segunda-feira, 9 de abril de 2018

CRÓNICA | Os gatos não sabem falar | VANESSA LOURENÇO



Sou uma mulher, e vivo no mundo dos homens. Isto porque no nosso planeta podem bem existir um sem número de mundos diferentes, dos quais nem nos damos conta ou preferimos ignorar. Coisa de humanos, zonas de conforto e outros que tais. Não tem que existir um motivo lógico, é assim que funciona. E foi por isso que naquele dia, quando o imenso gato amarelo se sentou ao meu lado e começou a palrear, não me contive. Disse-lhe:

- O que pensas que estás a fazer? Os animais não falam!

Ele olhou-me de lado, mas continuou a falar, ignorando-me deliberadamene. Sei que é verdade porque apesar de permanecer calmamente sentado ao meu lado, a cauda se agitava energicamente atrás dele. Insisti:

- Pára com isso. Esqueceste-te de como ser um gato? Os gatos sobem para cima das mobílias, largam pêlo e agem como se fossem donos do mundo. Mas não perdem tempo a falar com os seres humanos.

Ele continuou a agitar a cauda comprida e pude sentir que estava a ficar tenso. Finalmente, interrompeu-se e suspirou. Depois fechou os olhos e ficou apenas ali, em silêncio. Claro que ao fim de uns minutos o silêncio se tornou quase insuportável, e por isso foi a minha vez de falar:

- O que se passa, ficaste ofendido por te mostrar como um gato se deve comportar no mundo dos homens?

Esperava irritá-lo o suficiente para prolongar a troca de argumentos, mas tudo o que consegui foi que se virasse ligeiramente de costas para mim e começasse a lamber a pata com a lingua áspera, esfregando-a no focinho logo de seguida. Conhecem aquele dizer popular sobre o feitiço se virar contra o feiticeiro? Pois foi exactamente o que aconteceu: quis irritá-lo, e quem estava a ficar irritada era eu. Bufei:

- Estás a ignorar-me? Que mal fiz eu para me ignorares? Ficaste ofendido com a verdade?
Olhou-me de soslaio e por um segundo apenas, julguei ter visto um trejeito nos bigodes que se assemelhava bastante a um sorriso presunçoso. Ora não querem lá ver que a criatura peluda estava a divertir-se às minhas custas? Não, não ia aturar isso vindo de um ser que tomava banho de saliva e vomitava bolas de pêlo. Ele tinha ido longe de mais. Resmunguei:

- Quem pensas tu que és para me tratares desta maneira? Achas que sou alguém que podes simplesmente desprezar?

Passaram o que calculo terem sido meia dúzia de segundos antes que se erguesse nas quatro patas, sacudindo o corpo peludo e espalhando uma nuvem de pêlo à sua volta. Ocorreu-me instantaneamente que felizmente não sofria de alergias, ou podia estar em maus lençóis. Depois caminhou alguns passos até ficar de frente para mim, e sentou-se. Olhou em volta, e subitamente fixou os olhos nos meus. Até hoje penso, que se tivesse tentado desviar o olhar, não teria conseguido. Mas por qualquer motivo alheio à minha compreensão, nem sequer tentei.

De olhos perdidos na imensidão dos seus olhos verdes, o tempo pareceu parar. Em minha defesa tentei refilar de novo, mas não consegui. Estava perante um daqueles momentos solenes em que caem por terra todas as máscaras e ideais de grandeza, e completamente desprovida de acidez ou refilice. Por isso deixei-me ficar quieta e calada, de olhos presos nos dele. Nem sequer me lembro de pestanejar. E foi então que ele falou:

- Estás mais calma?

Gaguejei, e o melhor que consegui foi abanar a cabeça em assentimento. Pareceu satisfeito, e continuou:

- Bem-vinda de volta.

Franzi o sobrolho e inclinei ligeiramente a cabeça, e nesse instante ocorreu-me que estava a ficar com as pernas dormentes. Mas não me mexi. Estava demasiado curiosa. Perguntei:

- O que queres dizer? Como assim, de volta?

E foi então que aconteceu: o gato amarelo cresceu. Não, não que tenha ficado maior ou mais alto. Não era um leão ou uma criatura mítica, era um gato. Mas cresceu... como se, de repente, o seu espírito tivesse transbordado do seu corpo e se expandisse para lá dos limites do pêlo amarelo. Arregalei os olhos, mas em vez de assombro, tudo o que consegui sentir foi uma paz imensa. Algo aproximado? A sensação de conforto quando nos deitamos entre cobertores lavados numa noite de inverno, com a chuva a cair lá fora. Não é igual, mas aproxima-se bastante. Ele refraseou:

- Bem-vinda de volta a casa.

Eu devo ter feito uma careta tão estranha que ele lançou o focinho para trás, numa gargalhada. Os gatos conseguem rir? Continuou:

- Tu vives no mundo dos homens, e no mundo dos homens precisas de usar máscaras para sobreviver. Máscaras que de tão enraizadas já, são como a tua segunda pele. Mas com elas postas, perdes de vista todos os outros mundos. Perdes de vista a verdade pura de todas as coisas. Quando comecei a falar contigo há pouco, conseguiste ouvir-me. Mas depois activaste as tuas máscaras, e tudo o que viste foi o meu corpo. O corpo de um ser inferior. Porque eu sou um ser inferior no mundo dos homens. Mas quando me olhaste nos olhos, viste algo neles que fez as tuas máscaras cairem. E quando caíram, tu viste outros mundos. Viste a verdade. E voltaste a conseguir ouvir as minhas palavras.

Enquanto o ouvia, senti como se um véu de seda atravessasse o meu corpo e o enchesse de energia, como se também eu estivesse a ultrapassar agora os limites físicos do meu corpo. Como se na verdade algo se tivesse quebrado dentro de mim e eu fosse agora capaz de ver muito além do mundo dos homens, mundo a que na maior parte do tempo ainda pertencia. Quando tomei novamente consciência dos olhos dele pregados nos meus, não vi apenas um gato: vi um espírito igual ao meu. Mais do que isso, vi nele um mestre. Disse-lhe:

- Obrigado. Não consigo deixar de pensar que se mais seres humanos soubessem disto, o mundo dos homens se aproximaria da verdade de todas as coisas. Tudo faria mais sentido. Seríamos pessoas melhores.

Não se mexeu, mas senti que esfregava o focinho cor de rosa na minha mão. Respondeu:

- Não entendeste ainda? É esse o teu propósito. Conta-lhes as histórias. Até porque como bem sabes, quem lê neste momento estas palavras não chegou aqui por acaso. Leitor desta crónica... sentimos a sua falta. Bem-vindo de volta a casa.



domingo, 8 de abril de 2018

CRÓNICA | Que raio de seres somos? | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO




Há uns dias fiz uma visita a um canil. Não com o intuito de aumentar a família – já vivem cá em casa dois elementos peludos e penso que o espaço é, também, extremamente importante para a sua felicidade e bem-estar -, mas pela curiosidade de ver as condições em que vivem os menos afortunados e para perceber se poderia fazer algo para ajudar.

As boxes estavam limpas e em cada uma havia água, comida, camas e mantas; os animais pareciam estar bem cuidados; não tive nada de maior a assinalar. Tinha levado biscoitos e bolas e foi reconfortante ver que a maior parte daqueles amigos os aceitaram prontamente, como se lhes estivessem a oferecer os maiores tesouros. Comeram os biscoitos e brincaram com as bolas, sem deixarem de abanar as caudas, enquanto contorciam os corpos ao compasso de um momento de esquecimento dos maus tratos e abandono, mas o olhar… esse continuava carregado de amargura e tristeza; daquela que nos invade o núcleo e nos enche os olhos da água que carrega as emoções da impotência e da raiva, pelas injustiças cometidas contra a inocência, a par do carinho por aqueles que tudo dão sem esperar absolutamente nada em troca.

Por mais de uma vez dei pela visão a turvar-se pela humidade e pelo zumbido nos ouvidos, enquanto a minha mente viajava revoltada pelas imagens dos relatos que me iam fazendo das agruras por que tinham passado aqueles seres tão cheios, e sedentos, de amor. Espancamento, fome, sede, tortura, indiferença, abandono… verdadeiras vítimas da maldade crua. Alguns tremiam de receio, ainda, não se chegando imediatamente às grades para vir receber os presentes ou uma festa, apesar de já ali estarem há algum tempo, pois não conheciam o afago ternurento de uma mão protectora. Encolhiam-se a um a canto, até a curiosidade e a voz meiga os vencer e se começarem a aproximar a pouco e pouco, rasos ao chão, com a cauda colada à barriga. Cheiravam o ar, inquietos, e evitavam olhar-me nos olhos.

Despedi-me com o interior revolto. Queria trazê-los todos comigo. Queria ver aquele olhar sofrido dar lugar à confiança e tranquilidade. Meti-me no carro e lembrei-me dos meus cães que tinham ficado em casa, no conforto de uma vida plena de respeito e bem-querer. Pensei que, naquele momento, provavelmente estariam ociosamente deitados numa das muitas almofadas existentes na casa, ou, então, estariam a brincar um com o outro, felizes e despreocupados, como fazem tantas vezes, enquanto esperavam que eu chegasse para saltarem para o meu colo e me cobrirem a cara e as mãos com lambidelas.

Amor! Amor puro, desinteressado, sem cinismo, segundas intenções, ou qualquer outro sentimento negativo. Passamos as nossas vidas numa busca desenfreada de receber amor verdadeiro e quando o temos não o valorizamos; muitas vezes, inclusivamente, maltratamos desumanamente aqueles que nos têm como o centro das suas vidas.

Que raio de seres – evoluídos - somos?

sábado, 7 de abril de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | " A primeira coisa a fazer: matar todos os advogados..." | ISABEL DE ALMEIDA

Todas as semanas, no exacto momento em que me sento em frente ao computador para escrever estas linhas, acalento a esperança de não ter de me debruçar sobre as temáticas do Direito, da Justiça e do (triste) estado em que se encontra a Advocacia Portuguesa! 

Lamento informar que, mais uma vez, a minha esperança de conseguir divergir para a análise de outras questões saiu gorada.

Façamos então, em traços largos, o ponto da situação.

É-me extremamente incómodo observar o autismo ou a negação mal disfarçados (frise-se) de instituições cujo propósito seria o de zelar por uma evolução positiva da Justiça, da sua aplicação na prática, de molde a não colocar em risco os princípios fundamentais do nosso ordenamento jurídico, mas infelizmente, não caminhamos para bom porto, e para acrescer à incomensurável gravidade de toda esta situação, acredita-se talvez não ingenuamente (em termos institucionais) que tudo está bem no "País das Maravilhas"... e apenas umas quantas almas insatisfeitas e inconsequentes se atrevem a contestar dogmas de cariz quase religioso, diria, pergunto-me se os insatisfeitos, os contestatários (entre os quais orgulhosamente e não sozinha me incluo) estarão limitados na sua apreciação crítica da realidade que percepcionam no terreno (no dia a dia dos seus escritórios, nos tribunais, sempre que consultam a legislação e quando recordam o que aprenderam nos cinco longos anos da Faculdade de Direito) por um estranho surto psicótico de alucinação colectiva...

Esta semana foram conhecidas as posições oficiais do Ministério da Justiça, da Caixa de Previdência dos Advogados e Solicitadores (CPAS) e da Ordem dos Advogados, que constam dos documentos de Pronúncia sobre o objecto da Petição  nº 477/XIII/3ª. a qual solicita uma auditoria contabilística, financeira, de gestão e legal, externa e independente à CPAS.

Em suma, o Ministério da Justiça sufraga uma opinião que diríamos conciliadora, esperançosa e confiante quanto à sustentabilidade da CPAS, empurrando para a esfera da gestão privativa daquela instituição "Previdencial" a responsabilidade do que venha a suceder, mas, em simultâneo, e numa certa ambiguidade benevolente, reconhecendo que é preciso fazer algumas cedências de entre as quais destaco: o não pagamento temporário de contribuições em situações de incapacidade para o trabalho por doença grave ou maternidade, comprovada que seja a ausência de rendimentos dos beneficiários. Isto, numa primeira análise, não me parece mau, parece-me é clara e perigosamente vago, difuso e insuficiente para o que se passa com tantos Advogados neste país. 

Salvo o devido respeito, não se resolvem questões sociais de fundo (e que terão repercussões gravíssimas a breve trecho, onerando a Segurança Social - Regime Geral - quando assistirmos à fuga em massa de profissionais do foro, por impossibilidade de prover ao seu sustento, asfixiados por um paradigma contributivo que os irá "matar"), parece-me, como diz o povo na sua sabedoria "Tapar o sol com a peneira"!

A Ordem dos Advogados, assumindo agora, sem margem para dúvidas, a solidariedade institucional com a CPAS (pelo menos reconheço o mérito de alguma honestidade intelectual que andava camuflada em silêncios incómodos e perplexidades  mais ou menos contidas perante a contestação pública) defende firmemente a ideia de que a sustentabilidade é possível e está assegurada. Um grande senão desta postura, a meu ver é também falacioso ou ingénuo e revela, no mínimo, um extremo desconhecimento do terreno. 

Não me canso de repetir que muitos advogados terão de deixar de exercer,a manter-se esta linha condutora institucional, por mera asfixia financeira, que é infelizmente real e não mera ficção, e porque o paradigma contributivo actual assenta, ele sim, numa ficção (presunção legal quanto aos rendimentos auferidos) que será potenciadora de tragédias pessoais infelizmente reais, e porque há todo um conjunto de casos pessoais verdadeiramente dramáticos que afectam além dos advogados as suas famílias e existem incapacidades para o trabalho não apenas temporárias mas tendencialmente permanentes que, olhando para a tímida e vaga proposta de alteração das normas regulamentares em vigor não irão ser sequer contempladas, o que é estranho e assusta!

Deixo para o fim uma brevíssima mas incisiva análise crítica à pronúncia da CPAS acerca da consulta para efeitos da Petição supra identificada. Resumindo o extenso documento (que poderá ser consultado em link acima indicado no presente artigo e cuja leitura vivamente aconselho a todos os interessados nesta matéria) a meu ver, parece-me que fica bem patente a frieza dos números a sobrepor-se à essência do que são seres humanos (lá terei de me repetir, os advogados, pelo menos alguns... são seres humanos, com vicissitudes de toda a ordem, e também de natureza financeira, carecem de prover ao seu sustento, há advogados no limiar da subsistência, há advogados que padecem de doenças graves e incapacitantes, há advogados que tendo, pelos vistos, apostado na profissão errada por ser reconhecidamente "de elite" não terão sequer reforma, há advogados que estão a ser convidados a abandonar a sua profissão por um sistema que se assume agora implacavelmente intransigível!

Numa nota final, reitero que vivemos, ainda em democracia (assim quero crer) que não sendo perfeita dista muitos séculos de distância da democracia Grega na génese das Cidades Estado da Grécia Clássica e que, considerando tal circunstancialismo, se mais nada nos for permitido, pelo menos que possamos continuar a tecer juízos críticos, de (des)valor, a expressarmos livremente as nossas opiniões em artigos de imprensa, nas redes sociais, e a exercer todos os direitos de cidadania, porquanto a liberdade de expressão ainda não perdeu a sua consagração na sua lei fundamental (artigo 37º da Constituição da República Portuguesa), não sendo aceitáveis quaisquer formas de censura (pelo menos, quero crer que assim seja)!

Destarte, deixo-vos com a seguinte citação literária:

"Primeira coisa a fazer: matar todos os advogados."

In, Henrique VI, parte II - William Shakespeare

segunda-feira, 2 de abril de 2018

CRÓNICA | Sombra de quatro patas | VANESSA LOURENÇO



Era um ser humano, cuja sombra caminhava em quatro patas. Não porque fosse diferente de outro ser humano qualquer, mas porque cedo na vida entendera que valia a pena ouvir os conselhos dos mestres. Pesava o que lhe diziam com atenção, e dissecava as suas mensagens como quem descasca uma fruta suculenta, e se maravilha com o sabor guloso que cada gomo maduro tem para oferecer. Só que por vezes (e encolhia os ombros, como quem pede desculpa por partilhar uma verdade incondicional e irrefutável) ... esses mestres caminhavam em quatro patas. Ou percorriam os céus, planando por vezes como papagaios de papel que se esqueceram de regressar ao chão. Ou ainda... não nos alonguemos. Na verdade, os mestres assumiam uma variedade de formas imensa, todos empenhados em se fazerem entender por aqueles que os quisessem ouvir. Mas a sombra dela, essa caminhava em quatro patas. Porque sabia que nem todos os mestres usam apenas duas para se deslocarem. E foi assim que conheceu o mestre Chapim Azul.

Os mestres têm sempre sentido de humor, e foi por isso sem surpresa que nesse dia, ele surgiu sem se fazer anunciar. Ela estava de visita à familia e, dir-se-ia por acaso, reparou no pequeno Chapim Azul pousado num cabo de um poste de electricidade. Sorriu-lhe imediatamente, porque assim que nele pousou os olhos percebeu que estava na presença de um mestre. E percebeu isto porque ele a olhava, saltitando para trás e para diante ao longo do fio, as penas do alto da cabecinha erguendo-se de entusiasmo. “Repara em mim”, parecia dizer.

- Bom dia, meste Chapim!

O pequeno passarinho parou de saltitar pelo cabo e inclinou-se para a frente, e naquele instante ocorreu-lhe, a ela, que se sentia como se estivesse do lado errado de uma qualquer jaula num jardim zoológico. Desta feita não era ela que observava o animal, era observada por ele. O pequeno passarinho inclinou-se ainda mais e ergueu de novo as penas do alto da cabecinha, intrigado com o que ela estava a pensar:

- O que foi?

Ela respirou fundo e encolheu os ombros, antes de devolver à pequena ave: 

- Nada de especial... estava aqui a pensar que normalmente, são os seres humanos que observam as outras espécies. E desta vez, a observada sou eu.
O pequeno pássaro chilreou e atirou o corpo pequenino para trás, divertido, o que o fez desequilibrar-se por um momento. Respondeu:

- Achas mesmo que isso é verdade?

Ela franziu o sobrolho, desconcertada:

- Claro que é verdade. Basta ver a quantidade de gente que assiste a documentários sobre a vida selvagem, que vai o jardim zoológico ou sai apenas para rua para os encontrar!

O pequeno passarinho avançou mais um pouco ao longo do cabo e voltou a inclinar-se para diante, na direcção dela. Disse:

- Quer dizer que achas que os seres humanos é que costumam observar os outros animais porque não temos televisões e não vos prendemos em jaulas?

Ela abriu a boca para falar, mas não saiu nenhum som. Aquilo fazia sentido? Por fim, respondeu:

- Tens razão, e lamento que assim seja.

O mestre Chapim Azul fixou nos dela os pequenos olhos brilhantes. E disse:

- A única forma de cada um de nós mudar o mundo, é fazer a sua parte. E pelo nosso mundo fora, contamos com a ajuda de todos os seres humanos que, como tu, possuem uma sombra que caminha em quatro patas. Porque vocês páram para nos ouvir sem vergonha, lutam para nos ajudar com determinação, e acreditam do fundo do coração que todos os animais são mestres. E que todos caminhamos, lado a lado, para curar este planeta que é a nossa casa.


domingo, 1 de abril de 2018

CRÓNICA | Celebrar a vida | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO



Aproximando-me de mais um aniversário, dei por mim a recordar as muitas coisas que já fiz, vi, conquistei, perdi e as boas, e as menos boas, sensações que experimentei em tantas situações – será que é a isto que chamam o balanço de vida?, bolas, devo estar mesmo a ficar velha. Pensei mesmo que, caramba, já vivi muito, afinal, meio século é realmente muito tempo, apesar de nos parecer sempre pouco. Tendemos a pensar que o tempo não nos chega e que é injusto envelhecermos e morrermos. Na realidade tudo tem um ciclo, um tempo próprio de duração; basta olhar em volta com atenção para constatar que assim é; porque haveria de ser diferente connosco?

Sempre acreditei que a vida - a par da saúde e do amor -, é o que de mais precioso temos e, por isso mesmo, deve ser celebrada, pelo que nunca percebi muito bem as pessoas que dizem detestar comemorar os aniversários. Não será motivo de comemoração o facto de estarmos vivos?! Assinalar um aniversário significa que vivemos mais um ano e que estamos prontos para abraçar outro. Será que a pele que se vai engelhando, as rugas que vão aparecendo, são mais importantes do que tudo o que a vida tem para nos oferecer? O facto de existirem demonstra, precisamente, o muito que já fizemos, sentimos e aprendemos e isso deve ser motivo de orgulho. Só se vive realmente através das sensações, do número de vezes em que os pêlos se nos eriçam de prazer, de expectativa, de receio, de amor… não através das aparências, pois são ocas, fugazes, desprovidas de autenticidade e o tempo… é imparável, não o podemos controlar, por muito que queiramos; façamos dele um aliado e não um inimigo; desfrutemos dele ao invés de andar a combater moinhos de vento.

Admiro as pessoas que apesar das contrariedades tentam sempre viver com gosto. Aplaudo de pé os que não se dão por vencidos e que fazem dos obstáculos ensinamentos e desafios a ultrapassar. São tantos os que não têm braços, pernas, visão e tantas outras coisas que damos como garantidas e que poderiam condicionar a sua vontade de viver com alegria e, no entanto, todos os dias se propõem a superar-se com um sorriso nos lábios e uma vontade férrea. São eles que inspiram outros e que fazem a diferença na vida de milhares.

Percebo a ideia que alguns têm de que quanto mais tempo vivemos mais nos aproximamos do inevitável fim - se bem que ninguém possa dizer quando partirá, se será mais cedo ou mais tarde -, mas, por outro lado, não consigo perceber quem vive a pensar na morte. Essa será, sem dúvida, uma vivência muito triste, desapegada de tudo o que nos impulsiona a ir mais longe, daquilo que nos faz arriscar e vibrar, do prazer puro de existir. Esses são aqueles que não percebem que começamos a morrer no exacto momento em que somos concebidos; são os que, por muito tempo que vivam, não percebem que a vida é apenas uma fracção de tempo para ser apreciada o melhor possível; são os que tentam enganar a inevitabilidade e se lamentam por não serem imortais, sem compreenderem que somos imortais através do que realizamos; são os que já estão mortos e não o sabem.

“Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”
Antoine-Laurent de Lavoisier

sábado, 31 de março de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | Tudo está de pernas para o ar...ou "O (novo) tempo das catástrofes!" | ISABEL DE ALMEIDA

   Olhando com atenção para a actual conjuntura mundial aos níveis económico, político e diplomático, receio que estejamos a assistir a uma triste repetição cíclica da história mundial contemporânea, e arrisco mesmo a partilhar um dos meus receios pessoais, espero honestamente estar errada, mas começo a suspeitar que estejamos à beira de uma Terceira Guerra Mundial.

   Para mim, um dos grandes sinais de alarme começou por ser a eleição de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos da América, que nunca acreditei ser possível. É, essencialmente, um homem de negócios, transporta consigo um passado digno de uma qualquer personagem de um filme de série B de Hollywood com divórcios milionários, uma quase falência dourada, uma certa aura de playboy milionário (e nem sequer se vislumbra charme na personagem) com casamentos e divórcios conturbados, sem esquecer os escândalos sexuais que sempre trazem um certo frisson. Pessoalmente, irritam-me profundamente na criatura a falta de cavalheirismo numa evidente atitude desrespeitosa para com as mulheres, os tiques nacionalistas expostos em discursos demagógicos a roçar o estilo ditatorial, as birras de "criança" grande (mas, infelizmente, uma "criança" que tem em mãos um brinquedo perigoso, tem o poder de, a todo o momento, fazer estalar a frágil camada de cimento que segura o equilíbrio mundial) e uma imensa falta de cultura que me parece ser bem patente.

   Não menos assustador é pensar no que encontramos ali para os lados de Pyongyang, onde reina o "Querido Líder" Kim Jong Un, neste caso, temos um perigoso e, também egocêntrico chefe de Estado,  que parece ser bastante aparentado com os Vilões quase caricaturais dos primeiros filmes de James Bond. Deste lado, temos uma pessoa totalmente desequilibrada, imprevisível e que tem o péssimo hábito de brincar com mísseis e toda a espécie de armamento nuclear, o que, de todo, me parece boa ideia!

   Completando o cenário de risco, a Inglaterra em pleno processo de Brexit, e tendo na linha de comando a Conservadora Theresa May achou que era o momento oportuno para abrir uma guerra diplomática com a Rússia de Vladimir Putin (a meu ver, sem dúvida, o mais inteligente, calculista e estratega de todos os líderes mundiais, que mantém sempre uma felina aura de mistério, sendo quase impossível antecipar a sua próxima jogada no Xadrez mundial, astúcia esta a que, certamente, não será alheio o seu background na KGB).

Não discutindo os princípios que possam estar subjacentes à questão diplomática com expulsões de representantes das potências mundiais já em pleno efeito dominó, não me parecem ser prudentes estes extremismos considerando o actual (des)equilíbrio generalizado do panorama mundial.

Os sinais de alarme estão à vista, tal como aliás já foi reconhecido por António Guterres - Secretário Geral das Nações Unidas que afirmou, em suma, estarmos a assistir à formação de um contexto de Guerra Fria que urge conter.

Conforme decorre da análise histórica de Carl Grimberg no vigésimo e último volume da obra "História Universal", no primeiro capítulo com o assertivo título "A Caminho duma nova Guerra Mundial", diria eu que estamos a vivenciar um novo "Tempo das Catástrofes", sendo esta a designação aplicável à época dos anos trinta, cujo início se deu com o ataque do Japão à Manchúria e o triste termo correspondeu à II Guerra Mundial (1939-1944). Também no "Tempo das catástrofes" se assistiram a golpes de Estado, crises e guerras civis. A este já pesado cenário acrescentemos o recrudescer dos nacionalismos exacerbados e evidenciados por líderes sem qualquer noção do mais basilar bom senso, et voilá, os dados estão lançados e é bom que estejamos conscientes do altíssimo risco em que todos vivemos! A história repete-se ciclicamente, não tenho dúvidas. É forçoso concluir que:

"Tudo está de pernas para o ar no mundo de hoje (...)"

In, Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas (Pai)




sexta-feira, 30 de março de 2018

LITERATURA | A Paixão Segundo Contança H. de Maria Teresa Horta | EDITORA DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 31 de Março

Quando Henrique H. lhe dá a conhecer a sua traição, a paixão de Constança transfigura-se. Em tempos que se desdobram e sobrepõem, chegam-lhe do passado as queixas de uma trisavó sobre o marido todo-poderoso, ao passo que da infância revive com nitidez os momentos mais dolorosos: o abandono pela mãe, sua primeira paixão, quase seguido da trágica morte da avó, fonte única de afecto e segurança. O desejo de vingança vai-se assim alimentando num clima obsessivo de loucura, sangue e morte. Neste romance de culto, agora reeditado pela Dom Quixote, tudo se dissolve na paixão omnipresente: o assassínio de Adele na praia deserta, vítima inocente do ataque do cão treinado, o suicídio de Henrique e o internamento e prisão de Constança H.