quarta-feira, 13 de novembro de 2019

SEXTO SENTIDO, de MBarreto Condado















Dizem que vivemos várias vidas e que nunca nos lembramos delas para que possamos de alguma forma corrigir o que deixámos inacabado. Mas como será possível garantir que desta vez agiremos de acordo com os nossos desígnios? Que desta feita será a última vez que percorreremos o nosso atribulado percurso sem falhar, fazendo desta a nossa última passagem?

Será que as pessoas que nos acompanham agora foram as mesmas que já o fizeram nas nossas vidas passadas?

Gosto de pensar que das vezes que o meu sexto sentido me disse que de alguma forma já as conhecia, que não me tivesse enganado.

Será esta a minha última passagem?

A minha intuição diz-me que não.

Deito-me e fecho os olhos, quero viajar, quero que a minha memória me leve para lá do véu das minhas lembranças, que me permita atravessar a névoa dos tempos e independentemente de quem possa ter sido ter sempre a certeza que estou aqui novamente para acabar o que deixei inacabado.

Sigo por um estreito e escuro caminho, estico as mãos, mas não toco em nada. Tudo à minha volta é vazio, consigo senti-lo.

Fecho os olhos com maior intensidade quero deixar-me levar para lá desse nevoeiro. Quero que se abra para mim e me mostre o que se esconde na infinitude dessas Eras passadas.
Sinto que me vai ser dada a oportunidade de ver o que tanto procuro.

Sou banhada por uma luz forte e quente que me embala no meu caminho. Ofuscada por um calor tão humano e no entanto tão ausente, estou só. Ou não estarei?

Tenho a apurada percepção de que alguém me acompanha, inundada por um amor que não consigo abraçar. Deixo-me levar. Sei que ali estou protegida, cheguei a uma casa há muito abandonada.

Abro os meus sentidos. A minha acutilante perspicácia que sempre me deu conselhos certeiros. Sinto-me segura porém não sei onde.

Fisicamente continuo deitada no meu sofá de olhos bem cerrados.

Pressinto o que vai acontecer mesmo antes que aconteça. Continuo rodeada daquela luz quente e protectora.  Sinto que estou perto muito perto de saber quem fui. Deixo-me guiar.
E quando as cerradas névoas se abrem um pouco é-me permitido ver que fui várias pessoas, fui vilã, vivi em reclusão afastada de olhares curiosos, ajudei com o gado, cultivei terras, fui neta, filha, irmã, mãe. Fui amante, esposa. Morri, vi morrer, matei. Fui cobiçada, cobicei. Fui rica, fui pobre. Ajudei, maltratei.

Vivi várias vidas e morri outras tantas.

Vi tudo em flashes.

E antes que me pudesse aperceber fui novamente conduzida para o meio daquela névoa que me afastava da luz quente que de mim se despedia com a promessa de um até já.”

E sempre guiada pelo meu instinto quase sempre infalível e certeiro, abri a medo os olhos. Continuava deitada no meu sofá.

E do fundo das minhas memórias soube que a minha passagem ainda não estava terminada, uma voz persistia na minha cabeça dizendo-me para confiar no meu sexto sentido pois seria ele a levar-me de volta a casa, ao calor das suas almas e à ausência de incertezas.

Sei que elas me esperam.

E quando acabar esta minha nova e não derradeira passagem reencontrarei quem tanto me ama e protege.

O sexto véu dos sentidos.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

HUMILHAÇÃO, de Maria Cecília Garcia















Para todas as mulheres que alguma vez sofreram maus tratos e conseguiram escapar. Para todas as outras, as que se humilham e não têm coragem para abandonar essa vida.

E para todos os homens, se conseguir tocar um, apenas um que seja, dar-me-ei por satisfeita.
Não somos inimigos nem ninguém é dono da vida do outro. Deixo-vos um pequeno testemunho, que podia ter acontecido a qualquer um de nós.

“Há um momento da minha vida, da nossa vida, que recordo frequentemente e não sei definir quais as sensações que me provoca. Sinto grande desconforto ao recordar, vergonha até, sobretudo sou invadida por uma sensação angustiante, um desejo enorme de voltar atrás no tempo e apagar esse momento. Já tinham passado tantos anos e esses episódios grotescos repetidos tanta vez que não consegui suportar.

Foi num daqueles dias terríveis em que não me davas paz, que me perseguias insultando-me, provocando-me, sem razão nem objetivo. Fazia parte do teu jogo cruel seguires-me pela casa, acossando-me, de nada valia fechar as portas, isso ainda era pior…

Ainda cá estão algumas portas marcadas que me fazem lembrar o que eu quero esquecer, cada risco, cada saliência na madeira, mostra-me o teu punho feroz, o teu rosto congestionado, o teu olhar enlouquecido. Rebaixavas-me com as piores palavras e atitudes até eu perder o controlo de mim.

Naquele dia, desnorteada, segurei-te por baixo dos braços e alcei-te com uma força que não sabia que tinha, encostei-te à parede à beira das escadas e olhei no fundo dos teus olhos. Dominei-te completamente. Por uma fração de segundo, apenas um piscar de olhos, vi-te rolando pelas escadas abaixo.

Sei que adivinhaste a morte nos meus olhos, senti como o teu corpo estremeceu. Nesse momento, só nesse momento, soube que tinha mais força do que tu e tive medo de mim, nesse instante soube que o fim de tudo o que me atormentava estava nas minhas mãos, e senti horror por ter sido contagiada com a tua violência.

Dei-te o que procuravas, a satisfação de me veres descer ao teu nível. Como quem acorda de um pesadelo no momento mais angustiante, larguei-te, pousei-te no chão e fugi, abalada com a minha própria reação. No teu rosto vi incredulidade, surpresa, vi terror nos teus olhos e até, pasme-se, admiração, mas vi sobretudo, humilhação…

E é esse sentimento, a humilhação que te causei, que me atormenta. Ainda hoje essa lembrança me acode sem licença e sinto o mesmo horror que senti nesse dia.

 Nem sempre causar aos outros o mesmo mal que eles nos infligem provoca qualquer satisfação.

Quando conseguias desorientar-me, fazer-me sair de mim, transformar-me no pior de mim mesma, sentavas-te na plateia, calmo, olhavas-me com repulsa, fazias com que me sentisse a pior das pessoas

- Não prestas mesmo para nada! És pior do que todas as putas que conheci!

E as tuas palavras faziam-me estremecer e como se uma mão gigante me segurasse, imobilizava-me, horrorizada de mim. Sentia asco, uma vertigem, uma náusea, queria vomitar-te do meu coração. 

Em dias assim, noites assim, a casa era invadida pelo silêncio e, em silêncio, deitávamo-nos na mesma cama. Tu dormias um sono profundo e ruidoso, agitado pela guerra que continuava ainda dentro de ti. Eu errava pelo quarto, sem sono, sem nada mais do que angústia e impotência.

Se despertasses encontravas-me enrodilhada na posição fetal, num canto da habitação que eu já não sentia minha. Nada era meu. Eu não era nada. Eu não queria nada.

No meu cérebro as imagens amontoavam-se, misturavam-se caoticamente, sem que conseguisse sequer dar-lhes um fio condutor. Não sabia o que tinha despoletado a tua ira.

Procurava uma saída, eu sabia que havia uma saída, mas não tinha coragem para enfrentar o mundo sem ti. No fim, culpava-me, eu era má, certamente algo tinha dito ou feito para causar tal tormenta. Arrependia-me de uma culpa desconhecida e rezava. Só Deus me podia ajudar. Medo, apenas medo… Medo de ficar só, medo de enfrentar um mundo que não me ia entender.

- Não vale a pena queixares-te, ninguém vai acreditar no que disseres, toda a gente gosta de mim.

E tinhas razão, ninguém iria acreditar, de ti apenas conheciam o melhor, o homem simpático, generoso, compreensivo, e eu tinha vergonha de falar, de mostrar que aquela mulher alegre, aparentemente feliz, não passava de uma vítima de violência, e eu nunca quis ser vítima de nada. Por isso, a culpa era minha.

Premeditado, jamais me tocaste onde pudessem ficar marcas. Nunca me deixaste um olho negro, nem os lábios partidos, nunca uma nódoa negra no rosto. No meio da ira animal que te consumia, escolhias o lugar onde podias bater. Os teus socos castigavam os meus braços, os ombros, a cabeça, apertavas o meu pescoço, retorcias os meus pulsos… As marcas que ficavam eu apressava-me a esconde-las, envergonhada.

Acreditava que a minha força era inesgotável, mas apenas era a mulher que levanta do chão a sua sombra e fica de pé, uma e outra vez.  Lembrar-me disso não me causa orgulho, apenas cansaço.

In: Um futuro livro

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

A PART OF ME, de Ana Ribeiro















Todos vivemos na busca da pessoa que nos completa. Procuramos a outra metade do que somos no cerne de milhões de opções, até ao dia em que o tão esperado momento chega… E tu apareces. E tudo muda e a minha vida deixa automaticamente de ser a mesma porque estás aqui, porque fazes parte dela, porque existes.

Foi exatamente o que aconteceu comigo. Sempre te procurei, não me perguntes como nem porquê, não te sei explicar isto por palavras. Só sei que sempre te procurei, e é só isso que importa acrescentar. Sempre soube que tu existias, sentindo-o. Quando finalmente te encontrei, fiquei desde logo com a forte sensação que tínhamos sido feitos um para o outro, procurava a pessoa que encaixava na perfeição no puzzle que eu sou, e finalmente tinha-a encontrado. Eras tu. Eras mesmo tu. Estávamos destinados. Um ao outro. A ficarmos juntos.
Como eu precisava de uma pessoa assim como tu. A junção perfeita. A felicidade na sua forma mais plena e pura, na sua forma mais simples e pequenina, pedaços felizes de nós.

Estava destinada a cruzar-me com o teu olhar todos os dias, estava destinada a ouvir o teu sorriso e a deixar-me perder. A ter o teu toque só para mim, assim em exclusivo, como se fosse uma preciosidade guardada dentro de um frasquinho, secretamente escondido na minha mesa-de-cabeceira, como se de um tesouro se tratasse. Que eu pudesse abrir quando quisesse e deixares-me envolver em ti.

O que mais me fascina em ti?

Seres parte de mim. Em tudo e para tudo. Acho que acabo de descobrir que o foste desde sempre, mesmo quando não te conhecia, fizeste sempre parte de mim e do meu mundinho. 
Algo me dizia que ia ser assim. És parte de mim nos sonhos, nas escolhas, nas conquistas, e nos objectivos e realizações. És parte de mim em cada fragmento de ti que me ofereces, todos os dias.

O que mais amo em ti?

Ora deixa cá ver…. É difícil escolher, sabes?

Amo tudo. Mesmo tudo. Tu por inteiro. Principalmente aquilo em que me transformaste, como me mudaste, o que sou.

Seres parte de mim, é seres para sempre…

domingo, 10 de novembro de 2019

FÉLIX, de Vanessa Lourenço















Nestes últimos dias, muito se tem falado na tempestade Félix. E, no entanto, apesar de já ter sentido na pele as circunstâncias adversas deste fenómeno meteorológico, não consigo evitar fazer associações positivas no que toca a esta tempestade. Afinal de contas, a minha estreia no mercado literário ficou a dever-se a um gato preto com o mesmo nome, um gato que me ajudou a encontrar o meu caminho porque tive que o perder. E por isso mesmo, esta semana a nossa crónica desenrola-se mais ou menos assim...

Perdoem-me os não crentes, mas os animais que amamos não morrem. Desculpem, serei mais específica: não caem no vazio da não existência quando fecham os olhos pela última vez. Sim, é verdade que custa horrores quando partem e deixamos de os poder ouvir, ou de lhes poder tocar (isto porque no que toca à visão, por vezes se estivermos com atenção conseguimos vê-los pelo canto do olho) ..., mas eles não morrem. Na verdade, a primeira coisa que fazem assim que percebem o que lhes aconteceu é procurar-nos, e quando nos encontram acontecem duas coisas engraçadas: primeiro, percebem que não precisavam de procurar porque fora do corpo, a distância deixou de existir; e depois, que agora é muito mais simples falar-nos de amor, porque a nossa voz agora é a mesma.

Na vida muitas vezes nos cruzamos com frases feitas para amenizar a perda ou a distância, e os mais sensíveis de nós muitas vezes encontram sinais. Claro que na maioria das vezes os ignoramos porque “não é normal”, ou “vão achar que não sou certa da cabeça”, ou ainda porque o nosso cérebro está programado para desvalorizar tudo o que fuja à realidade de todos os dias, essa realidade com a qual a nossa vida em sociedade nos impregnou. Mas acreditem, eles existem.

“Mas se esses sinais são reais, porque são sempre tão subtis e dificeis de comprovar?” Porque, meus caros, o livre arbítrio dita que devemos decidir acreditar neles, mesmo que o resto do mundo teime em os desacreditar. É esse o objectivo da vida, esculpir a pessoa que somos quando chegamos ao mundo, por intermédio de decisões que por vezes desafiam toda a lógica ou conceitos pré-concebidos. E porque existem coisas na vida que são só nossas, não sujeitas à validação ou compreensão dos outros.

E é por conta disto que hoje vos escrevo, porque existe uma tempestade a assolar o nosso país que se chama Félix.

Para terminar, um pequeno aparte que acho importante acrescentar:

Tudo nesta crónica pode estar errado.

E vocês, em que acreditam?



sábado, 9 de novembro de 2019

VELOCIDADES, de Fernando Teixeira















É vê-los, velozes, como que querendo agarrar a vida num mundo a fugir… Com a mesma celeridade, vivem a vida a correr, alcançam objectivos, cumprem metas. Foge-lhes o mundo, num intervalo de tempo que se encurta cada vez mais. Por isso, aceleram na vida, no trabalho, na estrada, procurando chegar antes do tempo previsto, encurtando o tempo da viagem.

Não foi para isso que se fartaram de trabalhar, que cumpriram as metas estabelecidas, quiçá foram além delas? Finalmente, deram a si próprios o prémio mais cobiçado: aquela máquina potente que é a menina dos seus olhos, motivo de orgulho maior! Sorriem ao pensar no olhar de cobiça de colegas, dos vizinhos e de amigos… Ah pois, não é para todos!

Com o mesmo sentimento de exclusividade, fazem-se à estrada, viagem após viagem, sozinhos ou acompanhados. Com a família, muitas vezes. A adrenalina invade-lhes as veias, a potência da sua máquina inebria-lhes o cérebro e sentem-se superiores. Incólumes. E aceleram!

A estrada é deles, sentem-na como sua, como se tivessem mais direitos ou direitos especiais sobre os restantes cidadãos viajantes. E mostram-no. Ainda vêm longe, mas já sinais de luzes anunciam a sua chegada, vertiginosa, a algum condutor mais afoito que tenha ousado fazer uma ultrapassagem e ocupado indevidamente a via esquerda que consideram exclusivamente sua. E, se os sinais de “máximos” não forem suficientes, logo reforçam a intenção e revelam a sua urgência accionando o pisca-pisca esquerdo, muitas vezes ligado durante quilómetros. Para quê desligá-lo?

É vê-los passar, velozes, como que querendo agarrar a vida num mundo a fugir… Mercedes, Audi’s, BMW’s… símbolos das metas que alcançaram no trabalho e na vida. Condutores de primeira, pé pesado! E outros também, aqueles que não se podem dar a tais luxos, mas que os querem imitar, que o português não gosta de ficar atrás! Seguem igualmente velozes, numa correria desenfreada contra o tempo, contra os egos, contra a racionalidade.

Cegos pela adrenalina e pelo prazer de se julgarem superiores, quando não após terem ingerido bebidas alcoólicas, nem se lembram que, se embaterem a 180km/h num veículo que se coloque subitamente à sua frente, circulando a 100km/h, é como se embatessem a 80km/h num obstáculo fixo. Ilusão, é pior! A 80km/h talvez conseguissem travar ou, em caso de um embate ligeiro, controlar a sua viatura. A 180km/h é pouco provável…

Não faltará quem ache que estou a armar-me em moralista. Confesso que também já tive mais sangue na guelra. Já conduzi mais veloz do que conduzo há uns anos a esta parte, desde que há 18 anos fiz uma viagem ao Canadá e reconheci a disciplina e o civismo de um povo que é ensinado a cumprir regras, nomeadamente a não ultrapassar a velocidade máxima de lei nas estradas. Percorri, então, dezenas de quilómetros a ver os mesmos veículos à frente e atrás, tranquilamente, fossem carros topo de gama ou de gama inferior. A lei é igual para todos! Conduzi milhares de quilómetros durante um mês, muitos em faixas de rodagem com quatro vias, e não vi um acidente. Porquê? Porque lá, como noutros países civilizados, obriga-se os cidadãos a cumprir a lei. Porque o civismo tem de se impor. Vim dessa viagem transformado, diferente. Desde então, a minha velocidade de conforto nas auto-estradas é 110km/h (velocidade estabilizada no GPS, talvez mais 4-5km/h no painel de instrumentos).

Em Portugal, os números da sinistralidade rodoviária são alarmantes. Todos os anos! Sei que a velocidade não é a única causa dos acidentes rodoviários; também as manobras perigosas, as distracções, o cansaço, a ingestão de bebidas alcoólicas, o estado de muitas estradas, a falta de civismo são responsáveis por tal sinistralidade. Porém, a velocidade exponencia todos os outros factores.

É vê-los passar, velozes… E de repente acontece, naquele fatídico segundo que ninguém previu. Encurtaram a viagem. O mundo fugiu-lhes debaixo do pé que acelerava! E não agarraram a vida…

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

O TIO JAZIGO, de MBarreto Condado
















Há muitos, muitos anos, num lindo dia de primavera nascia em Lisboa um menino enfesadinho, filho mais velho de um homem que já na altura tinha idade para ser seu avô com uma jovem mulher conformada com o que a sorte lhe reservara na vida. 

Fez os estudos de liceu que não se sabe se terá terminado pois o pequeno tinha tanto de cabeça quanto de envergadura. Era, contudo, dotado de um exagerado ego complementado por uma assumida presunção. Aprendeu a viver de biscates e do charme aplicado a senhoras de avançada idade que além de falta de vista, felizmente para ele, já se contentavam com pouco.

Exigia que todos os que com ele privavam o tratassem por "Tio", sentia que dessa forma atingia o tão almejado estatuto social pelo que ansiava há tanto tempo. Dizia que tinha cursado engenharia e até frequentara direito, algo que nunca se viria a confirmar. A única certeza comprovada por fotografias é que tinha feito o serviço militar em cavalaria, pois essa era a única forma de no alto da sua garupa poder mostrar o porte altivo que lhe faltava no alto do seu parco metro e meio. 

Casou-se com a filha do comandante. Ganhando além de um sogro poderoso o ódio de todos aqueles que lutavam por aquela merecida graduação sem terem que se vender.

Mas também aqui não se sentiu completo, o que o levaria de volta aos seus velhos truques para com as velhas herdeiras.

Seria delas que viria a "herdar" as casas e o seu recheio, sempre em detrimento das suas verdadeiras famílias.  O melhor dos respectivos espólios era delapidado ainda durante a parca vida das velhas senhoras. O que lhe interessava chamava-lhe herança familiar, o que não pretendia manter, vendia e chamava-lhe "antiques". Sim porque com o tempo veio a ficar muito refinado na maneira de vestir e falar. Não saia de casa sem o seu plastron a envolver-lhe o pescoço. E não dispensava a utilização de vocabulário francês, como “restaurant”. Viria a tornar-se num verdadeiro "connaisseur" de todos os aspectos da doação em vida e de heranças.

Tornou-se detentor da maioria dos jazigos no cemitério do Alto de São João. Local onde passava horas tentando decidir em qual deles quereria ser colocado quando o seu momento chegasse. Sim, porque era muito importante manter as aparências mesmo para além da vida, tinha que ter em conta a vista privilegiada de cada um deles bem como os seus futuros vizinhos.

Gostava de afirmar aos poucos que o quisessem ainda ouvir que até o próprio Eça de Queirós, que tratava por tu, teria baseado uma das suas melhores obras se não a melhor, na sua linhagem familiar, tal era a fanfarronice.

Os jantares de natal, esses, eram sempre requintados e inesquecíveis, língua de vaca estufada bem regada com a única garrafa de vinho, também essa oferecida, tudo para dividir pela família contando que ainda tinham que sobrar “les restes” para o almoço do dia seguinte que seria soberbamente acompanhado de muito pão duro e fome.

As férias, essas eram sempre em casa de outros, onde fazia questão de ficar hospedado o tempo que achasse necessário para se recompor de tanta soberba. E era por principio que partia sempre sem se despedir. Afinal era um favor que lhes fazia ao presenteá-los com a sua tão ilustre presença.

Teve três filhos. O mais velho ao qual tratava por asno cedo foi enviado para um colégio interno, sempre era menos uma boca para alimentar. A filha mantinha residência permanente em casa de um primo, mas seria no mais novo que conseguiria ver alguns traços seus. O mesmo uso do plastron, de francesices, e com a mesma destreza de manter sempre a carteira na mão sem nunca a abrir para pagar.  Afinal, o dinheiro não nascia das árvores.

No dia da sua morte deixaria como legado móveis com caruncho, casas alugadas e um elevado espólio de jazigos. Até porque no final seria cremado e as cinzas deitadas em parte incerta.

Os jazigos, esses ficariam desertos apesar da vista sobre o Tejo. E é presumível assumir que no Inferno nem o Diabo gosta dele.  E será certamente lá que se escrevem neste momento os próximos capítulos d’"os ilustres jazigos do Tio".

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

A MISSA, de Anita Dos Santos















Foi a missa de trigésimo dia.

Encontrava-me, uma vez mais, na “minha” igreja, desta vez para pedir por quem já tinha partido.

Tinha chegado cedo, para ter um pouco de tempo para estar como gosto, sozinha com os meus pensamentos.

Deixei-me ficar a admirar o tecto e as paredes daquela que é a igreja que melhor conheço, e onde me sinto mais em casa. Fiquei a ver todos aqueles rosas, dourados lavrados e brancos. Os apainelados bem conservados. Por instantes pareceu-me sentir o aroma antigo das velas a arder nos candelabros antigos.

Sempre gostei de igrejas, de as visitar, de as conhecer. Mas a “minha”, tem para mim um cunho diferente de qualquer outra que tenha conhecido.

Naquele momento, dei comigo a pensar, passaram-se os acontecimentos mais importantes da minha vida, tenha ou não eu tido noção na altura disso, dentro daquelas paredes.
Comecei por ser, eu mesma baptizada ali, muito pequena para ter qualquer lembrança do facto.

Depois, comecei a assistir às missas, ao domingo de manhã, com a minha mãe, a minha irmã e por vezes com a minha avó paterna, que disso lembro-me muito bem… nunca mais terminava… era muito tempo, dava perfeitamente para “sonhar” alguma história com aquelas pessoas todas que estavam nos retábulos das paredes… de tal maneira, a ser chamada à atenção várias vezes…

Não valia de nada, fazia tudo de novo.

Depois cresci. A catequese não a tive por lá, mas fiz ali o exame e a primeira comunhão.

Cresci de novo. Já ia à missa sozinha, e gostava muito de me ir sentar para o antigo lugar do coro, dava-me assim ensejo de calcorrear corredores e escadas estreitas onde poucas pessoas passavam.

Já rapariga, - uma crescida com quinze anos! – deixei-me convencer, ao fim de muita insistência, por uma colega de escola e amiga, a ir a uma missa para jovens, num domingo, onde um grupo que ela integrava, cantava acompanhado por uma viola e com arranjos inovadores. Era na altura a missa mais assistida, por jovens e não só!

E foi assim que conheci um grupo fantástico de gente jovem, onde encontrei amigos para toda a vida. Um grupo de gente extraordinária e amiga.

Foi assim também que conheci aquele que é, ainda hoje, o meu melhor amigo, o meu companheiro de vida, o meu marido e pai dos filhos. Na missa, a ajudar o Senhor Padre Arménio, vestido de acólito. Sim, porque lá cantar, não era com ele!

Anos mais tarde, foi em frente do altar do Sagrado Coração de Maria que deixei correr as minhas lágrimas, a minha dor e a minha mágoa depois de ter perdido o meu primeiro e tão desejado filho.

Ali acompanhei pela última vez a minha avó pequenina, a avó Mariana, a mãe da minha mãe.

Baptizei os meus filhos, ambos aos três meses. Fiz questão de que fosse ali, onde eu e o pai tínhamos sido baptizados.

Acompanhei de igual modo pela última vez os meus avós paternos, com quem vivi até casar. A avó foi a última a partir e já não chegou a conhecer o bisneto mais novo. Eu tinha seis meses de gravidez quando ela partiu.

Voltei em algumas ocasiões, só para me sentar nos bancos, a meio da nave da igreja e aí permanecer só com os meus pensamentos.

Por fim acompanhei a Mãe. E agora o Pai.

Fiquei com a sensação de que fechei um ciclo, ao assistir a esta missa.

Assim terá sido com certeza.