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sábado, 24 de março de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | Os Miseráveis... ou Quo Vadis Advocacia Portuguesa? | ISABEL DE ALMEIDA

Corro o risco de me repetir, mas afinal, o propósito desta coluna semanal consiste precisamente em partilhar com o mundo aquilo que me faz pensar, que me incomoda, e que tantas vezes, mais do que incomodar me causa uma profunda revolta, uma indignação que me perturba de tal forma que tenho até alguma dificuldade em expressar por palavras o que me vai na alma.

Pedi emprestado a Victor Hugo o início do título deste artigo e é com profundo desgosto que, no ano em que completo dezoito anos de inscrição como Advogada, olho à minha volta e vejo-me forçada a concluir que somos, efectivamente uma classe pejada de "Miseráveis", note-se, e para que fiquem afastados os mal entendidos, não o digo com intuito de ofender ou diminuir quem quer que seja, até porque estaria a ofender-me a mim mesma! 

Passarei a explanar, de seguida, algumas das razões deste meu entendimento ( porque somos afinal, nós Advogados "miseráveis"?) e nem sequer tenho a pretensão de ser exaustiva na expressão dessas razões. Estas reflexões que hoje aqui partilho vêm sendo partilhadas e debatidas com um grupo próximo de amigos e colegas de trabalho, e fazendo justiça, quando reflectia entre amigos e colegas sobre o que poderia escrever e em que moldes o poderia fazer, a alusão literária a Vitor Hugo foi sugerida precisamente por um dos membros daquele que considero o meu núcleo duro de amigos e colegas que comungam destas mesmas preocupações (dado o adiantado da hora e não cito o nome da pessoa, que assim o fará publicamente em comentário a este texto, se assim o entender).

E deixando para trás as questões prévias, sinto-me grata por saber que existem, pelo menos, algumas pessoas que comungam desta minha preocupação, e que têm consciência de que somos uma profissão que corre sérios riscos de extinção na sua vertente mais tradicional ou clássica, se preferirem o segundo epíteto, salvo o devido respeito por formas diversas de trabalho, eu tenho de confessar que sempre fui idealista, e que a prática forense que me fez apaixonar e viciar por esta profissão foi a barra, a prática em pequena equipa, a adrenalina de ir aprendendo com a experiência, de fazer renovações pontuais na biblioteca jurídica e descobrir nos célebres "calhamaços" a doutrina certa para fundamentar os casos que vão surgindo, sem esquecer a jurisprudência!

Pessoalmente, ainda hoje continua a ser a adrenalina que me faz sentir um enorme prazer (e assumo, um, por vezes, inconfessado orgulho) quando entro numa sala de audiências para defender um arguido, ou para representar um assistente num processo crime, aquela indescritível sensação de conseguir improvisar (muitas vezes quando a produção da prova nos faz sentir que a linha condutora que tínhamos passado a noite anterior a afinar foi por água abaixo, sendo o direito penal uma das minhas grandes paixões!

A adrenalina flui e pode revelar-se produtiva e prazerosa quando nos sentamos em frente do computador com os nossos parceiros de escrita ideais, numa mesa repleta de livros, dossiers, apontamentos, notas soltas (algumas rascunhadas à pressa, em letra quase ininteligível, no primeiro pedaço de papel que estava à mão quando toca o telefone e algum dos parceiros teve uma ideia a desbravar e estudar mais a fundo na próxima reunião). Este tipo de trabalho é sempre pautado por uma ou outra piada que se debita para desanuviar a tensão, e constata-se que quem, como eu, está familiarizado com esta forma mais clássica (ou antiquada, dirão alguns) de trabalhar, imbuído do espírito de missão de conseguir fazer a justiça acontecer (ou ao menos tentar que ela aconteça e, nesse propósito, dar o nosso melhor) apresenta um raciocínio muito similar, ou complementar (eu sou a viciada na escrita cujos ímpetos de escrever peças processuais gigantes têm de ser contidos sabiamente pelos amigos e colegas que conseguem ser mais objectivos e práticos).

E agora, perguntaram os leitores, então mas se até agora o que foi descrito nos três parágrafos anteriores parece até bastante positivo, como se chega à conclusão de que somos "miseráveis"? A razão primordial já foi enunciada acima, é que tudo isto que acabei de descrever está em sérios riscos de extinção (nem quero pensar a que prazo). A advocacia nacional, nesta que considero ser a sua essência, está à beira de se desmoronar totalmente como um frágil castelo de cartas!

E porquê, entre várias outras razões, porque nos está a ser exigido, em tantos casos, pagar para trabalhar, ao invés de sermos pagos pelo nosso trabalho (reitero o meu veemente protesto e indignação quanto à inconstitucionalidade flagrante decorrente de pagar contribuições para um regime de previdência cuja base de incidência para o cálculo assenta em rendimentos presumidos e não reais), sentir e saber que muitos advogados vivem em situação de gravosa insuficiência económica e sem conseguir "pagar para trabalhar" nem, muito menos, "ganhar pelo trabalho que desenvolvem" e esta impossibilidade pode advir de motivos como: redução da carteira de clientes fruto da recente conjuntura económica negativa, o valor verdadeiramente proibitivo das taxas de justiça praticadas em Portugal que, a meu ver, violam o Direito de Acesso à justiça consagrado na Constituição (num pais onde o salário mínimo é de 580,00€ a taxa mínima para uma acção de valor superior à alçada da primeira instância é de 612,00€ em muitos processos); a perda de actos próprios de advogados que foram confiados a outras entidades públicas ou privadas; o simples e duro facto de os advogados serem seres humanos que podem adoecer e ficar incapacitados de exercer a sua profissão (podendo tal incapacidade ser temporária ou definitiva) e, nesses casos, não terem direito a baixa nem, tão pouco, à suspensão de pagamento de contribuições para a Caixa de Previdência ou das Quotas para a Ordem Profissional (as normas habilitantes em vigor não permitem excepcionar nem acautelar a necessária protecção perante situações excepcionais).

Assusta-me, indigna-me e revolta-me profundamente que existam colegas com penas disciplinares aplicadas por terem faltado a diligências por comprovadas razões de saúde, que mesmo perante os tribunais o justo impedimento para a prática de um acto processual pode não ser entendido de modo a abarcar diversas situações de impedimentos por motivos de saúde.

E deixo para o fim o caso mais grave, mais cruel, mais inacreditável, quando ousando ser humanos os advogados têm a infelicidade de ser acometidos de doenças oncológicas, de doenças crónicas, de doenças incapacitantes, a solução das instituições que deveriam zelar pelos seus associados é o expresso convite a sair, a suspender a inscrição. Esta postura institucional é para mim inconcebível, não consigo assimilar, não consigo calar-me, não consigo ficar indiferente, nem consigo perceber onde se encaixa uma situação destas num Estado de Direito Democrático como dizem ser o nosso!

São vidas que estão aqui em causa, é de seres humanos que se trata e não de números! São carreiras que podem ser ceifadas a qualquer momento, e sem alternativas profissionais viáveis, muitas vezes 10, 20 ou 30 anos de um projecto profissional que podem ser-nos tirados à força...como se gere uma perda de tal dimensão?

Numa triste  e cruel ironia, aqui se cruzam, pelo menos dois tipos de "miseráveis": os que caíram em desgraça porque se vêem doentes e pobres e todos os outros que olham de maneira indiferente, conformada e absolutamente passiva para este estado de coisas!

Lutamos todos os dias pelos direitos de outras pessoas, apaixona-mo-nos por essa luta, e por nós mesmos? Quem vai lutar? Até quando vamos tolerar ser os carrascos de nós mesmos por acção ou omissão? É "miseráveis" que queremos ser até ao fim? É desta contraditória massa que somos feitos? O que faremos com os despojos de nós mesmos? Quo Vadis? Precisamos de heróis obscuros, porque com os pseudo-heróis ilustres não me parece que possamos chegar a bom Porto!

"A vida, a infelicidade, o isolamento, o abandono, a pobreza, são campos de batalha que têm os seus heróis; heróis obscuros por vezes maiores do que os heróis ilustres." 

In, "Os Miseráveis", Victor Hugo


sábado, 13 de janeiro de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | Ordens Profissionais - Regular a prática profissional ou limitar o acesso? | ISABEL DE ALMEIDA

A crónica de hoje tem um tema sui generis, pode ferir diversas susceptibilidades, será assumidamente polémica, implica que comece com uma declaração de interesses respeitante ao perigo de generalizar situações, mas a opinião que me proponho hoje partilhar com os leitores resulta não de meras especulações, mas de aspectos que conheço por experiência própria, em resultado de ter uma tendência masoquista na escolha das áreas académicas pelas quais decidi enveredar, todavia, destaco que, naturalmente, não conheço o funcionamento de todas as ordens profissionais nacionais, mas não estou, de todo, satisfeita, com o funcionamento daquelas que conheço.

Com claros resquícios de um Corporativismo cinzento próprio de outros tempos, em teoria uma Ordem Profissional, abstractamente considerada, tem como propósito agregar e unir a classe profissional a que diga respeito, zelar pela verificação da adequação da formação académica dos seus membros às exigências próprias de especificidades inerentes às profissões em questão, defender publicamente e perante o poder político instituído, os interesses e direitos legítimos dos seus membros e exercer a actividade reguladora do exercício dessas profissões considerando a prática poder disciplinar entre os seus pares.

Teoricamente, e à partida, pareceria um conjunto de objectivos válidos, pertinentes e até razoáveis aqueles que justificam a existência das ordens profissionais já existentes bem como o surgimento de novas instituições deste género.

Então, perguntarão os leitores menos familiarizados com estas lides, o que há de errado com tão nobres propósitos?

O problema subjacente à manutenção, políticas de gestão e actuação destes organismos (situação em que muitas Ordens Profissionais acabam por redundar) é que se tornam em pesadas e milionárias máquinas administrativas, burocráticas que se alimentam das quotizações e emolumentos cobrados aos seus membros efectivos (e mesmo aos candidatos a membros efectivos, quando é imposto um período de estágio profissional que haveria de ser contemplado nos currículos académicos do ensino superior público e privado) e cuja inscrição é conditio sine qua non para que se possa exercer uma profissão dita liberal. 

Ora, a meu ver, estas profissões de liberais pouco ou nada têm, se a  inscrição é obrigatória, se há lugar à cobrança de valores a título de quotas e/ou emolumentos avultados, se, muitas vezes, a sua gestão fica entregue a uma elite que tantas e tantas vezes não tem a mais pálida noção da prática individual destas profissões, e das dificuldades que tantos profissionais enfrentam, em tempos de crise económica, por motivos de saúde, ou por tantos outros condicionalismos pessoais e regionais a que possam estar sujeitos, se a missão que fica em destaque é cobrar sem contrapartidas, e limitar o acesso a uma determinada profissão apenas em função da maior ou menor disponibilidade financeira dos candidatos a membros efectivos ou dos membros efectivos , o que sobra de nobres propósitos?

Neste país à beira mar plantado, e conhecido pelos brandos costumes, há jovens que entram nas nossas faculdades com um sonho e que saem de lá para enfrentar um pesadelo de expectativas goradas, e isto independentemente da vocação ou das qualidades que possam ter, simplesmente porque não existem contemplações para uma triagem em termos de status económico, que na verdade é aquele que, hoje em dia, define a aptidão ou não aptidão para ser profissional liberal em diversas áreas, e até define, ou poderá definir, em alguns casos, a continuidade de exercício dessa prática profissional.

Enquanto existir uma tendência de estratificação social para algo tão basilar quanto o acesso a uma profissão, enquanto o poder económico for factor primordial de selecção (não) natural neste âmbito, muito mal estará este país, e prevêem-se tempos agitados para breve, se calhar porque, a pouco e pouco, há mentes que começam a despertar para a necessidade de mudar situações instituídas, porque o Direito de Resistir à tirania dos números é algo que pode começar a ganhar voz.

Há que ter coragem de erguer a voz contra a metáfora Orwelliana de que "uns são mais iguais do que os outros" como contraponto ao verso de uma conhecida canção que reza assim: "Eu queria ser Astronauta, o meu país não deixou!"


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

CRÍTICA LITERÁRIA | "As Mulheres No Castelo", de Jessica Shattuck | PLANETA


Texto: Isabel de Almeida | Crítica Literária | Nova Gazeta




"As Mulheres No Castelo", é o título em tradução literal de um belíssimo romance histórico  cuja acção percorre cronologicamente o "antes", o "durante" e o "depois" da II Guerra Mundial, através da narrativa fascinante, vívida e forte que nos transmite emoções complexas e suscita a nossa reflexão apurada sobre aquilo a que podemos chamar de Psicologia da Guerra.

  Como protagonistas encontramos três viúvas de guerra Alemãs, cujos maridos foram enforcados por ordem directa de Hitler, na medida em que integraram a nem sempre muito falada ou reconhecida Resistência Alemã ao regime Nazi, tendo todos tido um contributo, mais ou menos directo, na tentativa de homicídio de Adolf Hitler perpetrada em 20 de Julho de 1944 (facto histórico conhecido como Operação Valquíria).

A aristocrata Marianne Von Lingenfels é uma mulher forte, corajosa e determinada, mas também dotada de uma visão algo antiquada da vida, visão esta que a levará a cometer erros com graves consequências no seu universo relacional. Marianne assume a incumbência de proteger as mulheres de todos os resistentes do grupo do marido - Albrecht - e do seu melhor amigo, o sedutor Connie Flederman, caso estes bravos resistentes não consigam sobreviver à justiça deturpada e cruel do III Reich.

Num curioso acaso, a guerra, bem como a morte dos maridos destas três mulheres em nome de uma causa comum, irão juntar sob o tecto protector do ancestral e envelhecido castelo Burg Lingenfels três pessoas de díspares meios sociais, com percursos de vida naturalmente distintos, até ao momento em que a II Guerra Mundial se torna o denominador comum entre  Marianne, Benita e Ania e a força motriz das dinâmicas que entre elas vão surgir.

Marianne irá acolher, proteger e desenvolver uma forte amizade com Benita Flederman, a viúva do  seu amigo de infância Connie Flederman, sentindo-se também mãe do filho do casal   - Martin - a quem salva de um orfanato Nazi, devolvendo-o à mãe. Benita é uma mulher frágil, oriunda de um meio rural, apaixonou-se por Connie, mas carrega em si a raiva inconsciente, misturada com a culpa, ai sentir que nunca entrou verdadeiramente no mundo do marido, o qual assumiu uma postura super-protectora relativamente à esposa, cuidando que esta passaria incólume ao horror da barbárie Nazi. Benita é uma mulher de paixões, é ambiciosa, gosta de coisas belas, é uma mãe apaixonada pelo filho, sensível, procura sempre encontrar a atitude certa, tomar as decisões mais adequadas, mas nem sempre a sua fragilidade emocional permitirá que seja bem sucedida ao encarnar o papel social que sempre  sonhou alcançar através do casamento com um homem de classe social elevada.

Ania é, talvez, a  mais complexa das três protagonistas. Verdadeira força da natureza e um nítido exemplo de resiliência, revela alguma contenção ao nível das emoções, sendo muito defensiva psicologicamente, mas é, afinal, alguém que carrega em si o peso de segredos surpreendentes e tem de aprender a lidar com a culpa, tantas vezes associada à luta pela própria sobrevivência e dos seus filhos - Anselm e Wolfgang, dois jovens reservados mas que muito devem à sua "mãe coragem". Também Ania provém de um meio social modesto, comparativamente com Marianne.

É muito interessante analisar, em termos de economia da narrativa, a interessante dinâmica que se estabelece entre Marianne Lingenfelds e Ania, pois é nesta sua amiga que Marianne irá encontrar a coragem, a determinação e o forte sentido prático que se revelam os complementos ideais para a personalidade vincada e o espírito de resiliência e liderança da aristocrata.

Com uma linguagem emotiva, um excelente ritmo narrativo que nos leva a querer avançar rapidamente na leitura, uma narrativa muitíssimo bem construída que tem por base uma excelente investigação histórica e que foi inspirada em histórias reais de familiares da autora, estamos perante um dos melhores livros de ficção histórica internacional que chegaram recentemente a Portugal. 

Apesar da forte componente ficcional e dramática, e de uma visão assumidamente feminina da guerra, este livro leva-nos a uma reflexão interessante e pertinente acerca da forma como um conflito armado leva a alterações profundas no código de valores instituído em qualquer sociedade, num ambiente em que, tantas vezes, cumprir regras que vão contra os princípios morais e éticos usualmente reconhecidos, faz a diferença entre sobreviver ou perecer.

Deveras interessante é podermos olhar para esta guerra a partir de dentro, da sua origem, ou seja, a partir da sociedade Alemã, e percebermos que nem sempre o conformismo aos horrores do regime Nazi foi o principio orientador das condutas de muitos homens e mulheres no decurso da II Guerra Mundial. Fascinante, poderoso e inesquecível, um livro que tem tudo para agradar aos adeptos da ficção histórica contemporânea.

Ficha Técnica.


Autora: Jessica Shattuck

Edição: Outubro de 2017

Editora: Planeta

Nº de Páginas: 360

Género: Romance Histórico | II Guerra Mundial

Classificação Atribuída: 5/5 Estrelas





terça-feira, 28 de novembro de 2017

CRÍTICA LITERÁRIA | " Anna e o Beijo Francês", de Stephanie Perkins | QUINTA ESSÊNCIA


Texto: Isabel de Almeida | Crítica Literária | Jornalista

Foto: Direitos Reservados | Grupo LeYa


   Anna e o Beijo Francês é, sem margem para dúvida, um divertido e refrescante romance destinado ao público mais jovem, que inserimos sem receio no género Young Adult, mas que promete também bons momento de entretenimento aos apreciadores de histórias românticas.

   Como protagonista desta narrativa temos Anna Oliphant, uma jovem Norte-Americana, filha de pais separados, é enviada para Paris, onde irá estudar num exclusivo colégio destinado a filhos das classes endinheiradas dos Estados Unidos, pelo seu pretensioso pai, um escritor de sucesso, admirado pelas massas e que é um produto da máquina de marketing editorial que o dominou, nas palavras de Anna:"Foi por altura do divórcio que todos os vestígios de decência despareceram e o seu sonho de ser o próximo grande escritor do Sul foi trocado pelo de ser o próximo escritor publicado. Então começou a escrever aqueles romances passados em pequenas povoações da Georgia sobre pessoas com Bons Valores Americanos que se Apaixonam e a seguir Contraem Doenças Fatais e Morrem."

   Triste por deixar para trás a mãe e o pequeno irmão Sean, a melhor amiga Bridgette, e Toph, o candidato a namorado, a jovem começa por enfrentar um duro choque cultural, ao viver em Paris, sem dominar a língua Francesa, nem os costumes e tradições daquele pais Europeu, tão distante do seu em todos os sentidos.

  Mas é em Paris, no novo e selectivo colégio, que rapidamente faz um novo grupo de amigos: Meredith, Josh e Rashmi [um casal de namorados a atravessar alguma turbulência na relação] e Étienne St. Clair, por quem Anna começa a sentir algo mais do que amizade, desenvolvendo ambos uma relação muito cúmplice, apesar de este estar comprometido com Ellie, aluna de artes, que já terminou os estudos no colégio, estando na Universidade, e que deixou de manter contacto com os restantes amigos do grupo, quando havia sido a melhor amiga de Rashmi, até ao momento em que ambas frequentavam o ensino secundário.

   Inicialmente, Anna vai recebendo emails e chamadas telefónicas dos amigos que deixou nos Estados Unidos, mas alguma distância também afectiva irá alterar os dados destas amizades.

   Anna vai descobrindo uma nova cultura, novas amizades, e dá largas à sua grande Paixão - o cinema - tornando-se frequentadora habitual dos intimistas e pequenos cinemas locais, tendo muitas vezes por companhia Étienne, um jovem extremamente culto [adepto de história e de leitura]. Um detalhe bastante interessante em relação à nossa protagonista, é o facto de esta pretender ser crítica de cinema conceituada, tendo já uma considerável cultura cinematográfica, atenta a sua idade.

   A narrativa vai decorrendo com várias peripécias e twists até ao final, com o delicioso complemento da descoberta da cidade por Anna, que acabará por se tornar, de algum modo, uma Parisiense por paixão,  e a autora é perita em descrever ao detalhe a evolução emocional das personagens, a rebeldia própria da sua faixa etária no cenário mágico de Paris, permitindo ao leitor apaixonar-se também por estes espaços tão especiais, carregados de história e imensamente românticos.

  Étienne St. Clair é também uma personagem bastante densa e bem construída, nele encontramos um jovem inserido numa família disfuncional, com um pai egocêntrico e dominador, que controla todos os detalhes da vida do filho e da própria ex-mulher, o que leva a que Étienne e a mãe nem sequer consigam ver-se o quanto desejariam, mesmo em situações de crise em que seria especialmente desejável tal contacto. Vive uma relação de puro comodismo com Ellie, mas receia quebrar esta estabilidade aparente!

   Num turbilhão de dúvidas, emoções à flor da pele, e num momento em que se desenham no horizonte as linhas do seu futuro, saberá Anna tomar as decisões mais adequadas em direcção à sua felicidade? E Étienne, estará disposto a arriscar e a enfrentar o pai e a eterna namorada Ellie, em busca de uma vivência mais desinibida?

   Rebeldia, sentido crítico, romance, mágoas, esperanças, sonhos e ternura, são as palavras que descrevem o quotidiano das várias personagens desta história bem contada e que se lê rapidamente. Uma boa aposta para o público mais jovem, e que bem pode ajudar a desenvolver hábitos de leitura, pela fluidez da escrita e pelo ritmo sempre equilibrado da mesma.

Adorei e recomendo!

Ficha Técnica:


Autora: Stephanie Perkins

Editora: Quinta Essência |  Grupo LeYa

Ano de Edição: 2015

Nº de Páginas: 288

Classificação: 4/5 estrelas

Género: Romance Contemporâneo | Young Adult


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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

CRÍTICA LITERÁRIA | " Quando éramos mentirosos", de E. Lockhart | ASA


Texto e Foto: Isabel de Almeida | Crítica Literária | Jornalista


   Quando Éramos Mentirosos, de E. Lockhart [Pseudónimo de Emily Jenkins, autora Norte-Americana a residir em Nova Iorque, detentora de um Doutoramento em Literatura Inglesa] constituiu uma excelente surpresa, tratando-se de um romance contemporâneo que pode ser inserido na categoria de Young Adult, mas que se destaca pela originalidade, pela especificidade, beleza e pelo carácter sui generis da escrita da autora, capaz de nos prender de forma verdadeiramente inebriante às páginas do livro.

   Como cenário central da narrativa vamos encontrar a bela ilha privada de Beechwood, no Massachusets, propriedade da poderosa, abastada e aparentemente perfeita família Sinclair, e o local de eleição para as férias de Verão deste clã.

  Os Sinclair ostentam e alimentam uma imagem pública de classe, beleza, bom gosto e fortuna, mas vamos ter oportunidade de ir desvendando obscuros segredos familiares, ao travarmos conhecimento com a narradora, e participante na trama, a jovem adolescente Cadence Sinclair Eastman, uma jovem inquieta, que evidencia uma nítida perturbação do foro psicológico ou mesmo psiquiátrico, mas que nos transmite o seu olhar sobre a intimidade familiar, convidando-nos a desvendar o que se esconde por detrás das belas mansões familiares e do universo à parte que constitui a Ilha privada da família.

  Logo no início do livro encontramos uma árvore genealógica dos Sinclair, e uma planta da Ilha, que nos facilitam a compreensão da história e o modo como se articula o dinamismo narrativo de todas as personagens. Iremos conhecer o rígido patriarca da família - Harris Sinclair e a esposa Tipper, bem como as suas filhas e sua descendência - Carrie Sinclair [mãe de Johnny e Will]; Bess Sinclair [mãe de Mirren, das gémeas Liberty e Bonnie, e do pequeno Taft], e Penny Sinclair [mãe da protagonista Clarence].

  À família juntar-se-á Gat, um jovem de ascendência Indiana, sobrinho de Ed [negociante de arte e companheiro de Carrie, por sua vez tia de Cadence] um jovem considerado pela família, intimamente, como um outsider de inferior classe social, mas que é acolhido para passar o verão, a partir dos oito anos, tendo perdido recentemente o pai. Gat revelar-se-á um jovem bastante atento, inteligente e culto, e a paixão que surge entre Cadence e Gat irá abalar, de algum modo, a estrutura familiar dos Sinclair, já bastante frágil, uma vez que vivem todos isolados em ridículas disputas pelo poder e pelo "ter", escondendo tudo o que é negativo e evidenciando uma perfeição que é completamente ilusória.

  Num mundo onde impera a dissimulação, a futilidade e a perturbação mental, Gat e Clarence, apesar de jovens, irão conseguir descortinar que muitos dos princípios e pressupostos ali vigentes estão, à partida, errados e são bastante limitadores em relação aquilo que é o mundo real cá fora!

  Os mais jovens vão reflectir, inevitavelmente, a instabilidade latente resultante de um mundo de aparências, de casamentos desfeitos, de relações afectivas falhadas desde a origem, e a narrativa divide-se entre o tom intimista, perturbador e perturbante tantas vezes assumido por Clarance, e o clima de mistério que se vai adensando até ao desenlace verdadeiramente genial e inesperado.

   Um livro que se lê de um ápice, que nos fará pensar sobre um certo estilo de vida que, estando aqui centrado na classe alta norte-americana, tantas vezes pode ser transversal a vários outros meios sociais e culturais, onde o poder, a riqueza e o sucesso aparentes escondem, muitas vezes, ocultas fragilidades.

Sublime,sui generis e um verdadeiro must read de indiscutível qualidade literária!


Ficha Técnica do Livro:


Autora: E. Lockhart

Editora: ASA [Grupo LeYa]

Edição: Maio de 2014

Páginas: 312

Classificação: 5/5 Estrelas

Género: Romance contemporâneo


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sábado, 4 de fevereiro de 2017

CRÍTICA LITERÁRIA | " O Carrinho de Linha Azul", de Anne Tyler


Crítica Literária

Texto: Isabel de Almeida 


O Carrinho de Linha Azul, de Anne Tyler, é um romance contemporâneo de cariz assumidamente literário, com uma prosa rica em detalhes descritivos em estilo intimista e levando os leitores a espreitar a narrativa familiar de uma família Norte Americana da Classe Média - os Whitshank.

Abby e Red Whitshank assumem o protagonismo da trama, enquanto Patriarcas do núcleo familiar composto por quatro filhos: Denny, Amanda, Jeannie e Stem, iniciando-se a narração nos anos 90.

Assumindo as rédeas da gestão das dinâmicas familiares e desejando ter uma família perfeita, Abby cria uma imagem mental idealizada da sua prole, tentando, por exemplo, desculpabilizar a ligação distante e ocasional do filho Denny à família. 

Denny  é, sem dúvida, a personagem mais marcante da história já que mantém com os pais e irmãos uma relação ostensivamente disfuncional, revelando-nos falhas na construção da sua identidade em termos psicológicos (nomeadamente, assumindo perante os pais a sua homossexualidade, mas tentando depois ignorar este aspecto, empenhando-se em relações afectivas de curta duração com diversas mulheres) e também deixando aos leitores pistas importantes quanto aos frágeis vínculos afectivos perante os familiares, com os quais nunca chega a identificar-se.

Vamos também acedendo a diversos episódios de anteriores gerações familiares, com recurso a analepses narrativas, técnica  esta que nos demonstra a enorme capacidade criativa de Anne Tyler e a sua mestria. Achámos bastante interessante a perspectiva do narrador não participante que, por vezes, se dirige directamente ao leitor, peculiaridade que mais prende e envolve o leitor no fio que vai sendo desenrolado deste "Carrinho de linha azul" [O título permitiu uma deliciosa tradução literal, nem sempre possível em Português].

O Carrinho de linha azul revela ser uma metáfora perfeita do curso de vida de toda uma família, ou de cada um dos seus membros individualmente considerados, sendo que o fio poderá apresentar mais ou menos nós, consoante os desafios e problemas que possam aparecer na vivência do dia a dia.

Emotivo, engenhoso, envolvente e muitíssimo bem escrito. Uma lufada de ar fresco neste início de ano.

Ficha Técnica:



Autor: Anne Tyler


Edição: Janeiro de 2017




Páginas: 376

Classificação atribuída no GoodReads/Blogue Os Livros Nossos : 4/5 


Género: Romance Contemporâneo


Nota de redacção: O exemplar da obra foi gentilmente cedido pelo editor para artigo de crítica literária.



quarta-feira, 30 de novembro de 2016

CRÍTICA LITERÁRIA | "Morre, Alex Cross", de James Patterson [ Topseller]


Texto: Isabel de Almeida

em colaboração com o blog parceiro Os Livros Nossos

Foto Capa: Direitos Reservados


Crítica Literária |  Classificação ****

Morre, Alex Cross, de James Patterson, traz-nos mais um ritmado romance policial do prestigiado autor Norte-Americano da série do já conhecido detective da Polícia Metropolitana de Washington, com todos os ingredientes que encontramos num bom filme de acção.

Alex Cross vê-se envolvido na investigação do desaparecimento dos filhos do Presidente dos Estados Unidos - Zoe e Ethan Coyle enquanto a capital se vê sob a ameaça de uma misteriosa organização terrorista do Médio Oriente, enquanto as diversas forças de investigação unem esforços e ultrapassam rivalidades para tentar vencer os fortes desafios que se lhes colocam.

O protagonista, Alex Cross, mostra-se envolvido na sua paixão pela investigação policial, enquanto acompanha a elevada tensão das agências de investigação, sendo comum a todos os agentes policiais o medo de chegar demasiado tarde perto dos filhos do Presidente dos Estados Unidos.

Simultaneamente, assistimos à entrada em solo Americano do Casal Saudita Al Dossari, operacionais de uma perigosa organização extremista do Médio Oriente cujo objetivo é tirar vidas e lançar sobre Washington um manto de terror e medo extensível a toda a população local, ainda que, para atingir tais metas, tenham de perder as próprias vidas.

Somos novamente transportados para os corredores do poder, ao mais alto nível político, confrontados com a ameaça terrorista que paira sobre os Estados Unidos e tudo o que este pais representa no panorama político e económico global.

Heróis e Vilões desfilam perante os olhos dos leitores com personalidades bem vincadas, revelando inteligência, determinação e empenho nas respectivas causas.

Depois, como que para atenuar a elevada tensão da trama narrativa, voltamos a encontrar o núcleo familiar de Alex Cross, sendo impossível evitar um sorriso carinhoso com as tiradas e ensinamentos sábios da avó Regina (Nana). É fácil empatizar com a união do clã Cross.

Acção, perigo, uma verdadeira corrida contra o tempo, a conciliação possível entre as exigências da vida profissional e pessoal, no ritmo rápido e envolvente a que o autor já, há muito, vem habituando os seus leitores. Entretenimento ao mais alto nível, ideal para quem já é fã, ou para leitores que queiram descobrir Patterson no seu registo muito pessoal e costumeiro, que não desaponta.


Ficha Técnica:

Título: Morre, Alex Cross

Autor: James Patterson

Edição: Outubro de 2016

Editora: Topseller / Grupo 20|20

Nº de Páginas: 352

Género: Policial


Saiba mais detalhes sobre esta e outras obras no site da Topseller, clicando AQUI


Nota de redacção: O exemplar da obra foi gentilmente cedido pelo editor para artigo de crítica literária.


sexta-feira, 29 de julho de 2016

[Cultura- Crítica Literária] "Promessa de Casamento" , de Jennifer Probst [Quinta Essência]


Texto: Isabel de Almeida

Nova Gazeta & Diário do Distrito

Blog Parceiro Os Livros Nossos


Promessa de Casamento, de Jennifer Probst, é o segundo romance da autora publicado em Portugal, com chancela Quinta Essência, 

Estamos perante um romance feminino contemporâneo com cenários entre Nova Iorque e Bérgamo (Itália).

A protagonista feminina é Maggie Ryan, uma bem sucedida fotógrafa habituada a trabalhar em campanhas publicitárias internacionais. Maggie foi criada numa família abastada, tendo vivido uma infância e adolescência sem ser objecto da atenção dos pais, que não foram figuras significativas no seu desenvolvimento e que descuidaram o mundo afectivo da filha. Maggie é uma mulher independente, determinada, mas que esconde algumas inseguranças no que diz respeito a relacionamentos afectivos, usando uma espécie de "armadura" que a protege de se envolver emocionalmente.

Ao frequentar o núcleo familiar e social do irmão Nick e da cunhada Alexa, Maggie trava conhecimento com um dos parceiros de negócio do irmão, o Conde Italiano Michael Conte, que a cunhada Alexa julga ser o par ideal para Maggie.

Michael Conte é um milionário Italiano, natural de Bérgamo, é oriundo de uma ortodoxa família Italiana, onde preservar antigos rituais e  regras sociais e familiares continua a ser muito importante. Assim, perante a tensão familiar que surge da prentensão da irmã mais nova - Venezia - em casar-se com o namorado Dominick, Michael é pressionado a casar-se primeiro, no sentido de fazer cumprir a tradição local de ser o filho primogénito o primeiro a contrair casamento.

Quase por impulso, de ambas as partes, Maggie vê-se arrastada para uma farsa familiar, cabendo-lhe o duro papel de fingir ser a mulher de Michael, para que Venezia possa então casar-se, e viajando com este para Itália.

Acreditando que Michael está apaixonado pela sua cunhada Alexa, Maggie aceita o desafio, em troca de este se afastar da convivência com o sócio Nick e a esposa Alexa, sem pretensões românticas e sendo apenas um bom amigo de Alexa, Michael aceita as condições em desespero de causa.

A partir daqui vamos assistindo a uma verdadeira luta de gigantes, é delicioso assistir ao constante desafio e às provocações que Maggie e Michael lançam constantemente um ao outro. 

A atracção física entre o falso casal vai aumentando, à medida que ambos se vêem a braços com o medo de ver descoberto o seu engodo, cujo propósito é, afinal, proteger e ajudar as respectivas famílias.

O romance apresenta, além de protagonistas fortes, uma excelente caracterização dos princípios e rituais de uma família tradicional Italiana, onde a gastronomia local e a sua confecção caseira assume particular relevância. Toda a teia de dinâmica familiar e os seus pequenos dramas mostra-se descrita de forma cativante, transportando-nos, de facto, para o seio da família Conte, sendo o negócio de pastelaria familiar - La Dolce Famiglia - uma belíssima metáfora de todo este ambiente familiar.

As personagens secundárias como Mama Conte, Venezia, Julietta e Carina, dão um importante contributo para o desenrolar da trama.

A química entre Michael e Maggie, a tensão sexual, e o quebrar de barreiras culturais e emocionais entre ambos é algo que foi sendo  construído de forma muito equilibrada pela autora, ao longo da obra, numa história que nos prende até à última página. Uma das leituras ideais para este Verão!

Ficha Técnica:

Título: Promessa de Casamento


Autora: Jennifer Probst


Edição: Junho de 2016


Editora: Quinta Essência [Grupo Leya]


Páginas: 240


Classificação atribuída no GoodReads/Blogue Os Livros Nossos : 5 /5


Género: Romance Contemporâneo


Nota de redacção: O exemplar da obra foi gentilmente cedido pelo editor para artigo de crítica literária.




sexta-feira, 22 de julho de 2016

[Lifestyle - gastronomia] Retiro Azul, sabores de Palmela com toque caseiro


Texto: Isabel de Almeida

Nova Gazeta & Diário do Distrito

Foto: Retiro Azul - D.R.

O Restaurante Retiro Azul, sito em Palmela, bem pertinho da Estação Rodoviária, reabriu recentemente com nova Gerência, estando as honras da casa confiadas à arte Gourmet do Chef Paulo Barradas.

O espaço tem um aspecto clássico muito cuidado, decorado com belíssimos vitrais embutidos em painéis de madeira escura. com ar sóbrio e acolhedor, e com a temperatura ideal para estes dias de verão, sem exageros no sistema de ar condicionado.

O pessoal prima pela simpatia, e quer o Chef Barradas quer os funcionários vão-se certificando de que os clientes estão a ser devidamente atendidos.

Em termos de oferta gastronómica, o resturante conta actualmente com duas modalidades, a escolha de um menu à la carte, com preços variáveis consoante os pratos escolhidos, ou o almoço Buffet,  servido de Terça a Sexta-Feira, composto por sopa, quatro pratos quentes distintos, entradas variadas que incluem mesa de queijos e salgados e ainda saladas simples e compostas à descrição. O Buffet em regime de self-service tem o valor por pessoa de 10,00€ e inclui, além da refeição base, uma bebida, café e sobremesa.

De entre as iguarias ao dispor no Buffet ( Caldeirada de Peixe, Lombo de porco com aromas da Arrábida, Churrasquinho ou Massa Penne salteada com vegetais e coentros) optei por saborear o Lombo de porco com aromas da Arrábida. O Prato era composto por deliciosas e suculentas fatias de lombo de porco assado no forno, temperado com molho de ervas aromáticas, sendo acompanhado por arroz branco. Completei com salada de beterraba e salada de tomate com queijo feta.

Para a sobremesa, de entre as várias opções todas elas deliciosas, a minha escolha recaiu sobre uma fatia de pudim de ovos caseiro, estilo flã, e posso dizer que ficou aprovadíssimo.

Para quem aprecie a cozinha tradicional Portuguesa, confeccionada ao estilo caseiro, com ingredientes locais de excelência, e com oferta variada e facilmente adaptável às necessidades alimentares de diversos perfis de cliente, num espaço muito agradável e com um serviço de elevada qualidade, recomendo sem hesitar este simpático espaço, e renovo os parabéns à equipa do Chef Barradas e da esposa Brigite.


Classificação atribuída: 5/5 estrelas
Bom ambiente 
Boa relação qualidade preço
Rapidez do serviço
Variedade da oferta
Simpatia do pessoal

terça-feira, 19 de abril de 2016

[Cultura - Crítica Literária] "Vamos Comprar um Poeta", de Afonso Cruz [Editorial Caminho]

Crítica Literária 

Texto: Isabel Alexandra Almeida/Nova Gazeta/Os Livros Nossos

Foto: Direitos Reservados - Editorial Caminho [Grupo LeYa]

Vamos Comprar um Poeta é um surpreendente grande pequeno livro da autoria de Afonso Cruz. Porque os livros, tal como as pessoas, não se medem pela extensão, mas pela qualidade, pela essência, pela personalidade própria, pela originalidade e pela capacidade de nos tirar da zona de conforto e de nos abanar a alma, e é precisamente isto que este pequeno grande livro faz connosco.

A premissa inicial é, desde logo, interessante, numa sociedade em tempo indeterminado, algures no futuro, a narradora participante descreve-nos uma sociedade materialista onde tudo é visto de modo quantificado ou quantificável, até mesmo as emoções, e os nomes sujeitos são meras combinações de números onde o peso das dízimas diz algo sobre a preponderância social de cada indivíduo.

Numa elegante prosa plena de ironias e toques de humor, entramos na intimidade de uma família [ a da nossa narradora] constituída pela própria, pelos pais e pelo irmão, e iremos conhecê-los quando se predispõem  a comprar um Poeta, visto que não suja e é relativamente fácil de manter em casa para entretenimento da família, sem consequências de maior na rotina de cada um [assim pensam os membros desta família].

E o Poeta chega a instala-se, ou melhor dizendo, é instalado num espaço exíguo num vão de escada e irá revolucionar a vivência economicista, quantificada e limitada deste núcleo familiar.

A sociedade imaginária narrada neste livro tem algo de assustadoramente familiar...embora esteja caricaturada e levada ao extremo, perdeu valores culturais, menospreza o conhecimento, a criatividade o peso e a relevância da imaginação, sendo impensável e mal visto socialmente desenvolver uma actividade intelectual que se afaste do campo dos números, da economia, da lógica fria do lucro e dos ilusórios prosperidade e crescimento.

Com inúmeras referências culturais, que são depois esmiuçadas em notas no final da obra, este livro tem o condão de nos fazer rir de nós próprios e do mundo que estamos a construir, sendo um belíssimo exercício contemporâneo do lema ridendo castigat mores de Gil Vicente.

A ler, a reler, a coleccionar, a recomendar e a reflectir de quando em vez! Parabéns Afonso Cruz.


Ficha Técnica da Obra:


Título: Vamos Comprar um Poeta


Autor: Afonso Cruz


Editora: Caminho [Grupo Leya]


Edição: Março de 2016


Páginas: 104


Género: Juvenil/ficção contemporânea

Nota de redacção: O exemplar da obra foi gentilmente cedido pelo editor para artigo de crítica literária.