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domingo, 1 de setembro de 2024

ENTREVISTA | B. XAVIER


Bianca Xavier é natural da Lourinhã, onde viveu toda a sua infância. E ainda que uma parte do seu percurso académico não tenha sido feito no seu concelho de residência, frequentou o 9º ano de escolaridade na escola Dr. João das Regras e o ensino secundário na Escola Secundária Dr. João Manuel da Costa Delgado na Lourinhã, onde começaria o seu percurso no vasto mundo da escrita.

Estuda Enfermagem na ESEnfC - Escola Superior de Enfermagem de Coimbra onde passa a maior parte do tempo e ainda que o curso exija a sua total dedicação, nos seus parcos momentos livres dedica-os a ler e a esboçar futuros livros.

Desde muito cedo que a sua paixão pela leitura, em especial romances, levaram-na a desejar passar para o papel os seus próprios sentimentos e vontades, conseguir proporcionar a leitores ávidos um vislumbre dos seus mundos continua a ser o seu objetivo, e tão naturalmente como respirar lançou o seu primeiro livro.

Entre a leitura, a escrita e o seu futuro como enfermeira, não se esquece de levar a vida ao som da música que adora, nas caminhadas que são o seu refúgio, e acima de tudo passar tempo de qualidade rodeada da família e dos amigos.








MC - Quem é a Bianca Xavier?

BX - Além de, recentemente, ser autora, sou também estudante de enfermagem. Sempre gostei de cuidar dos outros e foi por isso que escolhi este curso. Desde pequena que os livros fazem parte da minha vida e considero que me tornam numa pessoa mais criativa o que na minha perspetiva também melhora o meu desempenho enquanto futura enfermeira. Para além da leitura e da escrita, gosto de ouvir música, ver filmes e séries e ir à praia. Acredito que os livros podem ajudar a melhorar a vida das pessoas e por isso encaro a escrita como um desafio para atingir esse objetivo.

 

MC - Qual o motivo que te levou a assinar B. Xavier?

BX - Assim como quis dar ao meu livro um toque de mistério, decidi fazer o mesmo com o meu nome. Todos os que me conhecem associam facilmente o nome Bianca à minha pessoa, mas eu queria que as pessoas tivessem curiosidade em saber mais da autora e do que ela escreveu e não da pessoa em si. Daí a escolha de assinar B. Xavier.

 

MC - Dentro dos diversos géneros literários a fantasia é a tua escolha de eleição, porquê?

BX - Sempre gostei de filmes relacionados com fantasia, nomeadamente com o mundo sobrenatural. Apesar do romance ser um género literário que adoro, quis juntá-lo à fantasia. Com a fantasia sinto que posso levar os meus leitores para outro mundo, onde não existem os problemas e as preocupações do dia a dia. Todos precisamos de um escape de vez em quando e foi isso que eu quis dar aos meus leitores com "Mitos e Amores".

 

MC - Como surgiu a ideia para o "Mitos e Amores"?

BX - Tudo começou quando, no 11º ano, soube do concurso de contos na escola secundária que frequentava. Pensei em inscrever-me e ainda escrevi algumas ideias, mas acabei por não me sentir inspirada o suficiente para participar no concurso e guardei os rascunhos do que tinha escrito. Porém, no ano seguinte quando estava a estudar deparei-me com esses rascunhos e, ao relê-los, novas ideias começaram a surgir. Não sei se essa inspiração repentina se deveu ao facto de já não estar “presa” a um tema e poder escrever livremente ou se aconteceu por mero acaso. A verdade é que alguns meses depois já tinha o primeiro rascunho da obra “Mitos e Amores”.

 

MC - O porquê da escolha de Mértola?

BX - Apesar de estar a escrever ficção, quis dar um toque de cultura ao meu livro e dar a conhecer novos sítios do nosso país. Pesquisei lugares que estavam associados a histórias ou lendas de lobisomens e foi assim que apareceram as cascatas do Pulo do Lobo, que se localizam em Mértola.

 

MC - Com a universidade para quando um novo livro?

BX - Com a universidade, o processo de escrita tornou-se mais demorado do que esperava. Na universidade acabei por ter menos tempo livre do que o que tinha no secundário. Quando não tinha aulas ou exames, às vezes só me apetecia descansar e não me sentia inspirada para desenvolver novas ideias. No entanto, espero ter novidades em breve para os meus leitores.

 



Texto: Madalena Condado
Fotos cedidas pela autora


sexta-feira, 2 de abril de 2021

ENTREVISTA | Conversa com o escritor Manuel do Nascimento este sábado dia 03 de Abril , na RTP Internacional e RTP 1, no programa Hora dos Portugueses

 

Manuel do Nascimento, nasceu em Portugal e está radicado em Paris desde 1970.

Desde jovem um apaixonado por História, fez com que em terras gaulesas começasse a escrever vários livros em português, francês e ainda em português/francês- de modo a promover a história de Portugal. 

É considerado um autor anti obscurantismo pela história do seu povo. 

“Só é vencido quem desiste de lutar” 
Colabora com vários jornais dentro da comunidade portuguesa em França e no Canadá, desde há vários anos. 
Leitor na Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, desde 2012. Faz ainda parte do grupo de pré-seleção nacional dos primeiros romances de autores portugueses publicados no último ano, cujo objetivo é a participação dos mesmos no Festival do Primeiro Romance de Chambéry, em França.
  



último livro do autor


sábado, 3 de agosto de 2019

ENTREVISTA a Jack Lewis autor do livro, A CIÊNCIA DO PECADO / Edições Desassossego


“Para permanecermos nas boas graças das outras pessoas, devemos receber elogios com aparente humildade – mesmo que o nosso coração esteja pleno de arrogância, fel e orgulho”


(Orgulho, Gula, Luxúria, Preguiça, Avareza, Inveja, Ira)



Quisemos conhecer melhor Jack Lewis, o neurobiólogo e apresentador de televisão. Agnóstico confesso, que em criança adorava cantar no coro da Igreja. E foi numa conversa descontraída que nos explicou o que o motiva, a razão que o levou a escrever este livro e, porque o devemos ler.












MBC - Todos os dias enfrentamos uma batalha interna para nos mantermos afastados das tentações. Na sua opinião quais são as consequências se cedermos a algum dos sete pecados mortais?
JL - Sabendo que em última análise leva a consequências anti-sociais. Se alguém é muito orgulhoso, preguiçoso, zangado, invejoso, as pessoas ao seu redor acabam por se sentir entediadas e simplesmente afastam-se por não quererem perder o seu tempo com uma pessoa assim.

MBC – Algum dos sete pecados mortais se sobrepõe aos demais?
JL – Não! São todos preocupantes e a melhor maneira de os manter sob controle é lembrarmo-nos que as conexões sociais não são apenas agradáveis de ter, mas também vitais para a nossa saúde física e mental.

MBC – É possível encontrarmos esse equilíbrio?
JL – Sim se forem levados em moderação.

MBC – É possível fazê-lo sem cairmos em tentação em alguma parte do caminho?
JL - A tentação é boa para o nosso bem-estar, mas levada aos extremos torna-se anti-social, e se nos deixarmos arrastar por qualquer uma delas corremos o risco de perder as nossas conexões sociais.

MBC - Na Gula em particular pensa existir uma solução para controlarmos os nossos impulsos?
JL – Em relação à comida, resistir à tentação torna-se mais difícil. Durante milhares de anos os humanos viveram numa situação em que não sabiam quando conseguiriam arranjar comida e, se a mesma seria suficiente. Muitos morriam de fome. Mas é evidente que agora o ambiente mudou, há o suficiente para todos e, como temos comida em abundância. adoptámos uma abordagem um pouco diferente.

MBC – É verdade que existe abundância, mas isso também não traz forçosamente benefícios e, estou a pensar nas diversas doenças associadas aos excessos.
JL – É verdade que para quem sofre de Gula, existem uma série de inflamações associadas não só ao corpo, mas também ao cérebro. Temos as alterações de humor, o colesterol elevado, só para falar de alguns problemas. A nível do cérebro a inflamação começa a limitar as capacidades cognitivas, começamos a pensar mais lentamente, torna-se difícil solucionar problemas e, na meia-idade o cérebro será o de alguém com pelo menos mais dez anos do que a sua idade real.

MBC – O que podemos fazer para conseguir controlar os nossos impulsos, concretamente em relação à Gula?
JL – A melhor maneira de tentar refrear essa tentação é perceber que há uma enorme conspiração multinacional. As grandes empresas de alimentos publicitam anúncios de uma forma que faz com que o consumo pareça perfeitamente normal e com as campanhas que promovem aumentam-no substancialmente para obterem lucro. O problema é que os principais consumidores são cada vez mais jovens.

MBC – Concorda que se consume mais do que o necessário. O que podemos fazer para combater essas grandes companhias?
JL – Esta é a nossa presente realidade. Para as grandes companhias, os consumidores fazem esse consumo numa quantidade que para eles é considerada perfeitamente normal. Mas, se perguntar a um médico, a maioria dos produtos são demasiado calóricos. Só para que veja a que nível já sofremos uma lavagem cerebral dou-lhe como exemplo uma lata de Coca-Cola, de Pepsi. Se tiver mais de onze anos uma só lata tem o açúcar necessário de que necessita para um dia inteiro.

MBC – Mas o açúcar também nos faz falta. Em que medida podemos medir o que consumimos?
JL - Se praticar muito desporto pode ingerir essas quantidades de açúcar. Além do mais é verdade que o nosso cérebro necessita de muito açúcar quer esteja em repouso ou a pensar. Mas, mesmo assim não consegue queimar todo o açúcar contido em quatro latas de refrigerante. Sem falarmos que rotineiramente as pessoas adicionam açúcar ao chá, ao café, e não nos podemos esquecer de que na maior parte das vezes ainda acompanham estas bebidas com uma sobremesa. Com cada café um pastel de nata.

MBC – Possivelmente a maioria das pessoas não tem noção do que me acabou de dizer.
JL - Garanto-lhe que as pessoas ficam atordoadas quando são confrontadas com esta realidade.




MBC – Achei interessante que falasse do café com o Pastel de Nata. Até porque a maioria dos portugueses tem realmente esse hábito. O Jack das vezes que esteve no nosso país já se terá convertido à nossa doçaria?
JL – A verdade é que em Londres temos uma excelente pastelaria portuguesa. E sim confesso ser um grande apreciador do Pastel de Nata.



MBC – Ainda existirá alguma maneira de reverter o controle que as grandes companhias exercem sobre nós?
JL – Neste momento só uma revolução poderia alterar esta situação.

MBC – O que pensa em relação a fast-food e, aos suplementos alimentares?
JL – Como em tudo na nossa vida o segredo está na moderação, nada em excesso.

MBC – Algum destes pecados se aplica particularmente a si?
JL – Todos! Mas com a moderação de que tenho falado tento sempre evitar ao máximo os excessos.

MBC – Mas terá certamente algum que se destaque?
JL – O que sempre mais me preocupou foi o Orgulho. Sempre fui muito inteligente em todo o meu percurso escolar, um bom desportista. Recebia regularmente elogios que me enchiam o ego e, chegou uma altura na minha vida em que fiquei preocupado. Temia que os meus feitos me pudessem transformar em alguém arrogante, que me considerasse melhor do que todos. Isto fez com que lutasse arduamente para não seguir por esse caminho. Cheguei inclusive a fazer um teste para ver se teria uma personalidade narcisista e, confesso que fiquei espantado por os resultados terem apresentado valores inferiores.
Mas, também sofro de Gula. Como a maioria das pessoas encontro um enorme prazer na comida. No entanto comecei recentemente a fazer muito exercício pelo que consegui encontrar um equilíbrio para compensar tudo o que ingiro.

MBC – Disse que praticou desporto durante o seu percurso escolar, no entanto vi um vídeo que colocou no seu site em que está numa sessão de exercícios de cansar qualquer um.
JL – Sempre pratiquei enquanto estive na escola depois parei. Mas em Janeiro deste ano estive na Tailândia, fui convidado a ficar em casa de um conhecido que como está desempregado está permanentemente a fazer exercício, principalmente de manhã e, sempre durante mais de uma hora seguida. A única condição que me impôs para ficar na sua casa, como seu convidado, era que fizesse exercício com ele. O pior ao início é que se tentasse colocar açúcar no meu café ele contrariava afirmando que dessa forma destruía a capacidade do meu corpo queimar gordura. Por isso durante esse período o meu pequeno-almoço passou a ser só café preto. Mas, a verdade é que o meu corpo mudou e perdi toda a gordura que tinha acumulada. Quando regressei a casa continuei a seguir os mesmos métodos e, agora não preciso de café da manhã até depois do meio-dia.

MBC – Sei que pratica Surf. Como consegue ter energia fazendo jejum?
JL – Estranhamente nunca pensei que fosse possível, mas a verdade é que me basta café simples e forte sem açúcar. O nosso corpo num período de doze horas sem ser alimentado, nas primeiras dez horas já perdeu todos os carboidratos de reposição e então começa a queimar gordura nas duas horas seguintes. É uma excelente forma de manter o corpo regenerado. Isto significa apenas que continuo a comer a mesma comida, mas em vez de o fazer em dezasseis horas, como num espaço de doze horas.

MBC – Neste momento da sua vida escreve livros e faz programas de televisão. Abandonou definitivamente a investigação na sua área da Neurociência?
JL – A verdade é que já não faço pesquisa, neste momento limito-me a ler as pesquisas dos meus colegas. Escrevo livros e faço televisão porque é algo que me satisfaz, mas como pagam pouco sou ainda Consultor e Orador motivacional, o que me permite viajar regularmente através de Inglaterra.

MBC – Apenas em Inglaterra?
JL – Já fui solicitado na Europa, mas ainda é raro. Numa média faço duas palestras na Europa e vinte em Inglaterra. Ainda na semana passada estive em Brighton, depois na costa sul, depois em Norwich na costa leste, na semana anterior em Yorkshire, depois na Escócia, e na semana anterior no País de Gales. Estou permanentemente em movimento com uma mala preparada para embarcar no próximo comboio.

MBC – O que o faz vibrar?
JL – Adoro particularmente o trabalho que faço com os professores, que por sua vez trabalham com crianças problemáticas. Crianças, que vivem em situações de miséria extrema, um pai com uma doença mental, alcoolismo, entre tantos outros problemas, tornando-as vulneráveis. Eu falo com os professores sobre neurociência, resiliência, da diferença entre uma criança que pode passar por enormes quantidades de stress e que não acaba por desenvolver nenhuma doença mental comparando-as àquelas que desenvolvem e, o que podemos fazer.
No fundo em conjunto com eles, ajudamos estas crianças a desenvolverem essa capacidade. Explicando aos professores como o cérebro funciona em termos de resiliência, dando-lhes algumas sugestões de coisas que podem fazer para ajudar as crianças a desenvolver essas aptidões. Se estão preocupadas com coisas que aconteceram no passado, ou se estão preocupadas com o futuro, ou se quando chegarem a casa ao final do dia o pai lhes vai bater de novo. Conseguimos ensinar-lhes pequenos truques que os impeçam de pensar no passado, no futuro e simplesmente viver no presente. Seja concentrando-se na sua respiração, focando-se numa parte de corpo ou até mesmo numa árvore que consigam ver através da janela.

MBC – Já teve algum retorno dos professores com os quais trabalhou? Se viram progressos nas crianças após a aplicação dos métodos que lhes transmitiu?
JL – Felizmente, sim. E o que me disseram foi simplesmente fantástico. Confessaram-me que antes de falarem comigo já tinham começado a perder o interesse no trabalho que faziam, que era muito difícil, cansativo, o que não ajudava a escassez de recursos. Mas que felizmente os ajudei a relembrar o motivo pelo qual o tinham começado a fazer. Em primeiro lugar e pela primeira vez em anos estavam ansiosos por regressar à escola. Esta é realmente a prova do melhor uso do meu tempo.

MBC – Então o que faz é colocar a pesquisa dos seus colegas em campo.
JL – Basicamente. O que é óptimo para mim que não gosto muito de fazer pesquisa.

MBC - Está a dizer-me que pega na informação deles, reúne os resultados e leva-os de volta para que os seus colegas possam analisar os dados que recolheu, publicar artigos e trocar informações sobre esses mesmos resultados com outros cientistas em conferências.
JL - É melhor para mim porque não sou o melhor pesquisador do mundo. Mas sou muito bom a ler as pessoas, a reunir informações. É como o que faço quando escrevo. Pego em tudo o que faço tentando ter uma visão de helicóptero sobre a situação em questão e apenas reúno as informações mais relevantes para contar a história.

MBC – Como consegue tempo para fazer tudo o que faz?
JL – Não tenho um emprego com horários, um escritório para o qual tenha que ir todos os dias. Sou eu que organizo o meu tempo e durmo todas as noites oito horas seguidas o que também ajuda.

MBC - Para aqueles leitores que olham para o seu livro e não sabem o que esperar, qual é o conselho que deixaria para que o lessem?
JL – O livro é uma espécie de aventura entre tudo o que a religião e a ciência dizem sobre a melhor maneira de podermos viver com os sete pecados mortais, fazemos as coisas com a moderação necessária para que sejam bons para nós. Avisando-nos, no entanto, que se forem levados aos extremos causam graves problemas. É um livro escrito de maneira acessível e interessante, sem a densidade da ciência nem a profundidade da religião. Aproveitando a melhor aprendizagem e as melhores evidências que ambas conseguem produzir, pegando no melhor das duas, juntando-as de maneira a tornar-nos melhores.



















Texto: MBarreto Condado
Fotos: Mário Ramires







quinta-feira, 14 de março de 2019

LITERATURA | Excerto de entrevista do autor Nuno Nepomuceno

Nuno Nepomuceno, autor de A Última Ceia, deu uma entrevista ao blogue Crónicas de uma Leitora. Deixamos um excerto da entrevista concedida à nossa colaboradora Vera Carregueira.
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Não estamos perante um livro que possamos inserir num só género literário. Temos romance e um thriller num só, muita ação, suspense e amor. Acha que será mais fácil chegar a mais pessoas?
Sim, concordo com essa análise. Acho que o sucesso que o livro está a ter resulta sobretudo disso. De uma forma muito simples, mais do que um thriller, A Última Ceia é uma história de amor, um «conto» sobre a relação entre um homem e uma mulher. E esses sentimentos serão sempre universais.

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O que nos pode desvendar sobre as personagens principais? O que podemos esperar deles?
É uma pergunta interessante, pois este foi exatamente um dos desafios que a redação do livro me colocou. O casal de protagonistas é muito diferente. A mulher, Sofia, evolui imenso e acho que é a personagem com que o leitor se irá identificar mais. Tem todas as caraterísticas de uma heroína tradicional, incluindo a capacidade de sobrevivência. Já Giancarlo, o homem que a seduz, não. É uma personagem estática, sobre a qual sabemos logo no início do livro ser um vilão, um ladrão de arte, o que me obrigou a trabalhar o enredo para manter a narrativa interessante. Se pensarmos bem, já sabemos mais ou menos como é que o livro acaba quando ele começa.

Afonso Catalão volta a ter um papel fundamental no desenrolar da ação. Como tem sido desenvolver este personagem que nos acompanha desde A Célula Adormecida?


Tem sido muito gratificante. O professor Catalão é bastante diferente do meu primeiro protagonista, a personagem principal de O Espião Português e restantes volumes da série. Afonso, ao ser um homem mais velho, tem outra dimensão emocional, além de um passado obscuro, negro, fruto de alguém que, apesar de ser honesto, teve de sobreviver àquilo que a vida lhe deu. É uma personagem que faz o que considera ser correto e necessário para o bem maior, mesmo que para tal tenha de quebrar algumas regras. Os últimos capítulos de A Última Ceia revelam isso mesmo. Há mensagens subliminares nas linhas de diálogo do professor Catalão que nos deixam a pensar sobre a interpretação que devemos fazer dos factos narrados anteriormente.


Para lerem a entrevista na integra cliquem AQUI.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

ENTREVISTA | Rubrica: Mulheres empreendedoras #1


Cláudia tem 40 anos, é administrativa e mãe de 3. Tendo sentido necessidade de aumentar o rendimento familiar, procurou a melhor forma de rentabilizar o tempo livre com uma actividade que não lhe “roubasse” tempo em casa e que simultaneamente fosse prazerosa. Assim, depois de umas pesquisas e alguns contactos decidiu enveredar num mercado aliciante no qual tinha interesse há alguns anos. Cláudia tornou-se há cerca de um ano consultora da Maleta Cleo's Fantasy.

Como é que surgiu essa ideia?
A ideia já surgiu há uns anos, na altura em que se começou a ouvir falar em reuniões da maleta, mas na altura com duas crianças ainda muito pequenas e bastante dependentes de mim, não foi possível conciliar a vida familiar com mais um trabalho extra. O ano passado, devido a necessitar de ter um rendimento extra, fiz uma pesquisa sobre possíveis negócios em que não fosse necessário fazer um grande investimento e voltei a lembrar-me das tais reuniões. Procurei informação sobre o que seria preciso para iniciar e assim foi, um mês depois estava a fazer a minha primeira experiência no ramo do erotismo.

Porquê artigos eróticos quando há uma variedade tão grande de produtos que se podem vender online?
Para alem de um trabalho extra, queria também algo que me desse prazer em fazer. Sabes aquele trabalho em que não vês a hora de começar e ao mesmo tempo não queres que acabe tão cedo? Era isso que queria e consegui. Sempre me interessei pelos temas sexualidade e erotismo, fui descobrindo que é um tema muito abrangente e também ainda cheio de tabus. As reuniões permitem que eu fale sobre esses temas com outras mulheres. Durante cerca de duas horas, brinca-se e aprende-se ao mesmo tempo.

Sentes que ainda há muito preconceito?
Bastante. É um assunto Tabu. Vivemos numa sociedade de “rótulos”. Faças o que fizeres és “rotulada”. No que diz respeito a erotismo e sexualidade, seja quem vende, compra, etc, dá para imaginar os “rótulos” que são.
Por exemplo, esta semana uma revista perguntou num grupo de Facebook se haviam empreendedoras que quisessem oferecer algo dos seus negócios para um passatempo do dia dos namorados, em troca seria feita publicidade e divulgação da empresa. Eu enviei uma mensagem para a pessoa que fez o post. A resposta que me deram é que sendo um produto da área do erotismo não convinha. No entanto eu apenas dei a ideia de um kit com óleos de massagem e alguns lubrificantes. A caixa nem dá para perceber do que se trata.
Também já me aconteceu ter comprado um terminal TPA e passados uns meses fecharem a minha conta de cliente por se tratar de um negócio que eles consideram entretenimento de adultos.
Por tudo isto, preconceito é coisa que não falta. Preconceito e mal entendidos.
Tenho um perfil profissional no facebook, onde de início apenas adicionei pessoas conhecidas, com o tempo fui adicionando mais pessoas e alguns homens chegaram a enviar mensagens porque achavam que como vendo produtos eróticos, também prestava outros serviços.

Como lidas com o assédio desses homens?
Ignoro por completo. Se for em redes sociais um bloqueio resolve o assunto. Pessoalmente assédio nunca aconteceu mas já senti o ar de repulsa de outra mulheres em relação a mim.

Como funcionam então as tuas reuniões e de que forma chegas aos teus clientes?
Nas reuniões poderá conhecer melhor os produtos da Maleta
As reuniões são muito engraçadas, tens de ir a uma.
Vou então explicar, para tu e quem nos lê perceber um pouco melhor. Lembras-te das reuniões de tupperware? As da Maleta são mais ao menos a mesma coisa mas com artigos bem mais divertidos.
O conceito “reunião da maleta” ou “reunião de Tuppersex”, consiste em que uma assessora se desloque com uma maleta (trolley de viagem)  a casa de uma das participantes. Não há um número mínimo ou máximo de participantes. O contacto para uma reunião é sempre feito pelas clientes, eu vou onde me chamarem. As reuniões têm uma duração mínima de duas horas e meia mas quase um ano depois desta aventura, duraram sempre mais, depende muito da interação das participantes.
Nas reuniões são mostrados vários artigos, desde artigos de saúde íntima e sexual, a lingerie e brinquedos. As participantes experimentam alguns dos produtos e da minha parte também vou fazendo umas brincadeiras com elas. São uma animação. Adoro.

Uma pessoa que vai para uma primeira reunião vai de mente aberta ou ainda tem preconceitos e ideias pré concebida erradas?
Depende. Normalmente quem me contacta já sabe o conceito de uma reunião, às vezes até já participaram em algumas. O que pode acontecer é outras participantes não saberem. Mas é uma coisa que no inicio da reunião pergunto sempre. Se já participaram, se já ouviram falar, até para eu possa ter uma ideia de como devo conduzir a reunião. No decorrer da reunião vou observando o grupo para saber até onde posso ir, que expressões posso ou não usar. Outra coisa que também já reparei é de que a maioria das participantes pensa que a utilização de alguns artigos eróticos é uma substituição de um parceiro e esse pensamento está completamente errado. Mas posso dizer que há muito mais abertura nas pessoas do Norte do país, do que nas pessoas do centro.

Na tua opinião, achas que de alguma forma as 50 sombras de Grey e o crescimento da literatura erótica no mercado pode ter contribuído para uma maior abertura a este tipo de artigos?
As encomendas chegam de forma discreta e personalizada
Tenho certeza que sim. Contribuíram sobretudo para que as pessoas tivessem interesse em ver artigos e experimentar,  outro motivo importante é que leva as pessoas a lerem. Seja porque motivo for, a literatura faz bem à alma, ensina, faz com que as pessoas pensem, questionem, procurem informação e no caso específico da literatura erótica faz com que as pessoas alarguem os seus horizontes e percebam que a sexualidade não é um bicho de sete cabeças.  Deixo apenas o alerta para procurarem  mais informação junto de especialistas, quando decidirem experimentar algo novo e diferente, pois nem tudo é tão linear como se lê em livros ou se vê em filmes.

Tu acabas por fazer também aconselhamento sexual. Achas que ainda há muita falta de informação neste campo?
Existe alguma falta de informação. Repetindo o que disse na resposta anterior, o melhor que as pessoas têm a fazer quando pretendem fazer algo novo e diferente, é procurarem informar-se com um especialista, por dois motivos. O primeiro e depois de ouvirem a explicação, se realmente querem prosseguir com o que tinham em mente. O segundo é, estando bem aconselhadas sabem como proceder e podem aproveitar muito melhor o momento.
Vou dar um exemplo de uma cena que vi no segundo filme das 50 Sombras de Grey. O Mr. Grey entende que seria giro a Anastasia utilizar umas bolas de kegel, lubrificando as mesmas apenas com a saliva. Este tipo de situação na vida real, pode provocar desconforto e se as bolas forem mal introduzidas, até alguma lesão, acrescento ainda que no filme não se vê em que parte do corpo elas são utilizadas, só por aí e quem não souber onde e como, já pode provocar uma situação menos agradável.

É aí que entra também o teu papel? Não só a venda mas também mostrar como cada objecto funciona para que os teus clientes possam disfrutar dos mesmos sem acidentes?
Sim. As reuniões da maleta servem para isso. Como são feitas num ambiente intimista, as participantes têm contacto directo com o produto. Podem por exemplo, provar lubrificantes, experimentar óleos, perfumes e lingerie. É sempre dada por mim a explicação para cada produto que há dentro da mala à medida que os vou mostrando. É importante que as meninas saibam como usar os artigos que adquirem.

Mas não te vais ficar só pela venda de artigos eróticos e reuniões de tuppersex, estás com outros projectos em mãos. Queres falar um pouco sobre isso?

Neste momento estou na fase de construção de duas lojas online. Uma delas vai ser a continuação do Projecto da Maleta Cleo´s Fantasy, ou seja, uma sex shop online que ficará com o mesmo nome “Cleo´s Fantasy”. A outra loja será de vestuário, outra área onde também tenho bastante experiência, entretanto já tenho página no facebook, chama-se Stilus FashionStore. A linha da roupa é sobretudo jovem mas quero explorar um pouco de todo o tipo. Quero que todas as pessoas possam conseguir encontrar os seus números, desde o XS aos tamanhos grandes. Na loja online e na página do Facebook pretendo colocar fotos de pessoas “reais” a usar algumas peças de roupa que se encontram à venda, para isso vou contar com a colaboração de pessoas amigas.



Entrevista por: Vera Carregueira

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

ENTREVISTA | MBarreto Condado em Entrevista ao escritor António da Costa Neves | LITERATURA






Falei com o autor António da Costa Neves sobre o seu livro “O Implacável Cerco de Almada” com a chancela da editora Saída de Emergência.

Neste livro temos a possibilidade de ficar a conhecer um pouco mais sobre um dos períodos turbulentos da nossa História. A Crise de 1383-1385, a morte de D. Fernando, o Mestre de Avis como Regedor do Reino, a decisiva batalha de Aljubarrota e o cerco de Almada. 

António da Costa Neves é licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Durante anos, publicou regularmente poesia em diversos jornais e revistas. O seu primeiro romance “Mataram o Chefe de Posto” sobre a temática da Guerra Colonial ganhou o Prémio Literário Cidade de Almada 2007. “Nem por Sonhos” venceu o Prémio Revelação Manuel Teixeira Gomes 20062007. Em 2008, o romance “Adamastor” foi objecto de ensaio académico e tema de seminário na Universidade de Coimbra e de uma conferência na Universidade Complutense de Madrid. O romance “Mea Culpa!” foi em 2010, selecionado como obra de referência para o Concurso Nacional de Leitura do Ensino Secundário. Em 2016, com a obra “Trinta Sonetos Triviais” venceu o Prémio de Poesia e Ficção de Almada-Poesia.


Já este ano o autor ganhou o 1º Prémio Joaquim Mestre, promovido pela ASSESPA (Associação de Escritores Alentejanos), Direcção Regional de Cultura do Alentejo e Câmara Municipal de Beja, com a obra satírica “Um Certo Incerto Alentejo”.


Para um homem que é de “entre o Tejo e o Sado” o cerco de Almada tem certamente um impacto diferente do que teve o cerco de Lisboa. Terá sido esse o motivo que o levou a escrever este livro?
Quando em 2011 fui convidado pela UCCLA e pela Câmara Municipal de Almada para participar no II Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, na cidade de Natal, e após ter sido colocado no painel de Literatura de Viagens, cuja área não era, seguramente, a minha, a primeira ideia que me ocorreu foi falar sobre a “Peregrinação”. Na verdade, Fernão Mendes Pinto, depois de ter regressado a Portugal, tinha vindo viver para Almada, onde casou e foi cidadão exemplar, com uma atividade cívica relevante, tendo desempenhado alguns cargos públicos, nomeadamente, à frente da Santa Casa da Misericórdia de Almada.

Acontece que, tendo vivido em Moçambique durante dois períodos, antes e depois da independência, também eu tinha uma grande paixão pelas coisas do Oriente. Tendo, inclusive, escrito um romance sobre a passagem de Camões pela Ilha de Moçambique, “Adamastor”, onde, segundo Diogo de Couto, testemunha privilegiada e seu amigo pessoal, o poeta vivia muito pobre e comendo de amigos. Porém, o tempo que tinha para levar a cabo esse desiderato era muito curto. Além de que não estava interessado em repetir o que muitos, antes de mim, já teriam dito. Assim, optei por fazer uma pesquisa sobre a cidade de Almada e colocar-me no lugar de um guia turístico. A minha intenção passou, então, por tentar vender Almada aos brasileiros. E assim nasceu “Almada: Um Itinerário Literário, Pessoal e Transmissível”, uma conferência que realizei numa das sessões do Encontro e que repeti na Universidade do Rio Grande do Norte.

Foi durante essa pesquisa que me deparei, junto ao Tejo, num local conhecido por Fonte da Pipa, com uma pedras gastas pelo tempo, onde decifrei uma inscrição em que li os dois últimos versos da estância 35 do Canto VIII de “Os Lusíadas”: «Digno feito de ser, no mundo, eterno, / Grande no tempo antigo e no moderno!»

Estes versos lapidares levaram-me a descobrir e estudar o episódio a que se referiam, o que me levou à homenagem que a vereação de 1880 tinha querido prestar aos almadenses de 1384. De facto, segundo Fernão Lopes, nenhuma outra vila do Reino, como Almada, tinha sofrida tanto por amor ao Mestre.

Com base na “Crónica de D. João I”, mas também em inúmeros documentos que pesquisei no Arquivo Histórico de Almada, comecei a dar corpo a essa outra história. Acontece que em determinada altura tive acesso a duas escrituras assinadas, cerca de vinte anos após a Crise de 1383/85, por um escrivão almadenses chamado João Galo. Numa conversa com o historiador Alexandre Flores, insigne medievalista e na altura diretor do Arquivo Histórico de Almada, este disse-me que o conde dos Arcos, outro almadense notável, lhe assegurara que a família Galo tinha chegado até aos nossos dias.

Afonso Galo era o regedor (ou recebedor) de Almada, à data dos acontecimentos. Há uma rua na cidade a homenageá-lo e segundo Fernão Lopes terá sido preso pelos castelhanos no início do cerco.

Imaginei, pois, que o escrivão João Galo poderia muito bem ser filho do regedor Afonso Galo, e que, na altura, não passaria de um adolescente. Neste instante o livro começou a ser desenhado na minha cabeça. Por isso, o jovem João Galo é o narrador da minha história, um narrador privilegiado porque, sendo filho do regedor, ele é, também, parte integrante na narrativa. O facto de Fernão Lopes ter tido duas quintas aforadas à albergaria de S. Lázaro de Cacilhas, uma na Sobreda e outra em Vale Figueira, permitiu-me deduzir outros factos e extrapolar a fonte histórica que o cronista utilizou para narrar o que sobre Almada e os almadenses verteu na sua crónica.

Tudo isto deu-me a possibilidade de escrever sobre Almada, a cidade onde vivo há quarenta anos e que, até agora, nunca tinha sido cenário de nenhum dos meus livros. E isso, na verdade, também foi e é muito congratulante.

Este livro histórico levou-o a assinar com o seu nome e não com o seu
pseudónimo E.S. Tagino, por algum motivo em concreto? Como continuará a assinar as suas futuras obras daqui em diante?
Quando escrevi o meu primeiro livro e o apresentei, em 2007, ao Prémio Literário Cidade de Almada, tive de o fazer mediante um pseudónimo que construi a pensar nos dois rios que, desde sempre, têm basilado a minha vida: o Tejo e o Sado.

Com esta ideia de que “eu sou de entre o Tejo e o Sado” elaborei o pseudónimo E. S. Tagino. O livro “Mataram o Chefe de Posto” ganhou, nesse ano, o primeiro prémio a que tinha concorrido e foi assim, aos 62 anos, que consegui publicar o meu primeiro livro. Acontece que o meu editor gostou do pseudónimo e perguntou-me se não queria continuar a utilizá-lo. Aceitei e desde então publiquei com esse pseudónimo os meus primeiros oito livros. Quando, em 2017, dez anos depois, publiquei o “Implacável Cerco de Almada”, também foi o meu editor que me sugeriu que o assinasse com o meu verdadeiro nome. Era uma mudança, até porque ia fazer parte de uma nova coleção intitulada A História de Portugal em Romances. Acontece que, há dias, acabei de ganhar o 1º. Prémio Literário Joaquim Mestre, promovido pela Associação de Escritores Alentejanos, em parceria com a Direção Regional de Cultura do Alentejo e a Câmara Municipal de Beja, no qual utilizei, ainda, o mesmo pseudónimo. Assim o meu próximo livro “Um Certo Incerto Alentejo” irá ser assinado por E. S. Tagino.

Assim, é provável que, no romance histórico, opte pelo nome próprio enquanto, na ficção em geral, continue a fazê-lo através do pseudónimo.

“O implacável cerco de Almada” é-nos relatado pelos olhos do povo, o que aconteceu realmente e o que é ficcionado nesta obra?
Todos os factos históricos narrados no livro são verdadeiros e foram retirados, nomeadamente, da “Crónica de D. João I” e da “Crónica do Condestável”. O romance histórico tem, porém, a particularidade de, sem subverter a historiografia, o autor poder colocar em confronto personagens reais com personagens fictícias. O autor do romance histórico não pode, de modo nenhum, é abusar da sua imaginação, sob pena do romance passar a ser uma fantasia, quiçá um delírio.

Já falei em João Galo; como ele, todos os nomes dos seus amigos foram retirados dos livros da vereação da Câmara existentes no Arquivo Histórico de Almada. Naturalmente que a Ordem dos Guardiões do Castelo é pura invenção, como são invenção as soldadeiras Rosa e Maria Ramalhuda, o rufia das patilhas e outras personagens menores. Contudo a questão da prostituição e da malandragem que as explorava era real e consta, por mais de uma vez, nas relações das posturas dos séculos XIV e XV.

Reais são, também, todos os atos que envolvem os castelhanos e a ação do Mestre de Avis e de D. Nuno Álvares Pereira. Também Afonso Galo e Diogo Lopes Pacheco são personagens reais, assim como tudo o que lhes aconteceu. A questão da jurisdição da mina da Adiça foi durante décadas uma preocupação dos almadenses, bem patente nas atas camarárias. O tesouro da mulher do infante D. João encontrado em S. Domingos também é real. Como é real a questão das crianças almadenses que o rei castelhano fez reféns. Verdadeira é também a contenda existente entre o Condestável e o capitão castelhano Pedro Sarmiento, que com Castanheda foram os capitães que cercaram Almada.

Reais são, igualmente, o almadense que, na última semana do cerco, atravessou o Tejo seis vezes para levar e trazer mensagens para e do Mestre e, igualmente, o almadense traidor que delatava, aos castelhanos, os barcos de víveres que vinham de Santarém. Nestes dois casos, limitei-me apenas a dar-lhes identidade em função das necessidades da narrativa.

Tudo o que diz respeito à religião: as obrigações, as devoções e as peregrinações, tudo isso fazia parte do quotidiano do homem medieval.

Diria, para finalizar, que, globalmente, o romance retrata a verdade histórica, aqui e ali pincelado pela imaginação do autor, mas dentro do verosímil pelo que, até por isso mesmo, podia muito bem ter acontecido.

Tendo em conta a sua formação em História como funciona o seu sistema de pesquisa?
A minha pesquisa histórica está, à partida, facilitada pelo facto de ser licenciado em História. Sem desprezar a historiografia e o que os grandes mestres teorizaram sobre as questões fundamentais da nossa história, gosto, principalmente, de ver os documentos originais. Quando alguém cita alguém gosto de ler o citado. Depois, se falamos sobre uma data, é importante saber como se vivia nessa época: como se comia, como se vestia, como se divertia, como se amava. Diria que as questões da sociedade, mesmo as mais comezinhas, são fundamentais para dar credibilidade à trama. É impossível escrever um romance histórico sem se estar impregnado do perfume da época. Depois, a linguagem e os conceitos. Se não sabemos escrever como o Fernão Lopes, devemos, no mínimo, utilizar uma linguagem mais coloquial, utilizando, inclusive, um mínimo de termos que, tendo caído em desuso, sejam perfeitamente compreendidos pelos leitores atuais. Isso aprende-se lendo os clássicos, neste caso Fernão Lopes, D. Duarte, Francisco Rodrigues Lobo, Fernão Mendes Pinto ou Gil Vicente.

Para quando um novo trabalho? Será que nos pode adiantar um pouco do que
trata?
O meu próximo trabalho, que será publicado, certamente, ainda este ano, tem por título “Um Certo Incerto Alentejo”, e acaba de ganhar, como já disse, o 1º Prémio Literário Joaquim Mestre. Trata-se duma sátira desbragada sobre uma certa realidade social caraterística do mundo rural e, em particular, do Alentejo. Narrada como uma boa anedota alentejana, tem, por isso, a pretensão de se constituir como o reflexo mais vasto da sociedade portuguesa atual.

Construída a partir de uma incerta Reserva Florestal, pulmão, coração e estômago de Azarelhas, a aldeia que lhe dá o nome, nela perpassa toda a vida política, social, cultural, económica e religiosa dum microcosmo onde, durante anos, muito pouco parece ter acontecido.

Em Azarelhas, os poderosos, personificados no senhor barão e no esfacelado administrador da Reserva, morreram ou estão em decadência acelerada. O que não está em decadência, prospera e recomenda-se é a cunha, o saco azul, a gestão danosa, a corrupção, o peculato e o branqueamento de capitais.

Mas “Um Certo Incerto Alentejo” é, também, a história de um mistério amável que liga uma morte inexplicável e uma investigação errática, perfeitamente adequada à cadência natural dos alentejanos, em geral, e dos “azarelhos”, em particular. Uma história onde ninguém está inocente. Nela, todos trafulham, todos roubam, todos mentem, e todos, como bons alentejanos, se fecham em copas porque, no Alentejo, nunca se viu ninguém estar interessado em condenar o seu semelhante. Como diz o benquisto padre Miguel, quando explica o episódio da mulher adúltera à sua assembleia de encortiçadas azarelha, «quem estiver inocente que atire a primeira pedra».

Mas a pacatez desta incerta aldeia alentejana vive, sem o saber, suspensa das forças ocultas geradas pela praga do nemátodo do pinheiro bravo e pela inspeção que a Direção-Geral de Florestas mandou executar.

Contada no presente do indicativo por um narrador que parece conhecer a trama apenas por alto, a história acompanha, do início ao fim, o percurso pouco empolgante do novo administrador da Reserva, um jovem engenheiro florestal acabado de sair da Universidade, por sinal, também alentejano. Administrador, que herda a menina Judite Corriola, uma capitosa balzaquiana, a mais notável das secretárias e a mais infeliz das criaturas no seu afã insano de romper definitivamente o véu duma virgindade que, malgrado todos os seus esforços, teima em chegar incólume até aos trinta e oito anos de idade.

Por isso, e por muito mais que só a leitura o revelará, “Um Certo Incerto Alentejo” é uma história definitivamente amoral, mas feita essencialmente daquela amoralidade alentejana que foge ao estigma e ao sentimento de culpa. Como ninguém é inocente nesta história, a maldade é relativa e a redenção tanto se faz na igreja como nos balcões das tabernas onde o sangue de Cristo ronda sempre os 14 graus. Como o narrador conclui, a dada altura, «se todos fôssemos à missa ao mesmo sítio, não haveria catedrais que chegassem».


















MBarreto Condado




Fotos amavelmente disponibilizadas pelo escritor António da Costa Neves