sexta-feira, 9 de novembro de 2018

LITERATURA | José e os Seus Irmãos I - As Histórias de Jaacob de Thomas Mann | DOM QUIXOTE - Tradução de Gilda Lopes Encarnação

Nas livrarias a 13 de Novembro


Thomas Mann considerou esta monumental narrativa da história bíblica de José como a sua magnum opus. Concebeu-a em quatro partes – As Histórias de Jaacob, O Jovem José, José no Egito e José, o Provedor – como uma narrativa unificada, um “romance mitológico” da queda de José na escravidão e da sua ascensão a senhor do Egito. Baseado num profundo estudo da História, e utilizando detalhes pródigos e convincentes, Mann evoca o mundo mítico dos patriarcas e dos faraós, as antigas civilizações do Egito, da Mesopotâmia e da Palestina – com as suas divindades e rituais religiosos –, e a força universal do amor humano em toda a sua beleza, desespero, absurdo e dor. O resultado é uma brilhante amálgama de ironia, humor, emoção, perceção psicológica e grandeza épica.

Pela primeira vez traduzido directamente do alemão, e respeitando as opções de Thomas Mann – como se pode constatar na grafia do nome Jaacob –, esta tradução revela a exuberante polifonia de antigas e modernas vozes do romance de Mann, uma música rica que é, ao mesmo tempo, elegante, rude e sublime.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

À conversa com a escritora ROBIN HOBB


Margaret Astrid Lindholm Ogden nasceu na Califórnia em 1952, utiliza o pseudónimo Robin Hobb o mesmo que lhe viria a abrir as portas do mundo editorial com estonteantes vendas e projecção internacional.
Era muito nova quando se mudou com a família da Califórnia para o Alasca mas como o mundo da ficção se mistura com a realidade na sua nova casa ganhou um novo companheiro de aventuras, Bruno, um hibrido de cão e lobo com o qual se sentia segura o suficiente para se embrenhar pela densa floresta que rodeava a casa deixando a imaginação guiá-la.
No início da sua carreira escrevia para jornais locais, revistas juvenis, e em 1981 foi premiada pelo Conselho Estadual do Alasca pelo seu conto “A Caça Furtiva”, em 1983 escreveu o seu primeiro romance. foi nomeada para os prémios Hugo e Nébula e foi vencedora do prémio Asimov.
Mais tarde casou-se com um pescador e mudou-se para a ilha de Kodiak, foi através do marido que aprendeu a amar tudo o que dizia respeito ao mar.
Tem quatro filhos e netos e vive actualmente no estado de Washinghton.
Somente em 1995, após conversa com o seu agente decidiu criar um nome que se adequasse ao seu novo estilo de escrita com a publicação de “O aprendiz de assassino” Robin Hobb era finalmente catapultada para a fama e sucesso.
De ressalvar ainda como surge a série de fantasia mais popular de Robin Hobb, de acordo com a própria tudo começou com a descoberta de um pedaço de papel que conservava guardado no fundo de uma gaveta e que dizia simplesmente: “E se a magia fosse viciante? E se esse vicio fosse completamente destrutivo?”.
Os seus livros estão traduzidos em mais de vinte línguas, ganhou diversos prémios através da Europa como o Prémio da Fantasia do Elfo na Holanda, o Prémio Imaginales pelo trabalho traduzido em França e mais perto de casa ganhou o Prémio Endeavor por trabalhos publicados no Noroeste do Pacífico, venceu ainda este ano o prémio Gemmel em Inglaterra para melhor romance com o livro Assassin’s Fate, o último livro da série do Assassino e o Bobo. O livro será publicado brevemente em Portugal em dois volumes, “A Viagem do Assassino” e “O Destino do Assassino”.
E mais recente ganhou o Prémio Israeli Geffen para o melhor romance de fantasia com o livro “O Assassino do Bobo”, o seu trabalho continua a ser nomeado para os prémios Hugo, Locus e Nebula.
Robin continua a escrever pequenas estórias de ficção como Megan Lindholm.
A verdade é que sempre soube que queria escrever.


MBC – Como prefere ser conhecida por Margaret, Megan ou Robbin?
RH - Sou definitivamente Robin.

MBC – É a primeira vez que visita Portugal?
RH – Sim é a minha primeira vez.

MBC – Foi difícil conciliar a sua paixão pela escrita com o seu dia a dia de profissional, mulher, mãe, dona de casa?
RH - É um acto de equilíbrio. Acho que é importante que as pessoas percebam que as crianças vêm sempre em primeiro lugar, primeiro sou mãe e só depois tenho um trabalho e algo de que gosto muito. Quando comecei a escrever tinha filhos pequenos e rapidamente percebi que não podia ter um sistema para escrever peguei sempre em todos os pequenos momentos livres que conseguia durante o dia quando dormiam, brincavam, viam televisão, sentava-me na mesa enquanto os observava e escrevia. Devo confessar que a minha casa nunca estava limpa como gostaria, que a minha relva ficava muitas vezes por cortar porque a verdade é que quando a oportunidade para escrever aparecia eu aproveitava-a.

MBC – Confesso que fiquei apaixonada quando tomei conhecimento da sua relação com o cão Lobo Bruno, pode fala-nos um pouco sobre esse tempo?
RH - Quando nos mudámos para o Alasca existia um cão no nosso bairro, e quando digo bairro refiro-me às casas estarem afastadas por hectares umas das outras, uma das coisas que dizemos no Alasca é que se à noite conseguires ver as luzes do vizinho está na hora de mudares. Víamos o Bruno como um rafeiro e a história que se contava sobre ele é que tinha sido criado como animal de estimação de alguém, mas que, entretanto, tinha sido amarrado e fugira. Quando o vimos pela primeira vez coxeava, mas vinha até à nossa casa e começámos a alimentá-lo. O meu pai conseguiu fazer com que confiasse nele o suficiente para se aproximar e tirar-lhe o espinho que o feria depois de o tratarmos gradualmente começou a ficar na nossa casa e tornou-se parte da nossa família. Os vizinhos contaram-nos que devia ser uma mistura de cão pastor branco e de Lobo, era um cão enorme e esteve connosco durante muitos anos. Eu estava muito habituada a viver perto de florestas, mas com este cão percorria a floresta encostada à minha casa durante horas sabendo que ele garantia o meu regresso em segurança.

MBC – As paisagens do Alasca têm alguma influência em tudo o que escreve?
RH – Nem por isso. Desde que me lembro que sempre quis ser escritora. Na minha adolescência escrevia vários inícios de estórias, mas nunca me conseguia comprometer com um final, porém estava sempre a escrever. Desse tempo guardei somente alguns rascunhos e alguns diários que já nem existem.

MBC – O seu marido é o seu maior crítico?
RH - O meu marido não lê nada do que escrevo e o motivo para isso é que no inicio da minha carreira estava a escrever sobre uma personagem que ia morrer de uma maneira suja, ele leu as primeiras páginas e disse-me que a personagem que estava a descrever era muito parecida com uma pessoa nossa conhecida, o Bruce, depois de pensar confirmei que tinha razão era realmente parecida foi quando o meu marido me disse que não ia continuar a ler a estória porque não achava bem que eu matasse os amigos. O que percebi foi que o meu marido conhece-me tão bem que não estava a ler o que escrevia, mas que me lia a mim. É por esse motivo que penso que se queres ser um escritor deves ter alguém que leia e critique a tua estória, alguém que não te conheça porque se estás a escrever e descreves locais como o cinema ou a casa de waffles do outro lado da rua e por aí em diante os teus conhecidos reconhecem de imediato os locais aos quais te referes. Por esse motivo é melhor distanciarmo-nos e termos alguém de fora a criticar-nos e aconselhar-nos.

MBC – E os seus filhos e netos serão eles os seus maiores fans e críticos?
RH – A verdade é que alguns deles leram, outros não, uns vieram a tornar-se fervorosos leitores enquanto que os outros preferem documentários.

MBC - Baseia os seus personagens na sua família, em conhecidos?
RH - Nunca o faço deliberadamente, não tenho por hábito colocar pessoas que conheço nos meus livros possivelmente somente algumas das suas características que me prendam a atenção, como certa pessoa anda, pega na caneca do café, como fuma um cigarro, como se veste. Por exemplo não podemos tirar uma mulher moderna e colocá-la num mundo de fantasia, ela tem ideias, consciência de que é dona do seu próprio espaço, teria que existir uma razão para o fazermos.  

MBC - O que sentiu quando percebeu que a aceitação dos seus livros era maior quando
se apresentava como Robin Hobb, quando na realidade continuava a ser a Megan?
RH - Comecei a escrever com o diminutivo do meu nome de solteira, Megan Lindholm quando escrevia histórias para crianças, fantasia e ficção científica. Escrevia em todos os géneros da fantasia mas os leitores gostam de saber o que leem, se for conhecida por escrever westerns e depois escrevo um romance que se passa em Nova Iorque com o mesmo nome de autor o leitor que me siga não irá ficar satisfeito se comprar um dos meus livros a pensar que é um western e sai-lhe algo completamente diferente ou vice-versa. Por isso quando tanto eu como o meu agente nos apercebemos que queria escrever fantasia épica e sempre mais do que um livro dentro do mesmo género disse-me que precisávamos de separar a escrita e aconselhou-me a pensar num nome diferente, divertimo-nos imenso a ler o nome escolhido. Além de que é uma forma de escrita totalmente diferente da de Megan que é muito mais cínica e não explica detalhadamente as situações nem é tão emocional por isso é um estilo de escrita diferente e ainda hoje quando tenho uma nova ideia sobre o que quero escrever sei automaticamente se é para ser escrito pela Megan ou pela Robin. Quando adoptei este nome não dei muitas entrevistas, nem anunciei a mudança, não foi tanto para tentar parecer que era um homem que escrevia foi mais para baixar a pressão de descrença que pudesse surgir. Quando escrevi a trilogia Farseer escrevi como a personagem principal que era um homem porque quis facilitar a entrada na estória tornando-a mais fácil para o leitor.

MBC – Consta que descobriu um pedaço de papel que conservava guardado no fundo de uma gaveta e que esse foi o incentivo necessário para começar a escrever a Trilogia Farseer.
RH - É verdade, era um envelope rasgado ao meio que guardava na gaveta porque nunca fui suficientemente organizada para ter pequenos livros de anotações isto aconteceu no inicio da minha carreira quando ainda escrevia como Megan, aconteceu quando atingi um ponto difícil no livro que estava a escrever e de repente tens outra ideia que é mais bonita, mais brilhante e muito mais fácil de escrever, ou uma ideia que não se adequa ao que está a escrever presentemente a frase era: “E se a magia fosse viciante? E se esse vicio fosse completamente destrutivo?”. Nesse momento soube que tinha que tirar a frase da minha mente e acabar a estória na qual estava a trabalhar na altura. Por isso voltei a guardar o envelope rasgado dentro da gaveta onde mantinha uma série de outros papeis, e ali ficou durante mais um tempo.

MBC - Ainda tem essa secretária?
RH – Não, essa secretária há muito que desapareceu bem como a casa. Mas só Deus sabe o que guardo no meu escritório.

MBC – O desenho detalhado das casas, dos mapas partiram de si ou foram sugeridos?
RH - Não faço mapas porque infelizmente tenho uma noção muito má das distâncias, neste momento não conseguiria dizer a distância que nos separa por esse motivo sou terrível a desenhar mapas. Cada tradução tem as suas próprias opções artísticas para as capas, os mapas do terreno, o detalhe das casas.  O que acontece é que normalmente envio para o meu editor rabiscos de um mapa no qual se baseiam. Se virem os primeiros livros do aprendiz de assassino podem repara que o mapa na edição inglesa é totalmente diferente do mapa na edição americana.

MBC - O festival Bang é anual e consegue colmatar a curiosidade que os leitores de literatura fantástica têm sobre quem escreve os livros que os transportam para lá da imaginação por esse motivo qual espera ser a sua recepção de boas-vindas amanhã no Festival Bang?
RH - Todos os festivais são diferentes costumo ir aos Comic Con nos Estados Unidos e é sempre diferente por isso terei que esperar para ver.

MBC - Quer deixar uma mensagem aos leitores portugueses?
RH - Muito obrigada pelo vosso apoio.


Texto: MBarreto Condado
Fotos: Mário Ramires

domingo, 28 de outubro de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS - Especial | Doçura ou Travessura !? - Os manipuladores também usam máscara... | ISABEL DE ALMEIDA e CARMEN MATOS



Visto que se aproxima o “Halloween”, um conceito importado dos Estados Unidos da América, que, como tantos outros, encerra em si uma vertente não apenas de mera diversão, mas também de consumismo, decidimos brincar um pouco com esta temática, para falar de coisas muito sérias. Em Portugal, nesta época, cria-se um ambiente mais sombrio e brinca-se com a chamada  “Noite das Bruxas”, onde além de festas temáticas assiste-se também a um novo ritual importado onde  crianças e adultos percorrem a vizinhança tocando às campainhas e proferindo a frase: “Doçura ou travessura!?” esperando receber o desejado doce!

Um pouco à semelhança do Carnaval, mas numa vertente mais sombria, tendo por inspiração os fantasmas e bruxas que povoam o imaginário popular, no “Halloween” usam-se máscaras, pretende-se recriar “falsas realidades”, em sentido metafórico. Contudo, quando nos debruçamos um pouco sobre esta constatação e pensamos um pouco percebemos, de imediato, que em tudo o que se encontra à nossa volta existe sempre uma “realidade aparente” que difere em muito daquela que na verdade lhe subjaz.

Ironicamente, e brincando um pouco com a metáfora do “Dia das Bruxas”, arriscamos a dizer que a expressão “Doçura ou travessura!?” é a máxima postulada na nossa vida quotidiana e geral, quer no seio familiar, social, profissional, de amizades e que esta, consciente ou inconscientemente emana de uns e é sentida ou percepcionada por outros de forma mais ou menos clara. 

Encontramos, não raras vezes, manipuladores e muitas destas vezes, estamos à mercê destas pessoas, quer porque não nos apercebemos, quer porque não imaginamos que tal possa suceder connosco ou até porque, com certa ingenuidade ou em negação, nos custa a crer que aquela pessoa, tão agradável, fosse capaz de tamanha proeza ou desfaçatez. Relativamente aos manipuladores podemos identificar diversos géneros e subgéneros: “sociopatas”, “narcisistas”, “mitómanos” e até” vampiros emocionais”, todos têm em comum algo bastante transversal: os seus objectivos são claros, instrumentais e desenrolam-se por padrões comportamentais perfeitamente identificáveis.

Viver em sociedade implica, muitas vezes, o contacto com experiências menos agradáveis nos relacionamentos pessoais, sociais ou profissionais. Diariamente somos confrontados com estratégias de manipulação que podem ser melhor ou pior sucedidas, mas ajuda a prevenir muitos dissabores se soubermos estar atentos a alguns sinais inequívocos.

Antes de avançarmos, convém clarificar o que entendemos por “manipulador”, aqui conjugando uma visão psicológica e também o que nos vai mostrando o quotidiano e os diversos meios onde nos movemos. 

De uma forma simplista, mas acessível, entenda-se por “manipulador” qualquer pessoa – criança, jovem, adulto ou idoso - que tente influenciar o comportamento de outras pessoas de modo a obter vantagens para si mesmo, tendo em conta única e exclusivamente o seu interesse pessoal, a satisfação do próprio ego, dos seus impulsos e desejos ou meros caprichos, retirando de tal conduta uma satisfação pessoal em termos de “exercício de poder” (e também em termos mais precisos e concretos de alcançar objectivos pessoais mais concretos ou determinados), de controlo sobre terceiros.

Os manipuladores adultos, podem ainda apresentar traços narcísicos de personalidade que muitas vezes escondem, falhas narcísicas, sendo a sua atitude manipuladora um mecanismo psicológico consciente ou inconsciente que procura compensar falhas em termos de estruturação do “eu” ou “self”. Quase sempre atrás de um manipulador nato esconde-se um ser humano incapaz de amar, de aceitar ou desenvolver relacionamentos saudáveis com os outros, precisamente porque algures no seu desenvolvimento pessoal numa fase mais precoce sofreu ele próprio um défice relacional (por exemplo, não foi suficientemente nutrido emocionalmente pelas figuras cuidadoras na infância).

Uma vez que nada é linear em termos de funcionamento da mente humana, podemos estar perante uma conjugação de processos patológicos e de traços de personalidade combinados que podem dar origem a funcionamentos pessoais, relacionais, sociais e profissionais deveras tóxicos e incómodos para quem com os mesmos tenha de conviver. Uma pessoa narcísica pode também apresentar traços neuróticos (aqui estamos no âmbito de conflitos internos inconscientes) que implicam falta de valorização de si mesmos, falhas de auto-estima, necessidade de seduzir para compensar um imenso vazio interior.

Em termos mais práticos, os manipuladores começam por surgir como verdadeiros sedutores (e note-se que esta sedução nem sempre terá carga erótica), mostram-se afáveis, simpáticos, dispostos a ajudar, valorizam o seu “alvo” ou “vítima”, chegando mesmo ao ponto de enaltecer de forma grandiosa e até exagerada as potencialidades desta, para conquistar a confiança e simpatia do mesmo.
E o que poderá potenciar a qualidade de “vítima” de um manipulador? Pois bem, diversos factores podem conduzir a tal circunstância: um momento de particular vulnerabilidade psicológica que estes são, infelizmente, peritos em detectar; fases depressivas, momentos de baixa auto-estima, timidez excessiva, o medo face a confrontos, a submissão e a falta de imposição de limites, são características que criam a oportunidade ideal para que o manipulador (predador) consiga atacar a vítima (presa)!

São diversas as técnicas de que estes “predadores” lançam mão para atingir os seus objectivos, como o Gaslighting (forma deliberada de mentir, confundindo a vítima de modo a obter o benefício pretendido, o que leva a que se distorça e confunda o senso de realidade da vítima, levando-a a acreditar em algo que não aconteceu); Projecção (o manipulador transfere as suas características negativas ou a sua responsabilidade comportamental para outra pessoa); conversas sem sentido (o manipulador usa conversas ilógicas, expressões sem sentido, através de monólogos e tenta envolver a vítima com o seu discurso); generalizações e desqualificações (utilizam declarações gerais, vagas e sem sentido, pretendendo rejeitar e subestimar a vitima, aparentando que são intelectuais); situações absurdas (o manipulador procura minar a auto-estima da vítima, colocar palavras na boca desta, fazê-la repensar em tudo aquilo em que esta acredita, levando-a a crer que consegue ler-lhe a mente); bondade disfarçada (há um “mas” em tudo o que diz…. Se comprarmos algo, dirá que é pena não ter comprado algo melhor, se estamos bem vestidos dirá que X está melhor vestido que nós).

Apresentando-se geralmente como pessoas dóceis, atenciosas e muito bondosas, amigas do seu amigo, os manipuladores conquistam, passo por passo, a confiança da vítima, que muitas vezes fragilizada, se encontra absolutamente à mercê dos intentos retorcidos destes.

Dotados de grande paciência, os manipuladores adoram “ouvir”, não porque queiram mesmo ouvir, mas, apenas porque pretendem identificar os pontos fracos aqueles com quem convivem, não gostam de falar sobre eles mantendo a sua vida numa espécie de mistério, desviam as conversas que de certa forma lhe coloquem questões às quais não querem responder, para que possam ter poder sobre a vítima, e não o inverso!

Insidiosa e gradualmente vão interagindo de forma muito gratificante, criando uma falsa sensação de confiança plena, de verdadeiro altruísmo, apoio, sintonia, proximidade e disponibilidade totais. Num primeiro momento, tudo funciona de forma perfeita, até que, por qualquer circunstancialismo, o “alvo”  ou “vítima” deixa de conseguir corresponder ao que dele se espera, ou porque não tem disponibilidade, ou porque não concorda com determinada postura ou opinião, ou porque intuitivamente começa a detectar algumas graves incongruências, instabilidade ou incoerência da parte do manipulador, sendo certo que, mais tarde ou mais cedo “a máscara cai!”

Perante uma contrariedade ou confronto, o manipulador sente-se perdido, aceita mal o desequilíbrio em seu desfavor do “exercício de poder relacional”, tentar vitimizar-se com a esperança de conseguir ainda reconquistar a confiança da “vítima” mas no sentido de a fazer sentir culpada, ingrata ou “a má da fita”. Se houver cedência, o novo ciclo patológico recomeça, mas se a “vítima” efectivamente despertou para a realidade poderá mesmo ter de lidar com uma imensa carga de agressividade. 

Algumas expressões atraiçoam o manipulador, desde que estejamos atentos são padronizadas e comummente utilizadas como por exemplo: “não exageres, não sejas dramático, não sejas tão sensível, não sejas louco, não me entendas mal!”

Despertar a ira de um manipulador desmascarado não é agradável, mas há que manter a calma, criar uma distância psicológica de segurança (mostrando que saudável será a reciprocidade relacional e nunca uma supremacia de uma parte sobre a outra, e muito menos qualquer forma de instrumentalização ou objectificação).

Importa, acima de tudo, não se deixar enredar nas teias de quaisquer chantagens emocionais, não cair na tentação de ceder novamente a pressões de imposição, não perder o sentido crítico pessoal e demarcar claramente as regras de funcionamento da relação em termos de respeito mútuo, reciprocidade, respeito pela diferença, respeito pela individualidade de cada parte e de tudo o que esta contempla, designadamente, impor o respeito pelo espaço pessoal, opinião, agenda, modo de vida etc.

Para os manipuladores, as vítimas não são nada mais do que meras peças de xadrez que manuseiam para atingir a vitória que pretendem, não existindo por parte destes qualquer sentimento verdadeiro para com a pessoa que se tornou algo da sua torpe atitude.

Podemos perfeitamente viver com eles, desde que saibamos definir limites, que saibamos dizer não e que estejamos atentos aos sinais, aos padrões característicos de comportamento mantendo a capacidade de análise crítica bastante activada.

Geralmente, quando enfrentamos este tipo de pessoas dotadas a nossa intuição manifesta-se, tenta alertar-nos mas não raras vezes menosprezamos estes sinais porque acreditamos algo ingenuamente na bondade ou no sorriso que nos colocou no “centro do mundo de alguém”, todavia, com experiência, resiliência e consciência do nosso valor, conseguimos manter-nos à tona neste oceano tempestuoso de maldade e vazio.

E, assim, vamos com a experiência coleccionando manipuladores e sendo cada vez mais perspicazes na percepção do que nos rodeia, de quem nos rodeia e de quem se aproxima com o “sorriso” nos lábios.

Desde que estejamos atentos, a previsibilidade de comportamentos começa a ser evidente aos nossos olhos, e então surge o momento certo para pôr fim a verdadeiras formas de violência psicológica que, em casos extremos, podem mesmo configurar ilícitos criminais, nomeadamente, em contextos relacionais ou profissionais.

“O Homem é um animal narcísico.”

Coimbra de Matos, Psicanalista

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

LITERATURA | Visionários de João Pedro Pereira | SAIDA DE EMERGÊNCIA


Dos primeiros computadores às redes sociais:  descubra quem sonhou revolucionar a nossa vida.
Visionarios.jpg
Quem foram os homens e as mulheres que nos últimos cem anos revolucionaram as tecnologias de informação?

Visionários  conta a história de  cientistas, inventores e empresários cuja visão única do mundo mudou a nossa forma de comunicar, comprar, trabalhar e até de viver.

Dos computadores da Segunda Guerra Mundial aos smartphones, da Inteligência Artificial ao turbilhão de likes das redes sociais, o mundo nunca mudou tão depressa e em tão pouco tempo. Por detrás desse turbilhão de imprevisibilidade e crescimento exponencial estão eles, os Visionários.

Uns verdadeiramente visionários e geniais, outros mais oportunistas e astutos, todos nos sentimos fascinados por estas personagens, esquecendo, por vezes, o lado mais negro do mundo que ajudaram a criar


Joao_Pedro_Pereira_@João Cortesão.jpgJoão Pedro Pereira  nasceu no Porto em 1983, cresceu em Santa Maria da Feira e tirou o curso de Jornalismo na Universidade de Coimbra. É jornalista do Público, onde acompanha desde 2007 as transformações trazidas pelas tecnologias de informação. Entre 2014 e 2015 escreveu sobre tecnologia e empreendedorismo para a BBC. Este é o seu primeiro livro.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

LITERATURA | O Candidato do Kremlin de Jason Matthews | LUA DE PAPEL (Tradução de Ricardo Gonçalves)


Nas livrarias a 23 de Outubro

Há 15 anos que os serviços secretos russos trabalham no mais maquiavélico projeto de Vladimir Putin: introduzir um dos seus agentes-duplos na cúpula da CIA. Estão a um passo de o conseguir. Está prestes a ser nomeado um novo diretor, e os americanos estão longe de suspeitar que ele é, na verdade, O Candidato do Kremlin.

Dominika Egorova, porém, suspeita que algo terrível está prestes a acontecer. E sabe que corre o risco de ser desmascarada. Em Langley e no Kremlin as peças de um jogo diabólico começam a ser dispostas no tabuleiro. Enquanto isso, longe dos bastidores, da Turquia ao Sudão, de Moscovo a Washington, operacionais começam uma luta sangrenta para desenterrar uma pista que revele a identidade das “toupeiras”. A russa ou a americana. A primeira a ser descoberta será eliminada, com consequências catastróficas.

O Candidato do Kremlin é o mais arrepiante (e atual) thriller do espião-escritor Jason Matthews.

Obra final da épica (e aclamadíssima) trilogia Red Sparrow, iniciada com Traição e O Palácio da Traição, empurra-nos a um ritmo trepidante para o mais surpreendente e violento dos desfechos.



LITERATURA | Estrela do Norte de D.B. John | ASA (Tradução de John Almeida)


Nas livrarias a 23 de Outubro


Uma jovem americana desaparece de uma praia sul-coreana sem deixar rasto. Anos depois, surgem provas de que poderá ainda estar viva… na Coreia do Norte. A CIA recruta então a sua brilhante irmã gémea, Jenna, para uma missão que mais ninguém ousa aceitar.

Mrs. Moon, uma camponesa norte-coreana, encontra um objeto valioso… e proibido. Graças a ele, inicia um caminho rumo à salvação. Ou à morte.

Numa escola de elite na Suíça, o jovem Kim Jong-un é apresentado aos prazeres da vida ocidental pelo português João Apolinário. Um dia, recebe um telefonema urgente. Algo de estranho se passa no seu país.

O Coronel Cho, um oficial do exército norte-coreano, está prestes a aterrar em Nova Iorque numa viagem de Estado. Tudo o que pensa saber sobre o mundo ocidental vai ser posto em causa mal vislumbra as primeiras luzes da Cidade que Nunca Dorme.

O que têm em comum estas pessoas? São vidas que se vão cruzar para forjar um surpreendente destino comum.


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

LITERATURA | Os testamentos traídos de Milan Kundera | DOM QUIXOTE (Tradução de Miguel Serras Pereira)


Nas livrarias a 2 de Outubro


Ensaio escrito como um romance, ao longo das nove partes de Os Testamentos Traídos desfilam e cruzam-se as mesmas personagens: Stravinski e Kafka acompanhados dos seus curiosos amigos, Ansermet e Brod; Hemingway com o seu biógrafo; Janacek com a sua pequena nação; Rabelais com os seus herdeiros, os grandes romancistas. Todos eles são evocados para discutir diversas questões intelectuais do século xx, relacionadas sobretudo com a música e a literatura, assim como os principais temas que preocupam o autor. Kundera é um defensor apaixonado dos direitos morais do artista e do respeito devido a uma obra de arte e aos desejos do seu criador. A traição de ambos – muitas vezes levada a cabo pelos seus defensores mais apaixonados – é uma das ideias-chave deste livro brilhante e original.

Uma homenagem à literatura e à música pela pena de um dos mais celebrados escritores contemporâneos.