quarta-feira, 18 de abril de 2018

CINEMA | ATÉ NOS VERMOS LÁ EM CIMA

ESTREIA 19 DE ABRIL

Filme premiado do cinema - e da literatura - francesa estreia em Portugal




ATÉ NOS VERMOS LÁ EM CIMA, filme realizado por Albert Dupontel conta a história de Edouard (Nahuel Pérez Biscayart) (120 batimentos por minuto) e de  Albert (Albert Dupontel), dois ex-combatentes da primeira guerra mundial, com muito pouco em comum, a não ser o ódio ao Tenente Pradelle (Laurent Lafitte) (Ela) que tentam sobreviver na Paris dos anos 20, marcada pela Guerra.

Vencedor de 5 Césares nas categorias de Melhor Realização, Melhor Adaptação, Melhor Figurino, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte, ATÉ NOS VERMOS LÁ EM CIMA é um drama cheio de emoção, beleza e humanidade, que conta uma história de amizade onde o bizarro e o sonho andam de mãos dadas.

Baseado no romance de Pierre Lemaitre, Prémio Goncourt 2013, o filme recorre à fantasia como recurso contra os traumas de infância e da guerra, com uma sensibilidade única e encantadora, tendo recebido uma excelente receção por parte da crítica.


Sinopse
Em novembro de 1918, antes do Armistício, o talentoso artista Edouard Pericout (Nahuel Pérez Biscayart) salva a vida de Albert Maillard (Albert Dupontel). Os dois homens não têm nada em comum para além das suas experiências na guerra e o seu ódio pelo Tenente Pradelle (Laurent Lafitte).
Uma ordem de Pradelle para um derradeiro e insensato ataque acaba por resultar na destruição das vidas de Edouard e Albert. Isto leva a que os três homens tenham de criar novas estratégias para a sua sobrevivência, sempre unidos pela tragédia do campo de batalha.
Enquanto Pradelle ganha a sua fortuna com os que perderam a vida, Albert e Edouard, ambos condenados a viver no rescaldo da 1ª Guerra Mundial, vão planear o seu próprio esquema de proporções monumentais.
Inspirado no romance homónimo de Pierre Lemaitre, vencedor do Prémio Goncourt.

Prémios César 2018
Melhor realização: Albert Dupontel
Melhor Adaptação: ALBERT DUPONTEL, PIERRE LEMAITRE
Melhor Figurino: Mimi Lempicka
Melhor Fotografia: Vincent Mathias
Melhor Direção de Arte: Pierre Queffelean




CRÓNICA | Noturno arco-íris, O trovão na Serra de Sintra | HELDER MENOR





















Estávamos no começo de abril e tínhamos à volta de vinte anos. Eramos quatro e apanhamos o comboio no Rossio para Sintra. Levávamos nas mochilas o essencial para três ou quatro dias de liberdade. Uma tenda grande e velhinha, chouriços para assar, latas com atum e salsinhas, um fogão a gaz, esparguete, sonhos, fantasias, vinho, aguardente e chocolates. 

Saídos da estação, subimos e embrenhámo-nos nos matos. O mais longe possível da civilização, assim quis. Do estradão de terra, viramos à direita por um caminho estreito que subia íngreme. No cume da colina, longe do mundo montamos a tenda. Instalamo-nos para desfrutar da serra, da privacidade que o mato dá e da companhia uns dos outros. As duas meninas organizaram a tenda e a comida e os rapazes, decidimos ir apanhar lenha e cavar uma "casa-de-banho”.

Quando ficou de noite acendemos uma fogueira dentro da cova que nos aquecia e dava para assar chouriços, mas suficientemente discreta para ser invisível a quem estivesse afastado. Estávamos os quatro animados, comemos e bebemos vinho. Foi então que começou a levantar-se vento e a pingar. 

Recolhemos dentro da tenda para jogar às cartas e fumar através do fecho da porta. A chuva e o vento não davam tréguas. Sobretudo o vento cada vez mais forte.  Desistimos dos cigarros.

O que é que fazemos o que é que não fazemos… O vento respondeu rasgando o sobre-teto da tenda. Ai Ai e agora? Agora aguentamos enquanto o pano do teto der....

Não deu muito. Minutos depois também o pano fino de algodão apodrecido se rasgou e estávamos expostos aos elementos, encharcados e encolhidos.

Decidimos desmontar e descer até à vila. Assim como assim, já estávamos molhados e na estação dos comboios, sempre tínhamos um teto. A estação estava a uma hora de caminho... Mas é quase sempre a descer, alguém animou.

Encharcados, carregados e de lanternas acesas iniciamos a descida pelo caminho ainda mais estreito pela escuridão da noite. Estávamos vagamente desorientados. Do lado direto do caminho que não reconhecíamos, uma casa que não tínhamos visto na subida. As janelas iluminadas. À nossa frente e fazendo-nos parar à chuva, um são bernardo enorme, felpudo e amistoso ladrava de contente e dava saltos a nossa volta. No pescoço uma placa que dizia Trovão. Ladrava para nós, corria para o portão da casa e voltava a correr para nós a ladrar. 

Foi então que se acendeu uma luz amarela por cima da porta e através dela surgiu uma senhora. Eram precisamente meia-noite e três minutos.

A senhora, sem idade, tinha os olhos azuis muito claros e o cabelo tão louro que parecia branco. Estava vestida com um daqueles quimonos japoneses que algumas pessoas usam como roupão, por baixo, provavelmente o pijama porque trazia calçadas pantufas e meias grossas de lã.

- Não tenham medo do Trovão que não faz mal!!! Mas o que é que estes jovens, andam aqui a fazer numa noite destas?
Contamos a nossa história. A senhora ouviu educadamente e concluiu.

- Não vos digo para ficarem cá dentro da casa, porque não seria apropriado, afinal somos de épocas diferentes... Mas podem abrigar-se na garagem que esta vazia.
Foram estas as palavras. Agradecemos e aproveitamos. 

A garagem estava de facto vazia. Lá fora a chuva e o vento continuaram. Minutos depois a mesma senhora loura voltou com toalhas secas e com um tabuleiro onde fumegavam quatro canecas de chá.

Batizamos o chá com macieira de uma garrafa sobrevivente do diluvio, despimos a roupa molhada e secámo-nos com as toalhas. Pusemos os sacos camas em cima de duas mantas que e deitámo-nos procurando aquecer. Dormimos tão profundamente como se pode dormir, quando se tem vinte anos, se está cansado, vagamente bêbado, saciado e feliz. 

Acordei com o som da água a pingar no chão ao lado da minha cabeça. Estranhei porque na noite anterior o telhado da garagem não me tinha parecido tão decrepito. Pensei em levantar-me para fazer xixi, mas estava nu debaixo dos sacos camas e levantar-me pareceu-me um sacrifico maior do que aguentar mais um bocadinho. Fechei os olhos.

Então ouvi o grito de uma das nossas parceiras e o estilhaçar das canecas de louça da noite anterior mais o som estridente do tabuleiro de lata a cair no chão. 

Levantámo-nos todos. Abrindo a porta da garagem que caiu no chão. E vimos.

A casa era uma ruína. O jardim completamente coberto por mato. Onde foram as janelas havia apenas o buraco na parede. Nem portas nem vidros. O mato tinha crescido alto e tapava todos os caminhos. O portão da frente, por onde tínhamos entrado estava ferrugento e fechado com uma igualmente ferrugenta corrente grossa. No chão em frente ao que foi a porta da cozinha, uma lápide com um baixo-relevo de um cão: Trovão, nascido em janeiro de 1946 falecido em março 1959.

Não fugimos a correr, mas também não ficamos a falar sobre o sucedido. Arrumamos o que havia para arrumar e saímos. Depressa descemos à vila com sol que tinha aberto e depressa apanhamos o comboio para Lisboa. Não voltamos a falar na casa, nem na senhora nem no Trovão. Nunca mais.


terça-feira, 17 de abril de 2018

LITERATURA | Tempo Suspenso de Elizabeth Jane Howard | EDITORA ASA - Tradução de Elsa T.S. Vieira

Nas livrarias a 17 de Abril



Sussex, 1939

Na casa de campo dos Cazalet as janelas estão tapadas e os alimentos são racionados. Sobre a mansão outrora repleta de sol e de risos paira a negra sombra da guerra. As crianças despreocupadas da família deram lugar a adolescentes apreensivos, cada um com os seus desejos e temores.

Louise, agora com dezasseis anos, acalenta o sonho de se tornar atriz. Clary dedica-se à escrita, e acredita fervorosamente que ainda voltará a ver o pai, desaparecido em combate. E Polly, de catorze anos, carrega um fardo que precisa de partilhar. Três jovens entre a infância e a idade adulta, desesperadas por dar um sentido às suas vidas mas dolorosamente conscientes dos perigos que se avizinham.

No segundo volume da saga Cazalet, Elizabeth Jane Howard volta a pintar o retrato de uma época através dos olhos de uma família. Com uma autenticidade conseguida apenas por quem viveu nesses tempos, a autora mostra-nos a realidade de uma sociedade em profunda mutação.

LITERATURA | Um Amante no Porto de Rita Ferro | EDITORA DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 17 de Abril



Uma história vibrante, escrita à desfilada, que segue a vida de Álvaro, um rapazinho do Porto, nascido de uma família burguesa da classe média, desde a escola primária até ao ensino universitário, passando pelas festas, o encontro com os «meninos da Foz», o hóquei em patins e as bandas musicais do seu tempo, a paixão pelos cavalos e pelas mulheres, os grupos de estudantes e a Mocidade Portuguesa, até ao dia em que, já divorciado, encontra Zara, uma lisboeta livre, impetuosa e indiscreta, vinte anos mais nova, que pressente nele, por trás da aparente candura da sua história, uma verdade obscura que dificilmente aceitará. Uma relação dura, sobressaltada e passional, feita de incerteza, de traição e de devassa, em que o amor se degrada com a desconfiança e onde quem esconde pode não encobrir tanto como quem indaga.

Um Amante no Porto é mais um surpreendente romance de Rita Ferro, que é também o retrato de uma época e uma profunda reflexão sobre o amor, no estilo directo e desafectado que é seu timbre inconfundível, com a competência narrativa a que já nos habituou.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

LITERATURA | O Fogo Será a Tua Casa de Nuno Camarneiro | EDITORA DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 17 de Abril



O escritor Nuno Camarneiro decide viajar até uma zona de guerra no Médio-Oriente para melhor entender as razões do conflito e de quem nele participa, juntando-se a um jornalista turco. Mas o que começa por ser uma visita de estudo transforma-se rapidamente num pesadelo, quando ambos são sequestrados por um grupo de fundamentalistas islâmicos e encerrados num barracão que partilham com outras vítimas: uma freira ortodoxa, um engenheiro holandês, um soldado americano e um francês misterioso e suicida.

Ao longo de várias semanas, terão de encontrar estratégias de sobrevivência para não enlouquecerem nem perderem a esperança: contam histórias, revisitam memórias, inventam jogos e vidas inteiras, tornam-se guerrilheiros da ficção.

Numa guerra entre homens, ideias, deuses e civilizações, não há partes neutras, e é difícil distinguir as vítimas dos agressores. A verdade escreve-se em muitas línguas, como as histórias, os romances e os sonhos de cada um.

CRÓNICA | Empatia | VANESSA LOURENÇO

Na qualidade de seres vivos senscientes, muitas vezes nos deparamos com situações em que pessoas que nos são próximas se encontram em sofrimento de algum tipo, e não conseguimos evitar sentir empatia e uma vontade imensa de os ajudar. De certa forma é uma reacção inata dos seres humanos, sentimo-nos de certa forma validados por empatizar com o infortúnio alheio e recompensados internamente quando conseguimos fazer a diferença, e ajudar o outro a ultrapassar um obstáculo que o limita. Um pensamento egoísta? Talvez. Mas a ser verdade, é do meu ponto de vista um egoísmo que faz de nós seres melhores, e do mundo um lugar melhor para crescer. Nunca me sentirei culpada por me sentir bem, quando faço alguém sorrir.

Mas também é perigoso.

A empatia em si é uma emoção perigosa, porque na sua forma mais pura implica que nos coloquemos no lugar do outro. E se formos sensíveis o suficiente, ao invés de ajudar, acabamos contagiados e esgotados por emoções e circunstâncias que em última análise, não nos pertencem.

Não é por acaso que somos seres individuais a conviver em sociedade, isso implica que cada um de nós tem os seus próprios passos e o seu próprio caminho a percorrer. E quando numa tentativa de ajudar, acabamos imersos no obstáculo do outro, não só não conseguimos ajudá-lo como acabamos a prejudicar-nos a nós próprios. De novo o pensamento egoista? Talvez. Mas conseguiremos realmente ajudar alguém, se nós próprios não estivermos bem? Não. Lamento, mas a resposta é não.

E é por isto que a empatia é perigosa, porque nos aproxima vertiginosmente da linha que separa o querer fazer o bem ao outro, e prejudicarmo-nos a nós próprios. Onde está então o Graal, o equilibrio entre a nossa intenção de ajudar o outro e não nos prejudicarmos a nós?
Eis uma parábola para o demonstrar:

O gato malhado tinha sido recentemente agredido, uma pedra lançada por um homem zangado tinha-lhe acertado em cheio no flanco e ainda coxeava, apesar de não ter lesões permanentes. Mas esse incidente tinha-o tornado num animal zangado, sem confiança nos seres humanos. Por isso naquele dia, quando a menina se tentou aproximar dele para o ajudar, recuou e bufou furiosamente, o pequeno corpo fechado em si próprio e o pêlo todo eriçado, num aviso claro para que ela o deixasse em paz. Ela recuou lentamente, mas não se foi embora. Tinha decidido fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para ajudar o animal ferido, e seria preciso muito mais para que desistisse dele. Agachou-se lentamente, tirou a pequena mochila das costas e abriu-a, sob o olhar atento do animal assustado. Retirou do interior uma pequena lata de atum e uma garrafa de água, e colocou no chão duas pequenas taças que encheu com ambos. Depois recuou mais alguns passos, e esperou.

As horas passaram, e nem ela se levantou, nem o gato se aproximou da refeição que ela colocara no chão. Nenhum dos dois se foi embora, nenhum dos dois se mexeu do lugar durante esse tempo. Por fim, a menina respirou fundo. Conseguia ver claramente que ele tinha fome, e sede. E que a atenção certa o levaria a curar a pata mais depressa. Por fim, decidiu ir-se embora e voltar no dia seguinte, esperando que na ausência dela ele se fosse alimentar.

No dia seguinte quando voltou, ele estava no mesmo lugar. Assim como as duas taças que tinha deixado, intocadas. À distância, ele bufou-lhe novamente. Não de forma tão agressiva como no dia anterior, mas ainda assim mostrando claramente que a distância devia ser respeitada. Ela suspirou e trocou a água da pequena taça, antes de recuar de novo e se sentar no chão. Mais algumas horas se passaram, e nada mudou. Por fim, prestes a ir-se embora, a menina disse ao gato, enquanto esticava as pernas dormentes:

- Eu quero ajudar-te. Apesar de saber que não confias em mim, quero ajudar-te. Não pode ser fácil viver na rua quando se tem fome, sede e se está a recuperar de uma lesão que nos limita. Deixa-me ajudar-te.

O gato tigrado permaneceu agachado e semicerrou os olhos, mas não respondeu. E ela calou-se. Mais algumas horas, e chegou a hora de ela regressar a casa. Respirou fundo mais uma vez, coçou a cabeça de frustração e encolheu os ombros, antes de se levantar. Olhou o gato tigrado nos olhos, e disse-lhe:

- Há uma coisa que tens que entender, eu não estou aqui para te salvar. E muito menos tenho a pretensão de guiar os teus passos. A tua vida é o teu caminho, não é o meu. Não faço ideia dos obstáculos que tiveste que enfrentar, ou das circunstâncias que fizeram de ti aquilo que hoje vejo. Isto é tudo aquilo que tenho para te oferecer, a minha vontade e estas duas taças. O que decidires fazer com elas, só depende de ti.

O gato tigrado ergueu a cabeça e inclinou-a ligeiramente, como que subitamente mais interessado no que ela tinha para dizer. Mas não se mexeu. Ela sorriu e as linhas do rosto serenaram-se-lhe ligeiramente, afinal talvez houvesse esperança. Continuou:

- Eu não conheço o teu medo, porque a vida to entregou a ti e não a mim. Não me pertence. Não posso vivê-lo por ti. Não posso arrancá-lo do teu espírito. Assim como a minha própria vida me entregou desafios e recompensas que nunca conhecerás. Se escolheres não aceitar a minha ajuda, encontrarei outro que a aceite. Se a aceitares, farei tudo ao meu alcance para que te sintas melhor, e com isso mais preparado para tomares as decisões que tens que tomar.

O gato tigrado piscou os olhos e fez menção de se levantar, mas hesitou. Olhou para as duas taças pousadas no chão, e novamente para ela. E levantou-se. Cautelosamente, avançou na direcção das taças, o corpo colado ao chão e a causa comprida agitando-se. Não tirou os olhos dela até alcançar as taças e quando lá chegou, começou lentamente a beber água.

Ela sorriu, e começou a erguer-se lentamente do chão. Ele agitou-se, mas não fugiu. Sacudindo as calças, ela colocou de volta a mochila aos ombros e olhou-o mais uma vez, ele estava agora a comer avidamente o atum. Disse-lhe:

- Até amanhã.

Ele ergueu a cabeça da taça, lambendo o focinho de satisfação, e os seus olhos pareceram dizer:

- Obrigado.



LITERATURA | Florinhas de Soror Nada - A vida de uma não-santa de Luísa Costa Gomes | EDITORA DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 10 de Abril


Esta é a história de uma criança que quer ser santa. Teresa Maria, nascida numa família da burguesia do interior de Portugal, na segunda metade do século xx, vive a infância obcecada pelas vidas e exemplos dos santos, nomeadamente da sua homónima Teresa d’Ávila.

Florinhas de Soror Nada refere ainda as Florinhas de São Francisco de Assis, inspiração equívoca para o caminho tortuoso de rebeldia e submissão da protagonista até à absoluta perda da fé católica.

Da casa familiar ao colégio de freiras, de onde é expulsa, até à sua fuga da casa materna, acompanhamos a vida singular de Teresa Maria, a santa que não quer sê-lo. E somos surpreendidos com episódios extraordinários da vida de alguns santos, muitos deles desconhecidos da maioria dos leitores.

domingo, 15 de abril de 2018

CRÓNICA | Caixa de Pandora | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO




O progresso e as novas tecnologias sempre me fascinaram. Sou a favor de tudo o que possa facilitar e melhorar as nossas vidas mas, como em qualquer outra coisa, creio que há limites que não devem ser ultrapassados, inclusivamente pela nossa segurança e bem-estar e a inteligência artificial é um terreno deveras pantanoso.

Quando vejo o nosso jogador de futebol mais internacional “conversar” calmamente com um robô humanóide que dá pelo nome de Sophia, para publicitar uma inovação de um fornecedor de serviços de comunicações, creio que esse limite já foi ultrapassado. Já o tinha pensado quando, há uns meses, a Arábia Saudita lhe tinha concedido cidadania – algo completamente despropositado, a meu ver - e agora ali estava aquela máquina – sim, não passa de uma máquina - a fazer as vezes de um qualquer actor ou figurante.

Como se não bastasse, passados uns dias vejo um reputado jornalista, de sorriso rasgado, a apresentar a máquina Sophia e a sua “família” noutro spot publicitário - desta vez não era só um robô mas sim três. Família?! Mas… qual família?! E completamente humanizados, totalmente vestidos, com uma imagem o mais humana possível. Fiquei completamente indignada e, confesso, arrepiei-me, ao mesmo tempo que mental e imediatamente me transportava para as imagens do filme “Exterminador Implacável”.

Exagero? Nem tanto, quando penso que já existem armas autónomas, isto é, com base na inteligência artificial e que cobrem os três ramos militares: terra, ar e água. Em terra, na zona desmilitarizada entre as duas Coreias, opera o “robô de guarda SGR-1” da Samsung, que pode disparar até três quilómetros de distância – coisa pouca. Para o ar está a ser desenvolvido, pela Bae Systems, o drone “Taranis” e para o mar o navio autónomo “SS Sea Hunter”, da Marinha norte-americana, e o submarino “Echo Voyager” da Boeing, que está apto a operar durante meses sem intervenção humana.

Exagero? Não, perigoso. Muito perigoso.

É verdade que já usamos a inteligência artificial no dia-a-dia - nem nos apercebemos – e é benéfico. A IA está presente em coisas tão simples como motores de busca na internet, aplicações para pedir um simples transporte ou atendimento virtual ao cliente, por exemplo, o que, convenhamos, agiliza os procedimentos e é uma forma controlada de a usar para nosso benefício; mas quando se começa a dar autonomia a algo que tem por base a rápida aprendizagem e reacção – muito superior às nossas capacidades -, em áreas tão periclitantes como a segurança global, não sabemos qual será o desfecho. E se algo corre mal? As máquinas não têm, nem nunca terão, o discernimento humano.

Não é por acaso que mais de cem individualidades, representantes de vinte e cinco empresas no ramo da IA e da robótica, espalhadas pelo mundo, enviaram uma carta aberta às Nações Unidas a alertar para os perigos do uso da IA em contexto militar. Entre eles estão, por exemplo, Elon Musk, fundador da SpaceX e da Tesla, Toby Walsh, professor de IA na Universidade de New South Wales, Gary Marcus, fundador da Geometric Intelligence, e Mustafa Suleyman, criador da DeepMind – só pessoas que não percebem mesmo nada do assunto, não é? Concluem a missiva dizendo que “quando a caixa de Pandora for aberta, será difícil fechá-la” e eu concordo em absoluto. Isto é uma perfeita caixinha de Pandora, extremamente apelativa mas com tudo para despoletar o caos, quiçá o extermínio da raça humana.

A Humanidade está cega pela ganância e pelo individualismo, esquecendo a sua base mais elementar: a partilha. Estamos todos ligados uns aos outros e a todos os outros seres vivos e é através da partilha, em todos os momentos, que existimos e vivemos da forma que vivemos. Ela começa no micro-segundo da fecundação, quando dá origem à formação de um novo ser. Sem a união das células dos progenitores não haveria lugar a uma nova vida e acompanha-nos para o resto da nossa existência, onde cada acção tem um efeito em nós, individualmente, assim como no que nos rodeia, seja através dos nossos trabalhos, da nossa vida pessoal ou social. As nossas acções e atitudes devem ser ponderadas, pois não nos afectam só individualmente. Afectam tudo.

Há limites para existir um equilíbrio. Um leão não mata todas as gazelas de uma manada. Ele mata apenas aquela que é necessária para lhe saciar a fome.

sábado, 14 de abril de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | Mudam-se os tempos...mudam-se as vontades...ou, como se muda? | ISABEL DE ALMEIDA

Há momentos na vida em que olhamos para o passado e para o presente, considerando o que podemos esperar do futuro. E é precisamente quando fazemos o exercício de olhar para dentro de nós mesmos, de fazer uma introspecção, que podemos confrontar-nos com o nosso desconforto perante o estado das coisas, com o inconformismo perante nós mesmos e o caminho que percorremos e, naturalmente, perante o mundo que nos rodeia.

Abordando o tema da mudança, tão caro à Renascença  - indubitavelmente, um dos mais belos períodos da história universal, e dos mais profícuos em termos de criação artística aos mais diversos níveis, que deixou como legado o espírito crítico, o gosto pela cultura, a ousadia de questionar dogmas, até então, inquestionáveis, a liberdade de pensamento sem espartilhos - dizia Luís Vaz de Camões num dos seus mais célebres sonetos:

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades. (...)"

E tantas vezes esta auto-análise, este reconhecimento de que algo nos perturba ou bloqueia para além do óbvio, o admitirmos perante nós mesmos que precisamos de fazer algo para mudar padrões comportamentais ou emocionais menos gratificantes, que em psicologia assume o nome técnico de Insight, aliado à vontade de ultrapassar obstáculos, é precisamente o que propicia os processos de mudança!

Temos de aceitar que o tempo não para, e que se ficarmos placidamente, numa atitude estóica ou contemplativa sem nada fazermos para mudar, tudo à nossa volta mudará, e poderemos ficar pelo caminho "sobrevivendo" e não "vivendo", se não tivermos a necessária coragem para enfrentar os nossos medos, ou outras forças de bloqueio aos processos de mudança: o perfeccionismo, o conformismo, a letargia, a depressão, o isolamento do mundo, a baixa auto-estima, a introversão, o marasmo absoluto, a desistência de nós mesmos, dos princípios que nos movem, a falta de coragem para erguer os braços e ir à luta.

Embora seja algo inevitável, um processo de mudança poderá ser doloroso, e tantas vezes e em tantos aspectos da nossa vida (profissional, académico, emocional, social) preferimos ficar imóveis, escudados numa ilusória crença de que é preferível o conforto de uma frustração conhecida, que nos transmita uma também enganadora sensação de controle, do que arriscar fazer algo para mudar (mesmo que essa dita mudança possa até ser o regresso às origens onde, um dia já nos sentimos plenamente realizados, muito embora, como o passado não se repete por inteiro, tenhamos de nos adaptar às mudanças do contexto de actuação onde iremos mover-nos ex novo).

Naturalmente, como não vivemos maioritariamente isolados, tantas vezes estes processos de mudança contam com o incentivo de quem lute ao nosso lado, ou quem nos motive a ir em frente.

Desiluda-se quem acredita que qualquer processo de mudança é fácil, óbvio, e alcançável sem sacrificar zonas de conforto. A necessidade de mudança contém em si alguma dialéctica, precisa de uma crise, algo que nos abale as estruturas, para que, à semelhança de uma Fénix, sintamos como imprescindível, renascer das cinzas, renovados, mas mantendo a nossa identidade, a nossa coerência, o nosso olhar sobre o mundo.

A mudança é um desafio em si mesma, e pode implicar desafiar sistemas instituídos (a título pessoal, institucional, político, etc), mas pode também ser a força motriz que nos retira do mundo das sombras da Alegoria da Caverna de Platão, e que nos faz querer, mais do que nunca, quebrar rotinas, enfrentar obstáculos, voltar a sentir o doce prazer de cada pequena vitória em muitas batalhas que, certamente, seremos convidados a travar!

Também na filosofia pré-socrática encontramos referências à necessidade de desafiar/combater para mudar, Heráclito de Éfeso, reconhecia que tudo se move, e que o devir (de forma simplificada, o curso das coisas, em última análise também de existência humana, atreve-mo-nos a interpretar neste sentido) uma constante luta de contrários, ou seja, também aqui encontramos o reconhecimento de que as mudanças não são pacíficas. 

Termino a reflexão de hoje citando, precisamente, Heráclito:

"O combate é o pai e o rei de todas as coisas; de alguns faz deuses, de outros homens, de uns escravos, de outros homens livres."


sexta-feira, 13 de abril de 2018

CRÓNICA | Mitos e Desmitos da 6ª- Feira 13 ou sobre 6ªs-Feiras e o 13 | PAULO DA COSTA GONÇALVES



A crença de que o dia 13, a uma sexta-feira, é dia de azar, é a mais popular superstição entre os cristãos. De onde será que vem esse medo generalizado dessa data?

Diversas lendas e crenças assombram e dão má-fama a esta data, mas há muitas explicações para isso.

Para começar, muitos acreditam que as principais teorias ou as mais populares têm origem no cristianismo. Por exemplo, a sexta-feira foi o dia em que Eva deu a maçã a Adão. Também terá sido numa sexta-feira que Adão e Eva teriam morrido. Mas atenção o conceito de dia da semana era ainda inexistente. Um outro exemplo, é o de que o Templo de Salomão aparentemente foi destruído numa sexta-feira. Do mesmo modo, acredita-se que Jesus terá sido crucificado a uma sexta-feira, o dia esse que os cristãos referem agora como Sexta-feira Santa. No entanto, a mais forte delas, será o facto de Jesus Cristo ter sido crucificado a uma sexta-feira e, na última ceia, haver 13 pessoas à mesa, ou seja, Jesus e os 12 apóstolos.

Uma outra explicação refere-se à perseguição feita pelo rei Felipe IV da França que ao se sentir ameaçado pelo poder da Igreja, teria tentado alterar a situação, através de uma filiação à ordem religiosa dos Cavaleiros Templários. Acontece que a entrada lhe terá sido negada, facto pelo qual passou a perseguir os templários. Isso aconteceu a uma sexta-feira, dia 13 de Outubro de 1307.

Há ainda quem afirme que a má-fama da sexta-feira é anterior ao cristianismo. Segundo alguns teóricos, o mito da sexta-feira 13 teria tido a sua origem em duas lendas nórdicas ou escandinavas.

A primeira delas parece explicar o estigma do número 13 e conta que houve um banquete em Valhalla, o palácio de destino dos guerreiros mortos em batalha, para o qual foram convidadas 12 divindades. O facto é que Loki, o Deus do fogo, não foi convidado e, por vingança terá armado uma cilada a Baldur, o Deus do Sol e/ou da Luz, que seria o preferido de Odin, o Deus dos Deuses e aparecido de surpresa no banquete. Desse relato, terá surgido a superstição de que ter 13 pessoas à mesa para um jantar seria de mau agoiro. Segundo outra lenda, a má-fama deve-se à Deusa Friga, que era a Deusa do amor e da beleza, e que deu origem à palavra friadagr (sexta-feira). Porém quando os nórdicos se converteram ao cristianismo, segundo as lendas, Friga passou de Deusa a bruxa. Como vingança, Friga terá dado início ao ritual de se reunir às sextas-feiras, com outras 11 bruxas e o demónio, para rogarem pragas aos humanos.

Uma outra superstição respeita ao Tarô onde a carta de número 13 é a carta da Morte.
Existem inúmeras explicações sobre a origem da sexta-feira 13, no entanto, são estas as que mais circulam entre os crentes.

Agora e para aliviar a situação, já os princípios da numerologia apontam o número treze como indício de boa sorte. Essa interpretação é mais regionalizada. Ou seja, em vários locais do planeta o número 13 aparece como símbolo de boa sorte. O argumento baseia-se no facto de que 13 é um número afim ao 4 (1 + 3 = 4), sendo esse um símbolo de próspera sorte.

Por exemplo, na Índia, o 13 é um número religioso muito apreciado e os pagodes hindus apresentam normalmente 13 estátuas de Buda. Na China, é comum os dísticos místicos dos templos serem encabeçados pelo número 13. Também os mexicanos primitivos consideravam o número 13 como algo santo e adoravam, por exemplo, 13 cabras sagradas. Nós em Portugal para acertar no Totobola não tem que ser em 13 resultados?

Muitas das pessoas mais supersticiosas receiam sair de casa, fechar negócios ou tomar decisões importante em sextas-feiras 13.

Agora é você quem decide se a sexta-feira 13 é sinal de sorte ou de azar!

segunda-feira, 9 de abril de 2018

CRÓNICA | Os gatos não sabem falar | VANESSA LOURENÇO



Sou uma mulher, e vivo no mundo dos homens. Isto porque no nosso planeta podem bem existir um sem número de mundos diferentes, dos quais nem nos damos conta ou preferimos ignorar. Coisa de humanos, zonas de conforto e outros que tais. Não tem que existir um motivo lógico, é assim que funciona. E foi por isso que naquele dia, quando o imenso gato amarelo se sentou ao meu lado e começou a palrear, não me contive. Disse-lhe:

- O que pensas que estás a fazer? Os animais não falam!

Ele olhou-me de lado, mas continuou a falar, ignorando-me deliberadamene. Sei que é verdade porque apesar de permanecer calmamente sentado ao meu lado, a cauda se agitava energicamente atrás dele. Insisti:

- Pára com isso. Esqueceste-te de como ser um gato? Os gatos sobem para cima das mobílias, largam pêlo e agem como se fossem donos do mundo. Mas não perdem tempo a falar com os seres humanos.

Ele continuou a agitar a cauda comprida e pude sentir que estava a ficar tenso. Finalmente, interrompeu-se e suspirou. Depois fechou os olhos e ficou apenas ali, em silêncio. Claro que ao fim de uns minutos o silêncio se tornou quase insuportável, e por isso foi a minha vez de falar:

- O que se passa, ficaste ofendido por te mostrar como um gato se deve comportar no mundo dos homens?

Esperava irritá-lo o suficiente para prolongar a troca de argumentos, mas tudo o que consegui foi que se virasse ligeiramente de costas para mim e começasse a lamber a pata com a lingua áspera, esfregando-a no focinho logo de seguida. Conhecem aquele dizer popular sobre o feitiço se virar contra o feiticeiro? Pois foi exactamente o que aconteceu: quis irritá-lo, e quem estava a ficar irritada era eu. Bufei:

- Estás a ignorar-me? Que mal fiz eu para me ignorares? Ficaste ofendido com a verdade?
Olhou-me de soslaio e por um segundo apenas, julguei ter visto um trejeito nos bigodes que se assemelhava bastante a um sorriso presunçoso. Ora não querem lá ver que a criatura peluda estava a divertir-se às minhas custas? Não, não ia aturar isso vindo de um ser que tomava banho de saliva e vomitava bolas de pêlo. Ele tinha ido longe de mais. Resmunguei:

- Quem pensas tu que és para me tratares desta maneira? Achas que sou alguém que podes simplesmente desprezar?

Passaram o que calculo terem sido meia dúzia de segundos antes que se erguesse nas quatro patas, sacudindo o corpo peludo e espalhando uma nuvem de pêlo à sua volta. Ocorreu-me instantaneamente que felizmente não sofria de alergias, ou podia estar em maus lençóis. Depois caminhou alguns passos até ficar de frente para mim, e sentou-se. Olhou em volta, e subitamente fixou os olhos nos meus. Até hoje penso, que se tivesse tentado desviar o olhar, não teria conseguido. Mas por qualquer motivo alheio à minha compreensão, nem sequer tentei.

De olhos perdidos na imensidão dos seus olhos verdes, o tempo pareceu parar. Em minha defesa tentei refilar de novo, mas não consegui. Estava perante um daqueles momentos solenes em que caem por terra todas as máscaras e ideais de grandeza, e completamente desprovida de acidez ou refilice. Por isso deixei-me ficar quieta e calada, de olhos presos nos dele. Nem sequer me lembro de pestanejar. E foi então que ele falou:

- Estás mais calma?

Gaguejei, e o melhor que consegui foi abanar a cabeça em assentimento. Pareceu satisfeito, e continuou:

- Bem-vinda de volta.

Franzi o sobrolho e inclinei ligeiramente a cabeça, e nesse instante ocorreu-me que estava a ficar com as pernas dormentes. Mas não me mexi. Estava demasiado curiosa. Perguntei:

- O que queres dizer? Como assim, de volta?

E foi então que aconteceu: o gato amarelo cresceu. Não, não que tenha ficado maior ou mais alto. Não era um leão ou uma criatura mítica, era um gato. Mas cresceu... como se, de repente, o seu espírito tivesse transbordado do seu corpo e se expandisse para lá dos limites do pêlo amarelo. Arregalei os olhos, mas em vez de assombro, tudo o que consegui sentir foi uma paz imensa. Algo aproximado? A sensação de conforto quando nos deitamos entre cobertores lavados numa noite de inverno, com a chuva a cair lá fora. Não é igual, mas aproxima-se bastante. Ele refraseou:

- Bem-vinda de volta a casa.

Eu devo ter feito uma careta tão estranha que ele lançou o focinho para trás, numa gargalhada. Os gatos conseguem rir? Continuou:

- Tu vives no mundo dos homens, e no mundo dos homens precisas de usar máscaras para sobreviver. Máscaras que de tão enraizadas já, são como a tua segunda pele. Mas com elas postas, perdes de vista todos os outros mundos. Perdes de vista a verdade pura de todas as coisas. Quando comecei a falar contigo há pouco, conseguiste ouvir-me. Mas depois activaste as tuas máscaras, e tudo o que viste foi o meu corpo. O corpo de um ser inferior. Porque eu sou um ser inferior no mundo dos homens. Mas quando me olhaste nos olhos, viste algo neles que fez as tuas máscaras cairem. E quando caíram, tu viste outros mundos. Viste a verdade. E voltaste a conseguir ouvir as minhas palavras.

Enquanto o ouvia, senti como se um véu de seda atravessasse o meu corpo e o enchesse de energia, como se também eu estivesse a ultrapassar agora os limites físicos do meu corpo. Como se na verdade algo se tivesse quebrado dentro de mim e eu fosse agora capaz de ver muito além do mundo dos homens, mundo a que na maior parte do tempo ainda pertencia. Quando tomei novamente consciência dos olhos dele pregados nos meus, não vi apenas um gato: vi um espírito igual ao meu. Mais do que isso, vi nele um mestre. Disse-lhe:

- Obrigado. Não consigo deixar de pensar que se mais seres humanos soubessem disto, o mundo dos homens se aproximaria da verdade de todas as coisas. Tudo faria mais sentido. Seríamos pessoas melhores.

Não se mexeu, mas senti que esfregava o focinho cor de rosa na minha mão. Respondeu:

- Não entendeste ainda? É esse o teu propósito. Conta-lhes as histórias. Até porque como bem sabes, quem lê neste momento estas palavras não chegou aqui por acaso. Leitor desta crónica... sentimos a sua falta. Bem-vindo de volta a casa.