sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

ENTREVISTA | MBarreto Condado em Entrevista ao escritor António da Costa Neves | LITERATURA






Falei com o autor António da Costa Neves sobre o seu livro “O Implacável Cerco de Almada” com a chancela da editora Saída de Emergência.

Neste livro temos a possibilidade de ficar a conhecer um pouco mais sobre um dos períodos turbulentos da nossa História. A Crise de 1383-1385, a morte de D. Fernando, o Mestre de Avis como Regedor do Reino, a decisiva batalha de Aljubarrota e o cerco de Almada. 

António da Costa Neves é licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Durante anos, publicou regularmente poesia em diversos jornais e revistas. O seu primeiro romance “Mataram o Chefe de Posto” sobre a temática da Guerra Colonial ganhou o Prémio Literário Cidade de Almada 2007. “Nem por Sonhos” venceu o Prémio Revelação Manuel Teixeira Gomes 20062007. Em 2008, o romance “Adamastor” foi objecto de ensaio académico e tema de seminário na Universidade de Coimbra e de uma conferência na Universidade Complutense de Madrid. O romance “Mea Culpa!” foi em 2010, selecionado como obra de referência para o Concurso Nacional de Leitura do Ensino Secundário. Em 2016, com a obra “Trinta Sonetos Triviais” venceu o Prémio de Poesia e Ficção de Almada-Poesia.


Já este ano o autor ganhou o 1º Prémio Joaquim Mestre, promovido pela ASSESPA (Associação de Escritores Alentejanos), Direcção Regional de Cultura do Alentejo e Câmara Municipal de Beja, com a obra satírica “Um Certo Incerto Alentejo”.


Para um homem que é de “entre o Tejo e o Sado” o cerco de Almada tem certamente um impacto diferente do que teve o cerco de Lisboa. Terá sido esse o motivo que o levou a escrever este livro?
Quando em 2011 fui convidado pela UCCLA e pela Câmara Municipal de Almada para participar no II Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, na cidade de Natal, e após ter sido colocado no painel de Literatura de Viagens, cuja área não era, seguramente, a minha, a primeira ideia que me ocorreu foi falar sobre a “Peregrinação”. Na verdade, Fernão Mendes Pinto, depois de ter regressado a Portugal, tinha vindo viver para Almada, onde casou e foi cidadão exemplar, com uma atividade cívica relevante, tendo desempenhado alguns cargos públicos, nomeadamente, à frente da Santa Casa da Misericórdia de Almada.

Acontece que, tendo vivido em Moçambique durante dois períodos, antes e depois da independência, também eu tinha uma grande paixão pelas coisas do Oriente. Tendo, inclusive, escrito um romance sobre a passagem de Camões pela Ilha de Moçambique, “Adamastor”, onde, segundo Diogo de Couto, testemunha privilegiada e seu amigo pessoal, o poeta vivia muito pobre e comendo de amigos. Porém, o tempo que tinha para levar a cabo esse desiderato era muito curto. Além de que não estava interessado em repetir o que muitos, antes de mim, já teriam dito. Assim, optei por fazer uma pesquisa sobre a cidade de Almada e colocar-me no lugar de um guia turístico. A minha intenção passou, então, por tentar vender Almada aos brasileiros. E assim nasceu “Almada: Um Itinerário Literário, Pessoal e Transmissível”, uma conferência que realizei numa das sessões do Encontro e que repeti na Universidade do Rio Grande do Norte.

Foi durante essa pesquisa que me deparei, junto ao Tejo, num local conhecido por Fonte da Pipa, com uma pedras gastas pelo tempo, onde decifrei uma inscrição em que li os dois últimos versos da estância 35 do Canto VIII de “Os Lusíadas”: «Digno feito de ser, no mundo, eterno, / Grande no tempo antigo e no moderno!»

Estes versos lapidares levaram-me a descobrir e estudar o episódio a que se referiam, o que me levou à homenagem que a vereação de 1880 tinha querido prestar aos almadenses de 1384. De facto, segundo Fernão Lopes, nenhuma outra vila do Reino, como Almada, tinha sofrida tanto por amor ao Mestre.

Com base na “Crónica de D. João I”, mas também em inúmeros documentos que pesquisei no Arquivo Histórico de Almada, comecei a dar corpo a essa outra história. Acontece que em determinada altura tive acesso a duas escrituras assinadas, cerca de vinte anos após a Crise de 1383/85, por um escrivão almadenses chamado João Galo. Numa conversa com o historiador Alexandre Flores, insigne medievalista e na altura diretor do Arquivo Histórico de Almada, este disse-me que o conde dos Arcos, outro almadense notável, lhe assegurara que a família Galo tinha chegado até aos nossos dias.

Afonso Galo era o regedor (ou recebedor) de Almada, à data dos acontecimentos. Há uma rua na cidade a homenageá-lo e segundo Fernão Lopes terá sido preso pelos castelhanos no início do cerco.

Imaginei, pois, que o escrivão João Galo poderia muito bem ser filho do regedor Afonso Galo, e que, na altura, não passaria de um adolescente. Neste instante o livro começou a ser desenhado na minha cabeça. Por isso, o jovem João Galo é o narrador da minha história, um narrador privilegiado porque, sendo filho do regedor, ele é, também, parte integrante na narrativa. O facto de Fernão Lopes ter tido duas quintas aforadas à albergaria de S. Lázaro de Cacilhas, uma na Sobreda e outra em Vale Figueira, permitiu-me deduzir outros factos e extrapolar a fonte histórica que o cronista utilizou para narrar o que sobre Almada e os almadenses verteu na sua crónica.

Tudo isto deu-me a possibilidade de escrever sobre Almada, a cidade onde vivo há quarenta anos e que, até agora, nunca tinha sido cenário de nenhum dos meus livros. E isso, na verdade, também foi e é muito congratulante.

Este livro histórico levou-o a assinar com o seu nome e não com o seu
pseudónimo E.S. Tagino, por algum motivo em concreto? Como continuará a assinar as suas futuras obras daqui em diante?
Quando escrevi o meu primeiro livro e o apresentei, em 2007, ao Prémio Literário Cidade de Almada, tive de o fazer mediante um pseudónimo que construi a pensar nos dois rios que, desde sempre, têm basilado a minha vida: o Tejo e o Sado.

Com esta ideia de que “eu sou de entre o Tejo e o Sado” elaborei o pseudónimo E. S. Tagino. O livro “Mataram o Chefe de Posto” ganhou, nesse ano, o primeiro prémio a que tinha concorrido e foi assim, aos 62 anos, que consegui publicar o meu primeiro livro. Acontece que o meu editor gostou do pseudónimo e perguntou-me se não queria continuar a utilizá-lo. Aceitei e desde então publiquei com esse pseudónimo os meus primeiros oito livros. Quando, em 2017, dez anos depois, publiquei o “Implacável Cerco de Almada”, também foi o meu editor que me sugeriu que o assinasse com o meu verdadeiro nome. Era uma mudança, até porque ia fazer parte de uma nova coleção intitulada A História de Portugal em Romances. Acontece que, há dias, acabei de ganhar o 1º. Prémio Literário Joaquim Mestre, promovido pela Associação de Escritores Alentejanos, em parceria com a Direção Regional de Cultura do Alentejo e a Câmara Municipal de Beja, no qual utilizei, ainda, o mesmo pseudónimo. Assim o meu próximo livro “Um Certo Incerto Alentejo” irá ser assinado por E. S. Tagino.

Assim, é provável que, no romance histórico, opte pelo nome próprio enquanto, na ficção em geral, continue a fazê-lo através do pseudónimo.

“O implacável cerco de Almada” é-nos relatado pelos olhos do povo, o que aconteceu realmente e o que é ficcionado nesta obra?
Todos os factos históricos narrados no livro são verdadeiros e foram retirados, nomeadamente, da “Crónica de D. João I” e da “Crónica do Condestável”. O romance histórico tem, porém, a particularidade de, sem subverter a historiografia, o autor poder colocar em confronto personagens reais com personagens fictícias. O autor do romance histórico não pode, de modo nenhum, é abusar da sua imaginação, sob pena do romance passar a ser uma fantasia, quiçá um delírio.

Já falei em João Galo; como ele, todos os nomes dos seus amigos foram retirados dos livros da vereação da Câmara existentes no Arquivo Histórico de Almada. Naturalmente que a Ordem dos Guardiões do Castelo é pura invenção, como são invenção as soldadeiras Rosa e Maria Ramalhuda, o rufia das patilhas e outras personagens menores. Contudo a questão da prostituição e da malandragem que as explorava era real e consta, por mais de uma vez, nas relações das posturas dos séculos XIV e XV.

Reais são, também, todos os atos que envolvem os castelhanos e a ação do Mestre de Avis e de D. Nuno Álvares Pereira. Também Afonso Galo e Diogo Lopes Pacheco são personagens reais, assim como tudo o que lhes aconteceu. A questão da jurisdição da mina da Adiça foi durante décadas uma preocupação dos almadenses, bem patente nas atas camarárias. O tesouro da mulher do infante D. João encontrado em S. Domingos também é real. Como é real a questão das crianças almadenses que o rei castelhano fez reféns. Verdadeira é também a contenda existente entre o Condestável e o capitão castelhano Pedro Sarmiento, que com Castanheda foram os capitães que cercaram Almada.

Reais são, igualmente, o almadense que, na última semana do cerco, atravessou o Tejo seis vezes para levar e trazer mensagens para e do Mestre e, igualmente, o almadense traidor que delatava, aos castelhanos, os barcos de víveres que vinham de Santarém. Nestes dois casos, limitei-me apenas a dar-lhes identidade em função das necessidades da narrativa.

Tudo o que diz respeito à religião: as obrigações, as devoções e as peregrinações, tudo isso fazia parte do quotidiano do homem medieval.

Diria, para finalizar, que, globalmente, o romance retrata a verdade histórica, aqui e ali pincelado pela imaginação do autor, mas dentro do verosímil pelo que, até por isso mesmo, podia muito bem ter acontecido.

Tendo em conta a sua formação em História como funciona o seu sistema de pesquisa?
A minha pesquisa histórica está, à partida, facilitada pelo facto de ser licenciado em História. Sem desprezar a historiografia e o que os grandes mestres teorizaram sobre as questões fundamentais da nossa história, gosto, principalmente, de ver os documentos originais. Quando alguém cita alguém gosto de ler o citado. Depois, se falamos sobre uma data, é importante saber como se vivia nessa época: como se comia, como se vestia, como se divertia, como se amava. Diria que as questões da sociedade, mesmo as mais comezinhas, são fundamentais para dar credibilidade à trama. É impossível escrever um romance histórico sem se estar impregnado do perfume da época. Depois, a linguagem e os conceitos. Se não sabemos escrever como o Fernão Lopes, devemos, no mínimo, utilizar uma linguagem mais coloquial, utilizando, inclusive, um mínimo de termos que, tendo caído em desuso, sejam perfeitamente compreendidos pelos leitores atuais. Isso aprende-se lendo os clássicos, neste caso Fernão Lopes, D. Duarte, Francisco Rodrigues Lobo, Fernão Mendes Pinto ou Gil Vicente.

Para quando um novo trabalho? Será que nos pode adiantar um pouco do que
trata?
O meu próximo trabalho, que será publicado, certamente, ainda este ano, tem por título “Um Certo Incerto Alentejo”, e acaba de ganhar, como já disse, o 1º Prémio Literário Joaquim Mestre. Trata-se duma sátira desbragada sobre uma certa realidade social caraterística do mundo rural e, em particular, do Alentejo. Narrada como uma boa anedota alentejana, tem, por isso, a pretensão de se constituir como o reflexo mais vasto da sociedade portuguesa atual.

Construída a partir de uma incerta Reserva Florestal, pulmão, coração e estômago de Azarelhas, a aldeia que lhe dá o nome, nela perpassa toda a vida política, social, cultural, económica e religiosa dum microcosmo onde, durante anos, muito pouco parece ter acontecido.

Em Azarelhas, os poderosos, personificados no senhor barão e no esfacelado administrador da Reserva, morreram ou estão em decadência acelerada. O que não está em decadência, prospera e recomenda-se é a cunha, o saco azul, a gestão danosa, a corrupção, o peculato e o branqueamento de capitais.

Mas “Um Certo Incerto Alentejo” é, também, a história de um mistério amável que liga uma morte inexplicável e uma investigação errática, perfeitamente adequada à cadência natural dos alentejanos, em geral, e dos “azarelhos”, em particular. Uma história onde ninguém está inocente. Nela, todos trafulham, todos roubam, todos mentem, e todos, como bons alentejanos, se fecham em copas porque, no Alentejo, nunca se viu ninguém estar interessado em condenar o seu semelhante. Como diz o benquisto padre Miguel, quando explica o episódio da mulher adúltera à sua assembleia de encortiçadas azarelha, «quem estiver inocente que atire a primeira pedra».

Mas a pacatez desta incerta aldeia alentejana vive, sem o saber, suspensa das forças ocultas geradas pela praga do nemátodo do pinheiro bravo e pela inspeção que a Direção-Geral de Florestas mandou executar.

Contada no presente do indicativo por um narrador que parece conhecer a trama apenas por alto, a história acompanha, do início ao fim, o percurso pouco empolgante do novo administrador da Reserva, um jovem engenheiro florestal acabado de sair da Universidade, por sinal, também alentejano. Administrador, que herda a menina Judite Corriola, uma capitosa balzaquiana, a mais notável das secretárias e a mais infeliz das criaturas no seu afã insano de romper definitivamente o véu duma virgindade que, malgrado todos os seus esforços, teima em chegar incólume até aos trinta e oito anos de idade.

Por isso, e por muito mais que só a leitura o revelará, “Um Certo Incerto Alentejo” é uma história definitivamente amoral, mas feita essencialmente daquela amoralidade alentejana que foge ao estigma e ao sentimento de culpa. Como ninguém é inocente nesta história, a maldade é relativa e a redenção tanto se faz na igreja como nos balcões das tabernas onde o sangue de Cristo ronda sempre os 14 graus. Como o narrador conclui, a dada altura, «se todos fôssemos à missa ao mesmo sítio, não haveria catedrais que chegassem».


















MBarreto Condado




Fotos amavelmente disponibilizadas pelo escritor António da Costa Neves

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

CRÓNICA | Infância | MBARRETO CONDADO

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”

*
A infância do Nunes decorreu dentro da normalidade podre que reinava na sua casa. O menino não podia correr porque o velho pai não gostava, não podia falar porque a sua voz o irritava, não podia tocar em nada porque podia partir o espólio que tanta lábia lhe custara a amealhar às já parcas velhas senhoras endinheiradas de Lisboa.

Uma coisa era certa com a sabedoria e sageza do velho pai quando o menino morresse tinha diversos jazigos bem localizados dentro do cemitério do Alto de São João por onde escolher passar a eternidade, até porque como se sabe na alta roda lisboeta mesmo depois de morto tem que se manter a posição social independentemente de como esta tenha sido adquirida. Já as idosas senhoras e as suas respectivas famílias não teriam a mesma sorte, teriam sim o privilégio de escolher um qualquer lote suburbano onde penar pelo seu triste fadário.

O velho pai mantinha, no entanto, enormes expectativas para este filho, tentando criá-lo à sua imagem e semelhança não fosse a diferença de alturas que por esta altura já os separava por uns bons dez centímetros a favor do Nunes. Pouco letrado, mas com o douto conhecimento que a vida lhe dera, o velho pai conseguiria incutir-lhe o mesmo princípio pelo qual regera toda a sua vida: “Não interessava como obtinha tudo o que se queria ter desde que o fizesse”. E assim Nunes aprendeu a sua primeira grande lição, isso e aprender a dizer restaurant carregando bens os erres e a usar o plastron a envolver-lhe o pescoço cheio de acne por não deixar a pele respirar devidamente.

O Nunes entrava na adolescência com as expectativas do pai a cairem por terra tal como a presunção de o vir a casar um dia com a princesa Vitória da Suécia e poder assim, ter um filho a quem todos chamariam de rei ainda que fosse consorte. 

Nunes acabava por ser também ele a sua má sorte.


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

DIVULGAÇÃO LITERÁRIA| Apagar Estocolmo de Jens Lapidus | Editora Suma de Letras

A história de pessoas que tentam apagar o seu passado..


Finalista Prémio da Academia sueca de Escritores de crime

(como melhor romance policial sueco).

Sobre o autor:

Jens Lapidus, brilhante advogado criminalista em Estocolmo, serve-se da sua experiência profissional, que lhe oferece uma visão privilegiada, para escrever as histórias cruas e realistas que estão a conquistar o mundo. Autor comparado com James Ellroy pela crueza e realismo da sua prosa, os seus thrillers são aclamados pela crítica e pelo público nos mais de 20 países onde é publicado. Algumas das suas obras foram adaptadas para o cinema e os direitos de “Apagar Estocolmo” já foram também vendidos para o cinema.

Sinopse da Obra:


Quando o alarme de uma casa dispara em Värmdö, uma ilha do arquipélago de Estocolmo, um guarda acode, temendo uma invasão. Mas o que encontra está longe de ser comum: um corpo não identificável, brutalmente assassinado. Para complicar ainda mais as coisas, depara-se com um jovem ferido perto da cena do crime — um homem que a Polícia considerará o principal suspeito.
Emelie Jansson, uma jovem e prometedora advogada, recém-admitida numa conhecida firma de advogados, assume o caso do jovem, apesar da discordância do seu chefe. A apoiá-la está Teddy, um ex-presidiário que tenta permanecer no lado certo da lei, trabalhando como investigador para a firma de advogados. Mas Teddy tem os seus próprios problemas — nomeadamente, o seu rebelde sobrinho, que está prestes a seguir os passos criminosos do tio.
Quem é a vítima do assassinato e quem é o assassino? E por que é que todos os caminhos parecem conduzir a Mats Emanuelsson, um homem que Teddy sequestrou em tempos? Enquanto Emelie investiga, Teddy deve confrontar-se com o passado e salvar o sobrinho de um destino problemático. Rapidamente, os três ficam presos num jogo arriscado que ameaça desfazer as suas vidas.





CRÓNICA | Noturno arco-íris | HÉLDER MENOR



A primeira viagem oficial do Presidente da Republica foi uma romaria ao representante de Deus na Terra. Acalmem-se os beatos crismados, os moralistas republicanos e os mata-frades de serviço, que não pretendo teorizar sobre o catolicismo num país laico. Apenas constatar. Constatado está.

Aqui há uns anos, assisti de longe à penitente e pedonal peregrinação de um vereador que depois de ser eleito, caminhou da margem-sul até à Cova de Iria. O autarca peregrino era militante comunista.

Ambos, presidente e vereador, foram agradecer a um remoto divino a graça da acumulação dos votos na urna.

Debaixo das pedras de mil anos de catolicismo romano, que incluem os duzentos anos de santo-oficio, não foi possível, ainda (e felizmente!) converter completamente este povo aparentemente submisso. Por mais que sejam as camadas de asséptica cal sobrepostas no painel de azulejos, não se conseguiu ainda estripar aquilo a que o racionalismo chama arrogantemente de superstição. Batizados e confessados, muitos casados pela igreja mas de uma religiosidade popular politeísta, somos um povo de blasfemos com fé. 

Comunistas assumidamente ateus, fazem romagens à campa da Catarina Eufémia. Os socialistas em cargos oficiais são presença assídua nas  barrocas procissões do Santo Cristo nos açores. Muitos sociais-democratas fazem questão de, ao domingo, assistirem circunspectos à santa missa. Os centristas, antes de serem populares já eram católicos apostólicos.

Quando chega à altura das eleições é um corrupio de promessas. Para lá das públicas promessas eleitorais, estão as secretas promessas mágicas e religiosas, negociadas taco a taco com um qualquer Deus. Há nas vidas, praticas politicas e dos políticos, todo um registo transversal de recorrência a alianças com o sagrado. Velinhas e galinhas na encruzilhada para ganhar eleições.

Tudo normal e natural numa terra de milagres. Mas tudo feito com o pudor e o secretismo necessário à imagem pública do racionalismo cientifico obrigatório, aqueles que querem ser levados a sério. Seja o que for que isto quer dizer.

Um presidente de camara do norte do país, todas as primeiras segundas-feiras do mês, vai dar as sete voltas à capela do senhor da pedra em Matozinhos. Fá-lo em segredo, naturalmente. Há um conhecido deputado social-democrata que é visita frequente no gabinete de reconhecido astrólogo nas Amoreiras..., mas evita falar sobre o que vai lá fazer. Há uma senhora que foi ministra pelo partido socialista que participa recorrentemente em rituais de evocação das forças da natureza na noturna beleza romântica da serra de Sintra. Vai anonimamente e nunca entra nas fotografias do grupo. Diz quem sabe, que muitos comunistas deixam como vontade explicita de, após a sua morte, serem cremados e que as suas cinzas sejam depositadas na quinta da atalaia durante a festa do avante... Se acontece ou não, não sabemos. Diz-se que uma reunião da direção nacional do BE foi adiada porque duas pessoas da sua direção estavam num retiro de ayhuasca, procurando no êxtase e nas visões autoconhecimento e caminho. Diz-se porque as próprias não comentam sobre isso publicamente.

Nas áreas mais emocionais, como por exemplo, o universo desportivo, também o mágico e o sobrenatural emergem de mão dada na turbulência dos confrontos. Ainda com mais intensidade do que na politica. Ou com igual intensidade mas com menos pudor. No desporto as pessoas são mais genuínas do que na política e revelam mais de quem são.

Temos em direto um treinador que ganhou o campeonato europeu, a dizer, que o relacionamento que mantem com Deus (o seu Deus), foi fundamental para alcançar os resultados desportivos. Acredito que sim, que foi. E temos os bruxos e os mágicos, que se assumem como fornecedores de serviços aos clubes. E os jogadores que se benzem antes de entrar em campo. E as medalhas ao pescoço. E os galos e cordeiros sacrificados antes do jogo. E as chuteiras benzidas. E os concelheiros espirituais dos jogadores. A memória do Zandinga é algo que muitos de nós temos presente. E há o polvo vidente que adivinha resultados.

Dizia o escritor baiano de Itaparica, João Ubaldo Ribeiro, que se a macumba vencesse jogos de futebol, o campeonato estadual da Bahia acabava com empate técnico. Provavelmente terá razão.

Claro que enquanto povo, quando falamos nestes temas, no coletivo do café ou na impunidade das redes sociais, alteramos entre o jocoso e o criticismo. Mas em privado é diferente... Como povo bem-comportado que somos, obedecemos à imagem de um institucional catolicismo tradicional ou a um generalizado ateísmo cientifico social. Estatisticamente, somos católicos não praticantes, o que quer que seja que isto queira dizer. Mas para lá da estatística, e quando a incerteza e a adversidade aperta, está todo um manancial de magia e superstição para nos servir e a mostrar quem realmente somos:
-- "Doí-me a cabeça, vou pedir a alguém que me tire o quebranto!"
-- "Amanha, faço exame de condução, acende-me uma velinha"
-- "Será que ele tem outra? Veja lá aí nas cartas!"
-- "Caraças, esta equipa é só derrotas, temos de ir à bruxa".

E vamos às bruxas, às videntes, aos tarólogos e aos astrólogos.

Desenganados das científicas batas brancas, no silêncio com que lemos os horóscopos dos jornais, la vamos. E aprendemos onde moram os chakras. E recorremos aos templos e aos santos. E à corrente de libertação da quinta-feira. E fazemos promessas e mezinhas. E recorremos a feitiços e fetiches. E engolimos o corpo de deus materializado em pão. E usamos a figa. E desviamos os olhos quando nos cruzamos com um carro funerário.

Porque todas as ações e decisões são por si um infinito universo de possibilidades.

Se um decisor se vai consultar com uma vidente, está a assumir, mais que não seja perante ele próprio, a sua fragilidade e falibilidade das suas escolhas. E isso é bom. É bom quando quem exerce o poder, se apercebe da relatividade e do caracter efémero de todas as ações humanas, incluindo as suas.

Que venha a magia e o sobrenatural tempere o insonso cinzento dos dias.


Porque no fundo, bem lá no fundo, só há uma certeza: todas as certezas estão erradas!

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

PORTUGAL MAIS QUE SOL | Convidamos-vos a conhecer: O CROMELEQUE DOS ALMENDRES o Stonehenge do Alentejo | PAULO DA COSTA GONÇALVES



Mais antigo que o famoso Stonehenge, o Cromeleque dos Almendres, descoberto pelo investigador Henrique Leonor Pina, em 1964, aquando do levantamento da Carta Geológica de Portugal e reclassificado como Monumento Nacional a 29/01/2015 pelo Conselho de Ministros, é um dos maiores e mais importantes monumentos megalíticos do mundo, está localizado na Herdade dos Almendres, a cerca de 12 Km de Évora e a 4,5 Km da aldeia de Nossa Senhora de Guadalupe, faz parte do denominado "universo megalítico eborense", sendo um sítio arqueológico fácil de encontrar bastando seguir as indicações a partir da aldeia de Nossa Senhora de Guadalupe.


Como recinto megalítico, edificado entre o final do 6º e o 3º milénio a.C., é o resultado, por um lado, de uma evolução construtiva de vários milénios e, por outro lado, das transformações vividas pelos seus construtores nas vertentes económicas, sociais e ideológicas originadas pela sedentarização dos povos ibéricos durante o Neolítico.
Constituído por dois recintos distintos, dos que se pensa terem sido mais de cem monólitos graníticos das mais diversas formas e tamanhos, restam hoje noventa e cinco situados ao longo de uma suave encosta tipicamente alentejana e cujo local mantém uma mística de tempos esquecidos, mas que facilmente nos transporta às suas origens. Ou seja, à era de encantamento pagão onde o homem de caçador que acompanhava as migrações sazonais das suas presas, passou a cultivar a sua própria terra e a criar os seus próprios animais para pastoreio e consumo fazendo então nascer e crescer populações com personalidades bem definidas.


Tendo tido o seu início há cerca de 7.000 anos, mais 2000 que Stonehenge, o Cromeleque dos Almendres foi erigido em três etapas: os três círculos concêntricos de monólitos em forma ovóides remontam ao Neolítico Antigo; o recinto com duas elipses irregulares terá sido construído durante o Neolítico Médio; e no Neolítico Final, ambos os recintos terão sido modificados para a forma que mantêm até aos nossos dias.



Na sua maioria os monólitos são em forma mais ovoide, no entanto existem inúmeras pedras de proporções maiores, designados megálitos de forma fálica. Uma dessas pedras alçadas e de tamanho descomunal, embora estando isolada é o Menir dos Almendres que quando visto a partir do Cromeleque no solstício de verão aponta ao nascer do sol (no hemisfério norte o solstício de verão ocorre por volta do dia 21 de junho).

 


A verdadeira função do Cromeleque e do Menir dos Almendres não é precisa, até porque na “decoração” dos monólitos, do cromeleque, constata-se a presença das denominadas "covinhas" ou linhas sinuosas e radiais. Muitos deles, quer pela profusão da “gramática decorativa”, quer, pelo seu posicionamento estratégico no seio de todo o conjunto, parecem assumir o papel de autênticos "Menires-Estelas”, mas, os historiadores acreditam que tratando-se de um sítio cultural com uma forte carga mágico-simbólica para os povos que por ali se estabeleceram, ao longo dos séculos, com raízes seguras o fecundar das terras via falos em pedra seria um culto à fertilização das mesmas para a lavoura pelo que parece inegável que ambos aparentam uma forte ligação à agricultura e pastoreio desse período.
Disponível às visitas 24h e guardando o respeito, que é devido pelo lugar em si, é também um local sossegado e com um esplendor cuja aura mágica envolvente propícia a um piquenique enquanto aprecia a vista.


Fotos: Paulo Da Costa Gonçalves


Diagrama (foto 2): Anyforms, de acordo com proposta de datação de Mário Varela Gomes

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

CINEMA | As Estrelas não Morrem em Liverpool | NOS CINEMAS A 8 FEVEREIRO

Baseado na autobiografia de Peter Turner, AS ESTRELAS NÃO MORREM EM LIVERPOOL, conta a história da alegre e muito apaixonada relação entre Turner (Jamie Bell) e Gloria Grahame (Annette Bening) uma excêntrica atriz outrora vencedora de um Óscar, mas já afastada da ribalta e que tenta relançar a carreira nos palcos de Liverpool.
O que começa como um vibrante caso amoroso entre uma lendária femme fatalle do grande ecrã e um jovem ator, depressa se torna em algo mais profundo, com Turner a tornar-se na única pessoa em que Gloria pode confiar. A sua paixão e sede de viver serão, contudo, postas à prova por eventos fora do seu controlo.

Realizado por Paul McGuigane, o filme conta ainda no elenco com Julie Walters, Vanessa Redgrave e Stephen Graham.



CRÓNICA | Entrelinhas | VANESSA LOURENÇO


O cão velho atravessou-se no meu caminho e informou-me educadamente que seria da sua autoria a minha primeira crónica neste jornal. Não que tenha dito muito para me convencer, era de poucas palavras. Trancou nos meus os seus olhos parcialmente vidrados e ramelosos, e disse apenas:
- Tens alguma ideia melhor?
Durante alguns segundos quis contrariá-lo e apresentar-lhe uma alternativa digna de um filme de cinema ou de uma história daquelas que alimenta a fogueira uma noite inteira, mas não me surgiu nada. Frustrada e irritada com a impertinência, devolvi-lhe:
- Aposto que tens pulgas.
Inclinou ligeiramente a cabeça e estreitou os olhos, e a infantilidade da minha resposta atingiu-me como uma paulada nas costas. Envergonhada, mas sem querer dar parte fraca, revirei os olhos e acrescentei:
- Se tiveres pulgas, posso ajudar-te com isso.
Ergueu um sobrolho grisalho e escancarou os olhos, antes de rebentar numa gargalhada. Eu nem sabia que os cães se podiam rir e senti-me corar. Rodou sobre si mesmo várias vezes e por fim lançou as patas dianteiras às minhas pernas, de uma forma surpreendentemente ágil para um cão velho. Ainda envergonhada, acariciei-lhe a cabeça por trás das orelhas e sentei-me no chão arenoso à frente dele. Pousou nas minhas pernas as patas encardidas, munidas de unhas compridas, e disse-me:
- Aqui tens a tua primeira crónica. A primeira de muitas.
Surpreendida, ergui o sobrolho e cruzei os braços sobre as pernas, inclinando-me para a frente para o ouvir melhor. Perguntei-lhe:
- O que queres dizer? Não me contaste história nenhuma!
Estreitou os olhos, mas desta feita não havia uma gota de sarcasmo neles. Apenas sabedoria, e uma secreta satisfação. Disse-me:
- Existem outros como tu, não duvides. Seres humanos cujas vidas são salvas e inspiradas todos os dias pelos animais que amam e se cruzam no seu caminho. Pessoas que páram na rua para falar com animais desconhecidos, e que partilham os seus sonhos e anseios com os animais que partilham as suas vidas. Essas pessoas precisam de saber que fazem parte de um grupo imenso de seres humanos que não só respeita os animais com quem partilha a vida todos os dias, como lhes reconhece uma complexidade que a sociedade tarda em lhes atribuir.
Abri a boca para falar, mas não saiu nenhum som. Ele colocou de novo uma das patas na minha perna e estreitou os olhos num sorriso. Acrescentou:
- Existem pessoas que falam connosco e esperam para nos ouvir. É com essas pessoas que vais partilhar estas crónicas e partilhar sorrisos de reconhecimento, com essas pessoas que acreditam que por vezes, os maiores tesouros da vida são deixados nas entrelinhas... e nos são desvendadas por aqueles que caminham em quatro patas ou nasceram para cruzar os céus com as suas próprias asas.