sexta-feira, 23 de agosto de 2019

JORGE AMADO - UMA BIOGRAFIA, de Joselia Aguiar / DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 27 de Agosto



Um fascinante relato sobre o primeiro grande escritor brasileiro de sucesso mundial, amigo de personalidades como Dorival Caymmi, Glauber Rocha, Pablo Neruda e Jean-Paul Sartre, celebrado (e lido com avidez) nos cinco continentes. Um homem que viveu intensamente as suas paixões políticas, artísticas e amorosas em cenários como Salvador, Paris, Moscovo, Praga e Rio de Janeiro.

O artista cuja trajetória nos ajuda a compreender grande parte do século xx — das intrigas do Partido Comunista na época de Stálin à profissionalização do mercado editorial no Brasil, das novelas de tv à luta pela liberdade religiosa, passando pela música popular, pelos costumes, pelo cinema.

Com acesso exclusivo a manuscritos inéditos do autor, documentos de família, cartas de parentes, amigos e outros escritores, além de exaustivas entrevistas e pesquisas no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos, Joselia Aguiar retraça a impressionante jornada de um dos mais populares escritores do século xx.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

NOCTURNO ARCO-IRIS: MESTRE COUTINHO, de Helder Menor

 


A fotografia amarelada, de dimensões generosas, mostrava um elegante navio a vapor com três chaminés. Na fotografia não se consegue ler o nome pintado na proa. A legenda, escrita em itálico informa sem esclarecer: NSDG em manobras de abastecimento na Terra-Nova.

Entrei na antiga seca do bacalhau, mais por curiosidade do que por outra razão. Perguntei se me dava licença.

O homem velho, disse logo que não era dono da seca. Que só era dono da casinha pequenina que estava dentro do muro da seca e que lhe deram como indemnização há já mais de trinta anos e que não vendia, nem queria saber de conversas de venda, nem aparthotéis nem da puta que os pariu.

Para desanuaviar, apontei para o quadro e perguntei: que navio é este? NSDG? O que é isso?

Nossa Senhora da Guia. Bacalhoeiro. Vapor com três motores, dois motrizes e um de manobras, quarenta e nove homens a bordo, trinta e dois doris, vinte pescadores, onze mestres, doze ajudantes, três mecânicos, um eletricista, um médico e um capitão.

Não sabe o que é um dori? Então não sabe nada de pesca ao bacalhau. O dóri é o barquinho só para um homem, com que nos largavamos do navio para pescar bacalhaus à linha...

Entrei no Nossa Senhora Da Guia como ajudante. Praticamente trabalho escravo, tá a ouvir? Trabalho escravo. Estive vinte anos na pesca do bacalhau, sempre no Nossa Senhora da Guia. Entrei um miudo e onde saí de lá mestre. Saí tão pobre como entrei, mas com mais vinte campanhas de bacalhau.

Um navio lindo... nunca teve uma avaria e nunca perdemos ninguém.

Depois, mudámos de comandante e logo na primeira viagem naufragou. Salvámos-nos quase todos, menos o comandante que era novo e um mecânico filhadaputa amigo do novo comandante, que não queria que se pagasse ao mestre Coutinho.

Isto é verdade, tá a ouvir?!!!

Mais de vinte anos nos bancos de bacalhau da Terra Nova, onde nunca se fazia de noite. Às vezes, o nevoeiro era tanto que dava para comer à dentada... E nunca, nunca, nunca perdemos um dori nem o homem que lá estava dentro a pescar bacalhaus...

-- Tiveram sorte…arrisquei.

-- Sorte? Sorte é uma rameira bêbeda que se esquece de cobrar!!! Não era sorte, nada disso, tínhamos era o Mestre Coutinho! Quando alguém se perdia no nevoeiro, soprava na buzina três apitos e o Mestre Coutinho ia buscar-nos a mostrar o caminho!

O Mestre Coutinho, era o Mestre do Nossa Senhora da Guia. O comandante do navio, depois da campanha acabada, contas feitas, ia direitinho ao senhor da pedra em Matosinhos pagar-lhe a parte dele como mestre. Deixava o envelope com o dinheiro no primeiro degrau da capela, punha uma pedra por cima e vinha embora... trinta épocas assim e nunca se perdeu ninguém...

A mim, aconteceu-me. Não lhe estou a dizer o que me contaram. Aconteceu comigo. Andava a pescar bem, apanhar graúdos, ao largo, deviam ser umas sete da tarde, que ali um homem nunca sabe que horas são que o sol nunca se põe... nisto, cai um daqueles nevoeiros que só quem lá esteve sabe do que falo. Sentado no meio do dori de dois mestros não via a poupa... E os bacalhaus a entrarem para dentro do barco....

Nós eramos pagos pelo que pescassemos porque o que diziam que era o salário que nos pagavam ia logo para a dívida que tínhamos de assinar na companhia antes de embarcar... Tá claro que eu queria era pescar... e fui pescando. Quando dou por mim, olho à volta, e já não se via o navio... Já tinha o barco cheio... carregado, é nesses momentos que um homem tem receio. Não é medo, é respeito ao mar... Comecei a ver a minha vida a andar para trás, foi então que me lembrei do búzio do Mestre Coutinho. Soprei três vezes e esperei...Nem um minuto passou e do lado da poupa ouviu-se a resposta: três vezes: puuuuu puuuuu puuuu…virei o dori e remei na direção do som... remei mais de quatro horas pelo nevoeiro... Quando tinha dúvidas apitava três vezes e o Mestre Coutinho respondia três vezes... fui remando até quase bater na proa do Nossa Senhora da Guia.

Foi o Mestre Coutinho que me levou de volta ao barco.

A mim, salvou-me dessa vez... a outros salvou de outras vezes.

Muitas vezes.

Nunca perdemos ninguém enquanto se pagou ao Mestre Coutinho.

Ainda sem perceber muito bem, perguntei:

-- Mas o Mestre Coutinho também era pescador?

-- Pescador? Nada disso, era Mestre. Mas não era de carne e osso...O Mestre Coutinho era o espírito que andava no Nossa Senhora da Guia!!! Espírito, mas que todos nós fazíamos questão de dividir com ele o pagamento da época... Mas depois o comandante reformou-se e veio um novo comandante que não acreditava no Mestre Coutinho. Combinou com um que era mecânico, que nunca tinha embarcado e que até diziam que era da pide, para deixarem de pagar ao Mestre Coutinho... o mecânico dizia que o pagamento do Mestre Coutinho era para o sindicado... que era coisa de comunistas... e em combinação com o comandante levantou essa questão à direção da companhia.

Quando levantámos ferro, já eles tinham decidido que não iam pagar ao Mestre Coutinho. Mas a malta do porão, que já era velha no mar, combinou que íamos dividir entre nós para pagar ao Mestre na mesma.

Foi isso que nos salvou... 

O Nossa Senhora Da Guia teve a avaria ao largo do Canadá e eles começaram a mexer nas máquinas. Nós já sabíamos que não era coisa boa.... Estavamos parados há horas à deriva e caiu a maior tempestade que vi no mar. Dois dias de tormenta. Ao segundo dia, o navio começou a meter água e adornar.... O rádio sem funcionar e o motor parado... No terceiro dia começou a afundar... metemos os pescadores nos doris e resto em quatro balsas. Passadas umas horas veio a marinha do Canadá para nos recolher. Recolheram-nos a todos. Todos menos a balsa do comandante e do mecânico da pide que nunca mais apareceram.

O Nossa Senhora da Guia desapareceu engolido pelas águas. 

Eu fiquei no Canadá e fiz lá a minha vida... tenho lá os filhos e os netos... Entretanto, fiquei viúvo e comecei a ouvir a buzina do Mestre Coutinho.... Então meteu-se-me isto na cabeça de ter de voltar...tinha feito já oitenta e dois. E a buzina sempre a apitar. Cada vez mais. O meu filho, levou-me ao médico e o medico de lá disse que tenho um tumor no cérebro que me faz ouvir buzinas. Dizia que não tinha mais do que seis meses de vida.

O meu filho não queria que eu voltasse..., mas como para mim ainda não há cabo para me atracar à doca, comprei uma passagem de avião e voltei. Vim a pensar que vinha para cá para morrer. Já cá estou há cinco anos e ainda não morri!

Tou aqui na minha casinha a mando do Mestre Coutinho que não quer que mandem isto abaixo para fazerem o aparthotel. Passo os dias aqui no armazém da seca. É que enquanto aqui estiver não mandam isto abaixo nem constroem aqui nada, que o tribunal não deixa! Foi por isso que o Mestre Coutinho me chamou lá do Canadá.

Passaram dois anos sobre esta conversa. Mudaram-se cadeiras de poderes. Um grupo de pessoas atentas à terra, como biólogos, historiadores e pescadores, mais moradores bem-intencionados, mais a oposição local organizada, começaram a mexer-se contra o betão.

Fizeram-se cartas e abaixo-assinados. Foram comissões em romaria aos ministérios e gabinetes. Por fim, da comissão europeia veio o parecer: fecharam a área às construções e à fome do betão. Chamaram à antiga seca do bacalhau, área de “interesse histórico” e classificaram o edifício como “património protegido”. O antigo armazém da seca do bacalhau, em princípio será um museu. Parece que já há verba para isso.

O acaso, levou-me de novo à seca abandonada.

Perguntei pelo velhote.

Disseram-me que morreu.

Disseram-me que quando lhe vieram dar a notícia, que já não iam demolir a seca, o encontraram sentado na cadeira, com o búzio na mão. Já não estava bom da cabeça. Tinha um tumor que lhe afetava o juízo. Disseram-me. 

Acenei que sim e finjo acreditar. Mas sei que o velho não morreu, acabada a faina e protegido pelo Mestre Coutinho, remou no seu dori de volta ao Nossa Senhora da Guia afundado nas águas escuras e geladas ao Largo da Terra Nova.



AS BATALHAS DO CAIA, de Mário Cláudio / DOM QUIXOTE - 2.ª Edição

Nas livrarias a 27 de Agosto

Nos seus tempos de cônsul em Inglaterra e França, Eça de Queirós endereçou a Ramalho Ortigão algumas cartas sobre um romance que tencionava escrever, prevendo o seu êxito retumbante e deliciando-se com o escândalo que provocaria na sociedade portuguesa, que detestaria ver a Pátria retratada como uma nação miserável à boleia do mundo e humilhada por uma invasão espanhola, mesmo que isso acabasse por regenerá-la. É a partir dessas cartas e de um conto que Eça deixou incompleto (A Catástrofe) que Mário Cláudio constrói o presente romance, colocando, aliás, no centro da intriga, o escritor oitocentista lutando quotidianamente com as angústias da criação literária. Mas, se em vida a obra ficou pelo caminho, na ficção ela vai-se cumprindo página a página, para gáudio dos leitores que, assim, poderão assistir aos últimos vinte anos da vida de Eça, doente e cansado como o seu Portugal decadente, e à grande prosa de Mário Cláudio que, dialogando magistralmente com a obra queirosiana, nunca corre o perigo de se deixar contaminar.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Jaime Bunda e a Morte do Americano, de Pepetela / DOM QUIXOTE - 7.ª Edição

Nas livrarias a 27 de Agosto




Depois de Jaime Bunda, Agente Secreto, o James Bond angolano regressa para nos deleitar com as suas proezas detectivescas.

Um romance policial satírico em que Pepetela, com o humor e a ironia a que já nos habituou, nos oferece um retrato da sociedade do seu país.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

A Rapariga Que Viveu Duas Vezes – Millennium 6, de David Lagercrantz / DOM QUIXOTE - Tradução de Agneta Öhrstrom

Um livro que conclui uma colecção que já vendeu mais de 100 milhões de exemplares em todo o Mundo

Nas livrarias a 22 de Agosto


O corpo sem vida de um sem-abrigo foi encontrado num parque central da cidade de Estocolmo. Nada deixava adivinhar que se pudesse estar perante algo mais do que a trágica morte de um pobre homem mas, apesar de o corpo apresentar algumas características diferenciadoras, não foi possível confirmar a sua identidade.

A Rapariga Que Viveu Duas Vezes – sexto e último volume da série Millennium iniciada por Stieg Larsson – é uma narrativa atual, que combina escândalos políticos e jogos de poder com novas tecnologias, genética, expedições dramáticas ao cume do Evereste, e “fábricas” de trolls que criam e difundem notícias falsas, responsáveis por influenciar resultados de eleições ou denegrir a imagem de proeminentes figuras públicas.

Um final épico, em que não faltam o humor e situações levadas ao extremo por Lisbeth Salander que, como sempre, na defesa dos seus princípios, não olha a meios nem recorre a métodos convencionais.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

DE ONDE NUNCA SAÍ - TEREMOS SEMPRE PARIS, de Helder Menor














Cruzámos os ares esmagados em cadeiras de baixo custo. Aterrámos à noite, mais uma vez carregados de nada e com vontade de pisar o chão sujo de milénios de passos dados.

De novo em Paris, a cidade onde se volta sempre. Os que pariram esta interculturalidade de faz de conta estão prestes a ser devorados pela sua própria cria. A terra onde se inventou o Ocidente prestes a afogar-se na herança do seu próprio colonialismo. Ricos e pobres sobrevivem no medo uns dos outros. Coletes amarelos, jilabas, nudez e alta costura.

À chegada, soldados e polícias de todas as cores armados até aos dentes. Prontinhos a morrer pela França que lhes dá um bilhete de identidade e lhes promete as onze mil virgens ou o paraíso ser protagonista no telejornal.
No aeroporto uma maratona de passadeiras rolantes paradas e vazias que foi preciso palmilhar. Com pressa, sorte e engenho, apanhámos o último comboio para a cidade. Gare du Nord. Seriam umas onze e meia da noite.

Saídos da carruagem sombria e da estação imensa e suja, fomos a pé pela cidade em ebulição. Chegámos nessa hora mágica em que as prostitutas mudam de turno, os chulos brindam com os amigos e os bêbados ainda se conseguem mexer. Ladrões, bandidos, saltimbancos, intrujas, vigaristas e artistas de toda a espécie a tentarem safar-se no momento para pagar mais umas horas de renda na Cidades das Luzes.

Longe, bem longe da Paris de franceses que trabalham nos serviços. Longe daquela Paris que existe, hermeticamente fechada e limpa em prédios de apartamentos com porteiras.

Seguimos de mochila às costas pela cidade. Sempre a pé, desviados dos postais turísticos e do chique. Directos para a Paris real, a terra onde vivem dois milhões de pobres que não são franceses, mas que nunca conheceram outro país que não a França. Putos magrebinos a matarem-se uns aos outros em disputas por pontos de venda de haxe. Outros a vegetar nas escadas dos prédios à espera que aconteça alguma coisa. Quem lhes der um Corão salva-os do mundo.

Entre bebedeiras, pedradas de heroína, propostas comerciais, abordagens religiosas, tentativas de extorsão e ameaças veladas, lá encontrámos o sítio para onde íamos sem grandes dificuldades.

Cinco andares para subir sem elevador e sem casa de banho nos quartos. Tecnicamente ficámos num "hostel". Um antigo bordel, mais ou menos reciclado, mas que alia a santíssima Trindade de um alojamento: limpo, barato e central.

Os proprietários são argelinos da Cabília, boa gente.

Deixamos as mochilas e saímos para a rua. Seriam duas da manhã de sexta-feira. Bares cheios e senhoras a trabalhar pelas esquinas. Entrámos na primeira porta aberta e pedimos dois copos de tinto. Dissemos que não ao dealer oficial da rua, senegalês gigante, que nos veio propor coca. O empregado percebeu e reconheceu a desenrascada e latina forma de dizer que não, com firmeza, sem medos, mas sem arrogâncias nem superioridades. Chegou-se e sentou-se connosco, era argentino, de Buenos Aires e do bairro do Boca. Simpatia legítima. Bebemos juntos. Apareceu uma garrafa de vinho que a casa ofereceu. Continuamos a falar, saudosos da sua América, a Nossa América, a latina. Trocámos números de telefone.

Subimos para o nosso ninho no quinto andar. Com o aquecimento ligado e a janela de vidros triplos, dentro do quarto estava uma noite de verão. Adormecemos como anjinhos aconchegados nos quarenta graus e no borgonha, cinco pisos acima da rua onde as poças no chão gelavam.

Acordámos pelas nove, tomámos o banho possível e descemos. Café e chá no café do marroquino mesmo ao lado do hostel. Andámos com o sol ainda a brilhar baixo e uma temperatura próxima do zero. Fomos à feira da Ladra que aqui se chama das pulgas. O mundo inteiro à venda em tendas, lojas, bancas e panos no chão.... Namorei um jogo de xadrez em pedra, mas deixei ficar. Sem fazer compras, paramos numa roulotte, comemos omelete de cogumelos verdadeiros e bebemos cerveja artesanal.

Depois rumámos à colina de Montmartre. Caminhámos calados e solenes entre os espectros dos camaradas massacrados quando nos esmagaram a Comuna. Subimos ao Sacré Coeur e misturámos com os outros que eram turistas. Música de rua e indianos a vender tubos telescópicos de alumínio para tirar fotografias. Sentámo-nos ao sol no jardim a fumar e a fazer a fotossíntese. Rimos, namoramos e tiramos fotografias a nós mesmos com os telefones.

A fome fez-nos procurar onde comer. Encontramos um café mais ou menos decadente, pedimos pão, queijo e uma garrafa de Bordéus. Sobe-nos bem o tinto, o queijo não era mau, o pão era péssimo.

Nas placas com os nomes das ruas recordámos livros e filmes antigos. Entrámos em várias lojas de discos, sexshops e livrarias. Não comprámos nada, tudo demasiado caro, demasiado datado, demasiado enfadonho, demasiado monótono ou demasiado plastificado. Com a memória da geração perdida, fomos ao Pigale beber um ricard. A Avenida Clichy, espreguiçava-se ao sol de inverno, tudo menos tranquila.

Atracamos numa esplanada, pedimos uma cerveja e café. O mundo passou todo à nossa frente. Excursões de chineses, casais americanos, executivos alemães e rameiras, chulos e mendigos de todas as nacionalidades e cores.

Com o cair da noite, as ruas foram-se enchendo. Numa travessa escondida e escura, na zona mais decrepita do Pigale, o destino e algumas referências prévias, levaram-nos a uma tasca que vende vinho de excelente qualidade e que tem pasta de fígado de ganso. Caseira. Feita com fígado mesmo de ganso, sem iscas de porco misturadas. Estava frio na rua e os ossos doíam só de olhar lá para fora. Pedimos uma garrafa para aquecer, comemos pasta de fígado, presunto, pão e queijo. Tudo bom. Veio mais vinho que bebemos. Fomos ficando na conversa mole sobre vinho e comida com a dona da taberna.

Voltámos ao hostel já tarde e vagamente tocados.

Com o calor do aquecimento sempre ligado, dormi pesado e acordei cedo com boca seca. Era domingo de manhã, na esquina comprei o Libe e fui à padaria buscar duas sandes para levar. Trouxe também uma baguete de sésamo deste tamanho que comi com o chá da manhã no café do marroquino.

Apanhamos o metro até ao arco do Triunfo. Depois, descemos os Champs Elysêes até à Place de la Concorde. Cruzámos o Sena. Finalmente a tal Paris, dos canais de televisão especialistas em viagens. A Paris dos cafés para americanos. Paris das excursões turísticas, das luas de mel e dos casais de meia idade do Japão, Coreia e China a fazer fotos para emoldurar.

Caminhámos pelo Quais D'Orsay até à inevitável Torre do Eiffel. Mais policias e militares de camuflado e uzi. Temperatura entre os zero e os quatro graus. Subimos as escadas de ferro evitando a fila e o pagamento. Lá em cima olhamos à volta, tiramos fotografias, fizemos juras de amor, especulamos sobre distâncias e queixamo-nos do vento gelado. Descemos e comemos as nossas sandes no jardim ao lado da ponte. O sol de inverno fica bonito nas fotografias, mas não aquece, bebemos chá quente do termo envolto numa meia de lã, mas mesmo assim, foi o frio quem nos sacudiu dali.

Andamos mais de uma hora pelas ruas até ao hostel onde no nosso quartinho do quinto piso o verão era eterno e convidava ao descanso.

O argentino do bar acordou-nos com uma mensagem a combinar irmos beber um copo às sete e meia. Eram sete e dez. Vestimo-nos para uma expedição polar e caminhamos cinco minutos até ao lugar de encontro.

Aqui no 18º Bairro, há dez anos atrás só viviam argelinos e senegaleses. Mas o passar do tempo deu poder de compra à geração dos filhos dos que fizeram o Maio de 68... E estes franceses entre os 35 e os 50 anos, que cresceram nos valores da liberdade com padrões de consumo burgueses, sem preconceitos de classe e sem valores religiosos ou nacionalistas, preferem morar no Centro de Paris entre africanos e asiáticos do que nos subúrbios, entre brancos. Chama-se a esta subclasse emergente, Bobo, Boheme Bourgoise. É esta gente, quem alimenta economicamente o bairro e os seus pequenos negócios de cafés, mercearias, remodelações, livrarias, traficantes de drogas, lavandarias, oficinas de bicicletas e uma ou outra galeria de arte que vai aparecendo.

Fomos para um café completamente cheio de bobos, africanos, latinos, e de magrebinos. Mesas compridas e toda a gente misturada. A esplanada virada pró canal do midi. Bebemos tinto e comemos pão com coisas que iam aparecendo: queijos, enchidos, patês e até conservas de peixe. Falámos de vinho, política, livros e viagens. Da Europa e da América. Da Argentina, de Portugal e da Cabília com um argelino de segunda geração que se juntou a nós. As garrafas navegavam ate à nossa mesa a boiar entre o fumo e a música do Fateh Ali Khan que se sobrepunha ao barulho das vozes e dos copos a bater.

A festa acabou relativamente cedo, porque era domingo à noite.

Saímos em clima alegre e descontraído. Voltámos a pé pelas ruas estreitas.

A polícia tinha vedado a rua do nosso hostel. Não podíamos passar. Disseram-nos para esperar um bocadinho. No café do marroquino, minutos antes aconteceu um homicídio. Um adolescente foi esfaqueado e esperava-se a ambulância da morgue.

A morte do miúdo desconhecido no café, cortou o clima de festa em que seguíamos e foi-nos buscar ao Bordeaux onde alegremente planávamos para nos trazer em voo picado para o mundo real.

Estava definitivamente acabado o fim-de-semana.

Voltamos sem mágoas, mas sem vontade de ficar muito mais. Sabemos que mais dia menos dia regressaremos.

Paris é especial. Dá-nos aquele conforto de sabermos que aconteça o que acontecer, façamos nós os que fizermos das nossas vidas, Paris permanecerá. Paris vai lá estar disponível como uma prostituta madura, cansada, ligeiramente alcoólatra e com mau feitio, mas eternamente bela e sedutora.

“Teremos sempre paris”, dizia-se em Casablanca.




domingo, 11 de agosto de 2019

ENTREVISTA a Angela Saini autora do livro, INFERIOR / Edições Desassossego


"Temos que nos esforçar permanentemente para alcançarmos o mesmo estatuto dos homens"




Angela Saini nasceu em Londres em 1980. Possui dois mestrados em Engenharia pela Universidade de Oxford e, em Ciência e Segurança pela King's College de Londres. Trabalhou como repórter da BBC. 
Em 2008 tornou-se escritora freelancer. Em 2009 foi nomeada Jovem Escritora Europeia de Ciências.

Publicou os livros:

2011 – Nação Geek: Como a ciência indiana está a dominar o mundo.

2018 - Inferior: como a ciência sempre desvalorizou a Mulher e os novos estudos que estão a corrigir esse erro.

2019 - Superior: o retorno da ciência racial.





Foi acerca do seu livro “Inferior: como a ciência sempre desvalorizou a Mulher e os novos estudos que estão a corrigir esse erro” publicado este ano pela Desassossego uma das chancelas da Editora Saída de Emergência que conversámos com a autora.


MBC – O que a levou a escrever este livro?
AS – Pura coincidência. Foi-me pedido por um grande jornal do Reino Unido um artigo sobre a menopausa, um assunto sobre o qual confesso nunca ter pensado até esse momento. Por esse motivo tornou-se num estimulante fazê-lo. Independentemente de ter aceite este desafio, decidi abordar o tema sob uma perspectiva mais científica, começando pela explicação evolutiva. O motivo pela qual a mulher experimenta a menopausa. O que descobri é que a menopausa é extremamente rara na maior parte das espécies animais. Além dos seres humanos e das Orcas, são poucas as espécies que passam por este processo. O mais bizarro foi descobrir que a menopausa não é comum a nenhuma espécie de primatas.
Após intensa pesquisa deparei-me com diversas teorias. Por exemplo, a teoria da avó que diz que as mulheres à medida que envelhecem são tão cruciais para a sobrevivência de filhos e netos que aumentam a sua longevidade ao ponto de se tornarem estéreis. Uma outra teoria publicada por três canadianos dizia que as mulheres se tornam inférteis porque com a idade deixam de fazer sexo. É evidente que mesmo na altura da sua publicação foi refutada por estar pobremente fundamentada. Não existia nenhuma base evolutiva nesta concepção, nada do que diziam fazia sentido por não existirem dados que comprovassem as suas afirmações.
Contudo, fascinou-me ver que com base no género, as pessoas têm opiniões diferentes sobre este fenómeno biológico. O que me levou a explorar o que mais existe na biologia humana, o que nos diz entre as diferenças entre homens e mulheres, particularmente sobre as nossas mentes e corpos. Mas, principalmente como mulher queria factos, saber o que a ciência realmente diz sobre quem sou, quem é a minha mãe, as minhas irmãs, as minhas amigas. Queria respostas para mim e, entendi que essa seria a minha jornada de descoberta.

MBC – Escrever este livro alterou em algum aspecto a sua visão sobre a ciência?
AS – Muita da minha pesquisa como jornalista científica é olhar para os problemas dentro da ciência. A minha função não é trair a ciência, mas descobrir erros, entender as agendas dos cientistas sejam elas pessoais ou políticas, os financiamentos que recebem, tudo o que possa perturbar o processo científico que leva a ciência a não ser confiável aos olhos do público. Tento selar pela acuidade da ciência, nesse sentido não me surpreendeu saber que existiam graves problemas dentro da comunidade científica. Porém, como ser humano e vivendo inserida na sociedade utilizo a minha escrita para expressar a maneira como penso. O porquê da existência de todos esses estereótipos? As suposições sobre quem somos?
Devido à teoria da Avó deixei de pensar da mesma forma sobre a maternidade ou o envelhecimento. Embora sempre tenha sido feminista, de ter sempre lutado pelos direitos das mulheres, toda a minha pesquisa deu-me uma nova dimensão, reafirmando o meu feminismo.

MBC – Sendo jovem, mulher, brilhante e bonita não encontrou oposição por parte dos cientistas?
AS – Ainda é um problema. Qualquer mulher que escreva na área das ciências enfrenta barreiras porque não somos levadas a sério no nosso trabalho. Mesmo hoje quando entro numa livraria reparo que existem inúmeras escritoras publicadas na área da ciência, mas, por alguma razão, os escritores têm maior relevo na divulgação do seu trabalho. O que confesso me deixa extremamente frustrada porque existem brilhantes escritoras e no fundo acabamos por ser tratadas quase como se o nosso trabalho se limitasse a ser uma continuação do trabalho dos homens. Espero ansiosamente que isto mude e, acredito que aconteça se pressionarmos o sistema imposto.

MBC – Em geral, os homens ainda pensam que as mulheres têm corpos e mentes fundamentalmente diferentes?
AS - Ainda há pessoas que pensam dessa forma. Existem obviamente algumas diferenças entre homens e mulheres. Nos nossos sistemas reprodutivos, diferenças médias na altura, mas muitas destas diferenças são tidas em média, por isso existem muitas mulheres que são mais fortes do que alguns homens, outras que são mais altas.
Psicologicamente, quase não existem diferenças. Acho que essa foi para mim a maior revelação. Quando olhamos para estudos psicológicos, dificilmente encontramos diferenças. Limitamo-nos a acreditar quando nos afirmam que existem grandes lacunas entre os géneros, em assuntos como a matemática ou o raciocínio verbal. Na realidade essas lacunas não existem. É nesse momento que nos devemos interrogar porque nos dizem que existem. E rapidamente concluímos que se deve à sociedade e à cultura na qual vivemos que ainda não mudou o suficiente para contrariar estes dogmas.

MBC – Nos nossos tempos não acha estranho que alguns homens ainda se sintam superiores?
AS – A meu ver o problema reside nas mulheres que continuam a pensar que existem diferenças. Mas isso é o que a cultura nos faz crer quando nos diz que a mulher tem um lugar específico, um papel a desempenhar na sociedade. E é claro que para muitos homens beneficia-os manterem esse status quo.

MBC – Mesmo no mundo moderno?
AS - Mesmo no mundo moderno! É triste dizer, mas até em muitas mulheres da minha idade. Uma das melhores mensagens que recebi quando "Inferior" foi publicado, veio de uma menina na Índia que leu o livro e o deu à mãe para o ler. O pai era muito patriarcal, dominante. O que me disse foi que após a mãe o ler começou a enfrentar o pai. Esta mensagem foi a mais importante que já recebi. Se as mulheres se conseguem sentir fortes ao lerem “Inferior” sinto que atingi o meu objectivo.

MBC – No fundo é essa a mensagem que quer passar no seu livro?
AS – Sim. Espero que as pessoas o leiam e que desafiem as suas bases. Quer sejam homens ou mulheres. Mas adorava que as mulheres se sentissem particularmente fortes com o que a ciência realmente diz sobre quem somos. Não somos aquelas criaturas fracas que durante décadas, séculos nos levaram a acreditar. Podemos fazer o que quisermos, ter uma sociedade mais igualitária e tudo o que necessitamos é tão simples como trabalhar em conjunto, lutar por esses direitos, quebrar de uma vez as barreiras políticas e culturais.

MBC – Mas concorda que em 2019, ainda temos que trabalhar o dobro dos homens para provar o nosso valor?
AS - As dificuldades que eu e outras mulheres cientistas ainda sentimos, não nos obriga somente a trabalhar duro para chegar onde estamos, temos que provar ao mundo que somos capazes de fazer o mesmo que os homens mostrando que é possível, normal. Provar que podemos ser as pessoas que pensam que não conseguimos ser. Existem camadas de barreiras com as quais lutamos o tempo todo. Temos que nos esforçar permanentemente para alcançarmos o mesmo estatuto dos homens. Para algumas mulheres, é mais fácil para outras mais difícil.

MBC – Durante a gravidez sentiu-se de alguma forma posta de lado?
AS - Antes de ter filhos trabalhava como repórter e tive que desistir porque me ocupava todos os dias em qualquer horário. Sabia que meu marido não iria desistir do trabalho dele, por isso quando tomei conscientemente a decisão de ter filhos, desisti desse trabalho e, foi nesse período que comecei a escrever. Não me arrependi da minha escolha, até porque tive que aprender a conciliar o meu trabalho com ser mãe. Mas gostava que a sociedade fosse estruturada de maneira a que as mulheres não tivessem que fazer estas escolhas o tempo todo. Penso que a maioria das indústrias ainda opera com base no princípio de que haverá sempre alguém em casa e, isso é realmente algo que precisamos alterar. Se não ficar ninguém em casa com as crianças como podemos dar o nosso melhor no nosso trabalho? E não falamos apenas das crianças. Falamos do trabalho doméstico, cozinhar, limpar, fazer compras e todas as outras coisas que necessitam de ser feitas. Uma casa tem que ser governada e isso também é trabalho.

MBC – No entanto na maior parte dos casos os melhores e mais bem remunerados empregos continuam a ser entregues a homens.
AS - No Reino Unido, existe uma enorme diferença salarial. Penso que isso ainda é um problema e, que se deve a diversas razões. Em parte, o sexismo. Temos vencimentos inferiores fazendo exactamente o mesmo trabalho. Em parte, a própria história. Afinal o homem tem estado na força de trabalho há mais tempo e as mulheres desistem de trabalhar para terem filhos. Mas ainda temos um outro aspecto que a meu ver é muito mais complicado, quando as mulheres começam a fazer um trabalho são desvalorizadas, dou-lhe o exemplo da programação informática costumava ser um trabalho feito exclusivamente por mulheres por ser um trabalho enfadonho logo só uma mulher gostaria de o fazer. Mas de um momento para o outro a indústria tornou-se numa profissão altamente valorizada e as mulheres foram sendo lentamente excluídas e, agora os homens dizem que as mulheres não percebem de programação. Necessitamos de continuar a lutar para que uma mulher que faça exactamente o mesmo trabalho que um homem receba o mesmo. Ao mesmo tempo que damos mais valor a todo o outro trabalho que tradicionalmente fazemos.

MBC - O que pensa dos homens que ainda mantêm os melhores cargos de liderança?
AS - Acho que em posições de grande poder, damos ao homem muito mais espaço para fracassar do que damos às mulheres. Quando uma mulher falha, causa impacto em todas as mulheres, automaticamente está a prejudicar-nos a todas. Mas se um homem falhar, é aceitável. Ele é um indivíduo que teve o azar de falhar e nós perdoamos. Por isso sim, continuam a existir padrões diferentes.

MBC - Aos nossos leitores em Portugal que ainda não a conhecem porque ainda não leram os seus livros, como gostaria de apresentar “Inferior”?
AS - Gostaria de dizer a todas as pessoas que nos dizem que a igualdade é impossível porque somos naturalmente diferentes, que não há nada na biologia que diga que a igualdade não pode vencer. Antes pelo contrário devemos sentir-nos fortalecidas com essa constatação. Como disse, esta jornada mudou a minha vida e espero que mude vidas.














Texto e Fotos: MBarreto Condado