segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

CRÓNICA | Abandono | VANESSA LOURENÇO


Ela tinha-o deixado e não voltaria. Dos olhos cansados, adornados de profundas covas em resultado das excessivas noites sem dormir, transbordava a inquietação e o imerecimento daqueles que são abandonados por alguém que não deixa rasto algum. Ele não valia nada, porque ela achava que ele não valia nada. E até o apartamento que ambos tinham partilhado tinha de súbito sido reduzido a um esqueleto sem vida, agora que ela tinha levado consigo tudo o que o iluminava.

Bateu a porta com força e desceu, galgando os lanços de escadas do prédio envelhecido, com a determinação de quem espera a todo o instante acordar de um sonho mau. Chegou junto da porta da rua, envidraçada e parou. Durante uns instantes, olhou através dela para o mundo lá fora e subitamente, tudo lhe pareceu demasiado grande, avassalador. Hesitou, e durante um instante que pareceu durar uma eternidade ficou apenas ali, em suspenso. Mas no instante seguinte tudo ruiu: deixou-se cair de joelhos no átrio escurecido da escada e cobriu a face com ambas as mãos, os olhos cerrados com força, num esforço inútil para conter o grito que logo em seguida ecoou pelos andares do prédio e fez levantar voo os pombos que preguiçosamente arrulhavam ao sol lá em cima, no telhado. Que o ouvissem, que zombassem dele. Já não queria saber.

Abriu vagarosamente os olhos e a primeira coisa que percebeu, foi que tinha encharcadas as palmas das mãos. Limpou-as demoradamente nas calças e através dos olhos turvados pelas lágrimas, apercebeu-se da segunda coisa: havia um pequeno vulto do lado de fora da porta, observando através do vidro. Esfregou os olhos com as costas das mãos, fungando, levantou-se e sacudiu as calças com as mãos ainda húmidas. Olhou de novo e franziu o sobrolho: era um gato. Um grande gato branco com manchas amarelas e castanhas. Seria uma gata? Lembrava-se vagamente de ter lido algures, que os gatos tricolores eram normalmente fêmeas. Riu de si próprio. O que lhe importava isso? Avançou para a porta de vidro e abriu-a, esperando que o pequeno animal se assustasse e desaparecesse na rua, mas o gato não fugiu. Pensou em lhe acariciar o lombo felpudo, mas ocorreu-lhe que com as mãos ainda molhadas iria ficar com elas cheias de pêlo. Conteve o gesto e avançou pela rua, deixando o gato para trás. De mãos nos bolsos, percorreu as ruas que tão bem conhecia e pensou, com um sorriso triste, que tinham perdido toda a familiaridade. Em breve suspirou e mecanicamente regressou ao prédio onde morava, de olhos colados aos passos arrastados. Quando se aproximou novamente da entrada do prédio e retirou do bolso das chaves, sem se deter, deu subitamente um salto para trás: por muito pouco não tropeçara no gato que ainda se mantinha junto da porta, onde o tinha deixado algum tempo antes. Porque não se tinha ido embora? Baixou-se e, desta vez, acariciou a cabeça do gato, passando o polegar na testa macia e abraçando com o anelar e o dedo minimo o queixo felpudo. Este (ou seria esta?) ergueu lentamente a cabeça e ronronou, fechando os olhos. Ele não era nenhum expert em gatos, mas depressa percebeu que algo não estava bem: tentou erguer o gato do chão e o seu imenso corpo peludo ficou hirto, o que se fez acompanhar de um gemido baixinho. 

Alarmado, não perdeu mais tempo: com o gato nos braços, galgou no sentido inverso as escadas do prédio e entrou em casa. Pousou com cuidado o gato no sofá, afastou de par em par os cortinados das janelas para que entrasse luz e deu-lhe água. De seguida correu a tomar um banho, vestiu-se e rumou ao veterinário mais próximo.

Assim que chegou a sua vez, explicou detalhadamente o que tinha acontecido, apenas para reparar que nos lábios da veterinária se desenhava lentamente um sorriso. Antes que a pudesse questionar, ela disse:

- Infelizmente muita gente teria ignorado o sofrimento deste animal, você é um homem bom. Obrigado.

Apanhado de surpresa, engoliu em seco e entreabriu os lábios para responder, mas deles não saiu nenhum som. Ele era um homem bom?

De regresso a casa, a gata malhada já fazia parte da sua familia. Não voltaria a sofrer nas ruas e precisava de medicação, por isso não poderia ser de outra maneira. Assim que entrou no apartamento com a gata aninhada nos braços e o saco da farmácia pendendo-lhe de um dos pulsos, porém, estacou. Esquecera-se de que tinha afastado os cortinados, e o apartamento estava aquecido e iluminado pela primeira vez em muito tempo. Olhou demoradamente a gata que tinha ainda nos braços e ela devolveu-lhe o olhar, um olhar brilhante... e grato. Sem tirar os olhos dos dela, sentou-se no sofá e deixou cair o saco. Ainda dorida, ela ajeitou-se com as patas estendidas no peito dele e ronronou. Ele suspirou e disse ao animal:

- A doutora disse que eu sou um homem bom porque não te ignorei..., mas foste tu que me encontraste. E agora, o meu apartamento voltou a ter luz, voltou a ser a minha casa. A nossa casa.

Desviou os olhos dos dela por um instante, sentindo-se envergonhado, antes de acrescentar:

- E eu não tomava banho há algum tempo...

A gata pareceu sorrir e esticou-se para lhe tocar o queixo com o narizinho rosado, como se compreendesse. Acariciou-lhe demoradamente a testa com o polegar, a ternura a transbordar dos olhos de ambos com uma intensidade capaz de fazer do mundo um lugar melhor. Por fim, sorrindo, ele disse à gata malhada:

- A ser verdade que te salvei a vida, tu não fizeste menos por mim. Serás tu um anjo que caminha em quatro patas?

domingo, 11 de fevereiro de 2018

CRÓNICA | Amor Fraternal | MAFALDA PASCOAL


Pudera eu ser
Inspiração...
Para fazer brotar o teu Amor Infinito
Fazer despertar dentro de ti
Todas as partículas divinas de que é feito
O teu Ser Superior...
Relembrar-te,
Tudo o que te propuseste fazer
Que ao ficares envolto no veículo da tua evolução
Esqueceste
E jamais podes esquecer
Que tens que evoluir
Tens que ser altruísta
Ao ponto de amares
Cada ser que existe
Seja humano
Seja animal
Seja vegetal...
Se tudo existe
é porque tem que existir
Nada é sem razão de o Ser
Tens que acreditar
Que tudo acontece
Na hora e no lugar certo
Todos os males vêm por bem
Porque isso nos ajuda à interiorização, à meditação
E nesse estado de espírito
Transformamo-nos em melhores seres...
Nunca devemos esquecer
Que todos estamos começados
Mas nenhum de nós está acabado
E assim
Todos devemos evoluir
A cada momento que passa
Porque tudo está em constante movimento
Em constante mutação
Por isso
Não podemos estagnar no espaço e no tempo
Para não cristalizar...
Vamos, pois, todos em conjunto
Espalhar Luz e Amor
Em todos os corações
Ávidos de um pouco de paz...    



LITERATURA | A Febre das Almas Sensíveis de Isabel Rio Novo | DOM QUIXOTE

Romance Finalista do Prémio Leya
Nas livrarias a 13 de Fevereiro


Portugal, primeira metade do século xx. Entre os males que assolam um país isolado e retrógrado, a tuberculose ressalta como uma das principais causas de morte.

Ainda sem recursos farmacológicos para combater a doença, os médicos recomendam aos infetados o internamento em sanatórios instalados em zonas de altitude. Na serra do Caramulo, outrora uma região pobre e agreste, cresce uma estância sofisticada que, no auge do seu funcionamento, chega a acolher milhares de doentes.

Entre o edifício do Grande Sanatório do passado – onde o drama do jovem Armando se cruza com o dos outros pacientes –, os escombros do presente, visitados por uma rapariga que coleciona histórias de escritores tuberculosos, e as páginas escritas pelo misterioso «R. N.», movem-se almas de todos os tempos: Eduardo, Natália, Carolina e Ernest, mas também Soares de Passos, Júlio Dinis, António Nobre e tantos outros atingidos pela febre das almas sensíveis.

CRÓNICA | Assédio ou não, eis a questão | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO


Recentemente temos assistido à divulgação pública de diversos casos de assédio. Começou, de forma mais séria, e, ao que parece, sustentada, com uma acusação ao produtor norte-americano Harvey Weinstein, ao que se lhe juntaram várias actrizes a corroborar a acusação de assédio, violação e chantagem sexual.

De imediato, algumas das chamadas figuras públicas multiplicaram-se nestas confissões e desfilam, um pouco por todo o lado – incluindo Portugal -, numa parada de moralismo, dizendo terem sido assediadas por este e aquele. Alguns homens, nomeadamente actores internacionais de topo, queridos desde sempre do grande público, viram as suas vidas pessoais e as longas e brilhantes carreiras arruinadas numa fracção de segundo.

A situação tomou proporções tais que um grupo de mulheres, onde se encontra a conhecida actriz francesa Catherine Deneuve, veio em sua defesa, afirmando que é necessário denunciar situações como a de Weinstein, mas que não se pode generalizar e que estas acções provocaram uma nova vaga de puritanismo, assente num discurso de ódio contra os homens.

Tenho quase a certeza que muitos homens por este mundo fora ficaram com os neurónios a fumegar, ao vasculhar apressadamente nas memórias mais recônditas, à procura de algum avanço mais intenso e alguns terão mesmo rezado a todos os santinhos para que as inocentes insinuações não passassem disso mesmo, na mente dos alvos dos seus desejos.

Neste ponto, e sem querer defender este ou aquela, há algumas questões que, inevitavelmente, assaltam a minha mente: ao que é que se poderá chamar assédio ou simples insinuação? Quantos de nós, mulheres e homens, podemos dizer nunca ter sido assediados, ou alvo de insinuações mais ou menos intensas e como lidámos, ou lidamos, com isso?

Assediar sexualmente é cercar o outro; é perseguir com insistência, importunando com tentativas forçadas de contacto sexual. A insinuação é a forma de alguém dar a conhecer ao outro, subtilmente, as suas intenções, os seus desejos e objectivos. Sem insinuação não haveria sedução, aquele maravilhoso jogo amoroso em que tanto se diz sem palavra nenhuma. Ninguém intuiria o que o outro deseja ou sente. Ninguém se sentiria desejado o que, admitamos, tornaria as nossas vidas muito menos coloridas, sem aquela dose de “filme cor-de-rosa” que nos faz sentir o coração a bater mais depressa e nos arrepia deliciosamente a pele e que todos, bem lá no íntimo, desejamos experienciar. A insinuação alimenta-nos os sentidos, o ego e faz-nos sentir vivos. 

Não devemos confundir a perseguição com a simples demonstração de sentimentos ou desejos. Uma é negativa, a outra não. Uma pode ser destruidora, a outra pode ser construtiva e saudável – grandes amores já nasceram de uma simples insinuação.

Parece-me que, além do modo como devemos discernir entre uma forma e outra, não confundindo as situações e pondo tudo no mesmo patamar, é extremamente importante como escolhemos viver qualquer uma das situações. Se com uma insinuação indesejada temos, tantas vezes, o cuidado, a sensibilidade de tentar não magoar os sentimentos do outro, no caso do assédio creio que deve ser feito precisamente o contrário. Acredito que qualquer assédio deve ser prontamente denunciado. Não se deve esperar décadas para o fazer, como no caso de algumas alegadas vítimas de Weinstein. Quanto mais tempo passa, mais tempo o autor do comportamento indevido tem para continuar a molestar as actuais ou novas vítimas. É importante travar o comportamento abusivo. É importante afastarmo-nos o mais possível desse tipo de pessoas. É importante termos amor-próprio. Os assediadores nunca se ficam por uma vez, ou duas… aquilo há-de continuar; até a vítima se libertar. Poderão dizer que no caso de um chefe, um patrão, a coisa é mais difícil… o emprego… a estabilidade… mas qual estabilidade?! Alguém que vive uma situação de assédio no local de trabalho não tem estabilidade; é impossível tê-la; e rapidamente essa instabilidade se estende a outras áreas da sua vida. É aqui que entra o amor-próprio, que nos dá a coragem de viver dignamente e em paz e nos faz romper com uma situação indesejada, mesmo que isso signifique mudar de local de trabalho. Nada vale mais que o nosso bem-estar, a nossa tranquilidade.

Creio que, mulheres e homens – eles também são vítimas de assédio e cada vez mais -, numa situação destas deverão usar de bom senso para pôr as coisas no seu devido lugar, ao invés de irem com a corrente, como se de uma moda se tratasse, adoptando posteriores posturas extremistas e levando tudo à frente como um bulldozer. Se é verdade que há pessoas que merecem o rótulo de assediadores e devem ser tratadas em conformidade, não é menos verdadeiro que há outras que estão muito longe disso e não devem ser “metidas no mesmo saco”.

A Catherine Deneuve diz que isto despoletou uma vaga de puritanismo – falso, bem entendido; eu digo que o ser humano sempre gostou de uma boa “caça às bruxas”.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

DIVULGAÇÃO LITERÁRIA | A Vida é Um Tango e Outras Histórias de Cristina Norton | OFICINA DO LIVRO

Nas livrarias a 13 de Fevereiro


Fiel às suas raízes argentinas, Cristina Norton segue, em A Vida É Um Tango, a tradição dos grandes contistas latino-americanos. As suas histórias transportam-nos à Argentina, ao México, a França e a Portugal, dando-nos a conhecer um cleptómano que rouba a voz de um grande cantor, uma pintora com uma vida insólita, uma mulher que lê o destino nas folhas de chá, um anão bombeiro, uma menina malcomportada, a perna perdida de uma grande artista, a vingança póstuma de uma sogra, entre outras personagens e coisas memoráveis.

Algumas destas histórias são fruto das vivências da autora, como «A Mãe da Plaza de Mayo». Outras, do seu hábito de observar o quotidiano sob uma perspectiva irónica e cheia de picardia. Como foi o caso de duas mulheres muito parecidas num consultório, onde aguardam a chegada de um homem, episódio que inspirou o conto «O Bígamo». Imagens rápidas como flashes, que levam Cristina Norton a escrever rascunhos, com a rapidez de quem esboça uma paisagem, para depois os trabalhar até atingirem a forma redonda de um conto, serem um relato curto, mas intenso, para levar o leitor a lê-lo de uma assentada.




REFLEXÕES OCASIONAIS | Este país não é para Velhos?! | ISABEL DE ALMEIDA

   O facto de os partidos em maioria na Assembleia da República terem chumbado as propostas do PAN e do CDS-PP com vista à criminalização do abandono de idosos não constitui uma novidade assim tão grande para quem esteja familiarizado com a temática do envelhecimento, e com a forma como esta fase normativa do ciclo de vida humano é equacionada em termos psicológicos, demográficos, sociais, pessoais e profissionais.

   Quem acompanha o estudo das problemáticas inerentes à população idosa sabe que estamos a atravessar uma fase demográfica de envelhecimento nos países mais desenvolvidos (e mesmo naqueles que se arrogam tal estatuto, como o nosso, só não sei se o mesmo é merecido aqui para o rectângulo à beira mar plantado...perdoem-me o desabafo, mas quem me lê bem sabe que ando triste com a nacionalidade que me coube em sorte). 

   Em concreto em Portugal, e mais genericamente noutros países com melhores condições económicas do que o nosso, não se encontra assegurada a chamada renovação de gerações, por um conjunto de razões concorrentes das quais passo a enumerar algumas sem qualquer pretensão de estar a escrever um artigo de natureza científica: o aumento da esperança média de vida, a insuficiência da taxa da natalidade para que existam mais jovens do que idosos, casamentos tardios ou o legítimo direito exercido por muitas mulheres de não virem a ser mães, a crise económica que vem, naturalmente, refreando a vontade de muitas jovens famílias de contribuir para o aumento da taxa de natalidade, e muitas outras razões cuja enumeração tornaria fastidiosa a leitura desta crónica.

  Portanto, é ponto assente que a população Portuguesa está envelhecida, embora existam heterogeneidades na distribuição da população pelo território nacional, ao nível etário, que não se negam, mas que também não são bastantes para inverter a premissa supra assumida de que Portugal está a ficar velho!

   Mas se é certo que o país está a ficar velho, infelizmente, não é menos certo que, nitidamente, não é um país para velhos! E o que me leva a expressar esta opinião nem sequer é a polémica do momento ( do chumbo de propostas legislativas no sentido de criminalizar o abandono de idosos), o que me faz acreditar no que afirmo é o facto de debruçar a minha atenção sobre a temática do envelhecimento, no âmbito da minha formação em Psicologia, e das leituras que fiz (em sede de preparação e escrita de Dissertação de Mestrado) e que vou fazendo sempre que tenho oportunidade, é patente que a nossa sociedade sofre de um evidente estereótipo que dá pelo nome de Idadismo, o qual corresponde a um juízo negativo ou mesmo a uma aversão pelo avançar da idade, ou pelos idosos (em termos muito simples). 

   O Idadismo pode mesmo ser uma ideia inconsciente, e a ironia reside em que mesmo quem dele tem noção em termos teóricos nem sempre lida bem com o avançar da idade, e com as mudanças que este transporta consigo. Numa sociedade onde se endeusa a beleza, o bem-estar, a boa forma física, a ausência de doença física ou mental, onde alguém com mais de trinta anos é muito jovem para deixar a população activa, mas é olhado de lado pela grande maioria dos empregadores por ser considerado velho para exercer determinadas funções (já experimentaram tentar adivinhar a média de idades dos trabalhadores de grandes cadeias de retalho?), nomeadamente, tudo o que exija contacto com o público. 

   Porque razão muitos de nós tentamos mascarar o passar dos anos, e aqui em especial as senhoras são mestres nesta arte, pintando os cabelos para "tapar os cabelos brancos", apostando em tratamentos de beleza (alguns até dolorosos ou invasivos) para exterminar ou disfarçar rugas ou marcas da idade na pele?

   E em termos sociais e até legais, muito embora o abandono de idosos não se encontre taxativamente tipificado no nosso Código Penal, pessoalmente, entendo que o mesmo é passível de gerar responsabilidade criminal noutros moldes, mormente, pode ser enquadrado no crime de violência doméstica, desde que feita a devida prova junto das instâncias competentes. Este meu entendimento, que creio possa ser sufragado por outros cidadãos, bem revela que a rejeição da tipificação deste crime, e os argumentos utilizados em favor e desfavor desta decisão do foro político, são apenas a ponta de um imenso e assustador icebergue...

 Senão vejamos, perante o abandono efectivo de um idoso, por exemplo, num hospital, podem esconder-se razões mais ou menos criminosas. Há que reconhecer que não existem respostas sociais adequadas e bastantes para acudir aos inúmeros casos de dependência dos nossos idosos. Não existem lares de idosos suficientes para dar resposta a todas as situações de idosos dependentes, existem famílias que, de facto, não possuem condições financeiras que lhes permitam recorrer à institucionalização dos seus idosos, o ritmo acelerado da vida moderna, a impossibilidade em termos  logísticos e humanos de dar resposta a muitos casos de dependência extrema (idosos acamados, com demência, que carecem de equipamentos específicos para cuidados dignos, como camas articuladas, alimentação através de sonda) é real em muitas famílias, assim como também é real, infelizmente, e em muitas unidades de saúde públicas e privadas, a circunstância de ser a idade a determinar o empenho investido e a qualidade de cuidados de saúde prestados aos mais velhos. E aqui permitam-me um desabafo pessoal que atesta parte do que afirmo, nunca esquecerei o facto de certa unidade hospitalar pública (cujo nome não cito para não alimentar polémicas) haver dado alta hospitalar à minha avó materna (doente cardíaca, diabética e com 82 anos de idade) implicando um transporte em ambulância,  a decorrer de noite, com temperaturas baixas e uma viagem que implicou a travessia do Tejo).

   Ou seja, tocando mais na ferida, em teoria, o acto de abandono, ou de maus-tratos a idosos poderá não ter forçosamente como agente activo da sua prática um ou mais familiares, poderá suceder, e sucede todos os dias em diversas instituições! Mas claro, não se nega que os cuidadores familiares podem incorrer, e muitos até incorrem, na prática de vários ilícitos neste âmbito da violência contra idosos (que pode ser física, psicológica ou mesmo económica).

  Agora que algumas críticas foram expostas nestas reflexões perguntarão muitos leitores: então e soluções? Que soluções encontrar para este flagelo? Pois bem, não é fácil, nunca será imediata a resposta, mas pensar apenas no abandono descurando a extrema complexidade deste tema, que passa também por uma mudança de mentalidades (até no interior de cada um de nós) acaba por ser imensamente redutor. As soluções, que assumo tenham de revestir natureza política, precisam de reunir reflexões, estudos e empenho de profissionais de várias áreas, equipas multidisciplinares que comecem por inteirar-se daquilo que se passa no terreno ( e quantas vezes o processo legislativo em Portugal - neste ou noutro qualquer tema - é feito meramente na comodidade de um gabinete ou de uma mesa de reuniões repleta de lindíssimos copos de cristal, folhas de papel e canetas e as providenciais garrafas de água, sem que se conheçam as realidades fora daquelas quatro paredes?). 

  Seria também importante providenciar formação sobre estes temas às crianças e jovens em idade escolar, e a todos os profissionais que contactem com idosos, mormente, no âmbito dos cuidados de saúde, e, já agora, providenciar formação e apoio para cuidadores informais por todo o país.

  Podem dizer que sou uma sonhadora, mas quero muito acreditar que não estou sozinha!


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

ENTREVISTA | MBarreto Condado em Entrevista ao escritor António da Costa Neves | LITERATURA






Falei com o autor António da Costa Neves sobre o seu livro “O Implacável Cerco de Almada” com a chancela da editora Saída de Emergência.

Neste livro temos a possibilidade de ficar a conhecer um pouco mais sobre um dos períodos turbulentos da nossa História. A Crise de 1383-1385, a morte de D. Fernando, o Mestre de Avis como Regedor do Reino, a decisiva batalha de Aljubarrota e o cerco de Almada. 

António da Costa Neves é licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Durante anos, publicou regularmente poesia em diversos jornais e revistas. O seu primeiro romance “Mataram o Chefe de Posto” sobre a temática da Guerra Colonial ganhou o Prémio Literário Cidade de Almada 2007. “Nem por Sonhos” venceu o Prémio Revelação Manuel Teixeira Gomes 20062007. Em 2008, o romance “Adamastor” foi objecto de ensaio académico e tema de seminário na Universidade de Coimbra e de uma conferência na Universidade Complutense de Madrid. O romance “Mea Culpa!” foi em 2010, selecionado como obra de referência para o Concurso Nacional de Leitura do Ensino Secundário. Em 2016, com a obra “Trinta Sonetos Triviais” venceu o Prémio de Poesia e Ficção de Almada-Poesia.


Já este ano o autor ganhou o 1º Prémio Joaquim Mestre, promovido pela ASSESPA (Associação de Escritores Alentejanos), Direcção Regional de Cultura do Alentejo e Câmara Municipal de Beja, com a obra satírica “Um Certo Incerto Alentejo”.


Para um homem que é de “entre o Tejo e o Sado” o cerco de Almada tem certamente um impacto diferente do que teve o cerco de Lisboa. Terá sido esse o motivo que o levou a escrever este livro?
Quando em 2011 fui convidado pela UCCLA e pela Câmara Municipal de Almada para participar no II Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, na cidade de Natal, e após ter sido colocado no painel de Literatura de Viagens, cuja área não era, seguramente, a minha, a primeira ideia que me ocorreu foi falar sobre a “Peregrinação”. Na verdade, Fernão Mendes Pinto, depois de ter regressado a Portugal, tinha vindo viver para Almada, onde casou e foi cidadão exemplar, com uma atividade cívica relevante, tendo desempenhado alguns cargos públicos, nomeadamente, à frente da Santa Casa da Misericórdia de Almada.

Acontece que, tendo vivido em Moçambique durante dois períodos, antes e depois da independência, também eu tinha uma grande paixão pelas coisas do Oriente. Tendo, inclusive, escrito um romance sobre a passagem de Camões pela Ilha de Moçambique, “Adamastor”, onde, segundo Diogo de Couto, testemunha privilegiada e seu amigo pessoal, o poeta vivia muito pobre e comendo de amigos. Porém, o tempo que tinha para levar a cabo esse desiderato era muito curto. Além de que não estava interessado em repetir o que muitos, antes de mim, já teriam dito. Assim, optei por fazer uma pesquisa sobre a cidade de Almada e colocar-me no lugar de um guia turístico. A minha intenção passou, então, por tentar vender Almada aos brasileiros. E assim nasceu “Almada: Um Itinerário Literário, Pessoal e Transmissível”, uma conferência que realizei numa das sessões do Encontro e que repeti na Universidade do Rio Grande do Norte.

Foi durante essa pesquisa que me deparei, junto ao Tejo, num local conhecido por Fonte da Pipa, com uma pedras gastas pelo tempo, onde decifrei uma inscrição em que li os dois últimos versos da estância 35 do Canto VIII de “Os Lusíadas”: «Digno feito de ser, no mundo, eterno, / Grande no tempo antigo e no moderno!»

Estes versos lapidares levaram-me a descobrir e estudar o episódio a que se referiam, o que me levou à homenagem que a vereação de 1880 tinha querido prestar aos almadenses de 1384. De facto, segundo Fernão Lopes, nenhuma outra vila do Reino, como Almada, tinha sofrida tanto por amor ao Mestre.

Com base na “Crónica de D. João I”, mas também em inúmeros documentos que pesquisei no Arquivo Histórico de Almada, comecei a dar corpo a essa outra história. Acontece que em determinada altura tive acesso a duas escrituras assinadas, cerca de vinte anos após a Crise de 1383/85, por um escrivão almadenses chamado João Galo. Numa conversa com o historiador Alexandre Flores, insigne medievalista e na altura diretor do Arquivo Histórico de Almada, este disse-me que o conde dos Arcos, outro almadense notável, lhe assegurara que a família Galo tinha chegado até aos nossos dias.

Afonso Galo era o regedor (ou recebedor) de Almada, à data dos acontecimentos. Há uma rua na cidade a homenageá-lo e segundo Fernão Lopes terá sido preso pelos castelhanos no início do cerco.

Imaginei, pois, que o escrivão João Galo poderia muito bem ser filho do regedor Afonso Galo, e que, na altura, não passaria de um adolescente. Neste instante o livro começou a ser desenhado na minha cabeça. Por isso, o jovem João Galo é o narrador da minha história, um narrador privilegiado porque, sendo filho do regedor, ele é, também, parte integrante na narrativa. O facto de Fernão Lopes ter tido duas quintas aforadas à albergaria de S. Lázaro de Cacilhas, uma na Sobreda e outra em Vale Figueira, permitiu-me deduzir outros factos e extrapolar a fonte histórica que o cronista utilizou para narrar o que sobre Almada e os almadenses verteu na sua crónica.

Tudo isto deu-me a possibilidade de escrever sobre Almada, a cidade onde vivo há quarenta anos e que, até agora, nunca tinha sido cenário de nenhum dos meus livros. E isso, na verdade, também foi e é muito congratulante.

Este livro histórico levou-o a assinar com o seu nome e não com o seu
pseudónimo E.S. Tagino, por algum motivo em concreto? Como continuará a assinar as suas futuras obras daqui em diante?
Quando escrevi o meu primeiro livro e o apresentei, em 2007, ao Prémio Literário Cidade de Almada, tive de o fazer mediante um pseudónimo que construi a pensar nos dois rios que, desde sempre, têm basilado a minha vida: o Tejo e o Sado.

Com esta ideia de que “eu sou de entre o Tejo e o Sado” elaborei o pseudónimo E. S. Tagino. O livro “Mataram o Chefe de Posto” ganhou, nesse ano, o primeiro prémio a que tinha concorrido e foi assim, aos 62 anos, que consegui publicar o meu primeiro livro. Acontece que o meu editor gostou do pseudónimo e perguntou-me se não queria continuar a utilizá-lo. Aceitei e desde então publiquei com esse pseudónimo os meus primeiros oito livros. Quando, em 2017, dez anos depois, publiquei o “Implacável Cerco de Almada”, também foi o meu editor que me sugeriu que o assinasse com o meu verdadeiro nome. Era uma mudança, até porque ia fazer parte de uma nova coleção intitulada A História de Portugal em Romances. Acontece que, há dias, acabei de ganhar o 1º. Prémio Literário Joaquim Mestre, promovido pela Associação de Escritores Alentejanos, em parceria com a Direção Regional de Cultura do Alentejo e a Câmara Municipal de Beja, no qual utilizei, ainda, o mesmo pseudónimo. Assim o meu próximo livro “Um Certo Incerto Alentejo” irá ser assinado por E. S. Tagino.

Assim, é provável que, no romance histórico, opte pelo nome próprio enquanto, na ficção em geral, continue a fazê-lo através do pseudónimo.

“O implacável cerco de Almada” é-nos relatado pelos olhos do povo, o que aconteceu realmente e o que é ficcionado nesta obra?
Todos os factos históricos narrados no livro são verdadeiros e foram retirados, nomeadamente, da “Crónica de D. João I” e da “Crónica do Condestável”. O romance histórico tem, porém, a particularidade de, sem subverter a historiografia, o autor poder colocar em confronto personagens reais com personagens fictícias. O autor do romance histórico não pode, de modo nenhum, é abusar da sua imaginação, sob pena do romance passar a ser uma fantasia, quiçá um delírio.

Já falei em João Galo; como ele, todos os nomes dos seus amigos foram retirados dos livros da vereação da Câmara existentes no Arquivo Histórico de Almada. Naturalmente que a Ordem dos Guardiões do Castelo é pura invenção, como são invenção as soldadeiras Rosa e Maria Ramalhuda, o rufia das patilhas e outras personagens menores. Contudo a questão da prostituição e da malandragem que as explorava era real e consta, por mais de uma vez, nas relações das posturas dos séculos XIV e XV.

Reais são, também, todos os atos que envolvem os castelhanos e a ação do Mestre de Avis e de D. Nuno Álvares Pereira. Também Afonso Galo e Diogo Lopes Pacheco são personagens reais, assim como tudo o que lhes aconteceu. A questão da jurisdição da mina da Adiça foi durante décadas uma preocupação dos almadenses, bem patente nas atas camarárias. O tesouro da mulher do infante D. João encontrado em S. Domingos também é real. Como é real a questão das crianças almadenses que o rei castelhano fez reféns. Verdadeira é também a contenda existente entre o Condestável e o capitão castelhano Pedro Sarmiento, que com Castanheda foram os capitães que cercaram Almada.

Reais são, igualmente, o almadense que, na última semana do cerco, atravessou o Tejo seis vezes para levar e trazer mensagens para e do Mestre e, igualmente, o almadense traidor que delatava, aos castelhanos, os barcos de víveres que vinham de Santarém. Nestes dois casos, limitei-me apenas a dar-lhes identidade em função das necessidades da narrativa.

Tudo o que diz respeito à religião: as obrigações, as devoções e as peregrinações, tudo isso fazia parte do quotidiano do homem medieval.

Diria, para finalizar, que, globalmente, o romance retrata a verdade histórica, aqui e ali pincelado pela imaginação do autor, mas dentro do verosímil pelo que, até por isso mesmo, podia muito bem ter acontecido.

Tendo em conta a sua formação em História como funciona o seu sistema de pesquisa?
A minha pesquisa histórica está, à partida, facilitada pelo facto de ser licenciado em História. Sem desprezar a historiografia e o que os grandes mestres teorizaram sobre as questões fundamentais da nossa história, gosto, principalmente, de ver os documentos originais. Quando alguém cita alguém gosto de ler o citado. Depois, se falamos sobre uma data, é importante saber como se vivia nessa época: como se comia, como se vestia, como se divertia, como se amava. Diria que as questões da sociedade, mesmo as mais comezinhas, são fundamentais para dar credibilidade à trama. É impossível escrever um romance histórico sem se estar impregnado do perfume da época. Depois, a linguagem e os conceitos. Se não sabemos escrever como o Fernão Lopes, devemos, no mínimo, utilizar uma linguagem mais coloquial, utilizando, inclusive, um mínimo de termos que, tendo caído em desuso, sejam perfeitamente compreendidos pelos leitores atuais. Isso aprende-se lendo os clássicos, neste caso Fernão Lopes, D. Duarte, Francisco Rodrigues Lobo, Fernão Mendes Pinto ou Gil Vicente.

Para quando um novo trabalho? Será que nos pode adiantar um pouco do que
trata?
O meu próximo trabalho, que será publicado, certamente, ainda este ano, tem por título “Um Certo Incerto Alentejo”, e acaba de ganhar, como já disse, o 1º Prémio Literário Joaquim Mestre. Trata-se duma sátira desbragada sobre uma certa realidade social caraterística do mundo rural e, em particular, do Alentejo. Narrada como uma boa anedota alentejana, tem, por isso, a pretensão de se constituir como o reflexo mais vasto da sociedade portuguesa atual.

Construída a partir de uma incerta Reserva Florestal, pulmão, coração e estômago de Azarelhas, a aldeia que lhe dá o nome, nela perpassa toda a vida política, social, cultural, económica e religiosa dum microcosmo onde, durante anos, muito pouco parece ter acontecido.

Em Azarelhas, os poderosos, personificados no senhor barão e no esfacelado administrador da Reserva, morreram ou estão em decadência acelerada. O que não está em decadência, prospera e recomenda-se é a cunha, o saco azul, a gestão danosa, a corrupção, o peculato e o branqueamento de capitais.

Mas “Um Certo Incerto Alentejo” é, também, a história de um mistério amável que liga uma morte inexplicável e uma investigação errática, perfeitamente adequada à cadência natural dos alentejanos, em geral, e dos “azarelhos”, em particular. Uma história onde ninguém está inocente. Nela, todos trafulham, todos roubam, todos mentem, e todos, como bons alentejanos, se fecham em copas porque, no Alentejo, nunca se viu ninguém estar interessado em condenar o seu semelhante. Como diz o benquisto padre Miguel, quando explica o episódio da mulher adúltera à sua assembleia de encortiçadas azarelha, «quem estiver inocente que atire a primeira pedra».

Mas a pacatez desta incerta aldeia alentejana vive, sem o saber, suspensa das forças ocultas geradas pela praga do nemátodo do pinheiro bravo e pela inspeção que a Direção-Geral de Florestas mandou executar.

Contada no presente do indicativo por um narrador que parece conhecer a trama apenas por alto, a história acompanha, do início ao fim, o percurso pouco empolgante do novo administrador da Reserva, um jovem engenheiro florestal acabado de sair da Universidade, por sinal, também alentejano. Administrador, que herda a menina Judite Corriola, uma capitosa balzaquiana, a mais notável das secretárias e a mais infeliz das criaturas no seu afã insano de romper definitivamente o véu duma virgindade que, malgrado todos os seus esforços, teima em chegar incólume até aos trinta e oito anos de idade.

Por isso, e por muito mais que só a leitura o revelará, “Um Certo Incerto Alentejo” é uma história definitivamente amoral, mas feita essencialmente daquela amoralidade alentejana que foge ao estigma e ao sentimento de culpa. Como ninguém é inocente nesta história, a maldade é relativa e a redenção tanto se faz na igreja como nos balcões das tabernas onde o sangue de Cristo ronda sempre os 14 graus. Como o narrador conclui, a dada altura, «se todos fôssemos à missa ao mesmo sítio, não haveria catedrais que chegassem».


















MBarreto Condado




Fotos amavelmente disponibilizadas pelo escritor António da Costa Neves