quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

DE ONDE NUNCA SAÍ - DE MONTECASSINO A SANABESI, de Helder Menor
















O meu avô materno seguiu a segunda guerra mundial em direto e viveu-a como um jogo de futebol entre os bons e os maus.  
Foi ao meu avô quem ouvi pela primeira vez falar no Montecassino. Contou-me que foi a Stalingrado italiana. Os alemães tinham a linha defensiva de Roma instalada sobre montanhas. No final de 1942, as tropas aliadas vinham a subir a bota italiana, desde o sul empurrando os nazis para norte e deixando os fascistas do Mossulini entregues à justiça do povo. Mas chegados a Cassino os aliados tiveram de parar. O inverno de 42/43 foi dos mais duros que a Europa conheceu e registou. Os alemães estavam bem acantonados numa abadia mediaval no cimo de um monte perto de Cassino e controlavam a única passagem disponível para norte. Os aliados tentaram forçar. Polacos, franceses do De Gaulle, os fuzileiros americanos e os escoceses, todos eles, à vez e juntos, tentaram. Todos eles levaram porrada dos nazis – assim me contou o meu avô. Os americanos lançaram um bombardeamento daqueles de arrasar tudo... Os alemães meteram-se nas caves da abadia a mamar lambrusco e a comer presunto e, quando o bombardeamento acabou, vieram para cima e fortificaram os escombros. Eram paraquedistas nazis e não deixavam chegar ninguém lá acima. O janeiro de 43 estava a acabar e o fevereiro ia avançado sem que os aliados chegassem a Roma. Do leste, no inicio daquele fevereiro gelado, chegavam notícias que os soviéticos já tinham corrido com os nazis em Volgrado e que a cidade já se chamava Stalingrado.
E os aliados a levaram dos alemães ali no Montecassino a menos de 150 quilómetros de Roma.
Foi nesse desespero que os ingleses, pressionados pelos americanos, mandaram a companhia dos indianos. Na realidade não foram os indianos, foram os Gurkas. Carne para canhão, literalmente.
Mas o milagre aconteceu, aqueles soldados franzinos e mal alimentados com os restos dos restos, pois aos indianos chegavam às sobras daqulilo que os escocesses não queriam comer e os escoceses só comiam o que ingleses deixavam na borda do prato... Foram aqueles soldados famintos e mal agasalhados que subiram o Montecassino armados de facas e tomaram a abadia aos paraquedistas alemães. Depois dos Gurkas abrirem os portões do Montecassino, os aliados puderam passar e daí tomar Roma foi canja. Enforcar o Mussolini no talho foi a sobremesa.
Assim me contou o meu avô e por isso sei que é verdade. Eu tinha uns oito ou nove anos e fiquei imediatamente fã dos Gurkas. Mais tarde aprendi que os Gurkas não eram indianos, mas sim nepaleses. E que a arma que usavam, não era uma simples faca, mas sim um kukri.
Aconteceu-me que uns vinte anos depois do meu avô me ter contado sobre a batalha do Montecassino, tive oportunidade de ir ao Nepal.
Estávamos na mudança do milénio e o Nepal era um país entalado entre a pobreza absoluta e a guerrilha na montanha e uma monarquia quase feudal nas cidades. O teto do mundo, assim anunciava o turismo. Uma terra pobre e linda com um povo de gente resistente, simpática e trabalhadora.
Andei por Katmandu uns dias, sempre com a ideia de arranjar uma daquelas facas iguais aquelas cortaram aos bocados os nazis no Montecassino. Falei com pessoas. Armeiros, militares velhos e malta das arte-marciais. Todos me diziam que já não se faziam kukris. Então, um ex-militar e antigo jogador de futebol em Espanha, disse-me que, se queria um kukri bem feito tinha de ir ao centro do país, a uma aldeia perto de Mirkot chamada Sanabesi. Disse-me que aí ainda se faziam boas facas.
Pareceu-me uma ideia razoável e um bom pretexto para seguir viagem. Numa manhã fria e cinzenta de nevoeiro e poluição saí do vale de Katmandu num autocarro regional e em  cinco horas fiz os cento e trinta quilómetros que me distanciavam de Mirkot.
Mirkot era uma vila perdida na montanha com uma rua principal de duzentos metros em terra batida, dois templos indus, duas ou três mercearias, uma escola e meia dúzia de casas.
Cheguei com fome de almoçar. Mas ainda com mais vontade de ir ver as facas. Procurei transporte para Sanabesi, o único taxista do lugar já tinha saído. Eram uns doze quilómetros por estrada e sete pelo atalho subindo e descendo a montanha. Considerei, mas o peso da mochila e o bom-senso prevaleceram.
Não havia propriamente um sítio para comer.... no lugar onde parava a camioneta serviam chá com leite, uma espécie de sopa de massa, queijo de búfala e aqueles pães redondos, fininhos e grandes. Comi o que havia.
A ideia era ir a Sanabesi, comprar a faca e voltar no próprio dia.
O autocarro que me trouxe voltou pelo mesmo caminho e só então percebi que não voltaria a Katmandu no próprio dia, porque o único transporte que havia era aquele que se tinha afastado entre fumo e pó.
O homem do táxi chegou uma hora depois. Combinámos o preço e fomos. A paisagem de tirar o fôlego com os Himalaias a mostrarem a ínfima dimensão humana que temos. A estrada foi herança dos ingleses. Não era mantida há mais de cinquenta anos e todos os invernos as avalanches de neve, lama e pedras faziam estragos. O carro indiano do taxista seguia a alta velocidade entre calhaus e precipícios.
Meia hora depois chegámos inteiros à aldeia de Sanabesi. Três casas, cinco cães, oito galinhas e umas quinze cabras. As pessoas ao ouvirem os cães a ladrar e o carro a chegar saíram para virem ver. Logo à entrada da aldeia estava a oficina do ferreiro de que me falaram em Katmandu. O homem, velhinho e seco veio receber-me descalço e em tronco nu debaixo de um avental de couro. No canto, debaixo de uma chaminé, a forja. Cheirava a fumo, a metal, a madeira e a couro. Na rua não estava frio porque havia sol. O ferreiro não falava inglês.
Por sinais expliquei-lhe ao que vinha. Apontei para as várias lâminas de kukris em processo de fabricação. Disse que queria um kukri para mim. Ele falou e eu não percebi. Mandou-me esperar e uma velhinha trouxe chá quente com leite e açucar onde boiava uma colher de manteiga que derreteu.
Decidi mandar o táxi de volta. Havia um telefone em Sanabesi pelo qual combinei ligar-lhe quando precisasse voltar.
Fiquei sentado nos bancos baixos da oficina do ferreiro enquanto o táxi se afastava ruidosamente. Só eu e o velhinho. Bebemos o chá em silêncio olhando um para o outro. Sem conversa limitámo-nos à comunicação pelo sorriso. Meia hora depois chegou a neta, teria uns doze anos e falava inglês. A menina traduziu:
O meu avô diz que se quer um kukri tem de lhe tirar as medidas ao braço e pesá-lo, para poder fazer a arma para si.
Perguntei quanto custava.
Custava uns cinco contos... uma fortuna para a época e para o sítio... com cinco contos em rúpias nepalesas eu podia ficar uma noite alojado no melhor hotel do Nepal. Uma refeição num bom restaurante em Katmandu custava uns duzentos escudos...
Quanto tempo demora a fazer o kukri?
O velho falou e a neta traduziu. Normalmente demora uma semana, mas se tiver pressa o meu avô consegue fazer em cinco dias...
Tentei regatear o preço. Não baixou o valor da faca, mas incluiu o alojamento e as refeições enquanto lá estivesse.
Quis pagar-lhe metade do valor acordado. Disse que não era preciso. Que levasse a mochila para cima e depois que descesse para começarmos a trabalhar na faca.
Só aí percebi que era para ficar por ali, naquele fim do mundo nos próximos dias. Iludido pelas distâncias nos mapas, achava que podia sair de Katmandu, ir a Sanabesi comprar um kukri e voltar no próprio dia.
O quarto que me deram era uma divisão apertada no sótão por cima da oficina. Tinha uma janela pequenina que dava para a montanha imensa em frente, uma esteira no chão com um colchão fininho de palha, um prego na parede e uma tomada elétrica. Havia uma casa de banho no pátio com uma latrina daquelas de fazer de cócaras e do lado de fora uma torneira. Se quisesse tomar banho, bastava acender uma fogueira no quintal debaixo de um alguidar grande de cobre, encher o alguidar de água, deixar aquecer a água até à temperatura que eu quisesse e quando a água estivesse quente com uma pá de ferro tirar as brasas debaixo do alguidar e usar uma caneca para ir despejando a água por cima de mim. Tudo muito simples mas impecavelmente limpo.
Quando desci para a oficina, o velho mediu-me os braços e pesou-me (foi há mais de vinte quilos atrás). Depois com giz no chão desenhou a lâmina e o cabo do kukri do tamanho exato que viria a ter. O velho trabalhava e falava, eu via tudo sem perceber uma palavra. A neta já não estava presente. Por gestos pediu-me para ir com ele. Fomos para uma arrecadação no pátio por trás da oficina. Empilhados do chão ao teto centanas de bocados de metal mais ou menos ferrugentos. De uma prateleira de tubos de andaime, aí a uns dois metros do chão, pediu-me para tirar uma peça. Tinha uns três palmos de comprimento, menos de um palmo de largura e pesava comó caraças. O velho falava. Eu sem entender.
Voltei carregando a placa de metal até à oficina onde tinha a forja. No chão preto com o giz branco desenhou um círculo com símbolo da paz invertido. Continuei sem perceber. O velho repetia a mesma palavra medês medês medês! Esforçado e paciente com a minha ignorância, o ferreiro desenhou uma camioneta de carga. Com grande detalhe desenhou as rodas e por trás das rodas os amortecedores. Por gestos explicou que a placa era de uma lâmina de amortecedor de camioneta. E repetia medês mêdes. Eu, burro, sem perceber. Até que o velhinho fez o símbolo da paz invertido sobre o capô da camioneta que tinha desenhado. Fez-se luz: Mercedes!!! Era uma camioneta mercedes. Aquele bocado de metal era de uma lâmina de um amortecedor de uma camioneta mercedes!!! Segundo o velho, aquele aço dos amortecedores da mercedes é dos melhores aços para fazer lâminas de facas. Seja mercedes, pois. Fabrico alemão!!!
O sol pôs-se cedo por trás da montanha.
Às seis da tarde jantei na cozinha uma sopa de lentilhas, carne de cabra e pão. Ás sete saí para espanto dos donos da casa para fumar e dar uma volta. Nem cinco minutos depois estava de volta. O frio e o vazio absoluto empurraram-me para dentro. As três luzes amarelas da aldeia acabavam a escassos metros e do lado de lá do círculo de luz desenhado no chão à volta do candeeiro o negro infinito da noite.
Quando voltei, estava a neta do meu anfitrião mais o resto da família à minha espera.
Não devia sair à noite. É muito perigoso. Andam à solta o leopardo e os espíritos de ontem. Por favor fica em casa. Se quiser beber o avô não se importa.
Não queria beber. Na realidade, não tinha o que beber. Por isso fiz a vontade a toda a gente: fui-me deitar e não voltei a sair à noite. Às oito e meia já eu dormia.
Fiz bem em dormir cedo porque no outro dia, ainda não tinha nascido o sol, já o velho estava à porta do meu quarto a gesticular para eu descer. Percebi depois que era para eu acender o lume. Desci. Na forja já estava preparado um monte de pauzinhos secos e papel de jornal por baixo. O ferreiro deu-me uma caixa de fósforos. Fiz-lhe a vontade. O velho gritou satisfeito, bateu palmas e abraçou-me como se eu tivesse vencido alguma prova desportiva. Depois levou-me para a cozinha onde um pequeno-almoço de bananas, pão, chá com leite e manteiga estava à nossa espera.
– Um guerreiro deve acender o lume que forja a sua arma!
Traduziu a miúda antes de ir para a escola.
Mal acabámos o pequeno-almoço voltou para a forja, quando quis entrar com ele, não deixou. Não podia passar.
Passou o resto da manhã na forja. Aí pelas nove e meia comecei a ouvi-lo martelar. Continuou a impedir-me a entrada. Saí para caminhar. Afastei-me da aldeia uns três quilómetros por caminhos de cabras a subir os Himalaias. Depois fartei-me de subir e do vazio de gente e voltei para trás.
À hora de almoço estava de regresso à casa do ferreiro. Voltou a proibir-me a entrada na oficina. Quando a menina chegou da escola explicou que o dono da faca não deve estar no sítio onde o metal é batido para que não amoleça o coração da lâmina.
Comi uma sopa de massa com legumes e carne de galinha. Estava boa.
À tarde voltei a sair para andar pelos matos à volta de Sanabesi. Cruzei-me com pastores e com búfalos. Não vi nenhum leopardo. Voltei antes do sol se pôr para comer. Galinha, arroz e umas folhas parecidas com espinafres cozidos. Às sete e meia estava na cama. Foram assim os dois dias seguintes.
Na manhã do quarto dia o velho chamou-me e mostrou-me a lâmina do kukri mais as duas pequenas facas que a acompanhavam. Faltava fazer os cabos e a baínha.
Não me deixou tocar na faca. Não lhe podia mexer enquanto não tivesse pronta.
A neta explicou que, se eu quisesse podia ficar na oficina enquanto o avô fazia os cabos e a baínha. Mas não podia tocar na faca.
Nessa dia vi o artesão trabalhar a madeia para os cabos e para a baínha. No dia seguinte, pela manhã ficou tudo pronto quando o velho cobriu e cozeu o couro à volta da baínha.
Num ato cerimonioso mostrou-me e deu-me a faca para a mão. A miúda estava presente e foi traduzindo a ladaínha do avô.
Que eu fizesse bom uso dela. Que a sorte me acopanhasse e que eu pudesse sempre usar o kukri como ferramenta de paz e que nunca fosse preciso ser usado como arma. Que os caminhos se abrissem para eu passar e se fechassem para os meus perseguidores. Que o longe se fizesse perto e que os meus passos encontrassem sempre o caminho de volta a casa.
Depois de pagar a faca, por magia apareceu o taxista que o velho deve ter chamado. Quis pôr o kukri dentro da mochila. O velho não quis. Disse que a devia usar à cintura. Obedeci-lhe. Despediu-se de mim com um abraço e disse-me que voltasse sempre que quisesse afiar a faca.
Foi de kukri à cintura na viagem de táxi de Sanabesi até Mirkot e depois de autocarro de Mirkot a Katmandu. Ao chegar a Katmandu, tirei a faca do cinto e pus dentro da mochila e não voltei a usá-la na rua. Voou comigo no avião, na bagagem de mão, tudo isto aconteceu antes do onze de setembro e eu nos aeroportos por onde passei declarei-a como peça de coleção. Chegámos a Lisboa intactos.
A lamina continua afiada a lembrar-me da vitoria sobre os nazis em Montecasino. A bainha cheira ainda à oficina do ferreiro de Sanabesi de onde nunca saí. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

DIVULGAÇÃO LITERÁRIA | "Esperarei por ti toda a vida", de Megan Maxwell |EDITORIAL PLANETA


Texto: Redacção com  Editorial Planeta

Foto: Editorial Planeta D.R.

Dia 3 de Março chega às livrarias  "Esperarei por ti toda a vida", mais um título da autora Megan Maxwell que, como vem sendo habitual, promete deixar apaixonadas as suas fiéis leitoras Portuguesas. 

Sinopse:

O que aconteceria se uma mulher do século XXI viajasse no tempo para o século XVI?
Montse e as amigas Julia e Juana são três espanholas que vivem em Londres e, para descansarem da vida stressante do dia-a-dia e ajudar Montse a superar a ruptura com o namorado traidor, decidem fazer uma viagem de raparigas a Edimburgo.
As terras mágicas escocesas surpreendem-nas muito mais do que esperavam e decidem alterar os planos definidos por outro muito mais tentador...
Aonde vão parar não têm creme de mãos nem cobertura de telemóvel, mas encontrarão um castelo, highlanders apaixonados e um amor eterno que nunca se apaga.

A Autora:

Megan Maxwell é uma das mais reconhecidas autoras de romance feminino/erótico, com uma legião de fãs por todo o mundo, onde claro, se inclui Portugal.
Megan Maxwell é uma reconhecida escritora do género romântico. Filha de mãe espanhola e pai americano, publicou vários romances. Em 2010 ganhou o Premio Internacional Seseña de Novela Romántica; em 2010, 2011 e 2012 recebeu o Premio Damade Clubromantica.com; e em 2013 o
«AURA», galardão outorgado pelo encontro «Yo Leo RA» (Romântica Adulta). Vive numa
encantadora aldeia nos arredores de Madrid.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

PLÁSTICO, de Fernando Teixeira














Os alertas e os apelos a uma alteração de comportamentos têm sido constantes. O plástico, esse produto maldito, está a invadir e a poluir os nossos oceanos de forma dramática. Estima-se que circulem 150 milhões de toneladas de plástico no mar e sabe-se que uma enorme ilha de 80 mil toneladas de resíduos plásticos se encontra a flutuar no Oceano Pacífico, entre a Califórnia e o Hawai. E não só no mar, igualmente em terra, muitas toneladas de plástico podem ser encontradas em aterros sanitários.

Os polímeros sintéticos orgânicos, aquilo a que genericamente chamamos de “plástico”,
apresentam-se de variadas formas, com diferentes propriedades físicas, químicas e mecânicas, o que lhes confere diferentes características de resistência e de flexibilidade. Dos materiais criados pelo homem, o plástico é o mais utilizado, podendo dizer-se de forma exaustiva. Com diversas siglas comerciais, substituindo designações técnicas complicadas, o plástico é utilizado no fabrico de produtos com os mais variados fins: garrafas de água e de refrigerantes, frascos de detergentes, embalagens de produtos comestíveis, sacos de lixo, caixas de armazenamento, filamentos e cordas, baldes, tubos e canalizações, peças de automóvel e de electrodomésticos, telemóveis, computadores… enfim, em quase tudo em que mexemos e utilizamos no dia-a-dia.

O sucesso do plástico deriva das suas propriedades: moldável, leve, impermeável, inerte, barato, durável. É precisamente esta última característica que apresenta consequências mais nefastas para o ambiente: não sendo biodegradável, a eliminação natural de uma peça de plástico pode demorar séculos.

É quase impossível eliminar o plástico na sociedade actual, pelo que se sucedem os apelos a que se reduza a sua utilização e que a mesma se faça de forma sustentável. Incidem esses apelos, quase sempre, apenas numa alteração de comportamento do cidadão consumidor. Decretaram-se leis para reduzir a utilização de sacos de plástico nos supermercados, aplicando taxas sobre o que antes era gratuito, e apela-se à reciclagem.

Sendo tudo isso válido, é no entanto insuficiente. O consumidor está a jusante do processo e é na fonte que se tem de combater o problema: na produção e utilização do plástico pela indústria transformadora. Sempre foi mais fácil actuar sobre o elo mais fraco, o cidadão comum. Porém, não se vêem leis que obriguem a indústria e as grandes marcas a substituir as embalagens de plástico por vidro, por exemplo, mais facilmente reciclável. Enquanto se pede que os cidadãos sobrecarreguem as costas, transportando as suas compras em sacos pesadíssimos, as prateleiras dos nossos supermercados continuam inundadas de embalagens de plástico.

Por outro lado, o mundo empresarial e industrial, sempre ávido de incrementar os seus negócios e correspondente lucro, continua a produzir produtos com forte utilização de plástico, os quais duram cada vez menos tempo, obrigando à sua substituição e levando consequentemente à produção de enorme quantidade de lixo plástico per capita.

A sustentabilidade que se impõe implica uma alteração do modus vivendi de todos os
operadores da sociedade e não apenas dos consumidores. Só se avançará neste propósito se a indústria largar a ideia do “descartável”, apostando numa verdadeira política de durabilidade dos seus produtos e na opção por materiais mais amigos do ambiente. Há que investir no estudo e na criação de bioplásticos, fabricados a partir de resinas biodegradáveis obtidas através de matérias-primas renováveis, como a cana-de-açúcar, o milho ou a batata. 
Simultaneamente, há que reforçar eficazmente toda uma cadeia de reciclagem de resíduos plásticos, transformando-os em outros produtos.

E, principalmente, é preciso consciencializar, incentivar e pressionar que estas medidas sejam aplicadas noutras partes do mundo, pouco sensibilizadas ainda para esta problemática. Ou, a cada dia que passe, ver-nos-emos ainda mais atulhados num mar de lixo que ninguém saberá de como se livrar!


O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

O PAI, de Anita Dos Santos
















A terra é vermelha, fragrante e rica.

As árvores, surgem espaçadamente, quase sem pressa. Amendoeiras e figueiras, sobretudo.
Lavrar aquelas terras, só com a força dos braços, é um custo que lhe sai sempre caro e muitas vezes não tem o retorno que a terra promete. As sementes são fracas, são as que pode comprar.

Vida dura. Antes ir ao mar.

Deixar a mulher e os miúdos, partir na embarcação e fazer-se ao mar, deitar as redes e colher o pão que o mar lhe dá generosamente.

Volta os olhos na direcção onde, mesmo sem o ver, sabe que está o mar.

Vai ter de partir. Depressa.

O campo não se fez para homens como ele.

De olhar sombrio, mede as terras que não lhe pertencem, mas que trabalha por sustento.
Tem de arranjar uma “companha” de homens, mas isso não vai ser problema. Nem que tenha de meter os filhos mais velhos no barco.

Não, não vai ser problema. Todos lhe têm respeito. Ou temor.

Ainda está bem presente na mente de muitos, a espera que lhe fizeram, tempos atrás, em que foi preciso juntarem-se uma dúzia de homens – cobardes! – para o deixarem numa valeta cheio de facadas.

Chegou bem para todos eles!

Não ficaram sem provar da sua navalha, nesse dia!

Tem de ir para o mar, e desta vez vai até Gibraltar, dê por onde der.

Já decidiu, não leva nenhum dos miúdos. A Mariana, que fique com eles.

Mas primeiro vai à vila beber um copo. Ou dois.

Tem que matar aquela ânsia que tem sempre dentro de si.

Vê as algibeiras em busca dos trocados que tem. Poucos. Devia ter visto melhor, procurado em casa que dinheiro é que a Mariana tinha. Ela conseguia sempre arranjar alguns trocados, alguma coisa que fosse para dar de comer aos miúdos. Mas eles já eram crescidos, podiam bem trabalhar para comer.

Fez-se ao caminho. A dada altura, arrepiou em direcção à doca.

Respirou fundo. Podia por fim respirar!

Já estava a anoitecer e apetecia-lhe um copo.

Quando ouviu chamar pelo nome, não foi muita a admiração.

- Que fazes tu aqui, Quitéria? Nã vez que se faz noite? Como vais tu chegar a casa sem luz? Nã vais!

A irmã, ombreava com ele em altura e constituição. Alta e magra. E não só. Ninguém se metia com os Cartaxo.

- Pensas tu qu’e cá tenho medo de atravessar os campos de noite! Aí daquele que se meta comigo. Meto-lhe um tiro no meio dos olhos, sem falhar, e sem piscar!

Enquanto falava, arredou a aba do casaco para o lado mostrando a coronha da arma que levava entalada à cintura da saia comprida.

Ele sabia muito bem do que ela era capaz, tão capaz quanto ele.


A autora escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.





quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

NOTURNO ARCO-IRÍS: OS CAVALOS E O JOÃO CIGANO, de Helder Menor















O João Cigano, antes de se mudar aqui para a vila do Barreiro, viveu como cigano legítimo e maltês. Andando de terra em terra, percorreu todo esse vasto mundo entre o Tejo e o Sul. De Sines a Sevilha, de Santarém a Huelva, de Setúbal a Cáceres. Conheceu os caminhos velhos quando ainda eram só caminhos velhos que ligavam as terras velhas. Aprendeu segredos e bruxedos com a avó que levou com ele para a cova. A avó que o criou e a quem ele sempre conheceu por velha. Dizia que tinha nascido no tempo da Rainha Pia. Também ele nasceu no tempo dos reis, nasceu exatamente no último dia de vida do último rei.
A velha criou-o num berço de pele de égua pendurado como uma cama de rede debaixo da carroça. Aprendeu a montar nu ainda antes de aprender a andar vestido, era por isso que nenhum cavalo o desmontava. Bebeu água dos ribeiros chupando pelo tubo feito da traqueia de um garanhão, que morreu de velho depois de ter coberto mil éguas, por isso da garganta dele saíam vozes a que os outros cavalos obedeciam. Tomou banho com a urina de uma égua virgem com o cio, por isso todos os cavalos o seguiam.
Estas coisas secretas e outras ainda mais secretas, ouvia-as eu a ele, ao João Cigano.
Ouvi-as num tempo remoto em que no mundo os adultos eram gigantes e eu quando olhando em frente vi as pessoas pela altura dos joelhos. Num tempo em que passava a eternidade das tardes de verão sentado no conforto seguro do colo do meu avô. O meu avô era amigo do João Cigano. Naquelas tardes de verão, sentavamo-nos os três no pial da casa, à sombra das paredes, a ver os carros e as pessoas passar. Eles a falarem de coisas antigas e eu a ouvir. Falavam de cavalos, de touros, de contrabando e de fugas à polícia. E eu, menino a beber-lhes as palavras.
Quando o João Cigano, veio para o Barreiro, veio fugido à guarda. Foi por causa de uma situação mal explicada de um cavalo baio em Montemor, que disseram que ele vendeu... e que depois envenenou porque o comprador não lhe pagou o combinado. Sei que é mentira, porque o João Cigano gostava e era irmão de cavalos e nunca faria mal a nenhum deles.
Por isso é mentira que o João Cigano tenha envenenado um cavalo.
A verdade é que chegou ao Barreiro, já passava dos trinta e vinha a fugir do passado e a querer fazer  futuro. Deixou nas estradas perdidas mulheres que ficaram esquecidas e muitos filhos que ao longo do tempo foram chegando e que por cá alguns ficaram.
A sorte travessa deste cigano ditou que dois dias depois de ter chegado, ao final da tarde, se cruzasse com uma patrulha a cavalo da guarda republicana. A guarda passava e o João na rua, desprotegido sem porta para entrar nem sítio para se esconder. Tarrenego!
Para felicidade do João e infelicidade momentânea da guarda, um dos cavalos da guarda, um garanhão negro, lindo imenso e luzídio, que transportava um dos praças ratinhos importados para impor a ordem salazarenta na vila e na fábrica, dá em saltar e espernear. Terá visto bicho ou cheirado cobra ou sentido assombração. Não sabemos porquê e há várias versões. O que é certo é que, o garanhão onde o guarda beirão ia se assustou e deu em pinotear.
O cavalo em si, lindo mas pouco dado a montarias, também não seria de fiar, daí o cabo o ter atribuído a praça novato que vinha lá da escola da guarda ainda a falar axim.
– Para aprender que a vida também dá coices – terá dito o cabo aos praças mais velhos...
Quando o cavalo se assustou, saltou e escoiceou.
O praça da guarda ainda tentou segurar-se em cima da cela e em vez de dar arreata ao cavalo para que corresse, quis travá-lo puxando para trás a cabeça ao mesmo tempo que com as pernas e botas esporadas apertava a barriga do animal. O inevitável aconteceu e não durou cinco segundos lá em cima. O guarda no chão e o cavalo no ar. A assistência a rir, o cabo da guarda zangado a exigir ordem e os outros guardas da patrulha a tentarem acalmar as montadas que o medo, todos sabemos, é um mal contagioso. E todos os cavalos da patrulha se agitaram.
O garanhão solto a saltar depois num furioso galope na direção à Baixa da Banheira. A correr pela estrada em contra-mão. Lindo cavalo negro, que por milagre esquiva uma camioneta de peixe que vinha a virar a esquina em eventual excesso de velocidade. Voltou o cavalo a galope na direção do resto da manada dos cavalos e éguas com GNRs em cima. O pânico foi geral. Com cavalos, éguas e guardas a saltarem a procurar abrigo numa estrada toda aberta só com casas a fechar.
No meio desta confusão toda, o João Cigano, sem saber bem porquê falou... Ou melhor, gritou. Nem sequer gritou. Vocalizou um som gutural que, apesar de bem sonoro, poucos ouviram mas que travou o garanhão instantes antes de chegar à manada. O cavalo em galope solto, travou a quatro patas e parou a escassos metros do ajuntamento desordenado. O bicho olhou para o cigano, baixou a cabeça e veio a andar devagar mas ainda nervoso a bater com as patas no chão. O cigano ainda estava encostado à parede a olhar para o cavalo com os olhos semicerrados e a boca a falar baixinho como que em segredo.
Aí a um metro da parede e do homem, o cavalo parou, levantou a cabeça e relinchou como se falasse ou desafiasse ou o cumprimentasse. O João, que tinha os braços cruzados com as mãos debaixo dos sovacos, sorriu e falou baixinho para o animal. O cavalo ao ouvir o cigano baixou a cabeça e aproximou-se mais. Neste momento, para espanto total de todos os presentes, incluindo pessoas, cavalos e guardas, o João Cigano estendeu as mãos. O cavalo que há minutos era o mais selvagens das feras, veio com a boca de veludo e a língua áspera lamber os dedos do cigano.
Isto foi assim mesmo que aconteceu aqui nas ruas do bairro onde vivo e foram muitas as testemunhas que viram.
O João, constrangido com a situação, pegou na arreata caída do cavalo e a passo foi dá-lo ao praça que ainda se sacudia envergonhado da queda.
Sem uma palavra, passou-lhe o cavalo e desapareceu na esquina.
Mas já estava feito.
O acontecido correu mais depressa pelas ruas da vila do que o galope do cavalo. Nessa mesma noite, o temido sargento da guarda, que não gostava de ninguém a não ser dele próprio, da Nossa Senhora, do Salazar e dos cavalos, deu ordem que queria falar com esse cigano.
-        Sempre quero ver se é como vocês, suas bestas incompetentes me estão a contar. Quero esse cigano amanhã de manhã aqui no posto.
Assim mesmo na delicadeza que sempre o caracterizou, o sargento falou para o cabo e para os dois praças mais velhos.
Passaram-se dois ou três dias e o cigano andou sumido, sabe-se lá por onde...
Mas como o Barreiro é quase uma ilha, e nos anos quarenta do século XX era ainda mais pequeno, o que tinha de acontecer aconteceu: uma manhã de sol, à porta da vinícula, estava o João desprevenido a beber um branco e a conversar sobre as melhores luas para namorar, quando passou um dos guardas, desfardado e de folga. Olhos de informador atentos a tudo, reconheceu o cigano do cavalo. Homem de poucas falas e de menos leituras, pouca coragem física mas de grande virtude moral e alguma esperteza... mal cruzou a esquina, correu direto ao posto da GNR a avisar os que estavam de serviço.
Nem cinco minutos depois, chegava o jipe com o cabo e três praças para levarem o cigano ao posto.
-        Ai a minha vida!!! Que eu nã fiz nada para me levarem preso!
-        Quem é que disse que vais preso. Vem connosco que o sargento Seia quer falar contigo!
-        Ai... mas eu não conheço o senhori! Não tenho nada para falar com eli... deve ser engano... Nós os ciganos somos todos parecidos... Ê tenho um primo que é quase iguali...
-        Não é engano nenhum. É contigo que o sargento quer falar por causa do cavalo.
Ao ouvir falar no cavalo, o João viu a sua vida a andar para trás...
Pensou que fosse por causa do cavalo que vendeu e que depois apareceu morto e que diziam que ele tinha envenendo. Analfabeto, mas inteligente, o cigano fez o que mais sensato há a fazer quando vamos ao posto da guarda sem sermos nós a decidir a que horas vamos: ficar caladinho e esperar que a má hora passe. 
Não esperou muito. O sargento Seia, homem grande e de voz grossa, mal viu o cigano fanzino a entrar com os seus homens, começou logo aos gritos que se ouviam ao longe.
-        Então tu é que és o cigano que fala com os cavalos?!?! Sempre quero ver isso. O Valente, o garanhão preto que desmontou o praça, realmente tem mau feitio mas deixa-se levar... mas quero ver-te a falares com o meu Relâmpago.
O Relâmpago era o cavalo do sargento Seia.
Cavalo lindo e bravo. Todo branco com meias castanhas nas mãos. Todo ele fúria e elegância em estado bruto. Só se deixava montar pelo próprio sargento Seia, que fazia questão de ser ele a alimentar o animal e a escová-lo. Até para limpar a box do cavalo tinha de ser o sargento a levá-lo pela arreata. O sargento Seia não limpava a box que um sargento não limpa merda... mas fazia o favor de tirar de lá o Relâmpago...
Cavalo bravo como um touro de lide e bonito como a mais bonita das mulheres.
O João Cigano, ao contrário do que o sargento esperava, não se assustou com a ideia.
Antes pelo contrário. Quando percebeu que afinal não era por causa do cavalo de Montemor... até respirou de alívio.
Baixou a cabeça e seguiu com o chapéu nas mãos atrás do sargento pelos corredores do posto até à cavalariça.
-        É aquele ali!
Informaram
O João deu a volta evitando passar por trás do animal designado. O cavalo relinchou e bateu com os cascos fortes no chão de pedras. Os guardas e o sargento riram entre si.
O cigano aproximou-se devagar e falou baixinho umas palavras entre o calon, o espanhol e o alentejano. Depois afagou o focinho do Relâmpago. E o Relâmpago baixou a cabeça e lambeu-lhe as mãos. Voltou a falar-lhe baixinho ao ouvido. E o cavalo respondeu com um assentimento e uma cabeçada no cabresto e nas arreatas penduradas na parede.
O cigano enfiou o cabresto e ajustou as correias no cavalo.
-        O senhor guarda quer que o monte ou é só para lhe por cabresto?
-        Não é senhor guarda é senhor sargento. Monte o Relâmpago que eu quero ver!
Ainda sem acreditar no milagre a que assistia, o sargento tentou testar.
-        Monte sem sela, se o cavalo é manso consigo, deixa-o subir...
-        Aí senhor sargento, mas sem sela, faz muita força nas costas do bechinho!
-        Monte sem sela como eu lhe estou a dizer porra!
-        O senhori sargento é que manda...
E assim fez. Com agilidade saltou para cima do cavalo segurando as arreatas e gingango apenas com as ancas, fez o cavalo fazer marcha-atrás na box. Depois, de cima do cavalo, perguntou ao sargento
-        Agora quer que eu vá onde?
-        Saia com ele e dê uma volta aqui no pátio.
Montado no bonito e valioso cavalo, o João Cigano, por momentos ainda pensou em sair a galope pelo portão aberto e só parar em Badajoz para negociar o animal.
Mas aqueles seriam maus tempos para ir a Badajoz... e o João já tinha problemas de sobra para comear outros....
Por isso fez o que lhe mandaram.
Depois desceu e avisou o sargento.
-        O cavalo é lindo, mas tem uma fraqueza no pé esquerdo... ou é jeito antigo que deu ou foi ferradura mal posta... mas como ele está todo bem calçado... deve ser um jeito antigo. Ligue-lhe a pata com malvas frescas por dentro da ligadura que isso passa-lhe!
-        Tens razão cigano. Foi um jeito que deu aqui há duas semans a saltar a ribeira de Coina. Se achas que sabes curar o cavalo, voltas cá amanhã e vem tratar dele.
Foi assim que o João Cigano ficou no Barreiro e se tornou veterinário exclusivo do sargento Seia.
Os anos foram passando e o João não se pode dizer que fosse amigo do sargento da guarda... mas o que é certo é que o homem respeitava o João Cigano e era a única pessoa a quem pedia conselhos.
Também sei que, quando o João Cigano pedia, o sargento Seia lhe fazia favores. Documentação. Passaportes, bilhetes de identidade e papéis desses. O João contava ao sargento uma narrativa com um primo cigano fugido a cavalo e perseguido por marido cornudo… o sargento ria-se e passados uns dias aparecia com os documentos para entregar ao cigano... só era preciso colar a fotografia...
Nem sempre os documentos eram para ciganos. Mas sempre foram para perseguidos e quase sempre perseguidos por cabrões... porque os pides eram todos uns cabrões. Assim aprendi, assim vos conto.
Mas essa seria outra história. O João Cigano, contava ao sargento da guarda metade verdade-metade mentira. Dizia a brincar: sou cinquenta por cento sério.
Quando eu o conheci, o João Cigano tinha mais de oitenta anos.
Ensinou-me que cavalo, navalha e mulher não se emprestam a ninguém.
Já muito velhinho, quase a partir para a terra dos eternos galopes, queixava-se da comida do hospital do Barreiro e dizia “cavalo de campo não bebe água do balde”....
Dias antes de partir, disse: Prá semana já não estou cá. Melhor assim, a morte abre a porta da fama e fecha a janela da inveja!
Era um sábio o João Cigano.



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

A MELHOR MÁQUINA VIVA de José Gardeazabal / COMPANHIA DAS LETRAS

Depois de Meio homem metade baleia, finalista do Prémio Oceanos que conquistou a crítica e os leitores portugueses, José Gardeazabal tem um novo romance, A melhor máquina viva, que chega a 4 de fevereiro às livrarias pela Companhia das Letras. 

José Gardeazabal apresentará este romance no encontro literário Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, a 20 de fevereiro. A de 5 de março, realizar-se-á um lançamento também em Lisboa, na Livraria da Travessa.


Sinopse: Anders Kopf é um jovem aspirante a escritor que decide mergulhar na pobreza por um ano e afastar-se de um passado doloroso. É um exercício temporário cujo objectivo é melhorar a literatura. Com os seus novos companheiros faz um batismo de pobreza, pratica roubos colectivos em matadouros, partilha refeições suspeitas e sofre injustiças pedagógicas. Durante todo esse tempo, reescreve a sua própria história de orfandade e de crime. Eeva Wiseman é uma bela capitalista que herdou do pai um antigo matadouro, relíquia macabra do século XX. Administra com agilidade maternal o seu império de negócios, na sombra voraz da globalização, ao mesmo tempo que ressuscita da ressaca de um grande acidente e de um desaparecimento absoluto. O que têm Kopf e Eeva a oferecer um ao outro? Entre o amor e a amizade, qual a melhor máquina? A liberdade e o sexo; a pobreza e a abundância; o triângulo homem, mulher, animal, são estas as várias máquinas modernas que alimentam a literatura. 

Sobre a obra de José Gardeazabal: «O primeiro romance de José Gardeazabal é um livro profundamente político, alegórico, irónico e aforístico.» José Riço Direitinho, Público «O que mais surpreende é a escala e o fôlego do seu projecto literário.» José Mário Silva, Expresso «O aparecimento de José Gardeazabal no plano literário europeu contribui para uma desconstrução da Europa moderna.» Ana Catarina Anjos, A Europa face à Europa: poetas escrevem a Europa «Um exercício invulgar, notável e vertiginoso que conduz a literatura para um lugar novo.» Júri do Prémio Imprensa Nacional Casa da Moeda/Vasco Graça Moura «Não deixará nenhum leitor indiferente.» José Tolentino de Mendonça 

Sobre o autor: JOSÉ GARDEAZABAL nasceu em Lisboa, onde vive actualmente. Viveu, trabalhou e estudou em Luanda, Aveiro, Boston e Los Angeles. O seu livro de poesia, história do século vinte, distinguido com o Prémio INCM/Vasco Graça Moura, foi editado em 2016, ano em que publicou também Dicionário de ideias feitas em literatura, uma colectânea de prosa curta. Em 2017, editou três peças de teatro, reunidas na obra Trilogia do olhar. Em 2018, a Companhia das Letras lança o seu primeiro romance, Meio homem metade baleia, finalista do Prémio Oceanos, um dos mais importantes da literatura de língua portuguesa. A melhor máquina viva é o seu segundo romance e o primeiro volume da Trilogia dos Pares. 

Excertos do livro: 
O corpo: «Aqui não há alcunhas, está tudo no corpo e somos felizes e é tudo verdadeiro.» 

Humanismo: «Pergunta humanista: os homens do presente são melhores ou piores que os homens do passado? Resposta: perguntem às mulheres. Dos homens, perguntem às mulheres. As mulheres sabem mais sobre os homens que os humanistas.» 

11 de Setembro: «Uma agitação agarrou os cidadãos pelo pescoço puxando-os até à margem do rio, onde vomitaram sem olharem uns para os outros, os corações na água, como espelhos partidos. Tentaram olhar a ilha de fora, examinar o perigoso interior daquela grande mãe americana. Os mais rápidos refugiaram-se em quartos de amigos, os profissionais apressaram- -se, e os coxos correram na direção do acidente e, logo a seguir, na direção contrária, mais depressa. Aconteceu uma segunda queda. Porquê uma segunda queda, não bastou a primeira? Aquele chão seco de paraíso, aquele enjoo de dilúvio. Protegidas por uma poeira cinzenta e fina, as pessoas mascararam-se de desconhecidas, de palhaço, na certeza de este ser um susto novo. Aprenderam rapidamente a respirar lentamente, invocando ao telefone uma salvação impessoal. Ninguém os ouviu. Estavam entre a realidade e a verdade, e a realidade ganhava. A realidade ferro, cimento e vidro transparente, a realidade simultânea de dois desastres, tão improváveis como uma má aposta. Deuses distraídos tinham jogado aos dados e o nosso deus tinha perdido.» 

Capitalismo e Desigualdade: «A desigualdade, no pior dos casos, é uma estratégia de carinho. A escrita é a cura para a introspeção. Não sei se devo escrever isto. Sinto-me como se setenta por cento do meu corpo fosse água da piscina. O menino jesus é um pré-adolescente e saiu de casa. O pai, a mãe, o burro e a vaca não sabem se volta. Tenho pena dos empregados domésticos, a quem antigamente chamavam criados. Já ninguém lhes chama criados, não tenhas pena deles. Quase não existem, o capitalismo acabou com os criados e com a beleza, o capitalismo é pior que a modernidade líquida. O capitalismo é como as galinhas, o capitalismo do vizinho é sempre pior que o nosso.» 

O Futuro: «Um dia, no futuro, tudo aquilo a que hoje chamamos humano será responsabilidade dos pobres: amar, cuidar de um jardim, praticar sexo sem proteção. Os pobres serão atletas, os melhores embaixadores da estação do amor, mais eficientes e mais felizes que a maioria do corpo diplomático.»

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA | "Fala-me de Um dia Perfeito", de Jennifer Niven | Nuvem de Letras - Grupo Penguin Random House


Texto: Isabel de Almeida
Jornalista | Crítica Literária | Editora

Foto: Nuvem de Tinta | D.R.



Fala-me de um dia perfeito, o primeiro romance young adult de Jennifer Niven, que agora chega aos ecrans com a Netflix, é uma obra muito especial por diversas razões, desde logo, pelo carisma e densidade psicológica dos protagonistas, pelos temas difíceis que aborda com sensibilidade mas de uma forma desassombrada e explícita, sendo exemplos destas temáticas: o processo de luto, os comportamentos suicidários na adolescência, a depressão, a violência doméstica e o estigma ou rótulo usualmente ainda hoje associado às perturbações mentais.

Os protagonistas  - Violet Markey e Theodore Finch - são dois adolescentes residentes no Estado do Indiana, nos Estados Unidos , cujos caminhos se cruzam no Liceu Bartlett, no momento em que ambos sobem ao campanário, considerando pôr fim às respectivas vidas, e acabando Theodore por recuar nos seus planos, e impedir que Violet cometa tal acto de loucura.

Theodore é um jovem afectado pelo percurso familiar problemático, filho de um pai egocêntrico, violento e ausente e abandónico [saiu de casa para construir uma nova família, escusando-se à responsabilidade de satisfazer as necessidades afectivas dos três filhos do primeiro casamento - Theo, Kate e Deca, aos quais, apesar de tudo, impõe uma convivência forçada num suposto jantar de família onde são evidentes as tensões entre pai e filhos].


 Também na escola Theo se assume como um aluno problemático, é excluído do ambiente social escolar, sendo mesmo vítima de bullying e é apelidado pelos colegas de "anormal", precisamente por se revelar uma pessoa não convencional, impulsiva e que não se soube ainda encontrar a si mesmo, revelando dificuldades de construção da sua identidade - curioso é o facto de ir mudando de look/estilo, como que acalentando a secreta esperança de, um dia acertar na escolha que corresponda ao seu verdadeiro "eu". 

Habituado a rótulos, Theo sofre de modo solitário [ e sem encontrar apoio na família, também ela desestruturada devido ao abandono da figura paterna] uma perturbação bipolar oscilando entre picos depressivos e de euforia.

Quando se cruza com Violet, encontra a possibilidade e viver a felicidade, ainda que de modo efémero, mas bastante marcante para ambos os jovens.

Violet é uma jovem popular no liceu, oriunda de uma família apoiante e estruturada, mas que atravessa uma fase complicada, ao vivenciar um processo de luto pela perda da sua irmã mais velha - Eleanor, de quem era bastante próxima, sentindo-se culpada quer pelo facto de ser sobrevivente, quer ainda pelo facto de se considerar responsável pelo percurso onde decorreu o acidente rodoviário que se ceifou a vida à irmã.

O livro retrata também, com bastante realismo, a convivência nem sempre fácil dos adolescentes num contexto escolar, com comportamentos que atingem níveis de crueldade, de intolerância e de rebeldia.

Constitui um sério alerta para o estigma das perturbações mentais que afectam os mais jovens, e que nem sempre são diagnosticadas e alvo de intervenções que fariam melhorar a sua qualidade de vida e baixar as taxas de suicídio.

Um livro realista, poético, sensível, comovente e que, assumidamente, nos faz chorar e fica connosco muito para além da Leitura.

Citação:

"As pessoas ou me vêem ou não. Pergunto-me como será andar na rua, seguro e a sentir-me bem na minha pele, e não ser diferente. Sem que as pessoas se desviem, fiquem a olhar, à espera para verem qual será a próxima coisa estúpida e louca que vou fazer."

 Theodore Finch, p. 128
Ficha Técnica da Obra:


Autora: Jennifer Niven

Editora: Nuvem de Tinta [Grupo Penguin Random House]

Reedição: Fevereiro de 2020

Páginas: 360

Género: young adult/romance contemporâneo

Classificação atribuída: 5/5 Estrelas