terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

LUA DO SANGUE, IRMANDADE DA CRUZ


"Já não sabia quem suplicava, perdido nas mãos e na boca dela. Podia morrer naquele momento, nos seus braços, morreria feliz."

PORTUGAL MAIS QUE SOL | Convidamos-vos a conhecer: A CIDADE ROMANA DE AMMAIA – A Atlântida do Alentejo | PAULO DA COSTA GONÇALVES


Texto e Fotos : Paulo Da Costa Gonçalves
Direitos Reservados

Atestando a sua grandeza patrimonial as ruinas da Cidade Romana de Ammaia situam-se na freguesia de São Salvador da Aramenha, bem próximas das convidativas vila de Marvão e cidade de Castelo de Vide, em pleno coração do Parque Natural da Serra de S. Mamede no distrito de Portalegre. 
Proporcionando-nos um grandioso encontro com a História, Ammaia é uma pérola histórica escondida no meio do Alentejo e motivo privilegiado de visita.
Com o estatuto de "Civitas" atribuído por Cláudio (41 dc - 54 d.c), o 4º imperador da dinastia júlio-claudiana e sucessor do extravagante e cruel Calígula, a cidade de Ammaia terá sido fundada nos finais do século I a.C., durante a governação de Augusto, fundador do Império Romano e o seu primeiro imperador. A sua localização, os recursos minerais e naturais da região, tais como o quartzo e o ouro, proporcionaram à cidade desenvolver-se como um importante núcleo urbano do império e ponto de cruzamento de vias romanas ligada à capital da província, "Emerita Augusta" (atual Mérida/Espanha).

Tendo sobrevivido à Queda do Império Romano, apenas entre os séculos V e IX e quando a zona estava já sob o domínio árabe, terá entrado em declínio e sido despovoada.
Uma das principais curiosidades destas ruínas é que, durante séculos, pensou-se que a cidade teria tido a sua existência onde se viria a desenvolver a actual cidade alentejana de Portalegre. Por um lado, porque nos séculos V e IX terão sido vítimas de um cataclismo que as terá soterrado. Por outro lado, é reconhecido que muita da pedra aparelhada com que foram construídos palácios e igrejas em Portalegre foram oriundas das suas ruinas, sobretudo a partir do século XVI. O mesmo aconteceu para a construção das muralhas de Marvão e de Castelo de Vide e aos poucos e poucos apenas foram ficando, acima do solo, alguns muros construídos com pedra miúda e fragmentos de tijolos e telhas que não tinham interesse para as novas construções na região.

No entanto, esses e outros factores naturais, fizeram com a Ammaia seja uma das poucas cidades do império romano que ficou conservada e, contrariamente ao que aconteceu em muitos outros locais ao longo da história, sobre a qual não foi desenvolvida qualquer outra cidade.

Soterrada a uma profundidade de pouco mais de 80 cm um arado mais fundo, de tempos a tempos, ia levantando e trazendo até à superfície alguns restos da desaparecida Ammaia e na tradição popular nasceu a lenda de que a velha cidade da Aramenha teria sido engolida pela terra durante um grande terramoto. 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

CRÓNICA | O Homem Sapo (e como ele se transformou) | VANESSA LOURENÇO


Deambulava sozinho por entre becos de ruas salobras, cardumes de ilustres desconhecidos e a escuridão das noites frias. Dir-se-ia que andava perdido, mas conhecia os recantos do charco citadino como ninguém. A vida não lhe era farta, mas dela insistia em se saciar, um dia de cada vez, cantarolando. “É louco”, murmuravam uns, “canta para fugir da vida”, diziam outros. E o velho, que muitas vezes os ouvia, não queria saber.

Chamou-lhe Libelinha, e não foi por acaso: apesar de viver nas ruas, era um homem culto, e sabia que estes pequenos animais, antes de se tornarem adultos nos céus, nasciam nas águas turvas dos charcos emoldurados por juncos e ervas altas. Ora ele tinha encontrado a Libelinha dentro de um contentor de lixo que as chuvas impiedosas dos últimos dias tinham inundado, e por pouco lhe tinha salvo a vida. Ela tinha renascido e por gratidão, nunca mais lhe largara os passos.

Habituado à sua solidão, o velho viu-se pela Libelinha obrigado a renascer, pois que o diacho da cadela adorava pessoas e depois de escapar da morte quase certa, parecia determinada em exigir da vida tudo aquilo a que tinha direito: “que simpática, a cadelinha é sua?”, “tome lá esta ração e não agradeça, ela precisa de crescer forte!”, “que bonita, onde a encontrou?”. E a todos o velho se via forçado a responder, notando ao final de uns dias que todas as manhãs ansiava por este mundo novo que a Libelinha teimava em lhe fazer ver: a cadela parecia acreditar que ninguém era intrinsecamente mau e que por todos devia distribuir amor, e esse amor pela vida era tão grande que transbordava do pequeno corpo e inundava o velho, que de antigo só tinha a casca grossa que lhe cobria os ossos, afinal.

Começaram a ser conhecidos na vizinhança, e o velho depressa compreendeu que não tinha salvo a vida da cadela mais do que ela tinha salvo a dele: o barbeiro da avenida ofereceu-se para lhe fazer barba e cabelo, pois que “onde já se viu, uma cadelinha tão bonita andar ao lado de um homem descabelado?”; o dono da pastelaria oferecia-lhe pela manhã um café e um pastel, pois que “tem que andar bem acordado, não vá a Libelinha perder-se!”; a veterinária municipal insistia em oferecer vacinas e desparasitantes, pois que “a Libelinha tem que andar saudável para tomar conta de si!”.

O velho decidiu então que tinha que estar à altura de todo aquele amor e começou com a Libelinha a percorrer as ruas em busca de desperdício que pudesse vender: latas vazias, metal e objectos deitados fora que pudessem ser vendidos em segunda mão. À tardinha, regressava à pastelaria e ajudava nas limpezas, o que lhe garantia sempre meia dúzia de tostões e uma refeição quente para si, e para a Libelinha.

Uns meses mais tarde, sentado num banquinho de madeira ao lado da porta de um pequeno anexo cedido gentilmente por um vizinho, e com a cabeça pequenina da Libelinha entre os joelhos enquanto lhe acariciava o focinho farrusco, pensou de si para si que ela devia ter planeado tudo aquilo muito antes de se terem encontrado. Afinal de contas, não podia acreditar que tivessem salvo a vida um do outro por acaso.




LITERATURA | Querida Ijeawele de Chimamanda Ngozie Adichie | DOM QUIXOTE (Ensaio) - Tradução de Ana Saldanha

Nas livrarias a 28 de Fevereiro


Quando uma amiga lhe perguntou qual a melhor forma de educar a filha como feminista, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie respondeu com uma carta: Querida Ijeawele…Neste texto intimista, faz 15 sugestões. O seu objectivo? Fortalecer as novas gerações de mulheres e proporcionar-lhes as ferramentas para crescerem com um maior sentido de identidade e independência. Da aparência à parentalidade, do casamento à sexualidade e até mesmo à escolha dos brinquedos na infância, a autora explora temas fundamentais e incita as mulheres a desprenderem-se dos velhos mitos e de uma sociedade predominantemente machista (ainda que, nalguns casos, de forma encapotada).

domingo, 25 de fevereiro de 2018

LITERATURA | Na Prática a Teoria é Outra (escritos 1957-99) de Victor Cunha Rego | DOM QUIXOTE (Ensaio)

Nas livrarias a 27 de Fevereiro


Com prefácios de José Cutileiro, Otavio Frias Filho, Manuel de Lucena e José Miguel Júdice, esta edição organizada por Vasco Rosa e André Cunha Rego, reúne todos os textos do jornalista, colunista e diplomata.

CRÓNICA | A humanidade e a desumanização | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO




Este é um tema que me tem dado uma boa dose de inquietação, pela sua crescente transversalidade ao ser humano, contemplando crianças e adultos. Desde as barbaridades das guerras à corrupção em todas as áreas, passando pela notória falta de paciência e agressividade do cidadão comum, até ao bullying juvenil e, até, infantil.

É certo que guerras e elementos sem brio e ocos de emoções sempre houve, o hoje chamado bullying também e a natureza humana sempre gostou de ter e ostentar poder, mas creio que ainda existiam alguns limites que, nos dias que vivemos, já foram amplamente ultrapassados. Aquilo que verifico, actualmente, enquanto observadora atenta do que me rodeia, é que todos os valores morais de que éramos imbuídos desde o berço estão a desaparecer. O respeito, a honra, a honestidade, a abnegação, o esforço e a empatia estão a dar lugar aos seus opostos. Estamos a esquecer-nos do que significa ser humano, do verdadeiro e enorme significado que essa palavra encerra.

Os adultos estão demasiado ocupados em conseguir os meios para ter e dar uma vivência cada vez mais materialista e de ostentação; querem ser e ter mais e melhor; são desafiados a isso, pelo sistema perfeitamente montado para efeito e crêem – falsamente – serem recompensados por tanto esforço, por relegarem as famílias para segundo plano, por abandonarem as bases morais, os alicerces com que os seus pais os dotaram para enfrentarem os desafios da vida. Fazem desmoronar os princípios básicos da sustentabilidade de uma sociedade pacífica e próspera para todos e dão início às fundações da anarquia e do caos. O comodismo e a inércia instalam-se e permitem-se serem guiados – usados – por pares completamente cegos pelo poderio e viciados no sofrimento alheio.

Os miúdos, completamente desacompanhados, crescem sem qualquer noção do que é viver em sociedade, do que custa ter e manter uma vida minimamente confortável e honrada. Tornam-se insensíveis e desligados de emoções positivas; regridem às emoções primárias, as anteriores à evolução, aquelas que nos permitem a defesa e o ataque e tomam-nas como princípios essenciais à vivência. São o produto perfeito dos seus desgastados e hipnotizados pais. E são, também, o futuro, os percursores da nossa espécie. Pergunto-me que valores, que vivências, que experiências irão construir o futuro; o que passarão aos seus próprios filhos; que legados deixarão.

A nossa história tem algumas figuras completamente maquiavélicas, ao longo dos tempos, mas nunca se viu tantos exemplos de prepotência e desumanidade como agora. Temos líderes mundiais que afirmam que a forma de combater a violência armada é armando, ainda mais, o cidadão comum; outros querem, a qualquer preço, ter o melhor armamento e divertem-se a espicaçar e a ver o resto do mundo a tremer de medo e de raiva, enquanto fazem mais um teste nuclear aqui, outro ali; há aqueles que torturam e matam em nome de uma qualquer crença religiosa e perpetuam no tempo guerras e acossamentos infindáveis; pululam os corruptos, os oportunistas e ladrões, que não hesitam em espezinhar quem se atravesse no seu caminho para travar os seus objectivos.

E o cidadão comum é liderado por estes exemplos a negativo da essência humana. Torna-se também ele frio e calculista – a necessidade aguça o engenho; torna-se, também ele, o exemplo a não seguir.

Na base da pirâmide estão os jovens e as crianças. E eles crescem a violentar física e psicologicamente os pares e os parceiros de vida, cada vez mais cedo; a matar pais e irmãos; a descartar os mais velhos já a necessitar de amparo e empatia – algo que não conhecem. Perdem-se para a vida, pois não vivem, apenas sobrevivem.

Lembro-me de há vinte ou trinta anos ver alguns filmes de ficção científica que retratavam um futuro apocalíptico, de paisagens cinzentas pela destruição em massa, onde o sol se tinha eclipsado há muito, despojado de sentimentos e dominado pela necessidade primária da sobrevivência a qualquer custo. Na altura pensei que eram representações sem qualquer sentido. Quem, no seu juízo perfeito, seria capaz de tais atrocidades?, de se destruir a si próprio?! Hoje, infelizmente para todos nós, penso que os criadores desses cenários foram verdadeiros visionários.

Não nos podemos esquecer que somos uma espécie privilegiada: temos a opção da escolha e “damos cartas” nesta ainda maravilhosa bolinha azul. Podemos sempre escolher entre o certo e o errado, assim tenhamos as bases para isso.

Chegamos ao ponto em que se impõe uma única pergunta, que pode mudar o rumo da nossa espécie, de todo o planeta: vamos escolher viver confortavelmente ou sobreviver no caos? A escolha é mesmo só nossa e começa em cada um mas… não por muito tempo.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

LITERATURA | A Filha de Anna Giurickovic Dato | DOM QUIXOTE - Tradução de José Colaço Barreiros

Nas livrarias a 27 de Fevereiro


Ambientado entre Rabat e Roma, A Filha coloca-nos perante uma perturbante história familiar, em que a relação entre Giorgio e a sua filha Maria oculta um segredo inconfessável. A narrar tudo na primeira pessoa está, porém, a mulher e mãe Silvia, cuja paixão pelo marido a torna incapaz de reconhecer a doença de que este sofre.

Enquanto observamos Maria, que não dorme durante a noite e renuncia à escola e às amizades, a revoltar-se continuamente contra a mãe e a crescer dentro de um ambiente de dor e de suspeita, vamos pouco a pouco descobrindo a subtil trama psicológica dos acontecimentos e compreendendo a culposa incapacidade dos adultos em defender as fragilidades e as fraquezas dos filhos. Quando, após a misteriosa morte de Giorgio, mãe e filha se mudam para Roma, Silvia apaixona-se por Antonio, e o almoço que organiza para apresentar o novo companheiro à filha despertará antigos dramas. Será Maria de facto inocente, será realmente a vítima da relação com o seu pai? Então, porque tenta seduzir Antonio sob os olhares humilhados da mãe? E seria a própria Silvia verdadeiramente desconhecedora do que Giorgio impunha à filha?