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segunda-feira, 14 de julho de 2025

CONDOR, de ANTÓNIO CARLOS CORTEZ | EDITORIAL CAMINHO


Condor é a ave altaneira que, na mitologia andina, representa o intermediário entre o mundo celeste e o mundo dos homens. Mensageiro divino, o condor é o maior pássaro da terra e o único animal que pode olhar o sol de frente, sem cegar.

Na leitura alegórica que António Carlos Cortez aqui propõe, o condor é o próprio poema, augúrio, profecia e símbolo de um despertar pessoal e colectivo. São muitos os ecos da tradição literária que funcionam como subtextos destes vinte e sete poemas longos. Kavafy, M. S. Lourenço, Pedro Salinas, Oscar Hahn, Propércio e Yeats; Verlaine, Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, Jorge de Sena, Sophia e Ramos Rosa; Gastão Cruz, Fiama, Octavio Paz e Karl Krauss, vozes convocadas em epígrafe ou transformadas em personagens do teatro dramático que o autor de Jaguar (2019) aqui constrói.

Dividido em quatro secções (Areia de Outono & Oito Meditações, Saturno, Coração do Livro e Condor), nestes 27 poemas Cortez responde quer à prosa poética de Jaguar, quer à arte sonestística de Diamante (2021), experimentando agora o poema longo, o verso caudaloso, a intersecção de planos (o real e o sonho, a vida e a morte, o furor e o amor, o passado e o presente).

A escrita obedece a uma dicção que oscila entre a melancolia e a violência da ternura.

quarta-feira, 12 de março de 2025

NÃO DIGAS O QUE A BAIANA TEM, de PAULO TEIXEIRA | EDITORIAL CAMINHO


Não Digas o que a Baiana Tem procura responder à questão: o que acontece quando conhecemos alguém?


Isabel, uma jovem portuguesa que chega a Salvador, cruza-se com os mais diversos interlocutores e, nesses instantes de troca verbal e proximidade física, as vidas iluminam-se e reflectem-se em cumplicidades inesperadas.

A narrativa regista os rituais do encontro, os diálogos ferinos, as letras de pagode, as coreografias ousadas. A festa surge como um espaço de realização pessoal, onde as personagens se vingam da rotina e da violência sempre presente.

O que o leitor tem em mãos é um romance lúdico e hilariante, que retrata as vivências da juventude e reproduz a rica e inventiva linguagem popular.

Em Não Digas o que a Baiana Tem o eu define-se na relação com o outro e a identidade é dada pelo lugar.

domingo, 11 de fevereiro de 2024

DIVULGAÇÃO | A GORDA, de ISABELA FIGUEIREDO | EDITORIAL CAMINHO


Maria Luísa, a heroína deste romance, é uma bela rapariga, inteligente, boa aluna, voluntariosa e com uma forte personalidade. Mas é gorda. E isto, esta característica física, incomoda-a de tal modo que coloca tudo o resto em causa. Na adolescência sofre, e aguenta em silêncio, as piadas e os insultos dos colegas, fica esquecida, ao lado da mais feia das suas colegas, no baile dos finalistas do colégio. Mas não desiste, não se verga, e vai em frente, gorda, à procura de uma vida que valha a pena viver.


Este é um dos melhores livros que se escreveu em Portugal nos últimos anos.

terça-feira, 28 de março de 2023

DIVULGAÇÃO | O CAÇADOR DE ELEFANTES INVISÍVEIS, de MIA COUTO | EDITORIAL CAMINHO

 

Mia Couto volta a um género literário que pratica com reconhecida mestria desde a sua primeira obra em prosa, a coletânea Vozes Anoitecidas, que a Caminho publicou no já longínquo ano de 1987.

O Caçador de Elefantes Invisíveis recolhe sob este título, que é também o de um dos contos antologiados, as belas histórias que a revista Visão vem publicando mensalmente.

Aproveitou a oportunidade para lhes dar uma demão, mais ou menos intensa aqui e ali, e presenteia-nos com um livro que está à altura das melhores obras que neste género se escreveram em língua portuguesa. O estilo é sóbrio e preciso, os temas são vários e diversos, o lugar donde o autor vê o mundo e o retrata neste livro é tão amplo que nele cabe tudo.

Entre a história do pobre velho, ou melhor, de um velho pobre que recebe em casa um enfermeiro em serviço de rastreio da covid 19, e, já no fim do livro, a conversa das estátuas que descem dos seus pedestais, descem e não são derrubadas, para conversarem sobre os males e os equívocos deste mundo, entre uma e outra destas histórias o leitor encontra personagens e cenas que não lhe sairão tão cedo da memória.

O Caçador de Elefantes Invisíveis é uma vez mais Mia Couto no seu melhor.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

DIVULGAÇÃO | VIAGEM AO CENTRO DO ESCURO, DE DAVID MACHADO (TEXTO) E MADALENA MONIZ (ILUSTRAÇÕES) | CAMINHO (INFANTIL) . GRUPO LEYA


A história de dois irmãos que enfrentam, juntos, o medo do escuro, com tudo o que a ausência de luz tem dentro: monstros, muita imaginação e aventuras fantásticas sem nunca saírem do quarto ou ligarem a luz. Que nos é contada por David Machado, autor de mais de uma dezena de livros para crianças.

terça-feira, 19 de abril de 2016

[Cultura - Crítica Literária] "Vamos Comprar um Poeta", de Afonso Cruz [Editorial Caminho]

Crítica Literária 

Texto: Isabel Alexandra Almeida/Nova Gazeta/Os Livros Nossos

Foto: Direitos Reservados - Editorial Caminho [Grupo LeYa]

Vamos Comprar um Poeta é um surpreendente grande pequeno livro da autoria de Afonso Cruz. Porque os livros, tal como as pessoas, não se medem pela extensão, mas pela qualidade, pela essência, pela personalidade própria, pela originalidade e pela capacidade de nos tirar da zona de conforto e de nos abanar a alma, e é precisamente isto que este pequeno grande livro faz connosco.

A premissa inicial é, desde logo, interessante, numa sociedade em tempo indeterminado, algures no futuro, a narradora participante descreve-nos uma sociedade materialista onde tudo é visto de modo quantificado ou quantificável, até mesmo as emoções, e os nomes sujeitos são meras combinações de números onde o peso das dízimas diz algo sobre a preponderância social de cada indivíduo.

Numa elegante prosa plena de ironias e toques de humor, entramos na intimidade de uma família [ a da nossa narradora] constituída pela própria, pelos pais e pelo irmão, e iremos conhecê-los quando se predispõem  a comprar um Poeta, visto que não suja e é relativamente fácil de manter em casa para entretenimento da família, sem consequências de maior na rotina de cada um [assim pensam os membros desta família].

E o Poeta chega a instala-se, ou melhor dizendo, é instalado num espaço exíguo num vão de escada e irá revolucionar a vivência economicista, quantificada e limitada deste núcleo familiar.

A sociedade imaginária narrada neste livro tem algo de assustadoramente familiar...embora esteja caricaturada e levada ao extremo, perdeu valores culturais, menospreza o conhecimento, a criatividade o peso e a relevância da imaginação, sendo impensável e mal visto socialmente desenvolver uma actividade intelectual que se afaste do campo dos números, da economia, da lógica fria do lucro e dos ilusórios prosperidade e crescimento.

Com inúmeras referências culturais, que são depois esmiuçadas em notas no final da obra, este livro tem o condão de nos fazer rir de nós próprios e do mundo que estamos a construir, sendo um belíssimo exercício contemporâneo do lema ridendo castigat mores de Gil Vicente.

A ler, a reler, a coleccionar, a recomendar e a reflectir de quando em vez! Parabéns Afonso Cruz.


Ficha Técnica da Obra:


Título: Vamos Comprar um Poeta


Autor: Afonso Cruz


Editora: Caminho [Grupo Leya]


Edição: Março de 2016


Páginas: 104


Género: Juvenil/ficção contemporânea

Nota de redacção: O exemplar da obra foi gentilmente cedido pelo editor para artigo de crítica literária.