segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

LITERATURA | O Nervo Ótico de María Gainza | DOM QUIXOTE - Tradução de Maria do Carmo Abreu

Nas livrarias a 13 de Fevereiro


Efetivamente, quando María Gainza escreve nestas páginas sobre as vidas incríveis de El Greco, Courbet, Fujita ou Toulouse-Lautrec, sobre o banquete que Picasso ofereceu em honra de Henri Rousseau entre a admiração e a troça ou sobre as misteriosas razões por que Rothko se recusou a entregar ao luxuoso Four Seasons uma encomenda milionária, a sua narradora está também a falar do hospital em que o marido fez quimioterapia e onde uma prostituta andava de quarto em quarto, da decadência da sua própria família em Buenos Aires, do desaparecimento precoce de uma amiga, do desconforto da gravidez ou até do pânico de voar. Como num museu – lugar que, aliás, frequenta muitas vezes à maneira de uma sala de primeiros-socorros –, a sua vida tem obviamente obras-primas, mas também pequenos quadros escondidos em corredores escuros e estreitos. E, no entanto, todos eles importam.

O Nervo Ótico é um livro de olhares: olhares dirigidos a pinturas e a quem as contempla.

CRÓNICA | Abandono | VANESSA LOURENÇO


Ela tinha-o deixado e não voltaria. Dos olhos cansados, adornados de profundas covas em resultado das excessivas noites sem dormir, transbordava a inquietação e o imerecimento daqueles que são abandonados por alguém que não deixa rasto algum. Ele não valia nada, porque ela achava que ele não valia nada. E até o apartamento que ambos tinham partilhado tinha de súbito sido reduzido a um esqueleto sem vida, agora que ela tinha levado consigo tudo o que o iluminava.

Bateu a porta com força e desceu, galgando os lanços de escadas do prédio envelhecido, com a determinação de quem espera a todo o instante acordar de um sonho mau. Chegou junto da porta da rua, envidraçada e parou. Durante uns instantes, olhou através dela para o mundo lá fora e subitamente, tudo lhe pareceu demasiado grande, avassalador. Hesitou, e durante um instante que pareceu durar uma eternidade ficou apenas ali, em suspenso. Mas no instante seguinte tudo ruiu: deixou-se cair de joelhos no átrio escurecido da escada e cobriu a face com ambas as mãos, os olhos cerrados com força, num esforço inútil para conter o grito que logo em seguida ecoou pelos andares do prédio e fez levantar voo os pombos que preguiçosamente arrulhavam ao sol lá em cima, no telhado. Que o ouvissem, que zombassem dele. Já não queria saber.

Abriu vagarosamente os olhos e a primeira coisa que percebeu, foi que tinha encharcadas as palmas das mãos. Limpou-as demoradamente nas calças e através dos olhos turvados pelas lágrimas, apercebeu-se da segunda coisa: havia um pequeno vulto do lado de fora da porta, observando através do vidro. Esfregou os olhos com as costas das mãos, fungando, levantou-se e sacudiu as calças com as mãos ainda húmidas. Olhou de novo e franziu o sobrolho: era um gato. Um grande gato branco com manchas amarelas e castanhas. Seria uma gata? Lembrava-se vagamente de ter lido algures, que os gatos tricolores eram normalmente fêmeas. Riu de si próprio. O que lhe importava isso? Avançou para a porta de vidro e abriu-a, esperando que o pequeno animal se assustasse e desaparecesse na rua, mas o gato não fugiu. Pensou em lhe acariciar o lombo felpudo, mas ocorreu-lhe que com as mãos ainda molhadas iria ficar com elas cheias de pêlo. Conteve o gesto e avançou pela rua, deixando o gato para trás. De mãos nos bolsos, percorreu as ruas que tão bem conhecia e pensou, com um sorriso triste, que tinham perdido toda a familiaridade. Em breve suspirou e mecanicamente regressou ao prédio onde morava, de olhos colados aos passos arrastados. Quando se aproximou novamente da entrada do prédio e retirou do bolso das chaves, sem se deter, deu subitamente um salto para trás: por muito pouco não tropeçara no gato que ainda se mantinha junto da porta, onde o tinha deixado algum tempo antes. Porque não se tinha ido embora? Baixou-se e, desta vez, acariciou a cabeça do gato, passando o polegar na testa macia e abraçando com o anelar e o dedo minimo o queixo felpudo. Este (ou seria esta?) ergueu lentamente a cabeça e ronronou, fechando os olhos. Ele não era nenhum expert em gatos, mas depressa percebeu que algo não estava bem: tentou erguer o gato do chão e o seu imenso corpo peludo ficou hirto, o que se fez acompanhar de um gemido baixinho. 

Alarmado, não perdeu mais tempo: com o gato nos braços, galgou no sentido inverso as escadas do prédio e entrou em casa. Pousou com cuidado o gato no sofá, afastou de par em par os cortinados das janelas para que entrasse luz e deu-lhe água. De seguida correu a tomar um banho, vestiu-se e rumou ao veterinário mais próximo.

Assim que chegou a sua vez, explicou detalhadamente o que tinha acontecido, apenas para reparar que nos lábios da veterinária se desenhava lentamente um sorriso. Antes que a pudesse questionar, ela disse:

- Infelizmente muita gente teria ignorado o sofrimento deste animal, você é um homem bom. Obrigado.

Apanhado de surpresa, engoliu em seco e entreabriu os lábios para responder, mas deles não saiu nenhum som. Ele era um homem bom?

De regresso a casa, a gata malhada já fazia parte da sua familia. Não voltaria a sofrer nas ruas e precisava de medicação, por isso não poderia ser de outra maneira. Assim que entrou no apartamento com a gata aninhada nos braços e o saco da farmácia pendendo-lhe de um dos pulsos, porém, estacou. Esquecera-se de que tinha afastado os cortinados, e o apartamento estava aquecido e iluminado pela primeira vez em muito tempo. Olhou demoradamente a gata que tinha ainda nos braços e ela devolveu-lhe o olhar, um olhar brilhante... e grato. Sem tirar os olhos dos dela, sentou-se no sofá e deixou cair o saco. Ainda dorida, ela ajeitou-se com as patas estendidas no peito dele e ronronou. Ele suspirou e disse ao animal:

- A doutora disse que eu sou um homem bom porque não te ignorei..., mas foste tu que me encontraste. E agora, o meu apartamento voltou a ter luz, voltou a ser a minha casa. A nossa casa.

Desviou os olhos dos dela por um instante, sentindo-se envergonhado, antes de acrescentar:

- E eu não tomava banho há algum tempo...

A gata pareceu sorrir e esticou-se para lhe tocar o queixo com o narizinho rosado, como se compreendesse. Acariciou-lhe demoradamente a testa com o polegar, a ternura a transbordar dos olhos de ambos com uma intensidade capaz de fazer do mundo um lugar melhor. Por fim, sorrindo, ele disse à gata malhada:

- A ser verdade que te salvei a vida, tu não fizeste menos por mim. Serás tu um anjo que caminha em quatro patas?

domingo, 11 de fevereiro de 2018

CRÓNICA | Amor Fraternal | MAFALDA PASCOAL


Pudera eu ser
Inspiração...
Para fazer brotar o teu Amor Infinito
Fazer despertar dentro de ti
Todas as partículas divinas de que é feito
O teu Ser Superior...
Relembrar-te,
Tudo o que te propuseste fazer
Que ao ficares envolto no veículo da tua evolução
Esqueceste
E jamais podes esquecer
Que tens que evoluir
Tens que ser altruísta
Ao ponto de amares
Cada ser que existe
Seja humano
Seja animal
Seja vegetal...
Se tudo existe
é porque tem que existir
Nada é sem razão de o Ser
Tens que acreditar
Que tudo acontece
Na hora e no lugar certo
Todos os males vêm por bem
Porque isso nos ajuda à interiorização, à meditação
E nesse estado de espírito
Transformamo-nos em melhores seres...
Nunca devemos esquecer
Que todos estamos começados
Mas nenhum de nós está acabado
E assim
Todos devemos evoluir
A cada momento que passa
Porque tudo está em constante movimento
Em constante mutação
Por isso
Não podemos estagnar no espaço e no tempo
Para não cristalizar...
Vamos, pois, todos em conjunto
Espalhar Luz e Amor
Em todos os corações
Ávidos de um pouco de paz...    



LITERATURA | A Febre das Almas Sensíveis de Isabel Rio Novo | DOM QUIXOTE

Romance Finalista do Prémio Leya
Nas livrarias a 13 de Fevereiro


Portugal, primeira metade do século xx. Entre os males que assolam um país isolado e retrógrado, a tuberculose ressalta como uma das principais causas de morte.

Ainda sem recursos farmacológicos para combater a doença, os médicos recomendam aos infetados o internamento em sanatórios instalados em zonas de altitude. Na serra do Caramulo, outrora uma região pobre e agreste, cresce uma estância sofisticada que, no auge do seu funcionamento, chega a acolher milhares de doentes.

Entre o edifício do Grande Sanatório do passado – onde o drama do jovem Armando se cruza com o dos outros pacientes –, os escombros do presente, visitados por uma rapariga que coleciona histórias de escritores tuberculosos, e as páginas escritas pelo misterioso «R. N.», movem-se almas de todos os tempos: Eduardo, Natália, Carolina e Ernest, mas também Soares de Passos, Júlio Dinis, António Nobre e tantos outros atingidos pela febre das almas sensíveis.

CRÓNICA | Assédio ou não, eis a questão | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO


Recentemente temos assistido à divulgação pública de diversos casos de assédio. Começou, de forma mais séria, e, ao que parece, sustentada, com uma acusação ao produtor norte-americano Harvey Weinstein, ao que se lhe juntaram várias actrizes a corroborar a acusação de assédio, violação e chantagem sexual.

De imediato, algumas das chamadas figuras públicas multiplicaram-se nestas confissões e desfilam, um pouco por todo o lado – incluindo Portugal -, numa parada de moralismo, dizendo terem sido assediadas por este e aquele. Alguns homens, nomeadamente actores internacionais de topo, queridos desde sempre do grande público, viram as suas vidas pessoais e as longas e brilhantes carreiras arruinadas numa fracção de segundo.

A situação tomou proporções tais que um grupo de mulheres, onde se encontra a conhecida actriz francesa Catherine Deneuve, veio em sua defesa, afirmando que é necessário denunciar situações como a de Weinstein, mas que não se pode generalizar e que estas acções provocaram uma nova vaga de puritanismo, assente num discurso de ódio contra os homens.

Tenho quase a certeza que muitos homens por este mundo fora ficaram com os neurónios a fumegar, ao vasculhar apressadamente nas memórias mais recônditas, à procura de algum avanço mais intenso e alguns terão mesmo rezado a todos os santinhos para que as inocentes insinuações não passassem disso mesmo, na mente dos alvos dos seus desejos.

Neste ponto, e sem querer defender este ou aquela, há algumas questões que, inevitavelmente, assaltam a minha mente: ao que é que se poderá chamar assédio ou simples insinuação? Quantos de nós, mulheres e homens, podemos dizer nunca ter sido assediados, ou alvo de insinuações mais ou menos intensas e como lidámos, ou lidamos, com isso?

Assediar sexualmente é cercar o outro; é perseguir com insistência, importunando com tentativas forçadas de contacto sexual. A insinuação é a forma de alguém dar a conhecer ao outro, subtilmente, as suas intenções, os seus desejos e objectivos. Sem insinuação não haveria sedução, aquele maravilhoso jogo amoroso em que tanto se diz sem palavra nenhuma. Ninguém intuiria o que o outro deseja ou sente. Ninguém se sentiria desejado o que, admitamos, tornaria as nossas vidas muito menos coloridas, sem aquela dose de “filme cor-de-rosa” que nos faz sentir o coração a bater mais depressa e nos arrepia deliciosamente a pele e que todos, bem lá no íntimo, desejamos experienciar. A insinuação alimenta-nos os sentidos, o ego e faz-nos sentir vivos. 

Não devemos confundir a perseguição com a simples demonstração de sentimentos ou desejos. Uma é negativa, a outra não. Uma pode ser destruidora, a outra pode ser construtiva e saudável – grandes amores já nasceram de uma simples insinuação.

Parece-me que, além do modo como devemos discernir entre uma forma e outra, não confundindo as situações e pondo tudo no mesmo patamar, é extremamente importante como escolhemos viver qualquer uma das situações. Se com uma insinuação indesejada temos, tantas vezes, o cuidado, a sensibilidade de tentar não magoar os sentimentos do outro, no caso do assédio creio que deve ser feito precisamente o contrário. Acredito que qualquer assédio deve ser prontamente denunciado. Não se deve esperar décadas para o fazer, como no caso de algumas alegadas vítimas de Weinstein. Quanto mais tempo passa, mais tempo o autor do comportamento indevido tem para continuar a molestar as actuais ou novas vítimas. É importante travar o comportamento abusivo. É importante afastarmo-nos o mais possível desse tipo de pessoas. É importante termos amor-próprio. Os assediadores nunca se ficam por uma vez, ou duas… aquilo há-de continuar; até a vítima se libertar. Poderão dizer que no caso de um chefe, um patrão, a coisa é mais difícil… o emprego… a estabilidade… mas qual estabilidade?! Alguém que vive uma situação de assédio no local de trabalho não tem estabilidade; é impossível tê-la; e rapidamente essa instabilidade se estende a outras áreas da sua vida. É aqui que entra o amor-próprio, que nos dá a coragem de viver dignamente e em paz e nos faz romper com uma situação indesejada, mesmo que isso signifique mudar de local de trabalho. Nada vale mais que o nosso bem-estar, a nossa tranquilidade.

Creio que, mulheres e homens – eles também são vítimas de assédio e cada vez mais -, numa situação destas deverão usar de bom senso para pôr as coisas no seu devido lugar, ao invés de irem com a corrente, como se de uma moda se tratasse, adoptando posteriores posturas extremistas e levando tudo à frente como um bulldozer. Se é verdade que há pessoas que merecem o rótulo de assediadores e devem ser tratadas em conformidade, não é menos verdadeiro que há outras que estão muito longe disso e não devem ser “metidas no mesmo saco”.

A Catherine Deneuve diz que isto despoletou uma vaga de puritanismo – falso, bem entendido; eu digo que o ser humano sempre gostou de uma boa “caça às bruxas”.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

DIVULGAÇÃO LITERÁRIA | A Vida é Um Tango e Outras Histórias de Cristina Norton | OFICINA DO LIVRO

Nas livrarias a 13 de Fevereiro


Fiel às suas raízes argentinas, Cristina Norton segue, em A Vida É Um Tango, a tradição dos grandes contistas latino-americanos. As suas histórias transportam-nos à Argentina, ao México, a França e a Portugal, dando-nos a conhecer um cleptómano que rouba a voz de um grande cantor, uma pintora com uma vida insólita, uma mulher que lê o destino nas folhas de chá, um anão bombeiro, uma menina malcomportada, a perna perdida de uma grande artista, a vingança póstuma de uma sogra, entre outras personagens e coisas memoráveis.

Algumas destas histórias são fruto das vivências da autora, como «A Mãe da Plaza de Mayo». Outras, do seu hábito de observar o quotidiano sob uma perspectiva irónica e cheia de picardia. Como foi o caso de duas mulheres muito parecidas num consultório, onde aguardam a chegada de um homem, episódio que inspirou o conto «O Bígamo». Imagens rápidas como flashes, que levam Cristina Norton a escrever rascunhos, com a rapidez de quem esboça uma paisagem, para depois os trabalhar até atingirem a forma redonda de um conto, serem um relato curto, mas intenso, para levar o leitor a lê-lo de uma assentada.




REFLEXÕES OCASIONAIS | Este país não é para Velhos?! | ISABEL DE ALMEIDA

   O facto de os partidos em maioria na Assembleia da República terem chumbado as propostas do PAN e do CDS-PP com vista à criminalização do abandono de idosos não constitui uma novidade assim tão grande para quem esteja familiarizado com a temática do envelhecimento, e com a forma como esta fase normativa do ciclo de vida humano é equacionada em termos psicológicos, demográficos, sociais, pessoais e profissionais.

   Quem acompanha o estudo das problemáticas inerentes à população idosa sabe que estamos a atravessar uma fase demográfica de envelhecimento nos países mais desenvolvidos (e mesmo naqueles que se arrogam tal estatuto, como o nosso, só não sei se o mesmo é merecido aqui para o rectângulo à beira mar plantado...perdoem-me o desabafo, mas quem me lê bem sabe que ando triste com a nacionalidade que me coube em sorte). 

   Em concreto em Portugal, e mais genericamente noutros países com melhores condições económicas do que o nosso, não se encontra assegurada a chamada renovação de gerações, por um conjunto de razões concorrentes das quais passo a enumerar algumas sem qualquer pretensão de estar a escrever um artigo de natureza científica: o aumento da esperança média de vida, a insuficiência da taxa da natalidade para que existam mais jovens do que idosos, casamentos tardios ou o legítimo direito exercido por muitas mulheres de não virem a ser mães, a crise económica que vem, naturalmente, refreando a vontade de muitas jovens famílias de contribuir para o aumento da taxa de natalidade, e muitas outras razões cuja enumeração tornaria fastidiosa a leitura desta crónica.

  Portanto, é ponto assente que a população Portuguesa está envelhecida, embora existam heterogeneidades na distribuição da população pelo território nacional, ao nível etário, que não se negam, mas que também não são bastantes para inverter a premissa supra assumida de que Portugal está a ficar velho!

   Mas se é certo que o país está a ficar velho, infelizmente, não é menos certo que, nitidamente, não é um país para velhos! E o que me leva a expressar esta opinião nem sequer é a polémica do momento ( do chumbo de propostas legislativas no sentido de criminalizar o abandono de idosos), o que me faz acreditar no que afirmo é o facto de debruçar a minha atenção sobre a temática do envelhecimento, no âmbito da minha formação em Psicologia, e das leituras que fiz (em sede de preparação e escrita de Dissertação de Mestrado) e que vou fazendo sempre que tenho oportunidade, é patente que a nossa sociedade sofre de um evidente estereótipo que dá pelo nome de Idadismo, o qual corresponde a um juízo negativo ou mesmo a uma aversão pelo avançar da idade, ou pelos idosos (em termos muito simples). 

   O Idadismo pode mesmo ser uma ideia inconsciente, e a ironia reside em que mesmo quem dele tem noção em termos teóricos nem sempre lida bem com o avançar da idade, e com as mudanças que este transporta consigo. Numa sociedade onde se endeusa a beleza, o bem-estar, a boa forma física, a ausência de doença física ou mental, onde alguém com mais de trinta anos é muito jovem para deixar a população activa, mas é olhado de lado pela grande maioria dos empregadores por ser considerado velho para exercer determinadas funções (já experimentaram tentar adivinhar a média de idades dos trabalhadores de grandes cadeias de retalho?), nomeadamente, tudo o que exija contacto com o público. 

   Porque razão muitos de nós tentamos mascarar o passar dos anos, e aqui em especial as senhoras são mestres nesta arte, pintando os cabelos para "tapar os cabelos brancos", apostando em tratamentos de beleza (alguns até dolorosos ou invasivos) para exterminar ou disfarçar rugas ou marcas da idade na pele?

   E em termos sociais e até legais, muito embora o abandono de idosos não se encontre taxativamente tipificado no nosso Código Penal, pessoalmente, entendo que o mesmo é passível de gerar responsabilidade criminal noutros moldes, mormente, pode ser enquadrado no crime de violência doméstica, desde que feita a devida prova junto das instâncias competentes. Este meu entendimento, que creio possa ser sufragado por outros cidadãos, bem revela que a rejeição da tipificação deste crime, e os argumentos utilizados em favor e desfavor desta decisão do foro político, são apenas a ponta de um imenso e assustador icebergue...

 Senão vejamos, perante o abandono efectivo de um idoso, por exemplo, num hospital, podem esconder-se razões mais ou menos criminosas. Há que reconhecer que não existem respostas sociais adequadas e bastantes para acudir aos inúmeros casos de dependência dos nossos idosos. Não existem lares de idosos suficientes para dar resposta a todas as situações de idosos dependentes, existem famílias que, de facto, não possuem condições financeiras que lhes permitam recorrer à institucionalização dos seus idosos, o ritmo acelerado da vida moderna, a impossibilidade em termos  logísticos e humanos de dar resposta a muitos casos de dependência extrema (idosos acamados, com demência, que carecem de equipamentos específicos para cuidados dignos, como camas articuladas, alimentação através de sonda) é real em muitas famílias, assim como também é real, infelizmente, e em muitas unidades de saúde públicas e privadas, a circunstância de ser a idade a determinar o empenho investido e a qualidade de cuidados de saúde prestados aos mais velhos. E aqui permitam-me um desabafo pessoal que atesta parte do que afirmo, nunca esquecerei o facto de certa unidade hospitalar pública (cujo nome não cito para não alimentar polémicas) haver dado alta hospitalar à minha avó materna (doente cardíaca, diabética e com 82 anos de idade) implicando um transporte em ambulância,  a decorrer de noite, com temperaturas baixas e uma viagem que implicou a travessia do Tejo).

   Ou seja, tocando mais na ferida, em teoria, o acto de abandono, ou de maus-tratos a idosos poderá não ter forçosamente como agente activo da sua prática um ou mais familiares, poderá suceder, e sucede todos os dias em diversas instituições! Mas claro, não se nega que os cuidadores familiares podem incorrer, e muitos até incorrem, na prática de vários ilícitos neste âmbito da violência contra idosos (que pode ser física, psicológica ou mesmo económica).

  Agora que algumas críticas foram expostas nestas reflexões perguntarão muitos leitores: então e soluções? Que soluções encontrar para este flagelo? Pois bem, não é fácil, nunca será imediata a resposta, mas pensar apenas no abandono descurando a extrema complexidade deste tema, que passa também por uma mudança de mentalidades (até no interior de cada um de nós) acaba por ser imensamente redutor. As soluções, que assumo tenham de revestir natureza política, precisam de reunir reflexões, estudos e empenho de profissionais de várias áreas, equipas multidisciplinares que comecem por inteirar-se daquilo que se passa no terreno ( e quantas vezes o processo legislativo em Portugal - neste ou noutro qualquer tema - é feito meramente na comodidade de um gabinete ou de uma mesa de reuniões repleta de lindíssimos copos de cristal, folhas de papel e canetas e as providenciais garrafas de água, sem que se conheçam as realidades fora daquelas quatro paredes?). 

  Seria também importante providenciar formação sobre estes temas às crianças e jovens em idade escolar, e a todos os profissionais que contactem com idosos, mormente, no âmbito dos cuidados de saúde, e, já agora, providenciar formação e apoio para cuidadores informais por todo o país.

  Podem dizer que sou uma sonhadora, mas quero muito acreditar que não estou sozinha!