sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

O AMIGO IMAGINÁRIO, de Anita Dos Santos















Sempre tinha sido uma criança cheia de vida, cheia de imaginação.

Adorava brincar, embora não houvesse muitos sítios onde o fazer lá por casa. A avó não gostava muito de barulho nem de confusão, e a mãe, contornava os obstáculos que encontrava pela frente conforme podia.

Ela, vivia numa casa de adultos, a maioria das vezes rodeadas pelos seus amigos. Aqueles que ninguém mais podia ver senão ela.

Assim que podia, procurava um cantinho onde lhe fosse possível estar sem que mais ninguém desse por ela, e assim conseguisse brincar com quem bem entendesse.

Nem todos os seus amigos de aventuras lhe serviam para as brincadeiras que inventava!

Umas vezes escolhia uns, outras vezes outros, conforme a brincadeira que queria jogar.

Mas apenas um estava sempre presente, sempre disposto a acompanhá-la em qualquer brincadeira ou diabrura. Apenas um era sempre escolhido em qualquer situação. O Epaminondas.

Pois é, ele era uma companhia realmente inseparável, e interessante.

Era especialmente interessante nos dias em que a mãe ía à loja de tecidos. Havia lá uns manequins que se prestavam sempre a entrar nas suas brincadeiras, por influência do Epaminondas, sem qualquer dúvida! Ele ajudava-a sempre a inventar umas boas brincadeiras. Essas eram sempre umas tardes bem passadas.

Não podia era ser apanhada a falar com os manequins…

Conforme foi crescendo, os seus amigos foram-se afastando, um a um, até que só restou o Epaminondas. Ele foi o último a despedir-se dela, no dia em que ela descobriu a magia dos livros.

Disse-lhe:

- A partir de agora, vais viver as tuas aventuras através dos livros que leres, acompanhada pelos seus personagens. Eles irão ser os teus companheiros de brincadeiras e aventuras.


Cresceu, e todos os amiguinhos se desvaneceram nas brumas da memória, excepto o Epaminondas e os seus conselhos.


Os livros passaram a ser os seus companheiros inseparáveis.


A autora escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990. 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

NOTURNO ARCO-ÍRIS – MULHER DE BIGODE, de Helder Menor















Já aconteceu há uns anitos... Estava um daqueles dias cinzentos dos primeiros dias do ano.
A Sandra entrou no carro de manhã cedo porque tinha uma reunião em Castelo Branco às onze horas.
Não tinha vontade nenhuma de fazer aquela viagem. Devia ter arranjado uma desculpa para não ir...
A Sandra é advogada e trabalha num escritório em Lisboa. Foi contratada para ajudar a resolver uma questão de heranças entre uns primos. Já tinha sido feita a habilitação de herdeiros e já tinham chegado a um acordo de partilhas para dividir o património. Tinha de ser naquele dia.  Nos primeiros dias do ano, no frio de janeiro para aproveitar a presença de todos, uma vez que alguns dos primos estavam emigrados na França e na Alemanha. Tinha mesmo que ser naquele dia, não havia volta a dar, para aproveitar as férias de natal que alguns gozavam.
Muita gente de férias.  Outros que não ela... que tinha de ir trabalhar.
Seguiu sozinha cantando os sucessos dos roupa-nova que descarregou da net.
Saiu da autoestrada no Entroncamento seriam umas nove da manhã. Direção Abrantes. Ao lado direito, o Tejo que não se via... à frente, à volta e em cima um nevoeiro denso.
Reduziu a velocidade e seguiu viagem trauteando. Quando abria o vidro para fumar, o frio entrava misturado com a micro chuvinha do nevoeiro que parecia de algodão.
A via mais ou menos rápida onde seguiu estava em obras e foi obrigada a sair para a estrada nacional por alturas do Fratelo. Uma estrada estreita, velha e perigosa. Agora ainda mais perigosa pelo nevoeiro.
Reduziu a velocidade para uns estonteantes cinquenta quilómetros por hora. Visibilidade muito reduzida e pouco trânsito.
Na berma, entre o nevoeiro, uma velhota. Gesticulou enérgica para ela e fez-lhe sinais para parar. A Sandra parou. Não costuma parar nunca e nunca deu boleia a ninguém, por isso nem ela sabe porque abriu o pisca à direita e saiu para a berma ao sinal da velha. A senhora tinha uns brincos de ouro antigos a balançar nas orelhas, um buço cerrado com mais pelos que muitos bigodes e uma expressão forte no rosto de quem está habituada a decidir sobre tudo.
Já fora da estrada, abriu o vidro para perguntar à senhora o que queria.
A velha não disse nada, mas nesse momento aconteceu o ruído estridente de uma travagem e estrondo que pareceu anunciar o fim do mundo. Cinco metros à frente, dois pesados batiam de frente. Depois do som metálico do impacto, o ruído de uma derrocada e todo o chão a tremer. A sensação foi tão forte que a Sandra sentiu o som na barriga. Desligou o motor e saiu do carro a tremer. Só fora do carro percebeu o perfil das traseiras do camião. A menos de um metro do seu carro parado na berma estreita uma montanha de toros de eucalipto. Na cabina, o motorista desacordado com um fio de sangue na testa. Pegado à cabina do motorista do eucaliptal decepado, estava outra cabina de outro camião. A galera meio fora da estrada e carregava manilhas de betão. O motorista, ainda novo, muito pálido a sair pela porta do pendura...
Não consegui travar... não consegui travar... O piso marcado e o cheiro a borracha queimada provavam que tentou.
Ligou para o 112 e com o condutor do camião de manilhas, tentaram reanimar o motorista do camião de troncos. O homem não parecia estar muito magoado nem ter nada partido. Apenas uns arranhões na cara. Tinha desmaiado com o impacto.
Esperaram pela ambulância a eternidade de uns doze minutos. Quando chegaram os bombeiros e a GNR, voltou ao carro dela. Com jeitinho, manobrou à volta dos destroços e seguiu viagem na direção do seu destino.
Não se lembrou mais da velhota do bigode que a mandou parar. Só à chegada a Castelo Branco pensou na velha e perguntou-se a si mesma o que é que queria a senhora que fez parar em tão boa hora...
Chegou ao notário passavam já vinte minutos das onze da manhã. Eram seis primos com as respetivas mulheres e maridos e alguns filhos. Todos assinaram os documentos das partilhas, uma vez que o acordo já estava feito e era só uma questão de formalizar. Estavam a dividir duas dúzias de pequenas parcelas de terreno, umas casas velhas de aldeia e uns palheiros dispersos. Havia um dos herdeiros que pretendia ficar com a casa que tinha pertencido aos avós para que a filha fizesse um turismo de habitação.
Demorou mais tempo a cumprimentar e a ser apresentada às pessoas todas do que a formalizarem as partilhas. Era meio dia e meia e já estava acabado o seu trabalho de advogada.
Convidaram-na para almoçar.
A Sandra recusou educada. Que não, que era uma reunião de família. Que ela tinha de voltar para Lisboa...
Mas vai ter de almoçar, certo? Então porque é que não come connosco e segue viagem? O almoço é cabrito assado no forno de lenha... é um moço amigo que é padeiro e tem um restaurante. Eu encomendei seis cabritos assados para o almoço. A doutora não vai fazer a desfeita!
O líder do grupo que estava a fazer o convite era um cavalheiro de setenta anos que tinha construído uma vivenda à saída de Benquerença, em direção a Castelo Branco.
Venha que a casa fica no caminho para Lisboa e depois do almoço segue viagem.
A Sandra, aceitou.
A casa numa colina glorificava o esforço de trinta anos a trabalhar na industria automóvel alemã. Dois pisos e uma garagem do tamanho de um campo de basquetebol. Em frente, um relvado com gnomos de loiça e  uma piscina coberta com lona azul. Atrás, capoeiras com galinhas, coelhos e faisões. Os três cães de caça vieram receber a todos.
A mesa já estava posta na garagem.
Doutora sente-se e não se acanhe, é uma casa humilde mas o cabrito dá para todos!!!
Comeram e beberam. O gelo inicial dos papéis e das formalidades estava quebrado. O primo do dona da casa, cuja filha queria fazer o turismo de habitação e que foi quem fez o contacto com a advogada estava visivelmente satisfeito. Os outros também estavam aliviados por terem resolvido um problema antigo. O dono da casa fazia brindes satisfeito de ter tanta gente em casa a poder apreciar o seu património acumulado e construído.
A Sandra limitou-se a provar o vinho e bebeu água. Tinha de voltar a Lisboa e, quando pensava no assunto, ainda ficava assustada com o acidente na estrada. Depois de almoço veio fumar um cigarro para o jardim.
Estava a falar com o herdeiro que a contratou e com o dono da casa. Aceitou a garrafa de vinho e o abafadinho que não bebeu... Explicou, que quase tinha ficado debaixo de uma pilha de troncos de eucalipto. Que a estrada era muito perigosa. Todos concordaram.
Depois pediu para ir à casa de banho.
Planeava sentar-se no carro ali e só parar à porta de casa no Cacém. O café acabado, o cigarro fumado, agora um xixizinho e direta para Lisboa. Devagarinho com cuidado, mas sem parar e sem sustos.
A mulher do dono da casa, uma senhora trabalhadora que tinha sido auxiliar hospitalar em Hamburgo e que tratava das galinhas com o mesmo carinho com que trinta anos tratou os doentes na Alemanha, levou-a pelo braço para dentro de casa.
Ensinou-lhe onde era a casa de banho e esperou à porta que a Sandra acabasse. Urinou constrangida com a presença da outra do lado de lá da porta e pela primeira vez teve consciência de que foi a velhota que a mandou parar na estrada, quem lhe salvou a viagem, o carro e talvez a vida.
Lavou as mãos e viu-se ao espelho. Continuava com cara de assustada.
Saiu da casa de banho do tamanho de uma sala de estar e a dona da casa quis mostrar-lhe as divisões todas.
- Eu sei que a doutora está atrasada, mas por favor veja a casa, que é sua, quando quiser vir passar um fim-de-semana com o seu marido já sabe, a casa é sua...fim-de-semana, uma semana, as férias, fica o tempo que quiser.
A Sandra não era casada, não tinha namorado certo e nem queria ir passar um fim de semana a Benquerenças... mas era educada e fez o que tinha a fazer.
Foi na sala grande, no salão, como a dona de casa chamou ao espaço que apanhou o choque.
Na parede, numa moldura grande, uma fotografia a preto e branco de um casal de camponeses.
A fotografia parecia tirada nos anos 40, 50 do século XX. Ele de bigode, chapéu, casaco, camisa e gravata. Ela de cabelo apanhado atrás da cabeça, brincos de ouro e uma expressão dura e maternal no rosto. O buço da senhora não era tão farfalhudo como o bigode do marido... mas mesmo assim aparecia bem marcado na fotografia antiga.
A advogada parou em frente à fotografia e fixou o olhar na mulher de bigode e de brincos.
- Eram os avós do meu marido. Os donos dos terrenos que a doutora hoje veio cá fazer as partilhas. Ou melhor a dona era a avó... era a avó do meu marido quem tratava de tudo... era uma mulher de armas, uma senhora com um querer muito forte.
A Sandra saiu da casa, acendeu um cigarro e partiu sem se despedir de ninguém.
Ia pálida e as mãos tremiam-lhe.
A mulher que a Sandra viu na fotografia foi a mesma que a tinha mandado parar na estrada.
Nunca falou deste caso a ninguém. Nem a colegas, nem a amigos.
Mas a velha que atravessou a linha entre a morte e a vida para garantir que a advogada chegava a horas à reunião de partilhas dos netos, para a Sandra tem sido uma inspiração.
Sempre que lhe dizem que alguma coisas é impossível, lembra-se da velha de bigode e brincos de ouro e diz: impossível é coisa inventada para os homens... quando as mulheres que querem, não há impossíveis.
Tem razão a doutora Sandra. 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

MOULES PARA O JANTAR, de Fernando Teixeira















“Acendeu a luz da cozinha e dirigiu-se ao lava-loiça onde deixara o saco com meio quilo de mexilhões pequenos, as moules de que tanto gostava, um dos propósitos do passeio dessa tarde.
Comprara o petisco no terreiro frente à Coopérative Maritime, junto do qual a ria se bifurcava num braço líquido, onde flutuavam duas filas de pequenas embarcações de recreio e botes de pesca. Sob um toldo rectangular branco, cerca de uma dezena de pescadores, acompanhados das mulheres, vendiam nas suas bancas peixe variado e diversos tipos de marisco, desde lagosta, sapateira, amêijoa e, não podia faltar, o tradicional mexilhão.
Misturava-se o odor da maresia com o dos produtos frescos, da mesma forma que o linguajar de vendedores e clientes se mesclava com o grasnar das gaivotas e dos corvos-marinhos, rodopiando no ar, igualmente seduzidos e inebriados por tais cheiros. Os seus gritos estridentes tinham conseguido dispersar os pardais, que tinham procurado refúgio nas copas das árvores. Apenas as aves marinhas eram agora senhoras do espaço aéreo.
Tinha percorrido cada uma das bancas sem pressa, vendo o que aqueles homens e mulheres do mar ofereciam nesse dia, ainda que só lhe interessasse, mesmo, os bivalves de casca preta e longilínea.
Sentia uma enorme simpatia por aquela gente simples, contida numa primeira aproximação, mas revelando-se comunicativa com o desenrolar do tempo, que o tempo tudo compõe quando para isso lhe dá, e ele esperava que o tempo e a habituação à sua pessoa os tornassem mais afectuosos. Gente humilde, que não era por serem cidadãos de uma grande potência económica que deixavam de ter de comer o “pão que o diabo amassou”, neste caso peixe, bivalves ou qualquer outro marisco, capturado com exigência e destreza no mar da Biscaia. Pois que a Natureza, se tudo oferece, não o dá de mão beijada, só o larga em troca de sacrifício, trabalho e muito suor. E aqueles franceses não eram excepção, por muito que merecessem melhor sorte!
Os passos conduziram-no a uma banca específica, era lá que habitualmente fazia as suas compras, o que já tinha motivado olhares de esguelha de outros pescadores, e principalmente das suas distintíssimas esposas, que viam aquele estrangeiro passar e deter-se num dos concorrentes que, embora todos companheiros de pesca, ali disputavam pela melhor venda. Por um motivo que a razão desconhecia, algo levara a que nascesse uma empatia por aquele casal de tez morena e aventais amarelos, que o cativava desde a primeira compra, fosse pela expressão viva e decidida da mulher, fosse pelo sincero e mais sereno olhar do homem numa face gasta pelo ar marítimo, escondida por farto bigode e barba grisalha.
Raspava, agora, a casca dos mexilhões para lhes retirar as “barbas” e demais impurezas, lavando-os de seguida em água abundante. Numa caçarola, refogou cebola e alho bem picados num pouco de azeite. Deixou alourar antes de juntar meio copo de vinho branco.
Mais do que o barulho produzido na preparação dos mexilhões, fora o aroma do refogado que fez o seu pequeno felino aparecer finalmente, vindo roçar-se nas suas pernas.
– Ora, aí estás tu! – exclamou. – Onde estavas escondido?
A resposta foi dada com um miado lânguido a que pareceu não dar importância, atento ao que fazia.
Despejou os mexilhões na caçarola, sentindo que o aroma se transformava de imediato em algo irresistivelmente delicioso, fazendo-o salivar na expectativa do repasto. Tapou o recipiente, esperou um pouco até que os bivalves abrissem e temperou com sal, pimenta, sumo de limão e coentros picados. Estava perfeito!
Em movimentos rápidos, tanto quanto lhe era possível com o companheiro de quatro patas a intrometer-se por entre as pernas, foi levando para a mesa da salinha de refeições um prato, um copo de pé alto, guardanapos de papel e um pedaço de bom pão rústico, que preferia sempre à tradicional baguette. Terminou o vaivém depois de transportar a caçarola fumegante para a mesa e de tirar uma garrafa de vinho branco frisante do frigorífico. Sentou-se, sacou a rolha e serviu o seu copo até meio.
O pequeno felino saltou para a tampa do baú da lenha e ali se deitou, com a cabeça apoiada nas patas dianteiras, fitando-o de orelhas espetadas no ar.”

in Traços De Pont-Aven
(O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.)

MOULES PARA O JANTAR, de Fernando Teixeira















“Acendeu a luz da cozinha e dirigiu-se ao lava-loiça onde deixara o saco com meio quilo de mexilhões pequenos, as moules de que tanto gostava, um dos propósitos do passeio dessa tarde.
Comprara o petisco no terreiro frente à Coopérative Maritime, junto do qual a ria se bifurcava num braço líquido, onde flutuavam duas filas de pequenas embarcações de recreio e botes de pesca. Sob um toldo rectangular branco, cerca de uma dezena de pescadores, acompanhados das mulheres, vendiam nas suas bancas peixe variado e diversos tipos de marisco, desde lagosta, sapateira, amêijoa e, não podia faltar, o tradicional mexilhão.
Misturava-se o odor da maresia com o dos produtos frescos, da mesma forma que o linguajar de vendedores e clientes se mesclava com o grasnar das gaivotas e dos corvos-marinhos, rodopiando no ar, igualmente seduzidos e inebriados por tais cheiros. Os seus gritos estridentes tinham conseguido dispersar os pardais, que tinham procurado refúgio nas copas das árvores. Apenas as aves marinhas eram agora senhoras do espaço aéreo.
Tinha percorrido cada uma das bancas sem pressa, vendo o que aqueles homens e mulheres do mar ofereciam nesse dia, ainda que só lhe interessasse, mesmo, os bivalves de casca preta e longilínea.
Sentia uma enorme simpatia por aquela gente simples, contida numa primeira aproximação, mas revelando-se comunicativa com o desenrolar do tempo, que o tempo tudo compõe quando para isso lhe dá, e ele esperava que o tempo e a habituação à sua pessoa os tornassem mais afectuosos. Gente humilde, que não era por serem cidadãos de uma grande potência económica que deixavam de ter de comer o “pão que o diabo amassou”, neste caso peixe, bivalves ou qualquer outro marisco, capturado com exigência e destreza no mar da Biscaia. Pois que a Natureza, se tudo oferece, não o dá de mão beijada, só o larga em troca de sacrifício, trabalho e muito suor. E aqueles franceses não eram excepção, por muito que merecessem melhor sorte!
Os passos conduziram-no a uma banca específica, era lá que habitualmente fazia as suas compras, o que já tinha motivado olhares de esguelha de outros pescadores, e principalmente das suas distintíssimas esposas, que viam aquele estrangeiro passar e deter-se num dos concorrentes que, embora todos companheiros de pesca, ali disputavam pela melhor venda. Por um motivo que a razão desconhecia, algo levara a que nascesse uma empatia por aquele casal de tez morena e aventais amarelos, que o cativava desde a primeira compra, fosse pela expressão viva e decidida da mulher, fosse pelo sincero e mais sereno olhar do homem numa face gasta pelo ar marítimo, escondida por farto bigode e barba grisalha.
Raspava, agora, a casca dos mexilhões para lhes retirar as “barbas” e demais impurezas, lavando-os de seguida em água abundante. Numa caçarola, refogou cebola e alho bem picados num pouco de azeite. Deixou alourar antes de juntar meio copo de vinho branco.
Mais do que o barulho produzido na preparação dos mexilhões, fora o aroma do refogado que fez o seu pequeno felino aparecer finalmente, vindo roçar-se nas suas pernas.
– Ora, aí estás tu! – exclamou. – Onde estavas escondido?
A resposta foi dada com um miado lânguido a que pareceu não dar importância, atento ao que fazia.
Despejou os mexilhões na caçarola, sentindo que o aroma se transformava de imediato em algo irresistivelmente delicioso, fazendo-o salivar na expectativa do repasto. Tapou o recipiente, esperou um pouco até que os bivalves abrissem e temperou com sal, pimenta, sumo de limão e coentros picados. Estava perfeito!
Em movimentos rápidos, tanto quanto lhe era possível com o companheiro de quatro patas a intrometer-se por entre as pernas, foi levando para a mesa da salinha de refeições um prato, um copo de pé alto, guardanapos de papel e um pedaço de bom pão rústico, que preferia sempre à tradicional baguette. Terminou o vaivém depois de transportar a caçarola fumegante para a mesa e de tirar uma garrafa de vinho branco frisante do frigorífico. Sentou-se, sacou a rolha e serviu o seu copo até meio.
O pequeno felino saltou para a tampa do baú da lenha e ali se deitou, com a cabeça apoiada nas patas dianteiras, fitando-o de orelhas espetadas no ar.”

in Traços De Pont-Aven
(O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

A ÚLTIMA CARTA, de Cecelia Ahern / SUMA DE LETRAS





A aguardada sequela do bestseller P.S EU AMO-TE 
A ÚLTIMA CARTA, chega hoje às livrarias portuguesas

Sobre o livro:
Faz sete anos que o marido de Holly Kennedy morreu - seis, desde que ela leu a sua última carta, na qual lhe pedia que encontrasse coragem para forjar uma nova vida.
Holly orgulha-se da forma como tem evoluído e crescido. Até que recebe a mensagem: "Precisamos desesperadamente da sua ajuda, Holly. Estamos a ficar sem ideias e ... " - ela respira fundo, em busca de energia - "todos nós estamos a ficar sem tempo."
Os membros do Clube P. S. Eu amo-te, inspirados nas últimas cartas do seu marido, Gerry, querem que Holly os ajude a escrever as suas próprias mensagens de despedida para os que lhes são queridos.
Holly vê-se atraída, de novo, para um mundo que se esforçou tanto por deixar para trás. Relutante, começa a relacionar-se com o clube, mesmo quando a amizade deles ameaça destruir a paz que ela acredita ter alcançado.
Porque cada uma dessas pessoas espera de Holly a ajuda para deixar algo significativo àqueles que mais ama, ela embarcará numa jornada notável que a desafiará a questionar se abraçar o futuro implicar trair o passado e o que significa amar alguém para sempre ...notável - que a desafiará a perguntar se abraçar o futuro significa trair o passado e o que significa amar alguém para sempre ...
Quando o amor eterno, há sempre algo mais para dizer


Sobre a autora:

Cecelia Ahern, depois de se licenciar em Jornalismo e Comunicação, escreveu este primeiro romance aos 21 anos. Foi um sucesso internacional sem precedentes, tendo sido levado ao grande ecrã, o que acrescentou ainda mais fãs a esta história de amor, que é um clássico.

Desde então, Cecelia publica, com grande sucesso, um romance por ano. Até ao momento, os seus livros venderam 25 milhões de cópias, foram publicados em mais de 40 países, em 30 línguas. Só em Portugal, PS — Eu amo-te vendeu, até à data, mais de 57 000 exemplares, e mais de 1 milhão em todo o mundo.
Para além de ser uma romancista amplamente premiada, Cecelia Ahern também cria projectos originais para televisão.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

ELEVADOR 12, PISO 8 - A MACA SUJA, de Maria Cecília Garcia














Cheguei atrasada ao hospital, havia greve dos transportes públicos de Lisboa, e demorei um tempo interminável na Avenida Estados Unidos de América, mas os táxis passavam cheios. Decidi andar em direcção da Av. de Roma, quem sabe se ali seria mais fácil…  Até que enfim! Apanhei um táxi livre e pedi para me levar ao hospital Santa Maria. Tinhas dado entrada na noite anterior, agora sabia que um derrame tinha invadido o teu cérebro mergulhando-te numa maré vermelha incontrolável. Não tinha a percepção exacta da gravidade até os médicos falarem comigo. Mas ainda havia esperança, a minha esperança, de que pudesses recuperar.

Atravessei rapidamente o corredor principal e dirigi-me ao elevador 12, carreguei no botão para o 8º andar. A meia dúzia de pessoas que tinham entrado no elevador afastaram-se para que pudesse entrar um homem com uma maca.

Reparei que esta maca era diferente das outras, mais velha e de uma cor suja. O maqueiro também era diferente: rosto fechado, macilento, não usava o uniforme de assistente hospitalar. Ele também carregou no botão para o piso 8.

Chegados ao piso 8 o homem da maca saiu, seguiu pelo mesmo corredor onde eu tinha que ir, eu segui-o até ao fundo.

Parou na Unidade de Cuidados Intensivos e entrou na enfermaria 13 e eu fiquei à porta. Seguramente virá buscar alguém para ir fazer exames, quem sabe, talvez tu…pensei.

Espreitei pela frincha da porta, vi algumas enfermeiras e a maca que me tinha precedido estacionada junto à cama onde tu estavas no dia anterior. Só então percebi que o homem era o maqueiro da morgue. Afinal, eu tinha acompanhado o emissário da morte, serena e ignorante…

E vi-te envolto na mortalha, indefeso, pequeno, o teu corpo preparado para seguir. Tu já não estavas ali, havias iniciado outra viagem. Afastei-me violentamente, não queria ver mais. Incrédula, nem reparei nos olhares de pesar que me rodeavam. Segurei-me à parede de braços abertos, impotente, tudo ao meu redor estava envolto numa bruma espessa que não me deixava ver ou pensar. Estava só. Foi tudo tão rápido, não tiveste tempo para definhar, foste desligado piedosamente. Não está certo.

Uma enfermeira repetia continuamente: Não podia ser assim! Não devia ser assim! enquanto me rodeava com os braços. Foi agora mesmo! Já lhe íamos telefonar.

Arrastaram-na para uma salinha, perguntaram se queria um calmante, sacudi a cabeça, não. Ofereceram-me um chá. Creio que tinha algum calmante, mas não me importei. Esmagada pela dor só queria ir embora, já nada fazia ali.  Levaram-te, nem vi …

Tenho que falar com os meus filhos, tenho que dar-lhes a notícia…como fazer isso? Foi tudo tão violento, tão rápido, nem deu tempo para respirar.

Mas a vida continua a sua marcha, indiferente às nossas tristezas e angústias. Bate à porta exigente e pragmática. Há tanta coisa a fazer que é preciso agarrá-la pelos cornos, torcer-lhe o pescoço para evitar que nos mate também.  Enquanto fazia o caminho em direcção à saída, lembrava-me do dia anterior, quando ainda havia esperança.

O teu corpo estava imóvel, mas davas um sorriso retorcido, esforçado. Respondias às nossas perguntas com um piscar de olhos. Eu segurava a tua mão, não consigo esquecer o movimento do teu dedo polegar, o único que podias mexer, com ele acariciavas o dorso da minha mão, continuamente. Essa foi a nossa última conversa. Eu sei que pedias desculpas e acredito que querias dizer que me amavas. Preciso acreditar nisso.

Enquanto me dirigia à saída, ouvia dentro da minha cabeça, um dos fados que costumavas cantar enquanto adormecias a tua filha. Sim, ela adormecia ouvindo fados.

Hospital santa Maria, com trinta metros de altura,
diga lá senhor Doutor, se o meu irmão não tem cura…

Só me lembro desse refrão sem sentido, mas ainda recordo o som da música. Não sei quem cantava isso…talvez fosse uma invenção tua.