sábado, 22 de julho de 2017

OPINIÃO | Os Bons | ANA KANDSMAR

Os bons, os maus livros e o preconceito com os autores portugueses.

Há umas semanas atrás tive o prazer de ler alguns bons livros. Sei que são bons, porque ainda hoje dou comigo a pensar no Rhenan, na Maria, na Freya, no Fion e na Maeve, sinto arrepios ao lembrar-me do Lochan e ponho-me a imaginar o que andarão eles a fazer por esta altura, quase não resistindo à tentação de abrir de novo o “Yggdrasil”, só para me certificar de que eles não andam lá por dentro a fazer muita bagunça.

A mesma sensação apanha-me quando passo pela estante e deito o olho ao “Dia Em Que Nasci”. O livro é pequeno, lê-se de uma acentada, mas é como um pastel de nata ou um daqueles “mil folhas” em miniatura: Delicioso. O Tomé, a Alice e a Ana ficaram-me para sempre numa das minhas gavetas de memórias (sim, as mulheres também têm gavetas, e eu tenho pelo menos uma só para as memórias literárias).

Perguntem-me se não me emocionei quando a Maria entrou pela primeira vez no quarto do Rhenan ou se não me indignei por causa das correntes que o pai do Tomé usava para o prender e eu dir-vos-ei que sim. Ora, quando isto acontece, quando o autor consegue transmitir emoções ao leitor, então muito provavelmente o leitor estará perante uma boa história. Sortudo!

Ando sempre atrás de boas histórias e não raramente fui (em tempos), atrás das grandes campanhas de marketing que as editoras fazem em prol das suas vendas. Pudera! A maioria dos livros que encontramos nas livrarias são importados de fora e as editoras portuguesas pagam os direitos de autor a peso d’ouro! É preciso vendê-los.

A Becca Fitzpatrick vendeu bem o Hush Hush no Canadá? (como se vender bem no Canadá se possa comparar a vender bem em Portugal). Então compra-se e depois fala-se dele até à exaustão, pagam-se lugares de destaque nas livrarias, colocam-se os exemplares mesmo ali à frente do nariz de quem entra decidido a levar o D.Quixote, ou outro qualquer, ou ainda, completamente às aranhas sem ter a mínima ideia de que livro comprar. Vê-se aquele, a capa é apelativa e… pimbas! Daí à caixa vai um “danoninho”, paga-se e leva-se para casa, para então se descobrir que o livro é uma grande merda. Assim, sem mais nem menos. Uma grande Merda! O que é verdadeiramente de bradar aos céus, é que se em vez de Becca Fitzpatrick, o nome do autor fosse Filipe Vieira Branco, ou MBarreto Condado ou…Ana Cristina Pinto, muito provavelmente estaria a ganhar mofo num canto qualquer onde ninguém chega.

Lembro-me de um outro, “ O Céu existe mesmo”, livro que a Lua de Papel, do Grupo Leya, até publicidade na televisão pagou e olhem só o que os portugueses compraram: papel higiénico encadernado, decorado com uma fila imensa de palavras. Na capa consta um selo que diz “ 3ª Edição em 15 dias! O livro sensação do ano!” Olhem que porra, claro que quando se vê isto na capa de um livro a vontade é comprar! “Bestseller nº1 do New York Times, 2 milhões de exemplares vendidos em 6 meses”. Efectivamente, este foi o título que mais vendeu em 2011, pelo menos em Portugal. Vergonha, vergonha! Quantos rolos da Renova, daqueles de luxo, dupla ou tripla folha, perfumado e com desenhos, teria eu comprado pelo mesmo valor que paguei pelo argamasso de folhas do tal Todd Burpo e mais não sei quem? O que raio nos andam a impingir para ler?

Até há uns tempos atrás eu ainda acreditava que é o público que determina o sucesso de um livro. Hoje percebo que são obviamente as editoras. São elas que escolhem o que editam e compram. Ainda antes do leitor comum decidir alguma coisa, aparecem os livreiros que escolhem o que colocam nas livrarias. E onde colocam. O lugar onde o livro está diz muito sobre as suas vendas. Se não está nos destaques ou num expositor ali mesmo à frente dos olhos, esqueçam. O pobre anda a passar um mau bocado. Não é por ser certamente um mau livro, a razão por que não está visível. As razões são sempre outras e todas se prendem aos euros, como as correntes aos tornozelos do Tomé. Quanto se ganha com o livro X ou com o livro Y? Ou mais exactamente: Quanto se perde, caso não venda?

Nós vamos por arrasto. Muitas vezes vítimas do fenómeno da carneirada. Nós, que gostamos de voar (rasteirinho) como as galinhas, mas em bando, como os gansos, repetimos o que vimos aos outros e temos muito pouco desenvolvida a nossa capacidade de análise. Vamos atrás e pronto. É mais fácil. E há coisas que em carneirada não se admitem: Dizer que afinal não era bem aquilo. Fica mal. Afinal se todos gostam, por que raio não gostei também? O problema só pode ser meu!

Bom, já não é novidade nenhuma para ninguém que o rei vai nu em mais contextos das nossas vidas do que é possível contabilizar e é se calhar por isso que hoje, pudesse eu mudar radicalmente a minha vida e tornar-me-ia eremita. Começo a cansar-me de viver entre pessoas que preferem o que parece ao que é. Termino por isso este texto a pregar aos peixes. Há bons e maus autores dentro de cada género, há bons e maus autores nas grandes e nas pequenas editoras. Mas acreditem que as hipóteses de se encontrar bons autores fora das livrarias crescem a olhos vistos, ao mesmo ritmo que os grandes grupos editoriais têm necessidade de facturar. E acima de tudo, acabem com o estigma do “se é português” não deve ser lá grande coisa. Lembrem-se do José Luis Peixoto, do José Cardoso Pires, do Luis Miguel Rocha, da Alexandra Lucas Coelho, do Miguel Torga (que ao longo da sua vida só fez edições de autor) e tantos outros que sangraram para se fazerem notar e que agora, muitos deles injustamente esquecidos para dar lugar às Noras Roberts e Erikas Leonards James deste mundo.

E acima de tudo, tenham em conta o mais importante: se o autor é português, não pertence à pandilha que aparece nas revistas cor-de-rosa, não é sequer apresentador de televisão e a editora aposta nele, então a garantia de qualidade é exponencialmente grande! Como é que sei isto? Tomem lá um exemplo: O livro do Paulo Caiado, “ Um Momento Meu”, é bom não é? Se ainda não sabem, têm bom remédio. ;)

(Adenda: Não posso terminar sem recomendar aqui alguns dos melhores livros de autores portugueses que já tive o prazer de ler e que não se encontram por aí a pulular nas livrarias. São eles: As Crónicas de Tellargya de Hélder Martins, Sonhos Roubados de Pedro Santos Vaz, Entre o silêncio das pedras de Luis Ferreira, O Dia Em Que Nasci de Filipe Vieira Branco e no meu género preferido, amei, amei, amei ,...YGGDRASiL, Profecia do Sangue de MBarreto Condado e O Erro de Deus de Carlos Queirós.


E já agora...e já agora… Facilmente encontram por aí nas Bertrands  “A Guardiã, O Livro de Jade do Céu”. Tem lá dentro um mundo inteiro. O meu.










Ana Kandsmar

sexta-feira, 21 de julho de 2017

ESCAPADINHAS | Esplendor na Relva - Cinema em Monserrate |

22 de Julho | Sábado | 21h30
A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES (VERTIGO) - 1958
de: Alfred Hitchcock
Para Maiores 12 anos no Relvado de Monserrate

Esplendor na Relva – 12 Obras-primas do Cinema em Monserrate
Um conjunto de obras-primas do cinema, que a tecnologia permite ver agora em larguíssima escala e num cenário único: um anfiteatro natural e ao ar livre, bordejado por uma moldura arquitetónica operática, que acrescentará dimensões próprias a uma esplendorosa experiência do cinema.
Locais de venda: Bilheteiras da Parques de Sintra, www.parquesdesintra.pt, , www.blueticket.pt, FNAC, Worten, El Corte Inglés, MEO Arena, Media Markt, lojas ACP, rede PAGAQUI e Turismo de Lisboa.

AgendaVertigo

O detetive aposentado John Scottie sofre de um terrível medo de alturas. Certo dia, um amigo pede a John que siga sua esposa. Ele aceita a tarefa e começa a segui-la por toda parte. Ela demonstra uma estranha atração por lugares altos, levando o detetive a enfrentar seus piores medos. John começa a acreditar que a mulher é louca, com possíveis tendências suicidas, quando algo estranho acontece nesta missão.

Informação Útil
Preço de bilhete:
– Sessões noturnas (ar livre) – 5€ adulto e 3,5€ jovens (dos 6 aos 18 anos) – Palácio estará aberto para visita;
– Sessões diurnas (auditório do Palácio) – Incluídas no bilhete da visita ao Palácio, sendo a entrada condicionada à capacidade da sala. A compra de bilhetes durante o dia para visita ao Palácio de Monserrate não dá direito a entrada gratuita nas sessões de cinema noturnas;
– A Scotturb assegura gratuitamente o transporte entre a Estação Ferroviária de Sintra (a partir das 19h15) e o Parque de Monserrate (até às 00h40) aos portadores de bilhete para o ciclo de cinema.
Capacidade dos espaços:
– Ar livre (sessões noturnas) – 500 lugares (relvado);
– Auditório do Palácio (sessões diurnas) – 60 lugares.
Notas para as sessões noturnas:
– Abertura de portas: 20h
– Serviço de cafetaria: 20h – 22h
– Aconselha-se a utilização de agasalho quente e calçado confortável;
– Aconselha-se a utilização de transportes públicos.

OPINIÃO | Bem-haja! | MARGARIDA VERÍSSIMO

Não vou fazer um relato do que é combater um incêndio, porque é disso que se trata, um combate, um combate desigual, cruel, entre homem e natureza. Não sou bombeira, ninguém da minha família o é.

Já estive próxima de fogo, mas nunca de um incêndio, nunca estive cara a cara com as labaredas que devoram tudo por onde passam, nunca olhei nos olhos a chama que engole florestas, casas e vidas. Não posso fazer um relato do sentimento que move tantos heróis anónimos deste país, e é incontestável que são heróis, como não posso descrever o que sentem nas horas infindáveis de sacrifício. Não consigo imaginar o esforço, físico e psicológico, o cansaço, o calor infernal, o ar irrespirável, o fumo, o cheiro, o que é não conseguir ver, o sentirem-se encurralados, a frustração de não conseguir fazer mais, dar mais…e eles já dão tanto, já se dão tanto!

Há situações que não são imagináveis, só estando lá, só quem as vive as conhece realmente. Acredito até que talvez nem haja vocabulário que o consiga descrever.

Eu não sei, não sei o que é, nem o consigo imaginar. O que vejo nas imagens arrepiantes que nos chegam através da comunicação social não passa disso, de imagens, distantes.

Ouvimos e lemos relatos perturbadores de quem viveu o inferno na primeira pessoa.

Impressionamo-nos, comovemo-nos, solidarizamo-nos, fazemos-lhes honras de heróis, não há dúvida que o são. Somos tocados pela sua bravura, abnegação, pela sua exaustão. 
Agradecemos.

Mas eu não sei o que é, não sou bombeira…mas tenho amigos que o são, tenho amigas que são mulheres de bombeiros, os meus filhos têm amigos que são filhos de bombeiros e o que eu sei, aquilo que, longe dos cenários dantescos, a comunicação social não mostra, é que são pessoas, com as suas vidas, a sua família, os seus empregos, os seus passatempos, mas que se necessário, se necessárias, deixam a sua família, os seus empregos e a sua vida para irem em socorro de quem necessita… e muitas vezes deixam mesmo a sua vida por lá.

Mais forte que qualquer outro sentimento, quando necessário, quando necessários, sentem o desejo de ir, é imprescindível irem, dê por onde der. Sabem que todos os braços são necessários, que um par de braços mais pode fazer a diferença e que nunca são demais.

E deixam tudo, sem olhar para trás, deixam as suas famílias, os seus maridos e mulheres, filhos e pais, esperando que regressem. Famílias que orgulhosamente sabem e carinhosamente aceitam que eles têm de ir, não que sejam obrigados, são voluntários, mas porque não conseguem deixar de ir, de ajudar, de se dar! Também estas famílias nos dão tanto. Cada partida vivida, cada ausência sofrida do seu ente querido bombeiro, na incerteza do regresso, são dádivas que nos fazem.

“Como consegues?” pergunto a uma amiga mulher de um bombeiro. Como resposta obtenho um sorriso, um sorriso sereno de quem já viveu certamente tantas horas de angústia, de incerteza, mas que sabe e aceita que o lema “vida por vida” é algo maior que a nossa dimensão humana. É o que os torna únicos, especiais…heróis! Um dia também o seu filho será bombeiro.

Também sei o que é o olhar exausto de uma colega, comandante de uma corporação, que gozou os dias de férias em cursos, ações de formação e outros afazeres específicos e necessárias para melhor desempenhar a sua função…nos bombeiros, porque a sua profissão é outra. O olhar atento e ansioso de quem passa a curta hora de almoço ao telefone a tratar de assuntos relacionados com a corporação e com ocorrências. Sentei-me ao seu lado e afinal nem conseguimos conversar, engoliu o almoço entre palavras ao telemóvel que não pode deixar de atender.

Sei o que é o olhar de raiva, desilusão, de sentido de injustiça, de inconformismo, por terem sido acusados de não terem prestado o auxílio que, compreensivelmente, era o desejado pela população em horas de aflição. Eles que estiveram lá, lá ou noutro local, onde também eram necessários. Eles que vão, que combatem, que dão tudo o que têm…que se dão. Sei ainda o que é o olhar esgotado de quem esteve horas ou dias a combater um incêndio e teve de ir diretamente para o emprego, só são justificadas as ausências ao serviço durante o tempo efetivo de combate ao incêndio.

Mas sei também como brilha uma chama única de amor imenso no olhar de quem tanto se dá aos outros! Bem-haja!


Nota: Optei pela expressão bem-haja, que raramente uso, porque é aqui que a oiço, nesta terra onde tenho o privilégio de conviver com bombeiros.

Nota 2: Neste texto refiro-me à minha família direta, sei que tenho primos mais afastados que são ou foram bombeiros. Bem-haja também para eles.















Margarida Veríssimo

quinta-feira, 20 de julho de 2017

ESCAPADINHAS | Esplendor na Relva - Cinema em Monserrate | JOHNNY GUITAR

21 de Julho | Sexta-Feira | 21h30
JOHNNY GUITAR - 1954
de: Nicholas Ray
Para Maiores 12 anos no Relvado de Monserrate

Esplendor na Relva – 12 Obras-primas do Cinema em Monserrate
Um conjunto de obras-primas do cinema, que a tecnologia permite ver agora em larguíssima escala e num cenário único: um anfiteatro natural e ao ar livre, bordejado por uma moldura arquitetónica operática, que acrescentará dimensões próprias a uma esplendorosa experiência do cinema.
Locais de venda: Bilheteiras da Parques de Sintra, www.parquesdesintra.pt, , www.blueticket.pt, FNAC, Worten, El Corte Inglés, MEO Arena, Media Markt, lojas ACP, rede PAGAQUI e Turismo de Lisboa.

AgendaJonhyG

Vienna, a dona de um bar no Arizona, conta com a ajuda de um velho amor, o violeiro Johnny Guitar, para enfrentar o xerife local e os capangas de sua inimiga mortal: Emma, uma fazendeira que a quer fora da cidade.


Informação Útil
Preço de bilhete:
– Sessões noturnas (ar livre) – 5€ adulto e 3,5€ jovens (dos 6 aos 18 anos) – Palácio estará aberto para visita;
– Sessões diurnas (auditório do Palácio) – Incluídas no bilhete da visita ao Palácio, sendo a entrada condicionada à capacidade da sala. A compra de bilhetes durante o dia para visita ao Palácio de Monserrate não dá direito a entrada gratuita nas sessões de cinema noturnas;
– A Scotturb assegura gratuitamente o transporte entre a Estação Ferroviária de Sintra (a partir das 19h15) e o Parque de Monserrate (até às 00h40) aos portadores de bilhete para o ciclo de cinema.
Capacidade dos espaços:
– Ar livre (sessões noturnas) – 500 lugares (relvado);
– Auditório do Palácio (sessões diurnas) – 60 lugares.

Notas para as sessões noturnas:
– Abertura de portas: 20h
– Serviço de cafetaria: 20h – 22h
– Aconselha-se a utilização de agasalho quente e calçado confortável;
– Aconselha-se a utilização de transportes públicos.

OPINIÃO | Energias Alternativas | MAFALDA PASCOAL

Fontes de energia como o vento e a água distinguem-se, fundamentalmente em dois pontos, das actualmente utilizadas e que estarão esgotadas a médio prazo; são de certo modo inesgotáveis, pois renovam-se permanentemente sem a intervenção do homem, a sua utilização não acarreta riscos de maior para todos nós nem para o meio ambiente.

A energia hidráulica, que muitas vezes é considerada como modelo de fonte de energia inofensiva, não é das que poupam mais o ambiente. Se bem que a produção de electricidade a partir da energia hidráulica não dê origem a substâncias nocivas nem haja libertação de calor, a construção de grandes centrais hidroeléctricas está frequentemente associada a importantes prejuízos causados na paisagem. Os efeitos sobre o meio ambiente vão desde o abaixamento do nível freático a jusante das barragens (devido à acentuada erosão dos rios em profundidade), até aos tremores de Terra desencadeados artificialmente (provocados pelo acumular das massas de água). Desde que estas consequências sejam minoradas, as reservas de energia hidráulica do nosso planeta continuam a proporcionar amplo espaço de manobra para futuras utilizações. Com a construção de novas centrais hidroeléctricas, pode duplicar-se facilmente a produção total de energia na Terra.

As vastas perspectivas que se abrem com a utilização da energia eólica, pelo contrário, continuam praticamente por explorar em quase todos os países do mundo. No entanto, a reserva tecnicamente útil de energia eólica é muito superior à da energia hidráulica. Como diz no livro “Esta Terra Magnifica” (Selecções do Reader’s Digest), “As ilhas e as faixas costeiras são claramente favorecidas pela Natureza no que respeita a este tipo de energia."

Ao fim e ao cabo, as energias, hidráulica e eólica não são mais do que formas especiais de energia solar, pois os grandes ciclos de água e do ar são accionados por esta. No entanto, geralmente, quando se procede a cálculos, a produção de energia pelos raios solares é considerada separadamente. A energia solar é, de longe, a mais produtiva fonte de energia da Terra e todas as outras juntas, inclusive a geométrica e a das marés, apenas perfazem uma pequena fracção daquela.

Quando se fala da utilização de energia solar como fonte de energia não poluente, pensa-se geralmente na transformação dos raios solares em calor ou electricidade graças a uma técnica que, em parte, é bastante complicada. No entanto, a energia solar também é aproveitada por via biológica para formação de biomassa, facto que as plantas verdes demonstram há milhões de anos.

A biomassa vegetal contém, uma fracção de energia solar armazenada, constituindo por isso também uma fonte de energia. Para a produção da chamada bioenergia podem ser aproveitados os resíduos agrícolas e silvícolas. Esta fonte de energia é usada na China há muitos anos, por isso não é excepção, hoje em dia, os camponeses produzirem biogás a partir do estrume.

Em muitos países, os colectores solares simples que aquecem a água para os banhos ou duches são hoje em dia tão vulgares como as calculadoras de bolso alimentadas a células solares.

Já temos no nosso país, em Brinches perto de Serpa no Alentejo, a maior central solar (fotovoltaica) do mundo. Mas para as centrais solares se tornarem rentáveis, é necessário descobrir novos processos de armazenamento e transmissão de energia. O principal problema na utilização de energia solar não reside na quantidade de energia recebida na superfície terrestre ser demasiado pequena, mas antes no facto de o Sol descurar determinadas regiões e certas estações do ano. Uma das maneiras de resolver este problema poderia ser a de colocar em orbita enormes espelhos côncavos que focassem na Terra, em áreas precisas, os raios do Sol.

Outra situação relacionada com energias alternativas, de acordo com um artigo publicado no semanário Focus de 26/11/08 com o título “Gasóleo que cresce nas árvores”, este artigo foi baseado num outro artigo publicado na edição de Novembro na revista Microbiology. É deveras interessante o que o professor de botânica Gary Strobel com 70 anos de idade descobriu, como ele “dedica uma boa parte do seu tempo a percorrer bosques e selvas tropicais do Planeta, procurando plantas e vegetais que possam conter micróbios benéficos para o ser humano.” Este senhor que já tinha descoberto um fungo, em 1993, que produzia de forma natural, taxol, que é um “poderoso fármaco anticancro que se converteu num verdadeiro salva-vidas para muitas mulheres com cancro da mama”, veio agora com a descoberta de outro fungo “que tem a capacidade de produzir uma série de hidrocarbonetos praticamente idênticos aos do gasóleo.”

A ser verdade, o “microdiesel”, assim lhe chama Strobel, “cresce fácil e naturalmente sobre a celulose, produzindo o combustível directamente a partir dela.”

Portanto, neste nosso Planeta ainda existe muita coisa que está por descobrir, talvez porque ainda não chegou o momento para essa descoberta, talvez porque a nossa mentalidade ainda não está preparada para situações tão rebuscadas.


Enfim, como disse o Bocage, quando lhe perguntaram porque trazia um tecido dobrado às costas “estou à espera da última moda!”.












Mafalda Pascoal

sábado, 15 de julho de 2017

OPINIÃO | Duas coisas que ninguém nos obriga a ser: Hipócritas e Bestas | ANA KANDSMAR

Lembro-me de ter visto na televisão um programa em que uma gralha, equilibrada no braço de um semáforo que atravessava a via rápida, num momento calculado, deixa cair no asfalto uma noz que tem no bico e vê-a ser esmagada pelo pneu de um carro que passa. Depois, num ruminar estratégico digno de um Júlio César às portas da Gália, a gralha espera que o sinal fique vermelho e mergulha em voo picado para o chão, recolhendo apressadamente os bocados esmagados da noz.

Recordo-me de uma outra que, em cativeiro olha com olhos de ver um tubo de vidro estreito em cujo interior é colocado um cesto pequenino com comida. O cesto tem asa e tudo. Em cima do tubo, na horizontal, está um arame fino e direito com cerca de vinte centímetros.

A gralha olha para aquilo e pensa, imagina, coloca hipóteses… Primeiro, pega no arame com o bico e introdu-lo certeiro no tubo, mas não consegue sacar o cesto. Tira o arame, pensa mais um bocadinho, voa com ele no bico até ao poleiro, preso a uma parede com fissuras, e enfia-o num pequeno orifício. Empurra-o com o bico até lhe curvar a ponta em forma de anzol, retira-o, voa de novo até ao tubo, espeta com o arame por ali adentro e engancha a parte retorcida na pega do cesto, puxando-o para cima. Come o que estava lá dentro, regala-se de se ver tão esperta.

Enquanto engulo mais uma garfada de bife do lombo, recordo os chimpanzés, capazes de interiorizar um léxico superior a sete mil palavras e que, carregando nas letras de uma máquina, compõem frases como: eu quero água (assim mesmo, com sujeito, predicado e complemento directo), gosto de ti ou estou triste.

Sim, esses mesmos chimpanzés, que encarceramos nos zoos para gáudio das nossas criancinhas, e que embalam os seus bebés, atrás das grades, como nós as embalamos a elas (parecendo, até, que também lhes cantam ao ouvido). E as formigas? Que, em África, constroem formigueiros gigantes dotados de sistemas de ar condicionado, cuja sofisticação é digna de um open space no centro de Manhattan? E a cadela da minha amiga Vera? Uma pequinois gentil que um dia se travou de amores por uma ninhada de gatinhos órfãos com empenho tal que ela, que nunca havia sido mãe, encheu as maminhas de leite e alimentou-os a todos até lhe terem o dobro do tamanho.

Ainda hoje, quando brigam com o outro cão lá da casa, preto e grande, ela atira-se-lhe ao focinho até que ele, esparvoado com tamanho arrojo, desiste dos seus intuitos trucidantes e mastigadores. E lá acaba a lamber os gatos, como uma mãe que seca as lágrimas do filho com as costas da mão e lhe sussurra "pronto, pronto, já passou". Ok, ok, nunca vi um porco a andar de bicicleta, mas já vi um polvo a desatarrachar um frasco com os tentáculos e a abrir a fechadura de uma porta de entre várias, aprendendo que era aquela que lhe permitiria sair (ou entrar). E bastou-lhe uma única vez, sem estímulos repetidos ou qualquer outro engodo pavloviano, uma única vez, caraças! E o bicho ficou a saber para sempre qual era o caminho da liberdade.

E aquele mistério dos elefantes, que vão todos morrer ao mesmo sítio, e o das baleias, que se suicidam aos molhos de encontro à praia, e o dos golfinhos, que derramam ternura sobre crianças doentes e as ajudam à cura, sem nada pedirem em troca?

Por tudo isto, lamento não me conseguir livrar do pé para a mão de tantos milénios de escravidão à voragem carnívora que os antepassados me inscreveram no ADN, e de me vergar amiúde, ao peso de uma gula que me deixa à mercê de um bom bife do lombo com molho à café.

Às vezes, no entanto, sou atacada pela calada da noite por estertores franciscanos e dou por mim a pensar que isto de comer animais mortos que são quase meus irmãos e que de mim diferem, apenas, por milionésimos de ADN, é assim como que uma espécie de canibalismo e que, para além de os comer, ainda os destrato com aquela sobranceria própria dos humanos, o que não está nada bem.

O prólogo é sempre o mesmo: determinada, a cada ataque sorrateiro de culpa, acabo na fila de um qualquer restaurante vegetariano e finjo proveito, embora quase vomite com a consistência espumosa do tofu e do seitan. Ao fim de uma semana de jejum vegetariano a experimentar todas as receitas de massa e batata com courgettes que me aparecem nas revistas femininas, começo a ter sonhos eróticos com bifinhos de perú e bitoques, de preferência com ovo a cavalo. Não sem deixar de admirar profundamente quem o consegue, diga-se. Acho, aliás, que um vegan convicto se encontra num estádio superior da existência: mais perto da perfeição, de Deus ou seja lá do que for que represente aquele todo místico em que eu própria acredito. Mas eu por aqui continuo, no meu limbo moral privado, resignando-me à ideia de, na reencarnação seguinte, vir a este mundo sob a forma de uma aranha peluda, nojenta e potencialmente espezinhável logo na primeira semana de vida.

Não obstante esta fraqueza assumida, intuo facilmente que somos todos muito estúpidos e que, se não conseguimos deixar de os fazer sofrer para nosso prazer (nos matadouros, nas touradas, na caça, no circo), ao menos que não estejamos tão contentes com a nossa presunçosa superioridade no pódium da cadeia alimentar e tão convencidos de que somos muito mais espertinhos do que eles, os animais, essas bestas irracionais que sobreviveram ao dilúvio na arca flutuante de um velho lunático, apenas para se reproduzirem e nos servirem.

Quando se fala de defender animais, defender os seus direitos, não significa que estamos a tentar dar-lhes direitos de cidadania. Apenas e só, quem defende o seu direito à vida, defende apenas isso: O seu direito à vida. Não se entende por isso, que todos passemos a ser vegetarianos e que não os possamos matar para consumo. Apenas que, aos animais criados para consumo seja dada a dignidade de uma existência pacífica e digna e na morte lhes seja dado um fim, o mais indolor possível. A isto chama-se respeito por seres que, não sendo iguais a nós, não são também inferiores. São apenas diferentes. A nossa pretensa “superioridade” devia permitir-nos perceber isso.

Um porco consegue memorizar entre 500 a 600 palavras e entender os seus significados. Tem um ADN muito idêntico ao dos humanos e imaginem, se o porco aprendesse a verbalizar como nós, poderíamos com as suas 500 palavras, conversar com ele. Claro que todas as limitações do porco o impedem de dialogar com os humanos. Mas nós também nada sabemos dos seus roncos, ou o que significam, nem tão pouco aprendemos a sua forma de comunicar. E somos “superiores”. Outra coisa que sabemos: Somos 7 mil milhões de humanos no planeta. Conseguiríamos alimentos se abdicássemos todos de consumir carne? Não creio. Com tantas bocas para alimentar será viável, desistir da criação de animais em bloco, compactada em espaços infernalmente exíguos? Talvez isso não seja possível. Pelo menos para já.

Se eu pensar que nos aviários os frangos nascem e morrem sempre na mesma posição, sem qualquer hipótese de se movimentarem 1metro que seja, durante toda a sua vida, e que, para que eles se mantenham imóveis e não constituam ameaça para os seus pares, lhes são cortados os bicos e as patas (em vida) … Que aos patos lhes são enfiados tubos pelas goelas abaixo, e que assim passam toda a sua existência sobre este planeta, sendo incessantemente alimentados, para depois da morte, se transformarem em foie gras, que as vaquinhas que nos dão a carne e o leite vivem da mesma forma, toda a sua vida em espaços exíguos, sem o vislumbre de um raio de sol, ou relva fresca…bem… nós somos umas bestas. Mas esta bestialidade justifica-se infelizmente pela necessidade de alimentar 7 mil milhões de bocas.

.Mas não justifica a crueldade com que tratamos os animais noutras circunstâncias. Arrepia-me a festa em que se celebra a perícia de um cavaleiro, espetando farpas no lombo de um animal, que antes disso já foi electrocutado nos testículos, (não importa se o animal é um bovino preto, um touro bravo, um crocodilo ou uma toupeira), é estúpido! Se o objectivo maior do sofrimento que infligimos seja a quem for, é o nosso prazer imediato e não uma necessidade, é estúpido! Ontem mesmo recebi uma mensagem de alguém que dizia: “ Você nem sequer sabe o que é um touro bravo!” Apeteceu-me mandá-lo catar-se! Defendam os senhores da tauromaquia, a sua arte, da forma que entenderem. Mas não digam que um touro bravo é uma raça distinta optimizada para sofrer na arena, geneticamente modificada para não sentir dor! Nem tão pouco digam que hoje ainda é aceitável que se torturem animais gratuitamente, porque a actividade faz parte das tradições ou da cultura de um povo. Ao longo da nossa história, o homem bem ou mal, tem evoluído no sentido de perceber que o que já não nos serve deve ser mandado fora. É esta a luta dos que condenam as touradas. Queremos apenas que se comece finalmente a perceber que há que separar o trigo do joio. Sermos bestas por necessidade, é um mal, mas é um mal menor. O mal maior é sem dúvida, sermos bestas por hedonismo.


Porque (quem sabe?) talvez os touros, sejam eles quais forem, temam as multidões e aterrorizados tentem defender-se como podem da perseguição do cavalo, das farpas e do barulho ensurdecedor à sua volta, (levando por vezes à morte, cavaleiros e forcados). Talvez as preguiças gostem de sexo tântrico e por isso demorem horas a assegurar a sua descendência; e talvez os leões, bichos gregários por natureza, tenham problemas com a sogra e já não a possam ver à frente; e os ursos, quando hibernam, sofram de claustrofobia e depois tenham pesadelos; e os pinguins, todos iguais e aos milhões, tenham crises de identidade; e os salmões, tenham tendências depressivo-suicidas e por isso venham morrer rio acima; e as baleias, saibam de facto cantar, e algumas de entre elas sejam prima donnas com direito a privilégios especiais de diva e a camarote individual; e as coelhas só tenham orgasmos múltiplos e por isso fodam tanto; e os gatos sintam um profundo desprezo pelos humanos e por isso não os olhem quando eles os chamam; e as formigas não gostem de estar sozinhas; e as toupeiras sofram de agorafobia; e os cães se comportem como groupies à beira da histeria porque nos adoram, e quando crescerem querem ser como nós, as pessoas, os seus maravilhosos donos. Quem pode garantir que não seja assim? Quem? Talvez que o universo em que se move esta Terra onde nos encontramos mais não seja do que um grão de poeira reflectido na retina de um grilo e, este, um habitante microscópico de um outro planeta, em órbita numa galáxia diferente e encaixada num universo muito maior. Portanto, "bora" aí apanhar do chão um bocadinho de humildade, dessa que anda por aí espalhada, que todos espezinham e ninguém quer, assumir a nossa ignorância no que respeita a esta merda toda e ter algum respeitinho, designadamente, pelo grilo.

   Ana Kandsmar

sexta-feira, 14 de julho de 2017

OPINIÃO | Cheiros, sabores e teletransporte | MARGARIDA VERÍSSIMO

Adoro o cheiro a éter! O cheiro a éter conforta-me, transmite-me a sensação de segurança, de bem-estar, de alegria, de me sentir amada. O cheiro a éter transporta-me para outros tempos, faz-me viajar até à infância, quando tudo se curava com um abraço... Com um abraço a cheirar a éter. Adoro pegar em bolinhas de algodão embebidas em éter e sentir o seu aroma, sentir aquela tontura que só um amor tão grande nos faz sentir. Adoro recordar o cheiro da minha mãe quando chegava a casa depois de uma manhã de sábado a trabalhar no posto médico...cheirava a mãe...e a éter!

Como já referi noutro texto os cheiros e aromas têm o poder de nos transportar para situações e lugares vividos. Inspiro, fecho os olhos, e volto a estar lá, no passado, naquele momento.

É incrível como ao sentir o cheiro a terra molhada, que é uma situação bastante comum e recorrente, volto a estar com 4 anos nas férias de verão no quintal da casa dos meus tios e primos onde aprendi a andar de bicicleta. Aquele cheiro a chuva de verão! Páro, fecho os olhos por instantes e por instantes volto a sentir as mesmas sensações e emoções dessas férias, acho que até chego a ouvir as vozes dos meus irmãos e dos 8 primos com quem partilhei tantas aventuras.

Curiosamente também o cheiro ao fumo de fogueira me transporta para esses tempos de verão. Foi uma memória que retive muito tempo, uma vez que vivia na cidade e só no verão, quando íamos para casa dos meus tios, sentia esse aroma. Passados tantos anos, agora a viver na província, sinto esse cheiro muitas vezes…é tão bom recordar!

Mas se há cheiro que me transporta e quase teletransporta para essa casa dos meus tios, em Canas de Senhorim, é o cheiro a fraldas sujas! Tiveram 8 filhos, 4 deles mais novos do que eu. Sempre que para lá íamos nas férias de verão ou a minha tia estava grávida ou havia um bebé novo. Como se pode imaginar, era portanto uma casa onde havia sempre, por essa altura, alguém que usava fraldas. Desta forma, a tão caraterística fragrância a fraldas sujas, tornou-se para mim, um cheiro agradável… ou pelo menos um cheiro que me transporta para recordações muito agradáveis!

Mas também há sabores que têm essa fantástica capacidade de teletransporte. Aquela sopa de sabor único, delicioso, que só a nossa avó conseguia fazer e que por mais que tentemos reproduzir a receita nunca conseguimos igualar. Às vezes lá aparece, como que por magia, alguém que o consegue fazer e então lá vamos numa maravilhosa viagem ao passado. Fechamos os olhos, claro, teletransportamo-nos para outro local, noutro tempo, e somos recebidos pelo olhar carinhoso de quem já não está ente nós.


Mas há um sabor que não me transporta para nenhuma época específica da minha vida…porque é um sabor transversal a toda ela. O sabor a chocolate!















Margarida Veríssimo

quinta-feira, 13 de julho de 2017

OPINIÃO | ADN | MAFALDA PASCOAL

Toda a escrita, falada ou mantida num computador, é uma forma codificada de linguagem. A linguagem em que o ADN codifica as instruções para o fabrico de proteínas (o código genético), é extraordinariamente simples. Cada filamento de dupla hélice é uma cadeia de subunidades químicas ligadas, sendo a ordem destas subunidades ao longo do filamento de ADN o que constitui o código genético.

O ADN é o arquivo de informação permanente de uma célula e nunca sai do núcleo. A sua função é armazenar com segurança o plano genético e transmiti-lo sem alterações de célula para célula e de geração em geração.

Uma única célula humana contém 4m de ADN (acido desoxirribonucleico), acondicionados dentro de um núcleo com apenas cinco milionésimos de milímetro de diâmetro. Nesta massa de fios emaranhados está contida toda a informação necessária para produzir um ser humano.

O ADN dirige o desenvolvimento e mantém a vida de um organismo dando instruções às células para fabricarem proteínas, as moléculas versáteis de que toda a vida depende.

O ADN da célula é uma grande biblioteca de comandos codificados: as moléculas longas são arrumadas em cromossomas, nos quais os genes estão organizados como contas num colar.

Visto com um microscópio pouco potente, um cromossoma de uma célula em divisão tem uma forma simples de uma cruz1 que sublinha o modo complexo mas elegante como está «empacotado» o ADN. A ampliação de uma pequena secção2 mostra um filamento de cromatina apertadamente enrolado, constituída por ADN intimamente ligado à proteína.

Uma ampliação maior de um segmento de cromatina3 mostra que é uma espiral apertada de cromómeros, subunidades semelhantes a contas, compostas por um grânulo de proteína envolto pela molécula de ADN4. O grânulo de proteína tem uma carga positiva, que lhe permite ligar-se à molécula de ADN de carga negativa5, com a sua estrutura em dupla hélice. É fundamental para a organização da célula que o ADN esteja condensado. Se não o estivesse, a dupla hélice do ADN ocuparia milhares de vezes mais espaço. Ao arrumar o ADN em feixes compactos, a célula consegue manobrá-lo muito melhor, desenrolando algumas partes quando os genes nelas contidos são necessários.

O crescimento de um organismo, o seu aspecto e o seu funcionamento diário são, em última analise, controlados pelos genes, as instruções biológicas codificadas em cada célula do seu corpo. Os genes conseguem fazer isto através do controlo de tipos e quantidades de proteínas produzidas em cada célula do corpo. São as próprias moléculas de proteínas que formam as estruturas e a mecânica do corpo.

O aspecto e o comportamento final de um organismo são determinados simultaneamente pelos seus genes e por uma variedade impossível de conhecer, de influências exteriores, incluindo a quantidade de comida que come, o clima em que vive e se sofreu de alguma doença ou ferimento, durante o desenvolvimento. Mas só as características directamente determinadas pelos genes podem ser herdadas.

As sementes de alguns alguns alimentos transgénicos, são geneticamente modificadas em laboratório para as plantas poderem resistir às pragas de insectos e a grandes quantidades de pesticidas. Por outro lado, podem causar riscos ambientais, na medida em que as ervas daninhas ficam mais resistentes aos herbicidas, os lençóis de água ficam poluídos com produtos tóxicos advindos dessas modificações e o solo vai perdendo a fertilidade, entre outros riscos. Em relação à saúde também não favorece muito, pois alguns destes alimentos contêm genes que são resistentes aos antibióticos, provocam alterações no sistema imunológico e em vários órgãos vitais, também provoca alergias entre outros sintomas. Seria bom que não consumíssemos alimentos transgénicos pois dessa forma ajudávamos a evitar que fossem plantados e ajudávamos a proteger a saúde e o meio ambiente.

Agora uma boa notícia recente, finalmente foi criada a base de dados portuguesa de perfis de ADN para identificação civil criminal. Esperemos que agora seja um pouco mais fácil apanhar os criminosos, pois o Instituto Nacional de Medicina Legal (INML) está agora apto a recolher a informação genética de todos os condenados por crimes com penas de prisão concreta igual ou superior a três anos de prisão. Desta forma será possível fazer identificações de pessoas desaparecidas e recolher amostras de cadáveres, já que acontecia amiúde cadáveres serem enterrados sem ser possível identificá-los, assim, cruzando os perfis genéticos com os pedidos da polícia ou de famílias de desaparecidos poderá haver menos corpos por identificar e menos crimes por resolver especialmente no caso de crimes que tenham deixado vestígios biológicos como sangue ou esperma. Portanto, sendo “um instrumento essencial à investigação criminal, pelo qual nos vínhamos batendo há vários anos", como disse ao jornal o Público o presidente do INML, Duarte Nuno Vieira, aplaude de pé (e nós também) a criação desta base genética.








Mafalda Pascoal 

terça-feira, 11 de julho de 2017

CRÍTICA LITERÁRIA | " Pablo Escobar, o Meu Pai", de Juan Pablo Escobar | Planeta


Texto e Foto: Isabel de Almeida

Crítica Literária | Jornalista

Em Pablo Escobar, o Meu Pai, decorridos mais de vinte anos sobre a morte do Capo do Cartel de Medellín, o seu filho Juan Pablo Escobar dispôs-se a narrar nesta obra biográfica que conjuga relato pessoal e investigação, muitos detalhes e acontecimentos que marcaram o percurso de vida do seu tristemente famoso pai, da Colômbia e do seu respectivo contexto político e social nos anos 80 e 90, durante os quais Pablo Escobar chegou a ser um dos homens mais ricos, poderosos e temidos do mundo devido à sua ligação ao narcotráfico e à escalada de violência associada a esta actividade criminosa.

A proximidade do narrador ao seu pai transporta o leitor para o seio de uma família que estava conotada com os negócios ilícitos de Escobar mas onde também existiam grandes e pequenos dramas, raiva e carinho, traições e lealdades, amores e ódios, e só por aqui já é expectável que fiquemos a conhecer o homem por detrás do traficante, Pablo Escobar é um poço de ambiguidades, de polos que se opõem e é percepcionada ao lermos esta obra.

O tom coloquial, as emoções que fluem da escrita e que oscilam entre carinho, medo, admiração e recriminação, amor familiar e repúdio estão naturalmente integradas neste livro, sendo assumida a subjectividade da escrita.

Pablo Escobar era um homem que, como resulta do olhar do seu filho, e como podemos deduzir de factos históricos conhecidos e de documentos reunidos nesta obra, era composto de ambiguidades. Era um homem inteligente, impulsivo, narcísico e egocêntrico, capaz de gestos nobres mas, também impiedoso para com todos os que se cruzavam no seu caminho e o contrariassem. Ironicamente, praticou actos de generosidade, ajudou os mais pobres, disponibilizou aviões para ajudar nas operações de socorro na sequência de uma erupção vulcânica e quis o impossível. Algures na sua mente criou a firme convicção firme de que era legítimo, aceitável e perfeitamente natural praticar o bem e defender causas políticas e sociais tendo como base de suporte económico os lucros do narcotráfico, e aceitando o preço da perda de vidas humanas (algumas delas inocentes).

De uma vida de opulência, com todas as excentricidades que o dinheiro pode comprar (por exemplo, um jardim zoológico com animais exóticos instalado na sua mais famosa propriedade a Fazenda Nápoles, que, curiosamente, deve o nome à nacionalidade dos pais de Al Capone, um dos seus ídolos) até chegar ao terror da incerteza permanente quanto ao local onde estaria toda a família no dia seguinte, o temer pela própria vida e pela dos seus ente queridos, todo este cenário nos desfila perante os olhos durante a leitura, sendo perceptível a tensão vivenciada pelo autor e pela família.

Podemos encontrar aqui relatos que ilustram a loucura de um homem (Pablo Escobar), mas não se fica indiferente à incoerência e corrupção bem patente em todo um sistema ao mais alto nível (político, militar, policial, segurança interna e relações externas).

No decurso da leitura parece-nos, muitas vezes, estarmos a assistir a mais uma produção televisiva ou cinematográfica sobre a família Escobar, mas, ao racionalizar, o leitor nota que, afinal, em tantos momentos e histórias surgem realidades que se revelam bem mais complexas e assustadoras do que a ficção.

O livro é também, a meu ver, um testemunho de resiliência, de sobrevivência, de reconstrução do autor e da sua família mais próxima.

Juan Pablo Escobar é um filho com uma herança muito pesada e ciente de que, após a morte do pai, o terror não só não abandonou esta família como se elevou a níveis ainda mais assustadores. O autor, a mãe - Victoria Eugenia Henao Vallejo - e a irmã Manuela conseguiram escapar a uma morte quase certa e aqui fica a ideia de que muito devem à coragem da matriarca bastante protectora, que enfrentou e negociou as suas vidas com cartéis concorrentes e com as autoridades que também levantaram obstáculos a uma nova vida que cortasse com o passado.

Também, à sua maneira, Pablo Escobar foi um pai e marido protector que demonstrou gostar da família (embora sejam famosas as suas infidelidades conjugais) e que estaria bastante consciente dos riscos que a esposa e os filhos correriam após a sua morte.

Num plano menos familiar e mais histórico e sociológico, somos confrontados com a extensa rede de ligações perigosas e obscuras que mobilizava aliados inesperados como forças de segurança Colombianas, a DEA (agência governamental Norte Americana que combate o Tráfico de Droga), a CIA (Serviços Secretos Norte Americanos) e os Pepes (Perseguidos por Pablo Escobar, um grupo que incluía paramilitares, membros de cartéis rivais, forças de segurança e familiares das vítimas do Capo do Cartel de Medellín).

O autor, a mãe e a irmã perderam até a identidade (mudaram de nome oficialmente como medida de segurança) encontraram um novo pais para viver. Juan Pablo mostra-se determinado a passar às gerações presentes e futuras uma mensagem bastante útil e pertinente num mundo que atravessa uma crise de valores: a mensagem é a de que nada há de bom e positivo no tráfico e consumo de drogas e no uso de violência aos mesmos associado, sendo o seu pai um exemplo a não seguir.

Numa atitude clara de reconciliação com a sua conturbada narrativa familiar Juan Pablo Escobar (agora Juan Sebastian Marroquín Santos) é pacifista e vem estabelecendo contactos com familiares das inúmeras vítimas do pai, pedindo perdão pelo sucedido.

Um livro revelador, escrito de forma consistente e emotiva e que desperta consciências, lembrando-nos que nada é linear, mada é apenas preto ou branco.


Ficha Técnica do Livro:


Autor: Juan Pablo Escobar

Editora: Planeta

1ª Edição: Março de 2015

3ª Edição: Abril de 2017

Nº de Páginas: 416

Classificação: 5|5 Estrelas

Género: Biografia | Testemunho | Caso Real