quarta-feira, 18 de abril de 2018

CINEMA | ATÉ NOS VERMOS LÁ EM CIMA

ESTREIA 19 DE ABRIL

Filme premiado do cinema - e da literatura - francesa estreia em Portugal




ATÉ NOS VERMOS LÁ EM CIMA, filme realizado por Albert Dupontel conta a história de Edouard (Nahuel Pérez Biscayart) (120 batimentos por minuto) e de  Albert (Albert Dupontel), dois ex-combatentes da primeira guerra mundial, com muito pouco em comum, a não ser o ódio ao Tenente Pradelle (Laurent Lafitte) (Ela) que tentam sobreviver na Paris dos anos 20, marcada pela Guerra.

Vencedor de 5 Césares nas categorias de Melhor Realização, Melhor Adaptação, Melhor Figurino, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte, ATÉ NOS VERMOS LÁ EM CIMA é um drama cheio de emoção, beleza e humanidade, que conta uma história de amizade onde o bizarro e o sonho andam de mãos dadas.

Baseado no romance de Pierre Lemaitre, Prémio Goncourt 2013, o filme recorre à fantasia como recurso contra os traumas de infância e da guerra, com uma sensibilidade única e encantadora, tendo recebido uma excelente receção por parte da crítica.


Sinopse
Em novembro de 1918, antes do Armistício, o talentoso artista Edouard Pericout (Nahuel Pérez Biscayart) salva a vida de Albert Maillard (Albert Dupontel). Os dois homens não têm nada em comum para além das suas experiências na guerra e o seu ódio pelo Tenente Pradelle (Laurent Lafitte).
Uma ordem de Pradelle para um derradeiro e insensato ataque acaba por resultar na destruição das vidas de Edouard e Albert. Isto leva a que os três homens tenham de criar novas estratégias para a sua sobrevivência, sempre unidos pela tragédia do campo de batalha.
Enquanto Pradelle ganha a sua fortuna com os que perderam a vida, Albert e Edouard, ambos condenados a viver no rescaldo da 1ª Guerra Mundial, vão planear o seu próprio esquema de proporções monumentais.
Inspirado no romance homónimo de Pierre Lemaitre, vencedor do Prémio Goncourt.

Prémios César 2018
Melhor realização: Albert Dupontel
Melhor Adaptação: ALBERT DUPONTEL, PIERRE LEMAITRE
Melhor Figurino: Mimi Lempicka
Melhor Fotografia: Vincent Mathias
Melhor Direção de Arte: Pierre Queffelean




CRÓNICA | Noturno arco-íris, O trovão na Serra de Sintra | HELDER MENOR





















Estávamos no começo de abril e tínhamos à volta de vinte anos. Eramos quatro e apanhamos o comboio no Rossio para Sintra. Levávamos nas mochilas o essencial para três ou quatro dias de liberdade. Uma tenda grande e velhinha, chouriços para assar, latas com atum e salsinhas, um fogão a gaz, esparguete, sonhos, fantasias, vinho, aguardente e chocolates. 

Saídos da estação, subimos e embrenhámo-nos nos matos. O mais longe possível da civilização, assim quis. Do estradão de terra, viramos à direita por um caminho estreito que subia íngreme. No cume da colina, longe do mundo montamos a tenda. Instalamo-nos para desfrutar da serra, da privacidade que o mato dá e da companhia uns dos outros. As duas meninas organizaram a tenda e a comida e os rapazes, decidimos ir apanhar lenha e cavar uma "casa-de-banho”.

Quando ficou de noite acendemos uma fogueira dentro da cova que nos aquecia e dava para assar chouriços, mas suficientemente discreta para ser invisível a quem estivesse afastado. Estávamos os quatro animados, comemos e bebemos vinho. Foi então que começou a levantar-se vento e a pingar. 

Recolhemos dentro da tenda para jogar às cartas e fumar através do fecho da porta. A chuva e o vento não davam tréguas. Sobretudo o vento cada vez mais forte.  Desistimos dos cigarros.

O que é que fazemos o que é que não fazemos… O vento respondeu rasgando o sobre-teto da tenda. Ai Ai e agora? Agora aguentamos enquanto o pano do teto der....

Não deu muito. Minutos depois também o pano fino de algodão apodrecido se rasgou e estávamos expostos aos elementos, encharcados e encolhidos.

Decidimos desmontar e descer até à vila. Assim como assim, já estávamos molhados e na estação dos comboios, sempre tínhamos um teto. A estação estava a uma hora de caminho... Mas é quase sempre a descer, alguém animou.

Encharcados, carregados e de lanternas acesas iniciamos a descida pelo caminho ainda mais estreito pela escuridão da noite. Estávamos vagamente desorientados. Do lado direto do caminho que não reconhecíamos, uma casa que não tínhamos visto na subida. As janelas iluminadas. À nossa frente e fazendo-nos parar à chuva, um são bernardo enorme, felpudo e amistoso ladrava de contente e dava saltos a nossa volta. No pescoço uma placa que dizia Trovão. Ladrava para nós, corria para o portão da casa e voltava a correr para nós a ladrar. 

Foi então que se acendeu uma luz amarela por cima da porta e através dela surgiu uma senhora. Eram precisamente meia-noite e três minutos.

A senhora, sem idade, tinha os olhos azuis muito claros e o cabelo tão louro que parecia branco. Estava vestida com um daqueles quimonos japoneses que algumas pessoas usam como roupão, por baixo, provavelmente o pijama porque trazia calçadas pantufas e meias grossas de lã.

- Não tenham medo do Trovão que não faz mal!!! Mas o que é que estes jovens, andam aqui a fazer numa noite destas?
Contamos a nossa história. A senhora ouviu educadamente e concluiu.

- Não vos digo para ficarem cá dentro da casa, porque não seria apropriado, afinal somos de épocas diferentes... Mas podem abrigar-se na garagem que esta vazia.
Foram estas as palavras. Agradecemos e aproveitamos. 

A garagem estava de facto vazia. Lá fora a chuva e o vento continuaram. Minutos depois a mesma senhora loura voltou com toalhas secas e com um tabuleiro onde fumegavam quatro canecas de chá.

Batizamos o chá com macieira de uma garrafa sobrevivente do diluvio, despimos a roupa molhada e secámo-nos com as toalhas. Pusemos os sacos camas em cima de duas mantas que e deitámo-nos procurando aquecer. Dormimos tão profundamente como se pode dormir, quando se tem vinte anos, se está cansado, vagamente bêbado, saciado e feliz. 

Acordei com o som da água a pingar no chão ao lado da minha cabeça. Estranhei porque na noite anterior o telhado da garagem não me tinha parecido tão decrepito. Pensei em levantar-me para fazer xixi, mas estava nu debaixo dos sacos camas e levantar-me pareceu-me um sacrifico maior do que aguentar mais um bocadinho. Fechei os olhos.

Então ouvi o grito de uma das nossas parceiras e o estilhaçar das canecas de louça da noite anterior mais o som estridente do tabuleiro de lata a cair no chão. 

Levantámo-nos todos. Abrindo a porta da garagem que caiu no chão. E vimos.

A casa era uma ruína. O jardim completamente coberto por mato. Onde foram as janelas havia apenas o buraco na parede. Nem portas nem vidros. O mato tinha crescido alto e tapava todos os caminhos. O portão da frente, por onde tínhamos entrado estava ferrugento e fechado com uma igualmente ferrugenta corrente grossa. No chão em frente ao que foi a porta da cozinha, uma lápide com um baixo-relevo de um cão: Trovão, nascido em janeiro de 1946 falecido em março 1959.

Não fugimos a correr, mas também não ficamos a falar sobre o sucedido. Arrumamos o que havia para arrumar e saímos. Depressa descemos à vila com sol que tinha aberto e depressa apanhamos o comboio para Lisboa. Não voltamos a falar na casa, nem na senhora nem no Trovão. Nunca mais.


terça-feira, 17 de abril de 2018

LITERATURA | Tempo Suspenso de Elizabeth Jane Howard | EDITORA ASA - Tradução de Elsa T.S. Vieira

Nas livrarias a 17 de Abril



Sussex, 1939

Na casa de campo dos Cazalet as janelas estão tapadas e os alimentos são racionados. Sobre a mansão outrora repleta de sol e de risos paira a negra sombra da guerra. As crianças despreocupadas da família deram lugar a adolescentes apreensivos, cada um com os seus desejos e temores.

Louise, agora com dezasseis anos, acalenta o sonho de se tornar atriz. Clary dedica-se à escrita, e acredita fervorosamente que ainda voltará a ver o pai, desaparecido em combate. E Polly, de catorze anos, carrega um fardo que precisa de partilhar. Três jovens entre a infância e a idade adulta, desesperadas por dar um sentido às suas vidas mas dolorosamente conscientes dos perigos que se avizinham.

No segundo volume da saga Cazalet, Elizabeth Jane Howard volta a pintar o retrato de uma época através dos olhos de uma família. Com uma autenticidade conseguida apenas por quem viveu nesses tempos, a autora mostra-nos a realidade de uma sociedade em profunda mutação.

LITERATURA | Um Amante no Porto de Rita Ferro | EDITORA DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 17 de Abril



Uma história vibrante, escrita à desfilada, que segue a vida de Álvaro, um rapazinho do Porto, nascido de uma família burguesa da classe média, desde a escola primária até ao ensino universitário, passando pelas festas, o encontro com os «meninos da Foz», o hóquei em patins e as bandas musicais do seu tempo, a paixão pelos cavalos e pelas mulheres, os grupos de estudantes e a Mocidade Portuguesa, até ao dia em que, já divorciado, encontra Zara, uma lisboeta livre, impetuosa e indiscreta, vinte anos mais nova, que pressente nele, por trás da aparente candura da sua história, uma verdade obscura que dificilmente aceitará. Uma relação dura, sobressaltada e passional, feita de incerteza, de traição e de devassa, em que o amor se degrada com a desconfiança e onde quem esconde pode não encobrir tanto como quem indaga.

Um Amante no Porto é mais um surpreendente romance de Rita Ferro, que é também o retrato de uma época e uma profunda reflexão sobre o amor, no estilo directo e desafectado que é seu timbre inconfundível, com a competência narrativa a que já nos habituou.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

LITERATURA | O Fogo Será a Tua Casa de Nuno Camarneiro | EDITORA DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 17 de Abril



O escritor Nuno Camarneiro decide viajar até uma zona de guerra no Médio-Oriente para melhor entender as razões do conflito e de quem nele participa, juntando-se a um jornalista turco. Mas o que começa por ser uma visita de estudo transforma-se rapidamente num pesadelo, quando ambos são sequestrados por um grupo de fundamentalistas islâmicos e encerrados num barracão que partilham com outras vítimas: uma freira ortodoxa, um engenheiro holandês, um soldado americano e um francês misterioso e suicida.

Ao longo de várias semanas, terão de encontrar estratégias de sobrevivência para não enlouquecerem nem perderem a esperança: contam histórias, revisitam memórias, inventam jogos e vidas inteiras, tornam-se guerrilheiros da ficção.

Numa guerra entre homens, ideias, deuses e civilizações, não há partes neutras, e é difícil distinguir as vítimas dos agressores. A verdade escreve-se em muitas línguas, como as histórias, os romances e os sonhos de cada um.

CRÓNICA | Empatia | VANESSA LOURENÇO

Na qualidade de seres vivos senscientes, muitas vezes nos deparamos com situações em que pessoas que nos são próximas se encontram em sofrimento de algum tipo, e não conseguimos evitar sentir empatia e uma vontade imensa de os ajudar. De certa forma é uma reacção inata dos seres humanos, sentimo-nos de certa forma validados por empatizar com o infortúnio alheio e recompensados internamente quando conseguimos fazer a diferença, e ajudar o outro a ultrapassar um obstáculo que o limita. Um pensamento egoísta? Talvez. Mas a ser verdade, é do meu ponto de vista um egoísmo que faz de nós seres melhores, e do mundo um lugar melhor para crescer. Nunca me sentirei culpada por me sentir bem, quando faço alguém sorrir.

Mas também é perigoso.

A empatia em si é uma emoção perigosa, porque na sua forma mais pura implica que nos coloquemos no lugar do outro. E se formos sensíveis o suficiente, ao invés de ajudar, acabamos contagiados e esgotados por emoções e circunstâncias que em última análise, não nos pertencem.

Não é por acaso que somos seres individuais a conviver em sociedade, isso implica que cada um de nós tem os seus próprios passos e o seu próprio caminho a percorrer. E quando numa tentativa de ajudar, acabamos imersos no obstáculo do outro, não só não conseguimos ajudá-lo como acabamos a prejudicar-nos a nós próprios. De novo o pensamento egoista? Talvez. Mas conseguiremos realmente ajudar alguém, se nós próprios não estivermos bem? Não. Lamento, mas a resposta é não.

E é por isto que a empatia é perigosa, porque nos aproxima vertiginosmente da linha que separa o querer fazer o bem ao outro, e prejudicarmo-nos a nós próprios. Onde está então o Graal, o equilibrio entre a nossa intenção de ajudar o outro e não nos prejudicarmos a nós?
Eis uma parábola para o demonstrar:

O gato malhado tinha sido recentemente agredido, uma pedra lançada por um homem zangado tinha-lhe acertado em cheio no flanco e ainda coxeava, apesar de não ter lesões permanentes. Mas esse incidente tinha-o tornado num animal zangado, sem confiança nos seres humanos. Por isso naquele dia, quando a menina se tentou aproximar dele para o ajudar, recuou e bufou furiosamente, o pequeno corpo fechado em si próprio e o pêlo todo eriçado, num aviso claro para que ela o deixasse em paz. Ela recuou lentamente, mas não se foi embora. Tinha decidido fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para ajudar o animal ferido, e seria preciso muito mais para que desistisse dele. Agachou-se lentamente, tirou a pequena mochila das costas e abriu-a, sob o olhar atento do animal assustado. Retirou do interior uma pequena lata de atum e uma garrafa de água, e colocou no chão duas pequenas taças que encheu com ambos. Depois recuou mais alguns passos, e esperou.

As horas passaram, e nem ela se levantou, nem o gato se aproximou da refeição que ela colocara no chão. Nenhum dos dois se foi embora, nenhum dos dois se mexeu do lugar durante esse tempo. Por fim, a menina respirou fundo. Conseguia ver claramente que ele tinha fome, e sede. E que a atenção certa o levaria a curar a pata mais depressa. Por fim, decidiu ir-se embora e voltar no dia seguinte, esperando que na ausência dela ele se fosse alimentar.

No dia seguinte quando voltou, ele estava no mesmo lugar. Assim como as duas taças que tinha deixado, intocadas. À distância, ele bufou-lhe novamente. Não de forma tão agressiva como no dia anterior, mas ainda assim mostrando claramente que a distância devia ser respeitada. Ela suspirou e trocou a água da pequena taça, antes de recuar de novo e se sentar no chão. Mais algumas horas se passaram, e nada mudou. Por fim, prestes a ir-se embora, a menina disse ao gato, enquanto esticava as pernas dormentes:

- Eu quero ajudar-te. Apesar de saber que não confias em mim, quero ajudar-te. Não pode ser fácil viver na rua quando se tem fome, sede e se está a recuperar de uma lesão que nos limita. Deixa-me ajudar-te.

O gato tigrado permaneceu agachado e semicerrou os olhos, mas não respondeu. E ela calou-se. Mais algumas horas, e chegou a hora de ela regressar a casa. Respirou fundo mais uma vez, coçou a cabeça de frustração e encolheu os ombros, antes de se levantar. Olhou o gato tigrado nos olhos, e disse-lhe:

- Há uma coisa que tens que entender, eu não estou aqui para te salvar. E muito menos tenho a pretensão de guiar os teus passos. A tua vida é o teu caminho, não é o meu. Não faço ideia dos obstáculos que tiveste que enfrentar, ou das circunstâncias que fizeram de ti aquilo que hoje vejo. Isto é tudo aquilo que tenho para te oferecer, a minha vontade e estas duas taças. O que decidires fazer com elas, só depende de ti.

O gato tigrado ergueu a cabeça e inclinou-a ligeiramente, como que subitamente mais interessado no que ela tinha para dizer. Mas não se mexeu. Ela sorriu e as linhas do rosto serenaram-se-lhe ligeiramente, afinal talvez houvesse esperança. Continuou:

- Eu não conheço o teu medo, porque a vida to entregou a ti e não a mim. Não me pertence. Não posso vivê-lo por ti. Não posso arrancá-lo do teu espírito. Assim como a minha própria vida me entregou desafios e recompensas que nunca conhecerás. Se escolheres não aceitar a minha ajuda, encontrarei outro que a aceite. Se a aceitares, farei tudo ao meu alcance para que te sintas melhor, e com isso mais preparado para tomares as decisões que tens que tomar.

O gato tigrado piscou os olhos e fez menção de se levantar, mas hesitou. Olhou para as duas taças pousadas no chão, e novamente para ela. E levantou-se. Cautelosamente, avançou na direcção das taças, o corpo colado ao chão e a causa comprida agitando-se. Não tirou os olhos dela até alcançar as taças e quando lá chegou, começou lentamente a beber água.

Ela sorriu, e começou a erguer-se lentamente do chão. Ele agitou-se, mas não fugiu. Sacudindo as calças, ela colocou de volta a mochila aos ombros e olhou-o mais uma vez, ele estava agora a comer avidamente o atum. Disse-lhe:

- Até amanhã.

Ele ergueu a cabeça da taça, lambendo o focinho de satisfação, e os seus olhos pareceram dizer:

- Obrigado.



LITERATURA | Florinhas de Soror Nada - A vida de uma não-santa de Luísa Costa Gomes | EDITORA DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 10 de Abril


Esta é a história de uma criança que quer ser santa. Teresa Maria, nascida numa família da burguesia do interior de Portugal, na segunda metade do século xx, vive a infância obcecada pelas vidas e exemplos dos santos, nomeadamente da sua homónima Teresa d’Ávila.

Florinhas de Soror Nada refere ainda as Florinhas de São Francisco de Assis, inspiração equívoca para o caminho tortuoso de rebeldia e submissão da protagonista até à absoluta perda da fé católica.

Da casa familiar ao colégio de freiras, de onde é expulsa, até à sua fuga da casa materna, acompanhamos a vida singular de Teresa Maria, a santa que não quer sê-lo. E somos surpreendidos com episódios extraordinários da vida de alguns santos, muitos deles desconhecidos da maioria dos leitores.