões das pessoas que se viram obrigadas a deslocar 24,4 milhões fizeram-no devido a desastres. Ou seja, o relatório do IDMC confirma que as deslocações associadas a desastres ambientais superaram os de conflitos e violência. Um outro estudo recente, da United Nations International Strategy for Disaster Risk Reduction (UNISDR), contatou que, nos últimos 20 anos, 90% dos desastres naturais estão ligados às alterações climáticas.

Ainda assim, pouca é a atenção dada à combinação dos dois principais desafios globais da atualidade: alterações climáticas e migrações.

Quantos de nós pensa que vive em cidades ou mesmo países que podem vir a desaparecer nas próximas décadas? Ou que tem a perceção que a desertificação de muitos dos interiores também se deve ao facto de a agricultura se ter tornado impraticável?

Esse cenário não é apenas uma ameaça, mas já uma realidade, em diversos pontos do planeta, tanto para as populações costeiras que sofrem não só com a subida dos oceanos, como com as infiltrações de água marinha nos seus mananciais de água doce, mas igualmente para as populações que vivem em regiões mais interiores e sistematicamente afetadas por secas devastadoras e uma contínua degradação ambiental.

Estes e outros exemplos, ainda timidamente, vão chamando a atenção para um tema que
ganha “força” nos debates sobre o aquecimento global: as questões climáticas e de mobilidade humana, também apelidadas de “deslocados ambientais”, “refugiados ambientais” ou “refugiados do clima”.

Em 2015 um dos pontos positivos do Acordo de Paris foi o que respeita à inclusão dos direitos humanos no texto e a referência aos direitos dos migrantes face à mudança do clima e a adoção de medidas para enfrentar as migrações com origem nos impactos adversos das mudanças climáticas. No entanto apesar de nas versões anteriores do Acordo estar previsto a criação de um organismo de coordenação das migrações, provocadas pelas mudanças climáticas, este acabou por ser suprimido do texto final impossibilitando o que poderia ter sido uma grande conquista em termos das migrações ambientais e infelizmente nos acordos e painéis sobre as alterações climáticas vão continuando ausentes ações de maior monta, por parte de governos e sociedades, para mitigar estas deslocações forçadas. Em suma, uma contradição alarmante devido às projeções científicas que estimam deslocações em massa e nunca vista.

A falta de um consenso conceitual para designar os indivíduos que se deslocam por motivos das alterações climáticas é a maior dificuldade enfrentada, por estes migrantes/refugiados e vai muito para além das inerentes ao abandono dos seus países ou locais de origem. A expressão “refugiado ambiental” não é reconhecida pelo direito internacional com o argumento de que o termo “refugiado ambiental” poderia gerar confusão em relação aos refugiados, denominados como tal, pela Convenção Relativa ao Estatuto do Refugiado de 1951. Ou seja, atualmente, só é considerado refugiado aquele que é obrigado a deixar seu país devido a perseguições políticas, conflitos armados, violência generalizada ou violação massiva dos direitos humanos. Os afetados pelas alterações climáticas não se enquadram como tal.

Se hoje os líderes políticos já estão em falha com os atuais refugiados ao não legitimar, no atual regime de asilo, a procura por refúgio dos que já sofrem e cujos números são ainda bem menores, não nos devemos questionar, individualmente e coletivamente, como é que os Estados e sociedades pertentem lidar futuramente com o tendencial aumento dos migrantes/refugiados em consequência de alterações climáticas quando os especialistas preveem, no melhor dos cenários, até 2050 pelo menos mais 200 milhões?

Todos nos lembramos do filme The Terminal (Terminal de aeroporto) de Steven Spielberg (2004) que narra a história de Viktor Navorski, protagonizado por Tom Hanks, preso num terminal de aeroporto, por ter sua entrada nos Estados Unidos negada e, também, não poder retornar ao seu país de origem, a fictícia Krakozhia, que devido a um golpe de Estado o deixou sem nacionalidade.

Hoje, quais Viktor Navorski, os grandes fluxos de migrantes/refugiados “climáticos” que, também sem pátria, erram pelas estradas do mundo numa migração forçada e sem destino são uma das principais calamidades do planeta e da humanidade.

É um facto inegável que as alterações climáticas estão a ter os seus efeitos. Os exemplos, são os mais variados e vão muito além dos que nos é dado a conhecer.

As alterações climáticas também destabilizam sociedades, desencadeiam conflitos e forçam pessoas a saírem dos seus países.

Em função do que é factual urge redefinir o estatuto de refugiado, porque o que existe é redutor!