segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

NATAL NA TERRA NOVA, de Maria Cecília Garcia















“Foi bem diferente o primeiro Natal naquela terra. Não houve as romarias na igreja, a carne assada no forno de lenha e o pão caseiro na mesa rodeada pela família.

Mas, em compensação, o Menino Jesus foi muito mais generoso! O meu sapatinho estava repleto de brinquedos como eu nunca imaginara! D todos só me recordo de um pequeno esquilo de corda que saltitou por toda a casa durante horas a fio até a corda ficar gasta! Deixou também um grande saco cheio de vestidos e outras peças de vestuário. Contudo, a minha alegria durou pouco tempo: a maior parte das peças não eram do meu tamanho, eram muito pequenas para mim…

Perante o meu desapontamento a minha mãe explicou que possivelmente o Menino Jesus não estava habituado a comprar roupas, ou então tinha-se enganado na porta e essas prendas eram para outra menina.

Foi com grande dificuldade que ela me impediu de sair com o saco da roupa e bater na porta das vizinhas até encontrar alguma menina que, certamente, teria recebido roupas de tamanho errado...
Nos anos seguintes, ao fazer o meu pedido de Natal, junto ao endereço deixava a recomendação ao Menino Jesus para que não se voltasse a enganar ao deixar as prendas no sapatinho.”

“O último Natal era o tempo em que me deixava levar pela fantasia e me enchia de esperança e expectativas. Era o tempo em que acreditava poder obter algo que desejava e que sabia que os meus pais não me podiam dar, e embora a maioria das vezes não me deixasse exactamente o que eu tinha pedido, nunca se tinha esquecido de mim.

Nesse Natal fui mais exigente do que era habitual, decidi pedir um jogo de loto, daqueles que tem uma esfera que se faz girar e deixa cair uma bola numerada. Isto ocorreu-me desde o dia em que, na casa da família Paabola, tínhamos jogado todos juntos e passado uma tarde memorável!

Escrevi uma grande carta ao Menino explicando exactamente o que desejava, fazendo ênfase na esfera distribuidora de bolas. Nessa carta, também pedia o que meus irmãos queriam, pois eles eram muito pequenos e não sabiam escrever. Meti a carta num envelope com a minha morada, escondi-a muito bem, e fiquei à espera que os dias voassem!

Esse ano, ao contrário do que era costume, o Menino Jesus chegara mais cedo e abrimos as prendas antes da missa do galo, à qual assistíamos sempre.

Os pacotes estavam distribuídos por toda a casa, o que nos proporcionava um excitante jogo e provocava gritos de alegria cada vez que uma das caixas era encontrada. Quando descobri a caixa que tinha o meu nome, o meu coração ficou pequenino.

Pelo volume dela pude ver imediatamente que a esfera dos meus sonhos não estava lá, ainda assim, procurei por todos os recantos, talvez ela estivesse noutra caixa…, mas não, a esfera não existia…

Mas porquê, se eu me tinha portado bem?! Sim, porque quando o Natal se aproximava, eu era a menina mais obediente e mais bem-comportada do mundo! Não queria que me acontecesse como a minha amiga Natércia, a filha do feitor da aldeia que, por ser desobediente e pouco amiga da irmã mais nova, encontrou, na chaminé, junto do sapatinho, em lugar das prendas que queria, pedaços de carvão e um cinto igual ao que o pai usava para lhe dar uns açoites de vez em quando, enquanto a irmã, pequena e boazinha, recebia lindas prendas…

O meu desespero aumentava à medida que ia abrindo os pacotes! Sentia crescer dentro de mim uma grande decepção misturada com raiva e tristeza, era como uma bomba a explodir dentro do meu peito. E então me zanguei com Ele. Gritei olhando para o céu, procurando apoio nos meus pais, mas estes ficaram em silêncio, olhando-se e olhando-me, entristecidos, e eu acreditei que sentiam a minha tristeza e partilhavam o meu desapontamento.

Essa noite, pela primeira vez, não me apeteceu ir à missa do galo, fi-lo contrariada, e foi uma noite cheia de recriminações ao Menino.

Mais tarde, minha mãe fez-me ver que haviam muitas crianças que não recebiam nenhuma prenda, que eu era muito afortunada, o que me custou muito a acreditar, mas depois, já mais serena, pedi desculpas ao Menino e prometi nunca mais fazer exigências, só então me senti em paz, e… muito boazinha.

E como o tempo tudo cura, nos dias seguintes o jogo de loto, tão simples, proporcionou muita animação, mesmo tirando as bolinhas numeradas de um saquinho. E ninguém se lembrou mais da desejada esfera.

Acreditei no Menino Jesus até aos 15 anos. A minha mãe já não suportava ver-me discutir com as vizinhas que se atreviam a pensar que quem deixava os presentes de Natal era o pai. Eu sentia pena delas por não terem a sorte de serem visitadas pelo verdadeiro menino. Então ela achou por bem dizer-me a verdade.

Custou-me muito aceitar a verdade! Senti-me traída e envergonhada pela minha ingenuidade, e muito desapontada... Agora a quem ia pedir que cumprisse as minhas fantasias? Se eram os pais quem deixava as prendas, então já não havia esperança...

Nunca mais escrevi cartas nem fiz mais pedidos ao Menino Jesus e o Natal perdeu muita da sua graça.!

in História em Pedacinhos - As casas da minha infância e os temos de chá sem açúcar.  Maria Cecília-Chiado Books,2016

Feliz Natal para todos! Que todas as crianças recebam uma prenda de alegria e amor!

domingo, 22 de dezembro de 2019

SOMBRA DE QUATRO PATAS, de Vanessa Lourenço















Era um ser humano, cuja sombra caminhava em quatro patas. Não porque fosse diferente de outro ser humano qualquer, mas porque cedo na vida entendera que valia a pena ouvir os conselhos dos mestres. Pesava o que lhe diziam com atenção, e dissecava as suas mensagens como quem descasca uma fruta suculenta, e se maravilha com o sabor guloso que cada gomo maduro tem para oferecer. Só que por vezes (e encolhia os ombros, como quem pede desculpa por partilhar uma verdade incondicional e irrefutável) ... esses mestres caminhavam em quatro patas. Ou percorriam os céus, planando por vezes como papagaios de papel que se esqueceram de regressar ao chão. Ou ainda... não nos alonguemos. Na verdade, os mestres assumiam uma variedade de formas imensa, todos empenhados em se fazerem entender por aqueles que os quisessem ouvir. Mas a sombra dela, essa caminhava em quatro patas. Porque sabia que nem todos os mestres usam apenas duas para se deslocarem. E foi assim que conheceu o mestre Chapim Azul.

Os mestres têm sempre sentido de humor, e foi por isso sem surpresa que nesse dia, ele surgiu sem se fazer anunciar. Ela estava de visita à família e, dir-se-ia por acaso, reparou no pequeno Chapim Azul pousado num cabo de um poste de electricidade. Sorriu-lhe imediatamente, porque assim que nele pousou os olhos percebeu que estava na presença de um mestre. E percebeu isto porque ele a olhava, saltitando para trás e para diante ao longo do fio, as penas do alto da cabecinha erguendo-se de entusiasmo. “Repara em mim”, parecia dizer.

- Bom dia, mestre Chapim!

O pequeno passarinho parou de saltitar pelo cabo e inclinou-se para a frente, e naquele instante ocorreu-lhe, a ela, que se sentia como se estivesse do lado errado de uma qualquer jaula num jardim zoológico. Desta feita não era ela que observava o animal, era observada por ele. O pequeno passarinho inclinou-se ainda mais e ergueu de novo as penas do alto da cabecinha, intrigado com o que ela estava a pensar:

- O que foi?

Ela respirou fundo e encolheu os ombros, antes de devolver à pequena ave:

- Nada de especial... estava aqui a pensar que normalmente, são os seres humanos que observam as outras espécies. E desta vez, a observada sou eu.

O pequeno pássaro chilreou e atirou o corpo pequenino para trás, divertido, o que o fez desequilibrar-se por um momento. Respondeu:

- Achas mesmo que isso é verdade?

Ela franziu o sobrolho, desconcertada:

- Claro que é verdade. Basta ver a quantidade de gente que assiste a documentários sobre a vida selvagem, que vai o jardim zoológico ou sai apenas para rua para os encontrar!

O pequeno passarinho avançou mais um pouco ao longo do cabo e voltou a inclinar-se para diante, na direcção dela. Disse:

- Quer dizer que achas que os seres humanos é que costumam observar os outros animais porque não temos televisões e não vos prendemos em jaulas?

Ela abriu a boca para falar, mas não saiu nenhum som. Aquilo fazia sentido? Por fim, respondeu:

- Tens razão, e lamento que assim seja.

O mestre Chapim Azul fixou nos dela os pequenos olhos brilhantes. E disse:

- A única forma de cada um de nós mudar o mundo, é fazer a sua parte. E pelo nosso mundo fora, contamos com a ajuda de todos os seres humanos que, como tu, possuem uma sombra que caminha em quatro patas. Porque vocês param para nos ouvir sem vergonha, lutam para nos ajudar com determinação, e acreditam do fundo do coração que todos os animais são mestres. E que todos caminhamos, lado a lado, para curar este planeta que é a nossa casa.


sábado, 21 de dezembro de 2019

QUANTOS DE VÓS, de Mafalda Pascoal



Quantos de vós
se quedaram
perante um céu todo estrelado?
Quantos de vós
Quis sentir a quietude
Onde está envolta a lua?
A quantos de vós
Despertou a atenção para observar
Uma teia de aranha cheia de orvalho?
Quantos de vós quis poupar
A vida de uma mosca?
Quantos de vós
Admiraram
O vai-vem das formigas?
Quantos de vós
Responderam com verdade
a todos os porquês de uma criança?
Quantos de vós
Não se sentiram orgulhos de serem brancos
ao contemplarem um preto?
Quantos de vós disse:
Basta
de hipocrisia, de cinismo
Basta
de olhar só pra mim
Basta
de só ver os erros do outro?
Quantos de vós disse:
Obrigado
Porque acordei
Obrigado
Porque posso ver, ouvir, falar, andar, raciocinar?
Quantos de vós quer,
Aqui e agora,
Agradecer todas as benesses
Que a todo o momento nos são concedidas?



sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

NOITE DE NATAL, de MBarreto Condado















Era uma vez numa qualquer cidade de um qualquer país o dia de Natal, neste local era celebrado das mais diversas maneiras pelos seus habitantes, com mais ou menos família, com e sem o pinheiro enfeitado, com ou sem luzes a piscar, com ou sem presépio, com mais ou menos comida, com mais ou menos presentes, com e sem…

Era uma cidade como tantas outras onde ao final do dia as pessoas se reuniam, muitas sem entenderem o motivo para festejarem, não era o frio ou o calor que as aproximava, não eram guiadas pelas suas acções, tivessem sido melhores ou piores, mas como em todas as outras cidades de um qualquer país nesse dia era um frenesim de compras, encontrões, engarrafamentos e pior que tudo má disposição. Naquele dia as pessoas daquela cidade tentavam redimir-se de todo o mal que pudessem ter feito durante o ano irradiando uma falsa luz de felicidade e prosperidade transformando-se no que não eram pelos motivos menos correctos.

Não sabiam o que os unia naquela noite, alguns tinham a leve noção de que celebravam o nascimento de uma criança num curral e que por esse motivo deviam ser mais humildes. Outros pensavam que era um absurdo afinal no séc. XXI a criança só podia nascer num resort rodeado de amas, com um SPA para a mãe descontrair com as amigas e um campo de golfe onde o pai pudesse descansar com os amigos do stressante choro.

Seja qual fosse o motivo que levava os habitantes daquela cidade a celebrar o Natal sentiam que particularmente naquela noite deviam faze-lo com alegria rodeados daqueles que amavam relembrando com saudade as almas que já tinham partido deixando saudades.

A verdade é que naquela cidade como em tantas outras em qualquer país, existia na maioria das casas uma árvore enfeitada com luzes de várias cores a tremeluzir, inúmeros presentes, uma lareira acesa com meias penduradas, azevinho espalhado pela casa, uma mesa cheia de iguarias, memórias, brincadeiras, gargalhadas, uma história, uma fotografia e até mesmo nos raros momentos de silêncio os corações unidos aqueciam a noite.

E ao final daquele longo dia em muitas das casas daquela cidade num qualquer país do mundo, onde podia nevar ou fazer sol, onde era de dia ou de noite, onde o homem das barbas brancas e fato encarnado conduzindo um trenó puxado por renas podia ou não aparecer a única certeza que tinham é que mais um ano passara e estavam vivos e com saúde.

E se esse dia é especial porque as almas de quem já partiu nos observam e celebram connosco através dos véus que se abrem, acredito ser possível um Feliz Natal para todos numa qualquer cidade de um qualquer país.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

PRÓLOGO, de Anita Dos Santos















O calor era abrasador.

Normalmente as horas da tarde eram sempre muito quentes.  O calor subia do chão em ondas que se viam, e a deixavam por vezes perplexa.

Ela era a mais nova de todos os onze irmãos. Ao mais velho nem tinha chegado a conhecer. Morreu antes dela ter nascido devido ao rebentamento de um foguete numa mão. O tétano levou-o com apenas dezanove anos, mas já um homem feito.

Do irmão seguinte, também não tem muita ideia. Lembra-se de um dos outros irmãos lho ter apontado de longe, um dia na cidade, para lhe dizer que também era deles, tinha ideia de ter ouvido histórias sobre como casou com a namorada do irmão mais velho, quando este morreu, por ela estar à espera de uma criança.

Alguém tinha de fazer o que era correcto, só que ele não perdoou ter de ser ele a tomar o lugar que pertencia ao irmão mais velho.

Eram quase todos homens. Só havia mais uma outra irmã, mais velha do que ela uns sete anos.

Depois havia a mãe.

Uma mulher minúscula, com uma fibra de antes quebrar que torcer, e tinha de ser assim mesmo, para dar conta dos filhos, da casa, de fazer com que a comida aparecesse, fosse de onde fosse… e do marido…

O pai. 

Ele era o eixo em torno de que se tudo movia, dentro e fora de casa. A sua vontade era soberana, e quem assim não concordasse tinha de haver com a sua mão pesada da qual não fazia economia.

Assim como a mãe era pequenina, o pai tinha a altura de um gigante, ou assim lhe parecia para a sua pequena estatura de três anos de idade. Os irmãos também eram altos, mas nenhum se lhe comparava. Tinha uma figura imponente, de largos ombros e cintura estreita, sempre cingida por uma cinta apertada, que era enrolada, bem esticada.

Ia ao mar, no tempo permitido da pesca. Era arrais de uma embarcação e, todos os rapazes começaram cedo a ir à pesca, logo que tiveram idade.

A mãe, quando podia, trabalhava na fábrica de conservas.

Quando chegava o dia em que o soldo era pago, todos estavam de prontidão para debandar ao primeiro sinal. Ele chegava sempre tarde, bem bebido e, se ainda houvesse algum dinheiro no bolso, era uma sorte.

O barómetro, era a sua deixa preferida, “Quem dentro, dentro. Quem fora, fora!”. E a porta era trancada nas suas costas.

Quem tinha a agilidade suficiente para saltar uma janela e escapar, conseguia fugir. Quem ficasse, já sabia que iria provar daquelas mãos que não perdoavam a ninguém.

Os rapazes eram ágeis, ou espertos para nem sequer entrar em casa. A irmã, fugia para a vizinha, e dela ninguém se lembrava… A mãe, essa, ficava sempre em casa, à espera do pai, ou para se colocar em frente de quem não conseguia fugir.

A ela, ele sabia que iria encontrar sempre para descarregar a sua raiva, a sua frustração, o seu feitio…

Como a mãe dizia, era o feitio dele.

Ela, escondia-se debaixo da cama dos pais, fazendo-se mais pequenina, talvez assim não dessem com ela.

Chorava em silencio, em simultâneo com as pancadas que a mãe apanhava enquanto tentava chamar o pai à razão.

Houve uma época em que ninguém soube dele. O barco fez-se ao mar, e não houve mais noticias.

Um dia, ao fim da tarde, ela estava sozinha em casa, no quintal atrás do poço, e viu chegar. A figura inconfundível. Alto, magro, vertido de negro, camisola de gola alta.

Os passos foram-se tornando mais lentos até chegar à porta das traseiras onde parou por fim.

Espreitou de trás do poço, com as pernas a tremer, e viu-o quieto, de cabeça baixa. Depois ajoelhou-se e beijou a pedra do degrau da entrada.

DE ONDE NUNCA SAÍ - MARZAGÃO, de Helder Menor















Estávamos em abril e a primavera tinha chegado quente. Navegava num Clio com cinco velocidades e três portas. Saí depois de jantar e fiz-me à estrada. Estava uma noite sem vento e a lua cheia iluminava a estrada que foi ficando para trás.

Como mantimentos, levava um termo de chá preto, ovos cozidos, um pão alentejano e cigarros. Foi ainda no século passado e navegava solitário. A banda sonora eram duas cassetes: o Dylan e a Brigada Vítor Jara.

Em Badajoz enchi o depósito porque naquele tempo o combustível era mais barato em Espanha. Coisas de outros séculos...

Atravessei o estreito ao nascer do dia no primeiro navio para África.

O sol nasceu do lado do Mediterrâneo e a noite fugiu para o Atlântico. O carro no porão e eu no bar do ferry a beber chá preto e a ver a paisagem.

Em Ceuta não me demorei, foi o tempo de comprar um pack de tabaco e chegar à fronteira com o Reino de Marrocos. Passaporte, documentos do carro e o papelinho preenchido com dados mais ou menos inventados sobre itinerários e locais onde pretendia alojar-me. Uma hora de burocracia aduaneira. Segui para sul. De Ceuta a Tanger é um pulinho. O Atlântico a bombordo a acompanhar.

A proa apontada para Arzila. Turistas alemães colonizavam a esplanada da fortaleza. Dealers de terceira categoria tentavam impingir haxixe manhoso. Desgostei dos ares e aproveitando o vento, levantei ferro.

O sol alto encadeava e a noite em branco ao volante fez-se sentir. Numa bomba de gasolina, abasteci, pus o banco para trás e devo ter dormido duas ou três horas. Acordei ao anoitecer com um gajo a bater no vidro a querer vender-me queijo fresco. Comprei o queijo ao homem. Ainda tinha pão, mas já se tinham acabado os ovos cozidos. O queijo era bom, de cabra temperado com orégãos.

Segui viagem para sul. Rumando a Kenitra, ponto de paragem das naus para abastecerem de água e frescos e lugar onde queria ancorar porque tinha um amigo de um amigo que me ia mostrar as vistas.

Cheguei a Kenitra já noite cerrada. Deviam ser uma onze ou meia-noite. Definitivamente já não era hora para telefonar para casa de ninguém. Naquele tempo ainda não haviam telemóveis ou se haviam não eram para o mim. O meu contacto em Kenitra era um amigo de um amigo que tinha estudado medicina veterinária na União Soviética. O muro havia caído há meia dúzia de anos, mas alguns laços ainda se mantinham. Eu estava cansado, por isso decidi procurar alojar-me e na manhã seguinte faria o telefonema.

Kenitra fica encostada ao mar numa planície agrícola com pomares e hortas à volta de ribeiros. De carro deambulei pelo centro da cidade adormecida. Pouca gente nas ruas, pouquíssimos carros a circular. Perto da praia vi um letreiro iluminado que dizia Hotel Atlantic com duas estrelinhas azuis a classificarem as instalações. Agradou-me o parque de estacionamento. Parei e entrei. Na receção, que funcionava no vão das escadas, um balcão anormalmente largo onde estava deitado um homem a dormir. O recepcionista ressonava aconchegado com um cobertor e um livro de registos ao lado.

Não deu pela minha entrada.

Bati devagar no balcão-cama.

Acordou e falou-me em árabe. Disse-lhe boa noite em português e ele perguntou-me o que é que eu queria em francês. Expliquei-lhe que queria um duche e quarto para dormir. Deu-me o livro de registos para preencher e uma chave atada a um bocado de madeira onde estava escrito o número doze. Primeiro andar, segunda porta do corredor. Subi com a mochila ao ombro. O quarto tinha o teto alto, chão de mosaicos, uma varanda a toda a largura, uma cama, um cabide e um chuveiro no canto diretamente para o chão. Mais nada. Banhei-me e dormi como um anjinho que era então e que às vezes ainda sou.

No dia seguinte liguei ao amigo do amigo. Disse-lhe onde estava alojado: Hotel Atlantic. Ele riu-se e explicou-me que era um bordel, mas que estava bem entregue porque é um sítio seguro, limpo e barato. Passado meia hora buscar-me e levou-me a ver os seus pacientes: cavalos e camelos. Depois fomos almoçar, cabrito assado e vinho tinto feito em Marrocos servido em garrafas de coca-cola. O vinho era bom e acompanhava bem com o cabrito. A tarde passámos na mesa a comer, beber e contarmos histórias... até nos virem interromper para que o meu anfitrião fosse atender uma doente. Seguimos para uma quinta nos arrabaldes onde ao anoitecer, assisti ao milagre de vida ajudando na cesariana de uma camela. Ali mesmo, no chão de terra, com uma lona no chão a servir de mesa de cirurgia. Primeiro a camela foi anestesiada, depois com jeitinho foi deitada na lona. Eu segurei a lanterna, o dono da camela trouxe água quente e o meu amigo veterinário rapou o ventre inchado do animal e com o bisturi fez o corte de onde tirou o camelozinho. Depois cozeu o golpe, limpou, desinfectou e deu uma injeção para a mãe camela acordar. O camelo bebé ficou de pé a mamar na mãe quando nós viemos embora. Já tinha passado da hora de jantar e não tínhamos fome. Por isso fomos beber vodkas a um bar clandestino. Para ensopar o vodka comemos harira que é uma sopa de grão com borrego, uma sopa grossa que sabe a cominhos, picante e limão. Voltámos ao vinho tinto a acompanhar o queijo de cabra que sobrava com o pão alentejano sobrevivente.  O vinho temperado pela proibição ainda sabia melhor.

Voltei nem eu sei bem como para o hotel eu dormi enquanto se vendia o amor. Na manhã seguinte, quando quis pagar as duas noites, não deixaram, explicaram que estava paga a estadia pelo senhor proprietário da camela.

Voltei à estrada. Virei à esquerda para leste. Direção Alkzar er Kirb, Alcácer Quibir do Sebastião desaparecido.

Quis desviar-me de Rabat onde o rei governava com mão de ferro. Evitei a Casablanca caótica com o seu trânsito de cidade grande. Meti-me por estradas estreitas e poeirentas entre planícies cultivadas e aldeias de beira de estrada

Em Alcácer Quibir comi e não achei, nem vestígios lusos, nem restos da armadura do rei desaparecido. Agro-negócio e armazéns tipo mercearias. Burros, camelos e homens. Calor, pó e demasiado longe do mar. Depois de almoçar carne grelhada, dormi a sesta dentro do carro à sombra de uma arvore centenária. Acordei cheio de energia e decidi continuar.

Segui para sudoeste, direção ao mar, direção a El Jadida. Queria ficar em Marzagão onde sabia que parava outro amigo de um amigo. Um holandês que se tinha apaixonado por Marrocos e que tinha um barco onde morava e que vivia de alugar o barco para viagens. Cheguei ao final do dia. Procurei o amigo do amigo. Não estava. Tinha zarpado há dois dias com americanos ricos com destino às Canárias. Fui ver onde ficar. Aluguei um quarto numa pensão baratinha perto de porto de pesca e fui jantar. Uma tasca com mesas compridas onde serviam peixe frito diretamente em cima da toalha de oleado. O peixe acompanhava com pão. Encontrei uns espanhóis ganzados com quem bebi jerez e partilhei uma garrafa de porto. Apareceram outros com wiskie marado. Bebemos todos demais.

No outro dia de manhã acordei com uma ressaca deste tamanho. Tomei um pequeno almoço de sumo de laranja e fui para a lota ver o peixe chegar.

Traineiras terceiro-mundistas descarregavam pescado de grande qualidade. Cabazes de verga com tecas misturadas. Robalos, cavalas, garoupas, corvinas, pescadas, carapaus e sardinhas tudo ao molho. Entre as caixas uma dourada chamou por mim. Mais de um quilo de dourada. Comprei-a barata pelo valor de uns três litros de gasolina. Fui procurar carvão e pelo caminho comprei dois tomates maduros, pão e azeitonas. Acendi o lume na areia da praia. Estava calor, mas não excessivo. Assei a dourada devagar e, sentado na areia, comi o melhor peixe assado da minha vida. Lavei as mãos e a boca na água do mar e reconfortado decidi ir ver a cidade.

Já quase não tinha ressaca. Tinha lido sobre a conquista e reconquista de Marzagão. Os livros marroquinos editados em francês, falavam na fortaleza portuguesa e na cisterna portuguesa. Fui ver onde eram.

Um homem com um cartão ao peito a dizer guia-oficial queria impingir-me uma visita guiada onde eu pagava para ir a ver as mesmas coisas que podia olhar à borla. Recusei. Acompanhou-me durante uns passos na sua insistência. Quando percebeu que eu era português e que não lhe ia comprar nada, apontou para uma muralha antiga e disse:

-- Foi ali que penduramos os 18 portugueses!

A frase soou-me como uma vingançazinha histórica por eu não alinhar no negócio que me propunha.

Para o calar respondi:

-- Se quiseres temos lá mais para enforcar, e olha, faço-te barato por ser para ti, e todas as semanas te posso mandar outros dezoito que não esgotamos o nosso stock de filhos da puta!
Entretanto mudámos de século e de milénio. Muitas luas passaram depois desta conversa com o guia-oficial de El Jadida. Muita coisa se alterou, outras coisas permanecem. Se há produto que continuamos a ter de sobra para exportação nesta terra molhada de sal atlântico são filhos da puta para pendurar. E não me parece que estejam em vias de extinção.


quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

À MODA DO PORTO, de MBarreto Condado
















Tanto já foi escrito sobre o Porto, mas nunca o suficiente para descrever a magia que esta cidade carrega na sua história. Não serei eu que a completarei, mas deixarei o meu testemunho sobre os sentimentos dispares que sinto sempre que chego.

Tudo nos transporta para tempos mágicos, carregados de mistérios e desafios, o simples facto de atravessar o rio faz-me sentir que é debaixo da protecção dos Deuses, saudada pelo quente esvoaçar das asas dos Dragões que a protegem.

A quente neblina que me abraça e transporta através de tempos perdidos.

Se fechar os olhos e respirar fundo consigo ouvir o barulho dos barcos Rabelo aportando na ribeira carregados de pipas de vinho do Porto, as vozes das varinas que me chamam gritando “meu amor, minha querida”, consigo ouvir o resfolegar dos cavalos transportando os seus nobres cavaleiros, vozes de crianças brincando despreocupadas correndo descalças por qualquer beco ou ruela.

Foi aqui que Portugal foi buscar o seu nome, mas foi também aqui que nasceu o Infante, aquele que nos conduziria à descoberta de novos mundos.

Não quero abrir os olhos com medo que a magia desapareça. Porém, quando o faço percebo que toda a alegria, a vida, a simpatia, a esperança e o caloroso recebimento das gentes do Norte estão sempre presentes.

Sinto-me bafejada pela sorte, e independentemente desta vez a minha visita ser muito curta, não deixo de apreciar o rebuliço de pessoas que sobem e descem a Avenida dos Aliados, nem tão pouco dos inúmeros turistas que se sentam nas esplanadas bebericando o seu copo de vinho do Douro.

Alguns pedem Francesinhas, Bacalhau à Gomes de Sá, os mais ousados a medo pedem Tripas, um pouco relutantes quando percebem do que são feitas, contudo o sabor acaba por levar a melhor, muitos utilizam o pão para limpar os pratos.

Antes de partir, ainda tenho tempo de beber um cimbalino, trocar alguns bitaites, e como não há espiga, e eu sou fina como um alho prometi voltar.

Mas desta feita ficarei instalada no Palácio das Cardosas e comerei uma francesinha vegetariana (que a meu ver se deveria chamar uma Portosinha).

E na hora da minha despedida, olhei para a Lua e percebi o que com o seu quarto crescente me tentava dizer.

A neblina voltava a cobrir a cidade e enquanto atravessava a ponte sob a protecção dos Deuses e o suave esvoaçar dos seus dragões, pude sentir o cheiro do Douro e o grito das gaivotas que de mim se despediam.