sábado, 24 de fevereiro de 2018

LITERATURA | A Filha de Anna Giurickovic Dato | DOM QUIXOTE - Tradução de José Colaço Barreiros

Nas livrarias a 27 de Fevereiro


Ambientado entre Rabat e Roma, A Filha coloca-nos perante uma perturbante história familiar, em que a relação entre Giorgio e a sua filha Maria oculta um segredo inconfessável. A narrar tudo na primeira pessoa está, porém, a mulher e mãe Silvia, cuja paixão pelo marido a torna incapaz de reconhecer a doença de que este sofre.

Enquanto observamos Maria, que não dorme durante a noite e renuncia à escola e às amizades, a revoltar-se continuamente contra a mãe e a crescer dentro de um ambiente de dor e de suspeita, vamos pouco a pouco descobrindo a subtil trama psicológica dos acontecimentos e compreendendo a culposa incapacidade dos adultos em defender as fragilidades e as fraquezas dos filhos. Quando, após a misteriosa morte de Giorgio, mãe e filha se mudam para Roma, Silvia apaixona-se por Antonio, e o almoço que organiza para apresentar o novo companheiro à filha despertará antigos dramas. Será Maria de facto inocente, será realmente a vítima da relação com o seu pai? Então, porque tenta seduzir Antonio sob os olhares humilhados da mãe? E seria a própria Silvia verdadeiramente desconhecedora do que Giorgio impunha à filha?

REFLEXÕES OCASIONAIS | As nossas crianças estão seguras nas escolas? | ISABEL DE ALMEIDA

   Talvez por uma questão de mentalidade, cultura, modo de estar, ou por mera questão de tempo, coisa que o próprio tempo nos dirá, a realidade escolar Portuguesa ainda não se deparou com o clima generalizado de terror gratuito que é, certamente, um tiroteio em contexto escolar. Todavia, se percorrermos a actualidade noticiosa dos últimos anos, encontramos casos de violência bastante gravosos, que revestem a natureza de diversos exemplos de bullying (violência entre pares), recordo casos de espancamentos em grupo, gravados e divulgados nas redes sociais (fruto perverso do uso não normativo das novas tecnologias como forma de difusão de mensagens de exaltação da violência gratuita, quiçá como forma de afirmação identitária dos jovens, que escolhem o caminho errado para alcançar este fim).

   O bullying escolar é um fenómeno complexo, que vem sendo alvo de estudo, por exemplo, pela psicologia, e que em termos mais teóricos, prometemos analisar futuramente neste mesmo espaço, talvez numa série de artigos), mas é infelizmente bastante mais comum do que os casos cujos relatos nos chegam através da comunicação social, pois existem muitos outros, que por passarem mais despercebidos, por serem calados pelas vítimas (que tantas vezes optam pelo silêncio enredado em vergonha e medo neste como noutros contextos de violência), ou por serem desvalorizados pelas figuras de referência a quem caberia proteger ou promover a devida intervenção em casos de violência entre pares já em curso  (pais, professores, auxiliares de acção educativa, irmãos mais velhos, por exemplo), caem no esquecimento.

   A questão que aqui deixo à vossa reflexão é, precisamente, a de tentarmos perceber até que ponto as nossas crianças, em todos os níveis do sistema de ensino, se encontram seguras no respectivo contexto escolar. 

   Cada caso é um caso, mas a verdade é que as vítimas de violência escolar, mesmo quando não tiveram ainda a coragem de pedir ajuda a pais ou professores, dão sinais de instabilidade emocional que indiciam que algo não estará bem. Ansiedade, evitamento às aulas, possível somatização ( queixas físicas que resultam de forte tensão emocional), insucesso escolar, alterações nos ciclos de sono/vigília (com possível ocorrência de insónias), dificuldades de concentração. Assim, ainda que não exista notícia de alguma situação de violência na escola, há que estar atento a qualquer alteração de comportamento das crianças e jovens, e conversar diariamente com estes acerca do seu dia na escola. É muito importante que existam adultos nos quais os jovens depositem a necessária confiança para confidenciar qualquer situação alarmante, portanto, aqui deixo algumas indicações práticas sobre como monitorizar estas situações.

   Não seria legítimo generalizar, mas a verdade é que o actual sistema de ensino encerra em si diversas situações que podem propiciar violência entre crianças e jovens. Desde logo, muitas escolas não possuem os recursos humanos bastantes para manter sob vigilância a área bastante extensa dos recintos escolares, havendo sempre zonas mais escondidas e menos vigiadas onde é maior a vulnerabilidade dos mais fracos ( por idade, estatura física ou maior fragilidade emocional). Também as regras aplicáveis à obrigatoriedade de frequência do ensino até idade mais tardia conduzem a situações limite, que se tornam recorrentes em muitas escolas, onde alunos mais velhos, com graves problemas de indisciplina (e com vasto registo disciplinar, e expulsão de anteriores estabelecimentos de ensino) perturbam constantemente as aulas, desafiam professores e auxiliares de acção educativa e tendem a impor-se aos colegas mais novos criando-lhe medo e intimidando-os, perturbando o normal funcionamento do sistema de ensino, ao invés do que seria desejável.

   No âmbito profissional diariamente sou confrontada com relatos que, há uns anos atrás seriam impensáveis, de turmas com graves problemas disciplinares, onde os professores literalmente não conseguem dar aulas, e onde, consequentemente, os alunos que queiram aprender e ser bem sucedidos acabam por se perder no meio de um sistema que está subvertido.

   Mais grave ainda foi uma situação de que tive conhecimento através de pais e alunos que conheço pessoalmente, num estabelecimento de ensino próximo da área onde resido, um jovem com quase 18 anos de idade frequenta uma escola de 2º e 3º ciclos do ensino básico, e tem gerado um verdadeiro clima de terror entre muitos alunos do 5º ano, extorquindo-lhes dinheiro, exigindo maços de tabaco, ameaçando mesmo deslocar-se até junto das residências dos jovens, numa atitude claramente intimidatória que gera e pretende gerar medo como forma de manipulação. Nos últimos relatos que me foram feitos chegar, soube estarem já em curso diligências oficiais de inquérito e que quero crer levem a uma punição deste jovem, e até ao seu afastamento desta comunidade escolar.

   Se pensarmos que situações como a que acima descrevo são parte integrante do dia a dia de muitas escolas Portuguesas, se tivermos em conta que estas situações ocorrem dentro dos recintos das escolas e que, em muitos casos, nem sequer é possível reunir provas bastantes para uma pronta intervenção, porque as vítimas se calam por medo, pode ser assustador pensar na natural progressão das nossas crianças e jovens no sistema de ensino nacional, e nas condições de segurança que este poderá não conseguir garantir.

   Converse diariamente com os seus filhos, acompanhe de perto o seu percurso escolar, procure estar em contacto permanente com a comunidade escolar (outros pais e colegas do seu educando, professores, directores de turma, associações de pais e encarregados de educação) e fique atento a algum sinal de alarme que não deve, de todo, ser ignorado.
 
  Na escola, o Seguro morreu de velho!

CRÍTICA LITERÁRIA | " A Verdade sobre Lorde Stoneville, de Sabrina Jeffries | TOPSELLER


Texto: Isabel de Almeida | Crítica Literária
Foto: Direitos Reservados


A Verdade sobre Lorde Stoneville, é o romance que dá a conhecer ao público Português Sabrina Jeffries, autora bestseller do New York Times que nos brinda com um excelente romance de época com chancela Topseller

A premissa inicial deste romance de época, cuja acção decorre em Inglaterra em 1825, decorre de uma analepse inicial até 1806, contextualizando um trágico acontecimento familiar que irá influenciar de forma decisiva o desenrolar da acção, bem como a evolução, em termos psicológicos, do herói - Oliver Sharpe - Marquês de Stoneville.

Libertino inveterado, evitando constantemente o compromisso, pois sente-se incapaz de ser fiel a uma mulher, Lorde Stoneville é o herdeiro do título nobiliárquico que lhe chegou através do pai, sendo Oliver o resultado de um casamento infeliz que procurou salvar da ruína certa a propriedade de Haltstead Hall, na posse do anterior Marquês, que contraiu matrimónio com a bela e rica filha de comerciantes - Prudence Plumtree - num contrato bastante usual na época, onde alguma da nobreza tradicional britânica estava arruinada, apenas tendo como moeda de troca os seus títulos, que por sua vez, eram vistos como apetecíveis bilhetes para a ascensão social desejada por tantos membros da burguesia, pessoas de origens humildes que enriqueciam em resultado do comércio a que se dedicavam.

Do casamento infeliz do anterior Marquês de Stoneville e da sua esposa Prudence, ambos já falecidos num contexto que gera constantes rumores, dúvidas e mexericos entre a alta sociedade Londrina, nasceram (além de Oliver, o mais velho e herdeiro) outros quatro filhos: Jarret (viciado em jogo), Minerva (escritora de romances góticos, considerados escandalosos à data), Gabriel (viciado em corridas) e Celia (tem uma forte apetência por tiro ao alvo, e encabeça a luta pelos direitos dos trabalhadores infantis, então alvo de dura exploração no Reino Unido). Os Cinco irmãos são conhecidos por "Os demónios de Hallstead Hall", e vivem a expensas da avó, a astuciosa e determinada Hester Plumtree, gerente da cervejaria que herdou do marido, é uma empresária próspera que decide congeminar um plano para levar os netos, todos eles indomáveis e independentes, a constituir família e a continuarem a sua dinastia familiar, fazendo-lhes um ultimato nesse sentido.

O Marquês de Stoneville vê-se, assim, encurralado num beco sem saída, quando a avó tenta manipular os cinco netos, levando-os a casar sob pena de serem despojados da sua vasta fortuna pessoal. Hester, uma mulher muito inteligente, e uma das personagens mais marcantes, de forte personalidade e muito intuitiva, mostra conhecer muito bem a sua prole de netos incorrigíveis - " Encontrara, por fim, uma forma de fazer com que todos lhe obedecessem: usar o afecto que sentiam uns pelos outros, a única constante nas suas vidas."

Oliver Sharpe, Lorde Stoneville, é um homem marcado pelo passado, esconde segredos pesados que cerceiam a sua crença na possibilidade de ser feliz, optando por evitar a vivênvia normal de uma relação amorosa potencialmente bem sucedida no futuro: " (...) Não havia nada por que valesse a pena arriscar a vida, Nem uma mulher, nem a honra e muito menos a reputação." e revelando fortes problemas de auto-estima e sentimentos de culpa que procura exorcizar criando uma "persona" que, afinal, descobrirá não corresponder ao seu verdadeiro "eu".

Por acaso do destino, o Marquês, que encara negativamente a responsabilidade e o dever de decoro e reputação impostos pelo título de nobreza que possui, irá cruzar-se com Maria Butterfield, uma jovem herdeira americana, que com a ajuda do desajeitado e desengonçado primo Freddy, procura o seu noivo desaparecido, com o qual necessita de casar para assumir a titularidade da fortuna deixada por morte do pai, dono de metade de uma poderosa empresa ligada ao sector de transportes marítimos.

É deveras interessante e divertido observar a dinâmica entre um nobre Inglês, que renega o peso das suas responsabilidades, mas que intimamente se culpabiliza por não se sentir à altura do papel social que lhe coube em sorte desempenhar, e uma herdeira americana bastante pragmática, desassombrada e frontal, com pouco ou nenhum poder de encaixe para todas as regras e os maneirismos e aparências impostos pelo rígido e hipócrita código social da alta sociedade britânica.

 Vendo-se na contingência de representar o papel de falsa noiva de Stoneville, numa tentativa de contrariar o plano da avó do Marquês, em troca recebendo ajuda para resolver a sua delicada situação pessoal, Maria será uma verdadeira lufada de ar fresco que entra nos bolorentos salões da ancestral residência familiar de Stoneville - Hallstead Hall - (e isto sucederá tanto em sentido literal como simbólico ou figurado).

O confronto cultural entre duas pessoas com educação tão díspar, a personalidade forte e a teimosia inerente ao casal protagonista, e a forte e espontânea química sexual que surge entre ambos ( e que resultará em cenas pejadas de erotismo bastante intensas e devidamente contextualizadas), serão os propulsores ideais do desenvolvimento do enredo e de uma clara evolução psicológica de ambos os protagonistas.

Uma mistura explosiva de drama, mistério, crítica social, paixão, coragem, o poder redemptor do amor, ingredientes que evoluem perante um evidente choque cultural que  levam o leitor a não querer pousar o livro antes de terminar a sua leitura, além de nos deixarem a ansiar pelos próximos romances da série, até porque no final surgem pistas para um novo entendimento de uma situação familiar que parecia já sanada, e os restantes irmãos Sharpe prometem muitas horas de puro entretenimento. Prepare-se, Sabrina Jeffries parece-nos perita em escrever estes  deliciosos guilty pleasures para adeptos do romance de época.

Ficha Técnica do Livro


Autora: Sabrina Jeffries

Edição: Fevereiro de 2018

Editora: Topseller | Grupo 20|20

Nº de Páginas: 352

Género: Romance de época | Inglaterra Século XIX

Classificação Atribuída: 4/5 Estrelas





quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

CRÓNICA | Maioridade | MBARRETO CONDADO

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”

*
Depois de um início de vida privado de todos os objectos da moda, spectrum, walkman, lembrando somente alguns, mas que todos os amigos tinham, Nunes pensava poder ter finalmente alguns dos benefícios que a maioridade lhe garantiria. Lançava olhares disfarçados ao seu velho pai tentando perceber o que lhe teria preparado para o importante dia, enquanto tentava retirar parcas palavras da sua mãe, pois a coitada continuava a preferir adotar a postura de distraída a roçar o lerdo abstraindo-se de tudo o que a rodeava mesmo que isso implicasse o desaparecimento do marido durante todos os meses que compunham o Verão.

Na verdade, nunca soube o que fazia ou para onde ia o velho manhoso, mas naquela fase da sua vida também pouco lhe interessava afinal aqueles meses acabavam por ser sagrados para ela pois fazia o que mais gostava, dormir, melhor mesmo seria se o Nunes fosse para casa do primo onde aliás ultimamente passava mais tempo do que na própria casa.

Chegou o grande dia e o pai organizou um jantar de aniversário que envolvia a família e mais um ou dois casais conhecidos, pois era necessário que alguém trouxesse o vinho para regarem a celebração. Já oferecia a casa e a língua de vaca estufada, nos meses que se avizinhavam ficariam a pão duro e água, sendo que esta tinha que ser racionada, porque até ficava seco de pensar nas contas, pelo que as oferendas deveriam ter utilidade e chegar em forma de bebida.

Os convidados conhecendo bem o seu anfitrião já vinham jantados de casa e por esse motivo a língua de vaca conseguia voltar a ser congelada quase intocada para ser requentada na ceia do Natal seguinte.

O Nunes andava cabisbaixo, exceptuando a família não conhecia nenhum dos outros convidados, mais uma vez não tinha o seu único amigo Paulitos presente porque o pai não gostava dele. Ia esbanjando todo o seu charme, como o pai lhe ensinara. Envergando calças de ganga azul deslavada com uma camisa no mesmo tom, circulava pelo meio dos convivas com o seu copo de vinho inalterado. Bebericando. Não aguentava bem a bebida e particularmente naquele dia nada poderia correr mal.

Mas correu. Quando inchado se aproximou de duas primas trazidas de propósito para conhecê-lo, não sabia ao certo o que fazer aproximou-se cantarolando “uma é loira, outra é morena…” e sem ninguém esperar no único momento de coragem que teria em toda a sua vida, bebeu o liquido de um trago desajeitadamente partindo o copo com os dentes. As primas abriram muito os olhos de espanto, aquela era uma imagem que ficaria para sempre marcada nas suas memórias por muitos anos que vivessem. Nunes com um pedaço do vidro do copo na boca a esgaçar um sorriso enquanto o primo aparecia para o salvar do ridículo, apesar de já ser um pouco tarde para isso. Pousou-lhe a mão no ombro comunicando em voz alta.

- Não bebas mais que hoje vais finalmente conhecer os prazeres que uma meretriz da noite te pode oferecer. Eu pago.

E assim o Nunes conheceria da pior forma como dar prazer a uma mulher, sem saber, no entanto, que nem sempre quando se ouvem gemidos signifique que a coisa esteja a correr bem pode ser também o sinal de que se deve despachar porque vai começar uma telenovela brasileira nova a não perder.


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

CRÓNICA | Dia Zero - O Dia em que as Torneiras vão secar | PAULO DA COSTA GONÇALVES

Apesar dos sucessivos adiamentos continua a ser muito provável que o primeiro Dia Zero de uma metrópole urbana acontecerá a 4 de Junho do presente ano na Cidade do Cabo a segunda maior da África do Sul. Ou seja, a água que por enquanto ainda vai vertendo das torneiras, e é contada ao segundo, parece ter os dias contados e provavelmente esgotar-se-á devido à pior seca dos últimos 100 anos e que ocorre há 3 anos. 

Segundo o hidrogeólogo português Rui Hugman, que há perto de um ano integra o projeto de abastecimento da água de emergia na Cidade do Cabo: “O Dia Zero é o dia em que as barragens chegam ao nível mínimo de água e em que deixa de haver o suficiente para o abastecimento da população. O dia em que as torneiras vão secar.” 

Fruto do fenómeno climatérico “El Niño” tanto as chuvas de verão, não ocorreram, como as de inverno, por norma mais substanciais, também continuam fora das previsões meteorológicas. Por consequência as barragens continuam a secar, apesar de todos os racionamentos em vigor.

Inicialmente vaticinado para 16 de Abril, foi posteriormente presumido para 11 de Maio e agora está previsto para 4 de Junho. Os esforços da cidade para limitar o consumo com interrupções significativas, a sensibilização de grande parte da população local para um uso contido e o declínio no uso da agricultura têm contribuído para os sucessivos adiamentos do Dia Zero. No entanto os bairros mais densamente povoados já correm o perigo de desenvolver focos de doença pela ausência de água corrente.

Se o “Dia Zero” se tornar um facto no próximo 4 de Junho ou em qualquer outra data posterior, os habitantes da Cidade do Cabo e segundo o governo regional, passarão a dispor de apenas 200 pontos de recolha de água, onde poderão receber, no máximo, 25 litros de água por dia por pessoa.
Mas os problemas relacionados com o acesso a água potável não se limitam aos cerca de 4 milhões de habitantes da Cidade do Cabo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as secas estão cada vez mais severas e afetam já aproximadamente 850 milhões de pessoas um pouco por todo o mundo e por isso, para além de inacreditável é inaceitável que um recurso natural essencial, como o é a água, ainda seja tão desperdiçado quando menos de 1% da água de todo planeta é doce e está disponível para o consumo humano.

Por exemplo, de acordo com a GIZ (consultora ambiental alemã) nos países em desenvolvimento e emergentes, cerca de 80% da água é perdida em vazamentos por deficiências nas infraestruturas de distribuição às populações. Mas essa tipologia de desperdício é também um facto em algumas áreas de muitos dos países mais desenvolvidos, onde chegam a atingir os 50%.

Algumas fontes (ONU, UNICEF, etc.) estimam que atualmente um bilhão e 200 milhões de pessoas (35% da população mundial) não têm acesso a água potável tratada. Cerca de um bilhão e 800 milhões de pessoas (43% da população mundial) também não acessão a serviços adequados de saneamento básico e devido a estas ocorrências constatam que anualmente e em decorrência de doenças, principalmente intestinais transmitidas pelo consumo de água não tratada, morrem dez milhões de pessoas no mundo. As mesmas fontes estimam ainda que há uma grande probabilidade de, nos próximos 25 anos, dois em cada três habitantes do planeta, enfrentarem problemas no abastecimento de água potável devido ao crescimento populacional, à poluição das águas, ao desperdício na distribuição e uso, e principalmente devido às mudanças climáticas.

As mudanças climáticas irão originar em que vivamos num mundo em que a água se torna um desafio cada vez maior e onde a sua escassez será agravada, por um lado, em virtude da desigualdade social, e por outro lado, da falta de manejo no uso sustentável deste recurso natural onde apenas 6% se destina a uso “doméstico”, 73% à irrigação agrícola e 21% para a indústria. 

Diante deste cenário o recurso tecnológico para uma maior aplicação de soluções “inteligentes” na gestão da água é mais um desafio dos líderes políticos que não podem, tal como numa crónica anterior chamei a atenção por já estarem em falha com os atuais refugiados climáticos, separar a política populacional da do abastecimento de água.



Foto: Direitos Reservados | Internet

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

CRÓNICA | Prece de um verme | VANESSA LOURENÇO

Enquanto procurava um tema para a crónica desta semana, cruzei-me por acaso com um video nas redes sociais que me despertou a atenção: a história de um cão que, de cada vez que era passeado pela dona, recolhia gentilmente com os dentes pequenas minhocas perdidas no asfalto e as libertava no relvado mais próximo. Dei por mim a pensar que talvez a história por trás deste comportamento peculiar merecesse ser contada, e acredito que terá sido mais ou menos assim:

Desorientada e sem conseguir ver, a pequena minhoca deu por si a ferir o focinho sensivel no asfalto, demasiado sólido para poder ser perfurado por um animal tão pequeno. Achando que se tratava de uma pedra, avançou na esperança de a contornar e regressar às profundezas da terra que tão bem conhecia, mas por muito que avançasse a pedra parecia não ter fim e ficava cada vez mais quente. Prestes a ficar queimada, entrou em desespero e formulou uma prece:

- Terra, mãe que embala todos os seres vivos e lhes permite crescer, se for essa a tua vontade permite que me salve e regresse à segurança do teu seio.

O asfalto cada vez mais quente começava a queimar o pequeno corpo sensivel da minhoca, e nada aconteceu. Continuando sempre a avançar, porém, resolveu tentar de novo:

- Terra, mãe que embala todos os seres vivos e lhes permite crescer, se for essa a tua vontade permite que me salve e me junte às minhas irmãs para continuar o meu trabalho a fertilizar e oxigenar o teu leito.

A resposta tardava em chegar e começava a ser cada vez mais doloroso para ela avançar no asfalto fervente, fustigado pela luz do sol. Contudo, não se podia permitir desistir. Não entregaria a sua vida, que lhe era tão preciosa, sem se encontrar para lá de toda a esperança.

De súbito, os raios de sol deixaram de lhe queimar a pele, e sentiu um corpo húmido pressionar o seu corpo gentilmente. Já desidratada, decidiu que a proximidade da morte lhe estava a provocar alucinações e preparou-se para desistir. Porém, no momento seguinte sentiu que o solo escaldante desaparecia debaixo do seu corpo e que se erguia no ar, liberta da gravidade. Demasiado esgotada para se debater, deixou-se levar e sentiu pela primeira vez a brisa acariciando o esguio corpo cansado. O ar fresco renovou-lhe os sentidos e percebeu que estava a ser carregada, algo ou alguém a tinha erguido acima da morte certa. No momento seguinte, o cheiro fresco e que tão bem conhecia da erva molhada apoderou-se-lhe dos sentidos e renovou-lhe a esperança, mas ela não sabia o que esperar. Apenas quando se sentiu pousada com cuidado na relva húmida e sentiu de novo a carícia da terra nos anéis do seu corpo ela percebeu que estava salva, e que as suas preces tinham sido ouvidas. De súbito, uma voz:

- Estás bem? Consegues regressar ao interior da terra?

Ainda não refeita da sensação da terra molhada no seu corpo, respondeu:

- Quem és tu? Porque é que me salvaste a vida?

O cão castanho sacudiu o corpo peludo e aproximou dela o focinho, dizendo:

- Sou alguém que ouviu as tuas preces, nada mais.

A pequena minhoca ergueu no ar o focinho cor-de-rosa e disse-lhe:

- As minhas preces? Tu ouviste as minhas preces?

O pequeno cão sorriu e olhou para trás, onde uma senhora de olhos brilhantes lhe segurava a trela, maravilhada com o que estava a acontecer. E respondeu:

- As minhas preces também foram atendidas, um dia. E nesse dia eu compreendi que quando nos cruzamos com alguém que precisa de ajuda, nos transformamos nos braços da Terra para lá chegar.