sábado, 21 de setembro de 2019

CORAÇÃO EM CURTO-CIRCUITO, de Maria Cecília Garcia















Quem é que nunca pensou na morte, na sua própria morte? Confesso que já pensei muitas vezes, mas era uma morte onde ficava como espectadora, observando o que acontecia à volta do meu cadáver. Uma morte em que podia imaginar as reacções e sentimentos daqueles que me rodeavam. Ou então era uma morte de vingança, depois de alguma contrariedade, uma forma de dizer: Ora então, faço falta ou não? Mas era, sobretudo, uma morte da qual regressava sempre se não conseguisse suportar a dor dos que amo devido à minha ausência. Era uma não -morte.

Mas quando ela chega e se aproxima, de verdade, é algo bem diferente. Vou falar-vos da minha quase morte, que a dos outros sei senti-la de outra forma.

Quando dei entrada naquele enorme hospital, sentia que algo não estava bem, mas como sempre fazia quando algo me assustava, deixei-me ficar do lado de fora, observando. Imaginava que aquela que era transportada numa maca através dos corredores do hospital, era outra, não eu.

No entanto era eu que via passar as luzes do tecto sucessivamente, era eu quem via rostos desconhecidos debruçarem-se sobre mim. Fui eu quem viu a cara preocupada do meu patrão -foi ele que me levou para o hospital. Era médico psiquiatra- deteve o maqueiro por uns segundos, e vendo o seu ar preocupado perguntei: estou assim tão mal, Dr.? – Ele respondeu perguntando: - quer que chame os seus filhos? - Não! Eu falo com eles depois! Imagina! Assustar assim as crianças! Ainda se metem à estrada, nervosos, podem ter um acidente! Não.

A correria na maca através dos corredores fazia-me sentir um personagem das séries de televisão. Sentia-me como uma criança quando faz uma ferida, ou parte um braço, e exibe orgulhosamente o seu dói-dói.

Na sala de reanimação esperavam-me três médicos e outras tantas enfermeiras, ao menos foi isso o que pude ver. Transferiram-me rapidamente para uma cama rodeada de uma parafernália de monitores e holofotes que me cegavam. Então sim, senti-me uma estrela! Olhei para o meu vizinho de quarto, um homem de meia idade estendido numa cama igual à minha e senti pena. Coitado, devia estar bem mal…

Os médicos atiraram-se a mim furiosamente, devassaram as minhas mãos, os meus braços, à procura das minhas veias. Consegui reconhecer o sotaque brasileiro de um deles, o que estava sempre encima de mim era russo - vi o nome na placa que trazia colada à bata - alto, loiro, jeitoso embora anafado, muito simpático e atento. Perguntei-lhe se eu estava no Serviço de Urgência ou na Anatomia de Grey, mas ela não deu resposta. O outro era português e muito sisudo. Não lhe liguei patavina. Estava lúcida, julgava eu.

Vi de relance uma senhora com expressão aborrecida e um homem, assistentes hospitalares, que arrancavam as minhas roupas. Toda a minha roupa. Desatei a rir à gargalhada. Ora bolas, sempre sonhei ser despida por um moço espadaúdo…, mas não desta maneira!

Vestiram-me uma bata que não tapava nada e quando me enfiaram uma fralda não gostei, foi degradante. Até porque a fralda era pequena e não ficou bem fechada e eu tinha uma vontade enorme de fazer chichi, tanta que não consegui controlar. Sentia-me nadar numa poça morna. Alguém disse: não se preocupe, não se preocupe…- Era a enfermeira que segurava carinhosamente a minha mão, a mesma que pouco antes tinha dito: ainda bem que ela tem vontade de rir. Quis perguntar-lhe se realmente a coisa era séria, mas da minha garganta saiu um som rouco, ininteligível, um urro animal. Então sim, nesse momento pensei que ia morrer. Contudo, não senti medo, apenas senti uma grande curiosidade. Dizem que atravessamos um túnel de luz…. Julgo ter visto um personagem estranho, encostado ao marco da porta, que me olhava com um sorriso sardónico.

- Maria, vai sentir uma dor forte no peito, mas não se assuste, é só um momento, uma dor boa que fará o coração voltar ao ritmo normal – Disse o médico russo.
Injectaram-me uma dose, mas não senti dor nenhuma. Ouve uma grande azáfama, movimentação, correria – rápido! 12cc, 12cc já! - Desta vez o meu peito parecia explodir e, pouco a pouco, o coração voltou ao ritmo normal. Fiquei algo decepcionada, afinal, não era desta que ia saber o que havia do lado de lá…

Durante as horas que fiquei em observação, tive tempo para reflectir. Dei-me conta de que a passagem da vida para a morte é muito fácil. Em realidade não custa nada, é bem mais fácil do que nascer.

Ao dar-me a alta o médico brasileiro me informou que teria que tomar, todos os dias, religiosamente, um comprimidinho, ou o coração entrava em curto-circuito. (Afinal, o meu problema é eléctrico!)  E é essa dependência a que me mata!

Dez anos depois o episódio repetia-se, reconheci os sintomas, mas desta vez, antes da chegada da ambulância, tive tempo e presença de espírito para vestir a minha lingerie mais sexy.   Mais vale a morte do que a injúria!

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

AS "SUPER NANNIES" DAS NOSSAS VIDAS, de Cristina Das Neves Aleixo















A polémica é recente, o programa televisivo que lhe deu origem também, mas o problema de fundo que veiculou tudo isto talvez não seja tão novo assim. Tem crescido ao longo de décadas e é algo que tem inquietado a minha mente em diversos aspectos, qual monstro que um dia nos vem assombrar os sonhos.

Qual é a novidade de crianças mais ou menos problemáticas e birrentas? Nenhuma. A novidade está nas nossas vidas a mil, na valorização exacerbada do multitasking, na busca cada vez mais incessante do ser-se perfeito – quando já somos perfeitos nas nossas imperfeições, pois a vida é uma aprendizagem, e nem nos damos conta -, no querer cada vez mais, sem limites, levando-nos a um estado de exaustão onde algo tem que, obrigatoriamente, ficar para trás. Curiosamente, normalmente o que é relegado para segundo plano é, inconscientemente, aquela parte das nossas vidas a que deveríamos dar mais tempo e paciência: a nossa família e a formação dos nossos filhos. Formar e educar uma criança é algo extremamente sério e que obriga a uma disponibilidade física e emocional muito grande, algo que, nos dias de hoje, sejamos francos, a maioria dos pais não tem; não por culpa deles, bem entendido, mas por culpa do sistema de vida, que obriga a que estejamos disponíveis para tudo menos para aquilo que, de facto, mais importa para o ser humano: os afectos, os laços familiares profundos, aquela estrutura inabalável onde todos se respeitam e admiram mutuamente e que produz seres humanos capazes e dignos desse nome.

À falta de tempo e de paciência, delega-se o acompanhamento e a educação – erradamente - para os professores, para os vários educadores, para quaisquer terceiros – incluindo programas televisivos - que nos aliviem o fardo que carregamos diariamente na alma. E os miúdos apenas querem e precisam dos seus pais, devidamente disponíveis para eles. Sim, há crianças extremamente difíceis de educar; sempre houve; o que não havia era a falta de respeito, de formação, de amor e admiração pelo outro.

Quem nasceu até ao fim da década de 80 sabe que as “Super Nannies” sempre existiram. Davam todas pelo mesmo nome: mãe, e bastava um olhar mais sério para se sentir um formigueiro interior – respeito -, ao mesmo tempo que rapidamente se vasculhava a mente à procura de alguma falta. Elas resolviam qualquer problema, na hora, e quando sentiam que o caso ultrapassava os seus poderes pediam ajuda, sim, mas sem alaridos, sem dar a conhecer ao mundo a vida familiar, sem nos fazerem sentir miseráveis e alvos fáceis dos nossos amigos na escola. E nós amávamo-las e respeitávamo-las por isso e tudo o mais. Era Deus no céu e a nossa mãe, a nossa “Super Nanny”, na terra. 

O sistema de vida permitia que elas existissem em todo o seu esplendor. Nós, crianças, depois jovens adultos, verdadeiros seres humanos em formação, crescíamos felizes, sentindo-nos protegidos, amparados e amados, apesar dos raspanetes, castigos e olhares mais duros, muitas vezes, que não maculavam, em absolutamente nada, os valores incutidos diariamente.

Mas o mundo e as suas necessidades mudaram, dirão. Com certeza que sim. Seria uma parvoíce não perceber e aceitar essa realidade. O que se pode questionar é se ao mudarmos o fizemos de forma estruturada. Não deveríamos tentar encontrar um meio-termo? Tentar melhorar o sistema de vida, de modo a ser possível colmatar essa falha, tão essencial ao equilíbrio das nossas crianças e do futuro de todos nós? Será legítimo sujeitar os nossos filhos à humilhação de toda a gente ver a sua vida exposta num écran de televisão? em situações que todos nós, depois do momento passado, gostaríamos de apagar das nossas vidas?

Já diz o velho ditado: é no meio que está a virtude.

Os extremos nunca prestaram para nada.

AMOR FRATERNAL, de Mafalda Pascoal















Pudera eu ser
Inspiração...
Para fazer brotar o teu Amor Infinito
Fazer despertar dentro de ti
Todas as partículas divinas de que é feito
O teu Ser Superior...
Relembrar-te,
Tudo o que te propuseste fazer
Que ao ficares envolto no veículo da tua evolução
Esqueceste
E jamais podes esquecer
Que tens que evoluir
Tens que ser altruísta
Ao ponto de amares
Cada ser que existe
Seja humano
Seja animal
Seja vegetal...
Se tudo existe
é porque tem que existir
Nada é sem razão de o Ser
Tens que acreditar
Que tudo acontece
Na hora e no lugar certo
Todos os males vêm por bem
Porque isso nos ajuda à interiorização, à meditação
E nesse estado de espírito
Transformamo-nos em melhores seres...
Nunca devemos esquecer
Que todos estamos começados
Mas nenhum de nós está acabado
E assim
Todos devemos evoluir
A cada momento que passa
Porque tudo está em constante movimento
Em constante mutação
Por isso
Não podemos estagnar no espaço e no tempo
Para não cristalizar...
Vamos, pois, todos em conjunto
Espalhar Luz e Amor
Em todos os corações
Ávidos de um pouco de paz...    

CRÍTICA LITERÁRIA | "Ainda há sexo na Cidade? ", de Candace Bushnell | Quinta Essência | Grupo LeYa


Texto: Isabel de Almeida | Jornalista | Crítica Literária

Foto: Grupo LeYa | Direitos Reservados


Ainda há sexo na Cidade? é o mais recente romance de Candace Bushnell, autora Norte Americana que marcou a geração feminina dos anos 90 e seguintes com o livro "O Sexo e a Cidade", que viria a dar origem a uma série de culto com o mesmo nome, protagonizada por Sarah Jessica Parker no Papel de Carrie Bradshaw (uma jornalista que luta para construir a sua vida afectiva eternamente apaixonada por Mr. Big, com muitos encontros e desencontros), sendo inesquecíveis os diálogos e as experiências que Carrie experimenta com as amigas: a ingénua e clássica Charlotte, a destemida Advogada Miranda e a intrépida e pouco ortodoxa Relações Públicas Samantha Jones (que faz da promiscuidade uma afirmação da liberdade feminina com um humor que só Candace consegue conferir à personagem). 

As quatro amigas, saídas da pena de Candace Bushnell surgem  para suscitar a reflexão sobre a condição feminina, o mundo dos relacionamentos amorosos, e de todos os desafios que se colocam às mulheres no quotidiano (com cenário e contexto na classe média alta e classe alta de Manhatan) de uma grande metrópole, onde construir-se como pessoa, tanto ao nível humano como profissional é um desafio constante, chagaria também às salas de cinema, e ainda hoje estas personagens marcam o nosso imaginário de cultura popular, sendo relevantes por terem o raro condão de, com humor, falarem muito a sério sobre problemas sociais.

Neste romance que agora chega às livrarias nacionais com a chancela de qualidade da Quinta Essência, por mérito próprio e sem preconceitos, já uma presença constante no universo feminino, Candace Bushnell não traz de volta as quatro amigas já bem conhecidas dos fãs da série, mas muda de registo para um tom reflexivo e confessional, na medida em que o livro surge apresentado com a própria Candace como narradora participante, já a vivenciar a faixa etária dos 50 anos, convivendo com o seu grupo de amigas, todas deixam a cidade (por diversas contingências dos respectivos cursos de vida) e vão residir na prestigiada zona dos Hamptons, onde se localizam as residências de férias da alta sociedade de Nova Iorque.

Com o toque de humor, e a capacidade acutilante de crítica social feita com uma perfeição cirúrgica que bem caracteriza a sua escrita, notando-se no estilo literário, leve mas bastante rico em objectividade, reflexão, humor, sátira, emotividade e sensibilidade a crescente maturidade alcançada pela autora aqui encontramos algumas respostas possíveis, a que se associam outras tantas dúvidas e questões que ficam no ar acerca das relações afectivas, sociais e familiares da sociedade actual.

O livro, que se lê de um fôlego, deixa-nos a pensar em temas como: o que traz a idade de bom e de mau? Será possível encontrar o amor e a felicidade numa fase mais avançada da vida? Quais os novos padrões e tendências relacionais? O Compromisso ainda faz sentido? O que procuram as mulheres maduras? Como olham os homens para o eterno feminino? Quem social e relacionalmente apenas se preocupa com a aparência descurando a essência humana será na realidade verdadeiramente feliz saltitando entre festas glamorosas com a mais recente conquista pela mão?

Encontramos nesta obra toda uma categorização de novos tipos sociais que se torna fascinante de desvendar e confirmar a sua real existência, sendo relativamente fácil transpor as conclusões do lado de lá do Atlântico para a sociedade Europeia, e mesmo Portuguesa.

De assinalar que há um padrão que se mantém comparando com o primeiro livro da série, a amizade feminina surge como um elemento fulcral na história de vida das personagens, mostrando-se imprescindível para manter o equilíbrio mesmo pelo meio de tempestades, tragédias e reviravoltas com que a vida sempre nos brinda.

Uma escrita fresca, vibrante, de fácil leitura, mas que traça um quadro realista com forte pendor de análise social com olhar crítico, numa curiosa ambiguidade que é própria do estilo da autora, temos em mãos algo que arrisco a caracterizar como: literatura light que faz pensar!

Excelente notícia é saber que os Direitos da obra se mostram já adquiridos com vista a dar corpo a uma adaptação televisiva. Uma excelente forma de celebrar a rentrée literária!

FICHA TÉCNICA:


Autora: Candace Bushnell

Edição: Setembro de 2019


Páginas: 232

Género: Romance Feminino Contemporâneo



quinta-feira, 19 de setembro de 2019

NOCTURNO ARCO-ÍRIS: O PRIMEIRO DIA, de Helder Menor
















Para ela, os primeiros dias eram sempre iguais. Era sempre a mesma sensação de pertencer a outro lado. O primeiro dia e os seguintes, ou melhor as primeiras duas semanas, eram para ela sempre uma confusão.

Estava na secundária da Quarteira e seguia direita à sala de professores que era no primeiro andar da C+S de Valongo.

Quando foi colocada aqui não lhe pareceu diferente. Uma antiga escola industrial construída durante o estado novo, com remodelações periódicas em função do calendário eleitoral. Por duas ou três vezes, virou à esquerda, percorreu o corredor até ao fim e teve de voltar para trás, porque não tinha saída e as escadas ao fundo do corredor eram na última escola onde esteve colocada. 

Foi por isso que não ligou às contas quando percebeu que tinha um aluno a mais na sala ou a menos no livro de ponto. Vinte e oito alunos no livro e vinte e nove cabeças que ela contou.

Sempre uma confusão.

Fez aquela primeira chamada e todos responderam. Ou quase todos, que nos primeiros dias há sempre alunos recolocados e também eles deslocados.

Andam sempre todos deslocados. Apenas as contínuas, meia dúzia de professores do quadro e os repetentes crónicos parecem devidamente arrumados e parte da mobília.

Foi logo no primeiro dia dela naquela escola, que reparou nele. 

Ela veio para dar biologia aos nonos, décimos e décimos-primeiros. Ele apareceu-lhe na aula do décimo, com roupas meio datadas dos anos oitenta e, ao contrário dos outros alunos, na mão não trazia um telemóvel mas sim uma bola de basquete. Entrou pálido a cochear do pé direito, afastou a cadeira para se sentar na última fila encostado à janela e soprou o tédio crónico dos dezasseis anos do lábio de baixo diretamente para a franja. Acompanhou o sopro com um inclinar da cabeça para trás e manteve-se ausente enquanto ela explicava o funcionamento das aulas e tentava aferir a dimensão da ignorância dos alunos.

Nesse dia não o voltou a ver.

Nem no dia seguinte.

As contas dos alunos no livro de ponto foram-se acertando e os pés dela foram aprendendo o mapa do lugar.

Depois voltou vê-lo. Trazia a mesma roupa. E a bola de basquete a bater no chão e a subir para a palma da mão como um animal amestrado. Seguia a cochear na direção de um jardim com árvores numa espécie de pátio interior.

Cruzaram-se num corredor infinito com portas que dão para salas de aula dos dois lados. Ela ainda abriu a boca para lhe perguntar porque é que ele tinha faltado à aula dela... mas como ele não fez intenção de a saudar, ela fingiu que não o viu e ficou a ouvi-lo a afastar-se com o seu passo descalibrado ao ritmo das batidas da bola no chão.

Já na segunda semana, seria uma quarta, ela chegou cedo à escola e foi para a sala onde daria a primeira aula organizar as revisões. Ele já estava na sala, sentado ao fundo, encostado à janela e olhando para o jardim, ausente. Ainda não eram sete e meia.

Calado e pálido não lhe respondeu ao bom-dia.

Ela foi ter com ele e confrontou-o.

- Para já bom-dia, depois, não são horas para estares na sala, terceiro isto não é um armazém de equipamentos desportivos mas sim uma sala de biologia e, finalmente, para onde estás a olhar tão distraído que nem me viste chegar?

Com uma voz cansada, respondeu.

- Estou a ver o campo de basquete.

- E onde é que estás a ver o campo de basquete? Eu só vejo flores e árvores...Vais jogar? Estás melhor do pé, reparei que cocheavas. O que te aconteceu ao pé?

- Foi uma entorse. A disputar um ressalto, caí mal, fiz uma entorse no pé direito e um traumatismo craneano que me matou.

- Que quê???

Uma contínua velha e pequenina entrou na sala de aula. Também ela sem dizer bom-dia.

- A professora também o consegue ver, não é?

A professora de biologia virou-se para a funcionária e, por instantes, esqueceu a estranheza da resposta do adolescente.

- Ver quem?

- O Jordan, o miúdo que anda com a bola de basquete...

Ela ia responder que não estava a entender a conversa, mas foi nesse preciso momento que o adolescente com que tinha estado a falar se desvaneceu através da parede na direção do jardim.

A professora ficou lívida.

A contínua continuou.

- Foi logo no primeiro ou segundo ano que vim para esta escola. Em 87 ou 88... há mais de trinta anos. Foi uma tragédia. O miúdo, acho, que era o Zé Manel, mas todos o chamavam de Jordan, caiu no campo de basquete e morreu logo. Falou-se de droga e tudo, veio nos jornais, mas não foi nada disso, o miúdo era um atleta. Foi um acidente. Um horrível acidente. O diretor depois no ano seguinte mandou fazer obras e o campo de basquete mudou-se lá para baixo. Antigamente era ali mesmo onde está aquele jardim e aquelas árvores. A professora consegue vê-lo, consegue ver o miúdo, não é?

Sem saber o que responder, nem fórmulas, nem cálculos, nem experiências, nem roldanas disponíveis para resolver o problema, a professora calou-se evasiva.

-Não sei do que está a falar, mas deve ter sido uma tragédia.

A funcionária não pressionou mais:

- Não se preocupe professora, se viu, vai deixar de ver. E também lhe digo que vai ficar aqui no quadro desta escola, porque ele só se mostra a quem vem para ficar.

...

A funcionária de ação educativa tinha razão.

A professora de biologia passou ao quadro. Está agora vinculanda naquela escola. Com o tempo deixou de estranhar o edifício e os primeiros dias passaram a ser só mais um primeiro dia. Já se habituou às rotinas do local. Sempre que as suas aulas se tornam cinzentas ou quando o tempo convida, manda os alunos irem recolher formas simples de vida junto às árvores do lado de lá da janela.

Avisa-os:

- Aproveitem a vida que, como podem constatar, é um sistema de grande fragilidade!

Eles saem todos de rompante sem entender pêva de biologia.

Ela então senta-se e fica a ver dasabrochar das paixões entre os alunos, os beijos, os pássaros e os insectos. Às vezes, ouve o soar de uma bola de basquete a bater na parede, um bater ritmado que sabe que mais ninguém ouve mas que a conforta.


quarta-feira, 18 de setembro de 2019

BEM-VINDOS, de MBarreto Condado















Existem momentos na nossa vida em que sentimos o destino tecer uma suave teia à nossa volta. Em que nos apercebemos de que os nossos caminhos estão destinados a cruzarem-se. Em que nos sentimos reforçados pelas diferenças que nos unem. Momentos em que desejamos compartilhar as nossas alegrias e tristezas, uns com os outros, e abrir a alma a estranhos que passam a fazer parte do nosso dia-a-dia e a quem, carinhosamente, designamos de “a nossa família literária”.
“Isto, somos nós!”

Num país em que infelizmente se lê cada vez menos, em que o que vem do estrangeiro é que é bom, em que só nomes conhecidos são considerados, muitos perguntam o motivo pelo qual escrevemos.
Sei que falo por todos os fantásticos escritores a quem tenho o privilégio de chamar família, quando digo que o simples facto de passar para uma folha em branco o que nos vai na alma é a maior gratificação que obtemos em todo o processo de escrita.

A verdade é que somos um grupo de autores portugueses com muitas (e diferentes!) histórias para contar!
Ainda desconhecidos de muitos, temos a vontade necessária para chegar longe e de nos fazermos ler. Somos um grupo eclético, porém é nas nossas diferenças que encontramos o elo que nos une. Escrevemos poesia, romances, contos, fantasia, histórias de vida, policiais, artigos de opinião e textos avulsos. Escrevemos porque nos sentimos vivos e queremos transmitir esse mesmo sentimento e as nossas emoções através das palavras. E é com esta força, com as nossas diferenças e com a nossa união que contribuímos todos para a mesma causa, desejando que os nossos livros sejam lidos pelo maior número de leitores.

Gostávamos que passassem algum tempo a ver as nossas capas e os seus títulos sugestivos, que lessem as nossas sinopses, mas acima de tudo que sentissem o que vos queremos transmitir: que cada um dos nossos livros leva nele uma parte de nós! Da nossa vivência! Das nossas viagens! Da nossa imaginação! Dos nossos sonhos! Dos nossos desejos! Das nossas memórias! Das nossas fraquezas! Da nossa força!

Acreditamos que quem nos lê transporta as nossas palavras para lá da nossa própria imaginação. Que vive, que sofre e ama com a mesma intensidade com que escrevemos cuidadosamente cada linha, cada parágrafo, cada página, cada capítulo.

Somos afortunados por vivermos as aventuras enquanto as escrevemos, fazendo parte das vidas das personagens por nós idealizadas e percorrendo os mesmos locais que elas. Ficamos com a sensação de trabalho feito, num misto de emoções em que os nossos sentimentos exultam ao ver essas personagens ganhar vida própria.

Decidimos criar esta página com uma única finalidade: a de divulgar o nosso trabalho, estar mais próximos de todos os que já nos conhecem – os nossos já fiéis leitores –, e que felizmente nos seguem e anseiam pelo que lhes vamos contar a seguir. Mas queremos crescer e contamos com a vossa ajuda para o fazermos em conjunto, pedindo que leiam o que escrevemos e que comentem sem receios o que sentiram com as nossas palavras. Que conversem connosco!

As nossas portas estão sempre abertas!

Gostávamos que, ao aceitarem o nosso pedido para nos seguirem, se sintam também parte da NOSSA alargada família. Afinal, adoramos falar sobre o que fazemos e quando começamos, na maior parte das vezes, parar torna-se o mais difícil.

No dia de hoje, 19 de Julho de 2019, inauguramos este blogue com o mesmo nome da nossa página do Facebook, tendo o único propósito de nos fazermos ouvir cada vez mais através das palavras. Palavras compostas por letras…

Porque Letras em Movimento somos nós!
Ana Ribeiro, Anita Dos Santos, Cristina Das Neves Aleixo, Fernando Teixeira, Mafalda Pascoal, Maria Cecília Garcia, MBarreto Condado, Patrícia Rebelo, Paulo Costa Gonçalves, R.C. Vicente, Reliane de Carvalho e Vanessa Lourenço.

Desafiamos quem ainda não nos conhece a ler-nos, a seguir o nosso percurso, mas acima de tudo a acreditar que ainda temos muito para oferecer, desejando descobrir o nosso trabalho.

Damos as boas-vindas a todos aqueles que amavelmente já nos começaram a seguir, assegurando que as nossas Letras continuarão em permanente Movimento.

Obrigada pela vossa companhia!


SETEMBRO / NOVIDADES LITERÁRIAS DOM QUIXOTE


Livro vencedor do National Book Award.
Nas livrarias a 30 de Setembro

Augustus
de
John Williams
Tradução de Ana Saldanha






















É um idílico fim de dia. Em Apolónia, Octávio goza com os amigos a calma que precede a tempestade. Porque em breve chegará um emissário de Roma – Júlio César foi assassinado.

Octávio tem 19 anos. Frágil, enfermiço, lê a carta e afasta-se. Carre­ga o peso de um nome, o de César, que em testamento fez dele herdeiro e sucessor. A partir de agora, o jovem que um dia será aclamado Impe­rador Augusto tem os senadores romanos como inimigos mortais.

A notícia da morte de César é-nos narrada no diário de um dos seus amigos. É apenas um fragmento da História, ao qual John Williams, com a minúcia de um artífice, junta outros: cartas, biografias, memórias ou até éditos de personagens como Marco António, Cleópatra, Cícero ou Estrabão. Lentamente o retrato ganha contornos, ilumina-se. Sem nunca ouvirmos as palavras de Octávio – essas estão reservadas para o fim do romance –, assistimos à criação do mito.