segunda-feira, 2 de abril de 2018

CRÓNICA | Sombra de quatro patas | VANESSA LOURENÇO



Era um ser humano, cuja sombra caminhava em quatro patas. Não porque fosse diferente de outro ser humano qualquer, mas porque cedo na vida entendera que valia a pena ouvir os conselhos dos mestres. Pesava o que lhe diziam com atenção, e dissecava as suas mensagens como quem descasca uma fruta suculenta, e se maravilha com o sabor guloso que cada gomo maduro tem para oferecer. Só que por vezes (e encolhia os ombros, como quem pede desculpa por partilhar uma verdade incondicional e irrefutável) ... esses mestres caminhavam em quatro patas. Ou percorriam os céus, planando por vezes como papagaios de papel que se esqueceram de regressar ao chão. Ou ainda... não nos alonguemos. Na verdade, os mestres assumiam uma variedade de formas imensa, todos empenhados em se fazerem entender por aqueles que os quisessem ouvir. Mas a sombra dela, essa caminhava em quatro patas. Porque sabia que nem todos os mestres usam apenas duas para se deslocarem. E foi assim que conheceu o mestre Chapim Azul.

Os mestres têm sempre sentido de humor, e foi por isso sem surpresa que nesse dia, ele surgiu sem se fazer anunciar. Ela estava de visita à familia e, dir-se-ia por acaso, reparou no pequeno Chapim Azul pousado num cabo de um poste de electricidade. Sorriu-lhe imediatamente, porque assim que nele pousou os olhos percebeu que estava na presença de um mestre. E percebeu isto porque ele a olhava, saltitando para trás e para diante ao longo do fio, as penas do alto da cabecinha erguendo-se de entusiasmo. “Repara em mim”, parecia dizer.

- Bom dia, meste Chapim!

O pequeno passarinho parou de saltitar pelo cabo e inclinou-se para a frente, e naquele instante ocorreu-lhe, a ela, que se sentia como se estivesse do lado errado de uma qualquer jaula num jardim zoológico. Desta feita não era ela que observava o animal, era observada por ele. O pequeno passarinho inclinou-se ainda mais e ergueu de novo as penas do alto da cabecinha, intrigado com o que ela estava a pensar:

- O que foi?

Ela respirou fundo e encolheu os ombros, antes de devolver à pequena ave: 

- Nada de especial... estava aqui a pensar que normalmente, são os seres humanos que observam as outras espécies. E desta vez, a observada sou eu.
O pequeno pássaro chilreou e atirou o corpo pequenino para trás, divertido, o que o fez desequilibrar-se por um momento. Respondeu:

- Achas mesmo que isso é verdade?

Ela franziu o sobrolho, desconcertada:

- Claro que é verdade. Basta ver a quantidade de gente que assiste a documentários sobre a vida selvagem, que vai o jardim zoológico ou sai apenas para rua para os encontrar!

O pequeno passarinho avançou mais um pouco ao longo do cabo e voltou a inclinar-se para diante, na direcção dela. Disse:

- Quer dizer que achas que os seres humanos é que costumam observar os outros animais porque não temos televisões e não vos prendemos em jaulas?

Ela abriu a boca para falar, mas não saiu nenhum som. Aquilo fazia sentido? Por fim, respondeu:

- Tens razão, e lamento que assim seja.

O mestre Chapim Azul fixou nos dela os pequenos olhos brilhantes. E disse:

- A única forma de cada um de nós mudar o mundo, é fazer a sua parte. E pelo nosso mundo fora, contamos com a ajuda de todos os seres humanos que, como tu, possuem uma sombra que caminha em quatro patas. Porque vocês páram para nos ouvir sem vergonha, lutam para nos ajudar com determinação, e acreditam do fundo do coração que todos os animais são mestres. E que todos caminhamos, lado a lado, para curar este planeta que é a nossa casa.


domingo, 1 de abril de 2018

CRÓNICA | Celebrar a vida | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO



Aproximando-me de mais um aniversário, dei por mim a recordar as muitas coisas que já fiz, vi, conquistei, perdi e as boas, e as menos boas, sensações que experimentei em tantas situações – será que é a isto que chamam o balanço de vida?, bolas, devo estar mesmo a ficar velha. Pensei mesmo que, caramba, já vivi muito, afinal, meio século é realmente muito tempo, apesar de nos parecer sempre pouco. Tendemos a pensar que o tempo não nos chega e que é injusto envelhecermos e morrermos. Na realidade tudo tem um ciclo, um tempo próprio de duração; basta olhar em volta com atenção para constatar que assim é; porque haveria de ser diferente connosco?

Sempre acreditei que a vida - a par da saúde e do amor -, é o que de mais precioso temos e, por isso mesmo, deve ser celebrada, pelo que nunca percebi muito bem as pessoas que dizem detestar comemorar os aniversários. Não será motivo de comemoração o facto de estarmos vivos?! Assinalar um aniversário significa que vivemos mais um ano e que estamos prontos para abraçar outro. Será que a pele que se vai engelhando, as rugas que vão aparecendo, são mais importantes do que tudo o que a vida tem para nos oferecer? O facto de existirem demonstra, precisamente, o muito que já fizemos, sentimos e aprendemos e isso deve ser motivo de orgulho. Só se vive realmente através das sensações, do número de vezes em que os pêlos se nos eriçam de prazer, de expectativa, de receio, de amor… não através das aparências, pois são ocas, fugazes, desprovidas de autenticidade e o tempo… é imparável, não o podemos controlar, por muito que queiramos; façamos dele um aliado e não um inimigo; desfrutemos dele ao invés de andar a combater moinhos de vento.

Admiro as pessoas que apesar das contrariedades tentam sempre viver com gosto. Aplaudo de pé os que não se dão por vencidos e que fazem dos obstáculos ensinamentos e desafios a ultrapassar. São tantos os que não têm braços, pernas, visão e tantas outras coisas que damos como garantidas e que poderiam condicionar a sua vontade de viver com alegria e, no entanto, todos os dias se propõem a superar-se com um sorriso nos lábios e uma vontade férrea. São eles que inspiram outros e que fazem a diferença na vida de milhares.

Percebo a ideia que alguns têm de que quanto mais tempo vivemos mais nos aproximamos do inevitável fim - se bem que ninguém possa dizer quando partirá, se será mais cedo ou mais tarde -, mas, por outro lado, não consigo perceber quem vive a pensar na morte. Essa será, sem dúvida, uma vivência muito triste, desapegada de tudo o que nos impulsiona a ir mais longe, daquilo que nos faz arriscar e vibrar, do prazer puro de existir. Esses são aqueles que não percebem que começamos a morrer no exacto momento em que somos concebidos; são os que, por muito tempo que vivam, não percebem que a vida é apenas uma fracção de tempo para ser apreciada o melhor possível; são os que tentam enganar a inevitabilidade e se lamentam por não serem imortais, sem compreenderem que somos imortais através do que realizamos; são os que já estão mortos e não o sabem.

“Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”
Antoine-Laurent de Lavoisier

sábado, 31 de março de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | Tudo está de pernas para o ar...ou "O (novo) tempo das catástrofes!" | ISABEL DE ALMEIDA

   Olhando com atenção para a actual conjuntura mundial aos níveis económico, político e diplomático, receio que estejamos a assistir a uma triste repetição cíclica da história mundial contemporânea, e arrisco mesmo a partilhar um dos meus receios pessoais, espero honestamente estar errada, mas começo a suspeitar que estejamos à beira de uma Terceira Guerra Mundial.

   Para mim, um dos grandes sinais de alarme começou por ser a eleição de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos da América, que nunca acreditei ser possível. É, essencialmente, um homem de negócios, transporta consigo um passado digno de uma qualquer personagem de um filme de série B de Hollywood com divórcios milionários, uma quase falência dourada, uma certa aura de playboy milionário (e nem sequer se vislumbra charme na personagem) com casamentos e divórcios conturbados, sem esquecer os escândalos sexuais que sempre trazem um certo frisson. Pessoalmente, irritam-me profundamente na criatura a falta de cavalheirismo numa evidente atitude desrespeitosa para com as mulheres, os tiques nacionalistas expostos em discursos demagógicos a roçar o estilo ditatorial, as birras de "criança" grande (mas, infelizmente, uma "criança" que tem em mãos um brinquedo perigoso, tem o poder de, a todo o momento, fazer estalar a frágil camada de cimento que segura o equilíbrio mundial) e uma imensa falta de cultura que me parece ser bem patente.

   Não menos assustador é pensar no que encontramos ali para os lados de Pyongyang, onde reina o "Querido Líder" Kim Jong Un, neste caso, temos um perigoso e, também egocêntrico chefe de Estado,  que parece ser bastante aparentado com os Vilões quase caricaturais dos primeiros filmes de James Bond. Deste lado, temos uma pessoa totalmente desequilibrada, imprevisível e que tem o péssimo hábito de brincar com mísseis e toda a espécie de armamento nuclear, o que, de todo, me parece boa ideia!

   Completando o cenário de risco, a Inglaterra em pleno processo de Brexit, e tendo na linha de comando a Conservadora Theresa May achou que era o momento oportuno para abrir uma guerra diplomática com a Rússia de Vladimir Putin (a meu ver, sem dúvida, o mais inteligente, calculista e estratega de todos os líderes mundiais, que mantém sempre uma felina aura de mistério, sendo quase impossível antecipar a sua próxima jogada no Xadrez mundial, astúcia esta a que, certamente, não será alheio o seu background na KGB).

Não discutindo os princípios que possam estar subjacentes à questão diplomática com expulsões de representantes das potências mundiais já em pleno efeito dominó, não me parecem ser prudentes estes extremismos considerando o actual (des)equilíbrio generalizado do panorama mundial.

Os sinais de alarme estão à vista, tal como aliás já foi reconhecido por António Guterres - Secretário Geral das Nações Unidas que afirmou, em suma, estarmos a assistir à formação de um contexto de Guerra Fria que urge conter.

Conforme decorre da análise histórica de Carl Grimberg no vigésimo e último volume da obra "História Universal", no primeiro capítulo com o assertivo título "A Caminho duma nova Guerra Mundial", diria eu que estamos a vivenciar um novo "Tempo das Catástrofes", sendo esta a designação aplicável à época dos anos trinta, cujo início se deu com o ataque do Japão à Manchúria e o triste termo correspondeu à II Guerra Mundial (1939-1944). Também no "Tempo das catástrofes" se assistiram a golpes de Estado, crises e guerras civis. A este já pesado cenário acrescentemos o recrudescer dos nacionalismos exacerbados e evidenciados por líderes sem qualquer noção do mais basilar bom senso, et voilá, os dados estão lançados e é bom que estejamos conscientes do altíssimo risco em que todos vivemos! A história repete-se ciclicamente, não tenho dúvidas. É forçoso concluir que:

"Tudo está de pernas para o ar no mundo de hoje (...)"

In, Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas (Pai)




sexta-feira, 30 de março de 2018

LITERATURA | A Paixão Segundo Contança H. de Maria Teresa Horta | EDITORA DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 31 de Março

Quando Henrique H. lhe dá a conhecer a sua traição, a paixão de Constança transfigura-se. Em tempos que se desdobram e sobrepõem, chegam-lhe do passado as queixas de uma trisavó sobre o marido todo-poderoso, ao passo que da infância revive com nitidez os momentos mais dolorosos: o abandono pela mãe, sua primeira paixão, quase seguido da trágica morte da avó, fonte única de afecto e segurança. O desejo de vingança vai-se assim alimentando num clima obsessivo de loucura, sangue e morte. Neste romance de culto, agora reeditado pela Dom Quixote, tudo se dissolve na paixão omnipresente: o assassínio de Adele na praia deserta, vítima inocente do ataque do cão treinado, o suicídio de Henrique e o internamento e prisão de Constança H.


quinta-feira, 29 de março de 2018

LITERATURA | Dias Comuns IX - Derrota Pairante de José Gomes Ferreira | EDITORA DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 31 de Março
O diário Dias Comuns, de José Gomes Ferreira, começou a ser publicado em 1990, cinco anos após a sua morte. Este nono volume, Derrota Pairante, abarca o período entre 1 de Fevereiro e 20 de Setembro de 1970, época em que o escritor foi convidado para presidente da futura Associação de Escritores, em que Salazar morre e se vive em pleno regime Marcelista.

Um livro que revela muitíssimo da vida do autor e da sua obra. Mas também pensamentos mais íntimos, histórias e momentos do panorama literário e político da época.


segunda-feira, 26 de março de 2018

CRÓNICA | A Fonte dos Livros | VANESSA LOURENÇO

Deixou-se cair na cadeira com o entusiasmo de quem ouve o tiro de partida e arranca, munido do desejo de deixar cair limites e rótulos alheios. Respirou fundo, fitou o monitor com os olhos brilhantes e acariciou com ternura o teclado com as pontas dos dedos. No silêncio, demorou-se ainda a vaguear pelo potencial infinito do mundo que estava prestes a criar, o que sentiria quando tivesse nas mãos a obra nascida do seu trabalho? O que sentiria quando a visse finalmente nascer? Estaria o mundo lá fora, disposto a aceitá-la?

Sorriu, talvez sem sequer se aperceber. Franziu as sobrancelhas, respirou fundo e acendeu um cigarro. Fechou os olhos e disse, de si para si mesmo:

- Mostra-me.

Durante um bom par de minutos, nada aconteceu. O cigarro apagou, a folha de word em branco teimava em fitá-lo com desdém, e começou a sentir-se frustrado. Levantou-se da cadeira, esticou pernas e costas e foi beber um copo de água. Voltou. Sentou-se. Acariciou de novo o monitor com as pontas dos dedos:

- Mostra-me.

Silêncio.
Mexeu-se desconfortavelmente na cadeira, fitou as mãos sem realmente as ver e pousou-as de novo no teclado. Quando se preparava para se levantar de novo em busca de coisa nenhuma, ouviu a Fonte dizer:

- O que queres de mim? Porque me chamaste?

Não ficou surpreendido, nem sequer estremeceu. Conhecia bem a Fonte de outras aventuras, e sabia como podia ser caprichosa:

- Tu sabes o que eu quero. Tão bem como sabes, que não vou suplicar.

A Fonte vangloriou-se:

- Foste um bom aluno.

Esfregou demoradamente a cara com as mãos, fazendo os óculos saltar. Suspirou:

- Ajuda-me a deixá-los entrar. Posso mostrar-lhes o caminho, mas precisam da tua luz. Não te estou a dar novidade nenhuma.

A Fonte riu com prazer, e as suas gargalhadas ecoaram pela divisão fechada. Ele encolheu os ombros e suspirou, impotente. Porque tinha ela que ser sempre assim, arrogante? Finalmente, ela parou de rir:

- Onde está o teu sentido de humor? Sempre tão cheio de recursos, porque não usas uma vela? O que tem a minha luz de especial?

Semicerrou os olhos e murmurou, entredentes:

- Tu sabes perfeitamente porquê, foste tu que me desvendaste esse segredo. As velas podem iluminar o caminho neste mundo, mas só a tua luz ilumina aqueles que, de outros mundos, precisam de luz para cá chegar.

A Fonte ficou em silêncio durante alguns instantes. Tê-la-ia convencido?
Não tardou a descobrir. Uns momentos mais tarde, a Fonte replicou:

- Tu sabes como funciona: uma vez iluminado o caminho, eles vão chegar. E não poderás voltar atrás.

Ele sorriu melancolicamente:

- Sabes tão bem como eu, que a missão deles é inspirar o mundo. E só podem fazê-lo através de nós.

A Fonte suspirou longamente. Finalmente, disse:

- Nem todos estão preparados para os compreender.

Ele respondeu:

- Mas aqueles que estiverem, verão as suas vidas mudadas para sempre. Não foste tu que me ensinaste que eles não querem mudar o mundo, mas apenas abrir a porta a quem quiser entrar?

A Fonte assentiu, ele era sem dúvida um dos seus melhores alunos.
No momento seguinte, ele pousou de novo os dedos no teclado. Respirou fundo, e esperou pacientemente. Ao mesmo tempo, numa dimensão situada algures entre a nossa realidade e o nosso maior potencial, a Fonte Criativa tornou-se luz. E através dela caminharam heróis e vilões, anjos e mestres, obstáculos e verdades capazes de mudar o mundo. Misturadas com dragões e cavalos brancos, castelos distantes e grutas escuras e misteriosas. Um por um, rodearam o escritor. Alguns sentaram-se em redor da secretária, outros pousaram gentilmente as mãos etéreas nos seus ombros. E ele sorriu. Pousou os dedos no teclado, e começou a escrever.




domingo, 25 de março de 2018

LITERATURA | Dona Flor e Seus Dois Maridos de Jorge Amado | EDITORA DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 27 de Março

Dona Flor e Seus Dois Maridos, um dos mais deliciosos e famosos romances de Jorge Amado, é uma insólita história de amor, repleta de humor e de personagens cativantes, passada na Bahia.

Dividida entre os seus dois maridos, dona Flor vai travar uma «espantosa batalha entre o espírito e a matéria».