quinta-feira, 15 de agosto de 2019

DE ONDE NUNCA SAÍ - TEREMOS SEMPRE PARIS, de Helder Menor














Cruzámos os ares esmagados em cadeiras de baixo custo. Aterrámos à noite, mais uma vez carregados de nada e com vontade de pisar o chão sujo de milénios de passos dados.

De novo em Paris, a cidade onde se volta sempre. Os que pariram esta interculturalidade de faz de conta estão prestes a ser devorados pela sua própria cria. A terra onde se inventou o Ocidente prestes a afogar-se na herança do seu próprio colonialismo. Ricos e pobres sobrevivem no medo uns dos outros. Coletes amarelos, jilabas, nudez e alta costura.

À chegada, soldados e polícias de todas as cores armados até aos dentes. Prontinhos a morrer pela França que lhes dá um bilhete de identidade e lhes promete as onze mil virgens ou o paraíso ser protagonista no telejornal.
No aeroporto uma maratona de passadeiras rolantes paradas e vazias que foi preciso palmilhar. Com pressa, sorte e engenho, apanhámos o último comboio para a cidade. Gare du Nord. Seriam umas onze e meia da noite.

Saídos da carruagem sombria e da estação imensa e suja, fomos a pé pela cidade em ebulição. Chegámos nessa hora mágica em que as prostitutas mudam de turno, os chulos brindam com os amigos e os bêbados ainda se conseguem mexer. Ladrões, bandidos, saltimbancos, intrujas, vigaristas e artistas de toda a espécie a tentarem safar-se no momento para pagar mais umas horas de renda na Cidades das Luzes.

Longe, bem longe da Paris de franceses que trabalham nos serviços. Longe daquela Paris que existe, hermeticamente fechada e limpa em prédios de apartamentos com porteiras.

Seguimos de mochila às costas pela cidade. Sempre a pé, desviados dos postais turísticos e do chique. Directos para a Paris real, a terra onde vivem dois milhões de pobres que não são franceses, mas que nunca conheceram outro país que não a França. Putos magrebinos a matarem-se uns aos outros em disputas por pontos de venda de haxe. Outros a vegetar nas escadas dos prédios à espera que aconteça alguma coisa. Quem lhes der um Corão salva-os do mundo.

Entre bebedeiras, pedradas de heroína, propostas comerciais, abordagens religiosas, tentativas de extorsão e ameaças veladas, lá encontrámos o sítio para onde íamos sem grandes dificuldades.

Cinco andares para subir sem elevador e sem casa de banho nos quartos. Tecnicamente ficámos num "hostel". Um antigo bordel, mais ou menos reciclado, mas que alia a santíssima Trindade de um alojamento: limpo, barato e central.

Os proprietários são argelinos da Cabília, boa gente.

Deixamos as mochilas e saímos para a rua. Seriam duas da manhã de sexta-feira. Bares cheios e senhoras a trabalhar pelas esquinas. Entrámos na primeira porta aberta e pedimos dois copos de tinto. Dissemos que não ao dealer oficial da rua, senegalês gigante, que nos veio propor coca. O empregado percebeu e reconheceu a desenrascada e latina forma de dizer que não, com firmeza, sem medos, mas sem arrogâncias nem superioridades. Chegou-se e sentou-se connosco, era argentino, de Buenos Aires e do bairro do Boca. Simpatia legítima. Bebemos juntos. Apareceu uma garrafa de vinho que a casa ofereceu. Continuamos a falar, saudosos da sua América, a Nossa América, a latina. Trocámos números de telefone.

Subimos para o nosso ninho no quinto andar. Com o aquecimento ligado e a janela de vidros triplos, dentro do quarto estava uma noite de verão. Adormecemos como anjinhos aconchegados nos quarenta graus e no borgonha, cinco pisos acima da rua onde as poças no chão gelavam.

Acordámos pelas nove, tomámos o banho possível e descemos. Café e chá no café do marroquino mesmo ao lado do hostel. Andámos com o sol ainda a brilhar baixo e uma temperatura próxima do zero. Fomos à feira da Ladra que aqui se chama das pulgas. O mundo inteiro à venda em tendas, lojas, bancas e panos no chão.... Namorei um jogo de xadrez em pedra, mas deixei ficar. Sem fazer compras, paramos numa roulotte, comemos omelete de cogumelos verdadeiros e bebemos cerveja artesanal.

Depois rumámos à colina de Montmartre. Caminhámos calados e solenes entre os espectros dos camaradas massacrados quando nos esmagaram a Comuna. Subimos ao Sacré Coeur e misturámos com os outros que eram turistas. Música de rua e indianos a vender tubos telescópicos de alumínio para tirar fotografias. Sentámo-nos ao sol no jardim a fumar e a fazer a fotossíntese. Rimos, namoramos e tiramos fotografias a nós mesmos com os telefones.

A fome fez-nos procurar onde comer. Encontramos um café mais ou menos decadente, pedimos pão, queijo e uma garrafa de Bordéus. Sobe-nos bem o tinto, o queijo não era mau, o pão era péssimo.

Nas placas com os nomes das ruas recordámos livros e filmes antigos. Entrámos em várias lojas de discos, sexshops e livrarias. Não comprámos nada, tudo demasiado caro, demasiado datado, demasiado enfadonho, demasiado monótono ou demasiado plastificado. Com a memória da geração perdida, fomos ao Pigale beber um ricard. A Avenida Clichy, espreguiçava-se ao sol de inverno, tudo menos tranquila.

Atracamos numa esplanada, pedimos uma cerveja e café. O mundo passou todo à nossa frente. Excursões de chineses, casais americanos, executivos alemães e rameiras, chulos e mendigos de todas as nacionalidades e cores.

Com o cair da noite, as ruas foram-se enchendo. Numa travessa escondida e escura, na zona mais decrepita do Pigale, o destino e algumas referências prévias, levaram-nos a uma tasca que vende vinho de excelente qualidade e que tem pasta de fígado de ganso. Caseira. Feita com fígado mesmo de ganso, sem iscas de porco misturadas. Estava frio na rua e os ossos doíam só de olhar lá para fora. Pedimos uma garrafa para aquecer, comemos pasta de fígado, presunto, pão e queijo. Tudo bom. Veio mais vinho que bebemos. Fomos ficando na conversa mole sobre vinho e comida com a dona da taberna.

Voltámos ao hostel já tarde e vagamente tocados.

Com o calor do aquecimento sempre ligado, dormi pesado e acordei cedo com boca seca. Era domingo de manhã, na esquina comprei o Libe e fui à padaria buscar duas sandes para levar. Trouxe também uma baguete de sésamo deste tamanho que comi com o chá da manhã no café do marroquino.

Apanhamos o metro até ao arco do Triunfo. Depois, descemos os Champs Elysêes até à Place de la Concorde. Cruzámos o Sena. Finalmente a tal Paris, dos canais de televisão especialistas em viagens. A Paris dos cafés para americanos. Paris das excursões turísticas, das luas de mel e dos casais de meia idade do Japão, Coreia e China a fazer fotos para emoldurar.

Caminhámos pelo Quais D'Orsay até à inevitável Torre do Eiffel. Mais policias e militares de camuflado e uzi. Temperatura entre os zero e os quatro graus. Subimos as escadas de ferro evitando a fila e o pagamento. Lá em cima olhamos à volta, tiramos fotografias, fizemos juras de amor, especulamos sobre distâncias e queixamo-nos do vento gelado. Descemos e comemos as nossas sandes no jardim ao lado da ponte. O sol de inverno fica bonito nas fotografias, mas não aquece, bebemos chá quente do termo envolto numa meia de lã, mas mesmo assim, foi o frio quem nos sacudiu dali.

Andamos mais de uma hora pelas ruas até ao hostel onde no nosso quartinho do quinto piso o verão era eterno e convidava ao descanso.

O argentino do bar acordou-nos com uma mensagem a combinar irmos beber um copo às sete e meia. Eram sete e dez. Vestimo-nos para uma expedição polar e caminhamos cinco minutos até ao lugar de encontro.

Aqui no 18º Bairro, há dez anos atrás só viviam argelinos e senegaleses. Mas o passar do tempo deu poder de compra à geração dos filhos dos que fizeram o Maio de 68... E estes franceses entre os 35 e os 50 anos, que cresceram nos valores da liberdade com padrões de consumo burgueses, sem preconceitos de classe e sem valores religiosos ou nacionalistas, preferem morar no Centro de Paris entre africanos e asiáticos do que nos subúrbios, entre brancos. Chama-se a esta subclasse emergente, Bobo, Boheme Bourgoise. É esta gente, quem alimenta economicamente o bairro e os seus pequenos negócios de cafés, mercearias, remodelações, livrarias, traficantes de drogas, lavandarias, oficinas de bicicletas e uma ou outra galeria de arte que vai aparecendo.

Fomos para um café completamente cheio de bobos, africanos, latinos, e de magrebinos. Mesas compridas e toda a gente misturada. A esplanada virada pró canal do midi. Bebemos tinto e comemos pão com coisas que iam aparecendo: queijos, enchidos, patês e até conservas de peixe. Falámos de vinho, política, livros e viagens. Da Europa e da América. Da Argentina, de Portugal e da Cabília com um argelino de segunda geração que se juntou a nós. As garrafas navegavam ate à nossa mesa a boiar entre o fumo e a música do Fateh Ali Khan que se sobrepunha ao barulho das vozes e dos copos a bater.

A festa acabou relativamente cedo, porque era domingo à noite.

Saímos em clima alegre e descontraído. Voltámos a pé pelas ruas estreitas.

A polícia tinha vedado a rua do nosso hostel. Não podíamos passar. Disseram-nos para esperar um bocadinho. No café do marroquino, minutos antes aconteceu um homicídio. Um adolescente foi esfaqueado e esperava-se a ambulância da morgue.

A morte do miúdo desconhecido no café, cortou o clima de festa em que seguíamos e foi-nos buscar ao Bordeaux onde alegremente planávamos para nos trazer em voo picado para o mundo real.

Estava definitivamente acabado o fim-de-semana.

Voltamos sem mágoas, mas sem vontade de ficar muito mais. Sabemos que mais dia menos dia regressaremos.

Paris é especial. Dá-nos aquele conforto de sabermos que aconteça o que acontecer, façamos nós os que fizermos das nossas vidas, Paris permanecerá. Paris vai lá estar disponível como uma prostituta madura, cansada, ligeiramente alcoólatra e com mau feitio, mas eternamente bela e sedutora.

“Teremos sempre paris”, dizia-se em Casablanca.




domingo, 11 de agosto de 2019

ENTREVISTA a Angela Saini autora do livro, INFERIOR / Edições Desassossego


"Temos que nos esforçar permanentemente para alcançarmos o mesmo estatuto dos homens"




Angela Saini nasceu em Londres em 1980. Possui dois mestrados em Engenharia pela Universidade de Oxford e, em Ciência e Segurança pela King's College de Londres. Trabalhou como repórter da BBC. 
Em 2008 tornou-se escritora freelancer. Em 2009 foi nomeada Jovem Escritora Europeia de Ciências.

Publicou os livros:

2011 – Nação Geek: Como a ciência indiana está a dominar o mundo.

2018 - Inferior: como a ciência sempre desvalorizou a Mulher e os novos estudos que estão a corrigir esse erro.

2019 - Superior: o retorno da ciência racial.





Foi acerca do seu livro “Inferior: como a ciência sempre desvalorizou a Mulher e os novos estudos que estão a corrigir esse erro” publicado este ano pela Desassossego uma das chancelas da Editora Saída de Emergência que conversámos com a autora.


MBC – O que a levou a escrever este livro?
AS – Pura coincidência. Foi-me pedido por um grande jornal do Reino Unido um artigo sobre a menopausa, um assunto sobre o qual confesso nunca ter pensado até esse momento. Por esse motivo tornou-se num estimulante fazê-lo. Independentemente de ter aceite este desafio, decidi abordar o tema sob uma perspectiva mais científica, começando pela explicação evolutiva. O motivo pela qual a mulher experimenta a menopausa. O que descobri é que a menopausa é extremamente rara na maior parte das espécies animais. Além dos seres humanos e das Orcas, são poucas as espécies que passam por este processo. O mais bizarro foi descobrir que a menopausa não é comum a nenhuma espécie de primatas.
Após intensa pesquisa deparei-me com diversas teorias. Por exemplo, a teoria da avó que diz que as mulheres à medida que envelhecem são tão cruciais para a sobrevivência de filhos e netos que aumentam a sua longevidade ao ponto de se tornarem estéreis. Uma outra teoria publicada por três canadianos dizia que as mulheres se tornam inférteis porque com a idade deixam de fazer sexo. É evidente que mesmo na altura da sua publicação foi refutada por estar pobremente fundamentada. Não existia nenhuma base evolutiva nesta concepção, nada do que diziam fazia sentido por não existirem dados que comprovassem as suas afirmações.
Contudo, fascinou-me ver que com base no género, as pessoas têm opiniões diferentes sobre este fenómeno biológico. O que me levou a explorar o que mais existe na biologia humana, o que nos diz entre as diferenças entre homens e mulheres, particularmente sobre as nossas mentes e corpos. Mas, principalmente como mulher queria factos, saber o que a ciência realmente diz sobre quem sou, quem é a minha mãe, as minhas irmãs, as minhas amigas. Queria respostas para mim e, entendi que essa seria a minha jornada de descoberta.

MBC – Escrever este livro alterou em algum aspecto a sua visão sobre a ciência?
AS – Muita da minha pesquisa como jornalista científica é olhar para os problemas dentro da ciência. A minha função não é trair a ciência, mas descobrir erros, entender as agendas dos cientistas sejam elas pessoais ou políticas, os financiamentos que recebem, tudo o que possa perturbar o processo científico que leva a ciência a não ser confiável aos olhos do público. Tento selar pela acuidade da ciência, nesse sentido não me surpreendeu saber que existiam graves problemas dentro da comunidade científica. Porém, como ser humano e vivendo inserida na sociedade utilizo a minha escrita para expressar a maneira como penso. O porquê da existência de todos esses estereótipos? As suposições sobre quem somos?
Devido à teoria da Avó deixei de pensar da mesma forma sobre a maternidade ou o envelhecimento. Embora sempre tenha sido feminista, de ter sempre lutado pelos direitos das mulheres, toda a minha pesquisa deu-me uma nova dimensão, reafirmando o meu feminismo.

MBC – Sendo jovem, mulher, brilhante e bonita não encontrou oposição por parte dos cientistas?
AS – Ainda é um problema. Qualquer mulher que escreva na área das ciências enfrenta barreiras porque não somos levadas a sério no nosso trabalho. Mesmo hoje quando entro numa livraria reparo que existem inúmeras escritoras publicadas na área da ciência, mas, por alguma razão, os escritores têm maior relevo na divulgação do seu trabalho. O que confesso me deixa extremamente frustrada porque existem brilhantes escritoras e no fundo acabamos por ser tratadas quase como se o nosso trabalho se limitasse a ser uma continuação do trabalho dos homens. Espero ansiosamente que isto mude e, acredito que aconteça se pressionarmos o sistema imposto.

MBC – Em geral, os homens ainda pensam que as mulheres têm corpos e mentes fundamentalmente diferentes?
AS - Ainda há pessoas que pensam dessa forma. Existem obviamente algumas diferenças entre homens e mulheres. Nos nossos sistemas reprodutivos, diferenças médias na altura, mas muitas destas diferenças são tidas em média, por isso existem muitas mulheres que são mais fortes do que alguns homens, outras que são mais altas.
Psicologicamente, quase não existem diferenças. Acho que essa foi para mim a maior revelação. Quando olhamos para estudos psicológicos, dificilmente encontramos diferenças. Limitamo-nos a acreditar quando nos afirmam que existem grandes lacunas entre os géneros, em assuntos como a matemática ou o raciocínio verbal. Na realidade essas lacunas não existem. É nesse momento que nos devemos interrogar porque nos dizem que existem. E rapidamente concluímos que se deve à sociedade e à cultura na qual vivemos que ainda não mudou o suficiente para contrariar estes dogmas.

MBC – Nos nossos tempos não acha estranho que alguns homens ainda se sintam superiores?
AS – A meu ver o problema reside nas mulheres que continuam a pensar que existem diferenças. Mas isso é o que a cultura nos faz crer quando nos diz que a mulher tem um lugar específico, um papel a desempenhar na sociedade. E é claro que para muitos homens beneficia-os manterem esse status quo.

MBC – Mesmo no mundo moderno?
AS - Mesmo no mundo moderno! É triste dizer, mas até em muitas mulheres da minha idade. Uma das melhores mensagens que recebi quando "Inferior" foi publicado, veio de uma menina na Índia que leu o livro e o deu à mãe para o ler. O pai era muito patriarcal, dominante. O que me disse foi que após a mãe o ler começou a enfrentar o pai. Esta mensagem foi a mais importante que já recebi. Se as mulheres se conseguem sentir fortes ao lerem “Inferior” sinto que atingi o meu objectivo.

MBC – No fundo é essa a mensagem que quer passar no seu livro?
AS – Sim. Espero que as pessoas o leiam e que desafiem as suas bases. Quer sejam homens ou mulheres. Mas adorava que as mulheres se sentissem particularmente fortes com o que a ciência realmente diz sobre quem somos. Não somos aquelas criaturas fracas que durante décadas, séculos nos levaram a acreditar. Podemos fazer o que quisermos, ter uma sociedade mais igualitária e tudo o que necessitamos é tão simples como trabalhar em conjunto, lutar por esses direitos, quebrar de uma vez as barreiras políticas e culturais.

MBC – Mas concorda que em 2019, ainda temos que trabalhar o dobro dos homens para provar o nosso valor?
AS - As dificuldades que eu e outras mulheres cientistas ainda sentimos, não nos obriga somente a trabalhar duro para chegar onde estamos, temos que provar ao mundo que somos capazes de fazer o mesmo que os homens mostrando que é possível, normal. Provar que podemos ser as pessoas que pensam que não conseguimos ser. Existem camadas de barreiras com as quais lutamos o tempo todo. Temos que nos esforçar permanentemente para alcançarmos o mesmo estatuto dos homens. Para algumas mulheres, é mais fácil para outras mais difícil.

MBC – Durante a gravidez sentiu-se de alguma forma posta de lado?
AS - Antes de ter filhos trabalhava como repórter e tive que desistir porque me ocupava todos os dias em qualquer horário. Sabia que meu marido não iria desistir do trabalho dele, por isso quando tomei conscientemente a decisão de ter filhos, desisti desse trabalho e, foi nesse período que comecei a escrever. Não me arrependi da minha escolha, até porque tive que aprender a conciliar o meu trabalho com ser mãe. Mas gostava que a sociedade fosse estruturada de maneira a que as mulheres não tivessem que fazer estas escolhas o tempo todo. Penso que a maioria das indústrias ainda opera com base no princípio de que haverá sempre alguém em casa e, isso é realmente algo que precisamos alterar. Se não ficar ninguém em casa com as crianças como podemos dar o nosso melhor no nosso trabalho? E não falamos apenas das crianças. Falamos do trabalho doméstico, cozinhar, limpar, fazer compras e todas as outras coisas que necessitam de ser feitas. Uma casa tem que ser governada e isso também é trabalho.

MBC – No entanto na maior parte dos casos os melhores e mais bem remunerados empregos continuam a ser entregues a homens.
AS - No Reino Unido, existe uma enorme diferença salarial. Penso que isso ainda é um problema e, que se deve a diversas razões. Em parte, o sexismo. Temos vencimentos inferiores fazendo exactamente o mesmo trabalho. Em parte, a própria história. Afinal o homem tem estado na força de trabalho há mais tempo e as mulheres desistem de trabalhar para terem filhos. Mas ainda temos um outro aspecto que a meu ver é muito mais complicado, quando as mulheres começam a fazer um trabalho são desvalorizadas, dou-lhe o exemplo da programação informática costumava ser um trabalho feito exclusivamente por mulheres por ser um trabalho enfadonho logo só uma mulher gostaria de o fazer. Mas de um momento para o outro a indústria tornou-se numa profissão altamente valorizada e as mulheres foram sendo lentamente excluídas e, agora os homens dizem que as mulheres não percebem de programação. Necessitamos de continuar a lutar para que uma mulher que faça exactamente o mesmo trabalho que um homem receba o mesmo. Ao mesmo tempo que damos mais valor a todo o outro trabalho que tradicionalmente fazemos.

MBC - O que pensa dos homens que ainda mantêm os melhores cargos de liderança?
AS - Acho que em posições de grande poder, damos ao homem muito mais espaço para fracassar do que damos às mulheres. Quando uma mulher falha, causa impacto em todas as mulheres, automaticamente está a prejudicar-nos a todas. Mas se um homem falhar, é aceitável. Ele é um indivíduo que teve o azar de falhar e nós perdoamos. Por isso sim, continuam a existir padrões diferentes.

MBC - Aos nossos leitores em Portugal que ainda não a conhecem porque ainda não leram os seus livros, como gostaria de apresentar “Inferior”?
AS - Gostaria de dizer a todas as pessoas que nos dizem que a igualdade é impossível porque somos naturalmente diferentes, que não há nada na biologia que diga que a igualdade não pode vencer. Antes pelo contrário devemos sentir-nos fortalecidas com essa constatação. Como disse, esta jornada mudou a minha vida e espero que mude vidas.














Texto e Fotos: MBarreto Condado

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

R.C. VICENTE ENTREVISTA RÁDIO RDS DIA 10 AGOSTO, 16H - 17H


R.C. Vicente nasceu a 20 de Setembro de 1995, na cidade de Santarém, Portugal.
Por volta dos seus cinco anos começou a criar as suas primeiras histórias. Contos esses que se desenvolveram com o passar dos anos e deram origem a As Crónicas de Amindrius, Bérnia e Efendes.
Passou quatro anos da sua vida em Espanha, onde se tornou fluente em castellano. E com quinze e dezasseis anos, já em Portugal, venceu dois primeiros prémios literários na sua cidade. Participou ainda em diversas iniciativas literárias.
No ano de 2018 venceu o 1º Prémio Literário Boutique da Cultura.
O Ressurgir dos Eternos Titãs é a sua primeira obra e o primeiro volume de As Crónicas de Amindrius, Bérnia e Efendes.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

NOCTURNO ARCO-IRIS: UM SONHO NO KUANZA, de Helder Menor















Foi tudo tudo exactamente como me tinha dito. Sem tirar nem por!

Isto é assim, vocês não sabem, não me conhecem de lado nenhum, estão aqui a ouvir-me, mas agente não nos conhecemos. Não sabem se sou pantomineiro ou digo a verdade.

Mas pela saúde dos meus netos que isto é verdade! Tenho setenta e seis anos e não conto mentiras sobre coisas sérias.

Estou só a dizer isto, porque é coisa que custa a acreditar.

Fomos os dois para a Guiné em mil nove e sessenta e sete, eu António Augusto Marradinhas que sou de Brinches e o Talochas que era da Cabeça Gorda. Fizemos a recruta juntos na Carregueira, embarcamos os dois no navio Kuanza em outubro. Saímos de Alcântara, estava um dia lindo nem parecia que estávamos no outono. Vieram as nossas famílias despedirem-se e tudo, uma coisa bonita.

Ele não era Talochas, Talochas era a alcunha que lhe demos, por ter umas mãos que faziam duas das minhas, isto sem exagero! Chamava-se Emanuel José Cabeças Chilrito, mas a malta toda, desde que fomos às sortes em Beja que lhe chamava o Talochas.

Na recruta, fizemos tudo juntos, dormíamos ele em cima e eu em baixo do beliche, isto é, quando dormíamos... Até um dia apanhamos dez dias de prisão juntos. Eu é que apanhei, ele só apanhou porque quis, por amizade a mim. Eu nunca fui indisciplinado, mas naquele dia tínhamos feito uma marcha de umas catorze horas pela serra da Carregueira, sempre a chover... subir e descer aqueles montes e valados. Chegámos eram umas nove da noite, cerrada cerrada, não se via nada...e aquele bandido daquele capitão, comandante de companhia, Capitão Borges, chamávamos-lhe o nazi... Então o Nazi, depois de estarmos todos derreados, moribundos, não nos pôs a cantar o “Angola é Nossa”?!?!? Tá claro que ninguém cantava nada de jeito. Eu só abria e fechava a boca.  O Nazi, velhaco, veio por trás de mim, nem o vi chegar, salta-me para frente e diz:

-        Então o soldado não está a cantar porquê? Não sabe cantar? Ou acha que Angola não é nossa?

Eu que estava mais morto que vivo de andar aquelas horas todas sempre a carregar o poncho ensopado, mais as botas e mais a mochila, tudo, tudo molhadinho, encharcadíssimo, só de água eram mais de vinte quilos, mais a lama agarrada ao equipamento que pesava tanto como eu que nunca fui de pesar muito... Eu, parvalhão, em vez de cantar ou de inventar uma desculpa que não tinha voz ou outra coisa assim, dei-lhe em responder.

-        Não sei cantar meu capitão que Angola não é minha, que não tenho terra nenhuma, se tivesse terra tinha ficado livre à tropa!

Ai o que eu fui dizer ao homem. Parecia um bicho a gritar para mim.

-        Dez dias de prisão! Reviralhos e comunas na minha companhia, não admito!

Nisto o Talochas, que estava arredado de mim aí uns três passos, diz logo:

-        Ó meu capitão, eu sei cantar, mas a única terra que tenho é esta aqui agarrada as botas....

Ficou tudo a rir.

Tudo menos o capitão.

            – Dez dias de prisão também para si, que isto é uma companhia de infantaria não é um circo de palhaços!!!

Apanhamos os dois dez dias. Até soube bem, dez dias de descanso, a comida era a mesma, pronto há aquele incomodo daquilo de um gajo não poder sair da cela..., mas a prisão não era pior que a camarata!!!
Bem, o certo é que fomos os dois para a Guiné.

Logo na primeira noite no Kuanza, o Talochas acordou-me.

            – Ó Brinches, ó Brinches, acorda homem!

Estava completamente branco, todo suado e com lágrimas nos olhos.

            – Olha lá Brinches tenho uma coisa muito importante para te dizer, e que quero que saibas já. Eu vou morrer na Guiné, de manhã ao nascer do dia, ao pé de uma parede branca, vou levar um tiro na cabeça, aqui mesmo no meio da testa que me saem os miolos todos aqui por trás. E quero que me faças uma coisa, quero que te cases com a Alzira que é moça trabalhadora, e séria e eu não quero que ela fique desamparada!

Eu fiquei calado a ouvir. Depois disse o que um homem tem a dizer:

            – Tás parvo, vais morrer o quê? Vamos todos morrer, mais tarde ou mais cedo. Mas se o Nazi não nos matou, não é esta guerra que nos vai matar. Tanto podes ser tu como eu... ou não morrer ninguém, ou acabar-se a guerra. Agora aqui no navio tu não sabes!!! Sabes lá como é que vais morrer....

            – A sério Brinches, já sei como vai ser, sei que é encostado a uma parede caiada de branco.  Sei que não vou sofrer nada. Sei até a hora, aos vinte para as sete da manhã.... Só não sei é a data, mas sei que vai ser aqui para onde vamos, para esta Guiné...
E eu a desfazer:

            – É pá Talochas, tás parvo, bebe mais um trago deste bagacinho que roubei ao Madeirense dorme e deixa-me dormir. Isso são os nervos. Não é medo, mas são os nervos.

Ele bebeu do bagaço do Madeirense que era do bom, e que por acaso até esteve sem me falar mais de duas semanas por causa das garrafas que lhe tirei. Bebeu um bom trago do bagaço, deitou-se outra vez e adormeceu.
Na manhã seguinte, nada, não me disse mais nada.

E eu, naturalmente, não lhe disse nada da conversa do sonho da noite anterior.... Aquilo eram os nervos pensei. 

São momentos de fraqueza, todos os homens passam por isso. Todos passamos por isso.

Não é preciso estarmos sempre a lembrar-nos.

Chegamos a Bissau, lá tivemos umas duas semanas e depois fomos para o mato.

Nunca mais se falou na primeira noite do Kuanza nem do sonho.

O Talochas falava sim senhor, que quando voltasse ia casar com a Alzira, que quando chegasse fazia e acontecia, que queria ir com a Alzira para a Alemanha.... Enfim, pronto, fazia planos como todos os outros.

Um dia, isto já depois de estarmos há meses no mato, saímos para ir acompanhar um abastecimento. No regresso, tivemos um percalço, saltou o eixo de direção do camião da frente e a noite apanhou-nos na estrada. Vínhamos em quatro camiões desses grandes, mais dois jipes um a frente e outro atrás. Aquela até era uma zona calma.

Havia ali a uns trezentos metros do sítio onde saltou o eixo, uma venda de um português, acho que o gajo era do Minho, de Valença do Minho ou de Melgaço. Lá atamancamos a coisa, e com cabos rebocamos o camião até perto da venda. O Sargento mandou-nos estabelecer o perímetro. Era uma casa quadrada de paredes de tijolo e teto de zinco, mas as paredes todas pitadinhas de branco e porta também pintadinha, uma coisa que até era asseada e dava gosto de ver ali no meio do mato... O sargento pôs-nos dois de sentinela, um à frente e outro atrás da casa. O meu grupo ficou com a frente da casa. Eu fiz das seis da tarde às dez da noite, depois um moço que é até ali do Seixal, fez das dez da noite às duas da manha, das duas as seis fez o Madeirense e o Talochas ia fazer das seis da manha às dez da manha... Assim foi.

Eu tenho isto que acordo sempre cedo, antes do sol nascer, sempre tive.... Estávamos todos la dentro da venda, eu acordo, ainda escuro deviam ser umas seis e meia e venho cá fora mandar uma mija. Está o Talochas de sentinela, chego-me assim ao pé dele e ficamos a falar, até lhe estava a pedir dois escudos emprestados para comprar uma broa de milho que o homem da venda tinha broas boas e queria levar para o quartel e não tinha levado a carteira.

Nisto da mata em frente, arredado aí uns duzentos metros, como daqui até aquele poste ali, abriram fogo contra nós. Eu atirei-me pro chão, mas o Talochas não teve tempo coitadito, a bala entrou-lhe aqui mesmo pela testa e sai-lhe por trás da cabeça. Ficaram-lhe os miolos todos espalhados pela parede caiada.

Ainda no chão, olho para o relógio e eram precisamente seis horas e quarenta minutos!

Isto é a mais pura das verdades.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

R.C. VICENTE ENTREVISTA RÁDIO RDS DIA 10 AGOSTO, 16H - 17H


R.C. Vicente nasceu a 20 de Setembro de 1995, na cidade de Santarém, Portugal.
Por volta dos seus cinco anos começou a criar as suas primeiras histórias. Contos esses que se desenvolveram com o passar dos anos e deram origem a As Crónicas de Amindrius, Bérnia e Efendes.
Passou quatro anos da sua vida em Espanha, onde se tornou fluente em castellano. E com quinze e dezasseis anos, já em Portugal, venceu dois primeiros prémios literários na sua cidade. Participou ainda em diversas iniciativas literárias.
No ano de 2018 venceu o 1º Prémio Literário Boutique da Cultura.
O Ressurgir dos Eternos Titãs é a sua primeira obra e o primeiro volume de As Crónicas de Amindrius, Bérnia e Efendes.

sábado, 3 de agosto de 2019

ENTREVISTA a Jack Lewis autor do livro, A CIÊNCIA DO PECADO / Edições Desassossego


“Para permanecermos nas boas graças das outras pessoas, devemos receber elogios com aparente humildade – mesmo que o nosso coração esteja pleno de arrogância, fel e orgulho”


(Orgulho, Gula, Luxúria, Preguiça, Avareza, Inveja, Ira)



Quisemos conhecer melhor Jack Lewis, o neurobiólogo e apresentador de televisão. Agnóstico confesso, que em criança adorava cantar no coro da Igreja. E foi numa conversa descontraída que nos explicou o que o motiva, a razão que o levou a escrever este livro e, porque o devemos ler.












MBC - Todos os dias enfrentamos uma batalha interna para nos mantermos afastados das tentações. Na sua opinião quais são as consequências se cedermos a algum dos sete pecados mortais?
JL - Sabendo que em última análise leva a consequências anti-sociais. Se alguém é muito orgulhoso, preguiçoso, zangado, invejoso, as pessoas ao seu redor acabam por se sentir entediadas e simplesmente afastam-se por não quererem perder o seu tempo com uma pessoa assim.

MBC – Algum dos sete pecados mortais se sobrepõe aos demais?
JL – Não! São todos preocupantes e a melhor maneira de os manter sob controle é lembrarmo-nos que as conexões sociais não são apenas agradáveis de ter, mas também vitais para a nossa saúde física e mental.

MBC – É possível encontrarmos esse equilíbrio?
JL – Sim se forem levados em moderação.

MBC – É possível fazê-lo sem cairmos em tentação em alguma parte do caminho?
JL - A tentação é boa para o nosso bem-estar, mas levada aos extremos torna-se anti-social, e se nos deixarmos arrastar por qualquer uma delas corremos o risco de perder as nossas conexões sociais.

MBC - Na Gula em particular pensa existir uma solução para controlarmos os nossos impulsos?
JL – Em relação à comida, resistir à tentação torna-se mais difícil. Durante milhares de anos os humanos viveram numa situação em que não sabiam quando conseguiriam arranjar comida e, se a mesma seria suficiente. Muitos morriam de fome. Mas é evidente que agora o ambiente mudou, há o suficiente para todos e, como temos comida em abundância. adoptámos uma abordagem um pouco diferente.

MBC – É verdade que existe abundância, mas isso também não traz forçosamente benefícios e, estou a pensar nas diversas doenças associadas aos excessos.
JL – É verdade que para quem sofre de Gula, existem uma série de inflamações associadas não só ao corpo, mas também ao cérebro. Temos as alterações de humor, o colesterol elevado, só para falar de alguns problemas. A nível do cérebro a inflamação começa a limitar as capacidades cognitivas, começamos a pensar mais lentamente, torna-se difícil solucionar problemas e, na meia-idade o cérebro será o de alguém com pelo menos mais dez anos do que a sua idade real.

MBC – O que podemos fazer para conseguir controlar os nossos impulsos, concretamente em relação à Gula?
JL – A melhor maneira de tentar refrear essa tentação é perceber que há uma enorme conspiração multinacional. As grandes empresas de alimentos publicitam anúncios de uma forma que faz com que o consumo pareça perfeitamente normal e com as campanhas que promovem aumentam-no substancialmente para obterem lucro. O problema é que os principais consumidores são cada vez mais jovens.

MBC – Concorda que se consume mais do que o necessário. O que podemos fazer para combater essas grandes companhias?
JL – Esta é a nossa presente realidade. Para as grandes companhias, os consumidores fazem esse consumo numa quantidade que para eles é considerada perfeitamente normal. Mas, se perguntar a um médico, a maioria dos produtos são demasiado calóricos. Só para que veja a que nível já sofremos uma lavagem cerebral dou-lhe como exemplo uma lata de Coca-Cola, de Pepsi. Se tiver mais de onze anos uma só lata tem o açúcar necessário de que necessita para um dia inteiro.

MBC – Mas o açúcar também nos faz falta. Em que medida podemos medir o que consumimos?
JL - Se praticar muito desporto pode ingerir essas quantidades de açúcar. Além do mais é verdade que o nosso cérebro necessita de muito açúcar quer esteja em repouso ou a pensar. Mas, mesmo assim não consegue queimar todo o açúcar contido em quatro latas de refrigerante. Sem falarmos que rotineiramente as pessoas adicionam açúcar ao chá, ao café, e não nos podemos esquecer de que na maior parte das vezes ainda acompanham estas bebidas com uma sobremesa. Com cada café um pastel de nata.

MBC – Possivelmente a maioria das pessoas não tem noção do que me acabou de dizer.
JL - Garanto-lhe que as pessoas ficam atordoadas quando são confrontadas com esta realidade.




MBC – Achei interessante que falasse do café com o Pastel de Nata. Até porque a maioria dos portugueses tem realmente esse hábito. O Jack das vezes que esteve no nosso país já se terá convertido à nossa doçaria?
JL – A verdade é que em Londres temos uma excelente pastelaria portuguesa. E sim confesso ser um grande apreciador do Pastel de Nata.



MBC – Ainda existirá alguma maneira de reverter o controle que as grandes companhias exercem sobre nós?
JL – Neste momento só uma revolução poderia alterar esta situação.

MBC – O que pensa em relação a fast-food e, aos suplementos alimentares?
JL – Como em tudo na nossa vida o segredo está na moderação, nada em excesso.

MBC – Algum destes pecados se aplica particularmente a si?
JL – Todos! Mas com a moderação de que tenho falado tento sempre evitar ao máximo os excessos.

MBC – Mas terá certamente algum que se destaque?
JL – O que sempre mais me preocupou foi o Orgulho. Sempre fui muito inteligente em todo o meu percurso escolar, um bom desportista. Recebia regularmente elogios que me enchiam o ego e, chegou uma altura na minha vida em que fiquei preocupado. Temia que os meus feitos me pudessem transformar em alguém arrogante, que me considerasse melhor do que todos. Isto fez com que lutasse arduamente para não seguir por esse caminho. Cheguei inclusive a fazer um teste para ver se teria uma personalidade narcisista e, confesso que fiquei espantado por os resultados terem apresentado valores inferiores.
Mas, também sofro de Gula. Como a maioria das pessoas encontro um enorme prazer na comida. No entanto comecei recentemente a fazer muito exercício pelo que consegui encontrar um equilíbrio para compensar tudo o que ingiro.

MBC – Disse que praticou desporto durante o seu percurso escolar, no entanto vi um vídeo que colocou no seu site em que está numa sessão de exercícios de cansar qualquer um.
JL – Sempre pratiquei enquanto estive na escola depois parei. Mas em Janeiro deste ano estive na Tailândia, fui convidado a ficar em casa de um conhecido que como está desempregado está permanentemente a fazer exercício, principalmente de manhã e, sempre durante mais de uma hora seguida. A única condição que me impôs para ficar na sua casa, como seu convidado, era que fizesse exercício com ele. O pior ao início é que se tentasse colocar açúcar no meu café ele contrariava afirmando que dessa forma destruía a capacidade do meu corpo queimar gordura. Por isso durante esse período o meu pequeno-almoço passou a ser só café preto. Mas, a verdade é que o meu corpo mudou e perdi toda a gordura que tinha acumulada. Quando regressei a casa continuei a seguir os mesmos métodos e, agora não preciso de café da manhã até depois do meio-dia.

MBC – Sei que pratica Surf. Como consegue ter energia fazendo jejum?
JL – Estranhamente nunca pensei que fosse possível, mas a verdade é que me basta café simples e forte sem açúcar. O nosso corpo num período de doze horas sem ser alimentado, nas primeiras dez horas já perdeu todos os carboidratos de reposição e então começa a queimar gordura nas duas horas seguintes. É uma excelente forma de manter o corpo regenerado. Isto significa apenas que continuo a comer a mesma comida, mas em vez de o fazer em dezasseis horas, como num espaço de doze horas.

MBC – Neste momento da sua vida escreve livros e faz programas de televisão. Abandonou definitivamente a investigação na sua área da Neurociência?
JL – A verdade é que já não faço pesquisa, neste momento limito-me a ler as pesquisas dos meus colegas. Escrevo livros e faço televisão porque é algo que me satisfaz, mas como pagam pouco sou ainda Consultor e Orador motivacional, o que me permite viajar regularmente através de Inglaterra.

MBC – Apenas em Inglaterra?
JL – Já fui solicitado na Europa, mas ainda é raro. Numa média faço duas palestras na Europa e vinte em Inglaterra. Ainda na semana passada estive em Brighton, depois na costa sul, depois em Norwich na costa leste, na semana anterior em Yorkshire, depois na Escócia, e na semana anterior no País de Gales. Estou permanentemente em movimento com uma mala preparada para embarcar no próximo comboio.

MBC – O que o faz vibrar?
JL – Adoro particularmente o trabalho que faço com os professores, que por sua vez trabalham com crianças problemáticas. Crianças, que vivem em situações de miséria extrema, um pai com uma doença mental, alcoolismo, entre tantos outros problemas, tornando-as vulneráveis. Eu falo com os professores sobre neurociência, resiliência, da diferença entre uma criança que pode passar por enormes quantidades de stress e que não acaba por desenvolver nenhuma doença mental comparando-as àquelas que desenvolvem e, o que podemos fazer.
No fundo em conjunto com eles, ajudamos estas crianças a desenvolverem essa capacidade. Explicando aos professores como o cérebro funciona em termos de resiliência, dando-lhes algumas sugestões de coisas que podem fazer para ajudar as crianças a desenvolver essas aptidões. Se estão preocupadas com coisas que aconteceram no passado, ou se estão preocupadas com o futuro, ou se quando chegarem a casa ao final do dia o pai lhes vai bater de novo. Conseguimos ensinar-lhes pequenos truques que os impeçam de pensar no passado, no futuro e simplesmente viver no presente. Seja concentrando-se na sua respiração, focando-se numa parte de corpo ou até mesmo numa árvore que consigam ver através da janela.

MBC – Já teve algum retorno dos professores com os quais trabalhou? Se viram progressos nas crianças após a aplicação dos métodos que lhes transmitiu?
JL – Felizmente, sim. E o que me disseram foi simplesmente fantástico. Confessaram-me que antes de falarem comigo já tinham começado a perder o interesse no trabalho que faziam, que era muito difícil, cansativo, o que não ajudava a escassez de recursos. Mas que felizmente os ajudei a relembrar o motivo pelo qual o tinham começado a fazer. Em primeiro lugar e pela primeira vez em anos estavam ansiosos por regressar à escola. Esta é realmente a prova do melhor uso do meu tempo.

MBC – Então o que faz é colocar a pesquisa dos seus colegas em campo.
JL – Basicamente. O que é óptimo para mim que não gosto muito de fazer pesquisa.

MBCEstá a dizer-me que pega na informação deles, reúne os resultados e leva-os de volta para que os seus colegas possam analisar os dados que recolheu, publicar artigos e trocar informações sobre esses mesmos resultados com outros cientistas em conferências.
JL - É melhor para mim porque não sou o melhor pesquisador do mundo. Mas sou muito bom a ler as pessoas, a reunir informações. É como o que faço quando escrevo. Pego em tudo o que faço tentando ter uma visão de helicóptero sobre a situação em questão e apenas reúno as informações mais relevantes para contar a história.

MBC – Como consegue tempo para fazer tudo o que faz?
JL – Não tenho um emprego com horários, um escritório para o qual tenha que ir todos os dias. Sou eu que organizo o meu tempo e durmo todas as noites oito horas seguidas o que também ajuda.

MBC - Para aqueles leitores que olham para o seu livro e não sabem o que esperar, qual é o conselho que deixaria para que o lessem?
JL – O livro é uma espécie de aventura entre tudo o que a religião e a ciência dizem sobre a melhor maneira de podermos viver com os sete pecados mortais, fazemos as coisas com a moderação necessária para que sejam bons para nós. Avisando-nos, no entanto, que se forem levados aos extremos causam graves problemas. É um livro escrito de maneira acessível e interessante, sem a densidade da ciência nem a profundidade da religião. Aproveitando a melhor aprendizagem e as melhores evidências que ambas conseguem produzir, pegando no melhor das duas, juntando-as de maneira a tornar-nos melhores.



















Texto: MBarreto Condado
Fotos: Mário Ramires