sábado, 23 de junho de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | "Tudo é absurdo" | ISABEL DE ALMEIDA


Iniciei estes meus escritos no final de 2017, vaticinando algum desencanto, e imbuída de alguma angústia e desencanto que sempre me acompanham na recta final de cada ano, o que sucede desde em resultado de perdas familiares que, para sempre, enviesaram o meu olhar sobre esse momento do ano, em que, naturalmente, se ponderam transições, mudanças e em que perdura no inconsciente, ainda assim e numa assumida ambiguidade, uma secreta esperança de que o novo ano possa trazer algum raio de esperança!

Porém, devo confessar que todo o meu pessimismo de fim de ano, cuja exposição de motivos acima de justifica, jamais conseguiria antecipar a intensidade  que arrisco a classificar de dramática, os abalos à normalidade e um certo surrealismo que vêm pautando 2018 em vários contextos profissionais e pessoais com os quais me encontro directa ou indirectamente relacionada. 

Por diversos momentos venho este ano sentido que a realidade é bem capaz de superar a ficção, que tudo o que está numa aparente acalmia  e estabilidade pode, a todo o momento, sofrer um forte abalo que poderá anunciar verdadeiros cataclismos, e pergunto-me como tal é possível de suceder em Portugal, no meu Portugal louvado e cantado por poetas de excelência como Pessoa e Camões, que resumem ambos, a meu ver, a essência daquilo que de bom tem a Portugalidade!

Mas depois, quando as emoções fortes e assustadoras passam por nós intensas mas passageiras, quando nos encontramos capazes de racionalizar, de analisar as coisas mais friamente, após um trabalho de assimilação mental, ocorre-nos facilmente recordar que, à semelhança daquele amigo nosso mais realista, frontal e desassombrado, também nós tivemos um inigualável escritor que agora muito se divertiria a exorcizar os fantasmas da nossa corrente dita "civilização" ou sociedade, na sua prosa implacavelmente irónica! Muito precisávamos nós de um novo Eça de Queirós que, tal como o único que tivemos, transpusesse em papel para as gerações vindouras (admitindo que estas virão a dedicar-se à leitura...) as pequenas e grandes infâmias com que somos brindados no dia a dia!

Apenas para sintetizar, e porque estamos a entrar na célebre silly season (aquela estação em que, para dar descanso à nossa análise do mundo, e às células cinzentas, como diria Hercule Poirot, fingimos que nada acontece, que o mundo pára para nos deixar descansar, e em que vamos "a banhos" - até esta parte está complicada com alterações climáticas que nos apresentam um clima totalmente descaracterizado e "bipolar" - para recarregar baterias e, no regresso, emergirmos para enfrentar novamente todos os problemas, que está lá na mesma, à nossa espera, de garras afiadas).

Procurarei apelar a todo o meu espírito de síntese (algo que, acompanhando a ambiguidade da realidade circundante, por vezes consigo activar ou não) para fundamentar o que hoje apelidaria mais de desabafos aleatórios do que reflexões.

Ora, começando por aquele que vem sendo o tema mais abordado nos meus artigos (e cuja insistência deriva também da minha necessidade de exorcizar pela escrita o que me é incómodo, acalentando a esperança de promover, sempre que possível, uma reflexão junto dos leitores), o estado actual da Advocacia Nacional continua a ser preocupante, embora nem toda a comunicação social considere o assunto de interesse público e do público, a verdade nua e crua é que não exagero ao frisar que se vivem momentos de crise que se perpetuam mas que começam a atingir proporções que revelam nitidamente uma evolução da crise instalada!

Se é certo que no início do ano um elevado número de Advogados saiu à rua numa manifestação silenciosa em Lisboa (no dia 26 de Janeiro de 2018) mostrando o seu descontentamento com a fragilidade das condições em que exercem, com a asfixia financeira para muitos deles decorrente das elevadas despesas para o exercício profissional, mostrando o seu descontentamento perante um sistema previdencial que nada tem de "apoiante", "transparente", "suportável financeiramente" pela grande maioria dos que exercem em prática individual, que nada tem de humano perante a doença e a incapacidade para o trabalho e a redução de proventos profissionais, se é certo que persistem e agudizam-se problemas como a indefinição e a perda de competências profissionais dos Advogados,  disparidades de critérios na fixação de honorários no sistema de acesso ao direito e aos tribunais, o peso excessivo das custas judiciais, plataformas informáticas com funcionamento aquém das expectativas e necessidades dos seus utilizadores (basta recordar as dificuldades da plataforma dos Inventários, ou mais recentemente, as dificuldades de utilização do SITAF - o sistema informático de entrega electrónica de peças processuais em sede de tribunais administrativos e fiscais) ainda assim, até Maio poderíamos apontar como certo ou previsível que a crise estava instalada mas era mais sentida nas "bases da advocacia" e não no "topo", aliás, a postura institucional  foi inicialmente de alguma negação ou fuga para a frente perante as críticas das bases!

Pois bem, na passada semana decorreu o VIII Congresso dos Advogados Portugueses, aquele que é o Órgão Supremo da estrutura hierárquica da Ordem dos Advogados Portugueses, e pelo meio de um clima que diríamos de desentendimento, desunião, alguma tensão, assiste-se finalmente a uma alarmante, ou nem tanto assim, porque lógica, instabilidade no "topo". Conforme decorre de notícia publicada hoje na Edição em papel do Jornal de Notícias, assiste-se desde Maio a três demissões em Órgãos de topo da Ordem dos Advogados (ressalva-se que ainda haverá que aguardar por mais detalhes sobre as decisões e fundamentos subjacentes a estas demissões). Ao mesmo tempo, as vozes críticas aumentam, deixam também de estar apenas concentradas nas "bases" (como sucedia no início do ano) e começam a ouvir-se no "topo", num exercício claro de expressão de que não pode continuar a negar-se o óbvio, algo está mal, o futuro pode estar comprometido para muitos, é alarmante ver este clima de tensão numa instituição quase centenária que sempre primou por representar a democracia e que simboliza a defesa dos mais fracos. Não sei, nem sequer me atrevo a especular, como terminará esta crise, mas sei que esta é agora muitíssimo mais clara, muitíssimo mais pública e obviamente visível! 

Noutro contexto, o país continua focado, de uma maneira geral, na Crise de liderança do Sporting Clube de Portugal, e aqui temos uma instituição nobre, centenária, que vive um dos seus momentos mais difíceis, com episódios que incluem todos os ingredientes de uma obra de ficção: jogos de poder, política, alta finança, lutas judiciais que roçam o ridículo, violência, circo mediático e pessoas que colocam os seus interesses pessoais à frente dos interesses da instituição que lhes caberia dignamente representar!

Os combustíveis sobem de preço constantemente, mas durante um mês nada disso importa, porque o Mundial de Futebol está aí, a Selecção Portuguesa está presente e aqui temos o futebol como um claro ópio do povo, paramos o país para ver jogos de futebol e entramos novamente em histeria colectiva - alguns de nós!

Na educação os professores protestam legitimamente por Direitos que não estão a ser reconhecidos, mas muito receio o alcance e o impacto dos danos colaterais que tal protesto possa causar a muitos jovens alunos, caso o impasse se mantenha, caso não exista da parte dos docentes e do Ministério da Educação a necessária capacidade de negociação, é bem possível que muitos alunos Portugueses vejam perder-se os três anos de intenso trabalho e investimento feito nos três anos do Ensino Secundário, com nítido prejuízo nas suas  classificações finais de acesso ao Ensino Superior!

Tudo isto sucede neste momento em Portugal, e o próprio clima, não querendo desapontar, vai pregando partidas, oscilando entre ondas de frio, ondas de calor e destrutivos fenómenos meteorológicos de características tropicais!

Perante o estado desta Nação, apenas me ocorre sintetizar o contexto acima descrito numa lapidar frase literária:

"Tudo é absurdo."

Fernando Pessoa, In "O Livro do Desassossego"


sexta-feira, 22 de junho de 2018

LITERATURA | O Gene da Atlântida de A.G. Riddle | LUA DE PAPEL

Nas livrarias a 26 de Junho



Há 70 mil anos, a erupção de um supervulcão na Indonésia quase levou a raça humana à extinção. Sobrevivemos, mas nunca ninguém percebeu como, nem porquê.
Até agora.

Primeira obra de A.G. Riddle, O Gene da Atlântida tornou-se um thriller de culto, que vendeu em todo o mundo mais de três milhões de exemplares, e está traduzido em 23 países. A obra deu início a uma trilogia atualmente a ser adaptada ao cinema pela CBS.
O mistério da origem humana vai finalmente ser revelado.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

LITERATURA | Sente-se Bem, Sinta-se Melhor de Harriet Griffey | CASA DAS LETRAS

Nas livrarias a 26 de Junho


Projectados para se moverem, os nossos corpos sofrem com a vida sedentária que levamos.

Longos períodos passados sentados, a trabalhar à secretária, a conduzir ou no sofá, enfraquecem os músculos e afectam a nossa postura. O resultado? Dores, enxaquecas, problemas digestivos e fadiga, sintomas que podem ser melhorados através de exercícios de alongamento e fortalecimento suaves e regulares.

Em Sente-se bem, sinta-se melhor, Harriet Griffey mostra-lhe o que pode fazer para fortalecer o seu corpo e melhorar a flexibilidade para contrariar os riscos para a saúde provocados pelo excesso de tempo sentado.

Dividido em cinco partes principais – cabeça e pescoço, zona dorsal e ombros, braços, zona dorsal e rabo, pernas –, cada capítulo apresenta uma série de exercícios com base em movimentos desenvolvidos para trabalhar zonas que podem ser muito afectadas negativamente e que podem ser facilmente inseridos na sua vida quotidiana.


domingo, 17 de junho de 2018

CRÓNICA | A família de ontem e a família de hoje | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO


Há umas semanas comemorou-se o Dia Internacional da Família e, logo que tomei conhecimento desse facto, dei por mim a reflectir no conceito familiar da actualidade – ou não fosse eu dona de uma “mente inquieta”. Os neurónios, frenéticos, alternavam entre o modelo do passado e o do presente e nas suas implicações nas famílias e na sociedade.

Antigamente vivia-se para a família, para a ordem, a harmonia e a paz no lar. Tudo o que se fazia era pensado em termos familiares. Todos os seus elementos tinham papéis bem definidos e a vida decorria de forma tranquila. Os homens saiam de casa e iam prover o sustento, o conforto e travavam todas as lutas necessárias para a protecção e bem-estar daqueles que amavam. As mulheres, na sua maioria, ficavam em casa a construir e a manter a união, a acompanhar e a educar os filhos, a prepará-los para serem gente decente – alguns iriam, mesmo, decidir os destinos de todos nós -, e a acarinhar e a amparar aqueles que, já gastos e sem forças, lhes tinham dado a possibilidade de pisar este mundo. Não havia cá lugar a abandonar os velhos pais num qualquer lugar inumano ou a deixar os filhos entregues à sua sorte, à mão de semear de todas as tentações e perigos.

O resultado era um respeito generalizado, velhos a acabarem os seus dias com conforto e dignidade e crianças a crescerem fortes, felizes, bem preparadas para o futuro e que respeitavam e idolatravam os pais, os seus modelos.

Durante muito tempo viveu-se neste equilíbrio de valores, como uma máquina com várias engrenagens que se encaixam e completam para um único objectivo: funcionar bem, com o mínimo de percalços e esforço. E depois tudo mudou. As mulheres começaram a sair de casa para ocuparem os lugares até então dos homens, mas estes não ocuparam os das mulheres. Elas viram-se sobrecarregadas, forçadas a desempenhar dois papéis distintos em simultâneo, consecutivamente, e as fundações familiares deixaram de ter sustentação e abanaram por todos os lados.

De repente já não havia tempo para um carinho aos velhos, que passaram a morrer no abandono e tristeza, nem para uma formação adequada dos novos, que se afastavam cada vez mais dos progenitores e se tornavam verdadeiros estranhos que apenas partilhavam o mesmo espaço; passaram a crescer “à rédea solta”, com os exemplos e “ensinamentos” dos amigos, vazios de respeito, empatia, honra e espírito de sacrifício, acreditando veementemente que tinham um estatuto igual ao dos seus pais sem nada fazerem para isso.

De repente as pessoas já não tinham paciência umas para as outras, nem respeito, nem vontade e, à mínima contrariedade, divorciavam-se e “mandavam às urtigas” o equilíbrio em prol do recém-descoberto “eu”. Os nossos descendentes passaram a considerar normal que cada um vivesse para seu lado, com as suas necessidades sempre em primeiro lugar, que o individualismo era a base de tudo, fomentando o egocentrismo e egoísmo.

De repente vivíamos numa sociedade que o era só de nome, onde éramos cada vez mais em número mas estávamos cada vez mais distantes, sós e infelizes, mais intolerantes e beligerantes, onde o negrume do caos aumentava dia a dia. Tudo isso estava bem patente nas incompreensíveis guerras, na corrupção instalada em todas as áreas, nos assassinatos pela mais pequena disputa e nas diversas injustiças sociais. Cada vez mais abríamos o mundo a gente sem conteúdo valoroso.

Cheguei à conclusão que é urgente repensarmos os nossos valores, as nossas escolhas. A família é a base de tudo, é o nosso norte. Não pode ser descurada. Se o fizermos corremos o risco de perdermos a nossa identidade e nos tornarmos verdadeiras bestas. Sim, o mundo muda e temos que nos adaptar, mas há coisas que não devem, nunca, perder a importância que na realidade têm. Esta é uma delas.

Ainda me lembro das estórias que a minha mãe me contava tranquilamente, com todo o tempo do mundo, antes de adormecer. Recordo, com carinho, de irmos passeando e conversando até à mercearia para fazer compras a meio do dia. E dos lanches que me dava quando chegava da escola, enquanto me perguntava o que tinha aprendido. Quantos dos nossos filhos poderão, daqui a cinquenta anos, como eu, dizer o mesmo?

LITERATURA | Lealdade de Letizia Pezzali | DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 19 de Junho


Giulia, de trinta e dois anos, trabalha num importante banco de investimentos de Londres. Vive num contexto invulgar para alguém da sua idade: dispõe de muito dinheiro, de pouco tempo livre e – além do sexo – as suas relações limitam-se ao telemóvel e às redes sociais. O mundo em que se move é aquele que provocou a crise financeira internacional mas que dela saiu incólume.

O resto da humanidade, excluída dos arranha-céus de Canary Wharf, o centro financeiro do banco situado na margem do rio Tamisa, encara esse mundo privilegiado com desconfiança. De súbito, as possíveis consequências do Brexit avassalam esse mundo com a violência de um tsunami, mergulhando-o num cataclismo interno que é de natureza quase espiritual.

Lealdade, o primeiro livro de Letizia Pezzali publicado em Portugal, é um extraordinário romance sobre o poder, a natureza do desejo e a necessidade contemporânea de encontrar uma nova linguagem para as relações humanas. A história sensual e autêntica de uma obsessão, narrada na primeira pessoa por uma personagem vigorosa, que seduz página após página.

sábado, 16 de junho de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | A (quase sempre) insustentável sede de poder| ISABEL DE ALMEIDA

O poder poderá ser equacionado em diversos contextos, apenas para exemplificar, pode advir de informação ou de conhecimento mais alargado em determinada área do saber, mas hoje pretendo tecer algumas considerações acerca do poder político ou politizado, entendendo-se por tal o desempenho de funções superiores à frente de um Estado, órgão político, instituição pública ou privada, mormente, considerando-se uma organização hierárquica na gestão de tais entidades.

Num exercício de mera abstracção muitas motivações podem determinar o exercício do poder político ou politizado, idealmente, a mais genuína, desejável e ingénua ( decorrendo este último adjectivo do meu desencanto pessoal com a política, os políticos e o algumas instituições politizadas)...será a vontade de promover o cabal funcionamento de um aparelho de Estado ou de uma instituição, de modo a garantir o bem colectivo (correspondendo o colectivo ao universo de indivíduos que são afectados directamente pelo funcionamento de tais entidades públicas ou privadas) satisfazendo as necessidades mais prementes dos destinatários das decisões e acções de efectivo exercício de poder!

O que nos faz ter especiais cautelas, duvidar metodicamente, analisar criticamente, observar à distância e ir retendo na memória detalhes que, tantas vezes, por mais aparentemente simples que sejam, muito revelam da personalidade, intenções e futuras acções de quem almeja o poder? 

       Pois bem,

 Primeiro, a experiência pessoal. O nosso percurso de vida, ensina-nos que muitas vezes erramos nos julgamentos ou apreciações que fazemos de quem se nos apresenta como candidato a cargo político ou institucional. Isto não constitui novidade, nem deve ser motivo para recriminações pessoais, já que perante terceiros nunca estaremos na posse de todos os dados para avaliar alguém, há sempre uma natural e humana margem de risco!

Em segundo lugar, quantas vezes optamos por escolher entre o menor de dois ou mais males. Sim, há momentos temporais em que as alternativas para quem exerça o poder nos suscitam expectativas tão baixas que, em desespero de causa, e apenas para evitar uma abstenção, escolhemos por impulso quem julgamos ser o menos mau dos vários maus candidatos ao exercício do poder!

Por fim, e em terceiro lugar, quantas vezes a desilusão é de tal monta que, comodamente, como se tal nos eximisse de responsabilidades em termos de exercício pessoal de deveres cívicos evitamos escolher quem quer que seja, votamos em branco, nulo, ou contribuímos para os números da abstenção! Pode ser criticável, em especial  abstenção, mas as percentagens de votos nulos, brancos ou da votantes em abstenção são um excelente indicador da perspectiva do público (do colectivo) sobre o poder político e a forma interesseira, ligeira ou oportunista como este vem sendo exercitado.

O sentimento de desilusão, o desencanto com a política, os políticos e, em última análise, o exercício do poder não surge do nada, surge de um acumular de circunstâncias.

E visto que está, sumariamente, o enquadramento genérico, bem como a minha perspectiva pessoal na qualidade de membro da comunidade dotada de Direito de Voto, façamos agora uma incursão reflexiva sobre os insondáveis desígnios do exercício do poder, ou das meras pretensões ao seu exercício.

O que vou confessar pode chocar alguns leitores, mas quem já conhece a minha frontalidade não ficará alarmado. Numa clara ambiguidade que nem eu própria sei explicar, ou que talvez decorra de factores como a formação em Direito na vertente de Ciências Juridico-políticas e da minha paixão por história, do ponto de vista puramente intelectual, reconheço ser divertido observar os jogos de poder, as alianças que se fazem e desfazem, as pequenas e grandes manipulações, a ausência ou o exercício de estratégias políticas, as abordagens mais ou menos atrevidas em busca alianças, a maior ou menor honestidade intelectual dos candidatos a cargos de poder. Todos estes detalhes passam pelo meu crivo analítico e quantas vezes assisto a situações que são verdadeiramente surreais, e chegam a suplantar a ficção de melhor qualidade, "Kafka está vivo!", como dizia um saudoso amigo e Colega meu!

Tantas vezes o poder tenta, cega, embriaga e tolda o raciocínio dos homens, tantas vezes é ilusória a sua grandiosidade, o dark side que me assusta deveras é que pelo meio desta embriaguez é a perda de rumo das instituições politicas ou politizadas devido à persistência e insistência em cuidar mais dos interesses pessoais do que dos colectivos, e é especialmente confrangedor sequer equacionar, quanto mais assistir, aos danos colaterais a atingir inocentes no âmbito de todo este processo, e tudo em nome do poder!

Muitas consciências se perdem nestas andanças de alguma "politicazinha", para muitos o exercício do poder é, nada mais, do que o caminho fútil da escalada social, da ascensão forçada (e aterroriza pensar a que custo) a um patamar onde, por inerência, ou por mérito pessoal nunca chegariam. Obviamente, quando o cenário se completa da forma menos natural e menos transparente ou honesta, chegam questões gravíssimas como benefícios económicos indevidos para si ou para terceiros, troca de favores, "lobbies" e, daqui facilmente se pode caminhar em direcção à prática de ilícitos criminais, em última análise!

Importa pois, estarmos atentos, alerta, termos sentido crítico, sabermos separar o trigo do joio, não generalizar (ainda se encontram pessoas conscientes no seio de tanta inconsciência, é importante frisar esta ideia) e resistirmos com toda a força a integrar a natureza de danos colaterais! Infelizmente, nem sempre podemos escolher bem, infelizmente não somos perfeitos, e infelizmente sofremos desilusões, mas até com os erros devemos aprender, e nunca é tarde para corrigir erros de julgamento! Errar é humano! E que todos estejamos cientes que o poder é tentador e pode corromper mesmo as almas mais puras!

Num mundo ideal todos os políticos seriam honestos, todo o poder teria como objectivo servir o bem público, e todos nós seriamos Deuses e não humanos!

"É uma experiência eterna que todos os homens com poder são tentados a abusar."

Montesquieu

quarta-feira, 13 de junho de 2018

CINEMA | A Cada Dia

NOS CINEMAS A 14 DE JUNHO.





Baseado no aclamado best-seller do New York Times escrito por David Levithan, “A Cada Dia” conta a história de Rhiannon, uma rapariga de 16 anos que se apaixona por uma misteriosa alma chamada “A”, que cada dia ocupa um corpo diferente. Sentido uma ligação ímpar, Rhiannon e “A” todos os dias se esforçam para se encontrarem, desconhecendo o quê ou quem o novo dia trará. Quanto mais os dois se apaixonam, mais a realidade de amar alguém que é uma pessoa diferente a cada 24 horas começa a pesar, deixando Rhiannon e “A” perante a decisão mais difícil que alguma vez tiveram de tomar.

domingo, 10 de junho de 2018

CRÓNICA | Vizinhos, vizinhos… amigos à parte | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO



“Vizinha, tem um pezinho de salsa que me ceda? Estava a fazer o jantar e só agora dei conta que não tenho.”

Lembram-se desta frase? Era usada muitas vezes entre vizinhos, fosse sobre salsa ou outra coisa qualquer. Já tem algum tempo, mas os que andam agora entre os quarenta e os cinquenta anos, no mínimo, lembram-se com certeza.

E a resposta, de sorriso franco nos lábios, era sempre a mesma: “Claro que sim; entre, entre, que vou buscar; veja lá se lhe chega, leve mais um bocadinho.”
Há algum tempo vivia-se assim, com confiança uns nos outros e o respeito de uns pelos outros. Os vizinhos não eram apenas aqueles que viviam no mesmo prédio; não; eram amigos para o dia-a-dia, alguns mesmo para a vida – tantas amizades genuínas e bonitas nasceram assim, de se morar lado a lado -, a quem confiávamos os nossos dilemas, os nossos filhos, quando necessitávamos de sair a algum lado sem os miúdos, com quem se trocava dois dedos de conversa interessante e interessada e a quem se pedia ajuda em caso de qualquer aflição. As crianças cresciam a conviver umas com as outras e as amizades já existentes entre os pais passavam, naturalmente, para os filhos. Aqueles podiam ficar descansados quando os pequenos estavam na casa do vizinho, pois sabiam perfeitamente que seriam bem tratados, com lanche e tudo, tal como eles tratavam os filhos dos seus companheiros de prédio.

Era uma vivência saudável, pacata, bonita e um excelente exemplo para os mais jovens.
Depois tudo mudou. Entrámos na era do “eu” - como se nunca tivéssemos existido individualmente até ali -, na igualdade em todos os aspectos, no ter tanto ou mais que o outro, no consumismo ostensivo e, em consequência, tornámo-nos introvertidos, desconfiados de todas as intenções, “mandámos a entreajuda às urtigas” e passámos a tratar-nos uns aos outros como verdadeiros estranhos que, muitas vezes, nem se cumprimentam com um simples bom dia. Em muitos prédios há pessoas que não se conhecem de todo, pois nunca se viram.

Não me parece natural que pessoas que partilham o mesmo espaço não se conheçam, por exemplo. É verdade que há portas a dividir-nos uns dos outros mas estamos envolvidos por um espaço comum.
A meu ver estamos a tornar-nos, e a gerar, criaturas desprovidas de qualquer compaixão e empatia. A classe médica na área da psiquiatria diz mesmo estar preocupada com a ausência crescente de pessoas empáticas, por ser um travão natural para acções menos próprias para com o outro. De facto, vivemos um tempo em que as disputas, as guerras, os diferendos imperam e o resto, aquilo que realmente importa e de que tanto necessitamos, pois distingue-nos dos demais animais, é já quase uma miragem.

É o Homem que cria os seus fantasmas e os traz à vida; só ele poderá combatê-los e erradicá-los da sua existência.

LITERATURA | Memórias da Nação Valente - Portugal nos Mundiais de Futebol de Afonso de Melo | OFICINA DO LIVRO

Nas livrarias a 12 de Junho


Afonso de Melo talvez seja o jornalista que mais escreveu, em jornais e em livros, sobre a Selecção Nacional de Futebol. 

Neste livro estão pela primeira vez reunidas crónicas, da sua autoria, de todos os jogos que a equipa portuguesa disputou nos seis Campeonatos do Mundo em que esteve presente. A acompanhá-las estão seis textos de um igual número de escritores: Manuel Alegre (Inglaterra 1966); João Rebocho Pais (México 1986); João Ricardo Pedro (Coreia do Sul/Japão 2002); João de Melo (Alemanha 2006); Pepetela (África do Sul 2010); Luis Fernando Verissimo (Brasil 2014).

Tempo, pois, na altura em que se aproxima a hora de Portugal surgir pela sétima vez na fase final de um Campeonato do Mundo, na Rússia, de trazer ao sol histórias que vivem nas Memórias da Nação Valente.


sábado, 9 de junho de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | VIII Congresso dos Advogados Portugueses - Calar é ser cúmplice! | ISABEL DE ALMEIDA

Faltam quatro dias para ter início, na Cidade de Viseu, o VIII Congresso dos Advogados Portugueses, que ali terá lugar entre os dias 14, 15 e 16 de Junho de 2018, ironicamente sob o tema "Uma advocacia mais forte numa sociedade mais justa". 

Digo ironicamente, porque nunca antes se assistira a um ambiente tão instável, hostil, antidemocrático, entre os pares da Classe Profissional que tem por missão a defesa dos mais fracos contra a injustiça, os abusos de poder, e falta de segurança jurídica!

Nunca antes foi tão visível e perceptível entre os muitos membros desta Classe onde, por enquanto, ainda me incluo, uma tensão permanente, alguma agressividade que chega a levar ao esquecimento dos mais basilares e essenciais deveres de urbanidade que devem, por força de norma estatutária, além da mais elementar boa educação, pautar as relações entre Advogados.

É com profunda tristeza que reconheço estar, quiçá,  a assistir ao "fim dos tempos", em termos de exercício profissional para muitos Colegas que exercem em regime individual por todo o país, sujeitos às naturais contingências menos positivas e instáveis das economias locais onde laboram.

É com profunda indignação que receio ver cair por terra a esperança de, junto daquele que é o Órgão máximo da Ordem dos Advogados, um debate livre, esclarecido, sem tabus, sem cercear o exercício democrático intra-institucional, de diversas questões que estão na ordem do dia para a grande maioria dos Advogados Portugueses, nomeadamente, a questão da previdência social (o elevadíssimo esforço financeiro sem retorno que constitui a vinculação à Caixa de Previdência dos Advogados e Solicitadores; ponderando-se mesmo a possibilidade de opção por regime mais favorável, ou a consideração dos rendimentos efectivamente auferidos e não decorrentes de presunção legal). 

Também não é menos certo que, por contingências logísticas que se prendem com o espaço onde decorrerá o evento, eu e outros Colegas, todos subscritores de pelo menos uma ou várias comunicações, não teremos assento nos trabalhos do Congresso, sequer com o legítimo estatuto de Observadores... obviamente, não se tratará da existência de quaisquer estatutos de Persona non Grata, quero crer! Todavia, a circunstância de não haver sido feita a contabilização dos potenciais assistentes ao Congresso (mormente através da análise da quantidade de subscritores de Comunicações que não revestissem a qualidade de Delegados eleitos ao Congresso) gerando obstáculos logísticos que afastam o olhar de pares para o que de relevante ali se deverá e irá discutir faz pensar num défice democrático, ainda que o mesmo possa decorrer de meras falhas de organização a corrigir futuramente!

Não menos preocupante é fazer um percurso por todas as comunicações do Congresso, que se encontram publicadas em formato PDF na página do mesmo (documentação que poderá ser consultada AQUI) e encontrar, novamente num rasgo da mais cruel ironia, comunicações que são, em si mesmas, um ataque grave ao próprio sistema onde se inserem. 

Estejamos atentos, alerta e prontos a lutar, não podemos aceitar que, após termos sido submetidos aos formalismos de admissão à Ordem dos Advogados, tendo passado por um processo de Estágio durante o qual prestámos provas em termos teóricos e práticos, durante o qual passámos por um momento final de avaliação - Prova de Agregação - onde apenas acederá à profissão quem for considerado apto para tal, após escrutínio dos pares! 

Por tais razões, não podemos aceitar passivamente ver ser colocado em crise o sistema de tirocínio para acesso à profissão, partindo-se de generalizações perigosas e, porque não dizê-lo, ofensivas quando se expressam opiniões que abalam a formação académica  prestada pelas Universidades e, pasme-se, a formação profissional assegurada pela própria Associação Profissional que representa a Classe! 

Gravíssimo e ao arrepio das normas da nossa Lei Fundamental será ver debater num Congresso daquela que, em tempos, foi considerada a Casa da Democracia ideias que passam por uma assumida e crescente elitização da profissão, assumindo-se publicamente o entendimento de  que é necessário auferir determinados rendimentos para que seja possível exercer Advocacia em Portugal; assumindo-se publicamente o entendimento de que deve haver formação contínua (em sentido formal) como condição para integrar o Sistema de Acesso ao Direito e aos Tribunais, assumindo-se publicamente o entendimento segundo o qual a qualidade/Categoria Profissional passa a ser algo precário, instável cujos requisitos de acesso devem ser aferidos caso a caso de dez em dez anos (algo como licenças temporárias para o exercício da profissão, sujeitas a caducidade  e cuja aferição tem por base critérios de discriminação por exemplo fundados em razões económicas).

Questiono-me o que por aí virá em termos de Sistema de Acesso ao Direito e aos Tribunais.

Questiono-me qual o futuro destinado a todos os Advogados que não integrem grandes sociedades!

Questiono-me se os jovens candidatos a Estagio poderão exercer o seu direito de escolha de profissão!

Questiono-me em que moldes a sociedade ficará mais justa se despojada do acesso a mais de metade dos Advogados actualmente inscritos em Portugal, e em que termos se podem diluir os já nítidos fossos entre uma justiça para pobres e outra para ricos, se, ironicamente, até aos Advogados se pretende proibir a pertença à Classe Média, será a classe média indigna de tal honraria?

Tempos difíceis parecem aproximar-se, estaremos vigilantes, coerentes com a nossa consciência e nunca passivos perante ataques e injustiças, afinal a determinação, a coragem, a capacidade de resistir a abusos é que fazem um bom Advogado, e não o saldo da sua conta bancária! Nunca poderei ser cúmplice de injustiças, e neste caso, calar seria assumir cumplicidade!


" O Homem é o lobo do homem"

Thomas Hobbes




quarta-feira, 6 de junho de 2018

LITERATURA | Do Sonho à Vitória - Os Segredos da Liderança de Fernando Santos de António Tadeia | OFICINA DO LIVRO

Nas livrarias desde 1 de Junho


Esta é a história de Fernando Santos, o seleccionador nacional, contada por outros, por aqueles que fazem parte da sua vida, dentro e fora das quatro linhas.

Do Estádio da Luz, que conheceu em bebé, às ruas de um bairro lisboeta onde cresceu e deu os primeiros pontapés na bola. Do pai, ao curso de Engenharia. Do Estoril, o clube onde se estreou como jogador profissional e, mais tarde, como treinador, ao Estrela da Amadora.

Do pentacampeonato no FC Porto à partida para à Grécia. Das passagens pelo Sporting e pelo Benfica ao lugar mais próximo do seu coração: a selecção portuguesa!


terça-feira, 5 de junho de 2018

CRÓNICA | Noturno Arco-íris | HÉLDER MENOR


O joelho esquerdo

Acontecia que era idolatrado por onde quer que fosse. Novos e velhos, os benfiquistas e os outros, todos, o reverenciavam e acorriam a cumprimentar. Quase todos o vinham saudar e mesmo ainda sem a invasão das máquinas fotográficas nos telefones eram muitos que acorriam a tirar fotografias abraçando o vivo panteão da glória de um povo sem glórias.

O Eusébio era Deus para os convertidos. Para os ateus, era apenas O Seu Profeta. O futebolista geria com a humildade possível o religioso cortejo permanente à sua volta. Ofereciam-lhe garrafas de wiskie, relógios e camisolas. Ramos de flores, porta-chaves e terços. Ele sorria agradecido sem saber o que dizer a tanta generosidade.

Em termos de equipamento desportivo as ofertas eram massivas.  Porque nos anos oitenta e noventa, antes da invenção das grandes superfícies, não havia loja de artigos de desporto que não lutasse por ter o Eusébio a visitar o estabelecimento. Tiravam fotografias à vedeta sorridente em várias poses: a cumprimentar o dono, sentado a experimentar um modelo de sapatilhas, a dar toques numa bola, a segurar numa taça... enfim a imaginação nunca foi limite. Depois as fotografias eram reveladas e escolhia-se a melhor para fazer o poster. Ampliava-se e emoldurava-se o Eusébio que ficava enorme e sorridente, em ponto estratégico, a abençoar o espaço.

O jogador não cobrava pelas visitas. Os donos das lojas retribuíam com ténis e roupa desportiva. As vezes por graça, saía da loja vestido e calçado com os presentes oferecidos e a roupa usada à entrada vinha dentro de um saco de desporto obtido da mesma forma. Assim se acumulavam em casa caixas e caixas de roupa, sacos de desporto e botas e sapatos de ténis que o futebolista por princípio não vendia. Dizia: não vendo o que me foi oferecido. E ia distribuindo o material pela numerosa família, amigos e conhecidos. 

Foi assim que uma prima remota do Eusébio, que era cabeleireira em Massamá ficou com um fato de treino da nike que usava orgulhosa aos domingos de manha e uma caixa com uns ténis adidas número quarenta e três. Acontece que a senhora calçava trinta e sete...

Vivia a dama mais ou menos sozinha ansiando pelas visitas  esporádicas de um cavalheiro retornado que tinha uma empresa de maquinaria para a construção civil em São João da Madeira e uma família com filhos numerosos na Maia. O retornado montou-lhe o salão e prometeu-lhe que se divorciava da mulher e se casava com ela. Os anos passavam e a promessa do divórcio não vinha.

A prima do Eusébio tinha tanto de exuberante na sua cor de café com leite, carapinha solta e ancas largas como tinha de tristeza nos olhos de quem espera. Com o coração desfeito compensava as mágoas em caixas de bombons de chocolates da Arcádia que o retornado trazia, cumpridor das pequenas promessas. O tempo passava e os bombons iam ficando armazenados no rabo imenso da doce cabeleireira triste.

Uma alma assim precisa de consolo quase permanente e paciência infinita, tanto como chocolates. Por isso consumia regularmente apoio espiritual e conversas com espíritos ancestrais. Precisamente o ofício exercido e ministrado pelo mestre ocultista Carlinhos da Matola. Velho feiticeiro moçambicano, radicado desde os anos setenta num apartamento de duas assoalhadas algures no concelho de Sintra em morada secreta. O Carlinhos apoiava a cabeleireira e  aturava-lhe as crises. Servia de bengala espiritual nas crises da mulata senhora e de mais uma restrita e mestiça clientela selecionada. Cobrava pelas consultas, cobrava pelos trabalhos de feitiçaria e cobrava pelas curas com ervas. Não cobrava pelos sábios conselhos nem pela paciência. Ia levando a vida sustentando-se a ele e aos seus sem excesso mas também sem grandes apertos. 

Num dia em que foi fazer uma defumação ao salão da parente do futebolista, estando a senhora especialmente agradecida pelos serviços, perguntou-lhe:

- quanto é que calça mestre Carlinhos?"

Cioso do sigilo de tudo quanto dizia respeito à sua vida e guardando sempre um supersticioso respeito pela sua privacidade, o curandeiro respondeu evasivo.

- Então menina, mas a menina pergunta porquê?

- É que tenho aqui uns ténis Adidas lindos, novinhos dentro da caixa que ofereceram ao meu primo...e se lhe servirem, são seus...

- Calço quarenta e três, mas não posso usar sapatos calcados por outro homem, porque a minha alma de feiticeiro vai buscar tudo quanto é doença daquele que andou com os sapatos antes de mim.

- Ó Mestre, eu não lhe ia dar uns sapatos usados...nada disso! São novos. Novinhos em folha. Ainda estão dentro da caixa. 

Esvoaçante e pesada, gingou coquete as ancas até dispensa onde guardava os artigos de limpeza e as tintas do cabelo. Voltou com a caixa branca de cartão com os sapatos dentro e letras a preto escritas em cima. Envoltos em papel estavam os ténis. Eram lindos. De cabedal e cozidos com pontos certinhos, brancos e azuis. Cheiravam a novos e na loja custavam uma fortuna.

O feiticeiro apesar de ter ultrapassado há muito as suas setentas voltas ao sol conservava o bom gosto de se achar bonito. Quando pegou nos sapatos desportivos ouviu as vozes dos espíritos sussurrarem: não aceites. Imediatamente percebeu que o Eusébio já tinha calçado aqueles sapatos. Mas os ténis eram bonitos, bons e ainda por cima deviam ser extremamente confortáveis. O velho senhor não resistiu e aceitou a oferta. Por pudor não os calçou logo. 

Na manha seguinte, depois do seu banho e matinais obrigações de curandeiro, calçou as Adidas.  Vaidoso e sorridente saiu de casa. Não tinha andado nem cinquenta metros. Simultaneamente sentiu e ouviu estalar no joelho esquerdo a engrenagem de carne que se partia. Qualquer coisa entre ossos e tendões. Logo a seguir ao som, chegou a dor, penetrante como uma broca. Contrariando por vaidade, mas claramente a coxear, seguiu o seu caminho até à pastelaria  de todos os dias na esquina de todas as manhas onde lia o jornal e comia o queque com a meia de leite. Entrou e sentou-se na mesa do costume e esperou que o servissem mesmo sem ter feito o pedido.

Amigo do velho, pintas, agnóstico e “confiançudo”, o empregado desviou-se da perna esquerda esticada inoportunamente na estreiteza do estabelecimento. Não reparou nos ténis novos do feiticeiro, apontou o joelho e brincou:

- Então Sô Carlos, andou a jogar à porrada com algum espirito?

- Nada disso menino, foi da pancada que levei no jogo contra a Inglaterra.

Riram os dois.

O empregado ficou a pensar no reumático quem nem os bruxos poupa e o feiticeiro sorriu satisfeito de poder dizer a verdade.


domingo, 3 de junho de 2018

CRÓNICA | A criança perdida em nós | CRISTINA DAS NEVES ALEIXO

Em semana de comemoração do Dia da Criança, é importante que façamos alguma reflexão sobre a forma como vivemos esse período tão precioso da nossa existência.


Quando somos jovens desejamos crescer e tornarmo-nos adultos. É um dos desejos mais fortes e mais comum à maioria. Acreditamos que esse estatuto nos abrirá definitivamente a porta para decidirmos e fazermos tudo o que quisermos, da forma que quisermos, sem “dar cavaco” a ninguém. Cremos que seremos donos e senhores dos nossos destinos, da razão e transpiramos idealismo por todos os poros.
Depois crescemos, alcançamos o almejado lugar na sociedade e vivemos o resto das nossas vidas a desejar ser crianças. Passamos de idealistas a saudosistas e lamentamos o pouco tempo vivido em brincadeiras e interacções despreocupadas e isentas de julgamentos.

Algo está muito errado, creio. E não acho que seja porque o período da meninice é curto, mas sim pela forma como o vivemos e, mais importante, somos preparados para a etapa seguinte.

Senão vejamos: nessa fase ocupamos noventa por cento do tempo a ser programados para o futuro, para uma promessa de vida maravilhosa e plena, e dez por cento a brincar e a dar asas à criatividade com que todos naturalmente nascemos. Somos constantemente bombardeados com a definição instituída das boas maneiras – leia-se o politicamente correcto -, para seguir todos os “bons” exemplos e normas, ao invés de aceitarmos e nos complementarmos com as diferenças, pensarmos pelas nossas cabeças e fazermos algo para mudar o que está errado. Desde tenra idade é-nos imposto um modelo educacional semelhante ao cinzentão modelo empresarial vivido diariamente pelos adultos, com uma carga horária muito superior à que devia ser praticada, onde o tempo que se dedica ao estudo ocupa a grande parte dos nossos dias, impedindo-nos de sentir o outro, a chuva e o sol na cara, de descobrir o mundo que nos rodeia com todos os sentidos, de pulsar em uníssono com o planeta e somos muito mais repreendidos do que elogiados.

Não admira que em miúdos desejemos ser adultos, com a esperança de finalmente sermos livres para podermos respirar e sonhar.

O problema é que aí chegados percebemos que o futuro prometido era um embuste, que as cores se desvaneceram com a educação automatizada e, extenuados que estamos pela lavagem cerebral constante, baixamos os braços e passamos a viver a preto e branco, resignados, iguais a todos os outros, apontando o dedo quando todos apontam e aplaudindo, sem convicção, quando todos aplaudem.

De vez em quando, num ou noutro segundo, as cores, a nossa essência adormecida, espreitam e recordamos com saudade o tempo em que nos sentíamos capazes de tudo, para imediatamente pensarmos que já é demasiado tarde.

O mais curioso é que ao termos filhos nada fazemos para quebrar este ciclo de destruição da essência humana e da felicidade.

Ao invés, tornamo-nos parte da máquina na aniquilação dos sonhos e da verdadeira realização.
Somos a maldita máquina.

Somos crianças presas e perdidas em corpos crescidos.

“Miúdos e graúdos: se nos deixarmos revisitar, de vez em quando, pelo mundo encantado tornamo-nos pessoas melhores e mais felizes.”
in Joaninha e o jardim encantado.        Cristina Das Neves Aleixo.

sábado, 2 de junho de 2018

REFLEXÕES OCASIONAIS | Quem engana encontrará sempre alguém que se deixe enganar...| ISABEL DE ALMEIDA

   Acompanhar e observar, novamente, após tantos anos mais afastada dos meandros mais "políticos", digamos assim de uma Classe Profissional e da  Associação que "alegadamente" representa e defende os interesses de um todo, de um colectivo profissional, tem-me feito pensar e repensar, comparar antigas e novas tendências e  especular acerca do que reserva o futuro à Advocacia Portuguesa, com especial enfoque na sua prática em regime individual!

   Existem diversas questões prementes que preocupam grande parte dos Advogados Portugueses, estamos a viver momentos tempestuosos, existem poderes mais ou menos instalados, existe oposição, existe inconformismo, existem idealistas que sonham e acreditam ainda ser possível mudar o mundo e que tudo farão teimosamente  para alterar pela força da lei o status quo, existem também cordeiros obedientes, e lobos com pele de cordeiro.

  2018 é um ano que faz antever mudanças, só temo que grande parte delas possam ser mais negativas e até mesmo catastróficas do que positivas...

   Existem diversas questões fracturantes em cima da mesa, enumerando apenas algumas: 

- as sérias dúvidas sobre a sustentabilidade da CPAS e um futuro hipotecado de tantos e tantos Colegas, uns que fazem contas à vida e pensam quanto mais tempo irão conseguir alimentar um verdadeiro elefante no meio da sala, ou quando chegará o momento em que terão de suspender a inscrição e entregar as suas cédulas, se prontamente não for revisto, auditado e readaptado todo o funcionamento do sistema previdêncial dos Advogados e Solicitadores. Perante o aumento já anunciado para o próximo ano do salário mínimo nacional para seiscentos euros, durante quanto mais tempo muitos conseguirão sobreviver na profissão?

- Os avanços e recuos de propostas de alteração no Sistema de Acesso ao Direito e aos Tribunais (SADT), através do qual tantos Advogados em prática individual procuram obter a maior parte dos seus rendimentos, assistindo-se a baixar o ratio de defesas oficiosas por advogado aderente ao sistema, valores totalmente desfasados da realidade em termos de honorários, disparidades por comarca na forma de fixação dos honorários. A meu ver, urge combater é o que de errado e viciado tem o sistema.

- A mais recente polémica, que se encontra para debate "em cima da mesa", prende-se com a intenção de impôr como obrigatória uma formação contínua, a qual será ,em especial, conditio sine qua non   para que seja permitida ou mantida a inscrição no SADT, mas que se deduz venha a ser imposta a todos os advogados (veremos, em concreto, se é exactamente assim nestes moldes ?!).

  Ora, perante esta ideia de tornar obrigatória a formação contínua para todos os Advogados (formação assegurada pela Ordem dos Advogados, em contornos ainda a definir, mas que veio a ser apresentada em Comunicação a submeter ao VIII Congresso dos Advogados Portugueses como carecendo de um "Regulamento de Formação Contínua") permito-me especular se as reais intenções desta medida (veementemente negada há cerca de um mês por um comunicado emitido pelo IAD - Instituto de Acesso ao Direito) não passam por "elitizar" ainda mais a profissão, discriminar negativamente os Colegas que não possuam meios logísticos para frequentar formações de forma constante, que têm todo o Direito a escolher as áreas jurídicas nas quais preferencialmente querem desenvolver o seu trabalho, e que, estatutariamente têm já, de per si, o dever de "Promover a sua própria formação, com recurso a acções de formação permanente (...)" (vide alínea i) do artigo 91º do Estatuto da Ordem dos Advogados.

  A verdade é que o excesso de imposições, de exigências formais que se vislumbram em preparação de forma ainda nebulosa, mas insidiosa, nada fazem prever de positivo em termos de aplicação na prática de um sistema de formação que poderá implicar mesmo "créditos de avaliação". Todos os profissionais do Direito estão cientes de que é necessário estar em permanente actualização, as faculdades de Direito dotam-nos de espírito crítico, dotam-nos da capacidade de interpretar, explorar, estudar aprofundadamente e interpretar legislação que está em constante processo de mudança. Somos, naturalmente e por definição, ao menos na prática individual verdadeiros "especialistas em generalidades" e assim me continua a fazer sentido!

  Teremos sempre, pelo menos, duas realidades paralelas: a prática jurídica altamente especializada no exercício societário de massa, e a prática jurídica de cariz individual que promove um acompanhamento mais personalizado e até, porque não dizê-lo, humanizado das questões jurídicas a tratar, e numa realidade como noutra, há algo transversal, todos os profissionais têm, em consciência, de apenas aceitar patrocinar causas para as quais se sintam preparados. Parece-me que um excesso de formalização que possa advir de um "Regulamento de Formação Contínua" poderá bem ser uma "maçã envenenada", mais uma forma de "selecção não natural" do acesso e manutenção da prática profissional, pode ser entendido como um questionar da qualidade de cada profissional do foro, pode colidir com a tão apregoada e histórica independência que pauta a advocacia.

   E agora vejamos, como aferir o âmbito de aplicação desta intenção anunciada de Formação Contínua? Se tal se aplicar tão só e apenas aos Advogados que se encontram inscritos no SADT parece-me que estamos perante mais uma acha para a fogueira em que se parece querer ver arder este sistema, e é uma discriminação negativa dos Colegas que integram este sistema, é partir do pressuposto errado e totalmente absurdo, e até ofensivo, de que estão menos preparados do que os demais para exercer a sua profissão! Por outro lado, a aplicação desta imposição a todo e qualquer Advogado, se não houver a mínima liberdade de escolha quanto às áreas de formação, é um atestado de incompetência a toda a formação jurídica que decorreu da Licenciatura ou Mestrado em Direito, bem como da formação obrigatória que decorre do Estágio Profissional, ademais, e neste âmbito, já me parece absurdo que tenham sido retiradas competências de intervenção prática aos Advogados Estagiários, pois é na prática, e não apenas na teoria, que se aprende, é uma profissão em que se "aprende fazendo", e em que este "aprender fazendo" deve ser encarado positivamente enquanto forma de realização profissional e pessoal, e não enquanto mais uma obrigação com potenciais objectivos obscuros de seleccionar quem fica e quem parte!

   Há uma margem de liberdade, de consciência de boas práticas e de independência profissionais que têm de ser respeitadas e deixadas, com confiança, nas mãos de cada Advogado!

   O VIII Congresso dos Advogados Portugueses, que irá realizar-se ainda este mês de Junho em Viseu, deverá ser o palco de debate por excelência de questões que nos preocupam, donde, foi com surpresa que se assistiu, recentemente, a uma tentativa de seleccionar comodamente que temas seriam ou não de relevo, 28 Comunicações submetidas ao Secretariado do Congresso foram, inicialmente, rejeitadas, por se haver entendido que não se enquadravam nas temáticas de debate!

   Orgulhosamente, muitos Colegas ousaram contestar este silêncio que se tentou impor, e socorreram-se de meios internos de impugnação desta decisão, congratulo-me de haver assistido a uma reposição da normalidade democrática, pois na sequência de ostensiva e legítima contestação, e após debate nas estruturas internas da Ordem dos Advogados, das 28 comunicações ao Congresso 26 vieram a ser admitidas, e de outro modo não poderia nem deveria deixar de ser! Já basta de virar a cara para o lado e de continuarmos todos a fingir que está tudo bem, no melhor dos mundos! Reconheçamos os vários problemas que nos afectam, pensemos criticamente sobre os mesmos e encontremos soluções, afinal, é para isso que somos formados, em cada Advogado há, naturalmente e por formação profissional um "problem solver"!

   Este Congresso será também uma excelente antecâmara para que possamos ir tomando o pulso à pré campanha, já em curso, tendente às eleições para o próximo triénio, no que diz respeito aos órgãos da Ordem dos Advogados. Estejamos alerta, entrámos no clima da intriga palaciana, do jogo de lealdades e deslealdades, de querer agradar a Deus e ao Diabo, de ser cauteloso ao assumir posições públicas que possam comprometer futuras carreiras que, sejamos intelectualmente honestos, passam pela vertente política e chegam mesmo a servir de trampolim para a mesma! Mais do que nunca, importa estarmos alerta para identificar lobos com pele de cordeiro...
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     
"São tão simples os homens e obedecem tanto às necessidades presentes, que quem engana encontrará sempre alguém que se deixa enganar."

Nicolau Maquiavel