segunda-feira, 12 de novembro de 2018

LITERATURA | Uma História Antiga de Jonathan Littell | DOM QUIXOTE - Tradução de João Carlos Alvim

Nas livrarias a 13 de Novembro


Uma História Antiga é um romance que se inspira na novela com o mesmo título que Littell publicou em 2012, em França (Éditions Fata Morgana). Nesta impressionante ficção literária, o autor desenvolveu e prolongou ideias da novela, realizando uma proeza original e provocante.

Um narrador sai de uma piscina, troca de roupa e começa a correr num corredor cinzento. Descobre portas, que se abrem para diferentes territórios (casa, quarto de hotel, estúdio, cidade ou zona selvagem), lugares onde são interpretadas e reinterpretadas as relações humanas mais essenciais (a família, o casal, a solidão, o grupo, a guerra). Esses territórios são percorridos, e a corrida termina. Então, tudo recomeça. De maneira idêntica, mas não completamente, em cada um dos sete capítulos deste romance. Entre as sete variações é organizado um complexo jogo de recorrências (situações, imagens), ecos e dissemelhanças, num carrossel cativante, e tudo menos inofensivo, que institui a mutabilidade como norma. E a própria identidade do narrador vai-se metamorfoseando – por vezes homem, outras vezes mulher… hermafrodita… adulto… criança.

domingo, 11 de novembro de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS – Especial |Qual é o estilo de liderança mais eficaz: Autocrático, democrático, liberal ou visionário?” | ISABEL DE ALMEIDA e CARMEN MATOS


Na política, no âmbito da estratégia militar, no mundo empresarial e até em termos espirituais ou mesmo religiosos, historicamente, vem sendo transversal a actuação de diversos tipos de líderes, com estilos diversos de actuação dentro dos respectivos contextos em que se movem, e com resultados mais ou menos eficientes e mais ou menos bem conseguidos, fruto da sua influência sobre as populações-alvo, chamemos-lhe assim por uma questão de simplificação conceptual e terminológica, cujos destinos cabe orientar e reger, com vista a alcançar um determinado resultado muito preciso.

 A História contemporânea (tendo presente exemplos mais recentes em termos temporais) traz-nos, de imediato à mente, num simples exercício de reflexão, diversos líderes mais ou menos bem-sucedidos e que deixaram o seu cunho pessoal nos meios onde se moveram, de modo positivo ou deveras negativo. Em termos lógicos, racionais e de bom senso, é consensual que Winston Churchill foi um bom líder em termos de condução dos destinos da Inglaterra (e da Europa e do mundo, em última análise, atenta a repercussão de um conflito bélico mundial em várias regiões do mundo), assim como é também consensual (sempre no plano da racionalidade e da lógica, até em termos humanitários) que Hitler foi um líder autocrático, megalómano e irracional, cujos resultados finais da liderança política dos destinos da Alemanha foram dos mais catastróficos e dolorosos para a humanidade.

Lamentavelmente, nos tempos actuais assistimos, num crescendo, ao ressurgir de estilos de liderança que colidem, ou no mínimo, ferem o sentido democrático (na sua génese ao nível meramente teórico, porquanto sabe-se que, na prática, o conceito de democracia sempre esteve eivado de fragilidades desde o início) que seria suposto existir em sociedades e países ditos evoluídos, existindo como que uma obrigação moral de carácter universal (tantas vezes e diariamente violada) de respeitar os mais basilares e essenciais direitos humanos, desde logo, à luz de textos jurídicos de Direito Internacional de que é exemplo a Convenção Europeia dos Direitos do Homem. 

Todavia, ostensivamente, a democracia, que nasceu imperfeita na Grécia Clássica, continua imperfeita mesmo perante os vários séculos de história que separam o seu surgimento da sua vivência nos dias de hoje, e este circunstancialismo é ponto assente!

Sendo certo que na sociedade existem estruturas de consolidação, evolução e funcionamento, é também evidente a necessidade e existência de liderança, nos diferentes planos de actuação e consequentemente é natural, necessário e expectável o aparecimento de líderes.

A liderança é, tão somente, a arte de comandar pessoas, potenciando seguidores e influenciando de forma positiva quer mentalidades, quer comportamentos, podendo ser informal, porquanto surge de forma natural, ou formal, porque determinado líder foi eleito numa estrutura ou organização e passa, assim, a assumir um cargo ou autoridade específica.

A pessoa que se destaca em determinado contexto e que consegue aglutinar um grupo e unir esses mesmos elementos, torna-se um líder, sendo tal qualificação potenciada pela existência de carisma, paciência, respeito, disciplina e capacidade de influenciar os subordinados, estando estas características subjacentes ao perfil de líder, idealmente considerado em termos teóricos.

Efectivamente, a liderança encontra-se em todos os momentos e situações, tanto de âmbito pessoal (grupos de amigos, família, escola) como em âmbito organizacional (trabalho).

Destarte, a panóplia de tipos de liderança é diversa e entre estes tipos poderemos encontrar a autocrática (identificada stritu sensu pelo autoritarismo, pela falta de escuta activa e desmotivação), democrática (liderança participativa com debate pré-decisões) e liberal (as decisões são delegadas e a participação do líder é limitada, existindo mesmo o risco da parte deste, de um quase total alheamento quanto do desempenho daquelas que seriam as suas funções, o que pode redundar numa situação verdadeiramente anárquica, correspondente à ausência de liderança).

Não obstante a existência de diferentes tipos de liderança, depara-mo-nos também com tipos diferentes de líderes, como sendo: o autoritário (cuja opinião prevalece sobre tudo e todos, sendo pois, dominador e como tal assemelhando-se mais a um chefe que líder); visionário (possui senso de oportunidade e optimismo no exercício das funções que lhe estão confiadas, sendo empreendedor e com predisposição para correr riscos); liberal (deixa os colaboradores exercerem as funções e tomarem as próprias decisões); democrático (encoraja à participação de todos, preocupando-se com o trabalho e com o grupo como um todo); motivador (capaz de unir pessoas, propósitos e objectivos com o seu exemplo); líder coach (estimula novas habilidades e potencia as melhores aptidões e competências de cada colaborador); técnica (é respeitado por ser aquele que detém o maior conhecimento, capacidade e aptidão sobre determinado assunto).

Outrossim, é de salientar que existem princípios-chave que podem indiciar a existência de líderes de excepção, cite-se, a título de exemplo, alguns destes princípios de actuação: capacidade de saber criticar construtivamente, de reconhecer os seus próprios erros perante a equipa, sugerir ao invés de ordenar, elogiar os pontos fortes, esperar e fomentar a excelência, tornar os desafios mais fáceis, fomentar a satisfação dos seus colaboradores na realização do seu trabalho, e envolver os colaboradores numa verdadeira missão comum em prol de um objectivo que é também bem visto e desejado por toda a equipa.

Não menos importante é assinalar que, pese embora existam líderes natos, que apresentam diversas qualidades inerentes à sua personalidade, tais como: extroversão, empatia e um alto grau de inteligência social, assertividade, espírito de equipa, inteligência emocional, capacidade de pensar “fora da caixa” e de estimular estas mesmas características na respectiva equipa, também não é menos verdade que este tipo de capacidades podem ser potenciadas e exercitadas com o apoio de especialistas em diversas áreas de conhecimento (é hoje comum e de reconhecido mérito e elevada valia o recurso crescente a acções de formação e prática de coaching em diversos âmbitos, e tal aplica-se tanto em contextos organizacionais, quanto ao nível de programas de desenvolvimento pessoal que procuram dotar os indivíduos de uma necessária polivalência tendo por base um inicial auto-conhecimento).

De lamentar, contudo, que nos tempos que correm os exemplos de liderança autocrática proliferam e começam a dominar cargos de elevada importância social, económica e política, sendo de destacar que, apesar de o mundo se encontrar em “suposta” evolução, se assiste a uma involução a este nível que poderá vir a ter gravosas repercussões em diversos planos.

São diversos os exemplos de líderes que representam países com elevado peso mundial e que se pautam por uma gritante falta de democracia, impondo ideias, valores e regras altamente atentatórias dos direitos dos cidadãos, e chegando mesmo a banalizar esta postura, que começa a ser vista como normativa por muitos cidadãos, iludidos pelo populismo fácil.

Numa época em que o descrédito se generalizou, por exemplo, no poder político, a nível mundial, aumenta o aparecimento de líderes autocráticos, pois as suas opiniões prevalecem em todas as situações, tomando só para si as decisões e não promovendo a participação de outros.

Constatamos esta realidade relativamente a situações mais triviais, quanto no que diz respeito  às questões mais complexas, desde o funcionário mais relapso da hierarquia ao mais elevado, pois, na realidade, este tipo de liderança deriva de forma muito instintiva da natureza da pessoa.

Passar de uma posição do “quero, posso e mando” a uma situação de auscultação de terceiros para decisões ponderadas e aglomeradoras é um exercício que exige empenho, vontade, tempo, inteligência emocional e social e uma mentalidade flexível, não egocêntrica nem pautada por traços narcísicos. 

Quando as evidências apontam no sentido de uma crescente onda de desequilíbrio em termos de saúde mental, torna-se, por vezes, algo assustador pensar na séria probabilidade de a ratio de líderes passíveis de alcançar resultados positivos ser inferior às reais necessidades da sociedade hodierna, o que coloca em perigo, em última análise, a própria evolução futura da humanidade, numa visão que assumimos como catastrofista, mas que não deixa de ter por base diversos exemplos bastante realistas a que diariamente assistimos no mundo!

“As qualidades desaparecem sob as críticas, mas florescem sob encorajamento”

Dale Carnegie


“Um líder é alguém que sabe o que quer alcançar e consegue comunicá-lo”

Margaret Tatcher

LITERATURA | O Fim do Fim da Terra de Jonathan Franzen | DOM QUIXOTE (Ensaios) - Tradução de Francisco Agarez

Nas livrarias a 13 de Novembro
Publicação em simultâneo com a edição americana.


Um conjunto de ensaios e discursos escritos na sua maioria nos últimos cinco anos. Nesta obra, Jonathan Franzen regressa com uma energia renovada aos temas que há muito o preocupam. Seja explorando o seu complexo relacionamento com o tio, recordando a sua vida de jovem adulto em Nova Iorque ou proporcionando-nos uma perspetiva esclarecedora da crise das aves marinhas à escala mundial, estes textos contêm toda a inteligência e realismo desencantado que nos habituámos a encontrar em Franzen. No seu conjunto, desenham a evolução de um pensamento original e maduro em luta consigo próprio, com a literatura e com algumas das questões mais importantes dos nossos dias, que o atual ambiente político torna ainda mais prementes, tais como as alterações climáticas e as promessas e armadilhas das redes sociais, da tecnologia e do consumismo.

Mais do que um astuto cronista, Franzen é um guia que nos mostra onde as instituições e ferramentas que construímos nos podem levar no futuro – e os perigos que nos esperam ao longo do caminho.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

LITERATURA | José e os Seus Irmãos I - As Histórias de Jaacob de Thomas Mann | DOM QUIXOTE - Tradução de Gilda Lopes Encarnação

Nas livrarias a 13 de Novembro


Thomas Mann considerou esta monumental narrativa da história bíblica de José como a sua magnum opus. Concebeu-a em quatro partes – As Histórias de Jaacob, O Jovem José, José no Egito e José, o Provedor – como uma narrativa unificada, um “romance mitológico” da queda de José na escravidão e da sua ascensão a senhor do Egito. Baseado num profundo estudo da História, e utilizando detalhes pródigos e convincentes, Mann evoca o mundo mítico dos patriarcas e dos faraós, as antigas civilizações do Egito, da Mesopotâmia e da Palestina – com as suas divindades e rituais religiosos –, e a força universal do amor humano em toda a sua beleza, desespero, absurdo e dor. O resultado é uma brilhante amálgama de ironia, humor, emoção, perceção psicológica e grandeza épica.

Pela primeira vez traduzido directamente do alemão, e respeitando as opções de Thomas Mann – como se pode constatar na grafia do nome Jaacob –, esta tradução revela a exuberante polifonia de antigas e modernas vozes do romance de Mann, uma música rica que é, ao mesmo tempo, elegante, rude e sublime.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

À conversa com a escritora ROBIN HOBB


Margaret Astrid Lindholm Ogden nasceu na Califórnia em 1952, utiliza o pseudónimo Robin Hobb o mesmo que lhe viria a abrir as portas do mundo editorial com estonteantes vendas e projecção internacional.
Era muito nova quando se mudou com a família da Califórnia para o Alasca mas como o mundo da ficção se mistura com a realidade na sua nova casa ganhou um novo companheiro de aventuras, Bruno, um hibrido de cão e lobo com o qual se sentia segura o suficiente para se embrenhar pela densa floresta que rodeava a casa deixando a imaginação guiá-la.
No início da sua carreira escrevia para jornais locais, revistas juvenis, e em 1981 foi premiada pelo Conselho Estadual do Alasca pelo seu conto “A Caça Furtiva”, em 1983 escreveu o seu primeiro romance. foi nomeada para os prémios Hugo e Nébula e foi vencedora do prémio Asimov.
Mais tarde casou-se com um pescador e mudou-se para a ilha de Kodiak, foi através do marido que aprendeu a amar tudo o que dizia respeito ao mar.
Tem quatro filhos e netos e vive actualmente no estado de Washinghton.
Somente em 1995, após conversa com o seu agente decidiu criar um nome que se adequasse ao seu novo estilo de escrita com a publicação de “O aprendiz de assassino” Robin Hobb era finalmente catapultada para a fama e sucesso.
De ressalvar ainda como surge a série de fantasia mais popular de Robin Hobb, de acordo com a própria tudo começou com a descoberta de um pedaço de papel que conservava guardado no fundo de uma gaveta e que dizia simplesmente: “E se a magia fosse viciante? E se esse vicio fosse completamente destrutivo?”.
Os seus livros estão traduzidos em mais de vinte línguas, ganhou diversos prémios através da Europa como o Prémio da Fantasia do Elfo na Holanda, o Prémio Imaginales pelo trabalho traduzido em França e mais perto de casa ganhou o Prémio Endeavor por trabalhos publicados no Noroeste do Pacífico, venceu ainda este ano o prémio Gemmel em Inglaterra para melhor romance com o livro Assassin’s Fate, o último livro da série do Assassino e o Bobo. O livro será publicado brevemente em Portugal em dois volumes, “A Viagem do Assassino” e “O Destino do Assassino”.
E mais recente ganhou o Prémio Israeli Geffen para o melhor romance de fantasia com o livro “O Assassino do Bobo”, o seu trabalho continua a ser nomeado para os prémios Hugo, Locus e Nebula.
Robin continua a escrever pequenas estórias de ficção como Megan Lindholm.
A verdade é que sempre soube que queria escrever.


MBC – Como prefere ser conhecida por Margaret, Megan ou Robbin?
RH - Sou definitivamente Robin.

MBC – É a primeira vez que visita Portugal?
RH – Sim é a minha primeira vez.

MBC – Foi difícil conciliar a sua paixão pela escrita com o seu dia a dia de profissional, mulher, mãe, dona de casa?
RH - É um acto de equilíbrio. Acho que é importante que as pessoas percebam que as crianças vêm sempre em primeiro lugar, primeiro sou mãe e só depois tenho um trabalho e algo de que gosto muito. Quando comecei a escrever tinha filhos pequenos e rapidamente percebi que não podia ter um sistema para escrever peguei sempre em todos os pequenos momentos livres que conseguia durante o dia quando dormiam, brincavam, viam televisão, sentava-me na mesa enquanto os observava e escrevia. Devo confessar que a minha casa nunca estava limpa como gostaria, que a minha relva ficava muitas vezes por cortar porque a verdade é que quando a oportunidade para escrever aparecia eu aproveitava-a.

MBC – Confesso que fiquei apaixonada quando tomei conhecimento da sua relação com o cão Lobo Bruno, pode fala-nos um pouco sobre esse tempo?
RH - Quando nos mudámos para o Alasca existia um cão no nosso bairro, e quando digo bairro refiro-me às casas estarem afastadas por hectares umas das outras, uma das coisas que dizemos no Alasca é que se à noite conseguires ver as luzes do vizinho está na hora de mudares. Víamos o Bruno como um rafeiro e a história que se contava sobre ele é que tinha sido criado como animal de estimação de alguém, mas que, entretanto, tinha sido amarrado e fugira. Quando o vimos pela primeira vez coxeava, mas vinha até à nossa casa e começámos a alimentá-lo. O meu pai conseguiu fazer com que confiasse nele o suficiente para se aproximar e tirar-lhe o espinho que o feria depois de o tratarmos gradualmente começou a ficar na nossa casa e tornou-se parte da nossa família. Os vizinhos contaram-nos que devia ser uma mistura de cão pastor branco e de Lobo, era um cão enorme e esteve connosco durante muitos anos. Eu estava muito habituada a viver perto de florestas, mas com este cão percorria a floresta encostada à minha casa durante horas sabendo que ele garantia o meu regresso em segurança.

MBC – As paisagens do Alasca têm alguma influência em tudo o que escreve?
RH – Nem por isso. Desde que me lembro que sempre quis ser escritora. Na minha adolescência escrevia vários inícios de estórias, mas nunca me conseguia comprometer com um final, porém estava sempre a escrever. Desse tempo guardei somente alguns rascunhos e alguns diários que já nem existem.

MBC – O seu marido é o seu maior crítico?
RH - O meu marido não lê nada do que escrevo e o motivo para isso é que no inicio da minha carreira estava a escrever sobre uma personagem que ia morrer de uma maneira suja, ele leu as primeiras páginas e disse-me que a personagem que estava a descrever era muito parecida com uma pessoa nossa conhecida, o Bruce, depois de pensar confirmei que tinha razão era realmente parecida foi quando o meu marido me disse que não ia continuar a ler a estória porque não achava bem que eu matasse os amigos. O que percebi foi que o meu marido conhece-me tão bem que não estava a ler o que escrevia, mas que me lia a mim. É por esse motivo que penso que se queres ser um escritor deves ter alguém que leia e critique a tua estória, alguém que não te conheça porque se estás a escrever e descreves locais como o cinema ou a casa de waffles do outro lado da rua e por aí em diante os teus conhecidos reconhecem de imediato os locais aos quais te referes. Por esse motivo é melhor distanciarmo-nos e termos alguém de fora a criticar-nos e aconselhar-nos.

MBC – E os seus filhos e netos serão eles os seus maiores fans e críticos?
RH – A verdade é que alguns deles leram, outros não, uns vieram a tornar-se fervorosos leitores enquanto que os outros preferem documentários.

MBC - Baseia os seus personagens na sua família, em conhecidos?
RH - Nunca o faço deliberadamente, não tenho por hábito colocar pessoas que conheço nos meus livros possivelmente somente algumas das suas características que me prendam a atenção, como certa pessoa anda, pega na caneca do café, como fuma um cigarro, como se veste. Por exemplo não podemos tirar uma mulher moderna e colocá-la num mundo de fantasia, ela tem ideias, consciência de que é dona do seu próprio espaço, teria que existir uma razão para o fazermos.  

MBC - O que sentiu quando percebeu que a aceitação dos seus livros era maior quando
se apresentava como Robin Hobb, quando na realidade continuava a ser a Megan?
RH - Comecei a escrever com o diminutivo do meu nome de solteira, Megan Lindholm quando escrevia histórias para crianças, fantasia e ficção científica. Escrevia em todos os géneros da fantasia mas os leitores gostam de saber o que leem, se for conhecida por escrever westerns e depois escrevo um romance que se passa em Nova Iorque com o mesmo nome de autor o leitor que me siga não irá ficar satisfeito se comprar um dos meus livros a pensar que é um western e sai-lhe algo completamente diferente ou vice-versa. Por isso quando tanto eu como o meu agente nos apercebemos que queria escrever fantasia épica e sempre mais do que um livro dentro do mesmo género disse-me que precisávamos de separar a escrita e aconselhou-me a pensar num nome diferente, divertimo-nos imenso a ler o nome escolhido. Além de que é uma forma de escrita totalmente diferente da de Megan que é muito mais cínica e não explica detalhadamente as situações nem é tão emocional por isso é um estilo de escrita diferente e ainda hoje quando tenho uma nova ideia sobre o que quero escrever sei automaticamente se é para ser escrito pela Megan ou pela Robin. Quando adoptei este nome não dei muitas entrevistas, nem anunciei a mudança, não foi tanto para tentar parecer que era um homem que escrevia foi mais para baixar a pressão de descrença que pudesse surgir. Quando escrevi a trilogia Farseer escrevi como a personagem principal que era um homem porque quis facilitar a entrada na estória tornando-a mais fácil para o leitor.

MBC – Consta que descobriu um pedaço de papel que conservava guardado no fundo de uma gaveta e que esse foi o incentivo necessário para começar a escrever a Trilogia Farseer.
RH - É verdade, era um envelope rasgado ao meio que guardava na gaveta porque nunca fui suficientemente organizada para ter pequenos livros de anotações isto aconteceu no inicio da minha carreira quando ainda escrevia como Megan, aconteceu quando atingi um ponto difícil no livro que estava a escrever e de repente tens outra ideia que é mais bonita, mais brilhante e muito mais fácil de escrever, ou uma ideia que não se adequa ao que está a escrever presentemente a frase era: “E se a magia fosse viciante? E se esse vicio fosse completamente destrutivo?”. Nesse momento soube que tinha que tirar a frase da minha mente e acabar a estória na qual estava a trabalhar na altura. Por isso voltei a guardar o envelope rasgado dentro da gaveta onde mantinha uma série de outros papeis, e ali ficou durante mais um tempo.

MBC - Ainda tem essa secretária?
RH – Não, essa secretária há muito que desapareceu bem como a casa. Mas só Deus sabe o que guardo no meu escritório.

MBC – O desenho detalhado das casas, dos mapas partiram de si ou foram sugeridos?
RH - Não faço mapas porque infelizmente tenho uma noção muito má das distâncias, neste momento não conseguiria dizer a distância que nos separa por esse motivo sou terrível a desenhar mapas. Cada tradução tem as suas próprias opções artísticas para as capas, os mapas do terreno, o detalhe das casas.  O que acontece é que normalmente envio para o meu editor rabiscos de um mapa no qual se baseiam. Se virem os primeiros livros do aprendiz de assassino podem repara que o mapa na edição inglesa é totalmente diferente do mapa na edição americana.

MBC - O festival Bang é anual e consegue colmatar a curiosidade que os leitores de literatura fantástica têm sobre quem escreve os livros que os transportam para lá da imaginação por esse motivo qual espera ser a sua recepção de boas-vindas amanhã no Festival Bang?
RH - Todos os festivais são diferentes costumo ir aos Comic Con nos Estados Unidos e é sempre diferente por isso terei que esperar para ver.

MBC - Quer deixar uma mensagem aos leitores portugueses?
RH - Muito obrigada pelo vosso apoio.


Texto: MBarreto Condado
Fotos: Mário Ramires

domingo, 28 de outubro de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS - Especial | Doçura ou Travessura !? - Os manipuladores também usam máscara... | ISABEL DE ALMEIDA e CARMEN MATOS



Visto que se aproxima o “Halloween”, um conceito importado dos Estados Unidos da América, que, como tantos outros, encerra em si uma vertente não apenas de mera diversão, mas também de consumismo, decidimos brincar um pouco com esta temática, para falar de coisas muito sérias. Em Portugal, nesta época, cria-se um ambiente mais sombrio e brinca-se com a chamada  “Noite das Bruxas”, onde além de festas temáticas assiste-se também a um novo ritual importado onde  crianças e adultos percorrem a vizinhança tocando às campainhas e proferindo a frase: “Doçura ou travessura!?” esperando receber o desejado doce!

Um pouco à semelhança do Carnaval, mas numa vertente mais sombria, tendo por inspiração os fantasmas e bruxas que povoam o imaginário popular, no “Halloween” usam-se máscaras, pretende-se recriar “falsas realidades”, em sentido metafórico. Contudo, quando nos debruçamos um pouco sobre esta constatação e pensamos um pouco percebemos, de imediato, que em tudo o que se encontra à nossa volta existe sempre uma “realidade aparente” que difere em muito daquela que na verdade lhe subjaz.

Ironicamente, e brincando um pouco com a metáfora do “Dia das Bruxas”, arriscamos a dizer que a expressão “Doçura ou travessura!?” é a máxima postulada na nossa vida quotidiana e geral, quer no seio familiar, social, profissional, de amizades e que esta, consciente ou inconscientemente emana de uns e é sentida ou percepcionada por outros de forma mais ou menos clara. 

Encontramos, não raras vezes, manipuladores e muitas destas vezes, estamos à mercê destas pessoas, quer porque não nos apercebemos, quer porque não imaginamos que tal possa suceder connosco ou até porque, com certa ingenuidade ou em negação, nos custa a crer que aquela pessoa, tão agradável, fosse capaz de tamanha proeza ou desfaçatez. Relativamente aos manipuladores podemos identificar diversos géneros e subgéneros: “sociopatas”, “narcisistas”, “mitómanos” e até” vampiros emocionais”, todos têm em comum algo bastante transversal: os seus objectivos são claros, instrumentais e desenrolam-se por padrões comportamentais perfeitamente identificáveis.

Viver em sociedade implica, muitas vezes, o contacto com experiências menos agradáveis nos relacionamentos pessoais, sociais ou profissionais. Diariamente somos confrontados com estratégias de manipulação que podem ser melhor ou pior sucedidas, mas ajuda a prevenir muitos dissabores se soubermos estar atentos a alguns sinais inequívocos.

Antes de avançarmos, convém clarificar o que entendemos por “manipulador”, aqui conjugando uma visão psicológica e também o que nos vai mostrando o quotidiano e os diversos meios onde nos movemos. 

De uma forma simplista, mas acessível, entenda-se por “manipulador” qualquer pessoa – criança, jovem, adulto ou idoso - que tente influenciar o comportamento de outras pessoas de modo a obter vantagens para si mesmo, tendo em conta única e exclusivamente o seu interesse pessoal, a satisfação do próprio ego, dos seus impulsos e desejos ou meros caprichos, retirando de tal conduta uma satisfação pessoal em termos de “exercício de poder” (e também em termos mais precisos e concretos de alcançar objectivos pessoais mais concretos ou determinados), de controlo sobre terceiros.

Os manipuladores adultos, podem ainda apresentar traços narcísicos de personalidade que muitas vezes escondem, falhas narcísicas, sendo a sua atitude manipuladora um mecanismo psicológico consciente ou inconsciente que procura compensar falhas em termos de estruturação do “eu” ou “self”. Quase sempre atrás de um manipulador nato esconde-se um ser humano incapaz de amar, de aceitar ou desenvolver relacionamentos saudáveis com os outros, precisamente porque algures no seu desenvolvimento pessoal numa fase mais precoce sofreu ele próprio um défice relacional (por exemplo, não foi suficientemente nutrido emocionalmente pelas figuras cuidadoras na infância).

Uma vez que nada é linear em termos de funcionamento da mente humana, podemos estar perante uma conjugação de processos patológicos e de traços de personalidade combinados que podem dar origem a funcionamentos pessoais, relacionais, sociais e profissionais deveras tóxicos e incómodos para quem com os mesmos tenha de conviver. Uma pessoa narcísica pode também apresentar traços neuróticos (aqui estamos no âmbito de conflitos internos inconscientes) que implicam falta de valorização de si mesmos, falhas de auto-estima, necessidade de seduzir para compensar um imenso vazio interior.

Em termos mais práticos, os manipuladores começam por surgir como verdadeiros sedutores (e note-se que esta sedução nem sempre terá carga erótica), mostram-se afáveis, simpáticos, dispostos a ajudar, valorizam o seu “alvo” ou “vítima”, chegando mesmo ao ponto de enaltecer de forma grandiosa e até exagerada as potencialidades desta, para conquistar a confiança e simpatia do mesmo.
E o que poderá potenciar a qualidade de “vítima” de um manipulador? Pois bem, diversos factores podem conduzir a tal circunstância: um momento de particular vulnerabilidade psicológica que estes são, infelizmente, peritos em detectar; fases depressivas, momentos de baixa auto-estima, timidez excessiva, o medo face a confrontos, a submissão e a falta de imposição de limites, são características que criam a oportunidade ideal para que o manipulador (predador) consiga atacar a vítima (presa)!

São diversas as técnicas de que estes “predadores” lançam mão para atingir os seus objectivos, como o Gaslighting (forma deliberada de mentir, confundindo a vítima de modo a obter o benefício pretendido, o que leva a que se distorça e confunda o senso de realidade da vítima, levando-a a acreditar em algo que não aconteceu); Projecção (o manipulador transfere as suas características negativas ou a sua responsabilidade comportamental para outra pessoa); conversas sem sentido (o manipulador usa conversas ilógicas, expressões sem sentido, através de monólogos e tenta envolver a vítima com o seu discurso); generalizações e desqualificações (utilizam declarações gerais, vagas e sem sentido, pretendendo rejeitar e subestimar a vitima, aparentando que são intelectuais); situações absurdas (o manipulador procura minar a auto-estima da vítima, colocar palavras na boca desta, fazê-la repensar em tudo aquilo em que esta acredita, levando-a a crer que consegue ler-lhe a mente); bondade disfarçada (há um “mas” em tudo o que diz…. Se comprarmos algo, dirá que é pena não ter comprado algo melhor, se estamos bem vestidos dirá que X está melhor vestido que nós).

Apresentando-se geralmente como pessoas dóceis, atenciosas e muito bondosas, amigas do seu amigo, os manipuladores conquistam, passo por passo, a confiança da vítima, que muitas vezes fragilizada, se encontra absolutamente à mercê dos intentos retorcidos destes.

Dotados de grande paciência, os manipuladores adoram “ouvir”, não porque queiram mesmo ouvir, mas, apenas porque pretendem identificar os pontos fracos aqueles com quem convivem, não gostam de falar sobre eles mantendo a sua vida numa espécie de mistério, desviam as conversas que de certa forma lhe coloquem questões às quais não querem responder, para que possam ter poder sobre a vítima, e não o inverso!

Insidiosa e gradualmente vão interagindo de forma muito gratificante, criando uma falsa sensação de confiança plena, de verdadeiro altruísmo, apoio, sintonia, proximidade e disponibilidade totais. Num primeiro momento, tudo funciona de forma perfeita, até que, por qualquer circunstancialismo, o “alvo”  ou “vítima” deixa de conseguir corresponder ao que dele se espera, ou porque não tem disponibilidade, ou porque não concorda com determinada postura ou opinião, ou porque intuitivamente começa a detectar algumas graves incongruências, instabilidade ou incoerência da parte do manipulador, sendo certo que, mais tarde ou mais cedo “a máscara cai!”

Perante uma contrariedade ou confronto, o manipulador sente-se perdido, aceita mal o desequilíbrio em seu desfavor do “exercício de poder relacional”, tentar vitimizar-se com a esperança de conseguir ainda reconquistar a confiança da “vítima” mas no sentido de a fazer sentir culpada, ingrata ou “a má da fita”. Se houver cedência, o novo ciclo patológico recomeça, mas se a “vítima” efectivamente despertou para a realidade poderá mesmo ter de lidar com uma imensa carga de agressividade. 

Algumas expressões atraiçoam o manipulador, desde que estejamos atentos são padronizadas e comummente utilizadas como por exemplo: “não exageres, não sejas dramático, não sejas tão sensível, não sejas louco, não me entendas mal!”

Despertar a ira de um manipulador desmascarado não é agradável, mas há que manter a calma, criar uma distância psicológica de segurança (mostrando que saudável será a reciprocidade relacional e nunca uma supremacia de uma parte sobre a outra, e muito menos qualquer forma de instrumentalização ou objectificação).

Importa, acima de tudo, não se deixar enredar nas teias de quaisquer chantagens emocionais, não cair na tentação de ceder novamente a pressões de imposição, não perder o sentido crítico pessoal e demarcar claramente as regras de funcionamento da relação em termos de respeito mútuo, reciprocidade, respeito pela diferença, respeito pela individualidade de cada parte e de tudo o que esta contempla, designadamente, impor o respeito pelo espaço pessoal, opinião, agenda, modo de vida etc.

Para os manipuladores, as vítimas não são nada mais do que meras peças de xadrez que manuseiam para atingir a vitória que pretendem, não existindo por parte destes qualquer sentimento verdadeiro para com a pessoa que se tornou algo da sua torpe atitude.

Podemos perfeitamente viver com eles, desde que saibamos definir limites, que saibamos dizer não e que estejamos atentos aos sinais, aos padrões característicos de comportamento mantendo a capacidade de análise crítica bastante activada.

Geralmente, quando enfrentamos este tipo de pessoas dotadas a nossa intuição manifesta-se, tenta alertar-nos mas não raras vezes menosprezamos estes sinais porque acreditamos algo ingenuamente na bondade ou no sorriso que nos colocou no “centro do mundo de alguém”, todavia, com experiência, resiliência e consciência do nosso valor, conseguimos manter-nos à tona neste oceano tempestuoso de maldade e vazio.

E, assim, vamos com a experiência coleccionando manipuladores e sendo cada vez mais perspicazes na percepção do que nos rodeia, de quem nos rodeia e de quem se aproxima com o “sorriso” nos lábios.

Desde que estejamos atentos, a previsibilidade de comportamentos começa a ser evidente aos nossos olhos, e então surge o momento certo para pôr fim a verdadeiras formas de violência psicológica que, em casos extremos, podem mesmo configurar ilícitos criminais, nomeadamente, em contextos relacionais ou profissionais.

“O Homem é um animal narcísico.”

Coimbra de Matos, Psicanalista

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

LITERATURA | Visionários de João Pedro Pereira | SAIDA DE EMERGÊNCIA


Dos primeiros computadores às redes sociais:  descubra quem sonhou revolucionar a nossa vida.
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Quem foram os homens e as mulheres que nos últimos cem anos revolucionaram as tecnologias de informação?

Visionários  conta a história de  cientistas, inventores e empresários cuja visão única do mundo mudou a nossa forma de comunicar, comprar, trabalhar e até de viver.

Dos computadores da Segunda Guerra Mundial aos smartphones, da Inteligência Artificial ao turbilhão de likes das redes sociais, o mundo nunca mudou tão depressa e em tão pouco tempo. Por detrás desse turbilhão de imprevisibilidade e crescimento exponencial estão eles, os Visionários.

Uns verdadeiramente visionários e geniais, outros mais oportunistas e astutos, todos nos sentimos fascinados por estas personagens, esquecendo, por vezes, o lado mais negro do mundo que ajudaram a criar


Joao_Pedro_Pereira_@João Cortesão.jpgJoão Pedro Pereira  nasceu no Porto em 1983, cresceu em Santa Maria da Feira e tirou o curso de Jornalismo na Universidade de Coimbra. É jornalista do Público, onde acompanha desde 2007 as transformações trazidas pelas tecnologias de informação. Entre 2014 e 2015 escreveu sobre tecnologia e empreendedorismo para a BBC. Este é o seu primeiro livro.