quinta-feira, 5 de julho de 2018

LITERATURA | A Inglesa e o Marialva de Clara Macedo Cabral | CASA DAS LETRAS


Nas livrarias a 10 de Julho




Esta é a história verídica de uma inglesa apaixonada por cavalos que chegou a Portugal nos anos sessenta com o sonho de aprender a tourear. Determinada, aventureira e apoiada por famílias portuguesas importantes, Ginnie Dennistoun – que escolheria o nome artístico Virginia Montsol – não só venceu todas as barreiras como se tornou uma pequena celebridade no mundo fechado, elitista e masculino dos toiros, arrebatando o público com a sua elegância e beleza.

Na Chamusca do Ribatejo, onde passou a residir, Ginnie viveu em segredo um grande romance com o toureiro que fora seu mestre. Mas como se sentiria esta rapariga de vinte e poucos anos, alternando entre a Inglaterra dos Swinging Sixties, da emancipação da mulher, dos Beatles, da construção de uma sociedade mais igualitária, e o Portugal salazarista, pobre e marialva, onde as mulheres deviam ser obedientes e discretas e a sua relação com um homem mais velho era um escândalo?

segunda-feira, 2 de julho de 2018

LITERATURA | O DESAPARECIMENTO DE STÉPHANIE MAILER de Joël Dicker |

chega dia 3 de julho

Depois d’A VerdadeO Desaparecimento

Na noite de 30 de Julho de 1994 a pacata vila de Orphea, na costa leste dos Estados Unidos, assiste ao grande espectáculo de abertura do festival de teatro. Mas o presidente da Câmara está atrasado para a cerimónia… Ao mesmo tempo, Samuel Paladin percorre as ruas desertas da vila à procura da mulher. Só pára quando encontra o seu cadáver em frente à casa do presidente da câmara. Lá dentro, toda a família está morta.
A investigação é entregue a Jesse Rosenberg e Derek Scott, dois jovens polícias do estado de Nova Iorque. Ambiciosos e tenazes, conseguem cercar o assassino e são condecorados por isso.
Vinte anos mais tarde, na cerimónia de despedida de Rosenberg da Polícia, a jornalista Stephanie Mailer confronta-o com o inesperado: o assassino não é quem eles pensam, e a jornalista reclama ter informações-chave para encontrar o verdadeiro culpado.
Dias depois, Stephanie desaparece.
Assim começa este thriller colossal, de ritmo vertiginoso, entrelaçando tramas, personagens, surpresas e volte-faces, sacudindo o leitor e empurrando-o sem travão possível até ao inesperado e inesquecível desenlace.
O que aconteceu a Stephanie Mailer?
E, sobretudo, o que aconteceu realmente no Verão de 1994?
O thriller mais poderoso dos últimos anos, uma obra que não dá tréguas, tão sofisticada e viciante quanto A verdade sobre o caso Harry Quebert.


Sobre o autor:
Joël Dicker nasceu em Genève, Suíça, em 1985.
O Livro dos Baltimore é o terceiro romance do aclamado autor de A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert e Os Últimos Dias dos Nossos Pais, ambos publicados pela Alfaguara em Portugal. Com mais de 3 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, o seu segundo romance, A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert arrecadou, entre outros, o reconhecido Prémio da Academia Francesa, assim como o Prémio Goncourt des Lycéens e o prémio da revista Lire para melhor romance em língua francesa.
Descubra mais sobre o autor e sobre a sua obra em 
www.joeldicker.com

sábado, 30 de junho de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | Justiça - a informática do nosso descontentamento | ISABEL DE ALMEIDA

A área da justiça vem apresentando diversas soluções que passam pela crescente informatização de procedimentos, desmaterialização e criação de novas plataformas e aplicações informáticas cuja utilização se pretende ver alargada quer aos diversos agentes das justiça, mormente, Advogados, Magistrados, Funcionários Judiciais, Serviços de Registos e Notariado, e, noutros casos, ao dispor do cidadão comum.

É fácil enumerar algumas das vantagens da informática, nomeadamente: a maior rapidez dos procedimentos, a desnecessidade de deslocação física a serviços públicos, uma gestão mais racional dos recursos humanos e uma maior facilidade do acesso do cidadão à justiça nos seus diversos contactos com a mesma ( para mim, uma das alterações mais vantajosas e que costuma funcionar de forma regular, é a inquirição de testemunhas através de videoconferência, em sede de audiências de discussão e julgamento). Acrescente-se uma mais idealizada do que concretizada desmaterialização ( e digo idealizada, pois continuam a existir processos físicos, e muito bem a meu ver, e ai do incauto Advogado que deposite tamanha confiança na informática que não veja necessidade de imprimir em papel os comprovativos de actos praticados via citius - nomeadamente - de entrega de peças processuais).

Confesso que, pese embora seja dependente da informática, e não me visse agora a viver sem a dita, em diversos aspectos do quotidiano, em termos profissionais, enquanto advogada, sinto-me permanentemente à deriva, quase na linha que separa a inclusão da exclusão em termos de domínio do procedimentos técnicos, e sou a primeira a recordar com certo saudosismo o tempo em que, por exemplo, o telefax era uma peça de tecnologia de ponta (admito que ainda hoje, sempre que possível, uso telefax para alguns contactos formais/institucionais, por exemplo, se preciso de ter um comprovativo de envio após um contacto rápido e se desconheço o endereço electrónico de determinada instituição ou se o mesmo não está funcional ou se tenho previsão de que o mesmo não seja consultado frequentemente em tempo útil.

Dirão os mais críticos, e naturalmente mais jovens do que eu, mas porquê negar a revolução tecnológica? Porquê resistir à mudança se até se reconhece que a mesma tem vantagens?

Pois bem, porque considero que, de uma maneira geral, as plataformas informáticas da área da justiça são francamente frágeis e falíveis, no essencial (basta recordar o célebre "apagão" do citius há uns anos, que pôs a nu as suas vulnerabilidades mesmo em termos de segurança dos dados ali guardados). Além do mais, parece-me excessivo o nível de aptidão técnica em termos de informática que se exige aos profissionais do foro, e diz-me a experiência pessoal ou partilhada com colegas e amigos que é recorrente a dificuldade de utilização dos diversos sistemas/plataformas. 

Embora pessoalmente ainda não tenha tido oportunidade de utilizar a plataforma de Processos de Inventário que correm nos Cartórios Notariais (fala-se em nova mudança atento algum insucesso do novo sistema) sei de relatos absolutamente excruciantes de diversos colegas Advogados que relatam uma imensa dificuldade em submeter peças processuais neste sistema, e perante a dificuldade técnica, a natural falibilidade do homem e da máquina, digamos assim, ainda podem surgir problemas acrescidos perante alguma intransigência de entidades receptoras das peças, na clássica atitude de "Ser mais papista  do que o Papa".

Outra aplicação informática que entrou recentemente em vigor é o famoso "Signius" que permite a assinatura electrónica de peças processais a submeter junto do SITAF (Sistema de Informação dos Tribunais Administrativos e Fiscais), embora ainda não tenha utilizado tal aplicação (que espero ter conseguido instalar com sucesso no meu computador do escritório) já tive relatos de imensas dificuldades no procedimento de entrega electrónica de peças processuais por esta via, em especial no que diz respeito precisamente à fase da "assinatura electrónica" que é feita através do Signius, donde, constato com alguma tranquilidade que ainda terão de ser utilizados meios alternativos de peças processuais nesta jurisdição, onde confesso, que pela especificidade das matérias, pela extensão de alguns documentos e peças processuais (atenta a complexidade de muitas das questões suscitadas) me faz todo o sentido manter a entrega de processos na vertente física, mediante correio sob registo ou entrega pessoal na secretaria judicial competente (neste caso, contra a entrega de recibo carimbado comprovando a recepção) e pronto...podem chamar-me "jurássica" à vontade, que há muitos aspectos em que não abdico de ser "Old school"!

Interessante também é a experiência de funcionamento do Portal do Cidadão, com o qual sofri esta semana de forma directa, uma aventura informática com um desfecho infeliz, passo a resumir, tendo dado início ao processo de constituição de empresa on-line, e tendo aguardado entrega de documentos que careciam de assinatura autógrafa do requerente e posterior digitalização, eis que neste compasso de espera, o site em questão tem um "apagão" e fica indisponível por longas horas, em concreto quase um dia inteiro em horário útil. Contactei a linha de apoio, expus a questão ao helpdesk, diga-se em abono da verdade que fui atendida com simpatia e de forma prestável, mas a verdade é que um prazo de 24 horas para dar continuidade aos procedimentos necessários ficou perdido, assim como todo o trabalho até ali desenvolvido, pois por questões técnicas que se prendem com a parametrização, não há qualquer hipótese de recuperar este procedimento (ainda que comprovadamente as dificuldades técnicas e o impedimento de acesso ao site não decorresse de responsabilidade do utilizador, tendo sido reconhecida a avaria do site pelos serviços). Portanto, muito embora eu tenha feito um esforço para me modernizar, a verdade é que a ansiedade, a perda de tempo de trabalho, e o risco permanente de falha de um sistema que não me oferece confiança me faz considerar a utilização de formas tradicionais de realizar este tipo de tarefa!

Não percebo nada de informática, mas atenta a fragilidade e as dificuldades que todos nós, profissionais da área da justiça, somos unânimes em encontrar nos vários sistemas e aplicações, algo me leva a suspeitar que, neste rectângulo à beira mar plantado, em termos de meios informáticos de uso em massa, usando uma metáfora "a casa começa a ser construída pelo telhado", donde muito critico a imposição coerciva de uso de novas tecnologias em questões como o envio de peças processuais, se é pública a falibilidade dos sistemas!

Outra questão que sempre me coloco é o que sucede ao "lixo electrónico" que resulta destas funcionalidades, em termos de protecção de dados, em especial, agora que estamos na nova era do Regulamento Geral de Protecção de Dados?! (Ah, e por falar em RGPG, este Regulamento entrou em vigor sem que muitas entidades privadas e públicas estejam minimamente preparadas para cumprir os seus ditames mais basilares, e mais uma vez, temos "a casa a ser construída pelo telhado", resta-nos aguardar para saber se o sistema de fiscalização e punição com coimas avultadas fica exequível e disponível antes da implementação generalizada e eficaz das boas práticas deste regulamento).

E quão expostos estamos no "ciber espaço"?  Uma coisa é inegável:


“Big Brother is Watching You.” 

George Orwell,  In, "1984"


segunda-feira, 25 de junho de 2018

CRONICA | O plástico em Nós | VANESSA LOURENÇO



Pensei que nada seria mais relaxante do que um passeio de barco, naquele dia. O sol reinava, forte, num imenso céu azul, e nem uma nuvem mais atrevida se fazia notar no horizonte. Munida de protector solar e de um imenso chapéu de palha - que dificilmente teria usado noutras circunstâncias – apreciava o brilho da superficie calma das águas, e as pequenas ondulações causadas pela embarcação que embalava o meu passeio.

De repente, algo chamou a minha atenção e me fez endireitar na proa: umas poucas dezenas de metros adiante, na superficie da água, algo parecia mover-se ao sabor da corrente. O que seria? Curiosa, esperei que o barco se aproximasse. O que quer que fosse que estivesse ali, parecia tão depressa deslocado naquele cenário, como dissolver-se nele. Como se de repente, um intruso tivesse decidido munir-se de todas as sus capacidades de camuflagem, para se infiltrar num ambiente ao qual não pertencia.

Assim que fiquei próxima o suficiente, porém, mal tive tempo para inspeccionar o estranho corpo. Assim que me inclinei na borda do barco, ele submergiu. Como se algo vindo de baixo o tivesse subitamente agarrado e puxado para as profundezas.

Não tive tempo para pensar sequer no que estava a fazer: subitamente, estendi o braço para dentro de água, no último segundo em que me teria sido possivel agarrar o que quer que fosse que aquilo era, e precisei de todos os meus reflexos para que a superficie lisa e escorregadia não se me escapasse por entre os dedos. Havia realmente algo a puxar do outro lado, mas eu sentia que não podia deixar isso acontecer. Por fim, com o auxílio da outra mão, consegui erguer no ar o que agora conseguia ver que era um saco de plástico. E na outra extremidade do saco, pendurada pelo bico, uma pequena tartaruga marinha debatia-se vigorosamente, com as patas traseiras quase tocando a água. Sem largar o seu prémio, gritou por entre as mandíbulas cerradas:

- “Arga ixo!”

Quase larguei o saco quando a ouvi gritar comigo, mas consegui evitá-lo. Ela ainda não entendia o que tinha acabado de acontecer? Irritada, puxei-a para dentro do pequeno convés, onde se ficou a debater sem largar o saco. Respirei fundo, e disse-lhe:

- O que achas que é isso?

Ela olhou-me de lado, visivelmente zangada e desconfortável. Por fim, largou o saco e colocou sobre ele a carapaça, para ter a certeza que não lhe roubava o almoço. Respondeu:

- Eu vi esta água-viva primeiro, é minha!

Surprendida, percebi finalmente o que se estava a passar. Disse-lhe:

- É isso que pensas que isto é? Uma água-viva?

A tartaruga pareceu ficar confusa, mas não se deu logo por vencida:

- Claro que é uma água-viva, que outra coisa poderia ser?

Subitamente, senti pena dela. Na ânsia de se alimentar, poderia perfeitamente ter assinado a sua sentença de morte, se não nos tivéssemos cruzado. Respirei fundo e aproximei-me dela, o que fez com que se arrastasse ainda mais para cima do saco. Disse-lhe:

- Isso não é uma água-viva. Não vês que em vez de gelatinosa, é dura e escorregadia? Que é da mesma cor dentro de água, mas não possui tentáculos?

Ainda desconfiada, a pequena tartaruga olhou o saco que guardava debaixo de si. Uns momentos mais tarde, procurou os meus olhos e vi nos dela o terror de quem acaba de se aperceber que podia ter perdido a vida. Afastou-se desajeitadamente do saco pousado no convés, e disse:

- O-o que é isto?

Sorri com ternura, infelizmente sabia demasiado bem que por todo o mundo, todos os dias, milhões de animais perdiam a vida por ingerirem plástico, darem-no a comer às suas crias ou por ficarem irremediavelmente presos ao terrivel desperdício humano, que estava já um pouco por toda a parte. 
Respondi:

- Plástico. Um desperdício humano que a minha espécie tarda em perceber que não deve simplesmente largar por aí.

Ela olhou de mim para o saco, e do saco para mim de novo:

- Se não fosses tu... eu poderia ter morrido sufocada com isso!

Eu olhei-a, e senti a tristeza transbordar dos meus olhos directamente para o convés entre nós, sob a forma de gotas salgadas. Suspirei, e disse:

- Não. Se não fosse a negligência consentida da minha espécie para com a tua, nunca terias encontrado este saco.

Subitamente, ela pareceu crescer. Já não era uma jovem tartaruga assustada, mas um ser marinho majestoso, munido de um olhar profundo e solene. Apoiada nas barbatanas dianteiras, endireitou a cabeça e disse:

- Enquanto um de vós se importar, um de nós será salvo; enquanto um de vós não entregar o seu lixo ao mar, haverá esperança; enquanto um de vós partilhar com o mundo a importância de respeitar o ambiente, nós teremos voz.

Abri a boca para falar, mas ela não tinha terminado:

- Diz-lhes. A todos aqueles que lutam por nós, e por este planeta que é a nossa casa:

“A ti, que recolhes o plástico do chão mesmo quando não te pertence, evitando que alcance os esgotos, estamos gratos; a ti, que caminhas pela praia com um saco na mão, e evitas que as garrafas de plástico entrem no mar mesmo que pra isso tenhas que as carregar durante quilómetros, estamos gratos; a ti, que procuras educar os outros a respeitar-nos, mesmo quando escolhem não te ouvir, estamos gratos; a ti, que procuras resumir o uso do plástico ao essencial, estamos gratos; em ti, que respeitas as outras espécies como a ti mesmo, sentimos orgulho. A ti, que te desviaste do teu caminho para ajudar um animal em apuros, damos vivas.”

Interrompeu-se, apenas para suspirar e acrescentar:

-“A ti, que te importas... para ti, que nenhum gesto de boa vontade é pequeno demais... nós estamos a ver. Caminhamos contigo. Nós sabemos quem tu és. E contamos contigo.”

Vanessa Lourenço


domingo, 24 de junho de 2018

CRÓNICA | A Humanidade restaurada | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO


Há dias vi um programa de televisão extremamente interessante: falava-se do futuro do mundo em geral, de várias iniciativas que têm vindo a surgir em prol de uma vivência mais pura e sustentável, em que a pegada humana é reduzida para valores bem menores que os actuais, e na crescente mudança de mentalidades em relação aos comportamentos nefastos das últimas décadas.

A aposta nas energias renováveis está em alta e são já vários os dias em que o fornecimento de electricidade é assegurado a 100% pelo vento e pela água. Nós nem nos apercebemos que algo mudou, sentados nos nossos sofás em frente à televisão ou computador, ou noutra actividade qualquer que requeira a tão preciosa electricidade, mas mudou e para melhor: com a produção desta alternativa evita-se a emissão de milhões de toneladas de dióxido de carbono. E para aqueles não ligam – ainda - muito ao ambiente, isto faz com que se poupe milhões de euros na aquisição de licenças de emissão de poluentes – que todos sabemos quem é que no fim paga.

Estima-se que até 2040 a electricidade seja fornecida totalmente através das energias renováveis para todo o território nacional, o que aplaudo de pé.

Noutros aspectos igualmente importantes, vi que alguns povos desenvolveram técnicas artesanais para limpar os detritos dos rios. Limitaram-se a criar barreiras para impedir que o lixo vá parar aos oceanos quando os rios ali desaguam. Simples e eficaz.

Há, também, cada vez mais pessoas a captar água da chuva para regar as plantas e os jardins. Outra medida simples e que permite baixar a factura. Assim como o uso de painéis solares em prédios de habitação; são já vários os condomínios a optar pela instalação desta solução.

No Japão criaram um sistema de poupança de água nas casas de banho públicas, que consiste em reutilizar a água usada na lavagem das mãos para a descarga nas sanitas. Uma medida inteligente.

Gostaria de ver mais programas deste género informativo passarem nos canais nacionais com grande audiência e não só nos generalistas da televisão por cabo, que uns podem subscrever e outros não, pois é de extrema importância a consciencialização do maior número possível de pessoas para as reais problemáticas nestes sectores. Além disso, quando se apresentam as investigações e as soluções, quando os factos são demonstrados, uma vez e outra, há sempre algo que fica, por pouco que seja, e isso é preponderante para a tão necessária mudança.

Verifico que há dois grupos distintos que se estão a formar; um já está em formação há algum tempo e tem vindo a ganhar terreno: é o grupo dos desestabilizadores, dos egocêntricos, dos manipuladores, corruptos e com sede de poder, que vai estendendo os seus tentáculos como um polvo – podemos verificar a sua presença em praticamente todas as áreas, actualmente; o outro é precisamente o oposto, demonstra preocupação e empatia com o planeta e todas as formas de vida, encara os problemas de frente e tenta solucioná-los de formas não invasivas, com respeito e ponderação - talvez porque as pessoas estão saturadas de tanta vivência podre e decidiram que já era tempo de tomar as rédeas do próprio destino.

Só um poderá sair vitorioso. Os dois tipos não poderão coexistir pacificamente. É extremamente importante que o segundo cresça e crie raízes, de modo a podermos fazer, e viver, um mundo melhor.




LITERATURA | O Homem das Cavernas de Jorn Lier Horst |DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 26 de Junho


Viggo Hansen morreu sentado em frente à televisão e aí permaneceu sem que ninguém tenha dado conta.

Ter-se-á a sociedade norueguesa tornado tão grosseira que já ninguém se importa? A filha de Wisting, a jornalista Line, importa-se, e vai investigar o sucedido.

Enquanto isso, Wisting tem em mãos um caso que começa a adquirir proporções inimagináveis. A sua suspeita de que um assassino em série norte-americano tem estado ativo na Noruega confirma-se… mas há quanto tempo, e por quantos países passou até aí chegar? Quando o FBI e a Interpol finalmente se envolvem no caso, as apostas aumentam e as tensões acumulam-se, até à última corrida mortal contra o tempo, com a vida de Line em jogo.

sábado, 23 de junho de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | "Tudo é absurdo" | ISABEL DE ALMEIDA


Iniciei estes meus escritos no final de 2017, vaticinando algum desencanto, e imbuída de alguma angústia e desencanto que sempre me acompanham na recta final de cada ano, o que sucede desde em resultado de perdas familiares que, para sempre, enviesaram o meu olhar sobre esse momento do ano, em que, naturalmente, se ponderam transições, mudanças e em que perdura no inconsciente, ainda assim e numa assumida ambiguidade, uma secreta esperança de que o novo ano possa trazer algum raio de esperança!

Porém, devo confessar que todo o meu pessimismo de fim de ano, cuja exposição de motivos acima de justifica, jamais conseguiria antecipar a intensidade  que arrisco a classificar de dramática, os abalos à normalidade e um certo surrealismo que vêm pautando 2018 em vários contextos profissionais e pessoais com os quais me encontro directa ou indirectamente relacionada. 

Por diversos momentos venho este ano sentido que a realidade é bem capaz de superar a ficção, que tudo o que está numa aparente acalmia  e estabilidade pode, a todo o momento, sofrer um forte abalo que poderá anunciar verdadeiros cataclismos, e pergunto-me como tal é possível de suceder em Portugal, no meu Portugal louvado e cantado por poetas de excelência como Pessoa e Camões, que resumem ambos, a meu ver, a essência daquilo que de bom tem a Portugalidade!

Mas depois, quando as emoções fortes e assustadoras passam por nós intensas mas passageiras, quando nos encontramos capazes de racionalizar, de analisar as coisas mais friamente, após um trabalho de assimilação mental, ocorre-nos facilmente recordar que, à semelhança daquele amigo nosso mais realista, frontal e desassombrado, também nós tivemos um inigualável escritor que agora muito se divertiria a exorcizar os fantasmas da nossa corrente dita "civilização" ou sociedade, na sua prosa implacavelmente irónica! Muito precisávamos nós de um novo Eça de Queirós que, tal como o único que tivemos, transpusesse em papel para as gerações vindouras (admitindo que estas virão a dedicar-se à leitura...) as pequenas e grandes infâmias com que somos brindados no dia a dia!

Apenas para sintetizar, e porque estamos a entrar na célebre silly season (aquela estação em que, para dar descanso à nossa análise do mundo, e às células cinzentas, como diria Hercule Poirot, fingimos que nada acontece, que o mundo pára para nos deixar descansar, e em que vamos "a banhos" - até esta parte está complicada com alterações climáticas que nos apresentam um clima totalmente descaracterizado e "bipolar" - para recarregar baterias e, no regresso, emergirmos para enfrentar novamente todos os problemas, que está lá na mesma, à nossa espera, de garras afiadas).

Procurarei apelar a todo o meu espírito de síntese (algo que, acompanhando a ambiguidade da realidade circundante, por vezes consigo activar ou não) para fundamentar o que hoje apelidaria mais de desabafos aleatórios do que reflexões.

Ora, começando por aquele que vem sendo o tema mais abordado nos meus artigos (e cuja insistência deriva também da minha necessidade de exorcizar pela escrita o que me é incómodo, acalentando a esperança de promover, sempre que possível, uma reflexão junto dos leitores), o estado actual da Advocacia Nacional continua a ser preocupante, embora nem toda a comunicação social considere o assunto de interesse público e do público, a verdade nua e crua é que não exagero ao frisar que se vivem momentos de crise que se perpetuam mas que começam a atingir proporções que revelam nitidamente uma evolução da crise instalada!

Se é certo que no início do ano um elevado número de Advogados saiu à rua numa manifestação silenciosa em Lisboa (no dia 26 de Janeiro de 2018) mostrando o seu descontentamento com a fragilidade das condições em que exercem, com a asfixia financeira para muitos deles decorrente das elevadas despesas para o exercício profissional, mostrando o seu descontentamento perante um sistema previdencial que nada tem de "apoiante", "transparente", "suportável financeiramente" pela grande maioria dos que exercem em prática individual, que nada tem de humano perante a doença e a incapacidade para o trabalho e a redução de proventos profissionais, se é certo que persistem e agudizam-se problemas como a indefinição e a perda de competências profissionais dos Advogados,  disparidades de critérios na fixação de honorários no sistema de acesso ao direito e aos tribunais, o peso excessivo das custas judiciais, plataformas informáticas com funcionamento aquém das expectativas e necessidades dos seus utilizadores (basta recordar as dificuldades da plataforma dos Inventários, ou mais recentemente, as dificuldades de utilização do SITAF - o sistema informático de entrega electrónica de peças processuais em sede de tribunais administrativos e fiscais) ainda assim, até Maio poderíamos apontar como certo ou previsível que a crise estava instalada mas era mais sentida nas "bases da advocacia" e não no "topo", aliás, a postura institucional  foi inicialmente de alguma negação ou fuga para a frente perante as críticas das bases!

Pois bem, na passada semana decorreu o VIII Congresso dos Advogados Portugueses, aquele que é o Órgão Supremo da estrutura hierárquica da Ordem dos Advogados Portugueses, e pelo meio de um clima que diríamos de desentendimento, desunião, alguma tensão, assiste-se finalmente a uma alarmante, ou nem tanto assim, porque lógica, instabilidade no "topo". Conforme decorre de notícia publicada hoje na Edição em papel do Jornal de Notícias, assiste-se desde Maio a três demissões em Órgãos de topo da Ordem dos Advogados (ressalva-se que ainda haverá que aguardar por mais detalhes sobre as decisões e fundamentos subjacentes a estas demissões). Ao mesmo tempo, as vozes críticas aumentam, deixam também de estar apenas concentradas nas "bases" (como sucedia no início do ano) e começam a ouvir-se no "topo", num exercício claro de expressão de que não pode continuar a negar-se o óbvio, algo está mal, o futuro pode estar comprometido para muitos, é alarmante ver este clima de tensão numa instituição quase centenária que sempre primou por representar a democracia e que simboliza a defesa dos mais fracos. Não sei, nem sequer me atrevo a especular, como terminará esta crise, mas sei que esta é agora muitíssimo mais clara, muitíssimo mais pública e obviamente visível! 

Noutro contexto, o país continua focado, de uma maneira geral, na Crise de liderança do Sporting Clube de Portugal, e aqui temos uma instituição nobre, centenária, que vive um dos seus momentos mais difíceis, com episódios que incluem todos os ingredientes de uma obra de ficção: jogos de poder, política, alta finança, lutas judiciais que roçam o ridículo, violência, circo mediático e pessoas que colocam os seus interesses pessoais à frente dos interesses da instituição que lhes caberia dignamente representar!

Os combustíveis sobem de preço constantemente, mas durante um mês nada disso importa, porque o Mundial de Futebol está aí, a Selecção Portuguesa está presente e aqui temos o futebol como um claro ópio do povo, paramos o país para ver jogos de futebol e entramos novamente em histeria colectiva - alguns de nós!

Na educação os professores protestam legitimamente por Direitos que não estão a ser reconhecidos, mas muito receio o alcance e o impacto dos danos colaterais que tal protesto possa causar a muitos jovens alunos, caso o impasse se mantenha, caso não exista da parte dos docentes e do Ministério da Educação a necessária capacidade de negociação, é bem possível que muitos alunos Portugueses vejam perder-se os três anos de intenso trabalho e investimento feito nos três anos do Ensino Secundário, com nítido prejuízo nas suas  classificações finais de acesso ao Ensino Superior!

Tudo isto sucede neste momento em Portugal, e o próprio clima, não querendo desapontar, vai pregando partidas, oscilando entre ondas de frio, ondas de calor e destrutivos fenómenos meteorológicos de características tropicais!

Perante o estado desta Nação, apenas me ocorre sintetizar o contexto acima descrito numa lapidar frase literária:

"Tudo é absurdo."

Fernando Pessoa, In "O Livro do Desassossego"