domingo, 17 de junho de 2018

CRÓNICA | A família de ontem e a família de hoje | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO


Há umas semanas comemorou-se o Dia Internacional da Família e, logo que tomei conhecimento desse facto, dei por mim a reflectir no conceito familiar da actualidade – ou não fosse eu dona de uma “mente inquieta”. Os neurónios, frenéticos, alternavam entre o modelo do passado e o do presente e nas suas implicações nas famílias e na sociedade.

Antigamente vivia-se para a família, para a ordem, a harmonia e a paz no lar. Tudo o que se fazia era pensado em termos familiares. Todos os seus elementos tinham papéis bem definidos e a vida decorria de forma tranquila. Os homens saiam de casa e iam prover o sustento, o conforto e travavam todas as lutas necessárias para a protecção e bem-estar daqueles que amavam. As mulheres, na sua maioria, ficavam em casa a construir e a manter a união, a acompanhar e a educar os filhos, a prepará-los para serem gente decente – alguns iriam, mesmo, decidir os destinos de todos nós -, e a acarinhar e a amparar aqueles que, já gastos e sem forças, lhes tinham dado a possibilidade de pisar este mundo. Não havia cá lugar a abandonar os velhos pais num qualquer lugar inumano ou a deixar os filhos entregues à sua sorte, à mão de semear de todas as tentações e perigos.

O resultado era um respeito generalizado, velhos a acabarem os seus dias com conforto e dignidade e crianças a crescerem fortes, felizes, bem preparadas para o futuro e que respeitavam e idolatravam os pais, os seus modelos.

Durante muito tempo viveu-se neste equilíbrio de valores, como uma máquina com várias engrenagens que se encaixam e completam para um único objectivo: funcionar bem, com o mínimo de percalços e esforço. E depois tudo mudou. As mulheres começaram a sair de casa para ocuparem os lugares até então dos homens, mas estes não ocuparam os das mulheres. Elas viram-se sobrecarregadas, forçadas a desempenhar dois papéis distintos em simultâneo, consecutivamente, e as fundações familiares deixaram de ter sustentação e abanaram por todos os lados.

De repente já não havia tempo para um carinho aos velhos, que passaram a morrer no abandono e tristeza, nem para uma formação adequada dos novos, que se afastavam cada vez mais dos progenitores e se tornavam verdadeiros estranhos que apenas partilhavam o mesmo espaço; passaram a crescer “à rédea solta”, com os exemplos e “ensinamentos” dos amigos, vazios de respeito, empatia, honra e espírito de sacrifício, acreditando veementemente que tinham um estatuto igual ao dos seus pais sem nada fazerem para isso.

De repente as pessoas já não tinham paciência umas para as outras, nem respeito, nem vontade e, à mínima contrariedade, divorciavam-se e “mandavam às urtigas” o equilíbrio em prol do recém-descoberto “eu”. Os nossos descendentes passaram a considerar normal que cada um vivesse para seu lado, com as suas necessidades sempre em primeiro lugar, que o individualismo era a base de tudo, fomentando o egocentrismo e egoísmo.

De repente vivíamos numa sociedade que o era só de nome, onde éramos cada vez mais em número mas estávamos cada vez mais distantes, sós e infelizes, mais intolerantes e beligerantes, onde o negrume do caos aumentava dia a dia. Tudo isso estava bem patente nas incompreensíveis guerras, na corrupção instalada em todas as áreas, nos assassinatos pela mais pequena disputa e nas diversas injustiças sociais. Cada vez mais abríamos o mundo a gente sem conteúdo valoroso.

Cheguei à conclusão que é urgente repensarmos os nossos valores, as nossas escolhas. A família é a base de tudo, é o nosso norte. Não pode ser descurada. Se o fizermos corremos o risco de perdermos a nossa identidade e nos tornarmos verdadeiras bestas. Sim, o mundo muda e temos que nos adaptar, mas há coisas que não devem, nunca, perder a importância que na realidade têm. Esta é uma delas.

Ainda me lembro das estórias que a minha mãe me contava tranquilamente, com todo o tempo do mundo, antes de adormecer. Recordo, com carinho, de irmos passeando e conversando até à mercearia para fazer compras a meio do dia. E dos lanches que me dava quando chegava da escola, enquanto me perguntava o que tinha aprendido. Quantos dos nossos filhos poderão, daqui a cinquenta anos, como eu, dizer o mesmo?

LITERATURA | Lealdade de Letizia Pezzali | DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 19 de Junho


Giulia, de trinta e dois anos, trabalha num importante banco de investimentos de Londres. Vive num contexto invulgar para alguém da sua idade: dispõe de muito dinheiro, de pouco tempo livre e – além do sexo – as suas relações limitam-se ao telemóvel e às redes sociais. O mundo em que se move é aquele que provocou a crise financeira internacional mas que dela saiu incólume.

O resto da humanidade, excluída dos arranha-céus de Canary Wharf, o centro financeiro do banco situado na margem do rio Tamisa, encara esse mundo privilegiado com desconfiança. De súbito, as possíveis consequências do Brexit avassalam esse mundo com a violência de um tsunami, mergulhando-o num cataclismo interno que é de natureza quase espiritual.

Lealdade, o primeiro livro de Letizia Pezzali publicado em Portugal, é um extraordinário romance sobre o poder, a natureza do desejo e a necessidade contemporânea de encontrar uma nova linguagem para as relações humanas. A história sensual e autêntica de uma obsessão, narrada na primeira pessoa por uma personagem vigorosa, que seduz página após página.

sábado, 16 de junho de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | A (quase sempre) insustentável sede de poder| ISABEL DE ALMEIDA

O poder poderá ser equacionado em diversos contextos, apenas para exemplificar, pode advir de informação ou de conhecimento mais alargado em determinada área do saber, mas hoje pretendo tecer algumas considerações acerca do poder político ou politizado, entendendo-se por tal o desempenho de funções superiores à frente de um Estado, órgão político, instituição pública ou privada, mormente, considerando-se uma organização hierárquica na gestão de tais entidades.

Num exercício de mera abstracção muitas motivações podem determinar o exercício do poder político ou politizado, idealmente, a mais genuína, desejável e ingénua ( decorrendo este último adjectivo do meu desencanto pessoal com a política, os políticos e o algumas instituições politizadas)...será a vontade de promover o cabal funcionamento de um aparelho de Estado ou de uma instituição, de modo a garantir o bem colectivo (correspondendo o colectivo ao universo de indivíduos que são afectados directamente pelo funcionamento de tais entidades públicas ou privadas) satisfazendo as necessidades mais prementes dos destinatários das decisões e acções de efectivo exercício de poder!

O que nos faz ter especiais cautelas, duvidar metodicamente, analisar criticamente, observar à distância e ir retendo na memória detalhes que, tantas vezes, por mais aparentemente simples que sejam, muito revelam da personalidade, intenções e futuras acções de quem almeja o poder? 

       Pois bem,

 Primeiro, a experiência pessoal. O nosso percurso de vida, ensina-nos que muitas vezes erramos nos julgamentos ou apreciações que fazemos de quem se nos apresenta como candidato a cargo político ou institucional. Isto não constitui novidade, nem deve ser motivo para recriminações pessoais, já que perante terceiros nunca estaremos na posse de todos os dados para avaliar alguém, há sempre uma natural e humana margem de risco!

Em segundo lugar, quantas vezes optamos por escolher entre o menor de dois ou mais males. Sim, há momentos temporais em que as alternativas para quem exerça o poder nos suscitam expectativas tão baixas que, em desespero de causa, e apenas para evitar uma abstenção, escolhemos por impulso quem julgamos ser o menos mau dos vários maus candidatos ao exercício do poder!

Por fim, e em terceiro lugar, quantas vezes a desilusão é de tal monta que, comodamente, como se tal nos eximisse de responsabilidades em termos de exercício pessoal de deveres cívicos evitamos escolher quem quer que seja, votamos em branco, nulo, ou contribuímos para os números da abstenção! Pode ser criticável, em especial  abstenção, mas as percentagens de votos nulos, brancos ou da votantes em abstenção são um excelente indicador da perspectiva do público (do colectivo) sobre o poder político e a forma interesseira, ligeira ou oportunista como este vem sendo exercitado.

O sentimento de desilusão, o desencanto com a política, os políticos e, em última análise, o exercício do poder não surge do nada, surge de um acumular de circunstâncias.

E visto que está, sumariamente, o enquadramento genérico, bem como a minha perspectiva pessoal na qualidade de membro da comunidade dotada de Direito de Voto, façamos agora uma incursão reflexiva sobre os insondáveis desígnios do exercício do poder, ou das meras pretensões ao seu exercício.

O que vou confessar pode chocar alguns leitores, mas quem já conhece a minha frontalidade não ficará alarmado. Numa clara ambiguidade que nem eu própria sei explicar, ou que talvez decorra de factores como a formação em Direito na vertente de Ciências Juridico-políticas e da minha paixão por história, do ponto de vista puramente intelectual, reconheço ser divertido observar os jogos de poder, as alianças que se fazem e desfazem, as pequenas e grandes manipulações, a ausência ou o exercício de estratégias políticas, as abordagens mais ou menos atrevidas em busca alianças, a maior ou menor honestidade intelectual dos candidatos a cargos de poder. Todos estes detalhes passam pelo meu crivo analítico e quantas vezes assisto a situações que são verdadeiramente surreais, e chegam a suplantar a ficção de melhor qualidade, "Kafka está vivo!", como dizia um saudoso amigo e Colega meu!

Tantas vezes o poder tenta, cega, embriaga e tolda o raciocínio dos homens, tantas vezes é ilusória a sua grandiosidade, o dark side que me assusta deveras é que pelo meio desta embriaguez é a perda de rumo das instituições politicas ou politizadas devido à persistência e insistência em cuidar mais dos interesses pessoais do que dos colectivos, e é especialmente confrangedor sequer equacionar, quanto mais assistir, aos danos colaterais a atingir inocentes no âmbito de todo este processo, e tudo em nome do poder!

Muitas consciências se perdem nestas andanças de alguma "politicazinha", para muitos o exercício do poder é, nada mais, do que o caminho fútil da escalada social, da ascensão forçada (e aterroriza pensar a que custo) a um patamar onde, por inerência, ou por mérito pessoal nunca chegariam. Obviamente, quando o cenário se completa da forma menos natural e menos transparente ou honesta, chegam questões gravíssimas como benefícios económicos indevidos para si ou para terceiros, troca de favores, "lobbies" e, daqui facilmente se pode caminhar em direcção à prática de ilícitos criminais, em última análise!

Importa pois, estarmos atentos, alerta, termos sentido crítico, sabermos separar o trigo do joio, não generalizar (ainda se encontram pessoas conscientes no seio de tanta inconsciência, é importante frisar esta ideia) e resistirmos com toda a força a integrar a natureza de danos colaterais! Infelizmente, nem sempre podemos escolher bem, infelizmente não somos perfeitos, e infelizmente sofremos desilusões, mas até com os erros devemos aprender, e nunca é tarde para corrigir erros de julgamento! Errar é humano! E que todos estejamos cientes que o poder é tentador e pode corromper mesmo as almas mais puras!

Num mundo ideal todos os políticos seriam honestos, todo o poder teria como objectivo servir o bem público, e todos nós seriamos Deuses e não humanos!

"É uma experiência eterna que todos os homens com poder são tentados a abusar."

Montesquieu

quarta-feira, 13 de junho de 2018

CINEMA | A Cada Dia

NOS CINEMAS A 14 DE JUNHO.





Baseado no aclamado best-seller do New York Times escrito por David Levithan, “A Cada Dia” conta a história de Rhiannon, uma rapariga de 16 anos que se apaixona por uma misteriosa alma chamada “A”, que cada dia ocupa um corpo diferente. Sentido uma ligação ímpar, Rhiannon e “A” todos os dias se esforçam para se encontrarem, desconhecendo o quê ou quem o novo dia trará. Quanto mais os dois se apaixonam, mais a realidade de amar alguém que é uma pessoa diferente a cada 24 horas começa a pesar, deixando Rhiannon e “A” perante a decisão mais difícil que alguma vez tiveram de tomar.

domingo, 10 de junho de 2018

CRÓNICA | Vizinhos, vizinhos… amigos à parte | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO



“Vizinha, tem um pezinho de salsa que me ceda? Estava a fazer o jantar e só agora dei conta que não tenho.”

Lembram-se desta frase? Era usada muitas vezes entre vizinhos, fosse sobre salsa ou outra coisa qualquer. Já tem algum tempo, mas os que andam agora entre os quarenta e os cinquenta anos, no mínimo, lembram-se com certeza.

E a resposta, de sorriso franco nos lábios, era sempre a mesma: “Claro que sim; entre, entre, que vou buscar; veja lá se lhe chega, leve mais um bocadinho.”
Há algum tempo vivia-se assim, com confiança uns nos outros e o respeito de uns pelos outros. Os vizinhos não eram apenas aqueles que viviam no mesmo prédio; não; eram amigos para o dia-a-dia, alguns mesmo para a vida – tantas amizades genuínas e bonitas nasceram assim, de se morar lado a lado -, a quem confiávamos os nossos dilemas, os nossos filhos, quando necessitávamos de sair a algum lado sem os miúdos, com quem se trocava dois dedos de conversa interessante e interessada e a quem se pedia ajuda em caso de qualquer aflição. As crianças cresciam a conviver umas com as outras e as amizades já existentes entre os pais passavam, naturalmente, para os filhos. Aqueles podiam ficar descansados quando os pequenos estavam na casa do vizinho, pois sabiam perfeitamente que seriam bem tratados, com lanche e tudo, tal como eles tratavam os filhos dos seus companheiros de prédio.

Era uma vivência saudável, pacata, bonita e um excelente exemplo para os mais jovens.
Depois tudo mudou. Entrámos na era do “eu” - como se nunca tivéssemos existido individualmente até ali -, na igualdade em todos os aspectos, no ter tanto ou mais que o outro, no consumismo ostensivo e, em consequência, tornámo-nos introvertidos, desconfiados de todas as intenções, “mandámos a entreajuda às urtigas” e passámos a tratar-nos uns aos outros como verdadeiros estranhos que, muitas vezes, nem se cumprimentam com um simples bom dia. Em muitos prédios há pessoas que não se conhecem de todo, pois nunca se viram.

Não me parece natural que pessoas que partilham o mesmo espaço não se conheçam, por exemplo. É verdade que há portas a dividir-nos uns dos outros mas estamos envolvidos por um espaço comum.
A meu ver estamos a tornar-nos, e a gerar, criaturas desprovidas de qualquer compaixão e empatia. A classe médica na área da psiquiatria diz mesmo estar preocupada com a ausência crescente de pessoas empáticas, por ser um travão natural para acções menos próprias para com o outro. De facto, vivemos um tempo em que as disputas, as guerras, os diferendos imperam e o resto, aquilo que realmente importa e de que tanto necessitamos, pois distingue-nos dos demais animais, é já quase uma miragem.

É o Homem que cria os seus fantasmas e os traz à vida; só ele poderá combatê-los e erradicá-los da sua existência.

LITERATURA | Memórias da Nação Valente - Portugal nos Mundiais de Futebol de Afonso de Melo | OFICINA DO LIVRO

Nas livrarias a 12 de Junho


Afonso de Melo talvez seja o jornalista que mais escreveu, em jornais e em livros, sobre a Selecção Nacional de Futebol. 

Neste livro estão pela primeira vez reunidas crónicas, da sua autoria, de todos os jogos que a equipa portuguesa disputou nos seis Campeonatos do Mundo em que esteve presente. A acompanhá-las estão seis textos de um igual número de escritores: Manuel Alegre (Inglaterra 1966); João Rebocho Pais (México 1986); João Ricardo Pedro (Coreia do Sul/Japão 2002); João de Melo (Alemanha 2006); Pepetela (África do Sul 2010); Luis Fernando Verissimo (Brasil 2014).

Tempo, pois, na altura em que se aproxima a hora de Portugal surgir pela sétima vez na fase final de um Campeonato do Mundo, na Rússia, de trazer ao sol histórias que vivem nas Memórias da Nação Valente.


sábado, 9 de junho de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | VIII Congresso dos Advogados Portugueses - Calar é ser cúmplice! | ISABEL DE ALMEIDA

Faltam quatro dias para ter início, na Cidade de Viseu, o VIII Congresso dos Advogados Portugueses, que ali terá lugar entre os dias 14, 15 e 16 de Junho de 2018, ironicamente sob o tema "Uma advocacia mais forte numa sociedade mais justa". 

Digo ironicamente, porque nunca antes se assistira a um ambiente tão instável, hostil, antidemocrático, entre os pares da Classe Profissional que tem por missão a defesa dos mais fracos contra a injustiça, os abusos de poder, e falta de segurança jurídica!

Nunca antes foi tão visível e perceptível entre os muitos membros desta Classe onde, por enquanto, ainda me incluo, uma tensão permanente, alguma agressividade que chega a levar ao esquecimento dos mais basilares e essenciais deveres de urbanidade que devem, por força de norma estatutária, além da mais elementar boa educação, pautar as relações entre Advogados.

É com profunda tristeza que reconheço estar, quiçá,  a assistir ao "fim dos tempos", em termos de exercício profissional para muitos Colegas que exercem em regime individual por todo o país, sujeitos às naturais contingências menos positivas e instáveis das economias locais onde laboram.

É com profunda indignação que receio ver cair por terra a esperança de, junto daquele que é o Órgão máximo da Ordem dos Advogados, um debate livre, esclarecido, sem tabus, sem cercear o exercício democrático intra-institucional, de diversas questões que estão na ordem do dia para a grande maioria dos Advogados Portugueses, nomeadamente, a questão da previdência social (o elevadíssimo esforço financeiro sem retorno que constitui a vinculação à Caixa de Previdência dos Advogados e Solicitadores; ponderando-se mesmo a possibilidade de opção por regime mais favorável, ou a consideração dos rendimentos efectivamente auferidos e não decorrentes de presunção legal). 

Também não é menos certo que, por contingências logísticas que se prendem com o espaço onde decorrerá o evento, eu e outros Colegas, todos subscritores de pelo menos uma ou várias comunicações, não teremos assento nos trabalhos do Congresso, sequer com o legítimo estatuto de Observadores... obviamente, não se tratará da existência de quaisquer estatutos de Persona non Grata, quero crer! Todavia, a circunstância de não haver sido feita a contabilização dos potenciais assistentes ao Congresso (mormente através da análise da quantidade de subscritores de Comunicações que não revestissem a qualidade de Delegados eleitos ao Congresso) gerando obstáculos logísticos que afastam o olhar de pares para o que de relevante ali se deverá e irá discutir faz pensar num défice democrático, ainda que o mesmo possa decorrer de meras falhas de organização a corrigir futuramente!

Não menos preocupante é fazer um percurso por todas as comunicações do Congresso, que se encontram publicadas em formato PDF na página do mesmo (documentação que poderá ser consultada AQUI) e encontrar, novamente num rasgo da mais cruel ironia, comunicações que são, em si mesmas, um ataque grave ao próprio sistema onde se inserem. 

Estejamos atentos, alerta e prontos a lutar, não podemos aceitar que, após termos sido submetidos aos formalismos de admissão à Ordem dos Advogados, tendo passado por um processo de Estágio durante o qual prestámos provas em termos teóricos e práticos, durante o qual passámos por um momento final de avaliação - Prova de Agregação - onde apenas acederá à profissão quem for considerado apto para tal, após escrutínio dos pares! 

Por tais razões, não podemos aceitar passivamente ver ser colocado em crise o sistema de tirocínio para acesso à profissão, partindo-se de generalizações perigosas e, porque não dizê-lo, ofensivas quando se expressam opiniões que abalam a formação académica  prestada pelas Universidades e, pasme-se, a formação profissional assegurada pela própria Associação Profissional que representa a Classe! 

Gravíssimo e ao arrepio das normas da nossa Lei Fundamental será ver debater num Congresso daquela que, em tempos, foi considerada a Casa da Democracia ideias que passam por uma assumida e crescente elitização da profissão, assumindo-se publicamente o entendimento de  que é necessário auferir determinados rendimentos para que seja possível exercer Advocacia em Portugal; assumindo-se publicamente o entendimento de que deve haver formação contínua (em sentido formal) como condição para integrar o Sistema de Acesso ao Direito e aos Tribunais, assumindo-se publicamente o entendimento segundo o qual a qualidade/Categoria Profissional passa a ser algo precário, instável cujos requisitos de acesso devem ser aferidos caso a caso de dez em dez anos (algo como licenças temporárias para o exercício da profissão, sujeitas a caducidade  e cuja aferição tem por base critérios de discriminação por exemplo fundados em razões económicas).

Questiono-me o que por aí virá em termos de Sistema de Acesso ao Direito e aos Tribunais.

Questiono-me qual o futuro destinado a todos os Advogados que não integrem grandes sociedades!

Questiono-me se os jovens candidatos a Estagio poderão exercer o seu direito de escolha de profissão!

Questiono-me em que moldes a sociedade ficará mais justa se despojada do acesso a mais de metade dos Advogados actualmente inscritos em Portugal, e em que termos se podem diluir os já nítidos fossos entre uma justiça para pobres e outra para ricos, se, ironicamente, até aos Advogados se pretende proibir a pertença à Classe Média, será a classe média indigna de tal honraria?

Tempos difíceis parecem aproximar-se, estaremos vigilantes, coerentes com a nossa consciência e nunca passivos perante ataques e injustiças, afinal a determinação, a coragem, a capacidade de resistir a abusos é que fazem um bom Advogado, e não o saldo da sua conta bancária! Nunca poderei ser cúmplice de injustiças, e neste caso, calar seria assumir cumplicidade!


" O Homem é o lobo do homem"

Thomas Hobbes