domingo, 11 de março de 2018

CRÓNICA | Em Nome de Quê? | MAFALDA PASCOAL


Hoje tomo a liberdade de trancrever um texto que não é de minha autoria, mas que poderia ser, já que o acho excepcional. Se eu o tivesse escrito, não acrescentava nem tirava nada. Vamos lê-lo e meditar nele...

“Em nome de quê?

Sim, esta é a minha pergunta. Vocês nascem, crescem, vão à escola, escolhem uma profissão, escolhem companheiros, namoram, casam, têm filhos, trabalham. Aguentam a pressão dos pais, aguentam a pressão dos companheiros, aguentam a pressão dos filhos, aguentam a pressão dos chefes, aguentam a pressão do dinheiro, aguentam a pressão da sociedade.

E esta é a minha pergunta.

Em nome do quê?

Em nome do quê trabalham naquilo que não gostam, aguentam pais autoritários?

Em nome do quê suportam as exigências dos companheiros que não vos aceitam como são?

Em nome do quê aceitam a exigência que os filhos fazem para que vocês sejam os pais que eles esperam?

Em nome do quê?

Em nome do quê aguentam as vicissitudes de uma carreira que não anda nem desanda?

Em nome do quê deixam de viajar, de andar por aí a reenergizar a vossa alma?

Em nome do quê se deixaram amarrar a uma vidinha estéril e sem futuro, sem perspectiva e sem realização?

Em nome do quê?

Em nome do quê colocaram os sonhos na gaveta, perseguindo avidamente a segurança mesmo sem nunca a alcançar?” 
     

LITERATURA | Olha-me Como Quem Chove de Alice Vieira | EDITORA DOM QUIXOTE (Poesia)

Nas livrarias a 13 de Março


O título do livro parte de uma epígrafe que tem a ver com um poema de Ruy Belo. E surge na sequência dos outros três livros de poesia já publicados pela autora: o quotidiano de amores reencontrados e perdidos, de recordações como sustentáculo da vida, da aprendizagem de novos lugares e de novas sensações, das perdas que se enraízam na nossa pele e nos ajudam a sobreviver.

CRÓNICA | Mulheres, essas criaturas quase míticas | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO

Esta semana comemorou-se o Dia Internacional da Mulher e com certeza que não poderia deixar este tema em branco.

Tenho ouvido diversas vezes que “O dia da mulher não é só a 8 de Março mas todos os dias”. É claro que concordo em absoluto, por todas as razões que se possam aventar e não só por aquelas que as feministas apregoam – isto daria um outro tema muito interessante -, mas é bom sabermos a razão das coisas existirem: as celebrações do Dia Internacional da Mulher tiveram início em 1909 em contexto de luta das mulheres por melhores condições de vida, de trabalho e pelo direito ao voto. Celebrava-se sem data definida, em Fevereiro ou Março consoante o país. No entanto, foi no dia 8 de Março de 1917 que se realizou uma das mais importantes manifestações de mulheres. No início desse ano, na Rússia, ocorreram uma série de manifestações de trabalhadoras pelo direito a melhores condições de vida, de trabalho e contra a entrada da Rússia czarista na primeira guerra mundial, que foram selvaticamente reprimidas e anteciparam o início da revolução de 1917. Posteriormente, o movimento internacional socialista instituiu o dia da principal manifestação, 8 de Março, como o Dia Internacional da Mulher. Mais tarde a ONU designou 1975 como o Ano Internacional da Mulher e as Nações Unidas adoptaram o dia 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher, com o objectivo de lembrar todas as conquistas femininas na área política, económica e social, independentemente de quaisquer diferenças, sejam elas económicas, políticas, linguísticas, culturais ou étnicas (info in Wikipédia).

Exponho estes factos de forma muito breve – muito mais há a assinalar - mas, creio, após esta pequena leitura todas e todos estarão a pensar que o Dia Internacional da Mulher deve ser lembrado e comemorado pelos seus reais motivos de existir: a coragem que algumas mulheres tiveram para enfrentar ideais e regimes opressores, em alturas em que isso era completamente impensável e, inclusivamente, pago com a própria integridade física, para hoje termos aquilo que temos. Há ainda muito a fazer mas já percorremos um longo caminho e isso deve ser motivo de orgulho.

Mas não é de história que vos quero falar. Quero, principalmente, enumerar algumas das multifacetadas capacidades das mulheres em geral e que devem ser reconhecidas.

Apelido-as de criaturas quase míticas porque num mundo predominantemente masculino em vivência, sejamos francos, as mulheres são, pelas suas inúmeras características, quase irreais aos olhos dos menos dotados dessas faculdades.

Elas são musas de poetas, pintores, escultores e escritores, convidando à criatividade pelos seus modos delicados e beleza, pela irresistível sedução, a forma enigmática e até a pura inocência. São a cola que une o seio familiar, concertando, promovendo o bom ambiente e funcionamento dos vários elementos. São educadoras e professoras dos filhos, nas matérias escolares e de vida. São amantes dedicadas, procurando sempre satisfazer o seu parceiro, mesmo quando não lhes apetece assim tanto. Amam profunda e apaixonadamente para sempre. São empáticas e verdadeiras companheiras, caminhando ao lado dos que lhes são próximos e queridos; não à frente, nem atrás, mas sim ao lado, dando igualmente o peito às balas em todos os percalços que surjam pois são destemidas e tenazes. São resilientes sem igual, aguentando desgostos profundos e maus tratos, calando frustrações e humilhações em várias áreas, enquanto não deixam de ser mães, filhas, amigas, irmãs e esposas. Abdicam, sem hesitar, das suas necessidades a favor dos que amam. São trabalhadoras incansáveis, fora e dentro de casa, continuando a trabalhar muito depois de todos os outros se retirarem para o descanso. São a executiva dura, exigente e ambiciosa a par da mãe e companheira carinhosa e atenta. São sedutoras e carismáticas inatas - há quem lhes chame feiticeiras dos sentidos -, moldando as situações e os outros aos seus firmes propósitos – o que uma mulher realmente quer consegue. São pacientes e persistentes, aguardando as melhores alturas e não desistindo dos objectivos. São estrategas hábeis, conseguindo facilmente antecipar situações adversas e precavendo-as. São extremamente intuitivas, têm uma sensibilidade apurada do que as rodeia. Carregam nos olhos e na alma todas as emoções conhecidas e não têm pudor em demonstrá-las com verdade. São elas que sopram ao ouvido dos homens o que deve ser feito, quando e como. Influenciam líderes, a paz, a guerra, toda a vida. São o grande precursor da humanidade. E tudo isto – e mais - ao mesmo tempo. Sim, ao mesmo tempo, a todos os minutos das suas vidas. São completas. São elas que detêm o verdadeiro poder e por isso a responsabilidade é enorme.

Usemo-lo bem. Que nunca nos esqueçamos disso.


sábado, 10 de março de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | O(s) Luto(s) e como os podemos gerir - algumas considerações| ISABEL DE ALMEIDA

   Quando soa a palavra luto imediatamente nos acode à mente a ideia da morte de alguém querido, ou mesmo de um animal de estimação, mas a verdade é que o processo de luto, que em termos muito simplistas (e num esforço de fugir a uma teorização científica muito elaborada em termos de psicologia, esforço este tanto mais complicado, porquanto se trata de uma das minhas áreas de interesse em termos de investigação científica) poderemos definir enquanto o processo de gestão psicológica de uma perda na vida de qualquer indivíduo, poderá advir de distintas situações que correspondam a mudanças significativas que tenhamos de encarar.

   Ou seja, além do luto perante o desaparecimento físico de seres que nos são queridos, o curso natural da vida de cada indivíduo está pejado de diversas mudanças ( mais ou menos normativas) que desencadeiam processos de luto, processos estes cuja elaboração em termos psicológicos nem sempre será encarada de ânimo leve.

   Situações como a perda de qualidade de vida associada a uma situação de doença, o fim de uma relação amorosa, a perda de uma amizade, o desemprego, o divórcio, uma mudança definitiva de casa, alterações na vida familiar (que podem até decorrer do curso normal da vida, a título de exemplo, podemos referir o "síndrome do ninho vazio", que sucede quando os filhos adultos abandonam a casa dos pais, para constituir o seu próprio núcleo familiar, gerando uma alteração das rotinas familiares, suprimindo a possibilidade de cuidar dos filhos de forma mais próxima e tradicional e potenciando, precisamente, uma sensação desconfortável de "vazio" perante a ausência dos filhos).

    Uma alteração forçada em termos profissionais, com a frustração de expectativas em termos de carreira (apontando-se como exemplo a impossibilidade de exercer uma determinada área profissional por motivos conjunturais financeiros) poderá redundar também na vivência de um processo de luto.

   Uma das questões prementes, neste âmbito do luto, e considerando-se o assumido envelhecimento demográfico da nossa população, é a perda da vida activa em termos profissionais, com a entrada na reforma acompanhada de uma cessação efectiva da actividade profissional. Poderão surgir dificuldades de adaptação a esta fase natural no curso de vida humano, sendo importante ir ponderando a prática de actividades de lazer e convívio que possam promover a ocupação dos tempos livres (agora mais alargados em termos de disponibilidade), sendo aconselhável promover a participação e envolvimento de indivíduos em grupos de pessoas que comunguem do mesmo contexto pessoal, e com os quais possam desenvolver novas competências passíveis de estimular as aptidões cognitivas (por exemplo, clubes de leitura ou de declamação de poesia) gerando novas aprendizagens, sendo ainda relevante a prática (naturalmente adaptada à condição física de cada pessoa) desportiva ou recreativa ( zumba, dança ou simples caminhadas em grupo).

   Importante ainda, e na sequência desta linha de pensamento atinente à gestão do luto pela perda da vida profissional activa, poderá ser o convívio intergeracional (por exemplo, ajudar a cuidar dos netos, e partilhar activamente experiências com estes).
  
   Em suma, qualquer mudança com repercussões negativas pode implicar o surgimento de um processo de luto, para cuja elaboração (solução) poderá ser mesmo necessário recorrer a terapia especializada, sendo também comum, a ocorrência de sobreposição de estados depressivos e de processo de luto.

   Dada a complexidade deste tema, voltaremos futuramente a abordar outras vertentes do processo de luto, mormente, a patologia que poderá desencadear-se perante o alargamento do período normal de luto para além dos parâmetros considerados normais entre a comunidade científica que se dedica ao estudo e ao trabalho em contexto de prestação de cuidados de saúde mental.

quinta-feira, 8 de março de 2018

CRÓNICA | VAMOS FALAR DE PLÁGIO! | PATRÍCIA REBELO


Por definição, de um modo bem generalizado, podemos definir plágio como “o ato de assinar ou apresentar uma obra intelectual de qualquer natureza (textomúsica, obra pictóricafotografia, obra audiovisual, etc.) contendo partes de uma obra que pertença a outra pessoa sem colocar os créditos para o autor original. No acto de plágio, o plagiador apropria-se indevidamente da obra intelectual de outra pessoa, assumindo a autoria” (definição retirada da Wikipédia).

Assim sendo, sabemos que qualquer parte de um trabalho que seja uma cópia integral de outro autor é considerado plágio.

Na minha opinião, o plágio é muito fácil de detectar em música, fotografia ou qualquer obra audiovisual, porém, o mesmo não se pode dizer de um texto escrito.

Como saber se é plágio?

Muitos autores consideram que é plágio quando a inspiração está bem demarcada. Tudo bem. É aceitável, até porque ele é o autor e reconhece melhor do que ninguém o seu trabalho e as semelhanças que o mesmo pode ter.

Mas como pode um autor reagir, se por exemplo se troca a palavra “podia” por “poderia” ou se se acrescenta uma ou duas palavras ao original, dando um ar semelhante, mas diferente?
Como pode o autor acusar que se trata de plágio, se o seu trabalho for publicado na internet e como todos sabemos, nem tudo fica registado, a não ser pelo blog, Facebook, Twitter, ou outra qualquer plataforma.

É muito complicado falar de plágio porque se para o autor é plágio, para a comunidade e para as autoridades, não se pode dizer o mesmo, pois só é plágio se for cópia integral, sem assinatura do seu verdadeiro autor.

Sim, existem plataformas para detectar o que é plágio, mas não é suficiente.

Desde do inicio, disse aos meus leitores que sempre que partilharem algo, devem mencionar quem é o autor.

Porquê?

Porque partilhas geram partilhas, e assim existe o registo de quem escreveu, mesmo que chegue a um leitor desconhecido que nunca ouviu falar naquele autor.

Peço, de igual modo, que sempre que verifiquem algo que consideram plágio, que encaminhem para o autor respectivo para que este possa ter conhecimento e possa verificar se realmente é plágio ou não, para tomar as devidas precauções.

É triste, infelizmente, vermos que existem pessoas que usam como inspiração integral outras, mudando um ou outro pormenor...

Denunciem sempre!

Façam chegar a informação ao autor!

Hoje falamos de plágio!

É crime!

Somos todos responsáveis pelo que partilhamos!





CRÓNICA | A Tropa | MBARRETO CONDADO

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”

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“Cabo é rabo, rabo é cú, cú é merda e merda és tu” e foi ao som da melodiosa música acompanhada pela banda do seu aquartelamento que Nunes ficou a conhecer a sua posição na hierarquia militar a partir daquele dia.

A verdade é que o coitado que estava habituado a fazer um pouco de nada foi obrigado a uma dolorosa recruta em Tancos e de nada lhe valia chorar, porque a partir daquele momento não tinha o paizinho para o aconselhar. Até uma ingreme ladeira de casquilho foi obrigado a subir e descer numa noite de trovoada e frio. No dia seguinte tiveram que furar as unhas dos pés do menino com um alfinete em brasa para que o sangue pisado pudesse sair. Dias mais tarde caiam-lhe as unhas. Na realidade o rapaz tinha umas unhas tão horríveis que o que lhe aconteceu naquele dia veio melhorar consideravelmente a visão daqueles pés.

Não havia uma única manhã em que o Nunes não chegasse atrasado à formatura sendo de todas elas severamente castigado. Mas aprenderia algo importante para o resto da sua estadia naquele SPA militar, a mais importante que não voltaria a lavar a roupa interior à mão pois isso deixava-lhe bolhas maiores que os próprios dedos. As camaratas, essas brilhavam depois de ser obrigado a limpá-las com a sua escova dos dentes, já as favolas do menino começavam a acumular uns fungos verdes que deixavam muito a desejar. Mr. Ed ficaria desgastado por encontrar um seu conterrâneo em tão mal estado.

Numa manhã, devido à sua petulância e à incapacidade de a controlar respondeu sorrindo ao seu sargento, escusado será dizer que nem se apercebeu quando a mão deste voou na sua direção entortando-lhe a gravata, e foi assim que tirou a fotografia para registo oficial, faces rosadas e bivaque ao lado. O pior mesmo foi quando todo o seu batalhão foi castigado por se ter recusado a comer a ração de combate, passaram toda a noite a marchar à chuva. As represálias do que aconteceria posteriormente prefiro não as descrever por serem demasiado gráficas.
A verdade é que ansiava pelo fim da recruta.

Num final de tarde de sexta-feira na primeira vez que lhe era dada ordem de soltura o Cabo Nunes voltava fardado, havia que impressionar a vizinhança a quem o pai já dissera que o filho era Major.
Para a mãe sobrava uma vez mais a lavagem das cuecas e meias do menino que de tão sujas que estavam conseguiam manter-se em posição de formatura na janela da varanda do seu quarto.

Naquele fim de semana tantas vezes o asno se queixou a seu pai das injustiças a que era submetido que este só para não o ouvir mais lá conseguiu meter uma cunha através de um amigo, de um amigo, de um amigo que conhecia um comandante de pelotão perto de casa para ver se o menino ficaria mais resguardado até ao final da tropa.

O asno zurrou de prazer tinha uma vez mais conseguido ser bafejado pela sorte.


E assim lá voltou para o aquartelamento escolhido à base de muita cunha naquela segunda-feira de manhã onde passou a fazer recados da secretaria e a dormir todo o resto do dia num velho colchão abandonado num sótão do barracão das mercearias.  

terça-feira, 6 de março de 2018

DE OLHO NO CLIMA | Quando as atuais práticas agrícolas podem causar falta de alimentos em 2050 | PAULO DA COSTA GONÇALVES

A alimentação como necessidade humana básica que é, passa por diversas etapas antes de chegar ao nosso prato, como seja: a sua produção, armazenamento, transformação, embalagem, transporte, preparação e, por fim, servida ao consumidor. Em cada uma destas etapas, por mais saudável que seja a dieta, são emitidos gases com efeito de estufa para a atmosfera. 

A produtividade das culturas depende de inúmeros fatores como o clima, a estrutura do terreno, as características da água de regadio e, também, do modo como se trabalha e nutre a terra, no entanto a necessidade de produzir mais alimentos originam uma agricultura intensiva nas terras já utilizadas e a práticas pouco sustentáveis como, por exemplo, o sistema de lavoura profunda ou o uso abusivo de adubos azotados, que libertam emissões de óxido nitroso e contribuem para as alterações climáticas. 
Considerando que a procura mundial de alimentos tenderá a aumentar em função não só do crescimento demográfico previsto, mas também devido à alteração dos hábitos alimentares não surpreende que, um pouco por todo o mundo, as zonas mais adequadas à agricultura já estejam em grande medida cultivadas e a procura de novas terras para cultivo leve à conversão de inúmeras zonas florestais num processo que, por um lado, gera ainda mais emissões de gases com efeito de estufa e, por outro lado, põe a biodiversidade em risco, comprometendo ainda mais a capacidade da natureza para resistir aos efeitos das alterações climáticas. Ou seja, o impacto da atividade humana na produção de alimentos pode, nos próximos anos, vir a praticamente duplicar os gases de efeito de estufa que daí são provenientes. 

Em suma, a agricultura contribui para as alterações climáticas e é afetada por elas. Um paradoxo de complexa, mas não de impossível solução.

Tendo em conta a importância da alimentação na nossa vida a redução das emissões de gases com efeito de estufa na agricultura aparenta-se difícil e como um enorme desfio para a humanidade, mas é possível reduzir as emissões ligadas à produção alimentar. 

Sem reduzir a quantidade de alimentos produzidos, o que poria em risco a segurança alimentar do mundo para além de provocar o aumento de preços à escala global e dificultar o acesso a alimentos nutritivos e a preços razoáveis às populações como será então possível satisfazer a maior procura mundial por alimentos e, ao mesmo tempo, reduzir os seus impactos ambientais na produção e no consumo?

Atualmente as alterações climáticas e os seus efeitos nas temperaturas do ar já afetam a duração dos períodos de cultivo, as datas de floração e as colheita que ocorrem, em muitos casos, mais cedo, sendo previsível que estas mudanças continuem, onde já ocorrem, e se alarguem a outras regiões do mundo.

Por exemplo, nos países do norte da Europa, com temperaturas mais quentes e menores ocorrências de geadas, e com isso um aumento do período de cultivo, a produtividade agrícola poderá ser aumentado e alargado a novas culturas. Já no sul e devido ao aumento das ondas de calor, à redução da precipitação e da água disponível é previsível que a produtividade e a variação de culturas sejam prejudicadas. No entanto, é provável que em determinadas zonas mediterrânicas algumas culturas estivais possam passar a ser cultivadas no inverno, devido ao calor extremo e ao stresse hídrico nos meses de verão. Noutras zonas, prevê-se uma redução efetiva do rendimento das culturas devido à impossibilidade de transferir a sua produção para o inverno.
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Também é provável que todas estas alterações possam vir a influenciar a proliferação e a propagação de algumas espécies de insetos, de ervas daninhas invasivas ou de doenças, que certamente irão afetar o rendimento das culturas, mas que poderão ser compensadas com a rotação de culturas, o ajustamento das datas das sementeiras à temperatura e à precipitação e por uma opção a variedades mais adequadas às novas condições climáticas. A redução do consumo de alimentos que exigem imensos recursos e produzem uma enormidade de gases com efeito de estufa, como é o caso da carne será também uma obrigatoriedade.

Em suma, a necessidade, por um lado, de aumento na produtividade e simultaneamente a redução do uso de produtos agroquímicos e os seus efeitos ambientais e, por outro lado, diminuir o desperdício alimentar e o consumo de alimentos que exigem demasiados recursos sem pôr em causa, principalmente nos países em desenvolvimento, a segurança alimentar e o acesso a alimentos com valor nutricional adequado às necessidades do ser humano obrigará a que todo o sistema alimentar se transforme totalmente e utilize os recursos de forma muito mais eficiente. 

A solução mais provável e que se tornará controversa por questões sociopolíticas acabará por passar por uma solução global: Quem pode produzir, o que pode produzir e onde pode produzir.

Esta será sempre uma solução complexa e que, face às alterações climáticas e à competição por recursos, exigirá uma abordagem política coerente e integrada em matéria de alterações climáticas, energia e segurança alimentar. 



Fontes: Agencia Europeia do Ambiente e a revista “Nature Climate Change”.

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