sábado, 7 de julho de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | Violência doméstica - área de "especialização" na advocacia? | ISABEL DE ALMEIDA

É inegável a necessidade de uma evolução de mentalidades que seja propícia a proporcionar a todas as vítimas do crime de violência doméstica o necessário apoio e ajuda, não apenas em termos jurídicos, mas num modelo multidisciplinar, que envolva também técnicos de acção social, psicólogos, sociólogos que ajudem a perceber os fenómenos subjacentes aos contextos sociais variados onde surge esta temática, apenas para referir de modo abreviado um possível modelo de abordagem interventiva neste âmbito deveras sensível.

O crime de violência doméstica mostra-se tipificado no artigo 152º do Código Penal Português, compreendendo a prática reiterada ou não de maus tratos físicos ou psíquicos, nomeadamente, castigos corporais, privações de liberdade e ofensas sexuais. Este tipo de crime tem, naturalmente, como outros, merecido uma crescente evolução no que diz respeito à tutela penal dos interesses das vítmas, desde logo, tornou-se um crime de natureza pública (não carecendo de queixa). Cabe destacar que, mais recentemente, a Lei nº 24/2017, de 24/05 veio promover diversas actualizações ao regime jurídico aplicável à prevenção da violência doméstica, à protecção e à assistência das suas vítimas, alterando a redacção inicial da Lei nº 112/2009, de 16/09.

Ora, na passada sexta-feira dia 6 de Julho de 2018 veio a público um Protocolo de Cooperação formalizado entre a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género e a Ordem dos Advogados Portugueses, no âmbito do qual fica prevista a criação de uma área adicional de intervenção no Sistema de Acesso ao Direito e aos Tribunais designada de "Violência Doméstica/igualdade de género", que deverá ser considerada nas próximas inscrições de Advogados neste sistema, e que contemplará a criação de uma Lista Nacional de Advogados inscritos naquela área de intervenção. Ademais, decorre do teor do Protocolo supra aludido que será promovida formação aos advogados que optem por tal área de intervenção em sede de Sistema de Acesso ao Direito e aos Tribunais (SADT), depreendendo-se do teor do protocolo que tal formação possa ser incumbência quer da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, quer da Ordem dos Advogados, mas não ficando claro em que moldes decorrerão tais formações.

Nada a opôr, obviamente, a todas as medidas que visem agilizar e melhorar o apoio prestado às vítimas de violência doméstica, nomeadamente em sede de apoio jurídico, mas deve referir que me suscitou algumas dúvidas a leitura do Protocolo de Cooperação, principalmente quando se alude à questão da formação (aguardam-se desenvolvimentos sobre os moldes em que tal formação possa ser acedida pelos advogados, e confesso-me muitíssimo curiosa, nomeadamente, espero que a mesma seja gratuita!), por outro lado, aprofundando mais a questão, não me faz sentido criar mais uma cisão ou categorização de advogados por área de intervenção, na medida em que, a meu ver, qualquer advogado que escolha intervir em direito penal/criminal estará ou estaria automaticamente elegível para patrocinar um processo de violência doméstica, refiro-me em concreto ao contexto do Sistema de Acesso ao Direito e aos Tribunais.

Destarte, embora encare a formação, genericamente considerada, enquanto uma inerência e incumbência do exercício da advocacia, pois que volto a frisar que somos todos "especialistas em generalidades" (com excepção ao processo de obtenção do título de Advogado Especialista, que se encontra regulamentada Regulamento Geral das Especialidades, e que, entre outras áreas, inclui a especialização em Direito Criminal), numa reflexão mais profunda, não me parece muito lógico considerar uma área à parte, dentro do Direito Penal Português, um tipo legal de crime, como aquele que estamos a considerar quando falamos de Violência Doméstica!

Em bom rigor, o Direito Penal é um sistema, "um todo", que engloba princípios gerais, e a parte especial constituída por cada um dos crimes tipificados na nossa Lei Penal, entre os quais se inclui o crime de Violência Doméstica!

Cada caso é um caso, e certamente por questões pessoais, nomeadamente objecção de consciência, opinião pessoal ou particular susceptibilidade ou sensibilidade perante um dado ilícito criminal, admito que qualquer advogado possa legitimamente não se sentir confortável, e logo não técnica e deontologicamente  apto a exercer patrocínio num processo em que esteja em causa este ou qualquer outro tipo legal de crime, mas, ao invés, de um modo geral, entendo que qualquer advogado que quer no âmbito do SADT, quer a título de Mandato, se sinta capacitado para litigar em sede de Processo Penal está perfeitamente apto para intervir num processo por crime de violência doméstica, ou num outro tipo de ilícito, como homicídio, furto, roubo etc...

Espero sinceramente que este protocolo, quando alude a formação, não pretenda diferenciar advogados no sentido de considerar que existe uma carência de formação/aptidão para os colegas que integram o SADT, pois se assim for, as boas intenções (de socorrer vítimas de um crime dos mais nefastos e de maior repercussão social) ironicamente acabam por servir de pretexto para começar a pôr em prática uma ideia que veio a lume no VIII Congresso dos Advogados Portugueses, que se prende com formação obrigatória para os causídicos que integrem o SADT e que não foi aprovada pelo Congresso...

Tenho sempre dificuldade em acreditar em coincidências, e os últimos tempos vivenciados no seio da advocacia nacional, conturbados, estranhos e de viragem (espero que, a final, para melhor, embora  o caminho nem sempre se mostre fácil) têm-me mostrado que não há coincidências, mas vejo-me constantemente assaltada por muitas dúvidas, apenas com esta certeza de que não há coincidências!

Só posso esperar e desejar que a exequibilidade  desta cooperação entre entidades não venha a revelar-se criadora de novas cisões entre advogados!

Haverá sempre na minha mente uma pitada de dúvida metódica, certamente um vestígio dos tempos em que estudei René Descartes, as dúvidas são sempre muitas, e são poucas as certezas.

"Daria tudo o que sei pela metade do que ignoro."

René Descartes

quinta-feira, 5 de julho de 2018

LITERATURA | A Inglesa e o Marialva de Clara Macedo Cabral | CASA DAS LETRAS


Nas livrarias a 10 de Julho




Esta é a história verídica de uma inglesa apaixonada por cavalos que chegou a Portugal nos anos sessenta com o sonho de aprender a tourear. Determinada, aventureira e apoiada por famílias portuguesas importantes, Ginnie Dennistoun – que escolheria o nome artístico Virginia Montsol – não só venceu todas as barreiras como se tornou uma pequena celebridade no mundo fechado, elitista e masculino dos toiros, arrebatando o público com a sua elegância e beleza.

Na Chamusca do Ribatejo, onde passou a residir, Ginnie viveu em segredo um grande romance com o toureiro que fora seu mestre. Mas como se sentiria esta rapariga de vinte e poucos anos, alternando entre a Inglaterra dos Swinging Sixties, da emancipação da mulher, dos Beatles, da construção de uma sociedade mais igualitária, e o Portugal salazarista, pobre e marialva, onde as mulheres deviam ser obedientes e discretas e a sua relação com um homem mais velho era um escândalo?

segunda-feira, 2 de julho de 2018

LITERATURA | O DESAPARECIMENTO DE STÉPHANIE MAILER de Joël Dicker |

chega dia 3 de julho

Depois d’A VerdadeO Desaparecimento

Na noite de 30 de Julho de 1994 a pacata vila de Orphea, na costa leste dos Estados Unidos, assiste ao grande espectáculo de abertura do festival de teatro. Mas o presidente da Câmara está atrasado para a cerimónia… Ao mesmo tempo, Samuel Paladin percorre as ruas desertas da vila à procura da mulher. Só pára quando encontra o seu cadáver em frente à casa do presidente da câmara. Lá dentro, toda a família está morta.
A investigação é entregue a Jesse Rosenberg e Derek Scott, dois jovens polícias do estado de Nova Iorque. Ambiciosos e tenazes, conseguem cercar o assassino e são condecorados por isso.
Vinte anos mais tarde, na cerimónia de despedida de Rosenberg da Polícia, a jornalista Stephanie Mailer confronta-o com o inesperado: o assassino não é quem eles pensam, e a jornalista reclama ter informações-chave para encontrar o verdadeiro culpado.
Dias depois, Stephanie desaparece.
Assim começa este thriller colossal, de ritmo vertiginoso, entrelaçando tramas, personagens, surpresas e volte-faces, sacudindo o leitor e empurrando-o sem travão possível até ao inesperado e inesquecível desenlace.
O que aconteceu a Stephanie Mailer?
E, sobretudo, o que aconteceu realmente no Verão de 1994?
O thriller mais poderoso dos últimos anos, uma obra que não dá tréguas, tão sofisticada e viciante quanto A verdade sobre o caso Harry Quebert.


Sobre o autor:
Joël Dicker nasceu em Genève, Suíça, em 1985.
O Livro dos Baltimore é o terceiro romance do aclamado autor de A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert e Os Últimos Dias dos Nossos Pais, ambos publicados pela Alfaguara em Portugal. Com mais de 3 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, o seu segundo romance, A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert arrecadou, entre outros, o reconhecido Prémio da Academia Francesa, assim como o Prémio Goncourt des Lycéens e o prémio da revista Lire para melhor romance em língua francesa.
Descubra mais sobre o autor e sobre a sua obra em 
www.joeldicker.com

sábado, 30 de junho de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | Justiça - a informática do nosso descontentamento | ISABEL DE ALMEIDA

A área da justiça vem apresentando diversas soluções que passam pela crescente informatização de procedimentos, desmaterialização e criação de novas plataformas e aplicações informáticas cuja utilização se pretende ver alargada quer aos diversos agentes das justiça, mormente, Advogados, Magistrados, Funcionários Judiciais, Serviços de Registos e Notariado, e, noutros casos, ao dispor do cidadão comum.

É fácil enumerar algumas das vantagens da informática, nomeadamente: a maior rapidez dos procedimentos, a desnecessidade de deslocação física a serviços públicos, uma gestão mais racional dos recursos humanos e uma maior facilidade do acesso do cidadão à justiça nos seus diversos contactos com a mesma ( para mim, uma das alterações mais vantajosas e que costuma funcionar de forma regular, é a inquirição de testemunhas através de videoconferência, em sede de audiências de discussão e julgamento). Acrescente-se uma mais idealizada do que concretizada desmaterialização ( e digo idealizada, pois continuam a existir processos físicos, e muito bem a meu ver, e ai do incauto Advogado que deposite tamanha confiança na informática que não veja necessidade de imprimir em papel os comprovativos de actos praticados via citius - nomeadamente - de entrega de peças processuais).

Confesso que, pese embora seja dependente da informática, e não me visse agora a viver sem a dita, em diversos aspectos do quotidiano, em termos profissionais, enquanto advogada, sinto-me permanentemente à deriva, quase na linha que separa a inclusão da exclusão em termos de domínio do procedimentos técnicos, e sou a primeira a recordar com certo saudosismo o tempo em que, por exemplo, o telefax era uma peça de tecnologia de ponta (admito que ainda hoje, sempre que possível, uso telefax para alguns contactos formais/institucionais, por exemplo, se preciso de ter um comprovativo de envio após um contacto rápido e se desconheço o endereço electrónico de determinada instituição ou se o mesmo não está funcional ou se tenho previsão de que o mesmo não seja consultado frequentemente em tempo útil.

Dirão os mais críticos, e naturalmente mais jovens do que eu, mas porquê negar a revolução tecnológica? Porquê resistir à mudança se até se reconhece que a mesma tem vantagens?

Pois bem, porque considero que, de uma maneira geral, as plataformas informáticas da área da justiça são francamente frágeis e falíveis, no essencial (basta recordar o célebre "apagão" do citius há uns anos, que pôs a nu as suas vulnerabilidades mesmo em termos de segurança dos dados ali guardados). Além do mais, parece-me excessivo o nível de aptidão técnica em termos de informática que se exige aos profissionais do foro, e diz-me a experiência pessoal ou partilhada com colegas e amigos que é recorrente a dificuldade de utilização dos diversos sistemas/plataformas. 

Embora pessoalmente ainda não tenha tido oportunidade de utilizar a plataforma de Processos de Inventário que correm nos Cartórios Notariais (fala-se em nova mudança atento algum insucesso do novo sistema) sei de relatos absolutamente excruciantes de diversos colegas Advogados que relatam uma imensa dificuldade em submeter peças processuais neste sistema, e perante a dificuldade técnica, a natural falibilidade do homem e da máquina, digamos assim, ainda podem surgir problemas acrescidos perante alguma intransigência de entidades receptoras das peças, na clássica atitude de "Ser mais papista  do que o Papa".

Outra aplicação informática que entrou recentemente em vigor é o famoso "Signius" que permite a assinatura electrónica de peças processais a submeter junto do SITAF (Sistema de Informação dos Tribunais Administrativos e Fiscais), embora ainda não tenha utilizado tal aplicação (que espero ter conseguido instalar com sucesso no meu computador do escritório) já tive relatos de imensas dificuldades no procedimento de entrega electrónica de peças processuais por esta via, em especial no que diz respeito precisamente à fase da "assinatura electrónica" que é feita através do Signius, donde, constato com alguma tranquilidade que ainda terão de ser utilizados meios alternativos de peças processuais nesta jurisdição, onde confesso, que pela especificidade das matérias, pela extensão de alguns documentos e peças processuais (atenta a complexidade de muitas das questões suscitadas) me faz todo o sentido manter a entrega de processos na vertente física, mediante correio sob registo ou entrega pessoal na secretaria judicial competente (neste caso, contra a entrega de recibo carimbado comprovando a recepção) e pronto...podem chamar-me "jurássica" à vontade, que há muitos aspectos em que não abdico de ser "Old school"!

Interessante também é a experiência de funcionamento do Portal do Cidadão, com o qual sofri esta semana de forma directa, uma aventura informática com um desfecho infeliz, passo a resumir, tendo dado início ao processo de constituição de empresa on-line, e tendo aguardado entrega de documentos que careciam de assinatura autógrafa do requerente e posterior digitalização, eis que neste compasso de espera, o site em questão tem um "apagão" e fica indisponível por longas horas, em concreto quase um dia inteiro em horário útil. Contactei a linha de apoio, expus a questão ao helpdesk, diga-se em abono da verdade que fui atendida com simpatia e de forma prestável, mas a verdade é que um prazo de 24 horas para dar continuidade aos procedimentos necessários ficou perdido, assim como todo o trabalho até ali desenvolvido, pois por questões técnicas que se prendem com a parametrização, não há qualquer hipótese de recuperar este procedimento (ainda que comprovadamente as dificuldades técnicas e o impedimento de acesso ao site não decorresse de responsabilidade do utilizador, tendo sido reconhecida a avaria do site pelos serviços). Portanto, muito embora eu tenha feito um esforço para me modernizar, a verdade é que a ansiedade, a perda de tempo de trabalho, e o risco permanente de falha de um sistema que não me oferece confiança me faz considerar a utilização de formas tradicionais de realizar este tipo de tarefa!

Não percebo nada de informática, mas atenta a fragilidade e as dificuldades que todos nós, profissionais da área da justiça, somos unânimes em encontrar nos vários sistemas e aplicações, algo me leva a suspeitar que, neste rectângulo à beira mar plantado, em termos de meios informáticos de uso em massa, usando uma metáfora "a casa começa a ser construída pelo telhado", donde muito critico a imposição coerciva de uso de novas tecnologias em questões como o envio de peças processuais, se é pública a falibilidade dos sistemas!

Outra questão que sempre me coloco é o que sucede ao "lixo electrónico" que resulta destas funcionalidades, em termos de protecção de dados, em especial, agora que estamos na nova era do Regulamento Geral de Protecção de Dados?! (Ah, e por falar em RGPG, este Regulamento entrou em vigor sem que muitas entidades privadas e públicas estejam minimamente preparadas para cumprir os seus ditames mais basilares, e mais uma vez, temos "a casa a ser construída pelo telhado", resta-nos aguardar para saber se o sistema de fiscalização e punição com coimas avultadas fica exequível e disponível antes da implementação generalizada e eficaz das boas práticas deste regulamento).

E quão expostos estamos no "ciber espaço"?  Uma coisa é inegável:


“Big Brother is Watching You.” 

George Orwell,  In, "1984"


segunda-feira, 25 de junho de 2018

CRONICA | O plástico em Nós | VANESSA LOURENÇO



Pensei que nada seria mais relaxante do que um passeio de barco, naquele dia. O sol reinava, forte, num imenso céu azul, e nem uma nuvem mais atrevida se fazia notar no horizonte. Munida de protector solar e de um imenso chapéu de palha - que dificilmente teria usado noutras circunstâncias – apreciava o brilho da superficie calma das águas, e as pequenas ondulações causadas pela embarcação que embalava o meu passeio.

De repente, algo chamou a minha atenção e me fez endireitar na proa: umas poucas dezenas de metros adiante, na superficie da água, algo parecia mover-se ao sabor da corrente. O que seria? Curiosa, esperei que o barco se aproximasse. O que quer que fosse que estivesse ali, parecia tão depressa deslocado naquele cenário, como dissolver-se nele. Como se de repente, um intruso tivesse decidido munir-se de todas as sus capacidades de camuflagem, para se infiltrar num ambiente ao qual não pertencia.

Assim que fiquei próxima o suficiente, porém, mal tive tempo para inspeccionar o estranho corpo. Assim que me inclinei na borda do barco, ele submergiu. Como se algo vindo de baixo o tivesse subitamente agarrado e puxado para as profundezas.

Não tive tempo para pensar sequer no que estava a fazer: subitamente, estendi o braço para dentro de água, no último segundo em que me teria sido possivel agarrar o que quer que fosse que aquilo era, e precisei de todos os meus reflexos para que a superficie lisa e escorregadia não se me escapasse por entre os dedos. Havia realmente algo a puxar do outro lado, mas eu sentia que não podia deixar isso acontecer. Por fim, com o auxílio da outra mão, consegui erguer no ar o que agora conseguia ver que era um saco de plástico. E na outra extremidade do saco, pendurada pelo bico, uma pequena tartaruga marinha debatia-se vigorosamente, com as patas traseiras quase tocando a água. Sem largar o seu prémio, gritou por entre as mandíbulas cerradas:

- “Arga ixo!”

Quase larguei o saco quando a ouvi gritar comigo, mas consegui evitá-lo. Ela ainda não entendia o que tinha acabado de acontecer? Irritada, puxei-a para dentro do pequeno convés, onde se ficou a debater sem largar o saco. Respirei fundo, e disse-lhe:

- O que achas que é isso?

Ela olhou-me de lado, visivelmente zangada e desconfortável. Por fim, largou o saco e colocou sobre ele a carapaça, para ter a certeza que não lhe roubava o almoço. Respondeu:

- Eu vi esta água-viva primeiro, é minha!

Surprendida, percebi finalmente o que se estava a passar. Disse-lhe:

- É isso que pensas que isto é? Uma água-viva?

A tartaruga pareceu ficar confusa, mas não se deu logo por vencida:

- Claro que é uma água-viva, que outra coisa poderia ser?

Subitamente, senti pena dela. Na ânsia de se alimentar, poderia perfeitamente ter assinado a sua sentença de morte, se não nos tivéssemos cruzado. Respirei fundo e aproximei-me dela, o que fez com que se arrastasse ainda mais para cima do saco. Disse-lhe:

- Isso não é uma água-viva. Não vês que em vez de gelatinosa, é dura e escorregadia? Que é da mesma cor dentro de água, mas não possui tentáculos?

Ainda desconfiada, a pequena tartaruga olhou o saco que guardava debaixo de si. Uns momentos mais tarde, procurou os meus olhos e vi nos dela o terror de quem acaba de se aperceber que podia ter perdido a vida. Afastou-se desajeitadamente do saco pousado no convés, e disse:

- O-o que é isto?

Sorri com ternura, infelizmente sabia demasiado bem que por todo o mundo, todos os dias, milhões de animais perdiam a vida por ingerirem plástico, darem-no a comer às suas crias ou por ficarem irremediavelmente presos ao terrivel desperdício humano, que estava já um pouco por toda a parte. 
Respondi:

- Plástico. Um desperdício humano que a minha espécie tarda em perceber que não deve simplesmente largar por aí.

Ela olhou de mim para o saco, e do saco para mim de novo:

- Se não fosses tu... eu poderia ter morrido sufocada com isso!

Eu olhei-a, e senti a tristeza transbordar dos meus olhos directamente para o convés entre nós, sob a forma de gotas salgadas. Suspirei, e disse:

- Não. Se não fosse a negligência consentida da minha espécie para com a tua, nunca terias encontrado este saco.

Subitamente, ela pareceu crescer. Já não era uma jovem tartaruga assustada, mas um ser marinho majestoso, munido de um olhar profundo e solene. Apoiada nas barbatanas dianteiras, endireitou a cabeça e disse:

- Enquanto um de vós se importar, um de nós será salvo; enquanto um de vós não entregar o seu lixo ao mar, haverá esperança; enquanto um de vós partilhar com o mundo a importância de respeitar o ambiente, nós teremos voz.

Abri a boca para falar, mas ela não tinha terminado:

- Diz-lhes. A todos aqueles que lutam por nós, e por este planeta que é a nossa casa:

“A ti, que recolhes o plástico do chão mesmo quando não te pertence, evitando que alcance os esgotos, estamos gratos; a ti, que caminhas pela praia com um saco na mão, e evitas que as garrafas de plástico entrem no mar mesmo que pra isso tenhas que as carregar durante quilómetros, estamos gratos; a ti, que procuras educar os outros a respeitar-nos, mesmo quando escolhem não te ouvir, estamos gratos; a ti, que procuras resumir o uso do plástico ao essencial, estamos gratos; em ti, que respeitas as outras espécies como a ti mesmo, sentimos orgulho. A ti, que te desviaste do teu caminho para ajudar um animal em apuros, damos vivas.”

Interrompeu-se, apenas para suspirar e acrescentar:

-“A ti, que te importas... para ti, que nenhum gesto de boa vontade é pequeno demais... nós estamos a ver. Caminhamos contigo. Nós sabemos quem tu és. E contamos contigo.”

Vanessa Lourenço


domingo, 24 de junho de 2018

CRÓNICA | A Humanidade restaurada | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO


Há dias vi um programa de televisão extremamente interessante: falava-se do futuro do mundo em geral, de várias iniciativas que têm vindo a surgir em prol de uma vivência mais pura e sustentável, em que a pegada humana é reduzida para valores bem menores que os actuais, e na crescente mudança de mentalidades em relação aos comportamentos nefastos das últimas décadas.

A aposta nas energias renováveis está em alta e são já vários os dias em que o fornecimento de electricidade é assegurado a 100% pelo vento e pela água. Nós nem nos apercebemos que algo mudou, sentados nos nossos sofás em frente à televisão ou computador, ou noutra actividade qualquer que requeira a tão preciosa electricidade, mas mudou e para melhor: com a produção desta alternativa evita-se a emissão de milhões de toneladas de dióxido de carbono. E para aqueles não ligam – ainda - muito ao ambiente, isto faz com que se poupe milhões de euros na aquisição de licenças de emissão de poluentes – que todos sabemos quem é que no fim paga.

Estima-se que até 2040 a electricidade seja fornecida totalmente através das energias renováveis para todo o território nacional, o que aplaudo de pé.

Noutros aspectos igualmente importantes, vi que alguns povos desenvolveram técnicas artesanais para limpar os detritos dos rios. Limitaram-se a criar barreiras para impedir que o lixo vá parar aos oceanos quando os rios ali desaguam. Simples e eficaz.

Há, também, cada vez mais pessoas a captar água da chuva para regar as plantas e os jardins. Outra medida simples e que permite baixar a factura. Assim como o uso de painéis solares em prédios de habitação; são já vários os condomínios a optar pela instalação desta solução.

No Japão criaram um sistema de poupança de água nas casas de banho públicas, que consiste em reutilizar a água usada na lavagem das mãos para a descarga nas sanitas. Uma medida inteligente.

Gostaria de ver mais programas deste género informativo passarem nos canais nacionais com grande audiência e não só nos generalistas da televisão por cabo, que uns podem subscrever e outros não, pois é de extrema importância a consciencialização do maior número possível de pessoas para as reais problemáticas nestes sectores. Além disso, quando se apresentam as investigações e as soluções, quando os factos são demonstrados, uma vez e outra, há sempre algo que fica, por pouco que seja, e isso é preponderante para a tão necessária mudança.

Verifico que há dois grupos distintos que se estão a formar; um já está em formação há algum tempo e tem vindo a ganhar terreno: é o grupo dos desestabilizadores, dos egocêntricos, dos manipuladores, corruptos e com sede de poder, que vai estendendo os seus tentáculos como um polvo – podemos verificar a sua presença em praticamente todas as áreas, actualmente; o outro é precisamente o oposto, demonstra preocupação e empatia com o planeta e todas as formas de vida, encara os problemas de frente e tenta solucioná-los de formas não invasivas, com respeito e ponderação - talvez porque as pessoas estão saturadas de tanta vivência podre e decidiram que já era tempo de tomar as rédeas do próprio destino.

Só um poderá sair vitorioso. Os dois tipos não poderão coexistir pacificamente. É extremamente importante que o segundo cresça e crie raízes, de modo a podermos fazer, e viver, um mundo melhor.




LITERATURA | O Homem das Cavernas de Jorn Lier Horst |DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 26 de Junho


Viggo Hansen morreu sentado em frente à televisão e aí permaneceu sem que ninguém tenha dado conta.

Ter-se-á a sociedade norueguesa tornado tão grosseira que já ninguém se importa? A filha de Wisting, a jornalista Line, importa-se, e vai investigar o sucedido.

Enquanto isso, Wisting tem em mãos um caso que começa a adquirir proporções inimagináveis. A sua suspeita de que um assassino em série norte-americano tem estado ativo na Noruega confirma-se… mas há quanto tempo, e por quantos países passou até aí chegar? Quando o FBI e a Interpol finalmente se envolvem no caso, as apostas aumentam e as tensões acumulam-se, até à última corrida mortal contra o tempo, com a vida de Line em jogo.