quinta-feira, 30 de abril de 2020

O VALOR DA PRIVACIDADE, de Fernando Teixeira















Na ordem jurídica nacional, a Lei nº 58/2019 assegura a execução do Regulamento (UE) 2016/679 do Parlamento Europeu e do Conselho, no que concerne ao tratamento e circulação de dados das pessoas singulares, visando a sua protecção.
Esta questão tornou-se ainda mais premente após o escândalo da britânica Cambridge Analytica que, veio a saber-se, entre 2014 e 2015, terá utilizado indevidamente os dados recolhidos por uma aplicação da rede social Facebook para chegar aos dados pessoais de 87 milhões de cidadãos, dando origem a perfis de consumidores para fins de marketing estratégico em campanhas políticas que terão influenciado o resultado das eleições para a presidência dos Estados Unidos em 2016.
Desde então, a navegação na Internet nunca mais foi a mesma. Sob a capa da protecção dos nossos dados pessoais, somos bombardeados diariamente com separadores que se sobrepõem à janela do browser, impedindo-nos de continuar a navegar na net, a menos que se clique num botão “ACEITO”. E o que estamos realmente a aceitar, apenas para podermos prosseguir?
O separador diz “Damos valor à sua privacidade”, a título de nos sossegar. E, logo a seguir, Nós e os nossos parceiros utilizamos determinadas tecnologias no nosso site, como os cookies, para personalizarmos os conteúdos e a publicidade, proporcionarmos funcionalidades das redes sociais e analisarmos o nosso tráfego. Clique em baixo para consentir a utilização destas tecnologias na web. Pode mudar de ideias e alterar as suas opções de consentimento em qualquer momento, voltando a este site.”
Não tendo tempo para ler os detalhes, como se não bastasse o incómodo de ver a nossa tarefa interrompida uma vez mais pelo maldito separador, o impulso é clicar em “ACEITO”, única forma de prosseguir e ver a página que queremos consultar. Porém, se nos dermos ao trabalho de abrir o separador “Consultar detalhes”, somos surpreendidos por um conjunto de itens que definem quais os tipos de dados, nossos, que estão a ser revelados a entidades terceiras.
Se o fizermos, ficamos a saber que são recolhidas informações sobre a nossa utilização dos sites, sobre os nossos interesses, sobre os assuntos que nos foram apresentados, a frequência e respectivo tempo de visualização, e de que forma reagimos a eles, se clicámos num anúncio ou se fizemos uma compra, com o fim de que essas entidades possam personalizar futuros conteúdos e publicidade de acordo com o nosso perfil de utilização. Isso é conseguido através do acesso e guarda de informações conservadas nos nossos dispositivos, tais como identificadores de publicidade, identificadores de dispositivos, cookies e tecnologias semelhantes.
Neste âmbito, são combinados dados de fontes offline, inicialmente recolhidos noutros contextos (?), com dados recolhidos online, são tratados dados de forma a associar diferentes dispositivos pertencentes ao mesmo utilizador e são recolhidos dados de localização geográfica, tudo para sustentar uma ou mais finalidades (??).
Todas estas permissões estão accionadas por defeito, quando clicamos no botão “ACEITO”. Se verificarmos quais são as entidades associadas, verificamos com estupefacção que essas informações relativas aos nossos perfis de utilização são transmitidas a um número gigantesco de empresas nacionais e estrangeiras, as quais os usam, sabe-se lá para quê. E ainda dizem que dão valor à nossa privacidade…!!!
Vivemos num mundo hipócrita. O que antes se fazia sem o nosso conhecimento faz-se agora de igual forma e com esse mesmo consentimento. É o que resulta desta política encapotada de protecção de dados que não nos protege de coisa alguma, antes legaliza que tais entidades espiem as nossas acções, a nossa vida, a menos que, supostamente, tenhamos o conhecimento e o cuidado de desactivar tais funcionalidades e a correspondente transmissão de dados. Devia ser assim, mas… surpresa, pura falácia: se desactivarmos as funcionalidades opcionais (porque algumas são obrigatórias), guardando as nossas opções, alguns cliques depois aparece novo pedido de consentimento, com as mesmas funcionalidades novamente activas, não adiantando quais foram as opções de consentimento que se gravaram anteriormente! Ou seja, pouco interessa a vontade do utilizador de que a sua privacidade seja respeitada. Que brincadeira…

(O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.)

O VALOR DA PRIVACIDADE, de Fernando Teixeira














Na ordem jurídica nacional, a Lei nº 58/2019 assegura a execução do Regulamento (UE) 2016/679 do Parlamento Europeu e do Conselho, no que concerne ao tratamento e circulação de dados das pessoas singulares, visando a sua protecção.

Esta questão tornou-se ainda mais premente após o escândalo da britânica Cambridge Analytica que, veio a saber-se, entre 2014 e 2015, terá utilizado indevidamente os dados recolhidos por uma aplicação da rede social Facebook para chegar aos dados pessoais de 87 milhões de cidadãos, dando origem a perfis de consumidores para fins de marketing estratégico em campanhas políticas que terão influenciado o resultado das eleições para a presidência dos Estados Unidos em 2016.

Desde então, a navegação na Internet nunca mais foi a mesma. Sob a capa da protecção dos nossos dados pessoais, somos bombardeados diariamente com separadores que se sobrepõem à janela do browser, impedindo-nos de continuar a navegar na net, a menos que se clique num botão “ACEITO”. E o que estamos realmente a aceitar, apenas para podermos prosseguir?

O separador diz “Damos valor à sua privacidade”, a título de nos sossegar. E, logo a seguir, Nós e os nossos parceiros utilizamos determinadas tecnologias no nosso site, como os cookies, para personalizarmos os conteúdos e a publicidade, proporcionarmos funcionalidades das redes sociais e analisarmos o nosso tráfego. Clique em baixo para consentir a utilização destas tecnologias na web. Pode mudar de ideias e alterar as suas opções de consentimento em qualquer momento, voltando a este site.”

Não tendo tempo para ler os detalhes, como se não bastasse o incómodo de ver a nossa tarefa interrompida uma vez mais pelo maldito separador, o impulso é clicar em “ACEITO”, única forma de prosseguir e ver a página que queremos consultar. Porém, se nos dermos ao trabalho de abrir o separador “Consultar detalhes”, somos surpreendidos por um conjunto de itens que definem quais os tipos de dados, nossos, que estão a ser revelados a entidades terceiras.

Se o fizermos, ficamos a saber que são recolhidas informações sobre a nossa utilização dos sites, sobre os nossos interesses, sobre os assuntos que nos foram apresentados, a frequência e respectivo tempo de visualização, e de que forma reagimos a eles, se clicámos num anúncio ou se fizemos uma compra, com o fim de que essas entidades possam personalizar futuros conteúdos e publicidade de acordo com o nosso perfil de utilização. Isso é conseguido através do acesso e guarda de informações conservadas nos nossos dispositivos, tais como identificadores de publicidade, identificadores de dispositivos, cookies e tecnologias semelhantes.

Neste âmbito, são combinados dados de fontes offline, inicialmente recolhidos noutros contextos (?), com dados recolhidos online, são tratados dados de forma a associar diferentes dispositivos pertencentes ao mesmo utilizador e são recolhidos dados de localização geográfica, tudo para sustentar uma ou mais finalidades (??).

Todas estas permissões estão accionadas por defeito, quando clicamos no botão “ACEITO”. Se verificarmos quais são as entidades associadas, verificamos com estupefacção que essas informações relativas aos nossos perfis de utilização são transmitidas a um número gigantesco de empresas nacionais e estrangeiras, as quais os usam, sabe-se lá para quê. E ainda dizem que dão valor à nossa privacidade…!!!

Vivemos num mundo hipócrita. O que antes se fazia sem o nosso conhecimento faz-se agora de igual forma e com esse mesmo consentimento. É o que resulta desta política encapotada de protecção de dados que não nos protege de coisa alguma, antes legaliza que tais entidades espiem as nossas acções, a nossa vida, a menos que, supostamente, tenhamos o conhecimento e o cuidado de desactivar tais funcionalidades e a correspondente transmissão de dados. Devia ser assim, mas… surpresa, pura falácia: se desactivarmos as funcionalidades opcionais (porque algumas são obrigatórias), guardando as nossas opções, alguns cliques depois aparece novo pedido de consentimento, com as mesmas funcionalidades novamente activas, não adiantando quais foram as opções de consentimento que se gravaram anteriormente! Ou seja, pouco interessa a vontade do utilizador de que a sua privacidade seja respeitada. Que brincadeira…


O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

MARIA (CONTINUAÇÃO), de Mafalda Pascoal















Os pequeninos estavam todos num montinho, eram tão lindos... ela segurou num, fez-lhe festinhas e ele gostou, pois não fugiu... Maria lembrou-se que tinha que ir áquele sítio lindo... levantou-se e começou a caminhar apressadamente para chegar lá depressa, de repente à sua frente eram só coelhos aos saltos, mais feliz Maria ficou. Assim já não faria o caminho sózinha, pensou para si.
Já faltava pouco para chegar áquele lugar lindo e, Maria reparou que havia mais animais diferentes à sua frente... havia um que era parecido com as cabras que tinha lá em casa e, nas árvores, haviam tantos passarinhos de tantas cores, fazia lembrar o arco-íris com tantas cores lindas e vivas. Assim chegou áquele maravilhoso lugar! Ficou estarrecida e pensou,«se eu conseguir arranjar caminho para chegar à água e aos frutos naquelas árvores, se calhar já cá fico hoje...» olhou para o céu, o sol estava no meio, ainda tinha algum tempo antes que ele se escondesse para resolver se ficava já ou se voltava para a árvore-mãe.
Começou a sua pesquisa, sempre com os animais e aves a acompanhá-la, reparou nos coelhos que dormiram com ela e não estavam todos, especialmente os pequeninos, se calhar tinham ficado com as mães, pois são tão pequeninos que se perderiam, assim como lhe tinha acontecido a ela. Então decidiu que, mesmo que encontrasse caminho e sítio para ficar, regressaria à árvore-mãe para depois trazer todos consigo para aquele sítio maravilhoso, e assim foi. Então procurou, procurou com a ajuda dos animais e aves que, lhe parecia, todos eles se comunicavam entre si e entendiam o que Maria queria fazer... era lindo de se ver, todos em sintonia...
Maria descobriu uma côncavidade na rocha, era um espaço grande, e era parecido com uma divisão e das grandes, da mansão de seu pai, a entrada era mais pequena e entrando ficava maior, o tecto era arredondado, havia saliências no chão encostadas às paredes, para Maria, ali era o mais parecido com uma casa, tinha espaço para si e para os seus novos companheiros e, se chovesse, não lhes choveria em cima.
Embora Maria fosse uma criança de tenra idade, estava por sua conta, tomava decisões consoante as suas necessidades... agora estava um pouco mais confiante pois já tinha companhia. Olhou para o céu, o sol já estava a cair para o outro lado. O que queria dizer que já não lhe restava muito tempo até anoitecer... pensou um pouco, já tinha conseguido uma casa, já tinha mais amigos, iria regressar à árvor-mãe e no dia seguinte viria novamente para novas descobertas. Assim regressou à árvore-mãe, rodeada de animais, que entretanto se comunicaram entre si, vindo todas as espécies em sua direcção visto terem chegado à conclusão de que Maria era inofensiva e tinha o coração puro como o de todos eles.
Chegaram à árvore-mãe e lá estavam os pequeninos todos aninhados com as suas mães, tão lindos...
Já estava a ficar noite e Maria deitou-se no seu leito de ervas, pensou no seu pai, deveria estar muito preocupado sem saber dela... fez beicinho e as lágrimas rolaram pelo seu rosto de menina, os animais aperceberam-se da sua tristeza, chegaram-se mais para ela  e acarinharam-na conforme podiam a sabiam... e assim mais uma noite passou.
Pela manhã, a nossa menina acordou, agora já acorda de uma forma menos angustiada, já tem muitos amigos novos que não a deixam só, e a cada dia que passa aparecem mais. Primeiro apareceram os coelhos, depois as gazelas e muitos passarinhos, a seguir os macaquitos com as suas mães. Um pouco mais distantes, apareciam de vez em quando lobos que não se chegavam muito perto, tal como a mãe urso com a sua cria, estes, por enquanto, só os seguiam muito atrás ou em paralelo mas distantes.
Com todos estes amigos animais, Maria começou nova caminhada até à sua futura casa. Chegou lá e ficou maravilhada, tudo era tão bonito, a água que corria em cascata, sem se ver onde caía ou de onde nascia formava arco-íris, o que fazia daquela paisagem um paraíso.
   (Continua)

A autora escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990. 

sábado, 25 de abril de 2020

AQUELE DIA DE ABRIL, de Fernando Teixeira















O dia da Revolução dos Cravos, com o dramatismo da evolução dos acontecimentos e das operações militares, acentuado pela esperança de um tempo novo e pela ânsia de liberdade gritada a plenos pulmões no fim daquela tarde de Abril de 1974, permanecerá sempre na memória daqueles que o viveram e sentiram, então exultantes, a vitória que iria conduzir finalmente ao termo do regime político vigente.
Nos dias seguintes, a alegria do povo foi contagiante, enchendo as ruas e as praças de um país inteiro em festa, inebriado pela esfuziante novidade da liberdade conquistada. Cravos lançados ao ar ou transportados na lapela, ao som de canções antes proibidas e de gritos de que o povo unido jamais seria vencido, abraços entre amigos e desconhecidos ou entre militares e populares agradecidos… Era tempo de sonhar, de concretizar promessas adiadas, de projectar o futuro, de dar cumprimento aos objectivos traçados pelo Movimento das Forças Armadas: descolonizar, democratizar e desenvolver.
Passada a euforia, o nascimento da democracia trouxe meses conturbados, em que a súbita libertação de pulsões, aprisionadas por décadas de censura e repressão do Estado Novo, conduziu ao extremar de posições políticas e ideológicas, gerou conflitos e provocou instabilidade social. Passos titubeantes de um regime novo que, ainda criança, aprendia então a caminhar. No Parlamento, sucessivos e voláteis governos provisórios percorreram um tortuoso caminho que desembocaria nas primeiras eleições livres. Com todas as crises de crescimento, a democracia teve a sua juventude, sempre procurando um rumo próprio, até se tornar adulta, com todas as virtudes e defeitos de qualquer ser adulto.
Após a adesão à Comunidade Económica Europeia, em 1986, Portugal consolidou o seu regime democrático numa Europa aberta. Nos anais da História, para trás tinham ficado décadas de um país fechado sobre si mesmo, analfabeto e atrasado, estrangulado no seu desenvolvimento e na abertura ao exterior por um regime fascista que se regulava e sustentava a si próprio. O natural progresso e o desenvolvimento tecnológico dos anos posteriores iriam ajudar a consolidar o novo regime e dar novas perspectivas a um modus vivendi da sociedade portuguesa.
Passaram-se 46 anos desde o 25 de Abril de 1974. Portugal muito mudou desde então, para melhor. Alguns poderão dizer que essa mudança seria inevitável com a evolução política e económica da Europa Ocidental, na aproximação e entrada no séc. XXI. Mas o regime democrático teve também um papel muito importante nessa evolução, ao permitir que o nosso país abrisse os seus horizontes e abraçasse o futuro.
Como qualquer moeda que tem duas faces, o caminho que trilhámos após a Revolução dos Cravos não foi, e continua a não ser, imaculado. Nem só de aspectos positivos se reveste o Portugal de Abril. Em muitas componentes da nossa vida política, social e económica, ainda há um longo caminho a percorrer, nunca terminado. À modernização do nosso país, há que conseguir ganhar pontos, muitos pontos, no combate à fraude e à evasão fiscal, no combate à corrupção e ao tráfico de influências, há que garantir uma Justiça célere e eficaz, implementar uma mais justa distribuição da riqueza, valorizando o mérito e o trabalho, garantir condições de vida digna aos mais desfavorecidos, eliminando bolsas de pobreza, dignificar o Ensino e os nossos professores, fortalecer o Sistema Nacional de Saúde e honrar os seus profissionais, dar a oportunidade de realização e saída profissional aos nossos jovens, combater assimetrias… são tantas, tantas as arestas que ainda temos por limar!
Uma última palavra para um homem que não podemos esquecer, antes honrar: o Capitão Salgueiro Maia, cuja determinação e valentia tiveram um papel fundamental no dia 25 de Abril de 1974, para que o nosso país transitasse para um regime democrático, da forma como aconteceu. Um homem que fica na memória de quem viveu a Revolução dos Cravos e que, infelizmente, nos deixou cedo demais!

(O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.)


Autor Fernando Teixeira


quinta-feira, 23 de abril de 2020

O FUNERAL DA MINHA AVÓ, de Maria Cecília Garcia















Ainda tínhamos uma longa viagem pela frente antes de chegar à aldeia, percorrer os 69 km de estrada levaria mais de duas horas.
Naquela ilha, filha de um vulcão, de serras cortadas a pique, os caminhos subiam e desciam, contornavam as montanhas escarpadas, desciam vertiginosamente até ao nível do mar para poucos minutos depois estar novamente junto à serra e, através de íngremes estradas desciam, outra vez, enchendo os olhos com uma paisagem estonteante. 
            Uma ilha, com apenas meia centena de quilómetros de ponta a ponta, conseguia, através de sinuosas estradas, duplicar o seu tamanho.
Apenas enxergava as duas faixas de luz dos faróis do táxi verde e preto que iluminavam o caminho;, ao atravessar a cidade a profusa iluminação de Natal deslumbrou-me, mas imediatamente mergulhámos no negrume, encontrando apenas, aqui e acolá, as cintilações baças de uma aldeia que desaparecia rapidamente, como se fosse uma miragem, e era de novo o breu ao atravessar um furado, pequeno túnel escavado na rocha, assustador, estreito, de pedras húmidas, salientes, agressivas como a boca de um leão. Tudo me deslumbrava, mas só pensava em chegar. Enquanto não chegasse à aldeia não tinha chegado a casa, estava no caminho, na terra de ninguém. Os murmúrios das conversas no automóvel pareciam vir de longe, como um eco. Às perguntas que me faziam, eu respondia como um autómato, cega pela paisagem que não alcançava a ver mas tentava imaginar e as emoções que me assolavam.
Lembrei-me da minha avó, motivo desta viagem, e perguntei por ela.Partira na manhã desse dia, não esperou pela minha chegada, mas o seu corpo, vago e inerte, permanecia, para que eu a pudesse acompanhar até a sua última morada.
Sobressaltei-me. Constatei que nunca tinha ido a um enterro. Interroguei-me se saberia comportar-me numa situação dessas. O meu coração pulou quando me lembrei que não tinha ido preparada para um funeral…que roupa havia de usar?
Na azáfama dos últimos dias em casa dos meus pais, consegui comprar alguns tecidos e fazer duas ou três fatiotas para aumentar o meu vestuário, que não era grande coisa. Até fiz um casaco bem à moda, em tecido xadrez, mas não tinha pensado que iria precisar de roupa para um funeral, embora isso fosse previsível… Bem me podia desculpar pelo facto de viver num clima muito quente onde o preto era pouco usado…
Estas preocupações desapareceram quando, ao passar outro furad, e depois uma curva acentuada, divisámos algumas luzes dispersas e alguém disse; chegámos ao Jardim!
A emoção foi tanta que todos os pêlos se me eriçaram e o meu corpo entrou em alerta máximo, todos os sentidos se aguçaram e o coração batia tão depressa que nem o sentia.
Passava da meia noite, a chuva miudinha molhava a calçada onde eu escorregava, e os saltos finos dos sapatos se encaixavam entre as pedras sobre as quais me equilibrava penosamente.  As duas primas que me tinham ido buscar ao aeroporto, divertidas com a minha dificuldade em andar, seguraram-me pelos braços de tal maneira que os meus pés quase não tocavam no chão e era como se flutuasse no ar.
Percebi que a aldeia era minúscula e a iluminação das ruas fraca. Os postes de luz das ruelas, muito afastados uns dos outros, apenas transmitiam uma luz baça e amarelada riscada pelas finas gotas de chuva.
Ao chegar à vereda que dava acesso à casa da minha avó, compreendi de que a minha chegada era um acontecimento para a aldeia. Desde o início deste trilho até à casa da minha avó, que agora parecia-me tão pequena, um gentio se acotovelava abrindo alas à minha passagem.
Desejei que a terra me engolisse, ficar invisível, mas ao invés, usei o meu velho truque: quanto mais insegura ou amedrontada me sentia, mais me mostrava firme e agia de um modo que parecia natural e simples. Como uma rainha olhava à minha volta e sorria para todos, isso resultava sempre, e lá, bem no fundo, desfrutava o meu momento de protagonismo.
Como se não bastasse ir ao encontro da minha avó falecida, à espera num caixão aberto, tinha que enfrentar todos aqueles olhares curiosos e sorridentes “olá, eu sou a … sou tua prima. Olá, eu também sou tua prima, conheces-me? Lembras-te de mim?
 Era mesmo assim, ali todos eram primos, e aquele momento parecia tudo menos um velório.
Entrei com alguma dificuldade no pequeno quarto de paredes caiadas e tecto alto revestido de madeira, nas cadeiras encostadas à parede sentavam-se as pessoas mais velhas ou aquelas que eram consideradas importantes, os restantes estavam de pé à volta do ataúde ocupando todo o quarto e à medida que eu passava iam-se afastando, abrindo uma clareira que deixava à mostra o pequeno caixão no centro da sala. Percebi que todos estavam curiosos para ver a minha reacção, mas eu mesma não sabia qual seria.
Um caixão simples de madeira leve, revestido com tecido preto e dentro dele, um corpo franzino, um rosto pálido amarrotado pelos anos. Achei que devia derramar algumas lágrimas e esforcei-me para isso, embora o corpo que eu via naquela caixa negra me fizesse pensar apenas numa embalagem vazia. Chorei pela memória que tinha daquela mulher ao olhar para o seu rosto de cera e dei-lhe um beijo ao de leve. Não conseguia olhar para mais ninguém, sentia o murmúrio dos presentes, mas naquele instante, eu era uma ilha, o resto era mar que me rodeava.
A tia que havia de ser minha companheira durante a minha estadia na aldeia veio em meu socorro, consolando-me, tentou afastar-me, inutilmente, pois de um momento para o outro fiquei rodeada de pessoas que falavam todas ao mesmo tempo, me interpelavam, davam beijinhos e abraços, se apresentavam. Cada um queria saber tudo sobre os meus pais, os meus irmãos, o país…sobre mim. Pintaste o cabelo? Sempre o tiveste claro, mas…
Claro que não era o momento para falar do banho de água oxigenada que eu tinha feito algum tempo antes…
Quando a curiosidade ficou mais saciada e a noite já era madrugada muitos foram saindo, ficando apenas os filhos e familiares mais chegados a fazer companhia. De vez em quando, alguém começava a rezar e então ouvia-se um coro melancólico apenas interrompido por ais, fungos e assoadelas.
A minha tia, pessoa muito simples e bondosa, considerou que eu devia descansar um pouco depois de uma viagem tão longa e cheia de emoções, guiou-me até ao quarto onde eu iria passar a noite.
Era uma habitação grande, de paredes caiadas e piso de cimento, que estava atulhado com os móveis que tinham sido retirados da outra sala, para a poder transformar numa capela funerária. Estava dividido com um cortinado de flores desbotadas. Ao olhar para essa cortina tive um dejá vu…fui transportada para um outro quarto, muitos anos atrás, na terra que eu acabava de deixar, onde passei as primeiras noites sem a companhia da minha mãe.
Sentia-me extenuada depois de tantas emoções, mas demorei a adormecer. Ainda não conseguia arrumar as ideias e analisar tudo o que tinha acontecido, e os sons da noite, tão diferentes, distraíam-me. Era o cantar das águas que caiam das rochas e se derramavam nas levadas, o rumor do mar de inverno, a bravura das ondas que remexiam as pedras do fundo para depois lançar-se impetuosas e salgadas na praia, e cujo som ecoava na alta rocha reforçando o seu poder. Era o canto das cagarras, que eu nunca tinha escutado, aves nocturnas que, segundo os pescadores anunciavam com o seu grito estridente, “peixe p’ra amanhã, peixe p’ra amanhã…”
Tudo era tão estranho e natural ao mesmo tempo, estava tão cheia que me sentia vazia. Lembrei-me dos meus irmãos e dos meus pais, agora tão longe, e senti um aperto no peito. Começava a entender melhor o que sentiam aqueles que um dia tinham deixado a família e partido. Porém, era diferente, porque eu tinha voltado para o lugar de onde o meu coração nunca tinha saído.
O enterro foi uma cerimónia simples, sem choros ou grandes demonstrações de pesar. Era a lei da vida. O féretro foi transportado em ombros por alguns homens que percorreram rapidamente a centena de metros que separavam a igreja do cemitério. Um cemitério pequeno e florido, à beira do mar que parecia um jardim, apenas o cruzeiro que dividia os talhões e os altos ciprestes com o cheiro acre da maresia recordavam a finalidade daquele lugar. Muros baixos e brancos e uma porta de ferro, sempre aberta, convidavam a entrar quem passava e lembrava o destino final a que todos estamos condenados.
In: A Filha da Mãe- Os pedacinhos que faltavam

(A autora escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.)