sexta-feira, 21 de julho de 2017

ESCAPADINHAS | Esplendor na Relva - Cinema em Monserrate |

22 de Julho | Sábado | 21h30
A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES (VERTIGO) - 1958
de: Alfred Hitchcock
Para Maiores 12 anos no Relvado de Monserrate

Esplendor na Relva – 12 Obras-primas do Cinema em Monserrate
Um conjunto de obras-primas do cinema, que a tecnologia permite ver agora em larguíssima escala e num cenário único: um anfiteatro natural e ao ar livre, bordejado por uma moldura arquitetónica operática, que acrescentará dimensões próprias a uma esplendorosa experiência do cinema.
Locais de venda: Bilheteiras da Parques de Sintra, www.parquesdesintra.pt, , www.blueticket.pt, FNAC, Worten, El Corte Inglés, MEO Arena, Media Markt, lojas ACP, rede PAGAQUI e Turismo de Lisboa.

AgendaVertigo

O detetive aposentado John Scottie sofre de um terrível medo de alturas. Certo dia, um amigo pede a John que siga sua esposa. Ele aceita a tarefa e começa a segui-la por toda parte. Ela demonstra uma estranha atração por lugares altos, levando o detetive a enfrentar seus piores medos. John começa a acreditar que a mulher é louca, com possíveis tendências suicidas, quando algo estranho acontece nesta missão.

Informação Útil
Preço de bilhete:
– Sessões noturnas (ar livre) – 5€ adulto e 3,5€ jovens (dos 6 aos 18 anos) – Palácio estará aberto para visita;
– Sessões diurnas (auditório do Palácio) – Incluídas no bilhete da visita ao Palácio, sendo a entrada condicionada à capacidade da sala. A compra de bilhetes durante o dia para visita ao Palácio de Monserrate não dá direito a entrada gratuita nas sessões de cinema noturnas;
– A Scotturb assegura gratuitamente o transporte entre a Estação Ferroviária de Sintra (a partir das 19h15) e o Parque de Monserrate (até às 00h40) aos portadores de bilhete para o ciclo de cinema.
Capacidade dos espaços:
– Ar livre (sessões noturnas) – 500 lugares (relvado);
– Auditório do Palácio (sessões diurnas) – 60 lugares.
Notas para as sessões noturnas:
– Abertura de portas: 20h
– Serviço de cafetaria: 20h – 22h
– Aconselha-se a utilização de agasalho quente e calçado confortável;
– Aconselha-se a utilização de transportes públicos.

OPINIÃO | Bem-haja! | MARGARIDA VERÍSSIMO

Não vou fazer um relato do que é combater um incêndio, porque é disso que se trata, um combate, um combate desigual, cruel, entre homem e natureza. Não sou bombeira, ninguém da minha família o é.

Já estive próxima de fogo, mas nunca de um incêndio, nunca estive cara a cara com as labaredas que devoram tudo por onde passam, nunca olhei nos olhos a chama que engole florestas, casas e vidas. Não posso fazer um relato do sentimento que move tantos heróis anónimos deste país, e é incontestável que são heróis, como não posso descrever o que sentem nas horas infindáveis de sacrifício. Não consigo imaginar o esforço, físico e psicológico, o cansaço, o calor infernal, o ar irrespirável, o fumo, o cheiro, o que é não conseguir ver, o sentirem-se encurralados, a frustração de não conseguir fazer mais, dar mais…e eles já dão tanto, já se dão tanto!

Há situações que não são imagináveis, só estando lá, só quem as vive as conhece realmente. Acredito até que talvez nem haja vocabulário que o consiga descrever.

Eu não sei, não sei o que é, nem o consigo imaginar. O que vejo nas imagens arrepiantes que nos chegam através da comunicação social não passa disso, de imagens, distantes.

Ouvimos e lemos relatos perturbadores de quem viveu o inferno na primeira pessoa.

Impressionamo-nos, comovemo-nos, solidarizamo-nos, fazemos-lhes honras de heróis, não há dúvida que o são. Somos tocados pela sua bravura, abnegação, pela sua exaustão. 
Agradecemos.

Mas eu não sei o que é, não sou bombeira…mas tenho amigos que o são, tenho amigas que são mulheres de bombeiros, os meus filhos têm amigos que são filhos de bombeiros e o que eu sei, aquilo que, longe dos cenários dantescos, a comunicação social não mostra, é que são pessoas, com as suas vidas, a sua família, os seus empregos, os seus passatempos, mas que se necessário, se necessárias, deixam a sua família, os seus empregos e a sua vida para irem em socorro de quem necessita… e muitas vezes deixam mesmo a sua vida por lá.

Mais forte que qualquer outro sentimento, quando necessário, quando necessários, sentem o desejo de ir, é imprescindível irem, dê por onde der. Sabem que todos os braços são necessários, que um par de braços mais pode fazer a diferença e que nunca são demais.

E deixam tudo, sem olhar para trás, deixam as suas famílias, os seus maridos e mulheres, filhos e pais, esperando que regressem. Famílias que orgulhosamente sabem e carinhosamente aceitam que eles têm de ir, não que sejam obrigados, são voluntários, mas porque não conseguem deixar de ir, de ajudar, de se dar! Também estas famílias nos dão tanto. Cada partida vivida, cada ausência sofrida do seu ente querido bombeiro, na incerteza do regresso, são dádivas que nos fazem.

“Como consegues?” pergunto a uma amiga mulher de um bombeiro. Como resposta obtenho um sorriso, um sorriso sereno de quem já viveu certamente tantas horas de angústia, de incerteza, mas que sabe e aceita que o lema “vida por vida” é algo maior que a nossa dimensão humana. É o que os torna únicos, especiais…heróis! Um dia também o seu filho será bombeiro.

Também sei o que é o olhar exausto de uma colega, comandante de uma corporação, que gozou os dias de férias em cursos, ações de formação e outros afazeres específicos e necessárias para melhor desempenhar a sua função…nos bombeiros, porque a sua profissão é outra. O olhar atento e ansioso de quem passa a curta hora de almoço ao telefone a tratar de assuntos relacionados com a corporação e com ocorrências. Sentei-me ao seu lado e afinal nem conseguimos conversar, engoliu o almoço entre palavras ao telemóvel que não pode deixar de atender.

Sei o que é o olhar de raiva, desilusão, de sentido de injustiça, de inconformismo, por terem sido acusados de não terem prestado o auxílio que, compreensivelmente, era o desejado pela população em horas de aflição. Eles que estiveram lá, lá ou noutro local, onde também eram necessários. Eles que vão, que combatem, que dão tudo o que têm…que se dão. Sei ainda o que é o olhar esgotado de quem esteve horas ou dias a combater um incêndio e teve de ir diretamente para o emprego, só são justificadas as ausências ao serviço durante o tempo efetivo de combate ao incêndio.

Mas sei também como brilha uma chama única de amor imenso no olhar de quem tanto se dá aos outros! Bem-haja!


Nota: Optei pela expressão bem-haja, que raramente uso, porque é aqui que a oiço, nesta terra onde tenho o privilégio de conviver com bombeiros.

Nota 2: Neste texto refiro-me à minha família direta, sei que tenho primos mais afastados que são ou foram bombeiros. Bem-haja também para eles.















Margarida Veríssimo

quinta-feira, 20 de julho de 2017

ESCAPADINHAS | Esplendor na Relva - Cinema em Monserrate | JOHNNY GUITAR

21 de Julho | Sexta-Feira | 21h30
JOHNNY GUITAR - 1954
de: Nicholas Ray
Para Maiores 12 anos no Relvado de Monserrate

Esplendor na Relva – 12 Obras-primas do Cinema em Monserrate
Um conjunto de obras-primas do cinema, que a tecnologia permite ver agora em larguíssima escala e num cenário único: um anfiteatro natural e ao ar livre, bordejado por uma moldura arquitetónica operática, que acrescentará dimensões próprias a uma esplendorosa experiência do cinema.
Locais de venda: Bilheteiras da Parques de Sintra, www.parquesdesintra.pt, , www.blueticket.pt, FNAC, Worten, El Corte Inglés, MEO Arena, Media Markt, lojas ACP, rede PAGAQUI e Turismo de Lisboa.

AgendaJonhyG

Vienna, a dona de um bar no Arizona, conta com a ajuda de um velho amor, o violeiro Johnny Guitar, para enfrentar o xerife local e os capangas de sua inimiga mortal: Emma, uma fazendeira que a quer fora da cidade.


Informação Útil
Preço de bilhete:
– Sessões noturnas (ar livre) – 5€ adulto e 3,5€ jovens (dos 6 aos 18 anos) – Palácio estará aberto para visita;
– Sessões diurnas (auditório do Palácio) – Incluídas no bilhete da visita ao Palácio, sendo a entrada condicionada à capacidade da sala. A compra de bilhetes durante o dia para visita ao Palácio de Monserrate não dá direito a entrada gratuita nas sessões de cinema noturnas;
– A Scotturb assegura gratuitamente o transporte entre a Estação Ferroviária de Sintra (a partir das 19h15) e o Parque de Monserrate (até às 00h40) aos portadores de bilhete para o ciclo de cinema.
Capacidade dos espaços:
– Ar livre (sessões noturnas) – 500 lugares (relvado);
– Auditório do Palácio (sessões diurnas) – 60 lugares.

Notas para as sessões noturnas:
– Abertura de portas: 20h
– Serviço de cafetaria: 20h – 22h
– Aconselha-se a utilização de agasalho quente e calçado confortável;
– Aconselha-se a utilização de transportes públicos.

OPINIÃO | Energias Alternativas | MAFALDA PASCOAL

Fontes de energia como o vento e a água distinguem-se, fundamentalmente em dois pontos, das actualmente utilizadas e que estarão esgotadas a médio prazo; são de certo modo inesgotáveis, pois renovam-se permanentemente sem a intervenção do homem, a sua utilização não acarreta riscos de maior para todos nós nem para o meio ambiente.

A energia hidráulica, que muitas vezes é considerada como modelo de fonte de energia inofensiva, não é das que poupam mais o ambiente. Se bem que a produção de electricidade a partir da energia hidráulica não dê origem a substâncias nocivas nem haja libertação de calor, a construção de grandes centrais hidroeléctricas está frequentemente associada a importantes prejuízos causados na paisagem. Os efeitos sobre o meio ambiente vão desde o abaixamento do nível freático a jusante das barragens (devido à acentuada erosão dos rios em profundidade), até aos tremores de Terra desencadeados artificialmente (provocados pelo acumular das massas de água). Desde que estas consequências sejam minoradas, as reservas de energia hidráulica do nosso planeta continuam a proporcionar amplo espaço de manobra para futuras utilizações. Com a construção de novas centrais hidroeléctricas, pode duplicar-se facilmente a produção total de energia na Terra.

As vastas perspectivas que se abrem com a utilização da energia eólica, pelo contrário, continuam praticamente por explorar em quase todos os países do mundo. No entanto, a reserva tecnicamente útil de energia eólica é muito superior à da energia hidráulica. Como diz no livro “Esta Terra Magnifica” (Selecções do Reader’s Digest), “As ilhas e as faixas costeiras são claramente favorecidas pela Natureza no que respeita a este tipo de energia."

Ao fim e ao cabo, as energias, hidráulica e eólica não são mais do que formas especiais de energia solar, pois os grandes ciclos de água e do ar são accionados por esta. No entanto, geralmente, quando se procede a cálculos, a produção de energia pelos raios solares é considerada separadamente. A energia solar é, de longe, a mais produtiva fonte de energia da Terra e todas as outras juntas, inclusive a geométrica e a das marés, apenas perfazem uma pequena fracção daquela.

Quando se fala da utilização de energia solar como fonte de energia não poluente, pensa-se geralmente na transformação dos raios solares em calor ou electricidade graças a uma técnica que, em parte, é bastante complicada. No entanto, a energia solar também é aproveitada por via biológica para formação de biomassa, facto que as plantas verdes demonstram há milhões de anos.

A biomassa vegetal contém, uma fracção de energia solar armazenada, constituindo por isso também uma fonte de energia. Para a produção da chamada bioenergia podem ser aproveitados os resíduos agrícolas e silvícolas. Esta fonte de energia é usada na China há muitos anos, por isso não é excepção, hoje em dia, os camponeses produzirem biogás a partir do estrume.

Em muitos países, os colectores solares simples que aquecem a água para os banhos ou duches são hoje em dia tão vulgares como as calculadoras de bolso alimentadas a células solares.

Já temos no nosso país, em Brinches perto de Serpa no Alentejo, a maior central solar (fotovoltaica) do mundo. Mas para as centrais solares se tornarem rentáveis, é necessário descobrir novos processos de armazenamento e transmissão de energia. O principal problema na utilização de energia solar não reside na quantidade de energia recebida na superfície terrestre ser demasiado pequena, mas antes no facto de o Sol descurar determinadas regiões e certas estações do ano. Uma das maneiras de resolver este problema poderia ser a de colocar em orbita enormes espelhos côncavos que focassem na Terra, em áreas precisas, os raios do Sol.

Outra situação relacionada com energias alternativas, de acordo com um artigo publicado no semanário Focus de 26/11/08 com o título “Gasóleo que cresce nas árvores”, este artigo foi baseado num outro artigo publicado na edição de Novembro na revista Microbiology. É deveras interessante o que o professor de botânica Gary Strobel com 70 anos de idade descobriu, como ele “dedica uma boa parte do seu tempo a percorrer bosques e selvas tropicais do Planeta, procurando plantas e vegetais que possam conter micróbios benéficos para o ser humano.” Este senhor que já tinha descoberto um fungo, em 1993, que produzia de forma natural, taxol, que é um “poderoso fármaco anticancro que se converteu num verdadeiro salva-vidas para muitas mulheres com cancro da mama”, veio agora com a descoberta de outro fungo “que tem a capacidade de produzir uma série de hidrocarbonetos praticamente idênticos aos do gasóleo.”

A ser verdade, o “microdiesel”, assim lhe chama Strobel, “cresce fácil e naturalmente sobre a celulose, produzindo o combustível directamente a partir dela.”

Portanto, neste nosso Planeta ainda existe muita coisa que está por descobrir, talvez porque ainda não chegou o momento para essa descoberta, talvez porque a nossa mentalidade ainda não está preparada para situações tão rebuscadas.


Enfim, como disse o Bocage, quando lhe perguntaram porque trazia um tecido dobrado às costas “estou à espera da última moda!”.












Mafalda Pascoal

sábado, 15 de julho de 2017

OPINIÃO | Duas coisas que ninguém nos obriga a ser: Hipócritas e Bestas | ANA KANDSMAR

Lembro-me de ter visto na televisão um programa em que uma gralha, equilibrada no braço de um semáforo que atravessava a via rápida, num momento calculado, deixa cair no asfalto uma noz que tem no bico e vê-a ser esmagada pelo pneu de um carro que passa. Depois, num ruminar estratégico digno de um Júlio César às portas da Gália, a gralha espera que o sinal fique vermelho e mergulha em voo picado para o chão, recolhendo apressadamente os bocados esmagados da noz.

Recordo-me de uma outra que, em cativeiro olha com olhos de ver um tubo de vidro estreito em cujo interior é colocado um cesto pequenino com comida. O cesto tem asa e tudo. Em cima do tubo, na horizontal, está um arame fino e direito com cerca de vinte centímetros.

A gralha olha para aquilo e pensa, imagina, coloca hipóteses… Primeiro, pega no arame com o bico e introdu-lo certeiro no tubo, mas não consegue sacar o cesto. Tira o arame, pensa mais um bocadinho, voa com ele no bico até ao poleiro, preso a uma parede com fissuras, e enfia-o num pequeno orifício. Empurra-o com o bico até lhe curvar a ponta em forma de anzol, retira-o, voa de novo até ao tubo, espeta com o arame por ali adentro e engancha a parte retorcida na pega do cesto, puxando-o para cima. Come o que estava lá dentro, regala-se de se ver tão esperta.

Enquanto engulo mais uma garfada de bife do lombo, recordo os chimpanzés, capazes de interiorizar um léxico superior a sete mil palavras e que, carregando nas letras de uma máquina, compõem frases como: eu quero água (assim mesmo, com sujeito, predicado e complemento directo), gosto de ti ou estou triste.

Sim, esses mesmos chimpanzés, que encarceramos nos zoos para gáudio das nossas criancinhas, e que embalam os seus bebés, atrás das grades, como nós as embalamos a elas (parecendo, até, que também lhes cantam ao ouvido). E as formigas? Que, em África, constroem formigueiros gigantes dotados de sistemas de ar condicionado, cuja sofisticação é digna de um open space no centro de Manhattan? E a cadela da minha amiga Vera? Uma pequinois gentil que um dia se travou de amores por uma ninhada de gatinhos órfãos com empenho tal que ela, que nunca havia sido mãe, encheu as maminhas de leite e alimentou-os a todos até lhe terem o dobro do tamanho.

Ainda hoje, quando brigam com o outro cão lá da casa, preto e grande, ela atira-se-lhe ao focinho até que ele, esparvoado com tamanho arrojo, desiste dos seus intuitos trucidantes e mastigadores. E lá acaba a lamber os gatos, como uma mãe que seca as lágrimas do filho com as costas da mão e lhe sussurra "pronto, pronto, já passou". Ok, ok, nunca vi um porco a andar de bicicleta, mas já vi um polvo a desatarrachar um frasco com os tentáculos e a abrir a fechadura de uma porta de entre várias, aprendendo que era aquela que lhe permitiria sair (ou entrar). E bastou-lhe uma única vez, sem estímulos repetidos ou qualquer outro engodo pavloviano, uma única vez, caraças! E o bicho ficou a saber para sempre qual era o caminho da liberdade.

E aquele mistério dos elefantes, que vão todos morrer ao mesmo sítio, e o das baleias, que se suicidam aos molhos de encontro à praia, e o dos golfinhos, que derramam ternura sobre crianças doentes e as ajudam à cura, sem nada pedirem em troca?

Por tudo isto, lamento não me conseguir livrar do pé para a mão de tantos milénios de escravidão à voragem carnívora que os antepassados me inscreveram no ADN, e de me vergar amiúde, ao peso de uma gula que me deixa à mercê de um bom bife do lombo com molho à café.

Às vezes, no entanto, sou atacada pela calada da noite por estertores franciscanos e dou por mim a pensar que isto de comer animais mortos que são quase meus irmãos e que de mim diferem, apenas, por milionésimos de ADN, é assim como que uma espécie de canibalismo e que, para além de os comer, ainda os destrato com aquela sobranceria própria dos humanos, o que não está nada bem.

O prólogo é sempre o mesmo: determinada, a cada ataque sorrateiro de culpa, acabo na fila de um qualquer restaurante vegetariano e finjo proveito, embora quase vomite com a consistência espumosa do tofu e do seitan. Ao fim de uma semana de jejum vegetariano a experimentar todas as receitas de massa e batata com courgettes que me aparecem nas revistas femininas, começo a ter sonhos eróticos com bifinhos de perú e bitoques, de preferência com ovo a cavalo. Não sem deixar de admirar profundamente quem o consegue, diga-se. Acho, aliás, que um vegan convicto se encontra num estádio superior da existência: mais perto da perfeição, de Deus ou seja lá do que for que represente aquele todo místico em que eu própria acredito. Mas eu por aqui continuo, no meu limbo moral privado, resignando-me à ideia de, na reencarnação seguinte, vir a este mundo sob a forma de uma aranha peluda, nojenta e potencialmente espezinhável logo na primeira semana de vida.

Não obstante esta fraqueza assumida, intuo facilmente que somos todos muito estúpidos e que, se não conseguimos deixar de os fazer sofrer para nosso prazer (nos matadouros, nas touradas, na caça, no circo), ao menos que não estejamos tão contentes com a nossa presunçosa superioridade no pódium da cadeia alimentar e tão convencidos de que somos muito mais espertinhos do que eles, os animais, essas bestas irracionais que sobreviveram ao dilúvio na arca flutuante de um velho lunático, apenas para se reproduzirem e nos servirem.

Quando se fala de defender animais, defender os seus direitos, não significa que estamos a tentar dar-lhes direitos de cidadania. Apenas e só, quem defende o seu direito à vida, defende apenas isso: O seu direito à vida. Não se entende por isso, que todos passemos a ser vegetarianos e que não os possamos matar para consumo. Apenas que, aos animais criados para consumo seja dada a dignidade de uma existência pacífica e digna e na morte lhes seja dado um fim, o mais indolor possível. A isto chama-se respeito por seres que, não sendo iguais a nós, não são também inferiores. São apenas diferentes. A nossa pretensa “superioridade” devia permitir-nos perceber isso.

Um porco consegue memorizar entre 500 a 600 palavras e entender os seus significados. Tem um ADN muito idêntico ao dos humanos e imaginem, se o porco aprendesse a verbalizar como nós, poderíamos com as suas 500 palavras, conversar com ele. Claro que todas as limitações do porco o impedem de dialogar com os humanos. Mas nós também nada sabemos dos seus roncos, ou o que significam, nem tão pouco aprendemos a sua forma de comunicar. E somos “superiores”. Outra coisa que sabemos: Somos 7 mil milhões de humanos no planeta. Conseguiríamos alimentos se abdicássemos todos de consumir carne? Não creio. Com tantas bocas para alimentar será viável, desistir da criação de animais em bloco, compactada em espaços infernalmente exíguos? Talvez isso não seja possível. Pelo menos para já.

Se eu pensar que nos aviários os frangos nascem e morrem sempre na mesma posição, sem qualquer hipótese de se movimentarem 1metro que seja, durante toda a sua vida, e que, para que eles se mantenham imóveis e não constituam ameaça para os seus pares, lhes são cortados os bicos e as patas (em vida) … Que aos patos lhes são enfiados tubos pelas goelas abaixo, e que assim passam toda a sua existência sobre este planeta, sendo incessantemente alimentados, para depois da morte, se transformarem em foie gras, que as vaquinhas que nos dão a carne e o leite vivem da mesma forma, toda a sua vida em espaços exíguos, sem o vislumbre de um raio de sol, ou relva fresca…bem… nós somos umas bestas. Mas esta bestialidade justifica-se infelizmente pela necessidade de alimentar 7 mil milhões de bocas.

.Mas não justifica a crueldade com que tratamos os animais noutras circunstâncias. Arrepia-me a festa em que se celebra a perícia de um cavaleiro, espetando farpas no lombo de um animal, que antes disso já foi electrocutado nos testículos, (não importa se o animal é um bovino preto, um touro bravo, um crocodilo ou uma toupeira), é estúpido! Se o objectivo maior do sofrimento que infligimos seja a quem for, é o nosso prazer imediato e não uma necessidade, é estúpido! Ontem mesmo recebi uma mensagem de alguém que dizia: “ Você nem sequer sabe o que é um touro bravo!” Apeteceu-me mandá-lo catar-se! Defendam os senhores da tauromaquia, a sua arte, da forma que entenderem. Mas não digam que um touro bravo é uma raça distinta optimizada para sofrer na arena, geneticamente modificada para não sentir dor! Nem tão pouco digam que hoje ainda é aceitável que se torturem animais gratuitamente, porque a actividade faz parte das tradições ou da cultura de um povo. Ao longo da nossa história, o homem bem ou mal, tem evoluído no sentido de perceber que o que já não nos serve deve ser mandado fora. É esta a luta dos que condenam as touradas. Queremos apenas que se comece finalmente a perceber que há que separar o trigo do joio. Sermos bestas por necessidade, é um mal, mas é um mal menor. O mal maior é sem dúvida, sermos bestas por hedonismo.


Porque (quem sabe?) talvez os touros, sejam eles quais forem, temam as multidões e aterrorizados tentem defender-se como podem da perseguição do cavalo, das farpas e do barulho ensurdecedor à sua volta, (levando por vezes à morte, cavaleiros e forcados). Talvez as preguiças gostem de sexo tântrico e por isso demorem horas a assegurar a sua descendência; e talvez os leões, bichos gregários por natureza, tenham problemas com a sogra e já não a possam ver à frente; e os ursos, quando hibernam, sofram de claustrofobia e depois tenham pesadelos; e os pinguins, todos iguais e aos milhões, tenham crises de identidade; e os salmões, tenham tendências depressivo-suicidas e por isso venham morrer rio acima; e as baleias, saibam de facto cantar, e algumas de entre elas sejam prima donnas com direito a privilégios especiais de diva e a camarote individual; e as coelhas só tenham orgasmos múltiplos e por isso fodam tanto; e os gatos sintam um profundo desprezo pelos humanos e por isso não os olhem quando eles os chamam; e as formigas não gostem de estar sozinhas; e as toupeiras sofram de agorafobia; e os cães se comportem como groupies à beira da histeria porque nos adoram, e quando crescerem querem ser como nós, as pessoas, os seus maravilhosos donos. Quem pode garantir que não seja assim? Quem? Talvez que o universo em que se move esta Terra onde nos encontramos mais não seja do que um grão de poeira reflectido na retina de um grilo e, este, um habitante microscópico de um outro planeta, em órbita numa galáxia diferente e encaixada num universo muito maior. Portanto, "bora" aí apanhar do chão um bocadinho de humildade, dessa que anda por aí espalhada, que todos espezinham e ninguém quer, assumir a nossa ignorância no que respeita a esta merda toda e ter algum respeitinho, designadamente, pelo grilo.

   Ana Kandsmar