domingo, 18 de fevereiro de 2018

LITERATURA | Os Que Sucumbem e os Que se Salvam de Primo Levi | DOM QUIXOTE - Tradução de José Colaço Barreiros

Nas livrarias a 13 de Fevereiro


Quarenta anos depois do clássico Se Isto É Um Homem, Primo Levi, consciente de que o Holocausto corria o risco de, pouco a pouco, ser apagado da memória coletiva, voltou ao tema dos campos de concentração nazis com a apaixonada e apaixonante clareza de toda a sua obra.

O resultado foi este livro de 1986 – um ano antes do seu suicídio – no qual procura respostas para perguntas que nunca deixaram de o obcecar até ao fim.

Quais são as estruturas hierárquicas de um sistema autoritário e quais as técnicas para aniquilar a personalidade de um indivíduo? Que relações se criam entre opressores e oprimidos? Quem são os seres que habitam a «zona cinzenta» da colaboração? Como se constrói um monstro? Era possível compreender de dentro a lógica da máquina de extermínio? Era possível revoltar-se? Por fim, como funciona a memória de uma experiência extrema?

Questões que, infelizmente, são ainda hoje bem atuais, e a que Primo Levi responde com a sua lucidez extrema e no estilo seco e descarnado que lhe é tão próprio.

CRÓNICA | Milagres do Amor | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO


Na semana em que se comemora o amor não podia deixar de falar nele. No entanto, como gosto de ser diferente, não dissertarei sobre o amor romântico - já há muitas pessoas a fazê-lo nesta data. Fá-lo-ei sob outra forma: o amor entre irmãos; aquele que sentimos, por puro apelo dos genes, pelas pessoas mais diferentes de nós, que, inclusivamente, nos magoam em diversas fases das nossas vidas e que, inexplicavelmente, continuamos a amar e a proteger. Esse amor que, às vezes, em momentos cruciais das nossas vidas, opera grandes e maravilhosas mudanças, verdadeiros milagres.

Em vez da habitual crónica de opinião, apresento-lhes um pequeno conto de minha autoria que, à semelhança de tantas coisas que escrevo, tenta alertar as consciências e convido-os, desde já, a opinarem sobre o mesmo.

Os dois irmãos.

Rogério tinha o hábito de a todos reificar. Era algo a que não conseguia resistir.

O seu irmão Alberto, por outro lado, era completamente o oposto: homem caridoso e humilde, não se furtava ao ajudouro de quem dele necessitasse.

Nem se diria que estes dois eram irmãos: eram completamente diferentes. Até nas feições eram dessemelhantes. Nunca se imaginaria que eram fruto do mesmo pai e da mesma mãe. Mas eram, nenhum era adoptado, tinham, portanto, sido ambos incitados aos mesmos valores morais e culturais. Então porque seriam tão reversos? Ninguém sabia. Era coisa que já tinha desabrolhado com cada um, aquela que já vem connosco e que nada nem ninguém muda, era o que era, diziam as gentes da aldeia. E os factos estavam à vista de todos para quem quisesse ver.

Os feitos opostos eram tantos, que os dois se tornaram lendas vivas e os contos chegaram a todos os cantos de Portugal. Por todo o lado, ao longo das suas vidas, se aduziam as muitas estórias destes dois irmãos. De tal maneira que começaram a tomar a forma de fábulas. Até nas escolas já serviam de formação às criancinhas; começou a acreditar-se que eram grandes exemplos do bem e do mal.

Assim foram passando os anos: feitos daqui, contos dali. Mas um dia algo aconteceu; algo que iria testar todas as bases das suas estórias.

Rogério adoeceu. Foi minguando, perdendo as forças e um dia caiu à cama. Chamaram o Senhor Doutor; não era caso para menos: aquele homem bem fornido e "vaso ruim" cair a uma cama?! Estranho, muito estranho! O Senhor Doutor disse que ali não o podia tratar, que tinha que o encaminhar para o hospital distrital. Ora lá foi Rogério transportado de ambulância, com luzinhas azuis a apagar e a acender e tudo, a caminho do hospital. O seu humor estava ainda pior: não aceitava aquilo; era um homem saudável, caramba! Não havia de ser nada ruim, com certeza, ruim era ele - ia pensando mal convencido.

Depois de uma carrada de exames lá veio o Senhor Doutor com o ditame: um rim tinha parado - falecido, era o que era - e o outro para lá caminhava e Rogério já se via com um pé para a cova. Um transplante era o que o salvaria, dissera o Senhor Doutor.

Ora, sim, um transplante... e quem lhe daria um rim?!, ninguém gostava ou se preocupava o suficiente com ele para tal sacrifício.

Pela primeira vez em toda a sua vida sentiu-se pequenino, o mais minúsculo dos seres. Queria, talvez, ter sido de outra forma; podia ter sido de outra forma. Lembrou-se da sua mãe, quando ainda párvulo, lhe dizia tantas vezes que a ruindade não traz felicidade à vida de ninguém, que se colhe os frutos daquilo que se semeia; e o que tinha ele colhido com tanta malvadez e coração empedernido? Estar sozinho numa cama de hospital com um rim falecido e outro a falecer, era isso... nada mais.

Estava nestas cogitações com cheiro a morte, quando a porta do quarto se abriu para deixar passar Alberto. Entreolharam-se em silêncio e foi o segundo a quebrar aquela ligação quando estendeu a sua mão para agarrar na do irmão moribundo. Os olhos deste suavizaram-se, já não aguentando mais tanta dureza interior, e uma lágrima obstinada correu-lhe pela face pálida. Alberto apertou mais a mão do irmão e disse-lhe que tinha feito exames e que o ia ajudar: dar-lhe-ia um dos seus rins.

Afinal eram compatíveis, aqueles dois, tão diferentes e tão iguais como só dois irmãos podem ser.

Rogério disse que não compreendia; porque abdicaria o irmão de um dos seus rins saudáveis e, ainda por cima, para o ajudar a ele, que sempre tinha sido mau e indiferente para com a sua pessoa? Alberto sorriu e respondeu que era, simplesmente, porque eram irmãos; eram família e era para isso que a família servia também: para os elementos desta se ajudarem uns aos outros quando assim era necessário; e, além disso, gostava muito do irmão e não queria que ele morresse.

Rogério sentiu, pela primeira vez, a alegria aquecer-lhe o coração gelado e permitiu-se saborear a paz e a tranquilidade que isso lhe trazia. Encarou o irmão de frente e percebeu, finalmente, o significado da palavra amor. Entendeu que tinha desperdiçado uma vida inteira a comportar-se como uma besta.

Um dia depois entraram os dois no bloco operatório ao mesmo tempo: um para dar vida e amor, o outro para os receber. Correu tudo muito bem e ambos viveram muitos anos. Alberto com a sua habitual bondade e mimo e Rogério bem encaminhado numa nova vida de coração quente.

As estórias dos dois continuaram a ser contadas por este país fora, mas aquela que mais gente sabia e contava, por ser tão inspiradora, era precisamente a que demonstrava a maior prova de amor fraterno que pode existir, e a mudança que isso tinha operado em alguém que, se dizia, tinha sido, em tempos, um monstro intratável.

Moral da estória:
se todos nos dispuséssemos a adoptar a atitude de amor mais frequentemente, o mundo seria muito mais aprazível.




sábado, 17 de fevereiro de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | Advocacia - o inalienável direito a resistir e a dizer: Não! | ISABEL DE ALMEIDA |


Quem tem seguido a actualidade nacional em artigos de imprensa ou nas redes sociais já se terá apercebido de que a advocacia Portuguesa vive um momento algo conturbado, mas quero acreditar que decisivo, na sua longa história.

É do conhecimento público, que no passado dia 26 de Janeiro cerca de 5000 Advogados, Solicitadores e Agentes de Execução, oriundos de todo o país, realizaram aquela que foi a maior manifestação pública de classes forenses, percorrendo um trajecto com início junto à Sede da Caixa de Previdência dos Advogados e Solicitadores, no Largo de São Domingos, em Lisboa, passando pela Rua do Ouro em marcha lenta e concentrando-se em frente ao Ministério da Justiça, na Praça do Comércio.

De forma ordeira, muitos envergando as togas, ou transportando-as consigo nos braços, esta verdadeira multidão (tanto mais que, em tantas vezes, pelo menos os Advogados não costumam revelar-se uma classe unida), homogénea à primeira vista, mas contendo em si as heterogeneidades ditadas pela prática profissional desde os centros urbanos, até às pequenas comarcas de província, quis expressar uma mensagem de veemente e legítimo protesto perante a inexistência de desejadas e necessárias alterações ao Regulamento deste regime de previdência (em vigor desde 2015), que onera os seus contribuintes (não consigo, em boa justiça, apelidar os inscritos de Beneficiários) com contribuições cuja base de incidência resulta de rendimentos presumidos e não efectivamente auferidos. Além da clamorosa falha deste sistema previdêncial em termos assistenciais.

Deixando as discussões de cariz mais técnico para os especialistas nestas matérias de sistemas contributivos de cariz previdencial, e ciente de que sempre se levantarão, naturalmente, vozes críticas quanto aos meios utilizados para manifestar este descontentamento, há dois momentos que para sempre ficarão gravados na minha memória, um positivo e um negativo, e ambos me fazem pensar diariamente nesta situação.

Posso garantir que não encontro palavras que me permitam descrever as emoções que invadiram ao ter o privilégio de haver integrado aquela imensa mole humana, que de forma honesta, correcta, legal e legítima marcou posição neste movimento de protesto ordeiro. A certeza de integrar um colectivo com problemas e realidades transversais a muitos advogados, ousámos sair à rua, conseguimos acordar no essencial, gerindo naturais divergências de opinião sobre um ou outro aspecto mais específico da questão central - que, a meu ver, passa pela definição do futuro da advocacia Portuguesa, que passa por questionar sem medos onde estamos? como estamos? para onde queremos ir? como podemos escolher o melhor caminho? Este sentimento de união, esta coragem comum foi um dos pontos que me marcou pela positiva!

É nítido e consensual que a Ordem dos Advogados, enquanto instituição, não deu o seu apoio a esta iniciativa de protesto, muito embora o Senhor Bastonário Guilherme Figueiredo e o Presidente da CPAS - António Faustino hajam concordado em receber, no dia da manifestação, uma delegação de colegas que representou a comissão organizadora da manifestação e que contou também com a presença de um dos promotores doutra iniciativa de protesto que consistiu numa carta aberta, subscrita (que reuniu nas redes sociais mais de 3000 subscritores) na qual era pedida a demissão do Presidente da Direcção da CPAS - António Faustino.

Um aspecto que me marcou pela negativa, que muito me entristeceu, indignou e que, calculo que tenha sido também um dos grandes propulsores de outras formas de protesto individuais e colectivas, concertadas ou espontâneas, foi a postura institucional que considero duma frieza extrema, além de clamorosa injustiça da CPAS, expressa pelo seu representante máximo - o Presidente da Direcção - que defendeu claramente como solução para quem não aufira rendimentos de acordo com a presunção inilidível (que não pode ser afastada, simplificando um termo jurídico), ou mesmo para quem se encontre impossibilitado de trabalhar a curto, médio ou longo prazo, que suspenda a inscrição na respectiva ordem como forma de se exonerar da obrigatoriedade de contribuição para um sistema previdencial que promove, a ser assim entendido, perdoem-me os leitores a violência da metáfora, uma solução final para muitos Advogados (ou seja, a solução apontada é eliminar da prática da profissão quem se veja a braços com problemas financeiros e/ou de saúde mais ou menos graves mas incapacitantes para a prática profissional). Perante esta postura institucional, irei para a rua protestar tantas vezes quantas me for possível, e darei sempre o meu contributo possível a todas as medidas legais de protesto contra esta solução final!

Reconheça-se o direito inalienável de resistir e de dizer não às medidas com as quais não concordamos!

Todas as medidas legais de resistência, de protesto, de pedido de esclarecimentos perante dúvidas são legítimas e atendíveis. 

A sensação de injustiça persiste, muitas dúvidas também, por isso, desde a passada semana, foi lançada uma petição pública sob o título: Pela transparência da CPAS, a qual pretende reunir assinaturas com vista a promover as diligências necessárias à realização de uma auditoria independente à aludida instituição.

Termino a reflexão de hoje com um excerto do Poema "Trova do Vento que Passa", de Manuel Alegre, que me parece adequado ao que acima se ponderou.



"(...)Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não."


CRÍTICA LITERÁRIA | "Traição", de Aleatha Romig |QUINTA ESSÊNCIA




Texto: Isabel de Almeida | Crítica Literária | Jornalista
Foto: Grupo LeYa | Direitos Reservados


Traição, da autora Norte-Americana Aleatha Romig, chega a Portugal com chancela Quinta Essência sendo o romance que dá início à série "Infidelidades".

Estamos perante ficção romântica com um acentuado cariz de erotismo, e alguma linguagem bastante crua, mas a autora vai bem mais além desta breve caracterização de um romance contemporâneo cujo público alvo é, assumidamente, o feminino.

A protagonista feminina é Alexandria Charles Montague Collins, uma jovem que nasceu no seio da alta sociedade do Sul dos Estados Unidos, é a futura herdeira de uma avultada fortuna familiar e vive um conflito consigo mesma, ao sentir-se presa num meio social onde as aparências contam mais do que as essências, onde muitos segredos obscuros se escondem por entre os corredores e atrás das portas das luxuosas divisões das tradicionais mansões familiares, e onde  o tempo parece ter parado em séculos anteriores, no que diz respeito às práticas sociais, à mentalidade e, o que mais a assusta, no que tange ao papel social com uma visão deveras retrógrada que se espera de uma menina que dará continuidade a uma dinastia familiar do Sul dos Estados Unidos com ideais e códigos de conduta verdadeiramente próprios da aristocracia, mas não no em aspectos positivos.

Tendo acabado a primeira fase da sua graduação em Direito com louvor e distinção, Alexandria sonha vir a tornar-se Advogada, tendo, por mérito próprio, alcançado a oportunidade de prosseguir a sua formação académica superior em Direito na prestigiada Universidade de Stanford.

A narrativa alterna dois momentos essenciais na construção do enredo em termos temporais, ficamos a conhecer as vivências da personagem central feminina na sua mansão familiar, onde sente o peso de um mundo social antiquado com o qual não se identifica e que lhe é mesmo penoso e, alternadamente, recuamos até um passado recente, onde Alexandria passou uma semana de férias com a sua melhor amiga Chelsea.

É interessante notar que, em férias num resort de luxo, num local paradisíaco, Alexandria liberta-se da austeridade e do peso da sua herança familiar, que notamos ser também muito pesada e disfuncional perante a frieza de um padrasto - Alton - que se apresenta como um verdadeiro e inflexível vilão autocrático e paternalista, e a fragilidade e incapacidade de defender a filha que encontramos em Adelaide Montague, uma típica senhora da aristocracia Sulista que se refugia no álcool para se evadir do perverso mundo de aparências, intrigas, segredos e imposições em que se resignou a viver, e que tentará impor à filha da pior forma.

No resort, assumindo uma postura livre, moderna, e, para sua própria surpresa, deveras ousada, Alexandria irá cruzar-se com um elegante, sedutor e atraente desconhecido - Lennox, que se apresentará sob o nome de Nox - e ambos irão envolver-se num sensual jogo de sedução e conquista, vivendo um tórrido e intenso romance que se destina a ter uma duração muito curta - apenas uma semana, ou seja, o período de tempo em que ambos ficam alojados no mesmo hotel.

Um dos detalhes mais interessantes é o facto de Alexandria encontrar um alter ego para si mesma, durante as suas curtas férias, utilizando o nome de Charli, e será sob esta nova identidade, que muito simboliza a sua revolta contra as imposições e a teia de ilusão e aparência que caracteriza o meio onde foi criada, e que muito irá ainda surpreendê-la pela negativa.

A leitura deste romance constituiu uma agradável surpresa, pela densidade psicológica evidente das personagens, nem sempre presente neste género literário considerado mais comercial, pela excelente caracterização social do mundo das aparências da alta sociedade do Sul dos Estados Unidos, pela intensidade da intriga, e pelos surpreendentes twists com que a autora nos brinda no final deste primeiro romance, sendo ainda de destacar a existência de um inteligente cliffhanger que deixará as leitoras ansiosas por retomar o curso da trama nos livros que se seguirão. 

Uma leitura rápida, mas intensa, carregada de intriga, erotismo e muitos segredos revelados e a revelar. Nasceu uma nova estrela no panorama da ficção feminina contemporânea ao dispor das leitoras Portuguesas, e o seu nome é Aleatha Roming!

"Não importava que estivéssemos no século vinte e um - Não para os aristocratas. Este era e seria sempre o mundo onde as aparências eram essenciais. Os Segredos que ensombravam os corredores e as ombreiras das portas ficaram silenciados para sempre."

Ficha Técnica do Livro:

Título: Traição

Autora: Aleatha Roming

Série: Infidelidades #1

Edição: Janeiro de 2018

Editora: Quinta Essência | Grupo LeYa

Páginas: 280

Género: romance feminino contemporâneo

Classificação Atribuída: 5/5 Estrelas



quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

CRÓNICA | Adolescência | MBARRETO CONDADO

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”

*
Com meia dúzia de pelos, mal semeado no peito, deitado numa toalha de praia tão reduzida que pouco mais lá conseguia deitar do que o seu anafado traseiro ficando com as pernas, cabeça e braços sujos de areia. Apertado nos seus minúsculos calções axadrezados de cor verde musgo, antigo modelo que o próprio pai vestira uns anos antes como boxers, pois não havia necessidade de gastar dinheiro em modelos recentes, lá ia encolhendo a barriga cada vez que uma sombra passava por ele.

Tentava apresentar músculos que nunca chegariam a aparecer, aparentar ser mais velho do que era, não fosse o som da sua voz traí-lo com os seus agudos repentinos, o seu desejo continuava a ser seguir as pegadas do velho pai, contudo, no seu intimo esperava que este o perdoasse, mas ultimamente andava obsecado pela imagem de tarzan Taborda, do qual guardava secretamente uma foto em posse vestindo uns reduzidos calções de banho rodeado de belas camones, na única abertura da sua carteira misturada com uma nota de vinte escudos que guardava religiosamente desde que o pai a deixara cair e não se apercebera.

Mas como este lhe dizia tantas vezes: “encontrado não é roubado, mas se for bem roubado e ninguém der pela sua falta, por direito é teu”.

Naquele verão, como em todos os outros que passara na Costa da Caparica numa casa alugada que chamavam de sua, conseguiu ter as suas primeiras experiências com as namoradas dos seus amigos. Sempre com as palavras do seu velho pai a assolarem-no cada vez que trocava saliva: “se são realmente teus amigos não podem levar a mal que leves emprestado para brincar um pouco, depois de lavado devolves como novo”.

E com estas máximas, Nunes passou o verão com um herpes labial brutal e um escaldão nas costas, além de que voltou para casa com os olhos negros como se não andasse a dormir bem. Mas só ele e um dos seus mais recentes ex-amigo conheciam a verdadeira razão…


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

CRÓNICA | Porque a boca também come: O Borsh russo | HELDER MENOR


Com o frio, os músculos contraem-se e os corpos tendem a cobrir-se de roupa. Desesperados por calor, trememos o queixo e esfregamos as mãozinhas enquanto procuramos aconchego. Roupa de lã, fogos acesos, amor e amizade ajudam, mas não resolvem completamente.

A sugestão de hoje vai de acordo com a temperatura dos dias: jantar russo a celebrar a amizade e a vencer definitivamente o frio. Que se convidem amigos!

Pensamos num jantar para quatro, mas o número de participantes fica ao vosso critério.
Tudo começa com duas garrafas de vodka. A melhor vodka que conseguirem comprar. Russo. Naturalmente. Se querem ir por versões islandesas ou polacas, fiquemos por aqui e podem mudar de artigo!!!

Estando neste ponto essencial garantidos, sendo o vodka russo, vamos ao resto:

Pão de centeio, o mais escuro que encontrarem, e uma latinha (ou duas) de caviar. Isto para abrir as hostilidades e acariciar o palato. Para comer, hoje temos Borsh (poupemos os trocadilhos brejeiros e limitativos da imaginação). O Borsh é uma sopa com carne e beterraba que aquece fundo até à alma e dá força ao corpo.

Precisam de umas trezentas gramas de carne de vaca - pode ser uma costeleta - ou se preferirem e quiserem baixar o orçamento, ganso ou aba. Umas quatro beterrabas do tamanho de uma mão fechada. Duas cenouras grandes, para ralar fininho. Três cebolas médias daquelas de intenso cheiro que fazem chorar mal se tira a primeira casca. Uns três tomates maduros, que pelamos e tiramos as sementes. E meio repolho - ou um repolho pequenino - que cortamos em fatias fininhas. Como gordura, três colheres de banha de porco. Precisamos também de um ramo de salsa bem fresca. Se tiverem sorte, conseguem comprar smitana, que é uma espécie de natas azedas que se comem no leste da europa... qualquer coisa entre as natas e o iogurte natural. Se não encontrarem smitana, terão de se contentar com um pacote de natas a que vamos acrescentar meio limão.

Agora com os ingredientes em casa, o vodka, deve ir imediatamente para o congelador. O ideal seria ter ido para o congelador na véspera... Na realidade uma casa só se considera devidamente abastecida, com uma garrafa de vodka no congelador!!! Mas umas quatro horas com a garrafa deitada no cantinho entre o peixe congelado e o gelo que se acumula, já dará ao vodka a consistência necessária.

Agora a manufatura do Borsh:

Primeiro, vamos cozer a carne. Inteira numa só peça. Tempera-se com pouco sal e vai ao banho num tacho com bastante água, onde deve ferver uma boa hora até soltar o osso. Numa outra panela pomos as beterrabas a cozer... demoram. Deixem ferver, há tempo, o inverno na estepe demora meses... Os tachos ao lume vão aquecendo o ambiente.

Aconselha-se ouvir o Tchaikovsky que vai evocando a alma russa para a vossa mesa.

Quando as beterrabas estiverem cozidas - e estão cozidas quando não oferecerem resistência ao garfo quando se espeta - escorrem-se e reserva-se o caldo. Esperamos que fiquem suficientemente mornas para se poder mexer e é aí que as esmagamos com uma colher de pau, numa espécie de puré cor-de-rosa escuro.

Voltemos ao lume, que tem estado a aquecer-nos e a cozinhar para nós. Chegou a hora de escolhermos a panela que queremos levar à mesa. Com carinho, pomos as três colheres de banha a derreter e juntamos as cebolas cortadas aos cubos. O lume já está bem alto para as cenouras chiarem na fritura. Assim que começarem a ficar transparentes, pomos o tomate pelado e sem sementes. Baixamos o lume e deixamos refugar, sem pressa que o refogado é daquelas coisas na vida que se deve fazer devagar. A carne já está cozida e cortada em cubos... latente na tábua, à espera de mergulhar na cama do refogado. Quando as formas dos tomates se dissipam no que resta da cebola, a carne entra na panela. Com o cuidado dos amantes, mexemos suavemente para envolver a carne no refugado. Agora cuidado... é o momento em que provamos e acrescentamos o sal. Fica a carne a conhecer o refogado e entra o tosco puré de beterraba. Uma volta com a colher de pau, e vai o repolho cortado fininho. Para lubrificar pomos o caldo da carne com cuidado sem afogar... Mal levante fervura, entra o caldo da beterraba. Não precisa de ir todo...sem exageros, mas não esquecendo que afinal de contas é uma sopa que estamos a fazer. Tapa-se a panela e baixa-se o lume para o mínimo. Que ferva um bocadinho... quando se deixar de poder trincar as tiras de repolho, apaga-se o lume.

No provável caso de não haver smitana, vamos bater as natas com o sumo de meio limão e deixar repousar meia hora com as garrafas de vodka dentro do congelador... havendo smitana, ultrapassa-se este passo e basta acrescentar a salsa picada à tijela de smitana que levamos para a mesa.

Chegaram os convidados. Ouvem-se os soldados do exército vermelho a entoar cantigas de amor e clássicos russos.

Torra-se o pão sem deixar queimar. Abre-se o caviar. Montamos uma colher de café de caviar em cima de uma torrada do tamanho de uma bolacha. Em cada montinho de caviar, um pingo (não dois nem três nem zero) repito, um pingo de sumo de limão. Solene e religiosamente vem a primeira garrafa de vodka para a mesa com as entradas de pão e caviar.

Já sentados, serve-se a vodka. Quatro dédalos de vodka, quer dizer, quatro copos minúsculos de vodka. Todos vão beber e todos têm de beber. Se alguém se recusar, está dispensado do jantar e pode ir comer um hambúrguer e batatas fritas!

O dono da casa, ou a dona, levanta o seu copo e fará o primeiro brinde:

- À amizade.

Todos bebem a totalidade contida no copo. Obrigatoriamente. De um golo só como impõe a espartana moral das estepes, porque a perestroika ainda não chegou ao vodka! Cada um come a sua torrada de caviar. O convidado, porque é educado, vai retribuir o brinde.

–  Ao carinho com que nos convidaram.

Mais uma vez todos bebem. Cada vez que alguém levantar o copo para beber, esse alguém fará um brinde e restantes acompanham. Assim como foi no início, agora e sempre. Até ao último trago da última garrafa.

Alguém que traga a panela do Borsh e a tijela de smitana (as natas, depois do primeiro brinde já estão definitivamente consagradas em legitima e eslava smitana).

Serve-se a sopa em pratos fundos e acrescenta-se uma ou mais colheres de sopa de smitana.
Alguém que faça o próximo brinde.

A vossa criatividade e afeto não têm limites.

Haja vodka para celebrar!

Uma última questão muito importante e séria: Num jantar russo, é normal os convidados ficarem a dormir no sofá da sala... se isso não acontecer, e no caso de terem de sair e conseguirem andar... por favor, não conduzam...

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

LITERATURA | A Magia do Silêncio de Kankyo Tannier | Editora Arena

NAS LIVRARIAS


Sobre o autor:

Kankyo Tannier, uma monja budista da tradição Zen, é considerada "a nova voz do Budismo". Viveu num mosteiro na Alsácia, durante mais de quinze anos, antes de se estabelecer no meio de uma floresta próxima, cercada por árvores e animais.

Oferece cursos de meditação e escreve um blogue sobre a espiritualidade quotidiana - dailyzen.fr. É autora de uma TEDX Talk, tem um blogue no Huffingon Post (França) e expressa com frequência as suas opiniões através do Twitter - é uma monja verdadeiramente moderna. Neste livro, oferece a sua filosofia e ideias de vida de uma forma prática, acessível e próxima.

Sobre o livro:

Ultrapassados pela falta de tempo, pelo excesso de informação e por uma vida
profissional e pessoal que muitas vezes exige mais do que podemos dar, às vezes
explodimos e sentimo-nos perdidos, cansados e fartos de tudo. E se a solução fosse a
magia do silêncio?

Kankyo Tannier, uma monja budista leiga, pratica o silêncio há vários anos numa
cabana idílica nas florestas da Alsácia, em plena ligação com a natureza e os animais.
Kankyo parte dessa experiência extraordinária para nos ensinar a integrar a magia do
silêncio (espiritual e físico) no nosso dia-a-dia e ajudar-nos a melhorar o nosso estado
interior sem mudar as nossas vidas.

Através de exercícios simples e práticos, este livro nos conduz-nos no caminho do
silêncio e da felicidade: o silêncio das palavras, a fim de compreender realmente o que
está a acontecer à nossa volta; o silêncio visual, para que nosso olhar saiba como se
desviar da informação visual inútil e o silêncio corporal, para aprender a ouvir o que
nosso corpo nos diz