terça-feira, 10 de dezembro de 2019

RÉDEA CURTA, de Maria Cecília Garcia
















Os Ventos de Abril não trouxeram apenas a liberdade para o país, acompanhando essas mudanças, eu própria mudava também.

“Ainda escutava a voz da minha mãe na minha cabeça, mas era uma voz cada vez mais longínqua. Quanto mais perto de mim ela estava, mais remota era a sua voz.

Sentia a rédea curta do cordão umbilical, mas era cada dia mais tenso, esticado, tinha medo de puxar com força com receio de provocar um sangramento doloroso. Esticava-o devagarinho, agitava o corpo na esperança de que ele se soltasse. Mas nada pode mudar sem provocar alguma dor e sentimentos de dúvida e desamparo. Porém, se não forem amputados, esses laços apodrecem e gangrenam. Separados cada alma cresce livre e procura o seu caminho. É assim que a natureza determina e o espírito precisa.

Por vezes apetecia-me correr sem pensar nesse fio castrador e provocar uma hemorragia mortal. Outras vezes sentia-me pequenina e só queria voltar ao ventre protector, onde não tinha que pensar ou fazer escolhas.

Incoerências de uma alma à procura de si própria.

Para ela também devia ser doloroso abrir as mãos e aceitar o descerrar das asas dos filhotes. E por vezes essa dor se manifesta dando mostras de decepção causando sentimentos de culpa nos filhos por pretenderem sair à procura da sua liberdade. Não é falta de amor o que os leva, é amor pela vida. Ninguém pode viver a vida dos outros.

Ela era o ser que eu mais amava, mas era a pessoa mais difícil de agradar. Estava decidida a levar-nos a todos para o Céu, e para isso, tentava apoderar-se do nosso espírito e negava-nos o livre arbítrio.
Para ela só havia um caminho, uma linha recta, uma estrada segura sem paisagens nem desvios. Eu escolhi uma estrada de altos e baixos, com paisagens e precipícios onde pudesse apreciar o desconhecido. Como um peregrino, dei os primeiros passos, insegura, o medo fez-me deixar marcas com reticências, caso quisesse voltar. E voltei, algumas vezes retrocedi, mas as marcas tinham perdido as reticências, tinham sido arrancadas pelo vento, ou levadas pelos pássaros, e eu já não era a mesma pessoa.

Ao longo da minha jornada algumas vezes quis voltar, mas não quis. Ao longo da marcha fortaleciam-se os músculos e o espírito. Cresciam sonhos como asas.

O que importava não era chegar, mas aprender na caminhada, olhar para trás e admirar as montanhas, vales e precipícios ultrapassados. Sorrir, e continuar a andar.”

In: A Filha da Mãe- Os pedacinhos que faltavam
Chiado Books-2018

domingo, 8 de dezembro de 2019

A FONTE DOS LIVROS, de Vanessa Lourenço















Deixou-se cair na cadeira com o entusiasmo de quem ouve o tiro de partida e arranca, munido do desejo de deixar cair limites e rótulos alheios. Respirou fundo, fitou o monitor com os olhos brilhantes e acariciou com ternura o teclado com as pontas dos dedos. No silêncio, demorou-se ainda a vaguear pelo potencial infinito do mundo que estava prestes a criar, o que sentiria quando tivesse nas mãos a obra nascida do seu trabalho? O que sentiria quando a visse finalmente nascer? Estaria o mundo lá fora, disposto a aceitá-la?

Sorriu, talvez sem sequer se aperceber. Franziu as sobrancelhas, respirou fundo e acendeu um cigarro. Fechou os olhos e disse, de si para si mesmo:

- Mostra-me.

Durante um bom par de minutos, nada aconteceu. O cigarro apagou, a folha de word em branco teimava em fitá-lo com desdém, e começou a sentir-se frustrado. Levantou-se da cadeira, esticou pernas e costas e foi beber um copo de água. Voltou. Sentou-se. Acariciou de novo o monitor com as pontas dos dedos:

- Mostra-me.

Silêncio.

Mexeu-se desconfortavelmente na cadeira, fitou as mãos sem realmente as ver e pousou-as de novo no teclado. Quando se preparava para se levantar de novo em busca de coisa nenhuma, ouviu a Fonte dizer:

- O que queres de mim? Porque me chamaste?

Não ficou surpreendido, nem sequer estremeceu. Conhecia bem a Fonte de outras aventuras, e sabia como podia ser caprichosa:

- Tu sabes o que eu quero. Tão bem como sabes, que não vou suplicar.

A Fonte vangloriou-se:

- Foste um bom aluno.

Esfregou demoradamente a cara com as mãos, fazendo os óculos saltar. Suspirou:

- Ajuda-me a deixá-los entrar. Posso mostrar-lhes o caminho, mas precisam da tua luz. Não te estou a dar novidade nenhuma.

A Fonte riu com prazer, e as suas gargalhadas ecoaram pela divisão fechada. Ele encolheu os ombros e suspirou, impotente. Porque tinha ela que ser sempre assim, arrogante? Finalmente, ela parou de rir:

- Onde está o teu sentido de humor? Sempre tão cheio de recursos, porque não usas uma vela? O que tem a minha luz de especial?

Semicerrou os olhos e murmurou, entredentes:

- Tu sabes perfeitamente porquê, foste tu que me desvendaste esse segredo. As velas podem iluminar o caminho neste mundo, mas só a tua luz ilumina aqueles que, de outros mundos, precisam de luz para cá chegar.

A Fonte ficou em silêncio durante alguns instantes. Tê-la-ia convencido?

Não tardou a descobrir. Uns momentos mais tarde, a Fonte replicou:

- Tu sabes como funciona: uma vez iluminado o caminho, eles vão chegar. E não poderás voltar atrás.

Ele sorriu melancolicamente:

- Sabes tão bem como eu, que a missão deles é inspirar o mundo. E só podem fazê-lo através de nós.

A Fonte suspirou longamente. Finalmente, disse:

- Nem todos estão preparados para os compreender.

Ele respondeu:

- Mas aqueles que estiverem, verão as suas vidas mudadas para sempre. Não foste tu que me ensinaste que eles não querem mudar o mundo, mas apenas abrir a porta a quem quiser entrar?

A Fonte assentiu, ele era sem dúvida um dos seus melhores alunos.

No momento seguinte, ele pousou de novo os dedos no teclado. Respirou fundo, e esperou pacientemente. Ao mesmo tempo, numa dimensão situada algures entre a nossa realidade e o nosso maior potencial, a Fonte Criativa tornou-se luz. E através dela caminharam heróis e vilões, anjos e mestres, obstáculos e verdades capazes de mudar o mundo. Misturadas com dragões e cavalos brancos, castelos distantes e grutas escuras e misteriosas. Um por um, rodearam o escritor. Alguns sentaram-se em redor da secretária, outros pousaram gentilmente as mãos etéreas nos seus ombros. E ele sorriu. Pousou os dedos no teclado, e começou a escrever.




sábado, 7 de dezembro de 2019

SOCIEDADE, de Mafalda Pascoal















“Não podemos”
“Não devemos”
Frases soltas que ao descodifica-las
Nada são
Perante tudo o que nos rodeia
A imensidão do céu
O infinito do Cosmo
Não podemos o quê?...
Não devemos porquê?...
Porque nos educam dessa forma?...
Quem foi o primeiro a limitar-nos a Liberdade?...
Quem foi o primeiro que não errou?...
Quem será o primeiro que não vai errar?...
Não nos sirvam de desculpa estas interrogativas
Simplesmente sejamos transparentes
Antes de acusar
Tentemos pormo-nos no lugar do outro
O tecto que se chama céu
É igual para todos
O planeta que se chama Terra
É de todos os humanos
Porquê tanto racismo entre as pessoas?
Sejamos complacentes, ninguém detém a verdade
Ou a perfeição
Cada ser humano pulsa de forma diferente
Cada ser humano sente diferente em cada momento da sua vida
Porquê tanta recriminação?
Porquê tanta perseguição?
Libertem-se
Só dessa forma, tudo flui, tudo é leve
Plantemos por todo o lado
O Amor, o Carinho, a Alegria
Cada ser humano é especial, é único
Dentro de cada um de nós
Há uma irradiação esplêndida
E cada um de nós deve deixar essa luz
Contagiar tudo o que nos rodeia
Saltemos, cantemos, brinquemos
Sejamos crianças eternamente.


sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

ÁREA 51, de MBarreto Condado















Foi com surpresa que esta madrugada vi chegar ao Terreiro do Paço “A Liberdade”, mais conhecida internacionalmente por Estátua da Liberdade, trazia como bagagem somente a sua tocha e coroa que me garantiu nunca ter sido recebida num concurso de miss universo. Sendo ela filha de pai francês, amiga de um número incontável de imigrantes e nunca tendo requerido cidadania americana resolveu partir para o velho continente que a viu nascer com receio de represálias devido ao facto de ser imigrante, mulher, gorda e vestir-se de forma esquisita.

Contou-me como numa noite toda a sua existência bem como a de tantos tinha sido colocada em causa. Temia pela construção do prometido muro que seria pago por terceiros, pelo “drenar do pântano” podia dar-se o caso de ser construído um casino no seu lugar, a mudança de Obamacare para Trumpcare, o ensino nas universidades da cadeira de fuga aos impostos, a retirada das tropas americanas de locais de guerra para a possível colocação de mão de obra treinada na extração de gás e de xisto, a transformação da Casa Branca na casa da Barbie e do Ken, o ensinar o filho Barron a carregar no botão vermelho para iniciar os “jogos de guerra” mas principalmente temia pela desagregação dos Estados Unidos para Estados Desunidos.

E antes de se despedir e continuar a sua viagem ainda deixou no ar a confirmação à dúvida que nos persegue a todos desde 2016, o significado da fantástica cor laranja da pele.

É verdade que eles estão entre nós e agora até nos governam.

“Beam me up Scotty”



quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

UM DIA SENTEI-ME COM ELE, COM A CRIA NEGRA DOS MEUS LIVROS, de Vanessa Lourenço















Um dia sentei-me com ele, com a cria negra dos meus livros. Agora que já não possui um corpo neste mundo, tornou-se mais simples para mim ultrapassar o facto de pertencermos a espécies diferentes, tornou-se mais simples olhá-lo como igual e aceitá-lo como guia. Claro que ele sempre o foi, mas agora os laços entre nós já não se sujeitam às leis da matéria e aos 5 sentidos que nos animam enquanto seres vivos. Mas esse não foi o tema da nossa conversa. Eu precisava de ajuda para lidar com o medo.

Ele sentou-se ao meu lado, na periferia dos meus olhos ansiosos, e semicerrou os dele (chega a ser engraçado como os olhos bem abertos nos ajudam a ver melhor o mundo lá fora, e como os olhos semicerrados nos ajudam a ver melhor o mundo cá dentro). Por fim, disse:

- Sabes porque gostam os gatos tanto de saltar? E porque gostam tanto de estar em lugares elevados?

Eu tinha meia dúzia de respostas na ponta da língua, começando pela vontade de explorar e passando por aquela irritante mania de nos fazerem procurá-los durante horas. Mas sabia que não era essa a resposta que ele buscava. A resposta dele iria abrir-me o caminho para lidar com o medo. Por isso esperei, até que continuou:

- Quando caminhamos na Terra, a nossa perspectiva altera-se. E enquanto caminhamos nela, tudo o que tocamos com os 5 sentidos é filtrado pelo que nos rodeia. Só existe o que conseguimos ver, o que conseguimos cheirar, o que conseguimos ouvir, o que conseguimos tocar.

Interrompeu-se e abanou a cabeça ao de leve, sorrindo como se soubesse um segredo que tornaria todas as minhas preocupações obsoletas. De seguida encolheu os ombros, como se dissesse "mas é assim que deve ser", e continuou:

- Vou simplificar a metáfora para que não te canses de me ouvir: nós saltamos para sacudir o que nos limita, para agitar o pó que se cola ao nosso espírito enquanto caminhamos na Terra e o deixa baço e sem brilho. Esse pó ofusca o nosso potencial e se ficar colado a nós muito tempo, deixamos de acreditar que conseguimos brilhar. Por isso temos que saltar.

Ao ouvir as palavras dele, uma dose considerável de reconhecimento atingiu-me em cheio no peito. Mas não tive tempo de pensar no assunto, porque ele ainda não tinha terminado:

- E é aí que nasce o medo: "e se não existir nada para além do que posso ver?", "e se eu não conseguir brilhar?", "e se eu perder tudo aquilo aquilo que tenho, e nunca o puder recuperar?"... "E se eu não for bom o suficiente para ser feliz neste mundo?"

Esbugalhei os olhos ao ouvi-lo, e durante uns segundos perdi-o de vista. Mas apesar da angústia que me assaltou o peito, depressa me recompus e voltei a semicerrar os olhos, e lá estava ele de volta. Continuou:

-... E é por isso que gostamos de lugares altos. Quando o medo se instala, já não chega sacudir o pó do mundo do nosso corpo. Porque agora o pó apanhou o nosso ponto fraco, e vai agarrar-se com força.

Engoli em seco, e ele sorriu antes de continuar:

- Porque caminhas na Terra e porque o medo se alimenta dos teus 5 sentidos, é com os 5 sentidos que tens que trabalhar: lembras-te da perspectiva que mencionei há pouco? Para devolver o medo ao lugar que lhe pertence, ela tem que mudar.

Franzi o sobrolho, adivinhando que vinha pela frente o conselho que eu procurava. Ouvi-o dizer:

- E é por isso que procuramos lugares altos: porque aqui em baixo, qualquer degrau se pode transformar numa montanha. Mas lá de cima, qualquer montanha se pode transformar num degrau. E quando olhares a tua montanha de cima, tu vais recordar que os degraus existem para nos elevar acima do ruído do mundo. E acima do ruído do mundo, o teu medo perde o poder que tem sobre ti.

Dei por mim a respirar fundo instintivamente, o que o fez aproximar e esfregar a cabeça no meu braço. Acrescentou, piscando o olho em jeito de despedida:

- Claro que por muito que as minhas palavras façam sentido para ti, és tu que tens que decidir saltar. E é claro que por muito que o medo te limite, tu é que tens que decidir ir ver a vista lá de cima. Não basta conhecer o caminho que nos pode libertar, é preciso percorrê-lo.


Vanessa Lourenço,
*conversas com o Félix

DE ONDE NUNCA SAÍ - LISBOA NA MODERNIDADE, de Helder Menor
















Lisboa fermenta de gente em todas as esquinas. Novos, velhos, ricos e pobres. Muitos pobres.  Muitos estrangeiros e muitos portugueses. Americanos, alemães, gregos, chineses e ingleses a fazer compras e turismo. Outros, portugueses, chineses, indianos, paquistaneses, equatorianos, brasileiros, e cabo-verdianos a trabalhar. A carregar malas, servir a comida, lavar a roupa, passar a ferro, limpar os quartos, conduzir tuque-tuques, carros, autocarros e bicicletas para os turistas passearem. À volta mais portugueses, angolanos, guineenses, ucranianos e romenos a destruir casas e a construir hotéis, hosteis e casas onde se alugam quartos. Portuguesas e brasileiras e meninas de outras e várias nacionalidades a prostituírem-se amando com dinheiro contado em todas as línguas. Outros a fazerem contas e alugarem espaços. A venderem casas e a comprarem armazéns vazios. Organizam-se eventos, monta-se e desmonta-se montras e expositores. Corre-se muito para coisa nenhuma quase sempre para se chegar a horas onde não se faz falta nenhuma.
Muitos tiram fotografias a sorrir, outros permanecem invisíveis deitados nos passeios. Compram a comida feita em esferovite numa máquina, pagam com cartão, e correm para casa onde vão jantar sentados numa sala em silencio respeitoso enquanto na televisão, um chefe conceituado cozinha principescas e requintadas refeições. Com os óculos da tecnologia já tudo sabe ao mesmo, só os preços mudam.
Chamam modernidade à coisa.

Lisboa é uma cidade absolutamente moderna. Dizem.

Aqui há umas duas semanas tive uma reunião de trabalho num daqueles edifícios antigos, cheios de janelas viradas para o rio, com tectos altos que em tempos foi um armazém e que agora é qualquer coisa work.  Por trás e em cima a Graça. Em baixo o que resta dos comboios, um porto com um hotel a flutuar e depois o rio. Fantástica vista sobre a margem sul. Mesmo por cima da estação de Stª. Apolónia.

Porque cada vez é mais difícil andar de carro em Lisboa, atravessei o rio cedinho. Andei até Santa Apolónia, estação de eternos encontros e precisamente onde tinha marcado este. O sol de tímido de um novembro ainda seco, por volta das oito da manhã já não queima nem aquece, mas Lisboa a despertar convida sempre ao passeio.

Saindo do barco, cruzei o Jardim do Campo das cebolas na direcção à casa dos bicos. Entre duas palmeiras crescidas e protegida pelos contentores do lixo a instalação montada. Se não fosse miséria seria– arte pós-moderna: Um carro de supermercado cheio de garrafas vazias. A estrutura que resta do que foi um aparador de sala. Uma mesa de esplanada da em plástico branco com uma perna partida. Caixotes de papelão dobrados a fazer de enxerga e um saco cama sujo por cima a compor. Sentado sobre uma lata de tinta vazia estava um homem eslavo, estrábico, enorme e alcoolizado. Indiferente a quem passava, escrevia em cirílico num caderno nauseabundo o que pareciam ser versos. 

Descontente com a organização do mobiliário urbano, entediava-se um polícia novinho. Sem se preocupar com a duração da espera, uma equipe de limpeza de trabalhadores da câmara de Lisboa. Pressionado pelos taxistas presentes, na insegurança dos seus vinte anos e na estatura média mediterrânea o policia tentava impor autoridade ao gigante russo:

- Já te disse que tens de desocupar a via, que as senhoras querem fazer o trabalho delas e estas coisas têm de sair daqui....

As três trabalhadoras de fardadas amarelas com listas florescentes e escrito CML na costas, duas delas falavam entre si em crioulo, a oura, mais nova, mantinha os fones nos ouvidos. As três juntas assistiam à cena como se fosse uma telenovela.

À volta, alem de mim estavam quatro japoneses com jet-lag e um casal de dois rapazes espanhóis ainda meio ébrios. Estava também um americano gordo com uma namorada asiática de xaile fadista pelo ombro, minissaia e umas pernas absolutamente e completamente perfeitas.

O russo fingia que não ouvia o polícia e ria-se.... Olhava as pernas da namorada do americano sem pudores. A rapariga, alem de bonita era afoita, pôs a mão da anca na boa tradição das varinas e devolveu o olhar ao russo.

Por nós passou uma senhora muito bonita, apressada e risonha na casa dos cinquenta que em português do brasil falou:

– Sascha, você tem de sair daí cara, as moças quer limprar... vá que eu logo, logo trago pão e o que sobrou dos jantares de ontem para você.

Depois sorriu para o polícia, para os taxistas e para mim.

– Ele tadinho não faz mal não... ajuda até a arrumar a esplanada do restaurante e se lhe peço vai pôr o lixo... diz que ficou assim de desgosto de amor...tadinho!

O Sascha abandonou o seu posto permitindo às empregadas da limpeza que armadas de ancinhos se dedicaram a arrancar a merda de pombo à relva do jardim!!!

Calado gigantesco e insolente, o russo foi-se sentar num dos bancos do jardim a despejar um resto de uma garrafa de tinto

O polícia, ficou na conversa com os taxistas. Um dos fogareiros mais velhos, desabituado de ter a autoridade tão próxima sem ser para passar multas, comentava para a assistência que entendia português e que era apenas eu e o polícia.

- Olhem para isto, até tem limpeza ao domicílio de borla!!! Casa com jardim, vista para o Tejo, um polícia a fazer segurança e empregadas para lhe limparem o jardim e uma gaja toda boa que lhe vem trazer a comida! Parece um ministro!!!

Solidário com a gargalhada geral dos taxistas e do polícia, também o russo riu.
- Eta maia datcha bled, eta maia datacha!!!*1

Aqui o rapaz poliglota de doca e balcão de taberna, apanhou o sentido. Em tempos remotos aprendi umas palavritas do chamado russo de praia e por isso saquei o sentido

- “ É a minha casa de campo, pá, é a minha casa de campo!!!!”

Porque também eu estava a ficar acossado pelo bicho voraz da pressa, segui para a minha vida deixando os taxistas, o policia, mais o sem-abrigo e as jardineiras a rirem ao sol...
A minha cidade é assim memo.

A modernidade pode chegar quando quiser. Pode vir a galdéria da modernidade com a bolsa de marca a pingar euros a comprar para depois despejar. Pode vir a modernidade com dedos sabujos pagar aos empreiteiros para mandarem a baixo paredes antigas e construírem condomínios onde os pássaros fazem ninhos. Pode a modernidade construir, mandar pintar e depois vender, ou alugar, ou subalugar ou pôr a render. O que a modernidade quiser é lei porque a modernidade compra a lei.

Que se lixe a modernidade. A modernidade não tem hipóteses em terra de poetas alcoólicos e zarolhos! Enquanto houver quem se recuse a pagar para pisar o chão, se sirva do sol para se aquecer e do Tejo para inspirar versos, a modernidade não encontra cama para se deitar. Enquanto houver quem vá bebendo vinho sem se preocupar com o preço da garrafa porque não a pagou a modernidade não factura. Enquanto houver quem fique a apreciar as pernas das varinas, tenham elas os olhos em bico ou a pele da cor que tiverem, Lisboa continuará a ser Lisboa e a modernidade não aterra na Portela. 





quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

A FEIRA, de Anita Dos Santos















A feira era um animal vivo, pulsante, nas suas cores garridas e odores fortes a fumo, a maçãs doces e a assado, proveniente de uma tenda mais distante e mais rica, cujos ganhos nessa noite iriam ser, seguramente, avultados.

A hora, não era ainda a de maior movimento.

Todos quantos tinham as suas tendas montadas nessa noite esperavam que a população da vila próxima acorresse aos espectáculos e diversões com os cobres e pratas nas suas bolsas de cintura, dispostos a esbanjar no que os havidos olhos pousassem.

As crianças eram as mais fascinadas por tudo o que encontravam pela frente e que raramente tinham oportunidade de ver.

Os mais crescidinhos escapuliram-se por entre as tendas, tentando ver o que se passava lá dentro sem ter que despender os preciosos tostões que possuíam.

Eram um grupinho de sete crianças, que contava com três meninas, tendo todos eles idades aproximadas.

- Ouvi dizer que havia robertos, e teatro, e…

- Já sei de tudo isso. Já repetiste um ror de vezes…

- Pois sim, agora se vamos ou não conseguir ver alguma coisa, isso é outra história!

Mais pragmático, o mais velho seguia em frente implacavelmente.

Por fim, lá deram com o recinto onde estava montada a apresentação dos robertos.

Em frente da barraca dos robertos, estavam armados uns quantos bancos corridos e, por trás daquela, havia um pano escuro que assegurava a privacidade aos artistas.

- Não podemos ir para os bancos. Tínhamos que pagar. Ficamos cá atrás, vemos bem na mesma.

Assim fizeram. O mais velho indicou aos outros um local com boa visibilidade. Ficaram em pé, junto do restante público, que havia muito quem não tivesse dinheiro para gastar.

As vozes finas das marionetas movidas dentro da barraca pelos seus animadores, só por si, faziam o público rir. A história era disparatada e ainda fazia rir mais.

No meio das gargalhadas, o mais novo apercebeu-se de diversos personagens com as caras pintadas, que circulavam por entre as crianças mais novas sem que estas se apercebessem disso. Deu uma cotovelada na amiga que tinha ao lado e apontou-lhe com o queixo o individuo que se tinha acercado de uma menina pequena, acabando por a levar com ele.

A companheira arregalou os olhos e, por sua vez, fez sinal a quem estava mais próximo de si. Num instante, ficaram todos em alerta.

- E agora, fazemos o quê? – Perguntou um, com um sussurro.

- Vamos seguir um deles para ver para onde vão.

Assim fizeram.

A noite tinha caído, entretanto.

Escondendo-se pelos cantos das barracas, aproveitando as sombras mais escuras, conseguiram não perder de vista a personagem de rosto pintado.

Acabaram numa ponta da feira, num local sem feirantes, apenas com uma grande e escura tenda montada.

Fazendo sinais uns aos outros de silêncio, mantiveram-se imóveis durante longo tempo, tentando ouvir o que se passava no interior.

Conseguiam ouvir vozes abafadas e acabaram por se aproximar mais na tentativa de saber o que diziam.

- Por hoje já chegam. Não podemos dar nas vistas.

- Sim, temos de levantar a feira de manhã, e seguir viagem. Vão vir por eles na certa.

- Este lote vai render bom dinheiro no mercado de escravos.

- Sim, querem sempre quem limpe chaminés. São muito morrediços…

Como tendo dito uma piada, soltaram uma gargalhada em simultâneo.

Só tiveram tempo de se esconder melhor, ao vê-los sair.

- Vamos tirá-los dali!

- É para já!

- Estás à espera de convite?

Sempre de corpo dobrado, esgueiraram-se sob a aba da tenda, ficando imóveis por momentos.

Passado um instante, os olhos habituados à pouca luz, já conseguiam distinguir os pequenos vultos, amarrados e amordaçados. Rapidamente trataram de começar a soltá-los, instando-os ao silêncio e a que ajudassem a soltar os restantes.

- Agora temos de voltar…

- Pois, agora temos de ter muito cuidado para não dar de cara com nenhum deles.

- O melhor é separarmo-nos, cada qual fica com um grupo mais pequeno e vai por um lado diferente.

- Encontramo-nos em frente da igreja. É suficientemente distante da feira.

Lá foram saindo, uns quantos de cada vez, os nervos a tomar conta de todos quantos ficavam para trás.

Por fim, o último grupo saiu também, rápidos que nem ratos.

Ofegantes, reunira-se com os amigos.

- O melhor, é irmos de casa em casa e entregarmos as crianças. Os pais têm de saber o que se passou.


O dia não tinha ainda raiado, quando um grupo de homens e mulheres armados de varapaus e forquilhas desmantelaram, à paulada, aquilo que na noite anterior fora a feira que visitou a vila naquele ano.