segunda-feira, 21 de setembro de 2026
CAMINHAR, de HENRY DAVID THOREAU | LUA DE PAPEL
O ensaio foi publicado em 1862, pouco depois da morte do autor. Mas tinha raízes antigas, reflexões que o acompanhavam desde os vinte anos, quando (já então), nas entradas dos seus diários, questionava o modo de vida dos seus contemporâneos.
O novo homem que então se multiplicava no sufoco das cidades afastava-se da sua humanidade; porque a introspeção e o autoconhecimento não moravam no espartilho da urbe, só podiam ser procurados entre as árvores, os rios, os campos.
Caminhar é muito mais do que um texto seminal para os movimentos ecologistas. É sobretudo uma digressão filosófica do autor pelos temas que lhe são mais caros, aqui sintetizados em cenário bucólico, ao ritmo de um caminhante à procura de si mesmo.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
CORREU BEM, MIÚDO, de ANTHONY HOPKINS | LUA DE PAPEL
Para os colegas, era o "Cabeça de Elefante", um miúdo estranho, apático, que não se interessava por nada. Os pais, gente remediada de uma aldeia industrial do País de Gales, viam com aflição o filho desajeitado, mau aluno, que inscreveram num colégio interno na esperança de que se emendasse.
Não aconteceu: durante anos opôs-se aos professores com uma insolência feroz, invariavelmente punida com castigos corporais. Porém, uma série de momentos fortuitos começou a empurrá-lo para o palco. Primeiro viu o filme Hamlet e ficou deslumbrado; pouco depois, a deambular pela escola, deparou-se com o ensaio de uma peça de teatro - onde acabaria por se estrear.
Na verdade, já desde pequeno que revelava inclinações artísticas, fosse a desenhar, a tocar piano ou a recitar poemas. Dotado de uma memória prodigiosa, viria a tornar-se um dos mais conhecidos e premiados atores da sua geração - vencedor de dois Óscares, atingiu o pico da fama ao interpretar Hannibal Lecter em O Silêncio dos Inocentes. Mas foi por um triz que esse Anthony Hopkins, que conhecemos das passadeiras vermelhas de Hollywood, não se perdeu. Nesta autobiografia, de uma honestidade notável, recorda o seu tortuoso caminho para o estrelato. Vemos como se foi isolando, como se tornou dependente do álcool, como destruiu o primeiro casamento e alienou para sempre a única filha.
Correu Bem, Miúdo, que inclui fotografias do álbum pessoal do ator, é uma memória crua e apaixonada de um homem que cativou audiências em todo o mundo ao longo de mais de 60 anos. E que agora, em hora de balanço, se reconcilia com o passado.
segunda-feira, 29 de setembro de 2025
DESOBEDIÊNCIA CIVIL, de HENRY DAVID THOREAU | LUA DE PAPEL
Quase dois anos depois, em 1948, o pensador norte-americano fez uma palestra onde referiu aquele episódio, mas também o direito e o dever à Desobediência Civil. O texto deu origem a este livro, uma obra breve, que teve um alcance e uma influência extraordinários e duradouros - sendo uma das principais referências de Martim Luther King ou Mahatma Ghandi.
Escrito numa altura em que os Estados Unidos viviam num regime esclavagista e em que - tal como hoje - ambicionavam a expansão territorial (com a invasão do México), o livro mantém-se amplamente atual: se o Estado, democrático ou não, extravasa as suas competências, e oprime os cidadãos em vez de os servir, não terão eles o dever de se revoltarem?
Em nova tradução, com um perfil do autor e notas de João Carlos Silva que enquadram a obra para os leitores contemporâneos, Desobediência Civil é um clássico absoluto que deve figurar nas estantes de todos.
quinta-feira, 20 de março de 2025
MÁ TERAPIA, de ABIGAIL SHRIER | LUA DE PAPEL
Já ouvimos histórias de cirurgias que correram mal ou de diagnósticos errados. Muitos desses casos devem-se a erros médicos e podem ser fatais. Sabemos disso, e temos mecanismos para nos defendermos. Mas quem nos protege de um mau terapeuta? Mais importante ainda: quem protege os nossos filhos?
Nunca houve tantos problemas de saúde mental entre as crianças e adolescentes como agora. As receitas de antidepressivos dispararam e os comportamentos de automutilação multiplicam-se ao mesmo tempo que se multiplicam as consultas com psicólogos e psiquiatras. Como explicar esta gritante contradição?
Abigail Shreir, uma premiada jornalista, investigou o fenómeno e apresenta os factos em Má Terapia. Analisou números e estatísticas de saúde pública, falou com centenas de médicos, professores, pais e filhos. Concluiu que a indústria da saúde mental criou uma subcultura própria, especializada em rotular as crianças desde a infância: não são tímidas, sofrem antes de transtorno de ansiedade social; não são malcomportadas, mas padecem de perturbações de oposição e desafio… Comportamentos antes considerados normais nas crianças e adolescentes transformaram-se em doenças diagnosticáveis - o que leva a que pais e professores evitem a todo o custo traumatizar os jovens. Eles crescem presos aos telemóveis (isso sim, é permitido) mas, sem disciplina, sem ambição, com medo de arriscar. Tirar a carta de condução, por exemplo, é hoje assustador.
Os cuidados de saúde mental, ressalva a autora, são absolutamente essenciais para casos graves. Mas quando se trata de simples frustração, tristeza, desapontamento ou solidão, a melhor maneira de ajudar os nossos filhos é libertá-los da redoma onde nós (com a ajuda da indústria farmacêutica) os prendemos. Para que enfim possam crescer livres, maduros e autossuficientes.
Richard McNally, Professor de Psicologia, Universidade de Harvard
terça-feira, 18 de março de 2025
NO REINO DOS FANTASMAS FAMINTOS, de GABOR MATÉ | LUA DE PAPEL
Durante décadas, Gabor Maté trabalhou com pessoas com adições, sobretudo em Vancouver, enquanto ele próprio lutava contra os seus demónios. As vivencias e reflexões desses anos levaram-no a escrever No Reino dos Fantasmas Famintos que, entretanto, se tornou uma obra de referência internacional. O livro inspirou canções e poemas nos Estados Unidos, quadros em Espanha e produções teatrais na Roménia e na Hungria. É usado em instituições de ensino, em programas de aconselhamento de dependências e em unidades de tratamento, e serve de guia para polícias, guardas prisionais ou cuidadores.
Em 2018, o autor escreveu uma nova introdução - onde reflete sobre a crise mundial dos opiáceos sintéticos e refere Portugal como um exemplo de sucesso no combate ao consumo. É essa edição que agora se publica, pela primeira vez, no nosso país. E é a obra-prima do autor. Ao narrar a sua vida na Portland Hotel Society, uma organização sem fins lucrativos onde foi médico residente, Maté mergulha-nos num mundo sombrio onde os fantasmas famintos (numa alusão a Roda da Vida budista) vagueiam a procura de salvação - ou consolo.
Ouvimos as histórias dos marginalizados, ilustradas pelas fotografias de Rod Preston, e percebemos melhor o que Gabor Maté nos quer dizer: na raiz de qualquer dependência, desde o álcool aos smartphones, está o mesmo insaciável anseio por alívio ou realização. E por trás dele estão as marcas que o trauma deixou no corpo e na alma. Por isso, nunca se pergunte: Porque a dependência? A primeira pergunta deve ser sempre: Porquê a dor? E este livro, do autor de o Mito do Normal, responde com ciência, dados, estudos, rostos humanos e uma compaixão que nos comove profundamente.
Naomi Klein
«Todos deviam ler este livro.»
Johann Hari
sexta-feira, 10 de janeiro de 2025
A ÁLGEBRA DA RIQUEZA, de SCOTT GALLOWAY | LUA DE PAPEL
Certo dia um estudante chegou uma hora atrasado a uma das concorridas aulas de Scott Galloway na Universidade de Nova Iorque.O professor mandou-o imediatamente embora, a sua tolerância era de 15 minutos. O aluno não gostou e queixou-se num email indignado. Numa época em que o politicamente correto aconselharia ao silêncio, o autor deste livro respondeu-lhe com um épico raspanete - que se tornou viral. O professor, de origens humildes mas hoje milionário graças às empresas que fundou, continua a dar aulas naquela universidade. E a sua resposta não espanta quem o conhece. Afinal, o seu mantra para a riqueza implica apostar na nobreza de caráter - coisa incompatível com a interrupção grosseira de uma aula.
A Álgebra da Riqueza não apresenta folhas de Excel para preencher, nem conselhos para poupar na conta da luz. Defende, isso sim, uma filosofia de vida, dirigida a quem já tem um rendimento fixo, mas pretende ficar independente das amarras do emprego (e da ansiedade económica).
É preciso pois viver as virtudes estoicas da temperança, paciência e resiliência, aproveitar o tempo de forma produtiva (sendo as redes sociais o maior inimigo) e diversificar os investimentos. E tudo isto começa com a escolha da carreira (esqueça a paixão e aposte antes naquilo em que for bom), com a escolha da pessoa com quem vai viver (ou daqueles que o rodeiam) e, por fim, dos diferentes "cestos" onde coloca o seu dinheiro.
Apelidado pela revista Fast Company como o "Jordan Peterson liberal", e hoje um dos mais populares professores na área da gestão, Scott Galloway oferece aqui uma poderosa ferramenta para observarmos o mundo e agarrarmos as oportunidades que surgirem pelo caminho.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2021
CRÍTICA LITERÁRIA | "Não de Conto o meu Segredo", de Samantha Young | Lua de Papel - Grupo LeYa
Texto: Isabel de Almeida | Crítica Literária | Jornalista
Foto: D.R.
Não te conto o meu segredo é muito mais do que um romance com notas de erotismo, as expectativas eram bastante altas, mas o que esperava encontrar era apenas mais um romance estritamente erótico, ou essencialmente erótico, género literário do qual sou assumidamente apreciadora. Mas este livro é um romance erótico, mas vai bem mais além dessa categoria, que pode até considerar-se redutora para esta obra.
A autora apresenta uma escrita bastante acessível, correcta sob os pontos de vista gramatical e sintáctico, mas muito emotiva, imbuída de uma forte carga psicológica ao longo de toda a obra, e verdadeiramente viciante.
Neste livro encontrei das personagens mais densas e profundas com que já me havia deparado numa obra deste género literário, que de tão banalizado no mercado livreiro Português, leva já alguns leitores a equacionar que é apenas mais um romance erótico, muito colado a outros livros e autores que têm feito furor.
Joss Butler, uma jovem Norte Americana, filha de mãe Escocesa, procura refugiar-se na Escócia, com o intuito de se esconder de um passado trágico que a atormenta. Joss perdeu os pais e a irmã mais nova aos 14 anos, e ainda não conseguiu fazer o luto destas perdas trágicas.
Há também um segredo no seu passado, na sequência da morte dos familiares, que acaba por assombrá-la e causar um forte sentimento de culpabilização, ainda que irracional.
Esta pesada carga psicológica mal resolvida acaba por, obviamente e de modo bastante realista, condicionar a forma como Joss se envolve com novas amizades e potenciais parceiros românticos, optando por não se entregar às emoções e relações inter-pessoais, como mecanismo de defesa, receando sofrer novamente. Há pedaços de si mesma aos quais nem a melhor amiga da idade adulta pode aceder.
Em Edimburgo Joss instala-se como Hóspede em casa de Ellie, e trava conhecimento com o atraente e protector irmão desta - Braden Carmichael, um executivo bastante dinâmico, nascendo entre ambos uma irresistível atracção, à qual Joss vai resistir até ao limite, procurando não se envolver emocionalmente.
Sentindo-se insegura, assumindo as suas fragilidades, Joss dedica-se à escrita, trabalha num Bar, e acaba por procurar a ajuda profissional de uma Psicóloga [Dra Prichard].
O confronto consigo mesma, com os seus traumas, o facto de se sentir acarinhada por Ellie, com a qual vê nascer a contragosto uma sólida amizade, e desejada por Braden, leva Joss a reenquadrar toda a sua existência e a sua postura na vida.
Braden, também marcado por um trauma amoroso, é um homem forte, bem sucedido na vida, extremamente protector da meia-irmã Ellie, e que adopta para si mesmo a família de Ellie [os dois irmãos adolescentes - Declan e Hannah, a mae Elodie e o padrasto Clark]. O jovem terá pela frente o difícil desafio de quebrar as barreiras de defesa de Joss.
Um twist final irá ser decisivo para determinar o futuro dos dois protagonistas, bem como das personagens secundárias que compõem o núcleo relacional destes.
Irá Joss enfrentar em pleno os fantasmas do passado? Será Braden a pessoa capaz de inverter a rigidez emocional da jovem? As respostas para estas perguntas podem ser encontradas entre as páginas deste livro.
Uma narrativa complexa, bem construída, com twists surpreendentes, personagens bastante realistas e com personalidade bem vincada. Cenas de profundo erotismo pontuam a trama, mas não nos parece que se trate de um romance erótico tout court, é isso e muito mais.
Tragédia, luto, emoção, dramas pessoais, acontecimentos inesperados que podem mudar todo o curso da história para o melhor ou o pior, decisões e consequências, tudo está em jogo.
Leia este livro, o único risco que corre é ficar seriamente viciada, ao ponto de querer ler rapidamente os livros seguintes da série.
Admirável a maturidade que encontramos na escrita desta jovem autora Escocesa de apenas 27 anos de idade!
Uma sugestão de leitura ideal enquanto aguardamos pelas novidades literárias do novo ano que já estão em plena rampa de lançamento!
FICHA TÉCNICA:
Título: Não te Conto o Meu Segredo
Autora: Samantha Young
Edição: Junho de 2013
Editora: Lua de Papel [Grupo Leya]
Páginas: 415
Género: Romance Erótico/Romance
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