segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA | "Uma família quase normal", de Mattias Edvardsson | SUMA DE LETRAS


Texto: Isabel de Almeida
Jornalista | Crítica Literária

Foto: Arquivo Nova Gazeta | D.R.


Uma família quase normal, do autor Sueco Mattias Edvardson, publicado em Janeiro deste ano pela Suma de Letras é uma das boas novidades literárias para iniciar 2020.

Estamos perante um Thriller de leitura verdadeiramente compulsiva, que vai manter o leitor agarrado ao livro a devorar página a página para chegar ao aguardado capítulo final.

A premissa inicial é a acusação de homicídio que recai sobre a filha adolescente de uma banalíssima família da classe média Sueca. As personagens centrais da trama, são precisamente Adam, o pai de família, um recatado, contido, moralista e controlador Pastor da Igreja Sueca, Ulrika, a mãe, advogada criminal com uma carreira já bem construída, é reservada, viciada no trabalho e extremamente focada no sucesso profissional, e é, até ao início da terceira parte da obra a personagem mais misteriosa do trio; por fim temos Stella, a adolescente rebelde, inteligente e determinada, trabalha como empregada numa loja de roupa, e tem como melhor amiga, de quem é inseparável a estudiosa e obediente Amina, cujos pais são amigos dos progenitores de Stella.

A narrativa está organizada em três partes distintas que correspondem, precisamente, ao percurso da trama sob o ponto de vista de cada um dos seus protagonistas: Adam (o pai) ; Stella (a filha) e Ulrika (a mãe).

Com elevada densidade psicológica, um discurso intimista mas fluído que nos transporta para o interior da mente e das emoções cruzadas de cada uma das personagens, revelando ao leitor os seus conflitos internos, apreendemos a dinâmica de uma família que, ao ver-se envolvida num caso de polícia, faz também uma auto-reflexão e auto-crítica, desconstruindo ideias feitas e reconstruindo-se como colectivo perante si mesma.

O Advogado Michel Bloomberg, reconhecido criminalista que irá assegurar a defesa de Stella retrata o sistema judicial e os seus vícios e virtudes. O livro chama também a atenção para a forma como cada um de nós olha para os grandes casos mediáticos da justiça: " O que conta verdadeiramente é o tribunal da opinião pública. Em geral as pessoas não querem saber do que os tribunais decidem(...) Basta uma semana na prisão para que toda a gente te considere culpado." - p. 143

O que faríamos se alguém muito próximo fosse acusado de homicídio? O amor justifica tudo? " O amor é uma das tarefas mais difíceis do homem (...) É possível continuar a amar um assassino?" - p. 71

Uma magistral obra literária que fica connosco muito depois da leitura, e que nos evoca temáticas como o "ser" e o "dever-ser", a cultura da aparência, do politicamente correcto, do parecer bem ou mal. Muito interessante também a alusão a Freud, chegando mesmo Stella a afirmar: "Demasiado Freud põe qualquer pessoa maluca." p. 189. O autor introduz ostensivamente temáticas e conceitos inerentes à teoria Freudiana, tais como a culpa, a vergonha e a negação, explorados através da forma como os protagonistas apresentam a sua perspectiva sobre os factos narrados.

Será que em situações limite estamos sempre dispostos a cumprir à risca as normas sociais em que sempre julgámos acreditar? - "Há valores que não podem ser explicados nem medidos através de normas." p. 403

Mais do que uma história viciante, descrita de forma muito visual e cinematográfica, com uma brilhante caracterização psicológica das personagens, com episódios violentos, temos aqui um thriller que nos faz pensar e que nos coloca o claro desafio de nos imaginarmos no lugar daquelas personagens com as quais é fácil empatizar, precisamente por serem pessoas comuns.

Brilhante, intenso, de leitura compulsiva e a desafiar os leitores! Uma belíssima sugestão de leitura para este início de ano que vivamente recomendamos aos adeptos de thrillers.

FICHA TÉCNICA DO LIVRO:


Autor: Mattias Edvardsson

Editora: Suma de Letras

Edição: Janeiro de 2020

Nº de Páginas: 472

PVP: €19,90

Classificação Nova Gazeta: 5/5 Estrelas







Autora Anita Dos Santos


Autor Fernando Teixeira


domingo, 19 de janeiro de 2020

HIBERNAÇÃO, de Maria Cecília Garcia















A pequena gata branca e surda insiste em vir para o colo dela, exige atenção, quer carinhos e ela sente prazer ao acariciar o pequeno animal.

É bom sentir que alguém, se assim se pode dizer, gosta dela.

Aquela mulher prestes a cumprir sessenta anos apercebe-se que o tempo passa rapidamente e não está a gostar disso.

Não é a idade o que a preocupa, não se sente velha, pelo menos não todos os dias.

Quando se olha ao espelho – já não se olha tanto como antes – descobre os sulcos e pequenas rugas. Às vezes custa-lhe reconhecer-se, mas isso é só quando olha para o espelho. No seu interior continua a sentir-se jovem. Melhor dito, a idade não tem importância, acredita que tem muito ainda por viver. Isto nos dias bons… hoje, não. Hoje, está cansada.

Entristece-se ao ver que os que a rodeiam pensam que ela já cumpriu o seu papel: pariu os filhos, criou-os com todo amor e dedicação, cuidou do marido... Foi a empregada doméstica, a mulher-a-dias, foi o cepo onde se descarregam todas as frustrações, aquela a quem tudo se exige e que não deve exigir nada…

Mas precisa de… amor, carinho, um beijo, coisas que não custam nada e valem tanto!

Mas, o que terá despoletado todo este turbilhão de desejo e ansiedade? Talvez quando decidiu voltar à escola e terminar o secundário.

Durante três anos, todas as tardes, pontualmente às 19:15, entrava na escola, cumprimentava o vigilante com um grande sorriso. Por vezes, pensava que ele a julgava maluquinha! Ninguém vai para a escola tão satisfeita!

Encontrava-se na cafetaria com os colegas, todos muito mais jovens, e sentia-se como eles. Assistia às aulas como se tivesse quinze anos, tratava os professores por Stor, fazia os trabalhos de casa e perdia as noites estudando, pesquisando na internet ou nos livros, seguramente com maior dedicação do que muitos jovens, era competitiva, tentava sempre que os seus trabalhos fossem os mais classificados, os de nota mais alta! Não porque se achasse melhor que os demais, mas porque não queria que houvesse qualquer dúvida sobre as suas capacidades e inteligência. Surpreendia-se com esta sua nova faceta, mas estava a gostar!

Para ela, a escola era o sonho adiado que agora conseguia concretizar. Era, também, um desafio a si mesma, tinha que provar a si e aos outros que ainda era capaz de aprender e fazer as coisas bem-feitas.

Descobriu que tinha opinião própria e nos debates sabia defender a sua posição com argumentos sólidos, descobriu que podia falar sem que a mandassem calar e que, mesmo que desse uma opinião da qual alguém discordava ou quando estava errada, ninguém se ria dela!

Ficava cheia de orgulho, feliz, quando os professores a elogiavam e sentia-se uma criança com as brincadeiras e provocações dos colegas, particularmente nas aulas de História, quando eles se queixavam de concorrência desleal devido à idade dela, pois diziam que ela tinha vivido a Revolução Francesa e a 1.ª República! Ela ria satisfeita e fazia rir todos os demais.

Ficava nervosa nos testes como não sabia que podia ficar e saía da sala com a sensação de não ter respondido a nada, para depois rejubilar ao receber os resultados dos mesmos!

Foi assim durante três anos cheios de ansiedade, alegria e satisfação. Mas foi também uma luta solitária. Ninguém lhe perguntava como iam as aulas, ninguém queria saber como lhe corriam os exames nem se interessavam pelas histórias que ela contava.

Finalizou o secundário com boas classificações, fez o exame de acesso à universidade e ficou preparada para continuar os estudos.

Ainda acredita que vai conseguir fazer um curso universitário! Depois pode morrer tranquila…

Um carro desceu lentamente a rua, o condutor olhou para ela, fez uma vénia e sorriu, continuando a olhar enquanto se afastava.

Olhou à sua volta incrédula!… não, não estava ninguém.... foi mesmo a ela que o homem se dirigiu! Sem dar por isso endireitou-se, relaxou os músculos do rosto e esboçou um sorriso, não para aquele homem de quem nem viu bem a cara, mas para ela! Mentalmente examinou a forma como estava vestida: as cores combinavam, a blusa ficava-lhe bem, o colar dava-lhe uma certa graça e um aspecto mais fashion e, claro, os óculos de sol! Será que se tinha esquecido de olhar à sua volta?

Ao longo de todos estes anos, nunca se interessou em saber se despertava algum interesse. Não que quisesse procurar alguém..., mas faz tão bem ao ego sentir-se apreciada!

Durante tanto tempo tentaram convencê-la de que não valia nada, embora resistisse e lutasse para manter a sua auto-estima, seguramente que não conseguiu tão bem quanto pensava.

Na sua aparente hibernação arranjou mecanismos de defesa: enquanto aspirava, cozinhava ou passava a ferro, continuava a sonhar, tal como quando era criança. Vivia histórias, fazia projectos, planeava crimes, arrependia-se, lia um livro, ou escrevia um…

In: História em Pedacinhos- As casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar



sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O TEMPO, de Anita Dos Santos















Quando falo do tempo, não me refiro ao tempo contado em horas e minutos num relógio, mas sim ao tempo, ao vento, à chuva, ao calor, ao frio…

Tudo coisas que agora estão muito misturadas, apresentando-se cada vez mais como calor e frio, só.

Mas as mudanças climatéricas são fruto de imaginações exacerbadas!

Lembrei-me hoje, ao ver chover, de quando era garota, mas já a trabalhar, e vinha à noite para casa, encharcada de chuva depois de um dia de trabalho, no eléctrico 15, cheio até mais não poder ser. Durante meses a fio!

O Inverno parecia não ter mais fim!

A chuva começava a amainar por volta do mês de Abril. Mas, em Abril águas mil… Ainda tínhamos mais chuva pela frente.

Vinham por fim os meses mais amenos, a Primavera prometia vida nova em Maio, e Junho já nos trazia o tão esperado calor de dos meses de Verão.

Nada se equiparava ao calor do mês de Julho, com o seu cheiro característico de Verão, de praia e de lazer.

Mas Agosto, o tempestuoso mês das trovoadas de veraneio – com os incomparáveis relâmpagos sobre o mar a que tantas vezes assisti! -, era o meu favorito, talvez por irmos de férias nessa altura.

Quando o mês de Setembro se fazia presente, e as folhas das árvores começavam a mudar de cor, a ficar castanhas, comiam-se uvas gordas e doces, prenunciando um Outono que estava a chegar, e os dias já eram mais curtos, mas ainda de boa temperança.

O mês de Outubro vinha já com o cheiro da chuva e das folhas das árvores pisadas, prenunciando um Novembro cinzento, com cheiro a castanhas assadas, a chuva e a braseiras.

E estávamos uma vez mais em Dezembro, no Natal e em pleno Inverno, para enfrentar, outra vez, os terríveis meses de chuva ininterrupta.

Agora, com sorte, se chover uma semana seguida, estranhamos, e dizemos “Credo, já chove há tanto tempo!”

Mas as mudanças climatéricas são fruto de imaginações exacerbadas!

O tempo, é uma coisa muito subjectiva…


A autora escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

DE ONDE NUNCA SAÍ - VERDE BRASIL, de Helder Menor















Uma vez conheci a Vénus, estava ela de empregada de mesa. Foi numa tasca sujita em Salvador da Bahia. Um boteco que fica numa transversal à ladeira do Taboão. Sítio humilde de gente humilde, onde se come o que houver e se paga o possível. Boa comida em ambiente familiar.

Conheci a moça em contexto profissional. Ela em trabalho, eu na vadiagem mas com fome. Mas não se ponham a imaginar estórias de amor e romances canalhas. Nada disso. Nem tal me passou pela cabeça... até porque eu seguia absolutamente bem acompanhado com a mais bela de todas as belas filhas de Oxum que alguma vez pisaram o chão quente da terra brasileira.

Eu conto como foi:

Entrámos no tasco com vontade de comer, pés cansados, olhos deslumbrados e crónico défice de reais no bolso. Sabíamos ao que íamos, fomos indicados por quem sabia onde comer bem e barato. Procurámos por “pêéfi”. Para quem não sabe, PF são as iniciais de Prato Feito, que consiste numa refeição empratada para gosto e carteiras populares.

A empregada estava de trombas. Aquele ar carrancudo que algumas raparigas bonitas usam em permanência, proteção possível contra as doces cantadas de quem enfrenta o público com uma porta aberta. E se há cantadas doces a transbordar de melaço de cana de açúcar são os coros dos malandros da Bahia... por isso, não estranhámos o ar carrancudo da beldade.

Chegámos já tarde para almoçar e ainda cedo para lanchar. Mas como a fome não tem hora, entrámos.

Ela estava a limpar copos com um pano em cima do balcão. Quando lhe perguntei por “pêéfi” mal respondeu. Ou se respondeu, respondeu para dentro de si mesma.

Desapareceu por trás da cortina javarda que separava o balcão de madeira das sombras cheirosas da cozinha.

Tinha “pêéfi” sim. Sem mais palavras, voltou com dois pratos a transbordar. O “pêéfi” era carne seca de alguidar com arroz e feijão tropeiro. O feijão e o arroz servidos com generosidade, a carne cortada em pedaços pequeninos para render mais. A bebida era cerveja ou cola. Pedi Brama. Estava calor e o copo onde me serviram a geladinha devia estar roto.

Depressa tive de pedir outra.

Como não gosto de gritar “ópssete”, perguntei lhe o nome.

Ela esclareceu:

– É Vénus.

E era. Sorrimos para ela, eu e a minha companheira de viagem e de vida concordámos que o nome coincidia com a pessoa. A Vénus, para provar que o era, e vendo que eu só queria mesmo comer o “pêéfi”, desarmada de dureza, sorriu para nós um lindo sorriso de baiana.
A Vénus que conhecemos era, negra e grande. De ancas largas, peito relativamente pequeno e pose de deusa para não dar cunfia aos espertos. O amor é coisa bonita, mas não se serve ao balcão para acompanhar bejecas.

Conhecemos a Vénus em Salvador da Bahia muitos e muitos quilómetros depois de chegar ao Brasil, mas foi como se aquele sorriso tivesse qualquer coisa de boas-vindas.

Entrámos no Brasil num domingo ao amanhecer.

Vínhamos de Assunción e era ainda noite cerrada quando atravessámos o Rio Paraná.

Atrás, a mítica Ciudad de Leste, capital do contrabando e de todos os tráficos, à frente todo o Brasilão a começar ali na Foz de Iguaçu. Mais de metade de um continente e toda esta imensidão à nossa frente antes de chegar ao Atlântico.

Na fronteira falaram-nos em português pela primeira vez depois de semanas em castelhano de muitos e variados sotaques. Mesmo com aquela tensão de fronteira e os guardas armados, foi quase como se nos sentissemos em casa.

Uma hora depois da fronteira entre o verde da estrada, finalmente a chegada à central das camionetas. Na estação dos "ônibus" não havia nem “ônibus” nem autocarros. Nem bilheteiras, nem um quiosque aberto. Não estava niguém. Era domingo. Ninguém.

Para ajudar, começou a chover.

Entrámos no único táxi que ali estava parado. Acordámos o preço e seguimos viagem.

Em conversa de circunstância e porque continuava a chover perguntei:

- Tem chovido muito?

- Pensi em chuva!!! Pensi em chuva bem forti! Pois olhi qui aqui tem chovido mais ainda!

Rimos-nos os três. Estávamos apresentados e seguimos continente adentro.

Do lado de fora do carro, o verde. O imenso verde que veste o continente. Aquele verde que se espalha e cresce em cima de tudo e de todos.

Foram mais dois ou três dias de chuva e o verde a beber a água que caía.

Depois veio o sol. E que sol. E o verde a absorver a luz que fazia.

Entre todo aquele verde seguimos viagem. Para norte e para leste.

Passámos por estados rurais, cidades grandes, cidades pequenas de província. Vales cultivados e selvas virgens, aldeias de boiadeiros e de pescadores. E o verde sempre lá.

Vimos cataratas, que no Brasil são cachoeiras, e dormimos em cabanas de madeira que deixavam passar o ensurdecedor som da selva densa e verde à nossa volta. Nadámos no mar quente e comemos na praia peixe frito, caranguejos, espetadas de queijo, sempre abrigados na sombra do verde que vai até à praia.

O Brasil será tudo aquilo que dizem dele. É tudo isso e muito mais. E, sobretudo, é verde em todos os tons de verde e em todos os sentidos da palavra.

É um imenso e lindo continente verde com duzentos milhões de pessoas a falar português.

Três coisas me impressionaram no Brasil:

Primeiro foi o verde. Aquele verde, verde verde. Verde que atá para mim que sou daltónico, nos entra pelos olhos adentro. Verde como não há outro igual. Verde feito de água e sol em quantidades brutais que permite aquela beleza gritante.

Depois foram as pessoas. Duzentos milhões de pessoas a fazerem pela vida como podem e como sabem. São motoristas, empregadas de limpeza, pedreiros, mecânicos, rececionistas, padeiros, canalizadores, bancários, serralheiros, assalariados agrícolas, polícias, talhantes, funcionários, cabeleireiras, ladrões, costureiras, cozinheiras e prostitutas... Uma imensa massa de gente humilde e trabalhadora, que tem essa secreta e preciosa qualidade de nas piores circustâncias encontrar a alegria necessária para sorrir e ir levando.

Também me impressionou bastante o sorriso da Vénus no boteco esconso de Salvador. Aquele sorriso luminoso e aberto no rosto negro da empregada é o sorriso da própria América Latina que espera ainda a sua vez.

Brasil sou gamado em você!