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domingo, 30 de agosto de 2026

ONZE MINUTOS, de INÊS VALADAS | EUFORIA

Onze Minutos, de Inês Valadas, é um romance dark romance, publicado em Portugal pela chancela Euforia, da Guerra e Paz. A obra, publicada em junho de 2026, constitui a estreia literária da autora e apresenta-se como uma narrativa de elevada intensidade emocional, abordando temas cruciais que chamam à atenção para a importância da saúde mental.

Não é um livro fácil — e talvez seja precisamente essa uma das suas maiores virtudes. Onze Minutos assume sem hesitação os códigos do dark romance, mas procura ir além da mera exploração da relação amorosa intensa, perigosa e tóxica. O resultado é uma narrativa sombria, por vezes desconfortável, construída sobre personagens emocionalmente marcadas e sobre uma relação que, embora tóxica e perturbadora, possui uma força narrativa capaz de prender o leitor até à última página.

Laurell e Adrian são os protagonistas de uma história na qual amor e sofrimento surgem quase indissociáveis. Sete anos depois de o destino os ter unido, as suas vidas voltam a cruzar-se num contexto em que nada parece verdadeiramente resolvido. O passado não desapareceu; regressa sob a forma de segredos, feridas abertas, promessas quebradas e de uma ligação afetiva que permanece demasiado forte para ser ignorada.

É nessa permanência do passado que Inês Valadas encontra uma das linhas de força do romance. Laurell e Adrian não são simplesmente um casal em conflito: são duas personagens condicionadas por experiências pessoais que continuam a determinar as suas escolhas. A relação entre ambos adquire, por isso, uma dimensão quase claustrofóbica, em que desejo, dependência, medo, lealdade e necessidade de reparação se confundem.

A escrita distingue-se pela intensidade e por uma evidente preocupação estilística. Há momentos em que a linguagem se aproxima de uma escrita mais literária e sensorial, afastando-se de uma construção puramente funcional ou comercial da narrativa romântica. A autora procura que as emoções sejam sentidas fisicamente pelo leitor, e não apenas compreendidas. O resultado são páginas que, em determinados momentos, provocam genuíno desconforto e funcionam quase como um impacto físico.

Mas Onze Minutos não se esgota na história de amor. A saúde mental constitui uma dimensão particularmente relevante do romance, mediante alusões a ansiedade, ataques de pânico e depressão profunda. A própria autora adverte, no início da obra, para a presença destes conteúdos e esclarece que as referências a Psicologia, Psiquiatria e determinadas intervenções terapêuticas obedecem às necessidades ficcionais da narrativa, tendo-se permitido alguma liberdade narrativa ao invés de obedecer ao rigor científico.

Esta ressalva é importante porque o livro convoca uma terminologia e situações relacionadas com áreas clínicas particularmente sensíveis. A narrativa beneficia quando o leitor mantém presente que está perante uma construção ficcional e não perante uma representação técnica ou científica dos processos psicológicos e psiquiátricos. A distinção é especialmente relevante: a Psicologia é uma ciência que estuda o comportamento e os processos mentais, enquanto a Psiquiatria é uma especialidade médica, embora ambas as áreas se cruzem e complementem em múltiplos contextos.

Ainda assim, a utilização desses elementos cumpre uma função narrativa eficaz. O sofrimento psicológico das personagens não aparece simplesmente como adereço para intensificar o drama romântico; contribui para compreender a forma como experiências pessoais e familiares podem repercutir-se na construção da identidade e na maneira como cada indivíduo estabelece relações consigo próprio e com os outros.

É também neste ponto que o romance adquire uma dimensão mais interessante. Por detrás do dark romance, existe uma reflexão sobre aquilo que fazemos com as feridas que transportamos e sobre a forma como o passado pode continuar a determinar o presente. O amor não surge necessariamente como solução ou cura, aliás, pode ser simultaneamente refúgio, dependência, instrumento de poder e fonte de destruição.

A intensidade da relação entre Laurell e Adrian constitui, por isso, tanto a principal força como a característica que mais exigirá do leitor, a narrativa é pautada por muitos episódios imensamente duros em termos emocionais, e aborda temas sensíveis que causam ostensivamente desconforto no leitor. As advertências da autora são mesmo para levar a sério, pois é importante aferir da capacidade do leitor para suportar o peso emocional e psicológico desta obra.

Esta não é, portanto, uma leitura recomendável sem reservas a todos os públicos. Mas para quem procura dark romance e aceita confrontar-se com uma narrativa intensa, sombria e emocionalmente exigente, Onze Minutos oferece uma proposta particularmente ambiciosa para uma estreia e denota-se na escrita a entrega da autora ao realizar um trabalho cuidado em termos literários e de abordagem dos conteúdos, revelando-se uma perspetiva algo catártica na escrita de Inês Valadas, sendo a autora conhecida entre as leitoras portuguesas do género dark romance, não isento de polémica, mas que é inequivocamente uma tendência literária atual.

Inês Valadas consegue, sobretudo, criar duas personagens que permanecem na memória dos leitores muito tempo depois de encerrado o livro. Laurell e Adrian são personagens marcantes porque a sua história não assenta apenas na atração ou no conflito romântico: assenta nas marcas que as experiências familiares e pessoais deixam nas pessoas e na dificuldade de separar amor, dor, identidade e sobrevivência.

Onze Minutos é, assim, um romance intenso, duro, apaixonante e perturbador, mas também uma obra que convida à reflexão sobre saúde mental, bem-estar e sobre a forma como as narrativas pessoais e familiares podem repercutir-se profundamente na construção de quem somos. A estreia de Inês Valadas revela uma autora consciente do género que escolheu, mas igualmente interessada em explorar as suas possibilidades para além do puro entretenimento.

Um dark romance português que não pretende simplesmente reproduzir uma fórmula internacional: procura encontrar, dentro dela, uma voz própria. E, sobretudo, deixa uma pergunta desconfortável depois de terminada a leitura: até onde pode ir o amor antes de deixar de ser salvação e passar a ser destruição?

A ler conscientemente e apenas se validar as advertências da autora!


Texto: Isabel de Almeida | Jornalista | Crítica Literária

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

FARAWAY INN - ONDE MORA A MAGIA, de SARAH BETH DURST | SINGULAR

Faraway Inn — Onde mora a magia, de Sarah Beth Durst, é um romance de fantasia juvenil, de inspiração cozy fantasy, publicado em Portugal pela chancela Singular, Grupo Porto Editora. A edição portuguesa chegou às livrarias em maio deste ano.

Depois de um desgosto amoroso, Calisa procura distância suficiente para reconstruir a própria vida e aceita passar o verão na estalagem da tia-avó. O cenário que encontra, porém, está muito longe do refúgio acolhedor que imaginava: a propriedade encontra-se decadente, a tia-avó Zee é uma figura excêntrica e pouco receptiva e até os hóspedes parecem esconder alguma coisa. É precisamente nesse contraste entre a expectativa e a realidade que Sarah Beth Durst constrói o encanto de Faraway Inn.

A premissa pode parecer simples, mas a autora sabe trabalhar com competência os ingredientes fundamentais da chamada cozy fantasy: um espaço simultaneamente doméstico e mágico, uma protagonista em processo de reconstrução emocional, personagens peculiares, um animal de estimação incomum e com personalidade própria, um romance a despontar e, sobretudo, a sensação de que por detrás da aparente normalidade existe um mundo muito maior à espera de ser descoberto.

Calisa chega à estalagem fragilizada por uma desilusão amorosa e em busca de um novo sentido. A reconstrução do edifício transforma-se, gradualmente, numa reconstrução pessoal.

Ao tentar devolver vida à velha hospedaria, a protagonista começa também a recuperar sonhos e possibilidades que pareciam perdidos. A magia funciona, assim, não apenas como elemento fantástico, mas como metáfora para a possibilidade de recomeçar.

O verdadeiro encanto do livro está, contudo, na própria estalagem. Corredores que parecem não obedecer às regras do espaço convencional, hóspedes misteriosos e acontecimentos que ultrapassam a lógica quotidiana transformam o edifício numa personagem por direito próprio.

A casa deixa de ser simplesmente o cenário da história para se tornar o centro de um pequeno universo mágico que Calisa terá de aprender a compreender e onde virá a ter um papel de relevo.

Também aqui a fantasia não se limita ao maravilhoso pelo maravilhoso. A história trabalha temas como pertença, família, perda, afecto e a descoberta de que os laços mais importantes nem sempre são aqueles que nos são impostos pelo sangue. A ideia de família escolhida atravessa o romance e confere-lhe uma dimensão emocional que impede que a narrativa seja apenas uma sucessão de situações mágicas.

O romance amoroso, por sua vez, surge integrado nessa atmosfera de conforto, sem dominar completamente a narrativa. A aproximação ao filho do caseiro acrescenta uma tensão romântica agradável, mas é a relação de Calisa com a própria estalagem e com as pessoas — e criaturas — que nela habitam que constitui o verdadeiro coração da história.

É uma leitura particularmente indicada para quem procura uma pausa da realidade e prefere uma fantasia que privilegia o aconchego, o humor e a emoção em detrimento do conflito épico. A autora não pretende criar uma fantasia sombria ou de grande escala; procura antes construir um pequeno mundo onde a magia se encontra nos detalhes, nos espaços inesperados e nas relações que se estabelecem entre as personagens.

Há, naturalmente, quem possa desejar maior intensidade narrativa ou uma exploração mais profunda do universo mágico. A simplicidade da fórmula pode parecer previsível a leitores habituados a fantasias mais complexas. Mas é justamente essa simplicidade que constitui parte da sua proposta: Faraway Inn não quer inquietar o leitor, quer acolhê-lo.

Sarah Beth Durst consegue transformar uma estalagem decadente num lugar de descoberta, pertença e possibilidade. O resultado é uma cozy fantasy delicada e envolvente, com magia, mistério, romance e uma boa dose de escapismo — uma leitura para saborear devagar, idealmente num lugar confortável, com uma chávena de chá e uma fatia de bolo por perto.

Por: Isabel de Almeida | Jornalista | Crítica Literária

domingo, 23 de agosto de 2026

CÉSAR – A CONQUISTA DA ETERNIDADE, de ALBERTO ANGELA | CRÍTICA

Há homens que pertencem à História. E há homens que parecem ter conseguido escapar-lhe. Júlio César pertence à segunda categoria.

Dois mil anos depois da sua morte, o seu nome continua a ser pronunciado, estudado e discutido. As suas guerras permanecem nos livros, as suas decisões continuam a alimentar interpretações e a sua figura sobrevive entre o homem que foi e o personagem que ele próprio ajudou a construir.

É precisamente essa fronteira que Alberto Angela explora em César – A Conquista da Eternidade, uma obra que parte da conquista da Gália para contar muito mais do que a história de uma campanha militar. O autor leva o leitor para dentro da Roma do século I a.C., uma sociedade dominada pela ambição, pela riqueza, pelas alianças e por uma luta permanente pelo poder.

O resultado é uma biografia que se lê quase como uma reportagem sobre um homem no centro de uma época em convulsão.

Angela não apresenta um César transformado em estátua. Pelo contrário. Mostra um homem ambicioso, calculista, corajoso e, por vezes, brutal, mas também escritor, intelectual, marido, pai e amante. Um político e militar que percebeu uma coisa fundamental: conquistar territórios era importante, mas conquistar a narrativa sobre essas conquistas podia ser ainda mais poderoso.

É na campanha da Gália que essa abordagem se torna particularmente eficaz.

Uma legião deixa de ser apenas um número. Passa a ser constituída por homens que marcham durante horas, enfrentam o frio, a fome e o medo, obedecem, matam e podem morrer. Uma batalha deixa de ser uma data num manual escolar e transforma-se em lama, sangue, fogo, estratégia e decisões tomadas em poucos segundos.

A escrita de Alberto Angela tem aqui uma qualidade quase cinematográfica. O leitor não observa simplesmente os acontecimentos à distância: é colocado dentro deles.

Mas a guerra, em César, nunca está separada da política.

As vitórias militares significavam riqueza, prestígio e poder. Significavam também a fidelidade dos soldados. César precisava de vencer, mas precisava igualmente de explicar as suas vitórias. A forma como os acontecimentos eram contados fazia parte da própria estratégia política.

É talvez uma das questões mais contemporâneas do livro: quem controla a narrativa controla, em parte, a memória da História.

Ao lado de César surgem personagens, alianças familiares, casamentos, rivalidades e interesses económicos que ajudam a perceber como funcionava a República Romana nos seus últimos anos. Roma aparece como uma sociedade onde a política raramente era apenas política. Poder, dinheiro, prestígio militar, relações pessoais e ambição individual estavam profundamente ligados.

É também aqui que o livro ganha dimensão humana.

César não é apresentado apenas como o grande conquistador. É apresentado como alguém que precisava de pessoas à sua volta, que estabelecia alianças, que calculava riscos e que compreendia a importância da imagem. A figura histórica começa, assim, a confundir-se com a figura pública que o próprio César construiu.

Outro elemento particularmente interessante são as reconstruções visuais apoiadas por inteligência artificial, desenvolvidas com a participação de especialistas. A tecnologia surge como uma ferramenta para aproximar o leitor de um mundo desaparecido, dando maior concretização a lugares, rostos e acontecimentos.

Mas existe uma pergunta que o livro inevitavelmente deixa no ar.

Quem ficou de fora da História de César?

Sabemos aquilo que César quis contar. Sabemos como descreveu as suas campanhas e como apresentou as suas decisões. Mas sabemos muito menos sobre aqueles que estavam do outro lado.

O que aconteceu às populações conquistadas? Aos mortos sem nome? Aos homens e mulheres que viram as suas terras destruídas? Àqueles que não tiveram um César, um cronista ou um historiador para contar a sua versão?

É neste ponto que César – A Conquista da Eternidade ultrapassa a biografia de um conquistador. O livro passa a ser também uma reflexão sobre a própria construção da História. O título é, por isso, particularmente feliz. César conquistou a Gália. Conquistou poder, riqueza e glória. Mas a sua maior conquista poderá ter sido outra: conseguiu tornar-se impossível de esquecer. E fê-lo também através da escrita.

Ao escrever sobre as suas próprias campanhas, César não se limitou a registar acontecimentos. Participou na criação da personagem histórica que chegou até nós. Entre o homem que existiu e o mito que sobreviveu, há uma narrativa que continua a ser lida dois mil anos depois.

É essa a grande força de Alberto Angela: transformar conhecimento histórico em experiência. O autor não exige ao leitor conhecimentos prévios sobre Roma. Em vez disso, constrói uma narrativa acessível, visual e envolvente, capaz de interessar tanto quem já conhece a História romana como quem se aproxima dela pela primeira vez.

No final, a pergunta mais interessante deixa de ser apenas “quem foi Júlio César?”

Passa a ser outra: como consegue um homem transformar a própria vida numa história capaz de sobreviver à sua morte?

Talvez seja essa, afinal, a verdadeira conquista da eternidade. Não permanecer intocável no passado, como uma estátua de mármore, mas continuar, séculos depois, a provocar perguntas.

Recomendo a leitura porque Alberto Angela consegue fazer aquilo que nem sempre é fácil na divulgação histórica: transformar informação em experiência. A História deixa de ser uma sucessão de datas e nomes e passa a ter movimento, conflito, medo, ambição e humanidade.

O ponto mais forte é a capacidade de humanizar César sem apagar a dimensão política e militar da sua figura — e, sobretudo, de mostrar como o próprio César participou na construção do mito que chegou até nós.

A questão que permanece: onde termina o homem que César foi e começa o personagem que César decidiu deixar para a História?

É nessa fronteira entre realidade, propaganda e memória que César – A Conquista da Eternidade encontra a sua dimensão mais interessante.

E é também aí que Alberto Angela consegue trazer Júlio César para o presente.


Por: Madalena Condado

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

PERGUNTA PELA ANDREA, de NOELLE W. IHLI | CULTURA


Pergunta pela Andrea, de Noelle W. Ihli, é um thriller psicológico com elementos sobrenaturais, publicado em Portugal pela chancela Cultura. A edição portuguesa, traduzida por Alexandra Cardoso, chegou às livrarias em maio de 2025 sendo que a obra foioriginalmente publicada em inglês, com o título Ask for Andrea, pela Dynamite Books, em 2022.

Há géneros literários particularmente vulneráveis à repetição de fórmulas narrativas. O thriller é, sem dúvida, um deles: assassinos metódicos, vítimas perseguidas, investigadores determinados e reviravoltas sucessivas fazem parte de um repertório que o leitor conhece demasiado bem. Todavia, Noelle W. Ihli encontra uma forma engenhosa de inverter uma dessas premissas mais cliché. Aqui, sabemos relativamente cedo quem é o assassino. A verdadeira incógnita não está na identidade do criminoso, mas naquilo que as suas vítimas, depois da morte, poderão fazer para o deter e para revelar a sua identidade.

Meghan, Brecia e Skye foram assassinadas pelo mesmo homem, que usa a internet para se apresentar como o solteiro perfeito e transformar encontros amorosos em armadilhas mortais. O ponto de partida é particularmente perturbador porquanto explora um perigo contemporâneo e reconhecível: a construção deliberada de uma identidade sedutora como instrumento de manipulação e violência. Mas é depois da morte que a narrativa encontra a sua verdadeira originalidade. As três mulheres não desaparecem da história; pelo contrário, passam a constituir uma espécie de força colectiva determinada a impedir que o assassino faça novas vítimas.

É neste movimento que Pergunta pela Andrea se afasta do thriller convencional. Em vez de acompanhar exclusivamente a perseguição ao criminoso, o leitor é colocado próximo das próprias vítimas, conhecendo as suas histórias, os seus medos, os vínculos que deixaram para trás e, sobretudo, as razões que as impedem de simplesmente partir. Uma quer que o seu corpo seja encontrado; outra deseja que a família conheça finalmente a verdade; outra está determinada a evitar que outras mulheres tenham o mesmo destino. A morte, assim, não encerra as personagens: transforma-se no ponto de partida de uma segunda luta.

A dimensão sobrenatural poderia facilmente conduzir a narrativa para os lugares comuns do terror. Ihli, porém, opta por uma utilização mais contida dos fantasmas. Seria interessante, talvez, encontrar espíritos mais activos e uma presença sobrenatural mais intensa no processo de assombração. Mas essa relativa contenção acaba por funcionar a favor do livro: as aparições não substituem as personagens nem transformam a história num simples exercício de horror. Os fantasmas continuam a ser, antes de tudo, mulheres com personalidade, memórias, relações e assuntos por resolver. É precisamente na construção das personagens femininas que o romance encontra uma das suas maiores forças. Meghan, Brecia e Skye possuem densidade psicológica e não são reduzidas à condição de vítimas de um serial killer. O leitor é conduzido para uma empatia pouco habitual: acompanha mulheres que já morreram, mas cuja individualidade permanece viva na narrativa. A estratégia permite também criar uma relação particularmente inquietante com as pessoas próximas do assassino, obrigando o leitor a olhar para a violência não apenas através das vítimas, mas também através daqueles que permanecem vivos e que, muitas vezes, desconhecem quem realmente têm diante de si.

O resultado é um thriller de ritmo acelerado, de leitura fluida e com uma premissa suficientemente original para escapar aos clichés do género. A autora consegue equilibrar suspense, dimensão psicológica e sobrenatural sem deixar que nenhum destes elementos anule os restantes. Mais do que descobrir quem matou — porque essa resposta é deliberadamente oferecida ao leitor —, interessa perceber se as vítimas conseguirão finalmente encontrar uma forma de justiça.

Pergunta pela Andrea é, por isso, uma inversão inteligente do thriller de perseguição: desta vez, não são apenas os vivos que caçam o assassino. São as próprias vítimas que regressam para o perseguir. E é nessa inversão, simultaneamente perturbadora e emotiva, que Noelle W.Ihli encontra a identidade própria do romance.


Texto: Isabel de Almeida | Jornalista | Crítica Literária

terça-feira, 18 de agosto de 2026

CRÍTICA | CÊNTIMOS, de PEPPER WINTERS | ALMA DOS LIVROS


 Cêntimos, de Pepper Winters, é um dark romance elevado ao máximo expoente deste género literário, publicado em Portugal com chancela Alma dos Livros. A obra acompanha Pim, uma jovem estudante de Psicologia raptada e mantida durante dois anos num duro cativeiro onde é exposta a violência extrema e isolamento social, até ao momento em que no seu estranho mundo chega um misterioso desconhecido de seu nome Elder Prest. 

Há livros que utilizam a violência como elemento narrativo , ao passo que outros forçam o leitor a presenciar a violência como elemento chave da existência, digamos que Cêntimos pertence indubitavelmente à segunda categoria. Pepper Winters escreve dentro dos códigos do dark romance, mas fá-lo sem procurar suavizar a brutalidade do universo em que coloca a protagonista. O resultado é uma leitura viciante e profundamente desconfortável, que exige do leitor disponibilidade para enfrentar violência física e psicológica, trauma, isolamento e relações marcadas por uma enorme assimetria de poder.

Pim é uma personagem particularmente inolvidável. Raptada e transformada em prisioneira de um mundo que lhe roubou a liberdade, a voz e a própria perceção de identidade, aprende a sobreviver através de mecanismos de defesa que lhe permitem preservar aquilo que ainda pode considerar seu. A sua resistência não é apresentada como uma força ostensiva ou heroica no sentido convencional. Estamos perante uma resistência silenciosa, construída através da capacidade de suportar, observar, esconder e conservar dentro de si um espaço que o agressor não consegue dominar completamente.

Sob o ponto de vista do perfil psicológico da protagonista feminina, destaca-se a sua invulgar resiliência e o recurso à dissociação como mecanismo de defesa protetor em relação à extrema violência a que se vê sujeita. Pim deixa a sua mente vagar para um plano mental alternativo, afastando-se internamente da experiência imediata quando a realidade se torna insuportável. É esta dissociação que, efetivamente, a ajuda a suportar a dor que lhe é infligida. A mente transforma-se, paradoxalmente, no último reduto de liberdade de uma personagem a quem praticamente todas as formas externas de autonomia foram extirpadas.

Esta dimensão psicológica é uma das mais interessantes do romance, porque permite compreender a sobrevivência de Pim não apenas como uma sucessão de atos de resistência física, mas como um processo interno de preservação do self. A personagem não deixa de sentir a violência; encontra, antes, uma forma de se distanciar dela para conseguir continuar a existir. A dissociação assume, destarte, uma função narrativa que ultrapassa o mero recurso estilístico: torna visível a fragmentação psicológica provocada pelo trauma e a extraordinária capacidade adaptativa de uma mente colocada perante circunstâncias extremas.

É também através deste mecanismo que o romance proporciona ao leitor uma experiência particularmente claustrofóbica. O leitor sabe que Pim está presa, mas percebe progressivamente que a sua prisão não é apenas física. O espaço exterior é controlado por outros; o espaço interior é aquele que ela tenta desesperadamente preservar a todo o custo. A pergunta fundamental deixa então de ser apenas «como conseguirá fugir?» para passar a ser «quanto de si conseguirá preservar?».

O mundo criado por Pepper Winters é hostil, isolado e intencionalmente perturbador. A violência, gráfica ou apenas sugerida, constitui uma presença permanente e não é adequada a todos os leitores. O livro deve, por isso, ser lido tendo em devida conta as advertências de conteúdo e a sensibilidade individual perante temas relacionados com abuso, violência e trauma.

Quando neste contexto isolado surge Elder Prest, esta personagem, o nosso anti-herói confere uma nova e inesperada dinâmica na narrativa. Misterioso, frio e moralmente ambíguo, Elder não corresponde à figura convencional do herói romântico, assumidamente um anti-herói cuja presença acrescenta uma nova aura de mistério e de incerteza à história. Prest assume uma posição ambígua e transporta as suas próprias sombras, denotando-se que terá experienciado também situações extremas, e irá firmar com Pim uma relação que apresenta alguma ambivalência, deixando o leitor curioso perante os futuros desenvolvimentos que esta relação venha a assumir. 

A ligação entre ambos é deveras complexa. Não se trata de um romance convencional entre duas pessoas livres para escolher. A relação nasce dentro de um contexto de violência, vulnerabilidade e desequilíbrio de poder, o que obriga o leitor a questionar continuamente a natureza dos sentimentos que se desenvolvem entre as personagens. É precisamente essa ambiguidade que impede Elder de se tornar uma figura romântica previsível.

A autora constrói-o como uma personagem densa, misteriosa e fascinante, e a sua ligação inesperada com Pim constitui um dos elementos que mais alimentam a curiosidade narrativa. Há nele qualquer coisa de deliberadamente indecifrável, suficientemente forte para sustentar a expectativa relativamente aos títulos seguintes da série.

Se há uma fragilidade estrutural em Cêntimos, ela encontra-se no ritmo. O desenvolvimento inicial é algo desigual e existem momentos em que determinadas pontas da ação e aspetos do percurso de Pim parecem receber menos atenção do que seria desejável. Em contrapartida, o último terço ganha uma intensidade muito superior: a narrativa acelera, as perguntas acumulam-se e a curiosidade do leitor torna-se progressivamente mais difícil de controlar.

Essa opção acaba por produzir um efeito paradoxal. Alguns elementos permanecem deliberadamente sem resposta, mas o vazio não é forçosamente um defeito. A ausência de explicações sobre a família de Pim, os amigos e os esforços eventualmente realizados para a encontrar é, em si mesma, perturbadora. O leitor é levado a perguntar repetidamente: onde está a família? Onde estão os amigos? O que fizeram para a localizar? A inexistência imediata de respostas reforça a sensação de abandono e isolamento da protagonista.

E é precisamente nesse vazio que o romance encontra uma das suas maiores forças. Pim não está apenas fisicamente afastada do mundo: parece ter sido apagada dele. A sua sobrevivência torna-se, por isso, ainda mais impressionante, porque acontece num contexto em que praticamente nenhuma rede exterior de proteção parece funcionar.

Cêntimos é, em última análise, um livro de violência, mas também um livro sobre sobrevivência. A sua maior força não reside apenas na capacidade de chocar ou perturbar: assenta na construção psicológica de uma protagonista que encontra dentro de si mecanismos para continuar a existir quando tudo à sua volta parece concebido para a destruir.

Não é uma leitura para qualquer leitor, nem pretende sê-lo. É emocionalmente pesada, contém violência física e psicológica e aborda situações potencialmente perturbadoras, pelo que leitores particularmente sensíveis deverão considerar as advertências de conteúdo antes de iniciar a obra.

Mas para quem procura dark romance numa das suas expressões mais intensas, Cêntimos oferece uma experiência narrativa difícil de abandonar. Pepper Winters não apresenta uma história de amor confortável nem personagens facilmente classificáveis entre bons e maus. A obra arrasta o leitor para um território assumidamente desconfortável em termos morais e humanos. 

Pim é, claramente, a personagem que permanece. Não porque seja invulnerável, mas precisamente pelo contrário: porque a sua extraordinária resiliência resulta da vulnerabilidade e da capacidade de encontrar, mesmo no seio da violência extrema, um lugar mental onde ainda consegue ser ela própria.

Elder Prest deixa muitas perguntas sem resposta. Pim deixa uma certeza: uma pessoa pode ser privada de quase tudo e, ainda assim, encontrar dentro da própria mente o último espaço que ninguém conseguiu conquistar, a preservação da sua identidade, da sua essência frágil mas, ainda assim, humana.


Texto: Isabel de Almeida | Crítica Literária | Jornalista

Foto: Nova Gazeta - D.R.


domingo, 16 de agosto de 2026

JUAN CARLOS I RECONCILIAÇÃO - MEMÓRIAS | PLANETA

O rei que quer recuperar a própria história

Há figuras históricas que pertencem ao passado. E há outras que continuam a disputar, muitos anos depois, o modo como serão recordadas. Juan Carlos I pertence claramente à segunda categoria.

Durante quase quatro décadas, o seu nome esteve associado à transformação política de Espanha: à morte de Francisco Franco, à restauração da monarquia, à Transição democrática e à consolidação de um regime que encontrou no rei uma figura de equilíbrio num dos períodos mais delicados da história contemporânea espanhola. Mais tarde, porém, a imagem construída ao longo desses anos começou a degradar-se sob o peso de escândalos, suspeitas financeiras, controvérsias familiares e do crescente afastamento da vida pública. Em 2020, Juan Carlos deixou Espanha e instalou-se em Abu Dhabi.

É a partir desse momento de ruptura que surge Reconciliación.

Mais do que uma autobiografia convencional, o livro pode ser lido como uma tentativa de recuperar o controlo sobre uma narrativa que o antigo rei sente ter deixado de lhe pertencer. A intenção é evidente desde o princípio: Juan Carlos escreve para contrariar aquilo que considera ser uma versão incompleta — ou injusta — da sua história.

E é precisamente aí que reside o principal interesse da obra.

Quem tem autoridade para contar a História? O protagonista que a viveu ou aqueles que, décadas depois, a investigam e interpretam?

No caso de Juan Carlos I, a pergunta ganha particular importância. Não estamos perante um antigo chefe de Estado que ocupou o poder durante alguns anos, mas perante o homem que foi rei de Espanha durante 39 anos e que desempenhou um papel decisivo na passagem do franquismo para a democracia.

As suas memórias percorrem a infância, os anos de formação, a relação com Franco, a chegada ao trono, a Transição, a tentativa de golpe de Estado de 23 de fevereiro de 1981, a relação com a rainha Sofía, os filhos, os episódios familiares e os últimos anos marcados pelo afastamento de Espanha.

É uma narrativa simultaneamente política e pessoal. Mas também é uma narrativa cuidadosamente construída.

É uma obra escrita sem filtros nem tabus aparentes, na qual o rei emérito procura revelar-se sobretudo na sua dimensão humana e não apenas institucional. Fala dos seus sentimentos, das suas relações, das suas escolhas e dos seus erros, procurando mostrar o homem que existia por detrás da coroa.

Essa é uma das principais contradições de Reconciliación: o homem decide finalmente falar quando já não exerce o poder, mas continua a falar como alguém que conhece profundamente o valor político da palavra.

O antigo rei procura apresentar-se antes de mais como homem. Como o filho, o marido, o pai, o amigo, o homem apaixonado, mas também o homem que envelheceu e que olha para trás procurando compreender as escolhas que fez.

A morte do irmão Alfonso, ainda durante a sua juventude, surge como uma das feridas mais profundas da sua vida. Já a relação com Franco constitui uma das questões politicamente mais complexas das memórias. Juan Carlos foi educado dentro do sistema franquista. Foi designado por Franco como seu sucessor a título de rei. E, depois da morte do ditador, tornou-se uma das figuras centrais da transição para um sistema democrático.

É nesta aparente contradição que se encontra uma das partes mais relevantes do livro. Juan Carlos procura explicar como recebeu um poder criado pelo franquismo e como utilizou esse mesmo poder para contribuir para a transformação política de Espanha. A Transição surge, por isso, menos como um processo inevitável do que como uma operação política delicada, marcada por negociações, receios e riscos. Nesta parte, o rei deixa de contar apenas a sua vida e passa a defender uma determinada interpretação do seu reinado.

O título é, por si só, uma declaração de intenções. Mas reconciliação com quem? Com Espanha? Com a família? Com o filho? Com a monarquia? Com a própria História? Ou consigo próprio? Provavelmente, com todos eles.

Juan Carlos escreve a partir de Abu Dhabi, longe do país que governou e afastado da família que durante décadas representou publicamente. A distância geográfica adquire, inevitavelmente, uma dimensão política e simbólica. O homem que durante anos esteve no centro da vida pública espanhola encontra-se agora fora dela. É desse lugar que procura regressar à narrativa nacional. Não necessariamente para recuperar o poder, que já não possui, mas para recuperar a memória do papel que desempenhou.

O leitor sabe, desde o início, que não está perante uma testemunha imparcial. Está perante o protagonista. Essa circunstância não diminui o interesse das memórias. Pelo contrário. Obriga a lê-las com atenção redobrada.

Juan Carlos procura revelar-se na sua dimensão humana e não apenas institucional. Fala de sentimentos, relações, escolhas e erros. A coroa deixa, em vários momentos, de ocupar o centro da narrativa para dar lugar ao homem que existia por detrás dela. Essa dimensão torna-se especialmente evidente quando aborda a família e, sobretudo, a relação com o filho, Filipe VI. O antigo rei não esconde a mágoa perante a forma como o seu afastamento foi conduzido pela família próxima e, em particular, pelo atual monarca. A frieza dessa decisão é sentida pelo homem, embora reconheça que o distanciamento público se tornou necessário para proteger a instituição e preservar o reinado do filho.

É uma das contradições mais fortes do livro: compreender racionalmente uma decisão política não significa necessariamente aceitar emocionalmente as consequências dessa decisão.

Quando a narrativa chega, porém, aos episódios que contribuíram para a queda da sua reputação, o tom torna-se mais cauteloso. As relações extraconjugais são abordadas de forma relativamente breve. As controvérsias financeiras e alguns dos acontecimentos que determinaram a sua saída de Espanha não recebem, pelo menos na perceção de muitos leitores, o mesmo grau de exposição que a dimensão política do reinado.

Uma autobiografia não tem de ser uma confissão integral. Mas um livro intitulado Reconciliación cria uma expectativa particular: a de confronto com o passado, incluindo com aquilo que é menos confortável.

Reconhecer responsabilidades é uma parte essencial de qualquer tentativa de reconciliação. E é precisamente nesse ponto que a obra pode deixar algumas perguntas em aberto. A principal dificuldade de Juan Carlos I parece ser separar o rei do homem. O rei pretende ser avaliado pelo papel histórico que desempenhou. O homem procura ser compreendido pelas circunstâncias, pelas relações e pelas decisões que marcaram a sua vida. Mas as duas dimensões não podem ser completamente separadas.

Reconciliación é, um livro marcado pela melancolia. Juan Carlos escreve quando já não possui o poder que durante décadas definiu a sua existência. Escreve quando o filho ocupa o trono, quando a sua permanência em Espanha se tornou politicamente incómoda e quando a imagem da monarquia já não é aquela que prevaleceu durante os primeiros anos da democracia. Escreve, sobretudo, num momento em que o silêncio deixou de funcionar como mecanismo de proteção.

Mas memória não é sinónimo de verdade absoluta.

Toda a autobiografia é uma construção. Seleciona acontecimentos, organiza lembranças, estabelece causalidades e define aquilo que deve ser contado — e aquilo que pode permanecer fora da narrativa. Juan Carlos I conta a História a partir do fim. É, por isso, mais interessante como documento de memória política e pessoal do que como tentativa definitiva de encerrar a discussão sobre Juan Carlos I.

O antigo rei procura reconciliar-se com Espanha, com a família, com a instituição que representou durante quase quatro décadas e, provavelmente, consigo próprio. Não oferece uma reconciliação concluída. Oferece o testemunho de um homem envelhecido que percebe que já não pode controlar a forma como a História o julgará, mas ainda pode tentar influenciar a forma como será lembrado.

É essa a verdadeira questão que permanece depois da última página.

Reconciliación é uma leitura que recomendo aos leitores interessados em biografias e memórias de figuras historicamente relevantes. Mais do que uma autobiografia pessoal, constitui um documento importante para compreender a história da monarquia espanhola e a perspetiva de um dos seus protagonistas sobre quase quatro décadas de vida política e institucional.

A decisão sobre o lugar que essa história merece ocupar cabe agora ao leitor — e, em última instância, à própria História.


Texto: Isabel de Almeida | Jornalista | Crítica Literária

domingo, 26 de julho de 2026

RESENHA | SEM TRÉGUAS, de STEPHEN KING | BERTRAND

Sem Tréguas, de Stephen King, é uma obra que reúne histórias marcadas pelo suspense, pela tensão psicológica e por personagens que enfrentam situações extremas. Como em muitos dos seus livros, o autor explora os medos humanos e mostra como pessoas comuns podem ser levadas ao limite diante de acontecimentos inesperados.

A narrativa apresenta personagens bem construídos e conflitos intensos, mantendo o leitor envolvido do início ao fim. Stephen King utiliza uma escrita fluida e detalhada, criando cenas de grande impacto e uma atmosfera de constante inquietação. O suspense cresce gradualmente, alternando momentos de ação com reflexões sobre culpa, medo, coragem e sobrevivência.

Um dos pontos fortes da obra é a capacidade do autor de transformar situações aparentemente comuns em experiências assustadoras e emocionantes. Em vez de depender apenas de elementos sobrenaturais, King investe no terror psicológico, explorando as emoções e as fragilidades dos personagens. Isso torna a leitura envolvente e faz com que o leitor se identifique com os conflitos apresentados.

A linguagem é acessível e dinâmica, o que facilita a leitura mesmo para quem ainda não conhece as obras do autor. Além disso, o ritmo da narrativa mantém o interesse ao longo de todo o livro, com reviravoltas que surpreendem e aumentam a tensão.

Em conclusão, Sem Tréguas é uma leitura recomendada para os fãs de suspense e terror psicológico. A obra demonstra mais uma vez o talento de Stephen King para criar histórias intensas, personagens memoráveis e situações que prendem a atenção do leitor até a última página.

 

Madalena Condado



 

domingo, 19 de julho de 2026

RESENHA | A HORA DO VAMPIRO, STEPHEN KING | BERTRAND

A Hora do Vampiro é um dos romances mais marcantes de Stephen King e uma das obras mais importantes da literatura de terror contemporânea. Publicado originalmente em 1975, o livro reinventa o mito clássico dos vampiros ao transportá-lo para uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos, onde o mal se espalha de forma lenta e silenciosa.

O protagonista, Ben Mears, retorna à cidade de Jerusalem's Lot para escrever um livro e enfrentar lembranças traumáticas da infância. No entanto, acontecimentos misteriosos começam a transformar a rotina da cidade em um verdadeiro pesadelo. Aos poucos, desaparecimentos, mortes e comportamentos estranhos revelam a presença de uma força maligna que ameaça todos os habitantes.

Stephen King constrói a narrativa de forma envolvente, desenvolvendo cuidadosamente os personagens e criando uma atmosfera de suspense crescente. O autor mostra que o verdadeiro terror não está apenas nos vampiros, mas também nos medos, nas fraquezas e nos segredos das pessoas. Essa combinação faz com que a história seja muito mais do que um simples romance de horror.

A linguagem é acessível e rica em detalhes, permitindo que o leitor imagine cada cenário e sinta a tensão presente em toda a obra. Embora o início seja mais lento devido à apresentação dos personagens e da cidade, a narrativa ganha intensidade e mantém o interesse até o desfecho.

Em conclusão, A Hora do Vampiro é uma excelente leitura para quem aprecia histórias de suspense, terror e mistério. O livro confirma o talento de Stephen King em criar personagens memoráveis e histórias que permanecem na memória do leitor. É uma obra recomendada tanto para fãs do gênero quanto para quem deseja conhecer um dos maiores clássicos da literatura de terror.

 

Madalena Condado

 

domingo, 12 de julho de 2026

RESENHA – A ÚLTIMA ILUSÃO, de PEDRO MIGUEL RIBEIRO | PENGUIN RANDOM HOUSE

A Última Ilusão, de Pedro Miguel Ribeiro, é um thriller português que combina mistério, ilusionismo e drama psicológico numa narrativa inteligente e envolvente. Partindo de uma premissa intrigante — o desaparecimento de uma pessoa durante o último espetáculo do maior ilusionista da história, em Braga —, o autor constrói uma história que vai muito além de um simples policial.

Um dos grandes méritos do romance é a forma como explora a linha ténue entre a realidade e a ilusão. À medida que o mistério se adensa, o leitor é constantemente levado a questionar aquilo que vê, aquilo em que acredita e as verdadeiras intenções das personagens. O suspense é construído de forma gradual, com revelações bem doseadas que mantêm a curiosidade viva até ao desfecho.

Pedro Miguel Ribeiro apresenta uma escrita fluida e cinematográfica, alternando entre diferentes momentos temporais e cenários de forma natural. A sua experiência como argumentista reflete-se na construção das cenas, que são visualmente marcantes e conferem um ritmo dinâmico à narrativa. A história é enriquecida por referências ao mundo do ilusionismo, sem nunca perder o foco nas emoções humanas e nos conflitos que movem as personagens.

Mais do que um romance de mistério, A Última Ilusão é também uma reflexão sobre as aparências, os segredos e tudo aquilo que permanece por dizer. O autor mostra como as ilusões não existem apenas nos palcos, mas também nas relações humanas, onde a verdade pode ser cuidadosamente escondida por trás de gestos, palavras e escolhas.

No conjunto, A Última Ilusão é uma estreia muito sólida de Pedro Miguel Ribeiro. Com um enredo original, personagens bem construídas e um final surpreendente, o romance destaca-se pela capacidade de prender o leitor do início ao fim, oferecendo uma experiência que mistura entretenimento, suspense e reflexão.

Madalena Condado

 

terça-feira, 7 de julho de 2026

RESENHA – MESTRES DA ESTRATÉGIA, de OLIVIER WIEVIORKA e GENERAL BENOÎT DURIEUX | CRÍTICA

 

Mestres da Estratégia, de Olivier Wieviorka e do General Benoît Durieux, é uma obra fascinante que percorre a evolução do pensamento estratégico ao longo da História, reunindo as ideias de alguns dos mais influentes estrategas militares e políticos. Muito mais do que um livro sobre guerra, trata-se de uma reflexão sobre liderança, tomada de decisão, poder e adaptação, mostrando como os princípios da estratégia continuam relevantes em diferentes áreas da vida contemporânea.

Os autores apresentam, de forma clara e acessível, o pensamento de figuras incontornáveis como Sun Tzu, Tucídides, Maquiavel, Carl von Clausewitz e outros grandes teóricos da estratégia. Em vez de se limitarem a resumir as suas obras, contextualizam as suas ideias no momento histórico em que surgiram e analisam a forma como continuam a influenciar a política, a diplomacia, os conflitos internacionais e até o mundo empresarial.

Um dos maiores méritos do livro é o equilíbrio entre rigor académico e linguagem acessível. Apesar da profundidade dos temas abordados, a leitura nunca se torna excessivamente técnica, permitindo que tanto especialistas como leitores interessados em História, Relações Internacionais ou liderança possam acompanhar facilmente a exposição dos conceitos.

A organização por pensadores facilita a consulta e permite compreender como o conceito de estratégia foi evoluindo ao longo dos séculos, acompanhando as transformações da guerra, da tecnologia e das estruturas de poder. Ao mesmo tempo, os autores estabelecem pontes entre diferentes correntes de pensamento, evidenciando semelhanças, divergências e a permanente atualidade de muitas dessas ideias.

Mais do que um estudo sobre campanhas militares, Mestres da Estratégia convida o leitor a refletir sobre a importância da preparação, da antecipação, da flexibilidade e da capacidade de compreender o adversário. O livro demonstra que a estratégia não se resume ao campo de batalha, mas constitui uma ferramenta essencial para enfrentar desafios complexos em qualquer contexto.

No conjunto, Mestres da Estratégia é uma leitura indispensável para quem se interessa por História militar, geopolítica, liderança e pensamento estratégico. Com uma abordagem rigorosa, bem estruturada e intelectualmente estimulante, Olivier Wieviorka e o General Benoît Durieux oferecem uma obra que alia conhecimento histórico a reflexões intemporais sobre a arte de decidir e agir.

Madalena Condado


domingo, 5 de julho de 2026

RESENHA – O DIVÓRCIO PERFEITO, de JENEVA ROSE | SAÍDA DE EMERGÊNCIA


O Divórcio Perfeito, de Jeneva Rose, é um thriller psicológico envolvente que explora os limites da confiança, da vingança e das consequências dos segredos. Com uma narrativa repleta de reviravoltas, a autora conduz o leitor por uma história em que nada é exatamente o que parece, mantendo a tensão até às últimas páginas.

A trama acompanha personagens complexas, cujas motivações e intenções vão sendo reveladas gradualmente. À medida que o enredo avança, alianças mudam, mentiras vêm à tona e cada nova descoberta altera a perceção do leitor sobre os acontecimentos. Jeneva Rose constrói o suspense de forma eficaz, alternando momentos de aparente tranquilidade com revelações surpreendentes que tornam a leitura difícil de interromper.

Um dos pontos fortes do livro é o desenvolvimento psicológico das personagens. Em vez de apresentar heróis ou vilões claramente definidos, a autora cria figuras moralmente ambíguas, levando o leitor a questionar constantemente em quem pode confiar. Essa complexidade acrescenta profundidade à narrativa e torna os conflitos ainda mais envolventes.

A escrita é fluida, direta e cinematográfica, com capítulos curtos que imprimem um ritmo acelerado. Embora algumas reviravoltas possam parecer ousadas, elas contribuem para a atmosfera de constante incerteza, característica dos melhores thrillers psicológicos.

No conjunto, O Divórcio Perfeito é uma leitura recomendada para quem aprecia histórias cheias de suspense, manipulação e surpresas inesperadas. Jeneva Rose entrega um romance inteligente e viciante, que prende a atenção do início ao fim e deixa o leitor a refletir sobre até ondem inglêse as pessoas são capazes de ir para proteger os seus interesses e esconder a verdade.


Madalena Condado

 

domingo, 28 de junho de 2026

RESENHA – ENCICLOPÉDIA DE FADAS DE EMILY WILDE | LEYA

Enciclopédia de Fadas de Emily Wilde, de Heather Fawcett, é uma fantasia encantadora que combina o rigor académico com o fascínio do folclore. A história acompanha Emily Wilde, uma brilhante professora de Cambridge e a maior especialista mundial em fadas, que viaja até à remota aldeia de Hrafnsvik para concluir a primeira enciclopédia dedicada a estas criaturas misteriosas.

O grande destaque do livro é a protagonista. Emily foge ao estereótipo da heroína tradicional: é extremamente inteligente, metódica e apaixonada pelo conhecimento, mas revela grandes dificuldades nas relações sociais. A sua personalidade reservada torna-a uma personagem cativante e genuína, permitindo ao leitor acompanhar a sua evolução tanto no campo da investigação como no plano emocional.

Outro ponto forte é a dinâmica entre Emily e Wendell Bambleby, o seu carismático rival académico. Enquanto Emily representa a lógica e a disciplina, Wendell é espontâneo, encantador e imprevisível. As interações entre ambos proporcionam momentos de humor, tensão e uma crescente cumplicidade que enriquece a narrativa sem ofuscar o enredo principal.

A construção do mundo é um dos maiores méritos da obra. Inspirando-se no folclore europeu, Heather Fawcett apresenta fadas que estão longe da imagem delicada e benevolente dos contos infantis. São seres belos, mas perigosos, misteriosos e regidos por regras próprias, o que cria uma atmosfera envolvente e, por vezes, inquietante. O formato em diário de investigação também contribui para a originalidade da narrativa, fazendo o leitor sentir-se parte da descoberta.

Apesar do ritmo mais lento em alguns momentos, sobretudo devido às descrições detalhadas da pesquisa e das tradições locais, a história mantém o interesse graças ao mistério que envolve as fadas e à curiosidade crescente sobre a verdadeira identidade de Wendell.

No conjunto, Enciclopédia de Fadas de Emily Wilde é uma leitura recomendada para os amantes de fantasia, folclore e romances subtis. Com personagens memoráveis, um universo rico e uma escrita elegante, o livro oferece uma aventura inteligente e encantadora, mostrando que o maior mistério nem sempre está nas criaturas mágicas, mas também na capacidade de compreender os outros e a si próprio.Enciclopédia de Fadas de Emily Wilde, de Heather Fawcett, é uma fantasia encantadora que combina o rigor académico com o fascínio do folclore. A história acompanha Emily Wilde, uma brilhante professora de Cambridge e a maior especialista mundial em fadas, que viaja até à remota aldeia de Hrafnsvik para concluir a primeira enciclopédia dedicada a estas criaturas misteriosas.

O grande destaque do livro é a protagonista. Emily foge ao estereótipo da heroína tradicional: é extremamente inteligente, metódica e apaixonada pelo conhecimento, mas revela grandes dificuldades nas relações sociais. A sua personalidade reservada torna-a uma personagem cativante e genuína, permitindo ao leitor acompanhar a sua evolução tanto no campo da investigação como no plano emocional.

Outro ponto forte é a dinâmica entre Emily e Wendell Bambleby, o seu carismático rival académico. Enquanto Emily representa a lógica e a disciplina, Wendell é espontâneo, encantador e imprevisível. As interações entre ambos proporcionam momentos de humor, tensão e uma crescente cumplicidade que enriquece a narrativa sem ofuscar o enredo principal.

A construção do mundo é um dos maiores méritos da obra. Inspirando-se no folclore europeu, Heather Fawcett apresenta fadas que estão longe da imagem delicada e benevolente dos contos infantis. São seres belos, mas perigosos, misteriosos e regidos por regras próprias, o que cria uma atmosfera envolvente e, por vezes, inquietante. O formato em diário de investigação também contribui para a originalidade da narrativa, fazendo o leitor sentir-se parte da descoberta.

Apesar do ritmo mais lento em alguns momentos, sobretudo devido às descrições detalhadas da pesquisa e das tradições locais, a história mantém o interesse graças ao mistério que envolve as fadas e à curiosidade crescente sobre a verdadeira identidade de Wendell.

No conjunto, Enciclopédia de Fadas de Emily Wilde é uma leitura recomendada para os amantes de fantasia, folclore e romances subtis. Com personagens memoráveis, um universo rico e uma escrita elegante, o livro oferece uma aventura inteligente e encantadora, mostrando que o maior mistério nem sempre está nas criaturas mágicas, mas também na capacidade de compreender os outros e a si próprio.

Madalena Condado

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

RESENHA | QUANDO O VATICANO CAIU, de PEDRO CATALÃO MOURA | SAÍDA DE EMERGÊNCIA


Ler Quando o Vaticano Caiu, de Pedro Catalão Moura, foi como abrir uma porta para um mundo familiar que, de repente, se revelava desconhecido e inquietante. Imaginar o Vaticano — símbolo de fé e estabilidade — ameaçado pelas forças nazis provoca uma sensação desconfortável e fascinante ao mesmo tempo. Não é apenas história alternativa; é uma viagem ao que poderia ter sido, onde cada decisão pesa como uma sentença.

O Papa Pio XII deixa de ser apenas uma figura distante e histórica. Moura humaniza-o, mostrando-o hesitante, vulnerável, dividido entre dever e medo, entre fé e sobrevivência. É impossível não se deixar absorver por esta tensão constante, onde intrigas, estratégias e dilemas morais se entrelaçam de forma quase palpável.

O que mais me prendeu foi a habilidade do autor em equilibrar o rigor histórico com o drama humano. Cada cena parece medida, mas não fria; cada diálogo, calculado, mas nunca artificial. Senti-me como se estivesse à espreita nos corredores do Vaticano, consciente do perigo iminente, testemunhando decisões que poderiam alterar o curso da história.

No fim, fiquei com uma sensação ambígua: admiração pela astúcia narrativa de Moura e inquietação perante a fragilidade da história quando posta nas mãos do acaso. Quando o Vaticano Caiu não é apenas um romance de guerra ou de intriga; é um convite a pensar sobre poder, moralidade e as escolhas que definem os homens e as instituições, mesmo em tempos sombrios.

Ler este livro foi, para mim, mais do que uma experiência de entretenimento: foi um lembrete de que a história nunca é inteiramente rígida, que as sombras do passado podem assumir formas inesperadas, e que a coragem nem sempre é grandiosa, mas muitas vezes silenciosa e solitária.

 Texto: Madalena Condado

terça-feira, 16 de setembro de 2025

RESENHA | UM ESPELHO SOMBRIO DOS GRIMM: A VERDADEIRA HISTÓRIA DE JOÃO E O PÉ DE FEIJÃO", de ADAM GIDWITZ | PLANETA

 

Quando comecei Um Espelho Sombrio dos Grimm, pensei que iria apenas revisitar o conto tradicional de João e o Pé de Feijão, com algumas diferenças curiosas. Mas rapidamente percebi que Adam Gidwitz não está interessado em repetições suaves — ele sacode-nos logo nas primeiras páginas, com um narrador que fala diretamente connosco, que avisa, provoca e até se ri da nossa expectativa de um “felizes para sempre”.

O que mais me surpreendeu foi a forma como João e Jill se transformam em companheiros de viagem. Não são heróis perfeitos, muito menos símbolos de virtude: são crianças cheias de falhas, mas também de coragem. E talvez por isso me senti tão próximo deles — porque crescem a tropeçar, a errar e a enfrentar medos que, por vezes, se parecem demasiado com os nossos.

A cada novo episódio, entre gigantes ameaçadores, vestidos invisíveis e criaturas bizarras, senti-me a subir mais alto nesse “pé de feijão” que afinal não conduz só a mundos de fantasia, mas também a reflexões muito reais: sobre confiança, amizade, escolhas difíceis e o peso de enfrentar as consequências.

O que mais gostei foi do equilíbrio entre o macabro e o humor. Há momentos sombrios, sim, até perturbadores, mas sempre intercalados com comentários inesperados que arrancam um sorriso e nos lembram que a vida — tal como os contos — é feita de contrastes.

No final, fiquei com a sensação de que este livro não é apenas uma reescrita de um clássico: é uma experiência de leitura que nos desafia a olhar para os contos de fadas de outra maneira. Não como histórias cor-de-rosa, mas como espelhos (alguns deles sombrios) daquilo que é crescer e aprender a lidar com as nossas próprias sombras.

Texto: Madalena Condado