quarta-feira, 21 de março de 2018

CRÓNICA GASTRONÓMICA | Porque a boca também come: Feijoada tropical | HÉLDER MENOR


A feijoada tropical é sempre um acontecimento. À volta dos pratos, juntam-se a família e os amigos. Convida a recordar histórias antigas, saudosos ausentes e casos de outras épocas e latitudes.

Se formos uns doze entre adultos e crianças, precisamos de uns três quilos de feijão (dois de feijão preto e um de feijão vermelho) um pé de porco, uma orelha, três chouriços vermelhos, dois bocados do tamanho de um punho fechado de toucinho, umas doze costeletas do fundo, uma tira de entrecosto, meio quilo de carne de vaca para guisar (vazia ou aba), azeite, alhos, malagueta, orégãos, dois quilos de tomates e quatro laranjas, coentros, um saco de farinha de mandioca, coentros, limões, gengibre e duas cebolas roxas.

Dois dias antes deita-se o feijão para dentro de água. Pretos e vermelhos juntos, porque a sua natureza é próxima. A água a cobrir, e aviso já que vão ensopar e que vai ser preciso ir acrescentando mais água.

As carnes do porco salgam-se no dia anterior, orelha, pé e pernil (ou lação), mais as costeletas do fundo e a tira de entrecosto inteira.

No próprio dia, de manhã cedo, começa o ritual. Na panela de pressão pomos ao lume o feijão mais a orelha, o pé e o pernil, com algum sal, pouco. Deixar cozer bem. Umas duas horas. Se for preciso abrir e acrescentar água, que seja feito.

Pode ouvir-se música animada e há quem acompanhe a tarefa enquanto dança com uma primeira cerveja.

Façamos o refogado que vai ser a cama da nossa feijoada: No fundo da panela deita-se o azeite a tapar o metal e corta-se um dos cubos do toucinho em tiras! Acende-se o lume baixinho e junta-se o toucinho. Quando o toucinho começa a ficar transparente, entram meia dúzia de dentes de alho picados e as malaguetas. Aqui fica ao vosso critério… eu costumo pôr uma malagueta por pessoa e não mais… porque há sempre alguém que se vai queixar do picante… Os alhos e as malaguetas vão começar a fritar e a chamarem pela cebola. Quando os alhos gritarem “quero a cebola”, e isso vai acontecer quando já começa a ficar castanho, faz-se-lhes a vontade e avançam as duas cebolas cortadas às tiras fininhas. Sobe-se o lume e dá-se a primeira volta com a colher de pau.

Chegam agora os chouriços cortados em rodelas fininhas. Dão duas ou três voltas com a cebola para começarem a fritar. Vem o resto do porco: as costeletas do fundo cortadas em três, mais a tira do entrecosto fatiada mantendo os ossos inteiros.  Duas voltas com a colher de pau e baixa-se o lume.

Entretanto prepara-se a farofa:  numa frigideira larga, corta-se o toucinho que sobrou em tiras fininhas, junta-se mais uns três dentes de alho e meia dúzia de malaguetas, o lume acende-se  baixinho e quando o toucinho estiver bem tostado, sobe-se para o máximo. Acrescenta-se a farinha que absorve toda a gordura e se envolve com o toucinho, os alhos e as malaguetas enquanto torra durante uns três minutos. A colher de pau sempre a mexer. Está pronta. Reserva-se e vai para uma taça grande para ir à mesa.

Voltemos à feijoada… as carnes já estão a  ficar bem cozinhadas… entra o feijão que ainda está quente. A concha, ou uma cafeteira, serve para tirar o feijão e a água de cozer onde as carnes deixaram o sabor fará o molho da feijoada.

Corta-se a orelha e desossa-se e corta-se o pé mais o pernil. Junta-se  tudo na panela, que vai levantando fervura. Agora corta-se a carne de vaca, bem fininha, salga-se, tempera-se com um bocadinho de vinagre e entra também na panela da feijoada. Aumenta-se o lume, envolve-se e assim que ferver em cachão, apaga-se!

Numa travessa funda, corta-se os tomates em cubos pequeninos, mais o gengibre, mais umas doze malaguetas, mais a cebola roxa. Junta-se tudo e envolve-se e tempera-se com sal, coentros e orégãos. As laranjas é só lavar e cortar às rodelas e pôr em pratos também na mesa.

Que se apague o lume e se deixe descansar a feijoada. Dentro de dez minutos estará pronta a ser servida. Sugiro que o façam num prato fundo: duas conchas de feijoada duas colheres de sopa de farofa, uma concha do tomate. Cerveja, vinho, limonada ou mesmo água podem acompanhar. Deve comer-se devagar e pausadamente temperada com gargalhadas, muito afeto e se possível algumas lágrimas de alegria. 

terça-feira, 20 de março de 2018

PORTUGAL MAIS QUE SOL | Convidamos-vos a conhecer: A Necrópole de Carenque | PAULO DA COSTA GONÇALVES


Texto: Paulo da Costa Gonçalves
Fotos: Direitos Reservados

Assemelhando-se à morfologia das antas, este sítio arqueológico é constituída por três sepulcros, genericamente designados de “Grutas Artificiais”, por terem sido escavados nos afloramentos calcários locais, remontam ao final do Neolítico, mais precisamente ao 3º milénio a.C. e situam-se no Tojal de Vila Chã, freguesia da Mina, município da Amadora.
Revestindo-se de grande interesse para a compreensão da nossa Pré-História, a construção desta necrópole é de uma época em que na região a população tinha as suas vivências assentes numa economia agro-pastoril e já evoluída sob o ponto de vista das tecnologias de produção pré-históricas.
A Necrópole de Carenque integra-se numa tradição cultural-funerária mediterrânica e cujas principais características de arquitetura passam pelo acesso ser efetuado por um corredor, normalmente voltado a nascente, que através de um pequeno portal de formas arredondadas comunica com uma câmara funerária. 


Pouco se sabe dos indivíduos ali sepultados, se eram todos oriundos de um mesmo povoado ou se pertenciam a alguma formação social específica com acesso exclusivo à necrópole, excepto o facto de que eram maioritariamente adultos e jovens de pequena estatura e provavelmente representativos do tipo de população que habitava o sul da Estremadura naquela época. Também se desconhece quais os rituais de sepultamento, mas pelo que se sabe desta cultura acredita-se que os corpos possam ter sido acocorados em posição fetal de encontro às paredes e rodeados de oferendas, no entanto ao serem igualmente encontrados utensílios em cobre e cerâmicas campaniformes, indiciam uma posterior utilização na Idade do Cobre que terá alterado a disposição original das ossadas e artefactos, dificultando a reconstituição da sua disposição no recinto tumular.
Entre os achados na Necrópole de Carenque foram recolhidas cerâmicas com decorações campaniformes, materiais de carácter utilitário, ídolos talhados em calcário, placas de xisto e crescentes lunares em calcário (vulgarmente conhecidos por lúnulas) com orifícios para suspensão. 
Tais achados, não só nos dão acesso ao conhecimento tecnológico de que já dispunham os construtores da Necrópole de Carenque, como evidencia a existência de uma vida simbólica de inspiração agrária rica. Dão-nos também a conhecer o carácter mágico-simbólico dominante. Ou seja, por um lado, são símbolos da sexualidade e da reprodução, e por outro lado, são representações lunares, provavelmente associados a um género de calendarização do tempo, teriam possibilitado que comunidades de agricultores-pastores organizarem-se.

Localização:

Urbanização Serra das Brancas, 
Topo da Av. Luis de Sá - Amadora
Coordenadas geográficas: Latitude: 38°46’24.61"N - Longitude: 9°14'37.41"W

Horário:

Verão – sábados das 14h00 às 18h00 e domingos das 09h00 às 14h00
Inverno – sábados das 13h00 às 17h00 e domingos das 10h00 às 15h00 
Entrada gratuita.

Acolhimento de Visitantes:

Visitas guiadas para grupos, sendo necessária marcação prévia (Tel: 214 369 090)

Como chegar:


segunda-feira, 19 de março de 2018

LITERATURA | Sangue na Neve de Jo Nesbo | EDITORA DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 20 de Março

Olav é um assassino contratado, mas tem uma vida solitária e tranquila. Quando o que se faz na vida é matar o próximo, não é fácil fazer amigos, mas sem ninguém a quem se afeiçoar ou prestar contas, os dias também decorrem sem problemas. Só que o quotidiano de Olav complica-se ao conhecer a mulher dos seus sonhos. Apaixonar-se por alguém já é por si só uma situação desafiante, mas há duas outras particularidades que fazem desta mulher um vendaval na sua rotina: é casada com o seu chefe. E este acaba de o contratar para a matar. Como é que Olav irá gerir a situação? Será que vai conseguir enganar um dos mais temíveis criminosos do país? 

Este livro, anterior à série Harry Hole, tem já todos os ingredientes que fazem com que Jo Nesbø seja um dos autores nórdicos de policiais mais bem-sucedidos em todo o mundo.


CRÓNICA | Gatos e Selfies | VANESSA LOURENÇO


Pegou bruscamente no gato amarelo sem olhar para ele a direito sequer, com uma mão apenas. Na outra, brilhava o ecrã vidrado do telemóvel. Atirou-se para cima da cama, com o gato ainda encaixado no braço, e com as costas da mão que segurava o telemóvel posicionou desajeitadamente as almofadas e alisou a colcha da cama. O gato, incomodado, tentou libertar-se do braço que o prendia, mas ela não permitiu que fugisse. Colocou a câmara do telemóvel em modo selfie, e enquadrou-se a sí e ao animal na imagem reflectida no pequeno ecrã. Sorriu e fez olhinhos de mel, mas depressa franziu o sobrolho, uma das almofadas estava desenquadrada. “Não pode ser”, pensou, “a foto tem que ficar perfeita”. Ajeitou a almofada, mas quando olhou de novo para o pequeno ecrã percebeu que quando se tinha esticado para ajeitar a almofada, tinha enrolado a colcha debaixo de si mesma. Levantou-se com enfado da cama, a bufar e de gato nos braços. Esticou a colcha e deitou-se de novo. Desta feita, o gato já não estava preocupado em mostrar-lhe com gentileza que estava farto de ser tratado como um peluche, e começou a debater-se vigorosamente. Na tentativa de não o deixar fugir, ela deixou cair o telemóvel, que bateu no chão com estrondo. Deu um grito e levou as mãos à cabeça, o que deu ao gato a oportunidade perfeita para desaparecer pela porta do quarto. Saltou da cama num segundo e apanhou o telemóvel do chão, com o coração nas mãos e a respiração acelerada. Se estivesse partido tão cedo não teria direito a outro, e ficaria isolada do mundo. Se não estivesse presente nas redes sociais, o que pensariam os seus amigos? O mundo esquecer-se-ia dela!

Apanhou o aparelho do chão, e confirmou que não estava partido. Suspirou profundamente e apertou-o contra o peito, os olhos fechados de quem não tinha ganho para o susto. Aliviada, depressa se recompôs: caminhou na direcção da cama, ajeitou de novo a colcha e as almofadas, e olhou em volta à procura do gato. Afinal de contas as pessoas adoram gatos, e todas as fotos tiradas com eles tinham muito mais interesse e geravam muito mais interacção na rede do que fotos simples da cara. E com ele podia mais facilmente justificar a vontade de publicar fotos de si própria, sem necessidade de perder a modéstia.

Saiu do quarto à procura dele, mas por muitas voltas que desse não o encontrou: chamou, procurou nos locais mais improváveis e até abriu uma lata de atum, coisa que o fazia sempre aparecer se estivesse por perto. Nada. Só havia uma coisa a fazer:

- MÃE! Viste o gato?

A mãe estava a trabalhar no próximo artigo para o jornal, sentada em frente ao computador. Ergueu ligeiramente os olhos para ela, ajeitando os óculos na ponta do nariz, e respondeu antes de voltar a fitar o monitor:

- Parece-me que saiu para o jardim.

Ela encolheu os ombros, exasperada, e rolou os olhos. Como não tinha pensado nisso? Aquela peste peluda adorava esgueirar-se para fora de casa sempre que lhe era possivel. Dirigiu-se para a porta, pegou nos óculos escuros e saiu, de telemóvel ainda na mão.

Lá fora, mesmo de óculos escuros, não pôde evitar sentir os olhos feridos pela luz do sol durante uns segundos, e só depois reparou no esguio gato amarelo sentado na relva no centro do jardim, a olhar para ela. Esfregou os olhos debaixo dos óculos de sol, e avançou para ele:

- Espero que tenhas perdido a vontade de fugir, isto é importante!

O gato pareceu sorrir, e fechou os olhos enquanto lambia a pata, para depois começar a esfregá-la no focinho vigorosamente. Aproximou-se com ligeireza do pequeno animal e sentou-se ao lado dele, procurando enquadrar no pequeno ecrã do telemóvel a si própria e ao gato ainda sentado ao seu lado. Depois de várias tentativas frustradas, porém, resmungou:

- Bolas! Não consigo tirar uma fotografia de jeito com este sol!

Frustrada, começou desajeitadamente a tentar levantar-se com o telemóvel na mão, e quando percebeu que sentada não conseguia girou o corpo para ficar de joelhos. E nesse momento reparou novamente no gato: já não estava sentado, quieto. Estava a brincar com um pequeno ramo que possuia ainda algumas folhas que se agitavam no ar. Sem pensar, sentou-se de pernas cruzadas e pegou no ramo. Pousou o telemóvel na relva ao seu lado e começou a brincar com ele. Uns segundos depois, rebolavam ambos pela relva e ela ria como nunca, já sem óculos de sol. Longe de o pensar, sentiu que há muito que não se divertia tanto. E se tivesse pensado mais um pouco, teria percebido que não estava ninguém a ver. Ninguém a filmar. Ninguém a fotografar. Ninguém a deixar “gostos” ou “adoros” no que estava a fazer. Ninguém saberia. E, contudo, estava feliz. Era feliz. E podia ser feliz, sem que o mundo precisasse de o saber. Ou de o validar.

domingo, 18 de março de 2018

LITERATURA | Cadáveres às Costas de Miguel Real | EDITORA DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 20 de Março

Após a morte do pai, um jovem abandona o curso de Direito e aluga um pequeno apartamento no sótão de um palacete de Lisboa, com o fito de escrever um romance. Aí vive a família Peralta Perestrêllo, cuja matriarca centenária – d. Consolação, há muito acamada – é visitada no dia 13 de Maio de 2017 pela aparição da irmã Lúcia, após o que consegue erguer-se e dar uns passinhos. Filho, nora e netos ficam hesitantes quanto a acreditar no suposto milagre; mas cada um a seu modo (e também a Igreja, chamada imediatamente para avaliar a situação) descobre como retirar dividendos do episódio – o mesmo acontecendo, aliás, com o jovem escritor que, sem ideias para o seu romance de estreia, tem subitamente um filão ao dispor, para não falar do seu interesse pela neta mais nova da miraculada… 

CRÓNICA | O ser e o parecer | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO


Nos últimos tempos tenho andado mais atenta que o habitual às reacções contraditórias das pessoas e à crescente necessidade de tudo destacar. Talvez por estar a ficar saturada de tanta incongruência e picuinhice, ou, se calhar, sou eu que estou a ficar “avariada” – já tenho dado por mim a pensar, face às inconsistências verificadas.

Há um bocadinho de tudo. Para todos os gostos, como se costuma dizer.

Já repararam que todos os dias se comemora alguma coisa? Mas que raio de necessidade é esta de assinalar “tudo e um par de botas” só porque… sim?! Ele é o dia dos bonitos, dos feios, do pastor, dos tios, dos sobrinhos… blá, blá, blá… do céu nublado, do periquito. Até há – pasmem-se -, o dia da falsidade. Da falsidade! Que coisa bonita e importante, certo? Não! E não! Lembro-me de experimentar uma sensação de tristeza ao saber da existência deste dia - queixamo-nos que andamos tão ocupados e depois temos tempo para estas… -, parecemos autênticas criancinhas invejosas e birrentas - porque aquele tem eu também quero – e disputamos nas redes sociais as criações mais absurdas.

Na mesma arena há quem defenda acerrimamente a obrigatoriedade da limpeza dos terrenos por parte dos proprietários – “têm que limpar, pois claro, quem haveria de ser?, não podemos ter mais incêndios como os do ano passado!” -, para depois vir contestar, com a mesma veemência, a estipulação de prazos para o fazer e a aplicação de multas, caso o prazo não seja cumprido. Mas como raio querem obrigar um país a cumprir os seus deveres?! Onde é que está a razoabilidade de ser defender posições opostas para um mesmo assunto? Ainda se fosse o facto de os prazos serem curtos, seria compreensível.

Há quem diga adorar o tempo de Inverno e ande a rezar a todos os santinhos por umas valentes chuvadas, nestes tempos conturbados de seca extrema, para depois vir bufar para todos os cantos que já não suporta a chuva, o vento e o frio. Esquecem-se rapidamente das necessidades globais. Estes também são aqueles que, habitualmente, ainda o Verão não começou e já andam a suspirar pelo tempo invernoso. Afinal em que é que ficamos?

Constato que hoje vale mais aparecer virtualmente, e a qualquer pretexto, do que ser íntegro e consistente ao defender com paixão aquilo em que verdadeiramente se acredita. Já não se valoriza as conversas puras, olhos nos olhos, em que a linguagem corporal é o espelho das nossas crenças e emoções e desvenda a verdade sem barreiras; onde o toque, o cheiro, todos os sentidos, são fundamentais para saudáveis interacções e vivências. Escondemo-nos cobardemente atrás de um telefone, de um ecrã de computador e fingimos ser aquilo que não somos, consoante ditar a maioria, pois o importante é estar na crista da onda. Privilegiamos o parecer em detrimento do ser e amachucamos o livre-arbítrio, a liberdade individual de existir, para os descartarmos num qualquer caixote esquecido. Consequentemente, vamos perdendo as qualidades que nos fizeram alcançar o patamar de evolução actual e as futuras gerações, crescendo neste panorama de frivolidade, constroem um mundo onde a autenticidade, algo por que nos batemos durante tanto tempo, deixará praticamente de existir.

Pensemos nisto. Onde é que escolhemos deixarmos de ser? Onde é que escolhemos, simplesmente, deixar de viver?


sábado, 17 de março de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | O(s) Polvo(s) | ISABEL DE ALMEIDA

Entre 1984 e 2001 decorreram as dez temporadas de uma das minhas séries preferidas de televisão, considerada um verdadeiro clássico "La Piovra" (no nome original em Italiano), "O Polvo", em Português.

Tratando-se de uma série cuja intriga se centra no seio da Cosa Nostra, a célebre Máfia Siciliana, é natural que muitas das personagens não tenham sobrevivido ao longo das temporadas, por razões óbvias para quem, como eu, se interesse por este tipo de temática.

Ora, considerando os diversos casos que vêm abalando a actualidade nacional, e que envolvem redes de corrupção, lobbying, lealdades e deslealdades em quadrantes tão distintos como a política, o sistema financeiro, o sistema judicial, ou o desporto, acredito agora que, em termos de "polvos" - a metáfora para os tentáculos das diversas máfias - nada devemos a Itália, apenas com a nuance de, pelo menos por enquanto, e na grande maioria dos casos, ainda não se ter assistido a homicídios por "vendetta" (a vingança cruel destinada a todos aqueles que enfrentam a máfia, por dever de ofício e/ou por princípios, crenças e valores que, lamentavelmente, vão caindo em desuso).

Jogos de bastidores, ligações perigosas, poderes e intenções obscuros, favores que se pagam com outros favores, intenções apenas boas na sua aparência mas que servem, tantas e tantas vezes, para promover uma ascensão social, política e económica são circunstâncias verdadeiramente corriqueiras no nosso país.

Todos estes casos mais mediáticos me incomodam, desde logo, como cidadã e contribuinte a quem também vão chegando as contas da austeridade para pagar abusos aos quais somos alheios (todos os anos pensamos, nós cidadãos comuns, qual será o próximo colapso financeiro do sector bancário cuja conta nos será discretamente, ou nem tanto, ser apresentada), e creio que tudo isto hipoteca o futuro das gerações vindouras.

Mas entre todos os sectores, talvez por (de)formação profissional, sinto-me incomodada e, diria, mesmo assustada, perante a vulnerabilidade do sector da justiça, a qual, creio encontrou um sério propulsor na desmaterialização dos processos judiciais (veja-se com olhar crítico o ciclo de vida do sistema informático da justiça - citius- e tirem-se, sem pejo, as devidas ilações).

Olhe-se, com suspeição, e reconheça-se essa sensação de insegurança constante, para um país onde em muitas matérias de direitos fundamentais, consagrados constitucionalmente, se mantêm bem vivos os formalismos totalmente desprovidos de conteúdo.

Suspeite-se, aponte-se o dedo, denuncie-se e enfrente-se (obviamente dentro dos parâmetros da legalidade)  toda e qualquer instituição, de todo e qualquer sector da nossa sociedade, que vire as costas à análise casuística daquela que é a essência de cada ser humano, e das heterogeneidades inerentes à nossa população, e que não viremos todos a cara, assobiando para o lado, às situações de clamorosa injustiça social e humana, e àqueles que são mais vulneráveis, pelas mais diversas razões!

Nunca a forma deverá sobrepor-se ao conteúdo (à essência), nunca deveremos aceitar passivamente e como se fossemos isentos de quaisquer responsabilidades, tudo aquilo que consideramos, em sã consciência, injusto, e que nunca hesitemos em, sempre que possível e com recurso às "armas" que cada um de nós melhor domine, enfrentar sistemas que, no fim de contas, são anti-sistemas, pelo simples facto de servirem interesses pessoais e menos claros, ao invés de zelarem pelo cumprimento dos princípios válidos e justos que estiveram subjacentes à sua génese.

Portanto, os "polvos" existem, podem apresentar diversas dimensões, mas que não seja o seu tamanho a impedir-nos de, pelo menos, tentar vencê-los!