sexta-feira, 3 de julho de 2020

CRÓNICA | A SEREIA, de Anita Dos Santos


Texto: Anita dos Santos

Foto: D.R.

Os remos cortavam a água de um lado e do outro do bote, calmamente ao ritmo que lhes ía imprimindo.
Não tinha pressa.
Olhou para o céu claro e sem nuvens onde brilhava uma bela lua cheia, e depois para a margem longínqua. Continuou a afastar-se. Não queria deitar a rede perto pois nos últimos dias tinha voltado vazia de peixe todas as vezes que a tinha puxado.
Não entendia o que se estava a passar. Naquela altura do ano devia haver peixe com fartura, mas este ano algo estava a afugentar o pescado.
Afastou-se mais. A margem já mal se via.
A água em volta do bote, translúcida ao cimo, tornava-se negra devido à fundura.
Deitou a rede e ficou à espera.
Acabou por passar pelo sono, as noites anteriores não tinham sido bem dormidas. Acordou com o sacudir do bote.
Endireitou-se de supetão para ir direito à rede.
Mas não lhe chegou a tocar.
Da amurada do barco, uma criatura bela, de imensos olhos verdes, fitava-o intensamente com metade do corpo submerso e os longos cabelos escorridos pela água do mar.
Ficou sem saber o que fazer.
- Olá. Naufragou? – Logo que fez a pergunta viu que era um enorme disparate.
Ela continuava com uma mão agarrada ao bote, sem tirar os olhos dele.
- Precisa de auxílio? – Outro disparate, pensou.
Sabia bem o que ela era de ouvir falar. Nunca pensou foi encontrar uma…
- Vens apanhar os pequenos com a tua rede. – A sua voz era baixa e rouca.
- Foi o que aprendi a fazer para ganhar a vida.
- É mau para nós quando vocês, os de duas penas, apanham os pequenos nas vossas redes.
- Porquê, porque é que é mau?
- Porque as redes não apanham só os pequenos. Destroem também tudo em volta quando as puxam. Matam o que levam e o que fica para trás. Porque já mataram alguns de nós.
Ele ficou sem saber que resposta lhe dar. Baixou os olhos envergonhado.
- Tens razão. Muitos homens usam redes grandes e pesadas, redes que apanham tudo e levam tudo dentro delas. Não deveria ser assim e não é isso que faço.
- A tua rede é pequena, já vi que sim. E tem malhas largas. Os muito pequenos podem fugir. De qualquer maneira não a deves deitar aqui.
- Está bem então. Podes dizer-me onde posso deitar a minha rede para apanhar peixe?
- Do outro lado do Pico Rochoso e só depois da Lua Escura.
- Do lado de lá da baía e depois da lua nova. São essas as tuas condições?
- Sim, são essas as condições.
- E se eu quiser voltar a encontrar-te? – Acabou por perguntar após um momento de silêncio.
- Virei ter contigo na próxima Lua Grande se, entretanto, ensinares aos outros que não devem vir para aqui.
- Farei isso.
A voz dele soou baixa e claramente.
Longos anos se passaram, e os pescadores tomaram outros hábitos de pesca devido aos ensinamentos do pescador.
Mas durante todas as luas cheias, se algum intrépido se aventurasse a ir para os lados do Abismo, podia ver a sombra de um pequeno bote com um pescador debruçado na amurada abraçado a uma bela sereia, que o abraçava também.

domingo, 28 de junho de 2020

DIVULGAÇÂO LITERÁRIA | LIVRO DE VOZES E SOMBRAS, de João de Melo - DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 30 de Junho


Cláudia Lourenço, jornalista, é enviada de Lisboa à ilha de São Miguel ao serviço do Quotidiano. Tem por missão entrevistar um conhecido ex-‑operacional da Frente de Libertação dos Açores e reaver a crónica do independentismo insular durante a Revolução. Depara-se-lhe um homem-‑mistério, voz e sombra do jogador, das suas verdades que mentem, das suas mentiras que dizem a verdade. Ela, que pertence à «geração seguinte», não parece ter memória histórica do país de então: vive no de agora, e o passado é um território longínquo, cuja narração flui no interior de um imaginário algo obscuro. A história da FLA (e a da FLAMA, na Madeira) comporta em si o «país de todos os regressos»: a Ditadura, o fim das guerras em África, a descolonização e o «retorno» à casa europeia pelos caminhos de volta, os mesmos que levaram as naus a perder-se nos mares da partida. O país que a si mesmo se descoloniza vibra na exaltação revolucionária. E é dos avanços e recuos dessa Revolução que nasce a tentação separatista do arquipélago.
Uma narrativa triangular cujos vértices e sequências assentam sobre Lisboa, África e Açores.


sábado, 27 de junho de 2020

O SÓTÃO, de Fernando Teixeira















Entrou, accionou o interruptor de uma lâmpada mortiça e, inexplicavelmente, porque vivia sozinho, fechou a porta à chave pelo interior. Talvez esse gesto, mecânico ou pensado, só ele o poderia dizer, fosse indicativo daquilo que se propunha fazer naquele espaço da casa que fora o seu local de trabalho, mas também de lazer, durante décadas. Como se o rodar da chave, na fechadura da porta, criasse uma barreira de que necessitava para se sentir protegido de olhares invisíveis, isolando-o de censuras ocultas.
À medida que os anos lhe atravessavam a velhice e lhe pesavam nas pernas, cada vez mais evitava subir as escadas de acesso ao sótão, tanto assim que, providencialmente, mudara alguns livros para a salinha térrea, literatura que o ajudava a consumir o tempo quando a meteorologia não lhe permitia dar pequenos passeios pelas ruas empedradas da aldeia, sempre com o propósito de encontrar alguns conterrâneos para dois dedos de conversa.
Abriu as portadas de uma janela, depois as de outra oposta, permitindo que o espaço se inundasse de luz diurna e revelasse melhor duas paredes revestidas de estantes corridas, com tudo o que permanecia ali: obras literárias, revistas antigas, livros técnicos, sebentas, dossiers cheios de legislação e regulamentos, esboços, apontamentos, projectos e trabalhos realizados ao longo de uma vida profissional. Memórias…
Apagou a lâmpada incandescente e, por alguns momentos, deixou-se ficar estático no meio do sótão, olhando uma e outra estante, submergido pela visão de dezenas e dezenas de volumes, uma enorme quantidade de papel, parte dele amarelecido pelo tempo e pelo pó, sem saber muito bem por onde começar. Como se o seu corpo franzino ganhasse outro peso sobre o chão de tábuas corridas, dificultando-lhe o primeiro passo.
Desviou o olhar para uma secretária de madeira escura, num canto junto a uma das janelas, ainda com algumas canetas e utensílios de escritório, ali esquecidos. Com um leve sorriso, apenas um esgar de recordação, lembrou-se de uma vez em que uma das suas namoradas, por sinal uma das mais bonitas e meigas, também algo atrevidota, e como ele gostava disso, se sentara de saia plissada no bordo do tampo e o puxara para si. O que se seguira, não o esquecera nunca, emergia quando ali ia, embora o tempo se tivesse encarregado de tornar esse momento de êxtase numa aguarela esbatida.
A recordação teve o condão de o incentivar. Tinha dedicado essa manhã para iniciar a tarefa a que se propunha, continuá-la-ia durante a tarde e, sabia-o bem, iria necessitar de outras manhãs e tardes para a concluir. Mas a idade ensinara-o a fazer as coisas sem pressa.
Decidiu deixar o que lhe parecia mais fácil para o fim. Reservaria alguns livros de literatura para oferecer à Biblioteca da Junta de Freguesia, inaugurada dois anos antes. Conservaria consigo aqueles que mais estimava, alguns romances “clássicos” e outros que lera mais do que uma vez, ou que tinham algum significado especial para si.
A parte complicada da arrumação era seleccionar o que descartar nesta fase da sua vida. O que já não interessava, aquilo em que nunca mais iria mexer, tudo o que só estava ali para ganhar pó e poder ser atacado pelo bicho do papel, o chamado “peixinho prata”, como é que alguém poderia apelidar simpaticamente aquilo de peixinho?
Hesitante, foi tirando um ou outro livro técnico, um ou outro dossier, abrindo e folheando, pondo de lado, separando em montes na secretária, aqui e ali pelo chão, rasgando folhas então inúteis para o lixo. Em cada gesto, porém, a sensação de que era um pedaço de si que se separava, uma parcela do seu passado, uma parte da sua história a ser rasgada ao ritmo das folhas, a ser posta de lado, apagada da sua vida.
Contudo, alguns dossiers e vários livros irão voltar do chão e da secretária para as estantes, pois desfazer-se disso, mesmo sabendo que deles nunca mais irá precisar, e por muita coragem que possa ter, cortar esse cordão umbilical com a vida passada seria morrer antes do tempo.

(O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.)

DIVULGAÇÃO LITERÁRIA | O ÚLTIMO VERÃO DE KLINGSOR, de Hermann Hess - DOM QUIXOTE / Tradução de Patrícia Lara


Nas livrarias a 30 de Junho

Escrito pouco depois do fim da Grande Guerra, O Último Verão de Klingsor relata a história de um famoso pintor, Klingsor, que vive uma explosão final de criatividade no último verão da sua vida.

Pintor expressionista orientado pela emoção, a entrega de Klingsor à arte é total pois considera que esta corporiza a essência da vida.

Amante dos extremos, opõe-se violentamente à moderação e à mediocridade. Não gosta de planear nada com antecedência pois não acredita no amanhã e vive cada dia como se fosse o último. Na vida tem apenas dois pontos centrais de interesse em que é bem-sucedido: criar arte e amar.

Como Demian, Siddhartha, Goldmund e Joseph Knecht, Klingsor não é uma personagem vulgar. Atingiu um patamar de sucesso fora do comum na arte que escolheu e trabalha intensamente para manter esse nível. E, tal como outros heróis dos livros de Hesse, luta por trilhar o seu percurso individual e único para atingir o fim que se propõe na vida.