sábado, 17 de março de 2018

ENTREVISTA À ESCRITORA ANABELA NATÁRIO POR MBARRETO CONDADO


Anabela Natário, 57 anos, alfacinha. Jornalista e escritora. Começou em 1981 no Correio da Manhã, passou pela Agência Lusa, Público, 24Horas, Courrier Internacional e jornal Expresso, entre muitas outras colaborações. Quando fez um descanso dos jornais, foi adjunta do presidente do Supremo Tribunal de Justiça e criou uma empresa inovadora de venda de prosa à medida, a “Énetextos, Caracteres Efervescentes”, e depois… voltou ao jornalismo. Quanto ao lado de escritora, publicou a primeira ficção, 

A Cueca Bibelô, em 2007, e a segunda em 2014, O Assassino do Aqueduto. No ínterim, foi coautora de um livro sobre património mundial publicado em chinês, fez um prefácio a contar a história de Francisco Grandella e os Makavenkos e publicou mais seis livros, estes formando uma coleção de 177 biografias de mulheres do século X ao XX, intitulada “Portuguesas com História”. Agora, está de volta ao crime…



“Falar de crime também é uma maneira de historiar o país, além de passar testemunhos de outras épocas, de outras índoles.
Na medida em que poucas pessoas conheciam os casos descritos no livro onde são retratados acontecimentos reais de assassinas, falsificadoras e ladras portuguesas dos últimos três séculos gostávamos de saber o motivo pelo qual achou importante escrever um livro sobre estas mulheres?

Eu gosto de História, de jornalismo, da problemática feminina e da criminologia. Na minha “missão” de repórter enviada ao passado, já descrevi a vida de outras 177 mulheres, em seis livros intitulados Portuguesas com História. Não eram criminosas, mas nem todas foram heroínas do seu tempo. Muito diferentes são, porém, estas 23 mulheres, todavia, também com elas quis dar a conhecer personalidades e vidas noutros tempos… é precisamente como digo na introdução de Mulheres Fora da Lei, contar histórias de crime é também fazer a História de um país. Em especial, porque tenho a preocupação de fazer enquadramentos, de dar testemunhos das épocas descritas, de revelar jornais. E retrato criminosas, como também agentes da justiça, políticas, locais…. É bom saber de tudo, a censura é péssima a todos os níveis, muito mais na aquisição do conhecimento. Por outro lado, o facto de as mulheres cometerem menos crimes do que os homens não significa que não os pratiquem. Além disso, é necessário recordar o passado para acautelar o futuro.

Na sua perspetiva o que levou estas mulheres a tornarem-se criminosas? A época em que viviam? O contexto sociocultural? Ou simplesmente uma incapacidade de sentir empatia e amor?

Não tenho certezas. No caso das assassinas de maridos, embora não haja desculpa para o ato, parece-me que elas não viam outra saída para um casamento doloroso (quando sujeitas a maus-tratos, o que era a “normalidade”) ou para a falta de amor senão o livrarem-se dos maridos tirando-lhes a vida. Não havia divórcio, a separação era um passo dificílimo para uma mulher e amores fora do casamento só eram permitidos aos homens. Quanto às gatunas, a maioria vivia na miséria, num meio miserável… exploradas por homens (uma boa parte), portanto, quando a pobreza social é desta ordem as saídas para a sobrevivência são escassas. Outras houve, claro, que gostavam do que faziam, ou seja, de se dedicarem ao crime. É assim a história da existência humana, desde os primórdios. Há casos e casos, mulheres e mulheres, homens e homens…

Quando fez a sua investigação encontrou certamente informação escondida nos arquivos que consultou que não tenha colocado no livro, e que de alguma forma possam ficar para uma continuação de Mulheres Fora da Lei?

Sim, aliás, os casos retratados em Mulheres Fora da Lei já saíram do meu arquivo, que é resultado de uma pesquisa mais alargada sobre crime (e outros factos históricos) que faço há anos. Daí que tenha muitas mais histórias na manga com personagens femininas e masculinas. Em breve, espero que ainda este ano, irão surgir outras histórias deste já bem recheado meu arquivo.

Confesso-lhe que de todos os casos retratados no livro aqueles que mais me impressionaram foram o da Luísa de Jesus (assassina em série) e a de Maria do Carmo (a filicida), talvez por se tratarem de casos envolvendo bebés. Na sua opinião qual foi a reação das pessoas a estes dois casos em particular.

Os crimes de Luísa de Jesus, rapariga de 23 anos, impressionam sempre. Não temos registo em Portugal de um crime deste calibre… ela foi condenada por ter assassinado 28 crianças, bebés que ia buscar à roda dos expostos de Coimbra, mas terá matado mais de 30… para ficar com os 600 réis, o berço e os 66 centímetros de pano de lã felpudo que a Misericórdia dava às amas, por cada bebé que levavam para criar ou para dar a outras famílias que dele cuidassem. Ninguém fica indiferente a um caso como este, mesmo sabendo que tudo aconteceu num tempo longínquo; são crimes cometidos a sangue frio, sem remorso. A Maria do Carmo é diferente, no perfil, nas motivações… a única semelhança é a idade… julgo que foi um ato de desespero matar o filho de um mês. Estamos a falar dos últimos anos do século XIX, as mulheres não tinham direitos e as criadas de servir muito menos. Quando, numa casa, havia um roubo, por exemplo, a criada era a primeira a ser presa, mesmo que nada indicasse que fora ela. Se uma mulher engravidava sem ser casada tratava-se de um atentado social, se fosse de “boas famílias” ainda arranjava maneira de se livrar do estigma, mas sendo criada… Maria do Carmo viera há pouso meses da província, onde um soldado lhe prometera casamento para a namorar, contudo, quando ela engravidou nunca mais ninguém o viu. Quando a barriga se começou a fazer notar, deixou a casa do militar onde trabalhava, desesperada… Já no hospital, uma outra companheira de enfermaria disse-lhe que abandonasse a criança numa escada, prática comum, ou que a entregasse na misericórdia de Lisboa. Ali, embora percebessem que ela não tinha condições para o criar, disseram-lhe que não podiam aceitar o bebé, por uma questão burocrática: este tinha sido concebido em Pombal, portanto, fora do concelho de Lisboa. Transtornada, sem saber o que fazer, foi da misericórdia ao jardim do Campo Grande, a pé, com a criança nos braços; lá chegada, escolheu um banco, junto ao lago, estrangulou o filho, e esteve horas a fio, sentada, com o bebé morto nos braços, até anoitecer, até o pousar com cuidado no chão, num local onde era visível... Falamos de uma altura em que o aborto é proibido, extremamente perigoso e, por isso, pouco praticado. Quase todos os dias, surgem nos jornais notícias sobre o aparecimento de um feto, uma suspeita de infanticídio, uma criança abandonada. Maria do Carmo disse que lhe passou uma nuvem pela cabeça… Qualquer destes casos, o de Luísa de Jesus e o do Maria do Carmo, impressionam qualquer pessoa, julgo eu. Para mais, é tudo real, em nenhuma das histórias que conto há ficção, mesmo quando digo que está a chover ou a fazer sol.

Alguns leitores poderão pensar que os castigos eram muito severos “cortadas e separadas as cabeças dos corpos já mortos e levadas e postas no lugar do delito” ou até que alguns eram muito leves “oito anos de prisão celular, seguida de doze anos de degredo”, tendo esta assassina ainda vivido até aos 86 anos. Se lhe pedisse a sua opinião sobre os castigos em geral qual seria a sua resposta.

Eu sou contra a pena de morte, portanto, até me custa pensar que além desse castigo, os juízes ainda sentenciassem, por exemplo, que as cabeças dos criminosos e criminosas fossem penduradas no local do crime… uma imagem que nunca pensei poder associar à História de Portugal. Também não me parece que as penas de prisão fossem leves… basta pensarmos como eram horríveis as condições das cadeias e a dureza da vida em áfrica, no entanto, eram assim os castigos no passado, em épocas em que me parece que até a justiça era pouco recomendável. Veja-se o caso de Isabel Clesse que foi acusada de tentativa de homicídio, o que a livraria da forca, mas como tinha um amante, como “vivia publica e escandalosamente amancebada”, coisa imperdoável a uma mulher, foi condenada à morte e enforcada. Ao apreciarmos sentenças dos séculos passados nota-se o procedimento discricionário… atualmente, também há razões para queixas, mas estamos muito melhores. Apesar de tudo, o país está muito melhor, o mundo está muito melhor.

Pensa mesmo que “só o facto de já estarem todas enterradas no passado nos deixa alguma tranquilidade”?

Bem, é uma forma de dizer que as criminosas retratadas já não andam por aí, já não podem fazer mal a ninguém. Por isso mesmo, digo alguma tranquilidade. Só alguma, porque o crime, independentemente da altura em que é praticado, seja no passado ou no presente, é algo que incomoda. Há por aí muitas substitutas… Uma sociedade sem crime não existe, infelizmente foi assim ontem é assim hoje, todavia, temos sempre a ilusão de que o conseguiremos erradicar combatendo-o, e ainda bem que temos essa esperança.


Se escrevesse uma continuação de Mulheres Fora da Lei já neste século pensa que poderia encontrar casos semelhantes, com os mesmos contornos ou as mulheres deste século serão mais “hábeis” nas suas fazes mais negras?

As mulheres continuam a cometer menos crimes do que os homens, no entanto muitas continuam a fazê-lo. Mulheres que assassinam, que roubam, que vigarizam, chantageiam… continuam a existir, algumas com outros requintes, praticando o crime de forma mais refinada. E até em maior número… é o preço que se paga pelo ganho de maior liberdade de movimentos, pela emancipação de um sexo continuamente subjugado, mesmo quando se fala em crime.



Sinopse

Nem sempre fomos um país de brandos costumes. Venha conhecer as mulheres criminosas que aterrorizaram Portugal. 
Cuidado com elas! São 23 mulheres, desde assassinas a vigaristas e gatunas. Uma desfez-se do marido, servindo lhe um prato de arroz temperado com arsénio ao jantar. Outra, seguindo um plano mais elaborado, temperou um clister com a mesma intenção. Uma terceira ia buscar crianças para adotar e desfazia-se delas, asfixiando-as com uma tira de pano. Menos violentas, mas não menos criminosas, são as larápias de mão leve, algumas verdadeiras figuras públicas, cujas aventuras nos dão a conhecer o Portugal de outros tempos. Mulheres Fora da Lei convida-nos a viajar pela vida das maiores criminosas dos últimos três séculos. E só o facto de já estarem todas enterradas no passado nos deixa alguma tranquilidade.



Fotos: Saída de Emergência


















MBarreto Condado

sexta-feira, 16 de março de 2018

CRÓNICA | Férias | MBARRETO CONDADO

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”

*
As férias do Asno eram sempre passadas no Algarve na casa da irmã, sim porque o pai apesar de “arrotar postas de pescada” de que tinha casas por todo o Portugal, na realidade referia-se mesmo a jazigos senhoriais no cemitério do Alto de São João (com vista para o Tejo, o que aumentava o valor da propriedade) roubados às velhas e decrépitas senhoras que furtara durante os seus altos anos (entenda-se por altos em número de furtos de jazigos e não em estatura porque afinal a criatura tinha pouco mais de metro e meio).

As férias do asno eram, sempre um pouco agridoces ou não tivesse ele que tomar conta dos seus dois sobrinhos.

O mais velho influenciado pelo avô materno (também conhecido na alta roda funerária como “O Senhor dos Jazigos”) adquirira as mesmas manias de grandeza, passava os dias sentado numa velha cadeira de praia, como se de um trono de tratasse, com uma velha manta de cor borgonha, ou como diria o asno uma cape bordeaux, com um toco de um velho varão de casa de banho como ceptro, não necessitava de coroa porque o seu áspero cabelo exercia essa função.

Já o mais novo que herdara a beleza símia e sorriso equino de sua mãe (mesmo com esforço os dentes não lhe cabiam todos dentro da enorme boca), passava os dias a saltar de sofá em sofá enquanto deglutia as bananas que a empregada entretanto contratada para ajudar na árdua tarefa da limpeza do bem estruturado T0, lhe trazia todas as manhãs.

Era nesses parcos momentos que o asno se esgueirava para a praia de Faro para descomprimir da sua imberbe existência. Nunca saia de casa sem desenhar com os dedos molhados (possivelmente de óleo de fritar) um caracol na testa que não se mexia um único milímetro nem mesmo depois de apanhar um enxerto de porradas das ondas e de andar enrolado na rebentação já sem calções e com o carnudo rabo ao léu.

Era, contudo, um prazer observá-lo a chegar à praia de Faro. Tinha sempre o cuidado de escolher a praia de frente para a ponte, a única com nadador salvador.

Aparecia no topo do areal sentindo-se o Tarzan Taborda, a minúscula toalha de bidé que retirara da casa de banho da irmã displicentemente atirada por cima do ombro esquerdo (a mesma que tinha para se limpar quando chegasse a casa e durante todo o Verão que permanecesse em casa da irmã, nas palavras da mesma era no poupar que estava o ganho), ajeitava discretamente a sua masculinidade já por si apertada nos calções que tinham sido da juventude do seu pai e que ainda estavam muito em voga apesar de já se terem passado uns meros setenta e seis anos.

Olhava atentamente em volta não à procura de um local desocupado, mas de um que tivesse lotado de estrangeiras (de preferência mais velhas, como o pai lhe ensinara) afinal aquele corpinho tinha que se alimentar bem durante o dia porque o jantar em casa da mana nunca era garantido.

Se ao menos o sobrinho lhe deixasse uma bananinha…



quinta-feira, 15 de março de 2018

CRÓNICA | Vamos Falar de Assédio | PATRÍCIA REBELO




Se existe algo que me choca nesta sociedade é o assédio despudorado, absurdo e surreal que existe em relação às mulheres.

A forma como as mulheres são “abordadas” de forma indirecta, ou seja, pelos olhares, é vergonhosa.

A forma como alguns homens olham, torna-se nojenta e irresponsável, chegando a ser completamente desrespeitosa pela mulher que ele encara.

Quem lhe deu poder para olhar assim?

Quem lhe deu autorização para tal?

Porque é que se sente tão à vontade e tão confiante para olhar de uma forma tão vergonhosa para uma mulher?

Há vários anos que questiono e debato este assunto, porém noutro dia senti isso, de forma notória.

Muitos podem dizer: “Ah, mas ia com uma mini saia ...”

Não. Não ia. Ia de calças.

“Ah, mas deviam ser calças reveladoras...”

Calças reveladoras? O que é isso? Não... era apenas e só calças simples...

“Ah, então era porque tinha um grande decote...”

Também não.

Levava um top e uma camisola de manga comprida e sem decote por cima...

Ou seja, no meu conjunto nada me parecia existir para tal absurdo.

Ah, para acrescentar ... levava ténis.

É demasiado chocante, o olhar depravado de homens para a zona do peito, do rabo ou das pernas.

É demasiado desrespeitoso como é que alguém se acha no direito supremo de olhar para alguém, desse modo...

Eu senti-me desrespeitada.

Completamente desrespeitada e ofendida.

Considero sim que é assédio, e pior, considero que se fala muito pouco sobre isso.

É assédio e por algum motivo que me é desconhecido, muitas mulheres começam a achar esse comportamento normal.

Sim, eu sou a favor de que cada pessoa se deve vestir como quer e de como se sente bem.

Se pretendem ou não provocar determinados olhares, estão no seu direito.

É lógico.

Se se sentem bem e se lhes dá autoestima, força.

Mas, acredito que nem todas as mulheres que se vestem assim, procuram directamente isso...

Se assim fosse... que podemos dizer das camadas cada vez mais jovens, que vestem cada vez mais saias e calções de tamanhos mais curtos e decotes maiores...?

Não é.

Vestem-se assim, por estilo, moda, o que se queira chamar e porque os pais também acham normal (será pano para mangas numa outra crónica).

Mas pronto, em relação a roupas provocantes, muitas opiniões se escutam...

Agora imaginem, que se vestem de forma totalmente normal, sem qualquer roupa que chame a atenção... e SEM QUALQUER INTENÇÃO de chamar a atenção...

Questiono-me se se for a mulher daquele homem, a filha, a mãe, a sobrinha, a neta... se também aceita que outros a olhem assim...

Acredito bem que não. Aí aparece aquela celebre frase, sabem?

“Não, com filha minha nunca. Com neta minha apanhava logo...”

Pois... então pensem antes de olhares nojentos e depravados... Aquela mulher que olham também é filha, neta, mãe, etc...

Se não gostam se é da família deles, porque sujeitam as outras?

Porque é que são sujeitas a olhares?

Porque é que qualquer mulher tem de ser sujeita a esses olhares?

Considero que a liberdade de cada pessoa termina onde começa a do outro, e considero triste e imoral a forma como se desrespeita, só porque sim, alguém.

É raro falar-se deste tipo de assédio.

Mas existe.

É grave!

Muitos até o consideram normal.

Mas é errado... e isso deve ser dito.



quarta-feira, 14 de março de 2018

CRÓNICA | O lobisomem que ia dormir ao palheiro do meu tio | HÉLDER MENOR

Quem acha que os lobisomens são coisa de filme, desengane-se. Os lobisomens são tão reais como eu que te escrevo e tu me lês. Sei de gente que não só os viu como conviveu com um  deles.

Aqui mesmo no Alto do Seixalinho, nos anos 50 do seculo XX havia um lobisomem que alguns recordam. Há ainda muita gente que se lembra do Manel-Cão e das suas “crises”.

O Manuel trabalhava como serralheiro e fazia a sua vidinha normal… mas em certos períodos, influenciado pelas Luas ou por outros fatores igualmente misteriosos, virava lobo. As pessoas na época diziam que virava cão… e nós que somos mais esclarecidos porque já papamos mais séries de Domingo à tarde na televisão, percebemos que o Manel era um lobisomem e que não virava cão, mas sim lobo! O que de resto, genética e cientificamente falando é praticamente a mesma coisa.

Num tempo em que a saúde mental era ainda mais estigmatizada do que hoje é, as crises do Manel-Cão, não eram motivo de internamento compulsivo nem sequer de grande alarme entre a vizinhança. Causava medo e excitação entre os miúdos da rua e constrangimento ao próprio quando voltava a si. Quando a crise vinha, o Manel revirava os olhos e arreganhava os dentes, ficava com as mãos como patas e os dedos como garras, imediatamente caía no chão e passava a andar de quatro. Rebolava-se e babava-se, depois uivava. Uivava muito. Quando acalmava, já não era o Manel, era um cão. Um lobo domesticado pela solidariedade dos homens rudes da época. Ladrava e corria entre pessoas, carros e carroças a disputar à dentada com outros cães a afeição de cadelas ou perseguindo gatos. Levantava a perna para urinar nas esquinas ainda dentro do fato-macaco que ao longo dos dias que durava a crise, se ia transformando em farrapos. Andava assim “virado” lobo durante dias. Às vezes semanas. O meu tio Zé era simultaneamente amigo do Manel e também amigo do cão, nos dias da crise dava-lhe abrigo e comida. Punha-se-lhe umas mantas no palheiro, leva-se-lhe carne cozida e deixava-se-lhe uma tigela de barro com água que o Manel bebia esticando a língua como os cães e os lobos. A minha tia, era uma mulher de armas que acordava todos os dias às quatro da manhã para tratar das vacas e não tinha medo de nada; nesses dias preferia não ir ao palheiro, mas era ela quem cozinhava a carne e quando o lobisomem saia de manhã a correr de gatas pelos campos, era ela quem sacudia as mantas.
Os miúdos fugiam do Manel Cão que os perseguia e ladrava querendo morder. Alguns atiravam pedras e o Manel ainda corria mais. Depois aparecia um homem que fazia “txitó” e batia os pés no chão e o Manel ia embora a rosnar e a ladrar de longe.

Quando a lua mudava, a crise passava… o Manel envergonhado e sem se lembrar o que tinha acontecido, voltava para casa, tomava banho e tratava as mazelas do corpo ganhas nesses dias em que era lobo: unhas partidas, cortes e arranhões nos dedos e nos joelhos, marcas de dentadas de outros cães nos braços e às vezes na cara…

Foram anos assim. Depois levaram o Manel a um senhor em Alcochete que era bruxo e o curou com rezas, chás e visitas à campa do pai. O Manel fez o tratamento e nunca mais virou cão nem lobo nem nada além dele mesmo.

Não foi preciso ir para a fila no centro de saúde nem esperar pela consulta do especialista. Não foram precisos comprimidos para a depressão. Nem psicoterapia, nem sessões de grupo, nem balas de prata, nem padres, nem exorcismos. Apenas umas rezas abastardadas do latim ditadas e escritas num papel pardo pelo vidente de Alcochete, uns chás de ervas embrulhados em jornais e umas idas ao cemitério. 

Nesses tempos remotos, que separam duas gerações, não havia medicina tradicional chinesa nem tratamentos com agulhas. Toda a medicina era alternativa, porque os poucos médicos de bata branca que havia, era em exclusivo para aqueles que tinham dinheiro. Os pobres só recorriam à medicina em situações extremas, muitas vezes para morrer. Quem não tinha dinheiro, resolvia os problemas como podia.

Hoje o Manel tinha sido tratado pelo médico de família com antidepressivos. Se o Manel vivesse agora, não era cão, nem lobisomem seria apenas mais um doente bipolar e o senhor de Alcochete que o curou continuava entretido a pescar enguias virado para Vila Franca.

segunda-feira, 12 de março de 2018

CRÓNICA | Félix | VANESSA LOURENÇO


Nestes últimos dias, muito se tem falado na tempestade Félix. E, no entanto, apesar de já ter sentido na pele as circunstâncias adversas deste fenómeno meteorológico, não consigo evitar fazer associações positivas no que toca a esta tempestade. Afinal de contas, a minha estreia no mercado literário ficou a dever-se a um gato preto com o mesmo nome, um gato que me ajudou a encontrar o meu caminho porque tive que o perder. E por isso mesmo, esta semana a nossa crónica desenrola-se mais ou menos assim...

Perdoem-me os não crentes, mas os animais que amamos não morrem. Desculpem, serei mais específica: não caem no vazio da não existência quando fecham os olhos pela última vez. Sim, é verdade que custa horrores quando partem e deixamos de os poder ouvir, ou de lhes poder tocar (isto porque no que toca à visão, por vezes se estivermos com atenção conseguimos vê-los pelo canto do olho) ..., mas eles não morrem. Na verdade, a primeira coisa que fazem assim que percebem o que lhes aconteceu é procurar-nos, e quando nos encontram acontecem duas coisas engraçadas: primeiro, percebem que não precisavam de procurar porque fora do corpo, a distância deixou de existir; e depois, que agora é muito mais simples falar-nos de amor, porque a nossa voz agora é a mesma.

Na vida muitas vezes nos cruzamos com frases feitas para amenizar a perda ou a distância, e os mais sensíveis de nós muitas vezes encontram sinais. Claro que na maioria das vezes os ignoramos porque “não é normal”, ou “vão achar que não sou certa da cabeça”, ou ainda porque o nosso cérebro está programado para desvalorizar tudo o que fuja à realidade de todos os dias, essa realidade com a qual a nossa vida em sociedade nos impregnou. Mas acreditem, eles existem.

“Mas se esses sinais são reais, porque são sempre tão subtis e dificeis de comprovar?” Porque, meus caros, o livre arbítrio dita que devemos decidir acreditar neles, mesmo que o resto do mundo teime em os desacreditar. É esse o objectivo da vida, esculpir a pessoa que somos quando chegamos ao mundo, por intermédio de decisões que por vezes desafiam toda a lógica ou conceitos pré-concebidos. E porque existem coisas na vida que são só nossas, não sujeitas à validação ou compreensão dos outros.

E é por conta disto que hoje vos escrevo, porque existe uma tempestade a assolar o nosso país que se chama Félix.

Para terminar, um pequeno aparte que acho importante acrescentar:

Tudo nesta crónica pode estar errado.

E vocês, em que acreditam?


CINEMA | O Último Retrato | NOS CINEMAS A 15 MARÇO

Enquanto de visita a Paris, em 1964, James Lord (Armie Hammer), escritor americano e amante das artes, é convidado pelo reconhecido artista Albert Giacometti (Geoffrey Rush) a pousar para um retrato. Giacometti assegura a Lord que o processo demorará apenas alguns dias. Lisonjeado e curioso, Lord concorda em posar.

Assim começa não só a história de uma peculiar amizade, mas também uma exploração, através do olhar de Lord, sobre a beleza, frustração, profundidade e ocasional caos do processo artístico.

O ÚLTIMO RETRATO é o retrato de um génio e de uma amizade entre dois homens profundamente diferentes, que vão ficando cada vez mais próximos um do outro através de um singular e sempre mutável ato de criatividade. É um filme que nos mostra como o processo artístico é algo por vezes excitante, exasperante ou incompreensível, ao mesmo tempo que questiona se o talento do verdadeiro artista é uma bênção ou uma maldição.


LITERATURA | Hoje de Diogo Rocha | EDITORA CASA DAS LETRAS

Nas livrarias a 13 de Março

Um dos novos embaixadores da nova cozinha portuguesa, Diogo Rocha, tira partido dos produtos nacionais, ao sabor do correr das estações, e devolve-lhes a sua nobreza, reinterpretando-os de forma inovadora. Com Mário Ambrózio e a sua equipa, selecionou produtos e receitas; partiu à descoberta da origem desses produtos; revisitou paisagens da sua região e as suas memórias. Hoje Diogo Rocha é mais do que um simples livro de receitas, é um livro de histórias sobre produtos bem portugueses: as azeitonas, o azeite, o queijo da Serra, o requeijão, o arroz, o bacalhau, o vinagre, o cabrito, os percebes, a maçã brava de Esmolfe, o coelho, a lebre, os marmelos, o cherne, a batata, o presunto, as ervas aromáticas e os incontornáveis enchidos.