segunda-feira, 5 de março de 2018

CRÓNICA | A dor não é só nossa | VANESSA LOURENÇO


Li esta semana uma noticia online que me preocupou, e confesso que nunca tinha pensado muito no assunto: o facto de existirem crianças que pensam que os animais não sentem dor. Quer este facto se fique a dever à forma como diferentes famílias encaram os animais, tendências culturais ou individuais, o que é facto é que os animais sentem dor e devem ser respeitados, e esse é um dos valores que devemos passar às nossas crianças. 
A história? Essa, é mais ou menos assim:

Pela mão da avó, vinha a saltitar pelo caminho de terra e a rir às gargalhadas. Estava uma manhã soalheira depois de uma noite chuvosa, e a toda a volta se podia ouvir o vento a rodopiar por entre os ramos das árvores e ver os pássaros a dançar no céu. Subitamente, sentiu um puxão no braço e deu um passo atrás. Procurou os olhos da avó e encontrou neles alívio:

- O que foi?

A avó libertou-lhe a mão e agachou-se à sua frente, para apanhar qualquer coisa do chão. Quando se voltou para ele, sorrindo, estendeu-lhe a palma da mão nodosa à altura dos olhos e mostrou-lhe um pequeno passarinho ainda jovem:

- Quase o pisaste.
Franziu o sobrolho e aproximou o nariz da pequena criatura encolhida que piava incessantemente, sem compreender:

- Mas é tão pequenino... faz mal pisá-los quando mal os conseguimos ver?

 A avó suspirou, abanou a cabeça e sorriu, com aquele sorriso das pessoas que nunca envelhecem. Respondeu:

- Consegues vê-lo agora, aqui na minha mão?

O neto voltou a aproximar o nariz da pequena criatura que agora se arrastava lentamente pela mão da avó, não muito certo de estar em segurança, e levantou de novo os olhos para ela:

- Sim, está mesmo aqui!

A avó sorriu:

- Porque são pequeninos, nem sempre os conseguimos ver. Mas podemos estar atentos enquanto caminhamos, e evitar magoá-los.

A avó olhou em volta, encontrou o ninho e colocou o passarinho de volta. Enquanto a via fazê-lo, o neto perguntou:

- Mas avó... os animais também sentem dor?

A avó ficou subitamente mais séria, embora o brilho nos olhos fosse o mesmo. Ouviu-a dizer:
- Sim, sentem dor tal como nós. Porque perguntas isso?

O neto encolheu os ombros e olhou em volta, pontapeando uma pequena pedra para longe:
- Não sei bem... eles não falam, por isso achei que também não se magoavam...

A avó franziu os lábios e baixou-se para o olhar nos olhos, as mãos pousadas nos seus ombros:

- Não falam? Presta atenção: o que é que ouves?

Ele fechou os olhos por uns segundos e respondeu:

- Ouço os pássaros a cantar, e o cão do vizinho Tó a ladrar ao longe.

A avó sorriu e endireitou-se, sem retirar as mãos dos seus ombros:

- Vês? Lá porque não falam como nós, não quer dizer que não falem. Ou que não sintam dor.

Ele franziu o sobrolho e coçou a cabeça com a mão pequenina, e logo depois abraçou a avó com força:

- Eu não gosto que me magoem... e não quero magoar os animais. Eles são nossos amigos e esta também é a casa deles. Prometo que vou ter cuidado, avó!

domingo, 4 de março de 2018

CRÓNICA | Bendita Chuva ! | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO

Esta semana, depois de uma atribulada ida às compras, mercê das centenas de pessoas que se encontravam nos espaços comerciais e da ira dos elementos da natureza, decidi fazer uma pausa nos afazeres domésticos e entrei num dos cafés perto da minha casa. Sentei-me a saborear uma tarte de frutos vermelhos. O doce das amoras e dos morangos invadia-me a boca, ao mesmo tempo que se misturava com o acre dos mirtilos, conferindo à iguaria a categoria de um dos maiores prazeres experimentados. 

Ia na terceira garfada de pedaço do céu quando duas mulheres jovens, na casa dos trinta anos, claramente empurradas pela impiedade do vento, entraram de rompante no estabelecimento. A primeira, de cabelos no ar e ar enfadado, apressou-se a abrir caminho entre as mesas, enquanto sacudia o sobretudo castanho em tudo o que era direcção, até se deter a um dos cantos e sentar-se pesadamente numa das cadeiras, suspirando fundo e deixando escapar o cansaço que lhe ia na alma.

- Maldita chuva!

- Estás parva?! Bendita chuva! Não tens visto as notícias?! O país está em seca severa e, em alguns sítios, extrema. Tem que chover.

- Olha, ainda não dei por nada – encolheu os ombros.

Dei por mim a arquear uma sobrancelha - o que nunca é bom sinal -, ao mesmo tempo que, não sendo católica praticante, mentalmente me espantava com a súplica que ali se impôs: perdoa-lhe, meu Deus, pois não conseguiste dar inteligência e discernimento a todos os seres humanos; bem, isto significa que também Tu não és perfeito. Sorri com a constatação, muito mais ao meu género, e abanei maquinalmente a cabeça tentando pôr de lado os pensamentos que dariam, certamente, uma longa e valorosa dissertação. Voltei a concentrar-me na conversa à minha frente, afinal, estava curiosa com o desfecho da mesma.

- Nós somos uns sortudos, pois em Lisboa ainda não demos por isso como em outros locais do país. Por acaso já pensaste há quantos meses não chovia de jeito? Estamos no Inverno, não no Verão.

- Sim, eu sei, mas não gosto de chuva.

- Eu também não morro de amores, mas penso naquelas pessoas que têm a vida arruinada por não conseguirem que as colheitas vinguem, ou que não conseguem alimento para os animais que estão a morrer à fome, ou, ainda, para os que querem, simplesmente, tomar um banho ou beber um copo de água. Isso está a passar-se no nosso país! Como é que podes ser tão insensível?!

A outra mulher não respondeu, visivelmente mortificada pelas palavras certeiras da amiga. Olhou em volta, pela primeira vez desde que ali chegara, enquanto pagavam a despesa, para saírem logo de seguida.

Eu fiquei a pensar na cena que observara e em quantas pessoas pensariam e agiriam como ela. Quantas pessoas ainda dariam a água como um bem adquirido, como uma fonte inesgotável que existe apenas com o propósito de servir individualmente as nossas necessidades, sem olharmos aos nossos pares e aos outros seres vivos; na falta de empatia, egocentrismo e egoísmo que domina os nossos tempos. Felizmente nem todos são aquela mulher; alguns – muitos - são a outra. Será que somos suficientes para inverter a tendência suicida da humanidade? Gosto de pensar que sim. Espero não estar, também eu, à semelhança daquela cega mulher mas noutro sentido, obviamente, a iludir-me, a viver fora da realidade. 


sábado, 3 de março de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | Confissões de uma "livromaníaca" | ISABEL DE ALMEIDA

É comum deparar-me com crianças e jovens que resistem à leitura de textos ou livros, e que consideram ler "uma seca", mesmo entre adultos, conheço vários que preferem mil vezes "ver o filme" do que "ler o livro". 

Para um leitor viciado, para um bibliófilo, é deveras estranho perceber estes fenómenos de resistência e não apetência pela leitura de um bom livro, mas hoje decidi partilhar com o mundo alguns dos aspectos próprios dos nerds ou "cromos" dos livros, aquele tipo de particularidades e pequenos dramas que só quem tenha a mesma paixão consegue entender, mas que irá, certamente, causar ataques de riso a quem não padeça desta doença que dá pelo nome de bibliomania crónica.

Aqui seguem, em rigoroso exclusivo, algumas confissões de uma "livromaníaca":

1. Ao contrário do que a família e alguns amigos possam pensar, não é concebível para nós a ideia de "ter livros a mais", independentemente do espaço, há sempre recursos muito imaginativos em termos de decoração para fazer instalar mais uma estante, ou invadir outros móveis com pilhas de livros, um pouco por toda a casa, ou por todas as casas ( se acaso tivermos acesso a mais do que uma casa).

2. Assim que se avizinham novidades editoriais aumentam consideravelmente os níveis de ansiedade literária, aquele formigueiro que só acalma quando temos o desejado livro nas mãos, mas, adivinhem, assim que um dos muito desejados chega, muitos outros se lhe seguem, por isso a nossa wishlist é algo assim a rondar o infinito, é uma história nunca acabada.

3. Para nós os livros são verdadeiros objectos de culto, amuletos, parte da família, portanto uma das grandes tragédias que podem suceder e deixar pesadas marcas psicológicas são: emprestarmos livros e a) não serem devolvidos b) serem devolvidos estragados (e isto equivale a qualquer pequena marca na capa, marcas deixadas por animais, manchas de água ou outros líquidos, lombadas partidas, páginas dobradas, sublinhados, cantos amolgados, rasgões em qualquer parte). Um livro estragado é algo capaz de nos provocar uma síncope cardíaca, acreditem.

4. Na sequência do tópico anterior, há aqueles momentos infelizes em que nós próprios estragamos os livros, uma das situações mais usuais pode ser uma simples queda que irremediavelmente causa danos irreparáveis (lombadas e cantos amassados), o que sentimos? Raiva de nós mesmos, um impulso de auto-mutilação e, sempre que possível, fazemos substituir o exemplar danificado por outro novinho em folha (Verdade ou mentira meninas?).

5. Agora imaginem o seguinte cenário: um livro tem várias edições ( podem ser da mesma editora ou e editoras diferentes) pois bem, podemos ter várias edições que são rigorosamente do mesmo livro, por questões tão variadas como: há edição de bolso ( que comprámos num saldo, por exemplo), há edição de tamanho standard em capa mole, mas passados meses ou anos sai uma edição em capa dura ou com a capa que corresponde ao cartaz de filme ou série inspirado no livro, é lançada uma edição especial comemorativa, por exemplo, do aniversário da publicação do livro.  Pois bem, é certo e sabido que iremos querer ter um exemplar de cada tipo de edição dos mesmos livros, se estes integrarem a galeria dos especiais ( Um exemplo aqui em casa, existem várias edições de "Os Maias", a edição de luxo que integra a colecção das Obras Completas de Eça de Queiróz, e depois várias edições escolares que têm anotações e são "de trabalho").

6. Um momento solene é aquele em que, perante a perspectiva de irmos passar algum tempo fora de casa, é preciso seleccionar que livros levar. Fazemos uns esforço, a sério! Juro que tentamos ser comedidos na quantidade de livros a transportar para um simples fim de semana em casa dos primos, mas temos de ter por onde escolher, e como tal, levamos sempre uma boa quantidade de livros, superior ao tempo que teremos disponível para ler.

7. Contamos os dias, meses ou anos necessários para ler o livro que se segue nas séries de livros que seguimos (pessoalmente considero uma série, tudo o que ultrapasse os quatro livros relacionados com a mesma narrativa), e hiperventilamos quando está mesmo quase a sair mais um livros dos nossos autores preferidos.

8. Adoramos ter exemplares autografados pelos nossos autores de eleição, e portanto, somos capazes de passar muito tempo em amena cavaqueira, com muitas selfies e garrafas de água à mistura, em filas na Feira do Livro de Lisboa só para termos o privilégio de conhecer e falar com os nossos ídolos literários, e quem sabe, tirar uma foto na sua companhia, onde ficamos, inevitavelmente, com aquele ar embevecido por termos conseguido realizar um sonho.

9. Há muitos momentos em que nos transformamos em criaturas anti-sociais, porque precisamos mesmo de esquecer a loucura do mundo em que vivemos, e ficarmos no sofá a ler, ao invés de termos de ir aquele jantar chato para o qual nos convidaram, mas não temos paciência.

10. Nunca conseguimos esconder a alegria, melhor dizendo, o êxtase, de receber um novo livro, bem como a desilusão quando achávamos que a família, a cara metade ou os amigos tinham seguido as pistas e escolhido o presente ideal (aquele livro que queríamos mesmo), e afinal criámos falsas expectativas.

11. Um dos meus sonhos secretos é fazer um retiro prolongado para poder ler a um ritmo bem mais acelerado que que aquele que consigo manter.

12. Pronto, e este último tópico é polémico, não é consensual mesmo entre leitores, mas eu sou jurássica, confesso, não consegui ainda habituar-me aos livros electrónicos e porquê? Ok malta, é verdade, num livro electrónico faltam aspectos essenciais como: poder percorrer a textura ou o relevo das letras na capa do livro, o perfume inigualável dos livros antigos, ou o cheiro a tinta acabada de imprimir, e a textura do próprio papel em que o livro esteja impresso. Sim, é verdade, está na hora de confessar ao mundo que o cheiro dos livros é algo a que sou deveras sensível!

E o leitor, qual foi o último livro que leu?  Quem são os seus autores preferidos? Que livro me recomendaria? Quero saber tudo! 

quinta-feira, 1 de março de 2018

ENTREVISTA À AUTORA PATRÍCIA REBELO POR MBARRETO CONDADO


Nascida em 1990, descobriu desde de cedo na escrita a sua enorme paixão em expressar os seus sentimentos e ideias.
Mesmo em constante procura de si nas atribulações da vida consegue manter-se em equilíbrio com os amigos e com o seu amor pela escrita e na procura incessante pela sua alma gémea, fazendo jus ao seu signo.
Começou a sua actividade com o Blogue do Facebook “Cartas à tua ausência” onde encontrou apoio de quem gosta de ler e, com esse apoio, começou em 2015 a sua carreira literária.
Contando a sua historia digna de página, condensa os textos soltos do Blogue num livro intitulado” Um dia disseste que eu devia escrever um livro”, para ler e, talvez, reler."

Fala-nos um pouco de ti e do que te motivou a escrever este livro.

Sou uma apaixonada pela transmissão de emoções. Acho fascinante quando se lê algo e sentimos que foi feito para nós. Desde do inicio da adolescência que comecei a escrever uns rabiscos e várias pessoas me disseram que um dia teria um livro meu à venda. Na altura achava algo muito irreal. Quando escrevi o meu primeiro livro, foi um processo muito rápido e emocional. Eu perdi a memória de uma forma estranha, não existindo uma justificação oficial, mas deveu-se a uma cirurgia que não terá corrido pelo melhor. Nessa altura, claro, senti-me sem chão... Foi um processo complicado, onde eu tentei reconquistar a minha zona de conforto ( que já não existia) e onde me vi no meio de um turbilhão de emoções que precisava de exteriorizar. Comecei por criar um blog (ainda muito longe da ideia de um livro) que se chama “Cartas à tua ausência” e as pessoas começaram a perguntar-me pelo livro. Um dia um grande amigo meu sugeriu e pronto... dessa ideia até à concretização foram 2 meses.

De onde surgiu a ideia para o nome do teu livro?
Foi muito fácil. Como é uma história muito emotiva, necessitava de um nome que se adequasse. Um dia olhei para o texto que viria a ser o último capítulo, e disse : “ Está aqui! É este o título”.

Explica-nos por favor como se sente uma pessoa que faz uma simples cirurgia e quando acorda não se lembra dos últimos anos?
É impossível explicar. É um sufoco. Um medo. Uma angústia. É perder completamente a identidade. Parece que não, mas alguns anos, mesmo que poucos, fazem uma enorme diferença. Estamos em constante mudança e apesar de sermos fieis ao que somos, a nossa personalidade está em constante desenvolvimento. Quando perdi isso, perdi a pessoa que me tinha tornado. Perdi a jovem adulta. Voltei a ser adolescente... e sim, existem uma diferença abismal.

Escreveres sobre o que se passou contigo foi de alguma forma uma espécie de terapia ou reviver o que te aconteceu é doloroso?
Foi como uma terapia. Eu tinha 2 opções: ou não falava do assunto e iria tornar-se algo que me metia um medo enorme impossível de enfrentar, chegando talvez a tabu, ou começava a falar aos poucos. Dizer que foi uma terapia, não anula o facto de ser doloroso. O processo em si, foi extremamente doloroso. Escrevi com o coração nas mãos. Mas serviu de trampolim para me sentir bem melhor, comigo, com o que me rodeia e com o tema em si.

Em algum momento durante o processo de escrita te sentiste sozinha?
Claro que sim. Quando escrevi o meu primeiro livro, estava bastante isolada. Era-me complicado lidar com tudo e foi um processo muito solitário. Foi necessário cair, desconstruir-me, aprender quem sou e voltar a caminhar.

Na altura tinhas um namorado e quando acordaste não te lembravas dele. Queres contar-nos um pouco como foram esses momentos? Ficaram retratados no teu livro?
Foi assustador. Surreal. Acho que a angústia, o medo e o pânico ficaram bem retratados no livro. Mas, é impossível transmitir tudo o que foi sentido. Há coisas que não se consegue traduzir por palavras.

Como tem sido a aceitação das pessoas sabendo que estás a relatar a tua própria história?
Muito boa! As pessoas conectam-se. Os leitores emocionam-se. Sentem diversas emoções que estão descritas no livro e isso é óptimo. É fantástico quando conseguimos conectar aquilo que escrevemos com quem lê.

Podemos esperar algo diferente da Patrícia para breve? Será que nos podes adiantar algo?
Algo muito diferente sim. Uma área totalmente nova para mim. Mas, também, um novo livro para 2018 cheio de emoções para que as pessoas se conectem. Um livro com histórias de todos.

A divulgação do teu trabalho tem correspondido às tuas expectativas?

É muito complicado. Aposta-se muito pouco em jovens autores. É impressionante o descredito que lhes é atribuído. Quando um autor lança o seu trabalho, procura que este tenha a possibilidade de ser publicitado, de se encontrar sempre disponível na maioria das livrarias e grandes superfícies e ainda de ser considerado destaque de novidade. Infelizmente, para a maioria, isso não acontece, tendo o autor que fazer a sua própria publicidade, sendo quase impossível chegar aos grandes armazéns. Qualquer autor deve procurar muito bem as editoras com quem quer trabalhar e analisar devidamente todos os pontos, permitindo ser o acordo mais justo para ambos. A divulgação do meu primeiro trabalho foi a possível, mas para mim, não aquela que fosse satisfatória. Da próxima vez, irei analisar e escolher a hipótese que me permita, na realidade, crescer enquanto autora, e estar mais próxima dos meus leitores, ou seja, ter o meu livro disponível em mais superfícies comerciais, para aqueles que conheçam, comprem e aqueles que não conheçam possam folhear e despertar a curiosidade. Só assim é que os livros podem ser vendidos: quando o leitor os conhece. Quando o leitor sabe que existem. Quando o leitor folheia. Quando o leitor se permite a dar uma oportunidade, porque determinado livro, em determinada prateleira ou anuncio, lhe chamou a atenção.

Quais os teus planos para os próximos meses?
São vários. 2018 será um ano fantástico! Mas não posso ainda revelar.


SINOPSE

Patrícia é uma jovem adolescente que um dia conhece Diogo, um rapaz bem parecido e divertido, por quem rapidamente se apaixona. Os dois iniciam um namoro, que marca também a sua entrada na universidade de Coimbra e na vida adulta. Mas um dia Patrícia acorda de uma operação, com um desconhecido ao lado e descobre que é vítima de uma inesperada amnésia. Confrontada com a estranha situação de não se lembrar da sua vida mais recente, Patrícia tem que lidar com Filipe, o seu novo namorado, ao mesmo tempo que descobre que ainda está apaixonada pelo imaturo Diogo. “Um dia disseste que eu devia escrever um livro” é a pujante história de amor de uma jovem à procura do seu antigo namorado e, mais do que isso, das suas memórias e da própria vida. Como sobreviver, quando já não nos lembramos de quem somos?

Gostaria de aproveitar a oportunidade para agradecer à autora pela disponibilidade desejando-lhe o maior sucesso.


















MBarreto Condado

DIVULGAÇÃO LITERÁRIA | Boneca de Trapos, de Daniel Cole | SUMA DE LETRAS | FALTAM 5 DIAS


NAS LIVRARIAS A 5 de MARÇO


" A Estreia mais emocionante desde há muito" | Heat Magazine

" Uma estreia contundente...Cole usa a tensão crescente e o mistério da verdadeira identidade do assassino para criar uma narrativa arrebatadora." | Publishers Weekly



CRÓNICA | Alistamento | MBARRETO CONDADO

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”

*
Num dia de Verão e cansado de não ter conseguido a tão ansiada aprovação e liberdade que queria do seu “rico” pai, Nunes decidiu que alistar-se na tropa seria a melhor opção pois só desta forma poderia ter um rendimento. A verdade é que o pai alcançara o seu próprio estatuto como militar de carreira, apesar do mesmo ser só reconhecido pelo próprio. Levantou-se, procurou na gaveta da roupa interior por uma muda lavada só para se deparar com a gaveta vazia. O velho hábito de atirar a roupa para cima do armário do quarto era muito mais confortável, estendeu o braço e retirou um par de cuecas e meias hirtas de tão sujas que estavam, mas lá teriam que servir.

Sentado no café Mil e uma Noites enquanto fumava um cigarro na companhia do seu amigo Paulitos, bebericando umas cervejas por pequeno-almoço comunicou-lhe a sua decisão. Depois de pesarem os prós e os contras, decidiram que para se alistar teria que ser num dos ramos das tropas especiais, não ficava bem a um menino como ele nascido em berço de antiquarias andar a marchar como um mais da plebe. Estava decidido, pelo que selaram o momento com um audível beijo na boca perante o olhar atónito das velhas senhoras do bairro que tomavam àquela hora o seu cházinho com torradas aparadas acompanhadas de geleia de marmelo. Foi necessário o empregado acudir-lhes com um copo de água com açúcar para que não desmaiassem pouco habituadas que estavam a manifestações de carinho entre homens.

Quando voltava para casa soube que tomara a decisão acertada, seriam perto de três anos longe da vida que conhecia, mas o mais importante é que a partir daquele dia deixaria de se preocupar com as horas do recolher obrigatório instituídas pelo pai. Mais vezes do que aquelas que gostaria de se lembrar dormira nas escadas do prédio, como um cão, por chegar um minuto após o recolher obrigatoriamente das 22 horas. Sabia que nunca teria chaves da casa do pai por este ter medo que ele lá metesse o seu único amigo Paulitos e este decidisse surripiar as velharias amealhadas e cheias de pó.


Naquele dia Nunes daria aquele que seria o seu primeiro salto para a tão ansiada nova vida. 

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

CRÓNICA | Noturno arco-íris, Solidão Partilhada | HELDER MENOR


A Vanda vive com o fantasma de uma velhinha. Moram as duas no sétimo direito.

A idosa apareceu-lhe uns meses depois de se ter separado. Enquanto casada, a angústia das ausências do marido e os ciúmes com que ardia, não a deixavam ver mais nada. Depois do Paulo sair de casa, começou a vê-la. Passou a ter mais tempo para olhar por ela, para ela e para as coisas à volta. A velhinha apareceu a primeira vez, numa noite de terça-feira, depois da Vanda adormecer no sofá. 

Acordou sobressaltada e com frio no sofá, levantou-se e foi para a cama. Foi então que percebeu a silhueta recortada na porta da cozinha. Parecia morta e parada atrás de uma espécie de mesa de ferro sem tampo. A viva não teve medo. Para dizer a verdade, nem pensou no assunto, caiu na cama e continuou a dormir e a sonhar com o ex-marido. Só na manhã seguinte se deu conta que a velha não fez parte do sonho. Ao final da tarde, a fazer o jantar na cozinha e a pensar na silhueta, ouviu os passos leves ponteados por uma espécie de bengala e sentiu uma presença a atravessar a sala.

- Devo estar a ficar maluca.

Estava. Afinal de contas, estamos todos. 

Nessa noite, a Vanda foi sentar-se a comer a sopa detox adelgaçante que bimby cozinhou. 
Sentou-se no seu canto do sofá da sala e fugiu ao mundo em episódios sucessivos de polícias fortes, lindos, inteligentes e americanos. O fantasma da velha pairou-lhe na mente mais uns dias.

Passaram umas semanas. Num sábado de manhã, enquanto aspirava o chão da sala, bem acordada, voltou a ver a velhota. Inteirinha, nem esfumada nem nada. A imagem completa, refletida no espelho em frente à porta da rua. Enrugada, magra e pequenina. Tinha o cabelo encaracolado branco e marcas nos braços de quem passou muito tempo a soro. Um vestido leve tipo bata clara com flores azuis e um andarilho de alumínio à frente. Apenas por um instante. Mas viu bem. Curiosamente, mais uma vez, não se assustou. Continuou a aspirar. Depois comeu uma sandes de queijo fresco e foi tomar banho.

À tarde contou à Tita, que faz reiki e é assim meio espiritual.

- Caraças, pá miúda, temos de ver o que é isso e quem é essa velha!!!

A Tita ficou entusiasmada e marcaram logo uma “sessão energética” para essa noite. Inclusive a Tita, até desmarcou um jantar que tinha com um mais-ou-menos namorado. Ligaram à Maria João, uma amiga da Tita que é mais graduada no Reiki e em anos de divorciada...

Jantaram as três frango assado e nem beberam o vinho verde que gostam porque a João, disse que o espírito podia ficar ofendido. Sentaram-se à volta da mesa da sala, acenderam umas velinhas redondas dentro de copos (eram as únicas que tinham), apagaram a televisão e deram as mãos. A João presidia a cerimónia com voz profunda.

- Espírito que estás nesta casa, por favor apresenta-te aos teus irmãos vivos e dá-nos um sinal. (Pausa). Espírito que estás nesta casa, por favor apresenta-se aos teus irmãos vivos e dá-nos um sinal.

Nada. Nada de sinal. Nem vozes, nem corrente de ar, nem velas a apagar. Nada.
Apenas um silêncio frio e desconfortável.

A João repetiu o apelo, um num tom sério... como aqueles dos carros mal estacionados nas caves dos hipermercados... mais lento e pesado. É um espírito tímido, concluiu, às vezes acontece, sobretudo se são mulheres...

Picado por esta boca algo machista, a alma da velhinha manifestou-se na cozinha. Um copo cometeu suicídio lançando-se do alto do escorredor onde estava deitado acabado de lavar e à espera de secar… Um copo grande de água com riscas amarelas. Vidro grosso partido com estrondo espalhado no chão.

As três vivas gritaram o susto. A João, depois de recomposta, sorriu conhecedora. Tita ficou arrepiada e teve de ir a correr fazer xixi. A Vanda levantou-se, acendeu as luzes e foi varrer o chão da cozinha. Acabou-se ali a sessão.

Decidiram sair. Foram a um bar ouvir música brasileira e beber umas caipirinhas que custaram os-olhos-da-cara-mas-um-dia-não-são-dias. A Vanda nessa noite acabou por ir dormir a casa da Tita que ficou imprópria para conduzir.

Depois da sessão e do copo a partir-se, a velhinha começou a aparecer mais vezes. Passou a ser uma presença quase permanente lá em casa. A Vanda foi-se habituando ao perfume Madeiras do Oriente.

Passaram-se meses desde que o copo caiu do escorredor.

Uma tarde destas, cruzou-se com a João na rua.

- Vanda temos que fazer outra sessãozinha lá em tua casa, mas desta vez, levo uma defumação, para expulsar o espírito...

A Vanda indignou-se!

- Expulsar?? Nem pensar nisso, deixa estar a senhora. Faz-me mais companhia que o meu ex e dá menos trabalho que um gato. Não preciso de lhe andar a ver as mensagens do telemóvel nem de lhe mudar a areia da caixa!!!! Além disso desde que a Tita disse no café que tenho um fantasma em casa, a Dona Idália do primeiro frente deixou de me querer arranjar casamento com o filho que é gay.