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sábado, 27 de julho de 2024

ARTIGO DE OPINIÃO | TRINTA MOEDAS DE PRATA DE JUDAS, de MADALENA CONDADO

Jogos olímpicos, alterações climáticas, guerras, o Mundo começa a desmoronar-se, no entanto ao ouvir ontem a Associação Coração Silenciado, algo em mim impeliu-me a dizer o que penso. Não tenho nervos de aço e a minha opinião vale o que vale, mas quero falar sobre o recente documento da Igreja católica acerca da compensação financeira às vítimas de abusos sexuais perpetrados por padres pedófilos.

Ainda que o tema seja altamente sensível e complexo, a verdade é que tem gerado grande controvérsia e sofrimento. Nos últimos anos, inúmeros casos de abusos sexuais cometidos por clérigos contra menores foram denunciados, revelando um padrão de comportamento abusivo que foi, em muitas situações, encoberto pelas instituições religiosas. Esses casos não apenas destroem vidas individuais, mas também abalam a confiança na própria instituição.

A Bíblia diz-nos que todos que se opuseram à vontade de Deus foram castigados por ele, Adão e Eva; Caim; a Geração de Noé; o Povo de Babel; o Faraó do Egito; o povo de Israel no deserto; o Rei Saul; o Rei Acabe e Jezabel, Judas Iscariotes, Ananias e Safira, Lúcifer. No entanto, para os padres abusadores não há castigo, tudo lhes é permitido e nada lhes acontece.

Meus senhores, a vossa usual e triste desculpa de que a culpa é das crianças não vos iliba da vossa devassa.

Quando ouço que de um número infindável de vítimas que tiveram a coragem de falar sobre as infâmias que lhes foram infligidas só quarenta e três pedem indemnizações, confesso que achei pouco, até porque ainda que o dinheiro não apague nenhum dos crimes a que foram sujeitos, acredito que poderá ajudar nos tratamentos de que necessitem.

“Deixai vir a mim os pequeninos, e não os impeçais, porque dos tais é o reino de Deus.” (Lucas 18:16)

E agora V. exas. informam que cada pedido vai ser primeiro analisado por uma comissão de instrução e o valor a atribuir será “proporcional à gravidade do dano”, definido caso a caso, por uma comissão de Fixação de Compensação composta por sete pessoas entre as quais estará um representante da diocese onde o alegado agressor exercia funções o mesmo local onde nunca ninguém viu nada, ouviu nada e falou nada.

Quererem submeter as vítimas a uma nova revisão dos abusos, desta feita com mais detalhes (porque aparentemente aqueles que têm não vos chegam) leva-me a pensar que servirão para ser usados num retorcido manual de boas práticas futuras. Expliquem-me como pretendem agir? Vão colocar os dados recolhidos numa folha de Excel, para posteriormente compararem as colunas: o início da molestação; a duração dos abusos; a idade da vítima e do alegado agressor; o local onde os abusos ocorreram; quantas vezes foram molestados física e psicologicamente; os danos físicos que sofreram e ainda sofrem; a natureza da relação entre agredido e agressor?

Sugiro pararmos todos para respirar!

Tenham um pingo de decência já que aparentemente não vos resta moral.

“A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões.” (Mateus 21:13)

Conseguiram transformar a vossa instituição numa Sodoma e Gomorra, e ainda que não se transformem em estátuas de sal, saibam que ao fecharem os olhos e ignorarem a dor de quem sofre unicamente por vossa culpa, roçam a imoralidade extrema.

“Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem.” (Lucas 23:34)

Às corajosas vítimas que continuam a lutar por justiça, pelo reconhecimento dos danos sofridos, não desistam, porque se existe realmente um Reino dos Céus esse já é vosso e não desta corja de pés de barro.


Madalena Condado

 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

AUTOR NACIONAL| Nuno Nepomuceno | Cultura Editora


 Fontes e Créditos

Texto: Site Oficial do Autor C/ redacção

Foto: Wikipedia


Nasceu em 1978. É autor da série bestseller de thrillers psicológicos Afonso Catalão, com a qual foi N.º1 de vendas nacional, de duas séries de ficção em formato podcast e de diversos contos.

Nomeado para vários prémios, incluindo o de Ficção Lusófona 2019 das Livrarias Bertrand com A Última Ceia, do qual foi finalista, destacou-se em 2012, quando venceu o concurso literário Note! com a obra O Espião Português, o seu primeiro livro, que a Cultura Editora reeditou em 2021.


Apresenta agora A Noiva Judia, o derradeiro título da série que o notabilizou. É representado pela Agência das Letras.


Para mais informações, consulte o site oficial do autor, www.nunonepomuceno.com, ou o microsite do livro, www.anoivajudia.com


Obras: Trilogia Freelancer (em reedição pela Cultura Editora)

             O espião Português, A Espia do Oriente, A Hora Solene

            Série Afonso Catalão

           A Célula Adormecida, Pecados Santos, A última Ceia, A Morte do Papa, o Cardeal, 

           A Noiva Judia (Lançamento a 20 de Janeiro de 2022, com Chancela da Cultura Editora)


Recorde a entrevista ao autor pela nossa Colaboradora Madalena Condado em 2017 AQUI

Leia a Crítica à obra A morte do Papa, por Isabel de Almeida AQUI

Leia a Crítica à obra recém reeditada O Espião Português, por Isabel de Almeida AQUI

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

BOAS FESTAS | Mensagem Urgente | Madalena Condado

Madalena Condado - Escritora, Colunista

 Caros leitores,

Temos atravessado os dois anos mais difíceis das nossas vidas e sem solução ainda à vista.

Os melhores votos de boas festas que vos posso transmitir é que façam uma lista de tudo o que de positivo gostam de fazer, e a seguir?... a seguir façam mesmo: liguem para aquele amigo para o qual não têm tido tempo, vejam aquela série que andam  a adiar há séculos, leiam aquele livro que compraram e tem estado à vossa espera na estante, bebam um copo de bom vinho (ou chá, chocolate quente ou café, uma bebida de conforto) e desfrutem de momentos vossos e especiais precisamente porque são vossos.



sexta-feira, 2 de abril de 2021

ENTREVISTA | Conversa com o escritor Manuel do Nascimento este sábado dia 03 de Abril , na RTP Internacional e RTP 1, no programa Hora dos Portugueses

 

Manuel do Nascimento, nasceu em Portugal e está radicado em Paris desde 1970.

Desde jovem um apaixonado por História, fez com que em terras gaulesas começasse a escrever vários livros em português, francês e ainda em português/francês- de modo a promover a história de Portugal. 

É considerado um autor anti obscurantismo pela história do seu povo. 

“Só é vencido quem desiste de lutar” 
Colabora com vários jornais dentro da comunidade portuguesa em França e no Canadá, desde há vários anos. 
Leitor na Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, desde 2012. Faz ainda parte do grupo de pré-seleção nacional dos primeiros romances de autores portugueses publicados no último ano, cujo objetivo é a participação dos mesmos no Festival do Primeiro Romance de Chambéry, em França.
  



último livro do autor


sexta-feira, 16 de março de 2018

CRÓNICA | Férias | MBARRETO CONDADO

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”

*
As férias do Asno eram sempre passadas no Algarve na casa da irmã, sim porque o pai apesar de “arrotar postas de pescada” de que tinha casas por todo o Portugal, na realidade referia-se mesmo a jazigos senhoriais no cemitério do Alto de São João (com vista para o Tejo, o que aumentava o valor da propriedade) roubados às velhas e decrépitas senhoras que furtara durante os seus altos anos (entenda-se por altos em número de furtos de jazigos e não em estatura porque afinal a criatura tinha pouco mais de metro e meio).

As férias do asno eram, sempre um pouco agridoces ou não tivesse ele que tomar conta dos seus dois sobrinhos.

O mais velho influenciado pelo avô materno (também conhecido na alta roda funerária como “O Senhor dos Jazigos”) adquirira as mesmas manias de grandeza, passava os dias sentado numa velha cadeira de praia, como se de um trono de tratasse, com uma velha manta de cor borgonha, ou como diria o asno uma cape bordeaux, com um toco de um velho varão de casa de banho como ceptro, não necessitava de coroa porque o seu áspero cabelo exercia essa função.

Já o mais novo que herdara a beleza símia e sorriso equino de sua mãe (mesmo com esforço os dentes não lhe cabiam todos dentro da enorme boca), passava os dias a saltar de sofá em sofá enquanto deglutia as bananas que a empregada entretanto contratada para ajudar na árdua tarefa da limpeza do bem estruturado T0, lhe trazia todas as manhãs.

Era nesses parcos momentos que o asno se esgueirava para a praia de Faro para descomprimir da sua imberbe existência. Nunca saia de casa sem desenhar com os dedos molhados (possivelmente de óleo de fritar) um caracol na testa que não se mexia um único milímetro nem mesmo depois de apanhar um enxerto de porradas das ondas e de andar enrolado na rebentação já sem calções e com o carnudo rabo ao léu.

Era, contudo, um prazer observá-lo a chegar à praia de Faro. Tinha sempre o cuidado de escolher a praia de frente para a ponte, a única com nadador salvador.

Aparecia no topo do areal sentindo-se o Tarzan Taborda, a minúscula toalha de bidé que retirara da casa de banho da irmã displicentemente atirada por cima do ombro esquerdo (a mesma que tinha para se limpar quando chegasse a casa e durante todo o Verão que permanecesse em casa da irmã, nas palavras da mesma era no poupar que estava o ganho), ajeitava discretamente a sua masculinidade já por si apertada nos calções que tinham sido da juventude do seu pai e que ainda estavam muito em voga apesar de já se terem passado uns meros setenta e seis anos.

Olhava atentamente em volta não à procura de um local desocupado, mas de um que tivesse lotado de estrangeiras (de preferência mais velhas, como o pai lhe ensinara) afinal aquele corpinho tinha que se alimentar bem durante o dia porque o jantar em casa da mana nunca era garantido.

Se ao menos o sobrinho lhe deixasse uma bananinha…



sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

ENTREVISTA | MBarreto Condado em Entrevista ao escritor António da Costa Neves | LITERATURA






Falei com o autor António da Costa Neves sobre o seu livro “O Implacável Cerco de Almada” com a chancela da editora Saída de Emergência.

Neste livro temos a possibilidade de ficar a conhecer um pouco mais sobre um dos períodos turbulentos da nossa História. A Crise de 1383-1385, a morte de D. Fernando, o Mestre de Avis como Regedor do Reino, a decisiva batalha de Aljubarrota e o cerco de Almada. 

António da Costa Neves é licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Durante anos, publicou regularmente poesia em diversos jornais e revistas. O seu primeiro romance “Mataram o Chefe de Posto” sobre a temática da Guerra Colonial ganhou o Prémio Literário Cidade de Almada 2007. “Nem por Sonhos” venceu o Prémio Revelação Manuel Teixeira Gomes 20062007. Em 2008, o romance “Adamastor” foi objecto de ensaio académico e tema de seminário na Universidade de Coimbra e de uma conferência na Universidade Complutense de Madrid. O romance “Mea Culpa!” foi em 2010, selecionado como obra de referência para o Concurso Nacional de Leitura do Ensino Secundário. Em 2016, com a obra “Trinta Sonetos Triviais” venceu o Prémio de Poesia e Ficção de Almada-Poesia.


Já este ano o autor ganhou o 1º Prémio Joaquim Mestre, promovido pela ASSESPA (Associação de Escritores Alentejanos), Direcção Regional de Cultura do Alentejo e Câmara Municipal de Beja, com a obra satírica “Um Certo Incerto Alentejo”.


Para um homem que é de “entre o Tejo e o Sado” o cerco de Almada tem certamente um impacto diferente do que teve o cerco de Lisboa. Terá sido esse o motivo que o levou a escrever este livro?
Quando em 2011 fui convidado pela UCCLA e pela Câmara Municipal de Almada para participar no II Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, na cidade de Natal, e após ter sido colocado no painel de Literatura de Viagens, cuja área não era, seguramente, a minha, a primeira ideia que me ocorreu foi falar sobre a “Peregrinação”. Na verdade, Fernão Mendes Pinto, depois de ter regressado a Portugal, tinha vindo viver para Almada, onde casou e foi cidadão exemplar, com uma atividade cívica relevante, tendo desempenhado alguns cargos públicos, nomeadamente, à frente da Santa Casa da Misericórdia de Almada.

Acontece que, tendo vivido em Moçambique durante dois períodos, antes e depois da independência, também eu tinha uma grande paixão pelas coisas do Oriente. Tendo, inclusive, escrito um romance sobre a passagem de Camões pela Ilha de Moçambique, “Adamastor”, onde, segundo Diogo de Couto, testemunha privilegiada e seu amigo pessoal, o poeta vivia muito pobre e comendo de amigos. Porém, o tempo que tinha para levar a cabo esse desiderato era muito curto. Além de que não estava interessado em repetir o que muitos, antes de mim, já teriam dito. Assim, optei por fazer uma pesquisa sobre a cidade de Almada e colocar-me no lugar de um guia turístico. A minha intenção passou, então, por tentar vender Almada aos brasileiros. E assim nasceu “Almada: Um Itinerário Literário, Pessoal e Transmissível”, uma conferência que realizei numa das sessões do Encontro e que repeti na Universidade do Rio Grande do Norte.

Foi durante essa pesquisa que me deparei, junto ao Tejo, num local conhecido por Fonte da Pipa, com uma pedras gastas pelo tempo, onde decifrei uma inscrição em que li os dois últimos versos da estância 35 do Canto VIII de “Os Lusíadas”: «Digno feito de ser, no mundo, eterno, / Grande no tempo antigo e no moderno!»

Estes versos lapidares levaram-me a descobrir e estudar o episódio a que se referiam, o que me levou à homenagem que a vereação de 1880 tinha querido prestar aos almadenses de 1384. De facto, segundo Fernão Lopes, nenhuma outra vila do Reino, como Almada, tinha sofrida tanto por amor ao Mestre.

Com base na “Crónica de D. João I”, mas também em inúmeros documentos que pesquisei no Arquivo Histórico de Almada, comecei a dar corpo a essa outra história. Acontece que em determinada altura tive acesso a duas escrituras assinadas, cerca de vinte anos após a Crise de 1383/85, por um escrivão almadenses chamado João Galo. Numa conversa com o historiador Alexandre Flores, insigne medievalista e na altura diretor do Arquivo Histórico de Almada, este disse-me que o conde dos Arcos, outro almadense notável, lhe assegurara que a família Galo tinha chegado até aos nossos dias.

Afonso Galo era o regedor (ou recebedor) de Almada, à data dos acontecimentos. Há uma rua na cidade a homenageá-lo e segundo Fernão Lopes terá sido preso pelos castelhanos no início do cerco.

Imaginei, pois, que o escrivão João Galo poderia muito bem ser filho do regedor Afonso Galo, e que, na altura, não passaria de um adolescente. Neste instante o livro começou a ser desenhado na minha cabeça. Por isso, o jovem João Galo é o narrador da minha história, um narrador privilegiado porque, sendo filho do regedor, ele é, também, parte integrante na narrativa. O facto de Fernão Lopes ter tido duas quintas aforadas à albergaria de S. Lázaro de Cacilhas, uma na Sobreda e outra em Vale Figueira, permitiu-me deduzir outros factos e extrapolar a fonte histórica que o cronista utilizou para narrar o que sobre Almada e os almadenses verteu na sua crónica.

Tudo isto deu-me a possibilidade de escrever sobre Almada, a cidade onde vivo há quarenta anos e que, até agora, nunca tinha sido cenário de nenhum dos meus livros. E isso, na verdade, também foi e é muito congratulante.

Este livro histórico levou-o a assinar com o seu nome e não com o seu
pseudónimo E.S. Tagino, por algum motivo em concreto? Como continuará a assinar as suas futuras obras daqui em diante?
Quando escrevi o meu primeiro livro e o apresentei, em 2007, ao Prémio Literário Cidade de Almada, tive de o fazer mediante um pseudónimo que construi a pensar nos dois rios que, desde sempre, têm basilado a minha vida: o Tejo e o Sado.

Com esta ideia de que “eu sou de entre o Tejo e o Sado” elaborei o pseudónimo E. S. Tagino. O livro “Mataram o Chefe de Posto” ganhou, nesse ano, o primeiro prémio a que tinha concorrido e foi assim, aos 62 anos, que consegui publicar o meu primeiro livro. Acontece que o meu editor gostou do pseudónimo e perguntou-me se não queria continuar a utilizá-lo. Aceitei e desde então publiquei com esse pseudónimo os meus primeiros oito livros. Quando, em 2017, dez anos depois, publiquei o “Implacável Cerco de Almada”, também foi o meu editor que me sugeriu que o assinasse com o meu verdadeiro nome. Era uma mudança, até porque ia fazer parte de uma nova coleção intitulada A História de Portugal em Romances. Acontece que, há dias, acabei de ganhar o 1º. Prémio Literário Joaquim Mestre, promovido pela Associação de Escritores Alentejanos, em parceria com a Direção Regional de Cultura do Alentejo e a Câmara Municipal de Beja, no qual utilizei, ainda, o mesmo pseudónimo. Assim o meu próximo livro “Um Certo Incerto Alentejo” irá ser assinado por E. S. Tagino.

Assim, é provável que, no romance histórico, opte pelo nome próprio enquanto, na ficção em geral, continue a fazê-lo através do pseudónimo.

“O implacável cerco de Almada” é-nos relatado pelos olhos do povo, o que aconteceu realmente e o que é ficcionado nesta obra?
Todos os factos históricos narrados no livro são verdadeiros e foram retirados, nomeadamente, da “Crónica de D. João I” e da “Crónica do Condestável”. O romance histórico tem, porém, a particularidade de, sem subverter a historiografia, o autor poder colocar em confronto personagens reais com personagens fictícias. O autor do romance histórico não pode, de modo nenhum, é abusar da sua imaginação, sob pena do romance passar a ser uma fantasia, quiçá um delírio.

Já falei em João Galo; como ele, todos os nomes dos seus amigos foram retirados dos livros da vereação da Câmara existentes no Arquivo Histórico de Almada. Naturalmente que a Ordem dos Guardiões do Castelo é pura invenção, como são invenção as soldadeiras Rosa e Maria Ramalhuda, o rufia das patilhas e outras personagens menores. Contudo a questão da prostituição e da malandragem que as explorava era real e consta, por mais de uma vez, nas relações das posturas dos séculos XIV e XV.

Reais são, também, todos os atos que envolvem os castelhanos e a ação do Mestre de Avis e de D. Nuno Álvares Pereira. Também Afonso Galo e Diogo Lopes Pacheco são personagens reais, assim como tudo o que lhes aconteceu. A questão da jurisdição da mina da Adiça foi durante décadas uma preocupação dos almadenses, bem patente nas atas camarárias. O tesouro da mulher do infante D. João encontrado em S. Domingos também é real. Como é real a questão das crianças almadenses que o rei castelhano fez reféns. Verdadeira é também a contenda existente entre o Condestável e o capitão castelhano Pedro Sarmiento, que com Castanheda foram os capitães que cercaram Almada.

Reais são, igualmente, o almadense que, na última semana do cerco, atravessou o Tejo seis vezes para levar e trazer mensagens para e do Mestre e, igualmente, o almadense traidor que delatava, aos castelhanos, os barcos de víveres que vinham de Santarém. Nestes dois casos, limitei-me apenas a dar-lhes identidade em função das necessidades da narrativa.

Tudo o que diz respeito à religião: as obrigações, as devoções e as peregrinações, tudo isso fazia parte do quotidiano do homem medieval.

Diria, para finalizar, que, globalmente, o romance retrata a verdade histórica, aqui e ali pincelado pela imaginação do autor, mas dentro do verosímil pelo que, até por isso mesmo, podia muito bem ter acontecido.

Tendo em conta a sua formação em História como funciona o seu sistema de pesquisa?
A minha pesquisa histórica está, à partida, facilitada pelo facto de ser licenciado em História. Sem desprezar a historiografia e o que os grandes mestres teorizaram sobre as questões fundamentais da nossa história, gosto, principalmente, de ver os documentos originais. Quando alguém cita alguém gosto de ler o citado. Depois, se falamos sobre uma data, é importante saber como se vivia nessa época: como se comia, como se vestia, como se divertia, como se amava. Diria que as questões da sociedade, mesmo as mais comezinhas, são fundamentais para dar credibilidade à trama. É impossível escrever um romance histórico sem se estar impregnado do perfume da época. Depois, a linguagem e os conceitos. Se não sabemos escrever como o Fernão Lopes, devemos, no mínimo, utilizar uma linguagem mais coloquial, utilizando, inclusive, um mínimo de termos que, tendo caído em desuso, sejam perfeitamente compreendidos pelos leitores atuais. Isso aprende-se lendo os clássicos, neste caso Fernão Lopes, D. Duarte, Francisco Rodrigues Lobo, Fernão Mendes Pinto ou Gil Vicente.

Para quando um novo trabalho? Será que nos pode adiantar um pouco do que
trata?
O meu próximo trabalho, que será publicado, certamente, ainda este ano, tem por título “Um Certo Incerto Alentejo”, e acaba de ganhar, como já disse, o 1º Prémio Literário Joaquim Mestre. Trata-se duma sátira desbragada sobre uma certa realidade social caraterística do mundo rural e, em particular, do Alentejo. Narrada como uma boa anedota alentejana, tem, por isso, a pretensão de se constituir como o reflexo mais vasto da sociedade portuguesa atual.

Construída a partir de uma incerta Reserva Florestal, pulmão, coração e estômago de Azarelhas, a aldeia que lhe dá o nome, nela perpassa toda a vida política, social, cultural, económica e religiosa dum microcosmo onde, durante anos, muito pouco parece ter acontecido.

Em Azarelhas, os poderosos, personificados no senhor barão e no esfacelado administrador da Reserva, morreram ou estão em decadência acelerada. O que não está em decadência, prospera e recomenda-se é a cunha, o saco azul, a gestão danosa, a corrupção, o peculato e o branqueamento de capitais.

Mas “Um Certo Incerto Alentejo” é, também, a história de um mistério amável que liga uma morte inexplicável e uma investigação errática, perfeitamente adequada à cadência natural dos alentejanos, em geral, e dos “azarelhos”, em particular. Uma história onde ninguém está inocente. Nela, todos trafulham, todos roubam, todos mentem, e todos, como bons alentejanos, se fecham em copas porque, no Alentejo, nunca se viu ninguém estar interessado em condenar o seu semelhante. Como diz o benquisto padre Miguel, quando explica o episódio da mulher adúltera à sua assembleia de encortiçadas azarelha, «quem estiver inocente que atire a primeira pedra».

Mas a pacatez desta incerta aldeia alentejana vive, sem o saber, suspensa das forças ocultas geradas pela praga do nemátodo do pinheiro bravo e pela inspeção que a Direção-Geral de Florestas mandou executar.

Contada no presente do indicativo por um narrador que parece conhecer a trama apenas por alto, a história acompanha, do início ao fim, o percurso pouco empolgante do novo administrador da Reserva, um jovem engenheiro florestal acabado de sair da Universidade, por sinal, também alentejano. Administrador, que herda a menina Judite Corriola, uma capitosa balzaquiana, a mais notável das secretárias e a mais infeliz das criaturas no seu afã insano de romper definitivamente o véu duma virgindade que, malgrado todos os seus esforços, teima em chegar incólume até aos trinta e oito anos de idade.

Por isso, e por muito mais que só a leitura o revelará, “Um Certo Incerto Alentejo” é uma história definitivamente amoral, mas feita essencialmente daquela amoralidade alentejana que foge ao estigma e ao sentimento de culpa. Como ninguém é inocente nesta história, a maldade é relativa e a redenção tanto se faz na igreja como nos balcões das tabernas onde o sangue de Cristo ronda sempre os 14 graus. Como o narrador conclui, a dada altura, «se todos fôssemos à missa ao mesmo sítio, não haveria catedrais que chegassem».


















MBarreto Condado




Fotos amavelmente disponibilizadas pelo escritor António da Costa Neves

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

ENTREVISTA |Nuno Nepomuceno fala sobre "A Célula Adormecida", o seu mais recente livro


Texto e Fotos: Madalena Condado com Nova Gazeta & Diário do Distrito | Direitos Reservados


A 30 de Novembro de 2016, na FNAC Colombo, em Lisboa, o escritor de thrillers Nuno Nepomuceno apresentou o seu mais recente livro “A Célula Adormecida”. Neste seu último trabalho tratam-se assuntos tão atuais como religião e terrorismo.

Para quem já leu as anteriores obras do Nuno sabe que o talento está todo lá, não deixará, contudo, de ser surpreendido pelos locais, as situações, mas principalmente pela transformação que se nota na sua escrita mais fluída, consistente e viciante. Na obra “A Célula Adormecida” consegue sentir-se um grandioso enriquecimento de conteúdos na sua abordagem a temas tão polémicos que nos entram em casa diariamente através da televisão. 

Neste dia tão importante para o Nuno estavam sentados à sua mesa as pessoas que, de alguma forma , contribuíram para este seu novo sucesso:Fernando Gabriel Silva (o seu Editor na TopBooks), o Sheikh Munir (Imã da Mesquita Central de Lisboa) e Luís Pinto (blog Ler Y Criticar).

Lembro-me de uma das frases ditas pelo seu editor que me marcou particularmente e que passo a citar: “Todos os editores tentam encontrar o seu escritor e eu tive o privilégio de o encontrar no Nuno”. Mas se é verdade que escrever requer muita paixão, e principalmente talento, tudo qualidades que o Nuno tem na medida certa, também é certo que por detrás de um grande escritor tem que existir um editor que acredite nesse trabalho e ajude na promoção do mesmo.

“A Célula Adormecida” é um thriller psicológico onde o suspense impera, trata de um tema atual e controverso sempre contextualizado com factos. Acredito que foi necessária muita pesquisa para se documentar, passo importante para conseguir manter o leitor preso à sua leitura do início ao fim. Consegue uma vez mais, como lhe é típico, dizer muito com poucas palavras, mas, mais importante ainda,  leva-nos a questionar, a cada folhear de página, sobre tudo o que não compreendemos e temos medo na religião e no terrorismo. 

O Sheikh Munir começou por nos cumprimentar a todos com uma bênção Salaam Aleikum (a paz esteja convosco), explicou o fascínio que o interesse do Nuno lhe tinha despertado, principalmente quando percebeu que a estória do livro seria passada durante os 30 dias do Ramadão. Aproveitou para esclarecer o significado desses dias: os 10 primeiros sendo os dias de misericórdia, os 10 posteriores de perdão sendo que os últimos 10, os dias em que pedimos salvação. Confessou ainda que tinham sido a persistência, curiosidade e conhecimentos do Nuno sobre os assuntos abordados o impulso  de que necessitara e o levara a acreditar que os temas falados neste livro, através da sua visão, tinham tudo para correr bem.

O Nuno confessou que o seu género de escrita favorito é a espionagem, mas que com este seu último livro quis dar um passo em frente chegar a mais pessoas não somente para as entreter, mas também para transmitir uma mensagem. Em “A Célula Adormecida” tenta desmistificar o Islão, a comunidade muçulmana em particular, ao mesmo tempo que aborda temas como a xenofobia, racismo, expressão social, consegue colocar-nos a pensar na forma como cada um de nós tende a julgar as outras pessoas.


Mas, para que fiquem a conhecer o autor ainda um pouco melhor, coloquei-lhe três questões, e, desde já, aconselho a que sigam o Nuno através das suas páginas (site e redes sociais) e, quem sabe, se aparecerem numa próxima apresentação para trocarem dois dedos de conversa. É garantido que vão gostar.

Entrevista Breve:

Como se descreveria?

Chamo-me Nuno, tenho 38 anos, escrevo profissionalmente há 4, gosto de cinema, fazer BTT, passear com o meu cão, ler e escrever.

Dá muito valor à investigação e às suas fontes antes de começar um livro ou foi somente para a escrita da "Célula Adormecida"?

A investigação é uma parte muito importante do meu processo criativo e que me acompanha desde o meu primeiro livro. Não consigo iniciar um manuscrito completamente do zero. Preciso sempre de estudar e saber mais, de me preparar corretamente para o que vou enfrentar a seguir, e só depois disso é que surgem as ideias, que me sinto seguro em relação ao rumo escolhido. Escrevo thrillers, mas não me considero extremamente comercial. Julgo que ofereço conteúdo. Os meus livros não são uma sucessão de twists com vista a manter o leitor agarrado, mas sim histórias ricas em intriga de forma a apaixoná-lo. E tal só se consegue se estivermos convenientemente preparados. Por exemplo, em "A Célula Adormecida", o tempo que despendi em pesquisa ultrapassou o da redação do livro.

Não tem medo que o tema que aborda no seu último livro se possa vir a tornar uma realidade no nosso país? Que de alguma forma esteja a dar algumas "ideias" de como o fazer e onde?

Há sempre esse risco, mas não creio que o livro incite à violência. Esse teria sido o caminho mais fácil — aproveitar as controvérsias que rodeiam o Islão e explorar a parte mais negativa do extremismo. O que procurei fazer com A Célula Adormecida foi introduzir uma abordagem inovadora não só ao nível do tema do livro, como da religião muçulmana em si. Quem o ler irá encontrar uma obra bem diferente do que o título sugere. A mensagem final que transmite é de paz, esperança.




quarta-feira, 30 de novembro de 2016

CINEMANIA | Bad Santa 2 - Um Pai Natal para Esquecer [Crítica de Cinema]


Texto: Madalena Condado

Foto: Direitos Reservados


“Bad Santa 2” em português “Um Pai Natal para Esquecer” continua a assustadora história de Willie Soake iniciada 13 anos antes. Billy Bob Thornton consegue mais uma vez personificar o anti-herói criminoso e bêbado sempre mais activo nesta quadra festiva na sua personagem de Pai Natal.

O filme conta uma vez mais um elenco de luxo, Tony Cox o seu habitual colega do crime bem como Brett Kelly, que no primeiro filme tinha somente 10 anos de idade. A eles junta-se um leque de excelentes actores como é o caso da actriz Kathy Bates cuja personagem fica, porém muito aquém das suas capacidades de interpretação. 
A realização deste segundo filme também muda ficando desta feita a cargo de Mark Waters. 
Neste filme continuamos a ser presenteados com um humor negro muito bem trabalhado, apesar de resvalar muitas vezes no exagero. Acaba por ser um filme não para toda nem para todas as famílias, apesar de bem conseguido. 

Nota de redacção: A Nova Gazeta agradece à NOS - Audiovisuais as facilidades concedidas no visionamento prévio deste filme.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

CINEMANIA | Blood Father - O Protector [Crítica de Cinema]

Texto: Madalena Condado

Foto: IMDB - Direitos Reservados

Estreia dia 24 de Novembro de 2016

Blood Father – O Protetcor é para os seguidores de Mel Gibson um regresso cheio de acção e emoções fortes muito ao seu género e ao que já nos tinha habituado no passado.

Gibson representa um motoqueiro criminoso, ex-presidiário em recuperação de todos os seus vícios, marcado pela ausência da sua filha desaparecida na adolescência.

Esta por sua vez vê-se envolvida com o chefe de um cartel de droga acabando por ser envolvida na sua rede de mortes e roubo que irão conduzir à sua eventual fuga. Para conseguir sobreviver sabe que terá que colocar a sua vida nas mãos da única pessoa capaz de a proteger, o seu pai.

Este filme mostra-nos ainda o verdadeiro sentimento do amor paterno onde não existem limites e o mais importante é garantir a segurança da filha. 
Mel Gibson mostra-nos que continua a ser fantástico em qualquer papel. Aqui mais uma vez nos deixa baralhados entre a sua genialidade e a sua loucura. 

Não nos podemos esquecer do realizador deste filme Jean-François Richet que já nos tinha presenteado no passado com fantásticos filmes de acção tais como “Assalto à 13ª Esquadra” e “Inimigo Público nº1”. E que ao pegar em Gibson e deixá-lo dirigir-se praticamente a ele mesmo consegue tirar o melhor que este tem para dar.


Nota de redacção: A Nova Gazeta agradece à NOS - Audiovisuais as facilidades concedidas no visionamento prévio deste filme.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

CINEMANIA | "O Herói de Hacksaw Ridge" [Crítica de Cinema]


Texto: Madalena Condado

Foto: Nós Audiovisuais - Direitos Reservados


Pelas magistrais mãos de Mel Gibson chega-nos mais um filme onde se juntam todos os ingredientes necessário para vir a ser um êxito de bilheteiras, ou não contasse ele com nomes como Hugo Weaving, Rachel Griffiths, Vince Vaughn, Richard Roxburgh, Andrew Garfield entre tantos outros. 

Hacksaw Ridge ao contrário de todos os filmes de guerra anteriormente produzidos tem a excepcional capacidade de nos mostrar um lado humano no meio de tanta destruição e morte. Tem tudo para poder ser considerado um filme antiguerra ou não fosse ele uma póstuma homenagem a Desmond Doss o primeiro militar Objector de Consciência a receber a Medalha de Honra pela coragem demonstrada em pleno campo de batalha.

Desmond Doss foi um verdadeiro herói de guerra americano que na batalha de Okinawa em que os soldados tinham que escalar a escarpa de Maeda renomeada pelos americanos de Hacksaw Ridge salvou sozinho 75 soldados feridos sem nunca pegar numa arma.

Este filme além de nos mostrar o legado de um verdadeiro pacifista, acaba por ser um tributo à sua própria fé, coragem e valor. E nada melhor para representar todos essas características de Desmond Doss do que a frase por ele utilizada para lhe dar força na árdua tarefa que teve ao salvar todos aqueles homens “Ajuda-me a salvar mais um”.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

[Cinemania] "Chocolate" [Crítica de Cinema]


Crítica de Cinema

Texto: Madalena Condado

Foto: Direitos Reservados

O filme “Chocolate” através do olhar do seu realizador Roschdy Zem leva-nos até Paris do século XIX considerada como a capital europeia deste período. Mostra-nos com um detalhe impressionante as enormes desigualdades sociais, mas sobretudo dá-nos a conhecer a vida de um homem que teve a coragem de ser o primeiro palhaço negro da história.

Mais do que um filme é uma história de vida marcada pelo sofrimento e a constante procura da liberdade interpretado na perfeição pelo actor Omar Sy que já conta no seu curriculum com excelentes interpretações. 

Foca temas ainda hoje tão falados como o tráfico de seres humanos e o racismo. 

Nascido em Cuba filho de escravos, vendido a um espanhol, chega à Europa onde apesar de já não ser escravo continua a ser visto como um “animal” exótico. Começa no circo a interpretar o papel de canibal onde vem a conhecer aquele que seria o seu único verdadeiro amigo. Com ele passa a fazer parte do duo de palhaços “Footit e Chocolat” a partir dai a sua ascensão será muito rápida bem como o seu declínio. 

Footit é representado de uma forma majestosa pelo actor James Thiérrée que lembra em tantos momentos o seu avô Charlie Chaplin quer fisicamente quer na sua interpretação, durante o filme sente-se que Footit luta contra alguns demónios pessoais, mas esta ideia é deixada em aberto pelo realizador.

Chocolate é-nos apresentado como um homem charmoso principalmente com as mulheres e ambicioso, a sua capacidade para realizar o seu maior desejo interpretando “Othello” de Shakespeare perante a sociedade francesa será, no entanto, o gatilho que mudará a sua vida para sempre. 
Ao deixar o circo pelo teatro perceberá que nem tudo é alcançável. 

São focados os seus diversos vícios, ao jogo, ao álcool e às drogas os principais responsáveis pelo seu declínio e morte precoce. Julga-se que ainda não teria cinquenta anos quando morreu tuberculoso, na pobreza. Também aqui o realizador teve o cuidado de nos mostrar como a sua doença estava directamente relacionada com o seu modo de vida.

Este filme acaba por ser a forma de homenagear um homem que podia ter tido tudo não tivesse ela nascido numa época que não o compreendia e que o julgava por ser diferente. 

Podemos recordá-lo pelos seus mais diversos nomes Kananga, Chocolate, Rafael Padilla, mas na realidade ele será sempre lembrado como o primeiro Palhaço negro. 

E tal como o crítico Walter Benjamin afirmou no século XIX; “Cada época sonha a seguinte” e também Chocolate sonhava com um tempo que ainda não era o seu.