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terça-feira, 12 de julho de 2022

CRÍTICA LITERÁRIA | " Onde me leva o coração ", de Sarah Ferguson, Duquesa de York | Topseller- Penguin Random House


 Texto: Isabel de Almeida
Jornalista | Crítica Literária

Onde me leva o coração proporciona aos leitores Portugueses a possibilidade de desvendar um interessante e inteligente romance histórico escrito escrito por Sarah Ferguson, Duquesa de York.

A obra tem por cenário a Inglaterra Vitoriana, tendo a acção início em 19 de Julho de 1865, em Londres e termo na Escócia no Natal de 1876. 

Nos vários segmentos narrativos a acção vai decorrendo não apenas em Londres, mas também na Irlanda, Nova Iorque e Escócia, locais por onde passa uma protagonista verdadeiramente memorável - Lady Margaret Montagu Douglas Scott, filha dos Duques de Buccleuch (uma família nobre Britânica que integra o núcleo próximo da circunspecta e metódica rainha Vitória).

Margaret vai ficar na memória dos leitores como uma protagonista intrépida, inteligente, determinada, corajosa, resiliente e muito à frente da sua época.

A narrativa tem início no momento em que a melhor sociedade da Londres Vitoriana se prepara para assistir ao momento solene em que o Conde de Killin se prepara para firmar noivado com Lady Margaret Scott a cobiçada filha dos Duques de Buccleuch, cumprindo-se assim o destino habitual e sonhado por todas as jovens nobres em idade de casar, cujo propósito é manter ou alargar o núcleo familiar base e serem esposas e mães dedicadas, nada importando os seus sentimentos, mas sim os deveres sociais que as oneram logo à nascença, na nobreza britânica em pleno século XIX e durante o longo reinado da Rainha Vitória.

Pois sucede que Margaret está pouco disposta a aceitar o seu dever social, determinada, com espírito crítico, ideias e vontade próprias não pretende anular o seu eu em nome de meras convenções sociais, não deixando contudo de, intimamente, se ver a braços com um conflito interno motivado pelo respeito e consideração que sente para com os país.

Interessante é assistirmos às atitudes desafiadoras e temerárias de Margaret para lutar por aquilo em que acredita, recusando-se aceitar a verdadeira escravidão social que a família lhe destinara, tal como às suas irmãs (estas sim, acatam a norma). 

Com um rico leque de personagens, vamos assistindo à interacção das várias personagens secundárias com a protagonista, à medida que a acção avança. Os capítulos são curtos, a escrita é fluída e cuidada, adaptada às convenções da época mas sem se tornar densa e está pautada por diálogos, chamando particular a atenção e permitindo manter a ligação constante entre os vários meios por onde Maragaret se vai movendo a troca de correspondência entre esta e amigos e familiares próximos, numa época em que a comunicação epistolar era lenta mas reduzia distâncias e evidenciava um sem fim de emoções, numa riqueza de vocabulário que se perdeu com a globalização e a imediatez dos meios de comunicação.

Sensível às causas sociais, preocupada com os que nada têm, Margaret revela-se uma benemérita desinteressada, criativa e dinâmica, não hesitando em arriscar ao percorrer as zonas mais pobres de cidades como Londres e Nova Iorque, tendo plena consciência de que uma das suas missões é cuidar daqueles que mais precisam, convivendo e intervindo em cenários de extrema miséria e probreza e sendo de assinalar e elogiar que a autora não revelou pudor em demonstrar as dificeis condições de vida dos mais pobres entre os pobres e as dificuldades que vivenciavam muitas crianças, tantas delas condenadas à partida à pobreza.

O romance apresenta ainda, de forma transversal e em toda a sua linha narrativa, uma sólida abordagem factual e crítica ao papel secundário da mulher nesta época histórica e nota de destaque para a interessante comparação entre a visão da mulher na sociedade Britânica e nos Estados Unidos, onde começavam a surgir naturalmente mulheres independentes e com influência que, inclusive, faziam do jornalismo e da escrita o meio de sustento.

Optámos por não levantar muito o véu sobre as personagens secundárias para não corrermos o risco de revelar mais aos leitores do que o que é desejável e suficiente, mas destacamos a evolução psicológica e afectiva da mãe de Margaret e ainda a ambiguidade da Princesa Louise, uma jovem filha da Rainha Vitória, a melhor amiga de Margaret que sempre oscilará na dúvida entre a opinião e crenças pessoais e o sentido de dever que assume como inerente à sua condição de mulher e de membro da família real.

Recomendamos a leitura da nota final da obra onde a autora revela a forma como realizou o trabalho de pesquisa e onde colheu a sua inspiração para conceber a marcante Lady Margaret.

Um romance histórico de fácil leitura, mas de extrema riqueza nos detalhes, na análise social, no incentivo a um olhar crítico  e reflexivo sobre a era Vitoriana (tema de especial interesse da autora) e com recurso a uma linguagem acessível , cuidada, fluída mas perfeitamente adequada ao contexto histórico da narrativa. Uma das leituras a saborear este verão, sem limites, apenas um alerta: este romance causa ressaca literária! 

Uma aposta de qualidade do Grupo Penguin Random House.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

DIVULGAÇÃO | O MORDOMO DO REI, DE PEDRO BELTRÃO | OFICINA DO LIVRO (ROMANCE HISTÓRICO) - GRUPO LEYA

Poucos anos depois da coroação de D. Sancho II, seu irmão mais velho, o jovem infante D. Afonso deixa Portugal e ruma a França, onde permanecerá quase vinte anos, sendo referido em várias histórias francesas como uma figura de extrema importância. Na sua comitiva, leva Pedro Ourigues, seu mestre de armas, e o filho deste, João Peres de Aboim, com quem virá a estreitar laços de amizade e de quem já não se separará até à morte. A aprendizagem de ambos no íntimo contacto com o monarca de França – Luís IX, mais tarde S. Luís – permitir-lhes-á compreender o sentido da governação com base na justiça e na paz e será muito útil quando D. Afonso regressar a Portugal para destronar o irmão, lutando pela modernização do País, a descentralização do poder, o aumento do nível de literacia e a redução do poder feudal.

O Mordomo do Rei é um romance que nos transporta para as transformações políticas, sociais e territoriais de um país que ainda se estava a definir, através da história do homem que foi a sombra do rei e zelou por ele e pelo reino de Portugal. 

domingo, 14 de junho de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA | "Café Amargo", de Simonetta Agnello Hornby | CLUBE DO AUTOR



Texto: Isabel de Almeida | Editora | Crítica Literária | Jornalista
Foto: D.R. Clube do Autor




" (...) embora devesse dar prioridade à instrução dos filhos varões em relação à sua adorada filha, encorajava-a a considerar-se igual a qualquer outra pessoa e a fazer-se respeitar, numa realidade em que era impensável as mulheres terem direito a voto."

Café Amargo, da autora Siciliana Simonetta Agnello Hornby é um brilhante romance histórico que nos traça o percurso de vida da protagonista - Maria - uma mulher forte, determinada, e que sempre lutou para conciliar da melhor forma a rígida tradição cultural da Sicília que secundariza o papel da mulher, afastando-a de questões como a cultura ou a política, com a sua mentalidade mais aberta, o seu espírito naturalmente curioso, a sua paixão pela música e pelo conhecimento em várias áreas, fruto dos princípios transmitidos pelo seu progenitor - Ignazio Marra, um Advogado socialista fiel à causa política que abraçou.

A acção vai acompanhando, com detalhes que resultam de um apurado trabalho de investigação documental, três momentos distintos da história da Sicília (e de Itália), o final do Século XIX ( quando se inicia a trama) quando os grandes proprietários começam a ver chegar ao fim o sistema económico feudal que ainda persistia na ilha; a I Guerra Mundial e o pós-guerra, a ascensão do Regime Fascista de Benito Mussolini; a II Guerra Mundial e os violentos bombardeamentos que deixaram um rasto de destruição na Ilha, em especial na bela cidade de Palermo.

A obra é também, assumidamente, uma saga familiar, e reúne um extenso leque de personagens principais e secundárias, apresentando complexidade nestes laços familiares que, também eles, sustentam de forma exímia a intriga e diversos conflitos inerentes ao desenvolvimento da acção, por isso, pareceu-nos bastante pertinente e útil o Índice das personagens principais que a autora inseriu no final da obra (páginas 353 e 354 na edição Portuguesa).

Os Marra, de que é representante o Patriarca Ignazio, são uma família tradicional com modestos recursos económicos, têm quatro filhos: Maria (a nossa protagonista), Filippo, Nicola e Roberto e acolheram no seu seio Giosuè  Sacerdoti (filho de Tonino, um Judeu de Livorno, amigo de Ignazio que faleceu mas antes pediu que este cuidasse do filho), Maricchia e Egle Malon (também acolhidas por caridade). Ignazio casou-se com Titina Tummia (muito mais jovem que ele e originária de uma família nobre que nunca viu com bons olhos esta união matrimonial) e vivem uma sólida relação amorosa que os faz enfrentar juntos todos os obstáculos que vão surgindo, inclusive, o facto de Ignazio, apesar de ser um excelente Advogado, ser muitas vezes ignorado por potenciais clientes devido à sua visão política.

Os Sala são uma família rica e influente, proprietários de minas de Enxofre e de um vasto património, e irão ficar ligados aos Marra através do casamento entre Maria  Marra e Pietro Sala, que se apaixona à primeira vista pela bela jovem que vê pela primeira vês em casa do pai, Ignazio, quando ali se dirigiu para tratar da compra de uma propriedade.

A primeira parte da trama corresponde ao enamoramento de Pietro Sala (um bon vivant, habituado a uma vida luxuosa, a gastos dispendiosos, ao convívio com a alta sociedade Europeia, a coleccionar arte e animais e plantas exóticos), e aqui surge a reflexão sobre a condição da mulher na sociedade ainda feudal da Sicília, Maria que sempre sonhara formar-se e ser professora aceita casar-se com Pietro, um homem mais velho que ela, que não ama, sentindo que, assim, libertará os pais do peso do seu sustento, sendo certo que estava disposta a trabalhar para sustentar os estudos dos irmãos e até de Giosuè (o seu melhor amigo, e que foi criado como se de mais um filho da família se tratasse). 

Giuseppina (Baronesa Tummia, por haver casado com Peppino Tummia, irmão de Titina), Sistina e Graziella ( irmãs de Pietro Sala) nunca aceitam Maria, que consideram inferior socialmente, e que lhes causa inveja devido ao facto de,  por ser uma pessoa bonita, inteligente, naturalmente sensível e bondosa, conquistar as boas graças do Sogro - Vito Sala - e aprender até a lidar com Anna, a sogra que se encontra mentalmente doente, serão firmes oponentes de Maria, a qual sempre irão hostilizar e criticar abertamente, não escondendo o quanto a odeiam.

As personagens mais fortemente modeladas e cuja evolução psicológica e amadurecimento vamos presenciando são precisamente Maria e Giosuè, que virão a descobrir que entre ambos existe uma relação que vai bem mais além da fraternidade, na medida em que viverão um amor sincero, forte, e que irá enfrentar duras provas como a distância física, as convenções sociais ( Maria é ainda uma mulher casada e mãe de família), o horror da II Guerra e o racismo e anti semitismo bem marcantes aos quais Giosuè não passará totalmente incólume,  muito embora comece por se afirmar enquanto Militar e consultor do regime Fascista, a verdade é que tudo mudará na sua vida com o surgimento do anti-semitismo muito por contaminação do regime Nazi, com o qual o Fascismo irá compactuar.

Já Pietro virá a revelar um lado negro, que apenas vai sendo revelado no decurso da trama, e que, curiosamente, dará a Maria a oportunidade de se afirmar como uma mulher forte, lutadora, responsável e merecedora do afecto e apreço do sogro Vito, assumindo o papel de defensora do património dos filhos Anna, Vito e Rita, entrando na gestão directa dos negócios da família, nomeadamente, das Minas de Enxofre.

Especialmente marcante e pungente, duma violência extrema, é o retrato que a autora nos apresenta da vida nas minas de Enxofre, deixando marca indelével na memória do leitor as condições de vida desumanas a que são sujeitos os aprendizes de mineiro, que vêem mesmo a vida encurtada devido a tal facto e que nos mostra uma realidade bastante cruel que resulta de uma visão ainda feudalista da sociedade Siciliana ainda herdeira de outras eras mais recuadas.

A escrita da autora é densa, rica em detalhes, requer concentração na sua leitura, não sendo esta uma obra que aconselhemos a ler de ânimo leve, mas não é, de todo, fastidiosa  esta leitura, é sim envolvente, arrebata-nos a alma, espicaça-nos o pensamento, enriquece-nos o conhecimento e faz-nos pensar na evolução da sociedade, no muito que mudou, e no outro tanto cuja semente permanece adormecida mas assustadoramente pronta a germinar de novo, sendo disto exemplo: o preconceito perante minorias, o racismo, novos tipos de colonialismo (revistos e actualizados e de que podemos considerar um bom exemplo o valor do petróleo), o risco de novos conflitos mundiais (com o perigo acrescido de meios bélicos ainda mais potentes e evoluídos).

O romantismo e a sensualidade também marcam presença, através da belíssima  e marcante e intensa história de amor entre Maria e Giosuè, cabendo destacar a troca epistolar entre ambos durante a II Guerra.

Também importa destacar a extrema riqueza de detalhe com que a autora faz a descrição das paisagens da Sicília, e do interior e vivência quotidiana dos vários núcleos familiares, ao longo dos vários períodos históricos que são percorridos na obra. A riqueza do registo descritivo despertará nos leitores uma nítida imagem mental que, certamente, evoca o nosso imaginário e tem o risco de suscitar o desejo de partir à descoberta dos cenários físicos onde se desenrola a narrativa, fica-nos ao menos o sonho de desvendar Palermo e cada recanto da Sicília ainda desconhecido, ou a revisitar, se for o caso.

Para concluir, é muito interessante analisar a evolução da metáfora pessoal e de narrativa familiar que contém a expressão que dá título ao livro, e que foi traduzida literalmente ( e em boa hora), "café amargo" pode ser caracterizado enquanto o percurso pessoal de amadurecimento e afirmação da alma muito feminina e da determinação, coragem e resiliência de Maria ao longo do seu percurso de vida.

Tudo é perfeito neste livro, de tal forma que intuo que, depois do muito que referi, irei lembrar-me de outros tantos aspectos  que o tornam fascinante e inesquecível, atrevo-me a sugerir uma nova leitura numa viagem a Palermo.


" - O amor à primeira vista, consome-te.(...)"


" Não estou apaixonado por ti, eu vivo de ti...Maria (...)"


Ficha Técnica do Livro:

Título: Café Amargo

Autora: Simonetta Agnello Hornby

Editora: Clube do Autor

Edição: Junho de 2017

Nº de Páginas: 368

Classificação: 5/5 Estrelas

Género: Romance Histórico

quinta-feira, 14 de abril de 2016

[Cultura - Divulgação Literária] Joana Bouza Serrano lança novo Romance Histórico " A Duquesa de Mântua", com Chancela Esfera dos Livros

Eis uma notícia que, certamente, será do agrado de todos os adeptos do romance histórico, a partir de amanhã - dia 15 de Abril, estará disponível nas livrarias de todo o país o mais recente romance histórico de Joana Bouza Serrano, com chancela da Esfera dos Livros, sob o título "A Duquesa de Mântua".

O livro dá-nos a conhecer o universo de Margarida de Mântua, a princesa Italiana que chegou a ser Vice-Rainha de Portugal, em tempos conturbados que antecederam a Restauração da Independência Nacional de 1 de Dezembro de 1640.

[Sinopse da Obra]:

No dia 1 de Dezembro de 1640, por entre as armas dos fidalgos e a exaltação popular, a Duquesa de Mântua assoma corajosamente à varanda do Palácio Real, em Lisboa, tentando travar o golpe de Estado que estava em vias de pôr fim a seis décadas de domínio Castelhano. Margarida de Mântua chegara a Lisboa em 1634, com a incumbência de governar o reino em nome de Filipe IV de Espanha. Nesse período conturbado, marcado por revoltas populares contra o aumento dos impostos e pelos constantes ataques ao Império Colonial Português por parte dos inimigos da Monarquia Hispânica, Filipe IV e os seus conselheiros haviam decidido enviar para Lisboa alguém cuja lealdade não pudesse ser posta em causa: uma princesa de sangue real, prima do monarca e bisneta de duas infantas portuguesas, que crescera na corte de Saboia, embalada pelo mito do avô espanhol, o poderoso Filipe II, que reinara sobre o maior Império que jamais existira. Em A Duquesa de Mântua, Joana Bouza Serrano, historiadora e autora de As Avis, dá-nos a conhecer a vida atribulada desta altiva e determinada princesa que foi vice-rainha de Portugal.

[A Autora]:

Joana Bouza Serrano


Joana Bouza Serrano é licenciada em História e mestre em História Moderna e dos Descobrimentos pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Em 2009, publicou "As Avis", também com a Esfera dos Livros.


Texto: Isabel de Almeida/Nova Gazeta com Esfera dos Livros
Fotos: Gentilmente Cedidas por Esfera dos Livros