segunda-feira, 30 de abril de 2018

CRÓNICA | A voz da Vida | VANESSA LOURENÇO


Perdi-o naquela noite. O meu amigo, o meu companheiro, o meu gato. O único que sempre soube preencher os meus silêncios e a minha incapacidade de lidar com o mundo lá fora, sem me julgar. O único que compreendeu que eu me afastei dos ruídos do mundo, apenas para encontrar os meus silêncios, porque ele sabia que eram os únicos que me podiam salvar.

Perdi-o, e os meus silêncios transbordaram para o mundo lá fora. Uma corrente que não consegui conter, e que me arrastou. Submersa na torrente de emoções descontroladas, fechei os olhos durante muito tempo, e não vi o mundo passar. Ignorei todos os sinais de esperança, todos os gritos de alerta, todas as portas abertas e palavras fáceis, ocas.

Perdi-o. E porque o perdi, recusei encontrar-me. No olho da minha mente, eu via apenas a ausência escura e definitiva da morte. Mal sabia eu... e que ridículo me parece agora, recordar.

Um dia, senti uma brisa leve no rosto, e olhei em volta. Era Outono, e o chão estava coberto por um extenso tapete de folhas secas. As folhas estavam mortas, e, no entanto, as árvores a que pertenciam, estavam vivas. Pensei então na mudança de pêlo dos animais: eles perdem o pêlo morto, e, no entanto, permanecem vivos. A vida insistia em se renovar a todo o instante à minha volta, e isso fez-me pensar.

Porque cremos que a vida se renova apenas até onde conseguimos ver? Porque cremos que tudo o que existe, cabe dentro dos nossos olhos? Porque cremos que algo que faz parte de nós, pode alguma vez ser perdido?

Foi então que ouvi a voz:

- Entendes agora? Nós não somos as folhas secas que caem da árvore, somos a árvore; não somos o pêlo morto que se liberta dos animais, somos o próprio animal. Não somos a lagarta, somos a essência que se liberta da gravidade, e decide voar. Evoluindo sempre, mudando sempre. Mas sobretudo, libertando-nos a cada passo do caminho do que já não nos ajuda a crescer.

Recordando por um momento o imenso gato amarelo que tanto amava, arrisquei:

- Quer dizer que não te perdi?

Uma brisa fresca percorreu o meu cabelo comprido, e senti como se algo se encostasse à minha perna. Ouvi então a voz dizer:

- Quer dizer que neste mundo, nos habituamos a usar corpos que nos definem. Apegamo-nos a eles para criar laços. Mas se olhares para lá do que um corpo te pode oferecer, tudo o que resta é para sempre.



domingo, 29 de abril de 2018

CRÓNICA | Perfeita Natureza | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO

Se há coisa que gosto de comer é fruta. Não sou o chamado “bom garfo”, no sentido em que como para viver e não o contrário, mas a fruta é uma das minhas perdições. Numa das minhas incursões a uma superfície comercial para me abastecer da dita, deparei-me com as bancadas repletas de frutos brilhantes e convidativos. “Vamos lá ver se é desta”, pensei, e acerquei-me das ameixas. Assim que lhes toquei… estavam verdes, mais uma vez. Suspirei. Passei ao melão, às uvas, às maçãs, aos kiwis… tudo completamente impróprio para consumo. Abanei a cabeça em desaprovação, enquanto o meu pensamento tomava as rédeas e cavalgava a toda a brida pelas razões mesquinhas que, actualmente, levam os produtores a criar tudo à pressão. Desabafei verbalmente qualquer coisa a propósito, enquanto passeava o olhar desolado pelas cores à minha frente. 

- É para amadurecer, minha senhora – ouvi ao meu lado.

Mas o que… dei conta do zumbido nos ouvidos, virei meio corpo e tive uma visão turva de uma mulher jovem, vestida com a farda do estabelecimento, que dispunha mais maçãs encortiçadas no expositor.

- Eu compro fruta para comer, não para decorar a fruteira e depois deitar fora – respondi-lhe enfadada.

Encarou-me com um olhar perdido, como se não percebesse minimamente o que lhe tinha acabado de dizer. Encolhi os ombros, enquanto constatava que era uma perda de tempo tentar explicar-lhe que a fruta naquelas condições, colhida muito antes de tempo, não amadurece; que uma coisa é inspirar o aroma natural à medida que nos aproximamos dos frutos, sentir a sua maciez na ponta dos dedos, deleitarmo-nos com a suavidade da polpa e a abundância de sumo ao serem trincados e outra, bem diferente, é fruta rija, sem cheiro, encortiçada e que não sabe a absolutamente nada. Ultimamente só encontro o segundo cenário. Que saudades da fruta criada naturalmente.

Virei-me e vim-me embora, sem nada nas mãos, enquanto pensava que o dinheiro move realmente tudo. Por ele até nos matamos lentamente ao produzirmos verdadeira porcaria para consumirmos, carregada de hormonas de crescimento, antibióticos, pesticidas, conservantes e outras substâncias nocivas, apenas para criar e vender mais rápido e em maior quantidade. Nós acordamos os cancros que nos assolam e matam. Tentamos, por todos os meios, controlar e manipular o tempo e a vida, esquecendo-nos que o melhor plano já foi traçado há muito tempo. Chama-se natureza.


sábado, 28 de abril de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | "Liberdade, onde estás? Quem te demora?"...ou...vivemos num Estado de Direito Democrático?

   No passado dia 25 de Abril grande parte do país, de Norte a Sul, saiu à rua em romaria de cantares de Abril apregoando as conquistas da revolução, relembrando heróis e, num já gasto e pouco convincente cliché, celebrando a liberdade!

   Curiosamente...ou não, eu que nasci no ano da Revolução, tenho este ano assumidamente clamado por uma verdadeira Revolução na área da justiça em geral, e da advocacia em particular e devo confessar que não senti vontade de ir para a rua celebrar um conceito que, a meu ver, é hoje mais aparente e mítico do que real! 

   Senão Vejamos, somos um país livre? Sim! Muito bem, então se assim é, porque me dizem que eu e tantos outros colegas Advogados não podemos continuar a exercer a nossa profissão, a não ser que tenhamos um determinado e tendencialmente elevado estatuto sócio-económico?!

   Somos democratas? Sim ! Muito bem! Então porque assistimos quase todas as semanas à descoberta de obscuras redes de interesses, lobbies, trocas de favores, corrupção ao mais alto nível e porque vemos políticos que - à esquerda, ao centro e à direita - adulteram ou "embelezam" intencionalmente currículos académicos para, talvez, alimentar falsamente a sua auto-estima e, acima de tudo, em busca de uma mais sólida posição na política nacional!

   Somos livres? Sim! Muito bem! Então porque somos nós contribuintes a pagar as pesadas facturas da falência de grandes bancos privados, e porque assistimos à descapitalização do único grande banco público (Caixa Geral de Depósitos) em prol de socorrer essas mesmas perdas do foro privado?!

   Somos um Estado de Direito Democrático? Sim! Muito bem! Mas esse mesmo estado que não reconhece direitos iguais a todos os seus cidadãos, e que tem uma classe despojada dos mais basilares direitos sociais e assistenciais: os advogados não têm direito a baixa por doença, não têm direito a condigno apoio à maternidade e paternidade, nem têm direito a optar pelo regime contributivo que seja mais justo, equitativo e consentâneo com os seus rendimentos efectivamente auferidos! (Estou a repetir-me, sim estou, mas não me cansarei de o fazer até que alguém nos oiça!).

   Somos livres?  Sim! Muito Bem! Então porque somos considerados proscritos, temerários ou loucos se ousamos remar contra a corrente, exercitar o nosso espírito crítico e olhar para certas realidades com o nosso próprio e peculiar olhar e não pela lente de terceiros (ainda que estes possam ser uma maioria...envergonhada ou conformada!)  Seja-nos permitido pensar livremente pela nossa própria cabeça, livres das amarras do politicamente correcto, do conformismo, do "by the book"!

   Abril trouxe consigo a democracia? E de que espécie de democracia falamos quando temos uma classe política que não vence nem convence, como demonstram as elevadas taxas de abstenção!

 Somos livres? Sim! E quanto nos custará essa liberdade na forma como deixamos que seja exercitada sem controlo pelas gerações futuras? Que esperar de jovens cuja principal ambição de vida é "ser como o Cristiano Ronaldo" (como se ser excepcional fosse regra), ou possuir o mais recente modelo de tablet, telemóvel ou consola de jogos electrónicos? Que esperar de jovens que, na sua maioria, não têm hábitos de leitura, e que se recusam a escrever um texto, alegando em sua fraca defesa "falta de imaginação"?!

   O que nos é permitido esperar? Que país? Que políticos? Que sociedade? Que valores? Que Justiça? Que confiança nas instituições? Que liberdade? Que "Abril"? Que Futuro?

   "Abril"é uma página da história, nem sequer é linear, nem sequer é totalmente inocente (embora por vezes seja idealizado), não foi o último capítulo, e nem mesmo creio que seja o último, e temo que o livro da história nacional possa não ter o desejado "Final Feliz"!

   Resta-nos, ao menos, a liberdade do inconformismo, por isso, citando Manuel Maria Barbosa du Bocage ouso perguntar:

"Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?"

LITERATURA | Memórias Secretas de Mário Cláudio | EDITORA DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 30 de Abril


A um autor que é dado à literatura biográfica, vêm parar as memórias secretas de três figuras bem conhecidas. O mais curioso é que não se trata de pessoas mas de personagens de banda desenhada. Terão Corto, Bianca e Valente uma existência própria e independente dos seus criadores?

É o que ficaremos a saber depois de concluída a leitura deste romance.

terça-feira, 24 de abril de 2018

LITERATURA | A Mãe de Pearl S. Buck | EDITORA DOM QUIXOTE - Tradução de Isabel Risques

Nas livrarias a 24 de Abril


Nesta obra, Pearl S. Buck descreve de um modo quase pictórico a vida simples e rude do povo Chinês, numa época que é pouco conhecida. A narrativa vívida e pormenorizada permite que o leitor capte toda a simplicidade e intensidade dos tempos descritos em A Mãe.

Ao penetrar no espírito da camponesa, Pearl S. Buck dá a conhecer os sentimentos mais profundos da mente e do coração de uma mulher e de uma mãe. Fá-lo de uma maneira comovente, enérgica e mesmo violenta. A personagem, sem qualquer dúvida estoica, assume uma grandeza excecional pela forma como encara e ultrapassa os obstáculos que a vida lhe coloca. Uma vida longa, árdua e solitária.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

LITERATURA | A Casa Golden de Salman Rushdie | EDITORA DOM QUIXOTE - Tradução de J. Teixeira de Aguilar

Nas livrarias a 24 de Abril


Quando o poderoso magnata imobiliário Nero Golden imigra para os Estados Unidos em circunstâncias misteriosas, ele e os seus três filhos adultos assumem novas identidades, adotando nomes «romanos» e instalando-se numa grandiosa mansão do centro de Manhattan. Chegados pouco após a tomada de posse de Barack Obama, ele e os filhos, todos excecionais por direito próprio, ocupam rapidamente o seu lugar no topo da sociedade nova-iorquina. A história da família Golden é contada sob a perspetiva de um seu vizinho e confidente, René, um aspirante a cineasta que encontra nos Golden o tema perfeito.

Fazendo apelo à literatura, à cultura pop e ao cinema, Rushdie tece a história do ambiente americano ao longo dos últimos oito anos, tocando todos os pontos: a ascensão do movimento Birther, do Tea Party, do Gamergate e da política de identidade; o efeito de ricochete do politicamente correto; a influência dos filmes de super-heróis e, evidentemente, a eclosão de um vilão ambicioso, desapiedado, narcisista e profundamente conhecedor da comunicação social, que usa maquilhagem e pinta o cabelo.

domingo, 22 de abril de 2018

CRÓNICA | Ser português | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO


Viver em Portugal é conviver com a sua gente de sorriso simpático, pronta a ajudar e a aproximar-se sem reservas dos seus interlocutores, sejam eles de que nacionalidade forem – a hospitalidade portuguesa e a facilidade de falar qualquer língua são sobejamente conhecidas - e usufruir de um clima de sonho, sem catástrofes naturais de maior monta, em paisagens desde a neve ao mais fino areal da praia; é desfrutar de uma luz natural, com um brilho raro, muito superior a outros locais do mundo; é degustar uma das melhores cozinhas e néctares e ter a felicidade de caminhar calmamente nas ruas em liberdade e sossego.

Mas ser português tem outro lado, incompreensível para quem preza a justiça e a verdade. Portugal tem um dos salários mínimos mais baixos da Europa, uma carga horária laboral elevada, uma taxa de desemprego insustentável, um serviço de segurança social podre, importa muito mais do que exporta e assiste, impávido, a todo o tipo de corrupção ao mais alto nível. Temos políticos que “desviam” e promovem tudo o que lhes convier, banqueiros coniventes com operações ilícitas na alta finança, juízes que, conscientemente, se demitem das suas reais funções e assumem posturas parciais e tremendamente questionáveis, médicos que rasgam o juramento de Hipócrates e se associam à máquina moedeira das farmacêuticas, entidades que roubam crianças aos seus progenitores e outras que deveriam cuidar delas e dos nossos velhos e os mantêm em vivências completamente inaceitáveis aos padrões humanos, polícias que são condenados por fazerem o seu trabalho, grandes empresários que mais parece quererem destacar o que é feito lá fora do que cá dentro e… nada é feito para travar isto.

Tudo se vai desenrolando, impunemente, mês após mês, ano após ano, década após década, à frente dos nossos olhos, num país que é um dos mais ricos do mundo em recursos naturais. Temos tudo o que é necessário para viver – não é sobreviver – sem praticamente depender de mais ninguém. Temos gás natural, petróleo, minerais diversos, sol em abundância, grandes extensões de solo arável e cultivável, óptimos aquíferos, um oceano rico em peixe, um clima excelente para qualquer tipo de agricultura e grandes mentes. Isto em linhas muito gerais.

Porque razão preferimos usar-nos do que é dos outros em vez do que é nosso? Porque não aproveitamos os recursos e as boas capacidades que temos – porque as temos, sim! - para criar emprego sustentável, para fazer crescer o país, para repor a justiça social, ao invés de apostarmos naquilo que os outros produzem? A relação entre os recursos naturais e o poder mundial é bem conhecida e nós temo-los de sobra. Porque continuamos a encolher os ombros à miséria de sistema em que vivemos? A resposta, creio, está nos nossos “brandos costumes”, como é hábito ouvir-se dizer. Aceitamos tudo o que nos é feito, mesmo que nos faça muito mal. Somos um povo permissivo, de conversa de café. Ali despojamos a corrupção e a injustiça de tudo e mais alguma coisa, somos super-heróis que se batem estoicamente pelo justo e pela igualdade de peito feito, mas depois, de volta à realidade diária, baixamos a cabeça e os braços e pensamos que melhores dias virão. Têm que vir, pois claro.

A pensar morreu um burro – ditado popular.