sábado, 31 de março de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | Tudo está de pernas para o ar...ou "O (novo) tempo das catástrofes!" | ISABEL DE ALMEIDA

   Olhando com atenção para a actual conjuntura mundial aos níveis económico, político e diplomático, receio que estejamos a assistir a uma triste repetição cíclica da história mundial contemporânea, e arrisco mesmo a partilhar um dos meus receios pessoais, espero honestamente estar errada, mas começo a suspeitar que estejamos à beira de uma Terceira Guerra Mundial.

   Para mim, um dos grandes sinais de alarme começou por ser a eleição de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos da América, que nunca acreditei ser possível. É, essencialmente, um homem de negócios, transporta consigo um passado digno de uma qualquer personagem de um filme de série B de Hollywood com divórcios milionários, uma quase falência dourada, uma certa aura de playboy milionário (e nem sequer se vislumbra charme na personagem) com casamentos e divórcios conturbados, sem esquecer os escândalos sexuais que sempre trazem um certo frisson. Pessoalmente, irritam-me profundamente na criatura a falta de cavalheirismo numa evidente atitude desrespeitosa para com as mulheres, os tiques nacionalistas expostos em discursos demagógicos a roçar o estilo ditatorial, as birras de "criança" grande (mas, infelizmente, uma "criança" que tem em mãos um brinquedo perigoso, tem o poder de, a todo o momento, fazer estalar a frágil camada de cimento que segura o equilíbrio mundial) e uma imensa falta de cultura que me parece ser bem patente.

   Não menos assustador é pensar no que encontramos ali para os lados de Pyongyang, onde reina o "Querido Líder" Kim Jong Un, neste caso, temos um perigoso e, também egocêntrico chefe de Estado,  que parece ser bastante aparentado com os Vilões quase caricaturais dos primeiros filmes de James Bond. Deste lado, temos uma pessoa totalmente desequilibrada, imprevisível e que tem o péssimo hábito de brincar com mísseis e toda a espécie de armamento nuclear, o que, de todo, me parece boa ideia!

   Completando o cenário de risco, a Inglaterra em pleno processo de Brexit, e tendo na linha de comando a Conservadora Theresa May achou que era o momento oportuno para abrir uma guerra diplomática com a Rússia de Vladimir Putin (a meu ver, sem dúvida, o mais inteligente, calculista e estratega de todos os líderes mundiais, que mantém sempre uma felina aura de mistério, sendo quase impossível antecipar a sua próxima jogada no Xadrez mundial, astúcia esta a que, certamente, não será alheio o seu background na KGB).

Não discutindo os princípios que possam estar subjacentes à questão diplomática com expulsões de representantes das potências mundiais já em pleno efeito dominó, não me parecem ser prudentes estes extremismos considerando o actual (des)equilíbrio generalizado do panorama mundial.

Os sinais de alarme estão à vista, tal como aliás já foi reconhecido por António Guterres - Secretário Geral das Nações Unidas que afirmou, em suma, estarmos a assistir à formação de um contexto de Guerra Fria que urge conter.

Conforme decorre da análise histórica de Carl Grimberg no vigésimo e último volume da obra "História Universal", no primeiro capítulo com o assertivo título "A Caminho duma nova Guerra Mundial", diria eu que estamos a vivenciar um novo "Tempo das Catástrofes", sendo esta a designação aplicável à época dos anos trinta, cujo início se deu com o ataque do Japão à Manchúria e o triste termo correspondeu à II Guerra Mundial (1939-1944). Também no "Tempo das catástrofes" se assistiram a golpes de Estado, crises e guerras civis. A este já pesado cenário acrescentemos o recrudescer dos nacionalismos exacerbados e evidenciados por líderes sem qualquer noção do mais basilar bom senso, et voilá, os dados estão lançados e é bom que estejamos conscientes do altíssimo risco em que todos vivemos! A história repete-se ciclicamente, não tenho dúvidas. É forçoso concluir que:

"Tudo está de pernas para o ar no mundo de hoje (...)"

In, Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas (Pai)




sexta-feira, 30 de março de 2018

LITERATURA | A Paixão Segundo Contança H. de Maria Teresa Horta | EDITORA DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 31 de Março

Quando Henrique H. lhe dá a conhecer a sua traição, a paixão de Constança transfigura-se. Em tempos que se desdobram e sobrepõem, chegam-lhe do passado as queixas de uma trisavó sobre o marido todo-poderoso, ao passo que da infância revive com nitidez os momentos mais dolorosos: o abandono pela mãe, sua primeira paixão, quase seguido da trágica morte da avó, fonte única de afecto e segurança. O desejo de vingança vai-se assim alimentando num clima obsessivo de loucura, sangue e morte. Neste romance de culto, agora reeditado pela Dom Quixote, tudo se dissolve na paixão omnipresente: o assassínio de Adele na praia deserta, vítima inocente do ataque do cão treinado, o suicídio de Henrique e o internamento e prisão de Constança H.


quinta-feira, 29 de março de 2018

LITERATURA | Dias Comuns IX - Derrota Pairante de José Gomes Ferreira | EDITORA DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 31 de Março
O diário Dias Comuns, de José Gomes Ferreira, começou a ser publicado em 1990, cinco anos após a sua morte. Este nono volume, Derrota Pairante, abarca o período entre 1 de Fevereiro e 20 de Setembro de 1970, época em que o escritor foi convidado para presidente da futura Associação de Escritores, em que Salazar morre e se vive em pleno regime Marcelista.

Um livro que revela muitíssimo da vida do autor e da sua obra. Mas também pensamentos mais íntimos, histórias e momentos do panorama literário e político da época.


segunda-feira, 26 de março de 2018

CRÓNICA | A Fonte dos Livros | VANESSA LOURENÇO

Deixou-se cair na cadeira com o entusiasmo de quem ouve o tiro de partida e arranca, munido do desejo de deixar cair limites e rótulos alheios. Respirou fundo, fitou o monitor com os olhos brilhantes e acariciou com ternura o teclado com as pontas dos dedos. No silêncio, demorou-se ainda a vaguear pelo potencial infinito do mundo que estava prestes a criar, o que sentiria quando tivesse nas mãos a obra nascida do seu trabalho? O que sentiria quando a visse finalmente nascer? Estaria o mundo lá fora, disposto a aceitá-la?

Sorriu, talvez sem sequer se aperceber. Franziu as sobrancelhas, respirou fundo e acendeu um cigarro. Fechou os olhos e disse, de si para si mesmo:

- Mostra-me.

Durante um bom par de minutos, nada aconteceu. O cigarro apagou, a folha de word em branco teimava em fitá-lo com desdém, e começou a sentir-se frustrado. Levantou-se da cadeira, esticou pernas e costas e foi beber um copo de água. Voltou. Sentou-se. Acariciou de novo o monitor com as pontas dos dedos:

- Mostra-me.

Silêncio.
Mexeu-se desconfortavelmente na cadeira, fitou as mãos sem realmente as ver e pousou-as de novo no teclado. Quando se preparava para se levantar de novo em busca de coisa nenhuma, ouviu a Fonte dizer:

- O que queres de mim? Porque me chamaste?

Não ficou surpreendido, nem sequer estremeceu. Conhecia bem a Fonte de outras aventuras, e sabia como podia ser caprichosa:

- Tu sabes o que eu quero. Tão bem como sabes, que não vou suplicar.

A Fonte vangloriou-se:

- Foste um bom aluno.

Esfregou demoradamente a cara com as mãos, fazendo os óculos saltar. Suspirou:

- Ajuda-me a deixá-los entrar. Posso mostrar-lhes o caminho, mas precisam da tua luz. Não te estou a dar novidade nenhuma.

A Fonte riu com prazer, e as suas gargalhadas ecoaram pela divisão fechada. Ele encolheu os ombros e suspirou, impotente. Porque tinha ela que ser sempre assim, arrogante? Finalmente, ela parou de rir:

- Onde está o teu sentido de humor? Sempre tão cheio de recursos, porque não usas uma vela? O que tem a minha luz de especial?

Semicerrou os olhos e murmurou, entredentes:

- Tu sabes perfeitamente porquê, foste tu que me desvendaste esse segredo. As velas podem iluminar o caminho neste mundo, mas só a tua luz ilumina aqueles que, de outros mundos, precisam de luz para cá chegar.

A Fonte ficou em silêncio durante alguns instantes. Tê-la-ia convencido?
Não tardou a descobrir. Uns momentos mais tarde, a Fonte replicou:

- Tu sabes como funciona: uma vez iluminado o caminho, eles vão chegar. E não poderás voltar atrás.

Ele sorriu melancolicamente:

- Sabes tão bem como eu, que a missão deles é inspirar o mundo. E só podem fazê-lo através de nós.

A Fonte suspirou longamente. Finalmente, disse:

- Nem todos estão preparados para os compreender.

Ele respondeu:

- Mas aqueles que estiverem, verão as suas vidas mudadas para sempre. Não foste tu que me ensinaste que eles não querem mudar o mundo, mas apenas abrir a porta a quem quiser entrar?

A Fonte assentiu, ele era sem dúvida um dos seus melhores alunos.
No momento seguinte, ele pousou de novo os dedos no teclado. Respirou fundo, e esperou pacientemente. Ao mesmo tempo, numa dimensão situada algures entre a nossa realidade e o nosso maior potencial, a Fonte Criativa tornou-se luz. E através dela caminharam heróis e vilões, anjos e mestres, obstáculos e verdades capazes de mudar o mundo. Misturadas com dragões e cavalos brancos, castelos distantes e grutas escuras e misteriosas. Um por um, rodearam o escritor. Alguns sentaram-se em redor da secretária, outros pousaram gentilmente as mãos etéreas nos seus ombros. E ele sorriu. Pousou os dedos no teclado, e começou a escrever.




domingo, 25 de março de 2018

LITERATURA | Dona Flor e Seus Dois Maridos de Jorge Amado | EDITORA DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 27 de Março

Dona Flor e Seus Dois Maridos, um dos mais deliciosos e famosos romances de Jorge Amado, é uma insólita história de amor, repleta de humor e de personagens cativantes, passada na Bahia.

Dividida entre os seus dois maridos, dona Flor vai travar uma «espantosa batalha entre o espírito e a matéria».

CRÓNICA | Trocas e baldrocas horárias | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO



Hoje é dia, mais uma vez, de mudança da hora. Adianta-se uma hora aos relógios para entrarmos no chamado horário de Verão.

Esta ideia foi posta em prática em 1784 por Benjamin Franklin. O objectivo era a poupança de velas. Com a I Guerra Mundial, em 1916, voltou a verificar-se a necessidade de poupança, desta vez de carvão, e novamente se impôs uma alteração horária.

A Alemanha foi o primeiro país a adaptar o seu horário, logo seguida pela Grã-Bretanha, enquanto outros os iam seguindo mais ou menos espaçadamente. A uniformização só teve lugar na década de 70, mais precisamente em 1974, quando os Estados Unidos e vários países europeus foram confrontados com um embargo no petróleo.

Desde essa altura que andamos para a frente e para trás consoante a época do ano. Dois séculos depois da ideia, justificadamente, ter visto a luz do sol pela primeira vez, manipulamos o tempo com base numa solução que em nada se adequa aos dias que vivemos.

Actualmente, as “cabeças pensantes” alegam que mudamos a hora para as crianças não irem para a escola de noite, por exemplo. Que me desculpem, as excelentíssimas sumidades pensadoras, mas qualquer contemplação simples do céu, sem necessidade de estudos complicados ou maquinaria de qualquer espécie, revela que no Inverno o sol nasce entre as 7.30 e as 8 horas, dependendo da zona, no território nacional e põe-se por volta das 17 horas. 
Ora, se os miúdos entram às 8 horas e só vão para casa às 17, 18 ou 19 horas – dependendo da altura em que os pais os vão buscar -, significa que, efectivamente, saem de casa de noite e voltam da mesma forma. Assim como os seus pais, relativamente aos seus empregos, que, normalmente, fechados em cubículos o dia inteiro, a fazer por ganhar aquilo com que se compra as necessidades básicas e os sonhos, vêem alguns raios de sol por quinze ou vinte minutos diários, se tiverem a sorte de sair para almoçar fora do local de trabalho. Se adoptássemos o horário de Verão definitivamente isto já não aconteceria desta forma.

O sol, esse astro essencial a toda a nossa vivência, que tantos benefícios nos dá ao nível da saúde física e mental, está a ser completamente desaproveitado e num país como o nosso, que tem uma taxa de luz solar superior a muitos países, é uma perfeita parvoíce não o aproveitar e continuar a reboque das ideias mais que ultrapassadas de outros.

São já muitos os estudos sobre as vantagens da adopção definitiva do horário de Verão. Ao que parece, está comprovado que os níveis de stress, os acidentes rodoviários, as depressões e os suicídios decrescem. A boa disposição, a produtividade e a imunidade a determinadas doenças aumentam, assim como o tempo de qualidade passado com a família e os amigos. As pessoas têm a sensação de ter mais tempo para as suas tarefas e tudo é feito com mais tranquilidade.

Já vivemos demasiado enclausurados pelas convencionais obrigações diárias. Há coisas que podem e devem ser ajustadas à realidade dos nossos dias. Há coisas que podem e devem ser mudadas. Não tenho dúvida nenhuma que esta é uma delas.  


sábado, 24 de março de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | Os Miseráveis... ou Quo Vadis Advocacia Portuguesa? | ISABEL DE ALMEIDA

Corro o risco de me repetir, mas afinal, o propósito desta coluna semanal consiste precisamente em partilhar com o mundo aquilo que me faz pensar, que me incomoda, e que tantas vezes, mais do que incomodar me causa uma profunda revolta, uma indignação que me perturba de tal forma que tenho até alguma dificuldade em expressar por palavras o que me vai na alma.

Pedi emprestado a Victor Hugo o início do título deste artigo e é com profundo desgosto que, no ano em que completo dezoito anos de inscrição como Advogada, olho à minha volta e vejo-me forçada a concluir que somos, efectivamente uma classe pejada de "Miseráveis", note-se, e para que fiquem afastados os mal entendidos, não o digo com intuito de ofender ou diminuir quem quer que seja, até porque estaria a ofender-me a mim mesma! 

Passarei a explanar, de seguida, algumas das razões deste meu entendimento ( porque somos afinal, nós Advogados "miseráveis"?) e nem sequer tenho a pretensão de ser exaustiva na expressão dessas razões. Estas reflexões que hoje aqui partilho vêm sendo partilhadas e debatidas com um grupo próximo de amigos e colegas de trabalho, e fazendo justiça, quando reflectia entre amigos e colegas sobre o que poderia escrever e em que moldes o poderia fazer, a alusão literária a Vitor Hugo foi sugerida precisamente por um dos membros daquele que considero o meu núcleo duro de amigos e colegas que comungam destas mesmas preocupações (dado o adiantado da hora e não cito o nome da pessoa, que assim o fará publicamente em comentário a este texto, se assim o entender).

E deixando para trás as questões prévias, sinto-me grata por saber que existem, pelo menos, algumas pessoas que comungam desta minha preocupação, e que têm consciência de que somos uma profissão que corre sérios riscos de extinção na sua vertente mais tradicional ou clássica, se preferirem o segundo epíteto, salvo o devido respeito por formas diversas de trabalho, eu tenho de confessar que sempre fui idealista, e que a prática forense que me fez apaixonar e viciar por esta profissão foi a barra, a prática em pequena equipa, a adrenalina de ir aprendendo com a experiência, de fazer renovações pontuais na biblioteca jurídica e descobrir nos célebres "calhamaços" a doutrina certa para fundamentar os casos que vão surgindo, sem esquecer a jurisprudência!

Pessoalmente, ainda hoje continua a ser a adrenalina que me faz sentir um enorme prazer (e assumo, um, por vezes, inconfessado orgulho) quando entro numa sala de audiências para defender um arguido, ou para representar um assistente num processo crime, aquela indescritível sensação de conseguir improvisar (muitas vezes quando a produção da prova nos faz sentir que a linha condutora que tínhamos passado a noite anterior a afinar foi por água abaixo, sendo o direito penal uma das minhas grandes paixões!

A adrenalina flui e pode revelar-se produtiva e prazerosa quando nos sentamos em frente do computador com os nossos parceiros de escrita ideais, numa mesa repleta de livros, dossiers, apontamentos, notas soltas (algumas rascunhadas à pressa, em letra quase ininteligível, no primeiro pedaço de papel que estava à mão quando toca o telefone e algum dos parceiros teve uma ideia a desbravar e estudar mais a fundo na próxima reunião). Este tipo de trabalho é sempre pautado por uma ou outra piada que se debita para desanuviar a tensão, e constata-se que quem, como eu, está familiarizado com esta forma mais clássica (ou antiquada, dirão alguns) de trabalhar, imbuído do espírito de missão de conseguir fazer a justiça acontecer (ou ao menos tentar que ela aconteça e, nesse propósito, dar o nosso melhor) apresenta um raciocínio muito similar, ou complementar (eu sou a viciada na escrita cujos ímpetos de escrever peças processuais gigantes têm de ser contidos sabiamente pelos amigos e colegas que conseguem ser mais objectivos e práticos).

E agora, perguntaram os leitores, então mas se até agora o que foi descrito nos três parágrafos anteriores parece até bastante positivo, como se chega à conclusão de que somos "miseráveis"? A razão primordial já foi enunciada acima, é que tudo isto que acabei de descrever está em sérios riscos de extinção (nem quero pensar a que prazo). A advocacia nacional, nesta que considero ser a sua essência, está à beira de se desmoronar totalmente como um frágil castelo de cartas!

E porquê, entre várias outras razões, porque nos está a ser exigido, em tantos casos, pagar para trabalhar, ao invés de sermos pagos pelo nosso trabalho (reitero o meu veemente protesto e indignação quanto à inconstitucionalidade flagrante decorrente de pagar contribuições para um regime de previdência cuja base de incidência para o cálculo assenta em rendimentos presumidos e não reais), sentir e saber que muitos advogados vivem em situação de gravosa insuficiência económica e sem conseguir "pagar para trabalhar" nem, muito menos, "ganhar pelo trabalho que desenvolvem" e esta impossibilidade pode advir de motivos como: redução da carteira de clientes fruto da recente conjuntura económica negativa, o valor verdadeiramente proibitivo das taxas de justiça praticadas em Portugal que, a meu ver, violam o Direito de Acesso à justiça consagrado na Constituição (num pais onde o salário mínimo é de 580,00€ a taxa mínima para uma acção de valor superior à alçada da primeira instância é de 612,00€ em muitos processos); a perda de actos próprios de advogados que foram confiados a outras entidades públicas ou privadas; o simples e duro facto de os advogados serem seres humanos que podem adoecer e ficar incapacitados de exercer a sua profissão (podendo tal incapacidade ser temporária ou definitiva) e, nesses casos, não terem direito a baixa nem, tão pouco, à suspensão de pagamento de contribuições para a Caixa de Previdência ou das Quotas para a Ordem Profissional (as normas habilitantes em vigor não permitem excepcionar nem acautelar a necessária protecção perante situações excepcionais).

Assusta-me, indigna-me e revolta-me profundamente que existam colegas com penas disciplinares aplicadas por terem faltado a diligências por comprovadas razões de saúde, que mesmo perante os tribunais o justo impedimento para a prática de um acto processual pode não ser entendido de modo a abarcar diversas situações de impedimentos por motivos de saúde.

E deixo para o fim o caso mais grave, mais cruel, mais inacreditável, quando ousando ser humanos os advogados têm a infelicidade de ser acometidos de doenças oncológicas, de doenças crónicas, de doenças incapacitantes, a solução das instituições que deveriam zelar pelos seus associados é o expresso convite a sair, a suspender a inscrição. Esta postura institucional é para mim inconcebível, não consigo assimilar, não consigo calar-me, não consigo ficar indiferente, nem consigo perceber onde se encaixa uma situação destas num Estado de Direito Democrático como dizem ser o nosso!

São vidas que estão aqui em causa, é de seres humanos que se trata e não de números! São carreiras que podem ser ceifadas a qualquer momento, e sem alternativas profissionais viáveis, muitas vezes 10, 20 ou 30 anos de um projecto profissional que podem ser-nos tirados à força...como se gere uma perda de tal dimensão?

Numa triste  e cruel ironia, aqui se cruzam, pelo menos dois tipos de "miseráveis": os que caíram em desgraça porque se vêem doentes e pobres e todos os outros que olham de maneira indiferente, conformada e absolutamente passiva para este estado de coisas!

Lutamos todos os dias pelos direitos de outras pessoas, apaixona-mo-nos por essa luta, e por nós mesmos? Quem vai lutar? Até quando vamos tolerar ser os carrascos de nós mesmos por acção ou omissão? É "miseráveis" que queremos ser até ao fim? É desta contraditória massa que somos feitos? O que faremos com os despojos de nós mesmos? Quo Vadis? Precisamos de heróis obscuros, porque com os pseudo-heróis ilustres não me parece que possamos chegar a bom Porto!

"A vida, a infelicidade, o isolamento, o abandono, a pobreza, são campos de batalha que têm os seus heróis; heróis obscuros por vezes maiores do que os heróis ilustres." 

In, "Os Miseráveis", Victor Hugo