domingo, 17 de novembro de 2019

ESSA COISA CHAMADA FELICIDADE, de Cristina Das Neves Aleixo















Neste dia da mãe dei por mim a pensar na felicidade que experimentamos ao longo das nossas vidas. Poderão perguntar-se o que é que uma coisa tem a ver com a outra. Tudo. A verdadeira felicidade reside nos diversos momentos de partilha, amor, cumplicidade e interacção desinteressada com o outro; no que desta forma recebemos e, em igual medida, sem dúvida, no que damos e tudo isto faz parte de se ser mãe, ao mesmo tempo que sem essa figura não existiríamos para viver as maravilhas que a vida encerra.

A felicidade está presente no primeiro momento em que tomamos consciência daquele ser que nos protege, alimenta e acarinha: a nossa mãe, precisamente – sem desprestígio para os pais, obviamente, mas o primeiro contacto é, logicamente, maternal –, e em todas as fases do nosso crescimento e construção enquanto seres humanos.

Mora em todas as vezes que nos perdemos nos olhos de alguém, amamos e nos deixamos amar sem reservas; em todas as horas em que temos gosto em aprender uns com os outros e crescer como pessoas; de cada vez que uma mudança construtiva tem lugar, seja de casa, emprego, hábitos ou estilo de vida; nos momentos em que rimos com os amigos e os familiares; no abraço apertado e fraterno aos nossos pares; quando apreciamos e respeitamos o que nos rodeia; em todas as situações em que escolhemos – sim, é uma escolha nossa – ver para além dos obstáculos e decidimos superá-los e sempre – sempre! - que ajudamos gratuitamente outrem.

Esta última é uma das maiores sensações de felicidade que existem e produz verdadeiros milagres: o altruísmo puro. Aquela certeza de que se fez alguém feliz, às vezes com pouco e de forma simples, mas que pode mudar completa e positivamente o dia de outra pessoa. É uma sensação incrível de utilidade, de pertença a este mundo, de tão pura felicidade que se torna contagiante. As pessoas mais queridas, carismáticas e realmente influentes são sempre, sempre as mais felizes. Isto não significa que não tenham problemas e adversidades a ultrapassar. Não. Longe disso. Apenas compreenderam que tudo isso é inerente ao processo de se estar vivo e, portanto, é impossível viver sem percalços, sem dissabores, uns maiores outros menores mas, ao entender e aceitar essa inevitabilidade, escolheram passar pela vida de forma positiva e construtiva - podem chamar-lhe “ver o copo meio cheio”, se quiserem – e são elas que, habitualmente, marcam pelas diferenças que operam e são precursoras da felicidade.

Depois de décadas a absorver tudo como uma esponja, quando já estamos maduras, somos nós que chegamos ao momento em que fazemos o esforço hercúleo de trazer à vida um novo ser, ao segundo em que o põem escaldante sobre a nossa barriga e dos nossos olhos escorre o embevecimento em forma de lágrimas oriundas da alma, ao primeiro vislumbre daquela extensão de nós. E o ciclo está completo. É mais um momento inesquecível que habitará o álbum feliz da nossa existência.

Essa coisa chamada felicidade é um conjunto de fragmentos mais ou menos vividos que, dependendo da forma como escolhemos olhar para eles e do grau de importância de decidimos conferir-lhes, poderão levar-nos a sermos tremendamente felizes ou verdadeiros miseráveis. Aprende-se, ensina-se, é reveladora e transformadora.

Essa coisa chamada felicidade é um modo de estar e de sentir. Todos os dias.

sábado, 16 de novembro de 2019

ENQUANTO ENCARNADOS, ENQUANTO DESENCARNADOS, de Mafalda Pascoal















O nosso corpo aqui na Terra, é algo como um veículo que funciona por controlo remoto. O controlador é o Eu Maior ou Eu Superior. Este, como não pode descer à Terra para adquirir uma maior experiência, envia o seu corpo, corpo esse que somos nós. Tudo pelo que passamos, tudo o que fazemos ou pensamos, ou ouvimos, viaja e sobe para ser armazenado na memória do Eu Superior. Existe ainda o Cordão de Prata que efectua a ligação com o nosso Eu Superior de maneira bem-parecida com aquela pelo qual o cordão umbilical liga o feto à mãe.

O Cordão de Prata é uma massa de moléculas, uma massa de vibrações. Podemos equipará-lo ao feixe estreito de ondas de rádio que os cientistas enviam para a Lua.

O Cordão de Prata liga o Eu Superior e o corpo humano e as impressões vão de um para o outro, durante cada minuto da existência do corpo carnal. Impressões, ordens, lições e, às vezes, até mesmo alimentação espiritual descem do Eu Superior para o corpo humano. Quando a morte ocorre, o Cordão de Prata rompe-se e o corpo humano fica como se fosse um traje abandonado, enquanto o espírito prossegue.

O Homem, portanto, é um espírito encerrado por um breve período num corpo de carne e osso, a fim de que possa aprender lições e adquirir experiências, experiências essas que não poderiam ser adquiridas pelo espírito sem o uso de um corpo.

Quando a morte ocorre, a entidade regressa ao Eu Superior, nos planos astrais, regressa de uma vida sobre a Terra. Antes de tudo o mais essa entidade, vai consultar o Registo, de tudo o que fez enquanto na Terra. Desta forma fica a saber se cumpriu a sua missão com êxito ou não. Não existe nenhum juiz do lado de lá, porque quem nos julga somos nós próprios, a responsabilidade daquilo que fazemos de bom ou de mau, é exclusivamente nossa.

Então nesse plano astral, depois da consulta feita aos nossos “feitos” aqui na Terra (pois nesse Registo, está registado absolutamente tudo o que fizemos), passaremos a outra “secção”, onde estão entidades “credenciadas” para nos acolher depois da nossa confrontação com a realidade daquilo que não fizemos enquanto encarnados. Essas entidades, são seres extremosos que nos acolherão com a maior compaixão e carinho. De seguida ajudar-nos-ão nas decisões que devemos tomar para melhor nos aperfeiçoarmos. Vão indicar-nos a melhor forma de evolução na próxima vida, passando pela escolha da nova família, país, nível social, etc., de acordo com o que nos propusemos fazer. E assim voltaremos a nascer, vida após vida, sendo homem, sendo mulher, sendo rei, sendo mendigo, sendo ladrão ou príncipe. Todas as pessoas têm que voltar a viver em todos os signos do zodíaco, bem como em todos os quadrantes do mesmo, e têm que continuar até realizar a sua tarefa com êxito, em todos os signos e quadrantes desse zodíaco.

Assim sendo, se se aprender devagar, pode-se voltar à Terra mil vezes, duas mil vezes. Quando chegamos além Terra, ao astral, a viagem no Tempo é tão simples quanto na Terra irmos ao cinema.
Todos nós nascemos com “dons”. Agora que uns despertem para as percepções do espírito e outros não, é aí que está a diferença. Quanto menos despertarmos mais vezes teremos que cá vir. É como ir à escola, se não aprendemos o suficiente para passar de ano, teremos que o repetir. Assim acontece com as nossas vidas passadas e presente.        

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

PORQUE TAMBÉM DE NÓS REZA A HISTÓRIA, de MBarreto Condado















Não somos ninguém e somos toda a gente. Somos filhas, mães, avós. Somos quem somos. Nada nos liga e tudo nos atrai. Somos sonhadoras. Perdemos umas vezes e ganhamos outras tantas. Mas acima de tudo não deixamos de acreditar. Acreditamos que o amanhã será melhor do que o hoje, levamos os nossos sonhos sempre mais além, entramos numa corrida de obstáculos e sabemos que alcançámos a nossa meta quando olhamos à nossa volta e sentimos que o nosso trabalho importa não é somente mais um entre tantos. Afinal somos novas autoras, mas com tanto para contar.

Para nós que continuamos a gostar de ter um livro nas mãos, de o folhear, de cheirar as suas páginas, de mergulhar nesses mundos fantásticos onde somos sempre de alguma forma surpreendidos. É um dia de sentimentos dispares sabemos que uns vão amar a nova criação pelo que comporta e outros vão odiá-la pela mesma razão. Mas para o seu criador é sempre mais, um bocado de si que tão amavelmente oferece.

Acabaram os meses de escrita onde em cada página fica tanto, uma lágrima, um sorriso, um nome, um momento, um local, uma saudade que nunca acaba. E já no final surge aquela capa pois não poderia ser outra.

E não é que faz todo o sentido, afinal quando escrevemos fazemo-lo porque temos o apoio incondicional das pessoas mais importantes na nossa vida e elas correspondem-nos com a mesma intensidade.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

TEMPO PRESENTE EM CORRER DE ÁGUA, de Anita Dos Santos
















- E então, já resolveram o que se haverá de fazer para procurar por notícias dos rapazes depois de todo este tempo? – Perguntou o Ferreiro, com a sua voz retumbante, sem mais delongas nem cumprimentos.

- Sabemos lá o que se deve fazer… A cidade do Norte não é propriamente ali ao virar da esquina. – Resmungou o Mestre Arquivista, de sobrolho franzido e carranca feita, coisa pouco normal nele. 

- Sim, não podemos sequer enviar um pombo-correio… - Acrescentou o Mestre do Conselho acenando com a cabeça.
Viraram os dois os olhos para o Mestre Ferreiro, como quem espera uma resposta da parte dele.

- É lá! E estão à espera de que eu tenha uma ideia do que havemos de fazer? – Perguntou o Ferreiro, como se essa hipótese nunca lhe tivesse ocorrido, passando os dedos pelo cabelo farto.

- Pois claro! Não estás sempre cheio de opiniões? Então é uma boa ocasião para as colocar em prática. Vamos lá, salta daí com uma das tuas tiradas, para vermos que volta se lhe pode dar!

Ficaram os dois de olhos pregados no Ferreiro, à espera do que ele iria dizer.

O Ferreiro, visivelmente incomodado, deu um puxão para cima no cós das calças e começou a calcorrear a oficina. Valente responsabilidade que eles lhe estavam a colocar sobre os ombros… Agora tinha de arranjar uma qualquer saída airosa para aquela situação!

- Então, sabemos a direcção que eles tomaram quando daqui saíram. – Meia volta - Sabemos que caminho se pode tomar para ir ao encontro deles, se for caso disso. – Mais meia volta, para o outro lado… - Não tem de saber! Enviem um grupo ao encontro deles!

Ficou a olhar, de um para o outro de punhos na cintura e queixo erguido, peito cheio, como um galo de eira de penas enfunadas!

- Bem, é uma sugestão, não tenho dúvida nisso. – Afirmou o Mestre Arquivista, subindo e descendo os sobrolhos, com ar de contentamento.

- Muito bem! Reunião do Conselho da Aldeia logo à noite para decidirmos o que vamos fazer. – Acedeu O Mestre do Conselho, dando uma valente palmada nas costas do Mestre Ferreiro. – Vai avisando quem encontrares por favor, que nós vamos fazer o mesmo por nosso lado.

- Já agora, que acham de convocarmos o Raul? Ele ficou à frente da estalagem e, pelos vistos, tem-se saído melhor que o antigo Estalajadeiro… - Informou o Mestre do Conselho.

- Sempre achei o Raul um rapaz muito esperto e competente ao contrário do seu predecessor. Mas também sabemos no que ele deu, não é verdade? – O Mestre Arquivista tinha o sobrolho franzido ao falar.

- Ter-se aliado ao Negro e à Rubra esperando vir a tirar algum proveito dessa associação, sem qualquer escrúpulo pela destruição do verde nem consideração pelas pessoas da aldeia, diz tudo o que precisávamos saber sobre aquela pessoa. – O Mestre Ferreiro, não queria sequer nomear o Mestre Estalajadeiro.

- Estamos então combinados. Vemo-nos mais logo, na sala do Conselho.
E dizendo isto, o Mestre do Conselho e o Mestre Arquivista saíram da forja, cada qual pelo seu caminho para avisar quem faltava ser avisado.

Quando chegou à hora aprazada, foram chegando à sala do Conselho todos os convocados habituais e, pela primeira vez, também o Raul Estalajadeiro, assim nomeado a partir daquela altura.

Sentaram-se em volta da mesa e, de imediato o Mestre do Conselho começou a falar:

- Temos connosco o Raul Estalajadeiro, pela primeira vez e, como tal, penso que lhe são devidas as boas-vindas.

Raul Estalajadeiro, rapaz ainda jovem e a deitar corpo, ao ouvir o título, ficou corado como um tomate em tempo da apanha. Encarou os presentes e agradeceu.

- Obrigado por me terem incluído no Conselho da Aldeia.

- Nada mais justo, meu rapaz. – Respondeu o Mestre Arquivista.

- Já agora gostava que fossem os primeiros a saber que vou dar um nome à estalagem. Não me recordo de alguma vez ter tido nome, mas achei que era altura de lhe dar um. Vai chamar-se Estalagem da Mesa Posta.

- Ora aí está um belo nome para uma estalagem, sim senhor! – Concordou o Mestre Moleiro.
Os comentários de concordância ouviam-se à direita e à esquerda da mesa, para felicidade do Raul Estalajadeiro.

- Muito bem. – Interrompeu o Mestre do Conselho – O outro assunto que aqui temos de discutir é a ideia do Mestre Ferreiro sobre o que devemos fazer em relação à falta de notícias do André e do Vicente.

- E já vamos tarde! Já se devia ter tomado uma atitude mais cedo, se querem a minha opinião! – Remata o Mestre Oleiro.

- Isso nem parece teu, Oleiro, és sempre tão ponderado… - Responde o Mestre Moleiro, com tom de riso na voz.

- Pois sim, mas agora digo que já deixamos passar tempo demais!

- Calma! Em primeiro lugar nem sequer sabemos quanto tempo leva a chegar à Cidade do Norte nem qual é o caminho ao certo! – O Mestre Arquivista tentou acalmar os ânimos. – Depois eles tinham de resolver o que quer que levou as progenitoras a chamá-los lá e, só então, poderão voltar!

- De qualquer forma, o Mestre Ferreiro teve a ideia de enviar um grupo ao encontro deles, isto se já estiverem de retorno…

- Ó Mestre, e quem é que vai fazer parte desse dito grupo? – Perguntou o Raul ao Mestre do Conselho.

- Isso logo se vai ver, mas eu vou! – Adiantou o Mestre Arquivista, olhando para os interlocutores, para não deixar dúvidas.

- Tu vais? E achas que isso é um empreendimento para alguém da tua idade?

O Mestre Ferreiro, do alto do seu arcaboiço de um metro e oitenta, e da largura de ombros como uma viga de telhado, media a figura franzina do Mestre Arquivista, e as suas barbas brancas.

- O que é que tu estás a insinuar? Não tenho condições, ou idade, para acompanhar quem quer que seja? Isso está para se ver, não é verdade?

O Mestre Arquivista, quase em bicos de pés fazia recuar o Ferreiro que, de mãos atrás das costas, não se atrevia a encarar o outro nos olhos.

- Pronto, pronto! Nunca esperei ver-te perder a calma! – O Mestre do Conselho tentou apaziguar o Arquivista ao que este respondeu com uma fungadela virando as costas.

- Fazem aqui falta o André e o Vicente… - Disse o Oleiro em tom baixo.

NOCTURNO ARCO-ÍRIS: A CAMA DA BÁRBARA, de Helder Menor















Foi nesta cama Alfredo. Foi nesta cama.

Assim falou a Bárbara na hora da sua morte. Não se confessou ao padre. Confessou-se ao marido, também ele octogenário, mas mais rijo e saudável que a mulher, de quem em breve ficaria viúvo.

A Bárbara, que antes de ser a Dona Bárbara que a vizinha conhecia de ver arrastar os pés a caminho da padaria e do lugar da fruta, foi a Bárbara boazona que nos anos cinquenta fazia virar a cabeça dos rapazes e homens hipnotizados com o seu abanar de ancas...

Pois a Bárbara, antes de morrer, disse ao marido que o tinha traído. Disse que tinha sido só uma vez. Uma coisa sem importância, que tinha sido com o cunhado Dinis, marido da irmã, ex-jogador da CUF e falecido há muito, no início dos anos oitenta num acidente de automóvel em Águas de Moura. Disse que tinha sido naquela mesma cama onde agonizava e esperava a morte. Depois não disse mais nada. Adormeceu de cansaço e emoção e morreu.

O velho Alfredo ficou sem saber o que sentir: se raiva da mulher morta, se raiva do cunhado morto. Indeciso, ficou com pena dele próprio e chorou uns cornos de mais de quarenta anos. A neta ao vê-lo chorar assim, comentou com o marido que amores daqueles já não se viam e deu ao avô um calmante.

Depois veio o resto da família, mais o agente funerário e um médico com papéis. O Alfredo completamente pedrado do comprimido. A filha preparou-lhe o banho e arranjou-lhe um fato para vestir, pôs a gravata preta dos funerais e recebeu os pêsames de familiares e vizinhos com a alma encortiçada e a raiva dos cornos recentes com mais de quarenta anos a roer-lhe. A raiva misturada com o remorso de sentir raiva à morta e ao cunhado igualmente morto.

O velório e o funeral passaram como um sonho. Nos três dias seguintes ficou em casa da filha. Depois, ao terceiro dia, voltou para casa. Não queria ser um peso para a filha. A cozinha ainda tinha os caixotes de medicamentos da Bárbara. Nos armários a roupa dele, toda a imensa área ocupada pela roupa da Bárbara era um buraco vazio. A filha e a neta, a neta que por acaso também se chamava Bárbara, decidiram tirar a roupa da mãe e avó do armário, para lhe evitarem mais sofrimento. Não lhe evitaram o choque do armário vazio.

Sentou-se na cama de viúvo a chorar.

Mas a memória foi um alfinete que o fez saltar.

Foi nesta cama Alfredo, disse a mulher morta na sua cabeça.

Com raiva, desfez a cama. Arrancou os lençóis e os cobertores carinhosamente montados pelas mãos da neta e da filha, para lhe aconchegarem as primeiras noites de viuvez. Pegou no colchão da cama de casal com uma força surpreendente para os seus oitenta e seis anos e arrastou-o até às escadas e das escadas até à porta da rua. Sentou-se a descansar das pernas e braços e a recuperar o ar dos pulmões. Não descansou da raiva. Voltou a pegar no colchão e arrastou-o até à parede ao lado do contentor do lixo onde ficou. Devagar voltou para casa e com persistência, um martelo velho e uma chave de parafusos torna, desmontou as tábuas da cama. Uma a uma levou tudo para junto do colchão, e deixou a cama desfeita empilhada entre o colchão e o contentor.

Nessa noite dormiu na sala tapado com os cobertores.

Na manhã seguinte, a filha antes de entrar, viu e reconheceu a cama junto ao contentor. Achou que percebeu e concluiu que o pai não quis ficar com a cama onde morrera o amor de toda uma vida.

Entrou e não fez perguntas. Enquanto o pai tomava banho, fez a cama que estava no seu quarto de solteira com os lençóis que tinha posto lavados na véspera.

-        O paizinho agora, se calhar fica melhor neste quarto que era meu....

O Alfredo concordou e não se voltou a falar da cama.

O colchão ficou ainda dois dias a apanhar chuva miudinha encostado ao contentor, mas a cama foi recolhida por uma senhora divorciada que trabalhava nas finanças, que gostava de recuperar móveis antigos e que papava todos os programas de antiguidades nos canais temáticos.

O Alfredo viveu mais três anos. Estava a dormir e não deu por ela chegar. Morreu a três meses de fazer noventa. Morreu amargurado e de tristeza, não da viuvez, mas dos cornos daquela traição com o cunhado.

Foi naquela casa onde morreram os dois, que cinquenta e três anos antes a coisa descambou. O Alfredo tinha chegado de manhã, seriam uma dez horas, porque ficou a trabalhar a noite toda. A Bárbara foi a limpar o casaco do marido e encontrou no bolso esquerdo uma fatura de um jantar. Um frango, uma garrafa de vinho verde e pão, no Bonjardim. Não comeram sobremesa. Percebeu que o serão que o Alfredo disse que ficou a fazer no trabalho era uma mentira que cheirava a puta. Zangou-se, calou-se, arranjou-se, deixou a filha com o pai e saiu para ir a casa da irmã desabafar.

A irmã era três anos mais nova e igualmente bonita. Foi entrando sem bater, sabia que o cunhado não estava, que tinha tido jogo lá para o norte. A irmã tinha acabado de se levantar. Não tinham filhos. Estava a fazer café. A Bárbara cumprimentou a irmã e não teve tempo para dizer mais nada, uma cólica daquelas urgentes e motivadas pelos nervos, empurrou-a para a casa de banho.

Sentou-se na sanita e viu. A saia e a blusa nova da irmã. Roupa de sair no chão para lavar ao lado do cesto. Pegou na blusa vermelha e cheirou. Tinha agarrado o cheiro da irmã, do perfume dela, cheirava a frangos e ao seu Alfredo. Percebeu tudo. A confirmar, no bolso do casaco de sair o bilhete do barco das nove da manhã. A Bárbara defecou e chorou simultaneamente.

Depois, lavou a cara e saiu sorridente da casa de banho.

-        Então mana, o que fizeste ontem à noite?

-        Olha tive pr’aí sozinha, ouvi o folhetim da rádio e agarrei-me à costura!

-        Podias ter ido lá a casa, o Alfredo ficou a fazer serão e só chegou hoje de manhã...

A irmã, nem truz nem muz...

E assim ficaram.

Mas a Bárbara jurou vingança. Disfarçou, saiu com a desculpa que tinha de ir às compras e ficou a pensar.

Não ia deitar-se com o Dinis. Não lhe chegava pagar na mesma moeda. Teria de ficar por cima. Não se importava de esperar o tempo que fosse preciso, mas ia devolver aquela dor. Frango e pensão e Lisboa... Se calhar até foram ver uma revista ao Parque Mayer. E ela que gostava tanto daquele frango assado com batas fritas e esparregado...

Passaram-se vinte anos. A Bárbara calada. O cunhado morreu sem avisar naquele desastre de automóvel em Águas de Moura. No velório do cunhado, a Bárbara aplicou metade da vingança. Foi ter com a irmã e disse-lhe:

- Mana, tenho de te contar uma coisa, eu e o teu Dinis tivemos um caso, foi há muitos anos, mas envolvemo-nos... Por favor perdoa-me.

A irmã, abriu muito os olhos. Chorosa e abraçou-a. No choque da morte do marido aquela traição doeu-lhe ainda mais. Mas nunca tocou no assunto. Continuaram irmãs e amigas. Mas a Bárbara sabia que a farpa que espetou com vinte anos de atraso tinha batido fundo e doía no peito da irmã. Gostava que fosse assim mesmo! Doía tanto e ainda mais porque era um assunto que ficou calado entre as duas. Doía ainda mais porque foi uma pancada batida num momento de grande fragilidade.

Esta está tratada, decidiu a Bárbara.

Agora era esperar pelo momento do Alfredo.

O Alfredo que nunca mais dormiu com a cunhada. Uma pena para ambos. Aquilo foi uma vez sem exemplo, foram ver uma revista, jantaram frango e ficaram numa pensão na Baixa. Fizeram amor por desfastio e para combater o tédio dos dias. Não voltou a acontecer porque ambos se sentiam culpados.

A Bárbara continuou à espera pelo momento certo para devolver ao marido aquela noite de revista no Parque Mayer e aquele frango com batatas fritas e esparregado. Esperava pelo momento de o ver doente, a morrer... para lhe dar a novidade dos cornos na cabeça.

Mas o Alfredo, tinha uma saúde de ferro e o destino quis levá-la antes dele. E ela à espera... Sempre à espera. Esperou até à hora da morte, porque não podia esperar mais.

Mas antes de morrer, zonza da medicação e cansada da doença que a matava, a Bárbara serviu ao marido na cama, a vingança por que esperou cinquenta anos. Foi a indigesta sobremesa do frango familiar e da revista do Parque Mayer.

Ele há mulheres capazes de tudo.


quarta-feira, 13 de novembro de 2019

SEXTO SENTIDO, de MBarreto Condado















Dizem que vivemos várias vidas e que nunca nos lembramos delas para que possamos de alguma forma corrigir o que deixámos inacabado. Mas como será possível garantir que desta vez agiremos de acordo com os nossos desígnios? Que desta feita será a última vez que percorreremos o nosso atribulado percurso sem falhar, fazendo desta a nossa última passagem?

Será que as pessoas que nos acompanham agora foram as mesmas que já o fizeram nas nossas vidas passadas?

Gosto de pensar que das vezes que o meu sexto sentido me disse que de alguma forma já as conhecia, que não me tivesse enganado.

Será esta a minha última passagem?

A minha intuição diz-me que não.

Deito-me e fecho os olhos, quero viajar, quero que a minha memória me leve para lá do véu das minhas lembranças, que me permita atravessar a névoa dos tempos e independentemente de quem possa ter sido ter sempre a certeza que estou aqui novamente para acabar o que deixei inacabado.

Sigo por um estreito e escuro caminho, estico as mãos, mas não toco em nada. Tudo à minha volta é vazio, consigo senti-lo.

Fecho os olhos com maior intensidade quero deixar-me levar para lá desse nevoeiro. Quero que se abra para mim e me mostre o que se esconde na infinitude dessas Eras passadas.
Sinto que me vai ser dada a oportunidade de ver o que tanto procuro.

Sou banhada por uma luz forte e quente que me embala no meu caminho. Ofuscada por um calor tão humano e no entanto tão ausente, estou só. Ou não estarei?

Tenho a apurada percepção de que alguém me acompanha, inundada por um amor que não consigo abraçar. Deixo-me levar. Sei que ali estou protegida, cheguei a uma casa há muito abandonada.

Abro os meus sentidos. A minha acutilante perspicácia que sempre me deu conselhos certeiros. Sinto-me segura porém não sei onde.

Fisicamente continuo deitada no meu sofá de olhos bem cerrados.

Pressinto o que vai acontecer mesmo antes que aconteça. Continuo rodeada daquela luz quente e protectora.  Sinto que estou perto muito perto de saber quem fui. Deixo-me guiar.
E quando as cerradas névoas se abrem um pouco é-me permitido ver que fui várias pessoas, fui vilã, vivi em reclusão afastada de olhares curiosos, ajudei com o gado, cultivei terras, fui neta, filha, irmã, mãe. Fui amante, esposa. Morri, vi morrer, matei. Fui cobiçada, cobicei. Fui rica, fui pobre. Ajudei, maltratei.

Vivi várias vidas e morri outras tantas.

Vi tudo em flashes.

E antes que me pudesse aperceber fui novamente conduzida para o meio daquela névoa que me afastava da luz quente que de mim se despedia com a promessa de um até já.”

E sempre guiada pelo meu instinto quase sempre infalível e certeiro, abri a medo os olhos. Continuava deitada no meu sofá.

E do fundo das minhas memórias soube que a minha passagem ainda não estava terminada, uma voz persistia na minha cabeça dizendo-me para confiar no meu sexto sentido pois seria ele a levar-me de volta a casa, ao calor das suas almas e à ausência de incertezas.

Sei que elas me esperam.

E quando acabar esta minha nova e não derradeira passagem reencontrarei quem tanto me ama e protege.

O sexto véu dos sentidos.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

HUMILHAÇÃO, de Maria Cecília Garcia















Para todas as mulheres que alguma vez sofreram maus tratos e conseguiram escapar. Para todas as outras, as que se humilham e não têm coragem para abandonar essa vida.

E para todos os homens, se conseguir tocar um, apenas um que seja, dar-me-ei por satisfeita.
Não somos inimigos nem ninguém é dono da vida do outro. Deixo-vos um pequeno testemunho, que podia ter acontecido a qualquer um de nós.

“Há um momento da minha vida, da nossa vida, que recordo frequentemente e não sei definir quais as sensações que me provoca. Sinto grande desconforto ao recordar, vergonha até, sobretudo sou invadida por uma sensação angustiante, um desejo enorme de voltar atrás no tempo e apagar esse momento. Já tinham passado tantos anos e esses episódios grotescos repetidos tanta vez que não consegui suportar.

Foi num daqueles dias terríveis em que não me davas paz, que me perseguias insultando-me, provocando-me, sem razão nem objetivo. Fazia parte do teu jogo cruel seguires-me pela casa, acossando-me, de nada valia fechar as portas, isso ainda era pior…

Ainda cá estão algumas portas marcadas que me fazem lembrar o que eu quero esquecer, cada risco, cada saliência na madeira, mostra-me o teu punho feroz, o teu rosto congestionado, o teu olhar enlouquecido. Rebaixavas-me com as piores palavras e atitudes até eu perder o controlo de mim.

Naquele dia, desnorteada, segurei-te por baixo dos braços e alcei-te com uma força que não sabia que tinha, encostei-te à parede à beira das escadas e olhei no fundo dos teus olhos. Dominei-te completamente. Por uma fração de segundo, apenas um piscar de olhos, vi-te rolando pelas escadas abaixo.

Sei que adivinhaste a morte nos meus olhos, senti como o teu corpo estremeceu. Nesse momento, só nesse momento, soube que tinha mais força do que tu e tive medo de mim, nesse instante soube que o fim de tudo o que me atormentava estava nas minhas mãos, e senti horror por ter sido contagiada com a tua violência.

Dei-te o que procuravas, a satisfação de me veres descer ao teu nível. Como quem acorda de um pesadelo no momento mais angustiante, larguei-te, pousei-te no chão e fugi, abalada com a minha própria reação. No teu rosto vi incredulidade, surpresa, vi terror nos teus olhos e até, pasme-se, admiração, mas vi sobretudo, humilhação…

E é esse sentimento, a humilhação que te causei, que me atormenta. Ainda hoje essa lembrança me acode sem licença e sinto o mesmo horror que senti nesse dia.

 Nem sempre causar aos outros o mesmo mal que eles nos infligem provoca qualquer satisfação.

Quando conseguias desorientar-me, fazer-me sair de mim, transformar-me no pior de mim mesma, sentavas-te na plateia, calmo, olhavas-me com repulsa, fazias com que me sentisse a pior das pessoas

- Não prestas mesmo para nada! És pior do que todas as putas que conheci!

E as tuas palavras faziam-me estremecer e como se uma mão gigante me segurasse, imobilizava-me, horrorizada de mim. Sentia asco, uma vertigem, uma náusea, queria vomitar-te do meu coração. 

Em dias assim, noites assim, a casa era invadida pelo silêncio e, em silêncio, deitávamo-nos na mesma cama. Tu dormias um sono profundo e ruidoso, agitado pela guerra que continuava ainda dentro de ti. Eu errava pelo quarto, sem sono, sem nada mais do que angústia e impotência.

Se despertasses encontravas-me enrodilhada na posição fetal, num canto da habitação que eu já não sentia minha. Nada era meu. Eu não era nada. Eu não queria nada.

No meu cérebro as imagens amontoavam-se, misturavam-se caoticamente, sem que conseguisse sequer dar-lhes um fio condutor. Não sabia o que tinha despoletado a tua ira.

Procurava uma saída, eu sabia que havia uma saída, mas não tinha coragem para enfrentar o mundo sem ti. No fim, culpava-me, eu era má, certamente algo tinha dito ou feito para causar tal tormenta. Arrependia-me de uma culpa desconhecida e rezava. Só Deus me podia ajudar. Medo, apenas medo… Medo de ficar só, medo de enfrentar um mundo que não me ia entender.

- Não vale a pena queixares-te, ninguém vai acreditar no que disseres, toda a gente gosta de mim.

E tinhas razão, ninguém iria acreditar, de ti apenas conheciam o melhor, o homem simpático, generoso, compreensivo, e eu tinha vergonha de falar, de mostrar que aquela mulher alegre, aparentemente feliz, não passava de uma vítima de violência, e eu nunca quis ser vítima de nada. Por isso, a culpa era minha.

Premeditado, jamais me tocaste onde pudessem ficar marcas. Nunca me deixaste um olho negro, nem os lábios partidos, nunca uma nódoa negra no rosto. No meio da ira animal que te consumia, escolhias o lugar onde podias bater. Os teus socos castigavam os meus braços, os ombros, a cabeça, apertavas o meu pescoço, retorcias os meus pulsos… As marcas que ficavam eu apressava-me a esconde-las, envergonhada.

Acreditava que a minha força era inesgotável, mas apenas era a mulher que levanta do chão a sua sombra e fica de pé, uma e outra vez.  Lembrar-me disso não me causa orgulho, apenas cansaço.

In: Um futuro livro

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

A PART OF ME, de Ana Ribeiro















Todos vivemos na busca da pessoa que nos completa. Procuramos a outra metade do que somos no cerne de milhões de opções, até ao dia em que o tão esperado momento chega… E tu apareces. E tudo muda e a minha vida deixa automaticamente de ser a mesma porque estás aqui, porque fazes parte dela, porque existes.

Foi exatamente o que aconteceu comigo. Sempre te procurei, não me perguntes como nem porquê, não te sei explicar isto por palavras. Só sei que sempre te procurei, e é só isso que importa acrescentar. Sempre soube que tu existias, sentindo-o. Quando finalmente te encontrei, fiquei desde logo com a forte sensação que tínhamos sido feitos um para o outro, procurava a pessoa que encaixava na perfeição no puzzle que eu sou, e finalmente tinha-a encontrado. Eras tu. Eras mesmo tu. Estávamos destinados. Um ao outro. A ficarmos juntos.
Como eu precisava de uma pessoa assim como tu. A junção perfeita. A felicidade na sua forma mais plena e pura, na sua forma mais simples e pequenina, pedaços felizes de nós.

Estava destinada a cruzar-me com o teu olhar todos os dias, estava destinada a ouvir o teu sorriso e a deixar-me perder. A ter o teu toque só para mim, assim em exclusivo, como se fosse uma preciosidade guardada dentro de um frasquinho, secretamente escondido na minha mesa-de-cabeceira, como se de um tesouro se tratasse. Que eu pudesse abrir quando quisesse e deixares-me envolver em ti.

O que mais me fascina em ti?

Seres parte de mim. Em tudo e para tudo. Acho que acabo de descobrir que o foste desde sempre, mesmo quando não te conhecia, fizeste sempre parte de mim e do meu mundinho. 
Algo me dizia que ia ser assim. És parte de mim nos sonhos, nas escolhas, nas conquistas, e nos objectivos e realizações. És parte de mim em cada fragmento de ti que me ofereces, todos os dias.

O que mais amo em ti?

Ora deixa cá ver…. É difícil escolher, sabes?

Amo tudo. Mesmo tudo. Tu por inteiro. Principalmente aquilo em que me transformaste, como me mudaste, o que sou.

Seres parte de mim, é seres para sempre…

domingo, 10 de novembro de 2019

FÉLIX, de Vanessa Lourenço















Nestes últimos dias, muito se tem falado na tempestade Félix. E, no entanto, apesar de já ter sentido na pele as circunstâncias adversas deste fenómeno meteorológico, não consigo evitar fazer associações positivas no que toca a esta tempestade. Afinal de contas, a minha estreia no mercado literário ficou a dever-se a um gato preto com o mesmo nome, um gato que me ajudou a encontrar o meu caminho porque tive que o perder. E por isso mesmo, esta semana a nossa crónica desenrola-se mais ou menos assim...

Perdoem-me os não crentes, mas os animais que amamos não morrem. Desculpem, serei mais específica: não caem no vazio da não existência quando fecham os olhos pela última vez. Sim, é verdade que custa horrores quando partem e deixamos de os poder ouvir, ou de lhes poder tocar (isto porque no que toca à visão, por vezes se estivermos com atenção conseguimos vê-los pelo canto do olho) ..., mas eles não morrem. Na verdade, a primeira coisa que fazem assim que percebem o que lhes aconteceu é procurar-nos, e quando nos encontram acontecem duas coisas engraçadas: primeiro, percebem que não precisavam de procurar porque fora do corpo, a distância deixou de existir; e depois, que agora é muito mais simples falar-nos de amor, porque a nossa voz agora é a mesma.

Na vida muitas vezes nos cruzamos com frases feitas para amenizar a perda ou a distância, e os mais sensíveis de nós muitas vezes encontram sinais. Claro que na maioria das vezes os ignoramos porque “não é normal”, ou “vão achar que não sou certa da cabeça”, ou ainda porque o nosso cérebro está programado para desvalorizar tudo o que fuja à realidade de todos os dias, essa realidade com a qual a nossa vida em sociedade nos impregnou. Mas acreditem, eles existem.

“Mas se esses sinais são reais, porque são sempre tão subtis e dificeis de comprovar?” Porque, meus caros, o livre arbítrio dita que devemos decidir acreditar neles, mesmo que o resto do mundo teime em os desacreditar. É esse o objectivo da vida, esculpir a pessoa que somos quando chegamos ao mundo, por intermédio de decisões que por vezes desafiam toda a lógica ou conceitos pré-concebidos. E porque existem coisas na vida que são só nossas, não sujeitas à validação ou compreensão dos outros.

E é por conta disto que hoje vos escrevo, porque existe uma tempestade a assolar o nosso país que se chama Félix.

Para terminar, um pequeno aparte que acho importante acrescentar:

Tudo nesta crónica pode estar errado.

E vocês, em que acreditam?