quarta-feira, 21 de outubro de 2020

FALTA DE EDUCAÇÃO, FRIENDLY FIRE, E FOLGUEDO, de Paulo Landeck

 


O que tem elevados custos para o país (e para o mundo), não são a implementação de aulas à distância, ou a mais urgente necessidade de reformularmos a escola que não pode continuar assente num paradigma há muito esgotado!
O que tem elevados custos para o país, e coloca seguramente nossas vidas em risco, é:
A gestão danosa dos fundos públicos em nome de polida imagem nacional, defendendo interesses alheios ao que se apregoa, de forma intencional (incompetência é outra coisa); as constantes injecções de capital nos bolsos dos amigos do BES, da TAP (impressionante como Frasquilho continua como lapa), das “Tecnoformas” (haverão muitas mais), do “mal menor” do BPN (segundo atestou actual Presidente desta República), das futeboladas e outras palhaçadas em que um ou outro Pennywise exercem poder sobre todos os outros; dos “Bragaparques” e “Expos”… e poderíamos ficar anos a fio, nisto.
Há todo um séquito de usurpadores das melhores linhagens, com um ou outro pato-bravo em vôo rasante, uma mentalidade que deveria estar há muito ultrapassada, como em parte, o português que propositadamente se me assiste.
– A Liberdade constrói-se nas premissas que nos são apresentadas.
O custo da corrupção para o Estado, até só foi estimado em cerca de 18,2 mil milhões de euros por ano, segundo dados de 2018 (vejam por exemplo orçamentos anuais para a Saúde, ou para a Educação.
Imaginem quantos orçamentos para a inconveniente Cultura (no país de Cristinas, bola, e Preço Certo), ou para o Trabalho, Solidariedade e Segurança Social – Ministério que só pode ser do trabalho mesmo, dado que o emprego é só para privilegiados. Mesmo assim, temos um IEFP, por exemplo, verdadeiramente surreal, além das muitas vaquinhas na formação de tudo e mais alguma coisa, completamente desfasadas da realidade, e que pretendem apenas alimentar…os formadores.
O mais ridículo?! - Muitas são entidades que fazem mesmo falta, se trabalharem para a comunidade, contextualizadas, por via da competência, o que é incompatível com quintinhas de amigos e familiares).
Mas imaginem agora, se pensarmos nos danos colaterais que irão seguramente surgir associados a toda essa teia de cumplicidades (ou cadeia alimentar) quando o dinheiro em falta for a necessária diferença (já o é…falta aceitação generalizada), com a maior das cumplicidades (alheia ao eleitor) nos dizem na cara, não haver dinheiro, e sermos os responsáveis por toda a desgraça que aniquila qualquer ideia de desenvolvimento (o que não deixa de ser meia-verdade!).
Temos um ensino público assimétrico, completamente vergonhoso nalguns casos do país (e mais não é, graças sobretudo à entrega dos professores, à insistência reivindicativa, à resiliência face ao vilanesco jogo de desgaste, com intenções claras (actos podem nascer antes de qualquer sílaba).
É demasiado grave abrir mão da democratização conquistada no ensino, se é que tudo não passou apenas de dotar escravos de melhores ferramentas (olhando à selvajaria no emprego) encapotado dessa mesma "dermocratização" (foi só um lift!).
Está em causa a liberdade de pensar para agir.
O aluno deve saber ler o mundo para participar na sua transformação, e esse mundo não se encerra nas 4 paredes da sala, por certo (muito menos nos ecrãs dos dumbphones, em casa)!
Qualquer ser vivo desenvolve muito mais suas capacidades durante o processo de crescimento, de modo criativo, descontraído, de forma lúdica, mas atento às questões/desafios que surjam do inesperado meio em redor, explorando o mundo pelo erro, pela obra inesgotável do que somos.
Não devemos permitir que impeçam nossas crianças de serem crianças, muito menos que roubem a descoberta da vida (a mesma da qual seu futuro depende). Além disso, entre adaptarmos o ensino em espaço físico adequado às necessidades das pessoas e do meio ambiente, e investir no ensino à distância, convém também que se faça um estudo energético, além de outros cálculos que possam estar em causa.
Talvez não seja difícil descobrir um sistema misto, em que muitas das disciplinas possam ter parte do acompanhamento à distância, sem deixar descurar sentido prático in situ, sempre que faça sentido, ou até pelas necessárias saídas em estudo, etc.
O papel do professor pode ser o de orientar, seduzir os alunos para o saber, para agirem na positiva transformação do mundo, compreendendo a herança natural e cultural,e relações de interdependência.
É preciso dotar as escolas para integrado contexto. Não me parece tão complicado, sobretudo num país como Portugal. Se deram importantes passos, noutras regiões bem mais frias, qual a razão para não optimizarmos os espaços de que dispomos (sobretudo em pandemia)? Qual a razão para não explorarmos o espaço público, ou criar sinergias com diferentes entidades a nível local, regional, ou noutro âmbito que possa surgir?
Podem faltar infraestruturas como pavilhões e afins por falha do tão famigerado investimento, mas adequar áreas abertas em tempo de crise, é assim tão complicado, em tempo de guerra?!
O que está em carência, é sobretudo a vontade política para adequar esses mesmos espaços ao séc. XXI – reformas exigem coragem que a conversa para o amanhã não alimenta (sempre as desculpas, estudos e planos.
Devemos ser caso ímpar em toda a Europa, no que respeita à aldrabice em tantos planos e estudos.
As universidades devem descontaminar, por obrigação ética/moral. Como?! Sancionando os corruptos, acusar e comprovar não basta, retirar títulos como quem excomunga, pois todos pagamos).
Mas, voltando à escola...
A quem não interessa que as crianças de amanhã sejam seres com maior ligação ao mundo que os rodeia? – Há escolas próximas de imenso verde, e/ou mar, com vasto património cultural associado, que podem e devem ser lidas, como perfeito quadro integrado na paisagem (mais uma vez, muitos professores, classe à qual tiro o chapéu, sabem disso, fazem por isso, quando não são castrados pelo poder hierárquico ou na falta de outros meios/faculdades.
Prefiro não falar dos desmotivados, cansados, muito menos dos que deveriam abraçar outras profissões…foco-me na maioria dos heróis com os quais me cruzo) …
O espaço em que nos encontramos, tem características distintas…são milhões de anos na transformação da paisagem, milhares de anos de adaptação humana, e produção cultural (as razões que me levam a gostar de Orlando Ribeiro, são as mesmas que me puxam a vasculhar Leite de Vasconcelos, ou tantas outras pessoas que foram e serão úteis).
Não vamos querer viver num mundo desprovido de experiências, além das virtuais. O resultado é capaz de não ser lá muito bom, a não ser para os que procuram refúgio nos seus pequenos paraísos, longe de tudo e de todos, em prístinos destinos.
Qualquer adaptação do ensino, ainda que influenciada por diversas escolas de pensamento, deve ter isso em consideração, para que o caminho seja sustentável, verdadeiramente multidisciplinar, que espelhe os desafios do mundo diverso, que nem só de economia vive o Homem, ou vou já ali relembrar velha História, pela mão de Alberto da Cunha Sampaio, uma vez que desta Ciência Económica (e de génios), ficam demasiados galhardetes, quando continuamos muito mal...
Adiante!
As ameaças que enfrentamos em termos de alterações climáticas, já são demasiado graves. Temos uma má gestão hídrica, afectada pelas referidas alterações que pouco ou nada fazemos por contrariar, dependente de políticas externas mas também internas, sujeita a exploração agrícola intensiva, ao absurdo imobiliário (como nos campos de golf e outros desfasados resorts, propiciadores de mau uso de escasso recurso em benefício do lucro alguns), e ainda conseguimos cravar mais ferro no féretro ao construir mais barragens que alimentam os senhores do betão e da construção civil, mas também, o já de si grave problema da erosão costeira com agravante que se conhece (e lá se lavam mais umas toneladas de areia em camiões, de umas praias para outras).
Vamos lá aos Serviços de Ecossistemas, quem usa o quê, de que forma, em proveito de quem, com que consequências?
A poluição é impactante nas nossas vidas, ao nível da saúde pública (como ignorar?!), da qualidade de vida…não pode continuar refém de inépcia, muito menos da crescente máfia verde que se alimenta sem qualquer controlo, por via de empresas privadas prestadoras de serviços de "sonsultoria" ambiental, ONGS e de outras entidades (mesmo em instituições públicas) à custa de milhões alheios (tudo bons rapazes!).
É avaliar as pontes entre conhecimento académico e desafios concretos no terreno, até para não descredibilizar o próprio conhecimento científico. Lá está Huxley novamente (ou Mary Wollstonecraft Shelley)...nunca subestimem qualquer área do conhecimento, todas fazem falta, pois geram soluções.
De pouco ou nada servem prístinos destinos, nem reservas, quando a maioria não cuida porque não conhece, ou não acredita.
Será que estamos a criar reservas para outros índios?! – Desta feita, sem doenças, nem miséria, só qualidade de vida, ao estilo Mónaco.
E se pensarmos na falta que faz o dinheiro desviado, pois é disso que se trata, é fácil compreender as promovidas divisões entre extremas esquerdas e direitas, enquanto a (In)segurança Social ameaçar colapsar, sem empregos nem saúde pública à vista. A mesma Saúde Pública, que daria seguramente melhor uso a esses dinheiros, para colmatar falhas das quais todos ou quase todos, dependemos (de uma forma ou de outra, até pela violência que se possa vir a gerar, mas que infelizmente só bate à porta dos que a vivem);
Sempre em último, o que deveria vir em primeiro: a Cultura, sem a qual, não teremos verdadeira inovação, nem ambicionado Desenvolvimento Sustentável (com aposta no turismo de massas, nos cruzeiros, e outras coisas que tais…não passa de miragem…). A Cultura, que nos esbofeteia há séculos, pela capacidade crítica, criativa, social...deitada na valeta, mas que ainda assim arrebata prémios, em nome do mesmo Portugal de 70, do século de Quental (se a tirania cai de fortificada cadeira, o filósofo fica-se pelo banco de jardim!).
Quantas lágrimas de Portugal, não valerão sol, qual ouro sem brilho?!
Estou cansado, sem paper que me assista, dirijo-me ao apoio científico, o tal em falta, mas que deve (devidamente salvaguardado) trazer retorno a quem investe, sem esquemas nem boleias, sobretudo, quando esse alguém, é o próprio Estado.
No mundo ao contrário, os desgraçados procuram voz na ilusão da extrema-direita, como quem vai à seita à procura de amparo, e muitos dos “Ches Guevaras” filhos de supostas esquerdas, são dos que melhor vivem (como a outra direita “moderada” que tanto criticam, daí ferocidade de extremo a extremo); não se cansam de mostrar brincos, barbas, tatuagens de moda, e toda a cultura que dizem absorver entre gritos de revolta. Seguem a coca nas vielas do trending, atentos ao design, enquanto fumam a bolota cagada do cu de qualquer indigente dum longínquo bairro social. Pouco ou nada sabem o que é sentir Catarina Eufémia (como há dias notei, nas sábias palavras de amigo meu). Muitos nem o pensam, mas contribuem para os males que tanto apregoam, o que nem é difícil de descobrir, e dispensa tese de doutoramento!
Quanto ao centro, não tenho palavras, sendo tudo menos moderado e justo, dá-me asco, abstenho-me de prosseguir análise por aí, até que honesta depuração seja feita.
Não tenho no entanto dúvidas, que o futuro deveria passar por uma Ágora que pudesse confluir todos os rios, em são debate, por mais que nos custe ouvir.
Para discordar, devo querer e saber ouvir.
Não posso ignorar milhares de seguidores de um partido ou de outro, por mais que me custe.
É preciso procurar entendimentos, depois de auscultadas as razões. Não excluo ninguém ao diálogo. Sei que a razão dum extremo, pode ser a oposta razão de outro, quando não para dividir uma vez mais para que outros possam reinar.
Quem caminha sozinho, sente-se perdido. Quem caminha sempre com a mesma camisola, apenas vê, e verá, o que lhe interessa.
Este é o mesmo mundo em que ficamos bloqueados na faixa de rodagem por alguém que resolve atender chamada e deixar todos os outros em suspenso, não cuidando de nada nem de ninguém, nem tampouco de si…quando todo o pequeno gesto conta, num navio prestes a fundar em capitaneada “má sorte”.
Na impossibilidade de resgatar ética ao Estado, e se é da natureza humana, ter a criminalidade de mãos dadas com quem nos governa, então temos de convencer os mafiosos que há necessária mudança a ser feita, a bem de todos...antes que seja tarde.
Com a Natureza não se brinca, do Afeganistão ao Sudão, até os terroristas já entraram em conversações, seja pelas cheias, ou pela pior das secas!
De que estamos à espera, que maiores males nos batam à porta, mesmo quando já corremos atrás do prejuízo sem contar toda a verdade à audiência?
A oportunidade, foi-nos oferecida. Voltaire sabia quanto pode um terramoto.
Dedico este texto, ao meu Pai Agostinho da Silva, sempre comprometido com a vida; meu irmão Morin (aleluia, irmão!); a cândido Voltaire; e ao beatificado seja, Paulo Freire.
Perdoem-me todos os outros que não posso mencionar, por se encontrarem em layoff neste paupérrimo texto que vos deixo (grato pelo livro, Aleixo!). Além disso, procuro escapar ao pagamento dos louros em questão. Fico pior na fotografia, mas sai mais barato.


sábado, 17 de outubro de 2020

007: SEM TEMPO PARA MORRER

 Daniel Craig assume, pela 5ª e última vez, o papel de James Bond no 25º filme da saga 007, que chega aos cinemas nacionais a 

19 de novembro






sexta-feira, 16 de outubro de 2020

EM DEBAIXO DO MONTE, de Anita Dos Santos

 


Ficou enjoado de novo, que nem um cabaço… Desta vez ainda foi pior!

Quando foi capaz por fim de abrir os olhos, estava deitado numa cama, sem saber como ali tinha ido parar.

Experimentou colocar os pés no chão, o quarto não ondulava assim tanto…. Era capaz de se pôr em pé! Aquilo ali ao fundo era uma porta? Onde iria dar? Era tudo uma questão de lá chegar.

Deu um tombo para a direita, bateu numa mesinha, porque havia de estar plantada uma mesa no meio do caminho? Depois deu três passos em frente e mais outro tombo para a esquerda, estaria a porta assim tão longe?

Por fim lá chegou à porta com um suspiro e uma colecção de nódoas negras, mas as pernas estavam mais firmes a cada passo que dava.

Abriu a porta, e encontrou-se num corredor, sem saber para que lado se dirigir. Olhou em volta e pareceu-lhe estranho que o corredor estivesse bem para a sua altura.

Mas onde é que estava, e onde estavam os outros, onde estava toda a gente?

Resolveu seguir o corredor pela esquerda e ver onde ia dar. Ao longo do corredor foi encontrando mais portas, mas todas elas se encontravam fechadas. Por fim começou a ouvir vozes, a apertou o passo.

O corredor fazia uma curva, e após esta, Vicente deu com um balcão com escadarias de ambos os lados. As vozes vinham da sala em baixo. Chegou-se ao balcão e espreitou para ver o que o aguardava.

As vozes calaram-se e todos que se encontravam na sala estavam com os olhos postos no balcão e no Vicente. E era muita gente.

Era uma sala grande, redonda, com uma mesa comprida ao centro rodeada por cadeiras e bancos, todos eles ocupados. Numa das paredes da sala estava uma enorme lareira onde estalava um lume acolhedor.

Não conseguia reconhecer ninguém à primeira vista, até dar com os olhos no André, que se encontrava sentado junto a uma cabeceira da mesa. No banco ao lado dele, encontrava-se um jovem ruivo com um cabelo que lembrava uma labareda de chamas, e cujas bochechas e nariz pareciam ter sido polvilhados com canela, tal a quantidade de sardas que os enfeitavam. O que chamava a atenção para ele, no entanto, não eram nem a cor dos seus cabelos nem as suas elegantes e pontiagudas orelhas, mas sim a sua expressão travessa, de quem “se já não fez, está para fazer”. 

Na cabeceira da mesa e a liderar aquela assembleia, encontrava-se um homem enorme que deixou o Vicente estarrecido e de boca aberta. Foi descendo as escadas, devagar sem tirar os olhos dele, e sem acreditar no que via.

- Ehehe! Ficaste sem fala? Olha que não costuma acontecer a quem vem “pra” Debaixo do Monte! – O tom era claramente de mofa.

- Mas o que vem a ser isto? Eu encolhi?

 

In “Crónicas de André e Vicente – O Bosque dos Murmúrios”


O Sabotador de Auschwitz, de Colin Rushton / OFICINA DO LIVRO - Tradução de Isabel Pedrome

 Nas livrarias a 27 de Outubro



Em 1942, o militar inglês Arthur Dodd foi capturado pelo exército nazi e levado para um lugar distante e ermo. De início pareceu-lhe uma enorme quinta onde ele e os companheiros seriam pelo menos bem alimentados enquanto aguardavam pelo fim da guerra – mas estava engando. O nome desse lugar era Auschwitz.

O jovem soldado foi colocado na zona do campo de concentração onde várias empresas alemãs, muitas ainda hoje existentes, produziam equipamento indispensável ao esforço de guerra do Terceiro Reich. Faziam-no com recurso ao trabalho escravo dos prisioneiros, que eram seleccionados à chegada pela famigerada equipa do Dr. Mengele e depois alvo de uma violência brutal e constante.

Foi neste clima de hostilidade extrema que judeus e britânicos arriscaram a vida a ajudar-se mutuamente, a transmitir informações para o exterior, a planear fugas e, acima de tudo, como nos conta Arthur, a sabotar a produção do campo.



quinta-feira, 15 de outubro de 2020

CRIANÇAS PERDIDAS, de Catherine Bailey / ASA - Tradução de Ana Saldanha

 Nas livrarias a 31 de Outubro




Em setembro de 1944, a Gestapo invade um palazzo rural italiano, prende uma mulher e leva os filhos dela, de dois e três anos.


A mulher é Fey Pirzio-Biroli, filha de Ulrich von Hassell – diplomata alemão e importante elemento da Resistência alemã, executado dias depois da tentativa falhada de assassinato do Führer. Agora, Hitler está a levar a cabo a mais cruel das vinganças, atacando, separando e destruindo as famílias de todos aqueles que conspiraram contra ele.
Levada de campo de concentração em campo de concentração, Fey vai conhecer a verdadeira dimensão e os horrores do Holocausto. Sem notícias das crianças, resta-lhe a esperança de um dia escapar às garras da máquina nazi e reunir a sua família. Mas o destino dos seus filhos é uma incógnita. Mesmo que estejam vivos, poderão ser encontrados e identificados na vastidão de uma

Europa destruída?

Usando a voz da própria Fey – através de cartas, entradas de diário e recordações – Catherine Bailey conta-nos uma história esmagadora de sacrifício e, acima de tudo, resistência…



quarta-feira, 14 de outubro de 2020

HANG LOOSE, ONDAS E TEMPESTADES, de Paulo Landeck

 


Depois de uma semana, no mundo do surf, marcada pela proeza de Maya Gabeira ao conquistar o Red Bull Big Wave Awards XXL 2020, com uma onda de 22,4 metros, segundo anúncio oficial da Liga Mundial de Surf (WSL)…só posso dizer, que o surf feminino volta a estar em destaque pela positiva, fazendo por merecer a boa e justificada onda, que terá colocado o "prize money" feminino igual ao da competição masculina, além de condições mais justas na calendarização, e de outros diferenciadores detalhes conquistados!
Se nos anos 70 a tenista Billie Jean King travou a sua luta pela igualdade de género, ao mostrar que também no desporto essa injustiça deveria ser intensamente debatida…décadas passadas, há ainda muita assimetria para se esbater, até pela desejável evolução, nas mais variadas modalidades.
Neste sentido, o surf mundial, persegue o estatuto de case study, pois seguramente as condições estão criadas para uma base sólida. Poderemos vir a elevar a competição feminina a outro patamar, também em termos exibicionais, uma vez que as condições (e apoios) têm hoje um perfil muito diferente do que tinham há pouco mais de 2 anos atrás. E porque não promover eventos mistos que possam forçar outras batidas no lip? – Afinal de todas as contas, o surf além do poderoso marketing, e da economia, continua a ser uma filosofia de vida, um desporto com uma energia positiva muito peculiar, que honra ascendentes e descendentes de Duke Kahanamoku, julgo que ainda sem necessidade de ver cultura resgatada pelo eterno Edward Ryan Makua Hanai Aikau, e restantes tripulantes do Hokule'a. Para mim, o surf é pura vida, adrenalina, meditação, cultura, filosofia, e arte…mas eu, sou suspeito, freesurfer até morrer!
A dimensão política, cultural, e social do desporto enche-me noutra medida, além do olho que quase tudo ou nada vê. Há um ser humano em cada atleta que poderá brilhar para público desigual (Qual terá sido a influência de Francisco Geraldes no que respeita a hábitos de leitura, sobretudo junto dos jovens amantes do futebol, aquando da sua recente passagem pelo Sporting?). A Fundação José Saramago esteve atenta. Julgo que se poderia ir mais longe, poderia alguém do Governo ter-se lembrado de associar o atleta à promoção do Plano Nacional de Leitura...por exemplo (o seu exemplo, foi realçado em diferentes meios de comunicação social repetidamente, e até por rivais...o que diz bem, dos bons hábitos que se criam).
Sabe-se que o acesso a conteúdos, é hoje global (até mesmo à distância de um click), apesar de condicionalismos de variada ordem afectarem regiões e seus principais intervenientes, incluindo aspectos organizativos, além dos jogos de interesses alheios ao próprio espírito desportivo.
De modalidade para modalidade, podem certos actos ser mais ou menos impactantes, mas nunca causar indiferença. – Aos satélites não escapam (juntemo-nos, a eles!)
Algumas histórias são simplesmente arrebatadoras à escala planetária, como a do Olympische Sommerspiele de 1936.
Hoje, gosto de imaginar como seria, se Jesse Owens e as suas quatro medalhas de ouro mandassem calar Adolf Hitler no Estádio Olímpico de Berlim…com um dancehall To Di World, à Usain Bolt - para Sports Illustrated registar: one love, one heart, one soul!
Outros históricos episódios, conquistaram títulos de autêntica mancha negra na política nacional (final da Taça de Portugal de 1969, no Jamor, em plena crise estudantil), de incómodo resultado (e poderia ter sido pior!), como poderoso reflexo do desconforto social, e verdadeira ameaça ao estado das coisas. – Quando mexemos com o âmago do ser, nada parece acontecer por acaso, todo o grito pode ser inesgotável fonte de vida, independentemente do resultado final.
Poderíamos folhear páginas e páginas, por esse louco mundo fora, daqui e dali, ao longo da História…mas tiremos ilações do momento que teimamos viver.
Recentemente, apanhei no ecrã um pequeno grande gesto de revolta enquanto seguia o Tweed Coast Pro feminino, "madrugada" afora: uma surfista profissional australiana, ser humano acima de tudo, resolvera shapear seu statement sem se ficar pela resina da prancha; de punho erguido e cerrado, ajoelhada em respeito ao inaceitável número de vítimas de aberração que não reconhece fronteiras, prescindiu de não tão preciosos minutos da sua bateria competitiva, quanto a eternidade do sofrimento humano: “Black Lives Matter!”
Se eu já estava muito impressionado, apesar da expectável qualidade, com a solidez do surf apresentado anteriormente por Stephanie Gilmore (e que me manteve acordado), melhor fiquei, ao assistir ao silencioso grito de revolta por parte de Tyler Wright. – O meu enorme shaka para ela!
Não pude deixar de mergulhar na grande barreira, a do mais contemporâneo racismo da Austrália. Embora controverso, penso no entanto que a raiz histórica, não pode desaprender anteriores contextos, até mesmo pré-coloniais (se pensarmos noutros pontos do globo). Preocupa-me sobretudo o passado recente, chagas contínuas.
A humilhação e crimes violentos a que têm sido sujeitos, sobretudo os aborígenes, originaram graves problemas de alcoolismo, além de elevadas taxas de suicídio. Não devemos esquecer também os imigrantes, pois emprestam uma variedade multicultural a um debate que deve ser visto por outro prisma.
Mais uma vez, volto a frisar, as desigualdades sociais, as más políticas, estão na origem do cancro. Dividir para reinar, continua a ser a forma mais fácil de exercer poder, livre da maior das ameaças: a união de todos os lesados.
Foi apenas em 1999, que o parlamento australiano aprovou, uma proposta do senador aborígene Aden Ridgeway e do então primeiro-ministro John Howard, para uma Moção de Reconciliação, devido à mais terrível nódoa, o que me parece ter sido um passo sobretudo digno, uma vez que não sabíamos, e continuamos sem saber, o que foi, ou é, civilizado…podemos no entanto, evoluir…
Como é possível sequer entender, qualquer atentado contra a (provavelmente) mais antiga civilização ainda na Terra (que se conheça)?! – A educação e cultura, só podem estar em falha.
A taxa de suicídio, sobretudo de jovens meninas na casa dos 20 e qualquer coisa, na Austrália, é de uma melancolia assustadora. Quantas dessas meninas, jamais puderam sequer sonhar, apanhar a onda mais justa, em paz?
Infelizmente, não conheço lugar no Planeta Azul, onde o Homem possa surfar despido de preconceitos, em sintonia com o verdadeiro espírito Aloha!
Na Comunidade da Austrália, em que o surf consta como a 17ª actividade física e desportiva mais importante do país (segundo dados governamentais de 2019), a cultura do surf inerente à sua filosofia, pode com toda a certeza, representar mais uma poderosa voz a pugnar pela diferença.
Esta é uma maré, contra a qual todos podemos e devemos remar onde quer que nos encontremos, por pior que seja a tempestade. Nada nem ninguém, conseguirá apagar pontuado registo dos que surfam a maior onda de todas, pelo bem-estar da humanidade!

terça-feira, 13 de outubro de 2020

JOSÉ E OS SEUS IRMÃOS III - JOSÉ NO EGITO, de Thomas Mann / DOM QUIXOTE - Tradução de Gilda Lopes Encarnação

 Nas livrarias a 20 de Outubro


Thomas Mann considerou esta monumental narrativa da história bíblica de José a sua magnum opus. Concebeu-a em quatro partes – As Histórias de Jaacob, O Jovem José, José no Egito e José, o Provedor – como uma narrativa unificada, um «romance mitológico» da queda de José na escravidão e da sua ascensão a senhor do Egito. Baseado num profundo estudo da História, e utilizando detalhes pródigos e convincentes, Mann evoca o mundo mítico dos patriarcas e dos faraós, as antigas civilizações do Egito, da Mesopotâmia e da Palestina – com as suas divindades e rituais religiosos –, e a força universal do amor humano em toda a sua beleza, desespero, absurdo e dor. O resultado é uma brilhante amálgama de ironia, humor, emoção, perceção psicológica e grandeza épica.

Pela primeira vez traduzido diretamente do alemão, e respeitando as opções de Thomas Mann – como se pode constatar na grafia do nome Jaacob –, esta tradução notável da professora Gilda Lopes Encarnação revela a exuberante polifonia de antigas e modernas vozes do romance de Mann, uma música rica que é, ao mesmo tempo, elegante, rude e sublime.


sábado, 10 de outubro de 2020

O BAILE, de Fernando Teixeira

 


Por vezes, a vida tem destas coisas: no fim daquela música, foi a vez de Miguel se afastar, ao mesmo tempo que as colunas de som começaram a debitar os primeiros acordes de piano de Bridge Over Troubled Water e ele se viu especado defronte de Matilde, enquanto os outros convivas se voltavam a unir aos pares. Era a sua oportunidade, obrigado Simon e Garfunkel!

Olhou para ela e instintivamente levantou a mão esquerda e estendeu o braço direito num convite temeroso, sem motivo porque logo ela o acompanhou nesse movimento, esboçando um ligeiro sorriso, os olhos castanhos amendoados brilhando como se também ela o desejasse, a mão dele agarrando suavemente a mão dela, sentindo-lhe os dedos finos, a outra mão tocando-lhe ao de leve na graciosa cintura. Ensaiou uns passos, receoso de a pisar, não queria dar uma má imagem de si e estragar tudo na primeira oportunidade de a poder sentir nos seus braços, caída dos céus. E ao som do piano, qual ponte sobre as águas revoltas da sua angústia de minutos atrás, foram-se movendo delicadamente, ele atrevendo-se a olhá-la nos olhos, a espaços e de relance, numa cumplicidade nova, ela retribuindo, a mão esquerda sobre o ombro dele, toque dissipador de todas as dúvidas, if you need a friend, I’m sailing right behind

A música estava a terminar e ele questionou-se sobre o que se seguiria, o que fariam depois daquele momento, para si arrebatador. Iam afastar-se um do outro, quando novos acordes do mesmo duo, agora de guitarra, lhes suspendeu o movimento. As mãos não se chegaram a separar e ele voltou a puxá-la gentilmente pela cintura. Are you going to Scarborough Fair? Sim, com ela iria a qualquer lado, em novo momento de enlevo nos seus braços, bendita a hora em que tinha aceitado a sugestão do Miguel, onde estava o outro?, não lhe interessava saber, já não lhe guardava ciúme, porquanto Matilde agora era sua enquanto ela quisesse.

Para seu júbilo, sentiu-a puxar a mão mais de encontro ao braço de ambos e entrelaçar os dedos por entre os dedos da sua mão, ao mesmo tempo que se chegava mais a si. A melodia convidava a passos cada vez mais ténues e ele sentia, extasiado, o perfume daquele cabelo ondulado, então tornado aroma de salsa, sálvia, alecrim e tomilho

Henrique, de serviço no gira-discos, continuava numa toada de slows, para satisfação dos pares que se tinham então formado. Seguiu-se a voz de John Lennon, num LP recente que o pai tinha trazido de Inglaterra. Imagine era a canção que mantinha o par Pedro e Matilde junto, como se fosse já a coisa mais natural do mundo, naquela tarde graciosamente amena de Novembro. E ele imaginou também um mundo muito melhor quando Matilde largou a sua mão e passou os dois braços em torno do seu pescoço. Radiante, numa felicidade contida, Pedro cingiu a cintura dela com os seus, unindo os dois corpos num balancear cada vez mais reduzido. Sentiam a respiração um do outro, tranquila a dela, mais nervosa a sua. Temia que as hormonas o traíssem e a excitação do contacto físico o denunciasse, levando a que ela se pudesse sentir melindrada e ofendida.

Quando alguém se lembrou de colocar a tocar o tema Unchained Melody, um êxito de 1965 interpretado pelo duo The Righteous Brothers, Pedro e Matilde já não moviam os pés, limitando-se a menear a cintura de forma quase imperceptível, concentrados na música e em si próprios. Ele atreveu-se a fazer pequenos movimentos com a mão, afagando-lhe a cintura e as costas, vendo agradado que ela retribuía o carinho, acariciando-lhe os ombros. Já não era o rapaz ciumento de quando a vira a dançar com o Miguel, mas alguém cheio de confiança no momento que vivia. Com a face encostada à face dela, tão macia como algodão, não se conteve e segredou-lhe ao ouvido:

– Gosto tanto de ti, Matilde…

Viu-a afastar o rosto, os olhos humedecidos suspensos num instante de fixação nos seus. Ele mal teve tempo de esboçar um sorriso embaraçado: sentiu-a segurar-lhe o rosto com as duas mãos e devagar chegar os lábios dela aos seus, num beijo doce.

Ele correspondeu algo atabalhoadamente, meio surpreso pela espontaneidade dela, meio aturdido pela repentina conquista. Quando as bocas se separaram, foi ele quem a procurou de novo com a avidez dos seus dezoito anos, querendo mais, desejando repetir a sensação de entrega e de paixão. Fechou os olhos e abandonou-se naqueles lábios que se entreabriam de novo para o receber. Era ele agora que lhe amparava o rosto, com as mãos enfiadas no cabelo ondulado, enquanto ela o cingia pela cintura. Tudo se resumia àquele momento, como se tudo à sua volta se tivesse silenciado ou desaparecido, deixando-os numa redoma onde só eles se encontravam, duas bocas e dois corpos fundidos num terno abraço… Oh, my love, my darling, I’ve hungered, hungered for your touch… I need your love, I need your love… 

 

in Traços De Pont-Aven

(O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.)

 


007: SEM TEMPO PARA MORRER

 Daniel Craig assume, pela 5ª e última vez, o papel de James Bond no 25º filme da saga 007, que chega aos cinemas nacionais a 

19 de novembro






sexta-feira, 9 de outubro de 2020

O PROFESSOR DE DESEJO, de Philip Roth / DOM QUIXOTE - Tradução de Francisco Agarez

 Nas livrarias a 13 de Outubro


Nos seus tempos de estudante universitário, David Kepesh define-se como «um devasso entre os académicos, um académico entre os devassos». Mal imagina quanto este lema irá ser profético – ou pernicioso. Porque enquanto Philip Roth segue Kepesh desde a infância em família até ao campo imenso das possibilidades eróticas, de um ménage à trois em Londres às garras da solidão em Nova Iorque, vai criando um romance sumamente inteligente, comovedor e muitas vezes hilariante sobre o dilema do prazer: onde o procuramos; por que razão fugimos dele; e como nos empenhamos em conseguir uma trégua entre a dignidade e o desejo.
Personagem tão inesquecível quanto Alexander Portnoy (
O Complexo de Portnoy) e Mickey Sabbath (Teatro de Sabbath), Kepesh conduz as peripécias deste romance hilariante sobre um professor dividido entre os instintos, o afeto e o intelecto.



quinta-feira, 8 de outubro de 2020

O MAGRIÇO, de Tiago Salazar / OFICINA DO LIVRO

 Nas livrarias a 13 de Outubro












D. Álvaro Gonçalves Coutinho – conhecido por Magriço por causa da sua figura débil – foi celebrizado numa passagem d’Os Lusíadas, que destaca a sua coragem entre os Doze de Inglaterra, cavaleiros portugueses que, no reinado de D. João I, participaram num combate que visava lavar a honra de doze damas ofendidas e do qual saíram vencedores.

Porém, mesmo tratando-se de um cavaleiro de linhagem na Corte do Mestre de Avis, o Magriço não aceitou que o seu monarca lhe negasse casamento com a mulher que amava, partindo para a Borgonha onde lutou por mais de uma década entre os pares de João Sem Medo, que o considerou um dos mais destemidos guerreiros que alguma vez o haviam servido.

Aventureiro, defensor de causas justas e sempre na senda de glória para os seus amos, Álvaro Coutinho foi também um filho segundo, afastado da herança paterna, um homem amargo a quem a memória da desfeita do rei nunca abandonou, um guerreiro sem medo da morte, um ancião que resistiu à peste e se tornou uma espécie de eremita no fim da vida.


quarta-feira, 7 de outubro de 2020

ELEVAÇÃO E PROSÁPIA, de Paulo Landeck

 


Capítulos indiciavam malmequeres ou margaridas, sempre que trilhava caminho ladeado por crisântemos na ascensão ao Amor-perfeito.
A jovialidade norteava vezes sem conta ao nº 6 - 1º dtº, do mais ornado topónimo. – Era lá que encontrava invejável baixa pressão dos maravilhosos catálogos de montanha. Há-que procurar estar sempre resoluto a enfrentar qualquer possível mar revolto, em altitude.
Perante complicada ousadia, não basta sonhar!
Tags no cimento contrariavam apetecido cenário, como prado sem música, num maciço alpino despido de edelweiss, e quase exclusivamente entregue ao Boieiro capaz de resgatar primitivos fantasmas de guerra, disfarçados de vira-latas.
No bairro, os latidos eram constantes. Chegavam mesmo a ser facilmente percetíveis, sob hitchcockiana insonorização de almofada, num qualquer 5º andar. Talvez apenas disputassem agitação: gatos esquartejados à hora de frenética orgia sincronizados com choro incessante de bebé; a chiadeira na estrada (da borracha a queimar) após ronco de motor; a hora do conta-pé na bola, com direito a coroas de louro e porrada; o explosivo pirotécnico, confundido por vezes, com elevados decibéis cuspidos pelo cano da puta; o desgraçado do Nelinho em plenos pulmões, sem castrati, nem gengibre no mundo, que rivalizassem com as cordas vocais de sua mãe; ou a perene meia-dúzia de indivíduos que fala como quem grita (à porta da casa dos outros), a qualquer hora do dia, contrariando toda e qualquer noção de liberdade.
A vontade de esfolar sola aos calcantes era tanta, que durante muito tempo, escapei até, ao mais ordinário verbalizar – apesar de rendido à deslumbrante mestiçagem!
A miscigenação é provavelmente a mais intimidatória ameaça para quem destila ódio encapotado na mais transtornada teoria - provável falta de arranque na hora de ir a jogo, como diria Futre, numa qualquer profunda análise televisiva a roçar o barrasco tragicómico. Quem tiver dúvidas quanto à maravilhosa salada humana, experimente os transportes de e para Lisboa em hora de ponta (afiada). Logo saberão do que falo. Como é possível repudiar tal beleza?!
Só por isso, as minhas primeiras razões, não eram de todo planos de fuga, mas pressurosa descoberta.
O rapaz intranquilo sonhava percorrer dos Apeninos aos Andes, procurava a mãe de todas as maternidades. Ainda hoje troca alhos por bugalhos, mas cuida das sábias lições que aprendeu com o velho da montanha, nos Alpes televisivos. Era o tempo em que sua avó tricotava no sofá, ou as tias mais velhas…já nem me lembro bem.
Memória certa, é a que vagueia pelas veredas da minha infância: o espírito comunitário da floresta verde.
Das pegadas no gesso, resultou mais selvagem apelo. Aceno esse, reforçado por: radiografias a lápis de cera reveladoras das mais fantásticas nervuras das folhas; coaxar da rã-verde ou do rhôau-rhôau-rhôau-rhôau do macho da rã-de-focinho-pontiagudo; brincadeira nos canteiros de espinhosas sebes, cujas bagas ocasionavam, ora mantimento, ora insubordinadas munições adequadas ao tiro de canudo; irrequietas descobertas no mundo rural; ou pela simples existência da mata, à porta de casa – basta querer alcançar o alto do cabeço, para vislumbrar mundo ao redor: brejos, charnecas, seixos e cascalho, barro, poços, charcos, lagoas, montados, pinhais, marinhas, sapais…mar que vem e que vai…importa bater terreno, importa averiguar.
Enquanto sulcos do arado ofereciam valas, da pedra, escapava a vinha, não muito longe dos terrenos temperados a salitre - o mesmo que aduba a vida, e pode levar à morte, em violentas explosões.
Tudo é susceptível de virar lavoura quando as mãos e a alma assim o entendem, tudo é descoberta e invenção. – Para ser rico, basta entender isso.
Ao outro papel das coisas em sincronia (como quem fala de protecção ecológica), até o mais pequeno charco é de tremenda importância, pois tal como o campo cultivado, só se cuida bem, do que melhor se conhece - de semeadas paixões podem brotar urgentes amores, se queremos agir com eficácia em nome de um futuro melhor, é preciso arrotear todo o espírito comunitário, desde tenra idade! - O adulto sabe da diversidade que pode albergar um único pinheiro, mas é a criança que descobre, como o carvalho estende infindáveis braços ao universo, ou como pode alcançar dimensão de montado, um único sobreiro.
Do betão armado lei, herdara também novas palavras e ritmo. Toda uma multifacetada sub-cutura com insurgente forma de esta crescera por via da aculturação, tal como a minha desconhecida África colonial (bem mais sentida, até pelo próprio sangue) de revelaria bem mais familiar, com o passar dos anos.
Se amava o punk, jazz, ou rock'n'roll, não poderia ficar indiferente: ao insolente e cool scratch; às musicadas batalhas de improviso; ao explodir de arte mural nas ruas – Enquanto os “filhos de Bambaataa” mostravam suas exóticas penas cortejando público com breakdance desejoso de apartar sistema, fãs e activistas como Keith Haring ou Jean-Michel Basquiat, promoviam poderoso reconhecimento artístico, por via da luta visual influenciada por graffitis, conquistando batalhas nas ruas e galerias.
Inaceitável ainda hoje, é a não distinção entre vandalismo e arte urbana, seja por parte de quem executa o quê, ou do crítico de arte em cada esquina.
Num mundo opulento e convulsivo, de brilhos descartáveis, era difícil resistir a esse sentir, sobretudo quando éramos tão desenraizados.
No avançar do tempo entrincheirado no bairro, sem outro compasso além do Timex digital, poucos jovens mantinham olhar fito, à poesia cuspida do beat – o movimento, as cores, e urbanizados ritmos, andavam de mãos dadas com palavras, na acção!
- Sinto que nasci dos despojos da guerra que não vivi… - ainda hoje, um monólogo sentido por tantas silenciosas vozes.
É possível confluir (urge percorrer para, conciliar mundos), mesmo sabendo que a guerra sendo a mesma, é outra; mesmo sabendo que evoluir não é retroceder, mas em muitos aspectos poderá andar bem perto da reconstrução, pela desconstrução.
O conhecimento de técnicas científicas e artísticas, devem em última análise, apontar a um progresso bem mais abrangente do que tem sido preconizado até aqui - O maior dos upgrades encontra-se agrilhoado numa qualquer Guantámo, por inclinações meramente comerciais (alheio ao interesse da quase totalidade dos habitantes deste planeta). – Fundações e fidúcia. Trust who?! Hoje a confiança, não passa de imagem vendida nos bastidores, posteriormente disseminada em qualquer plataforma que a faça chegar às massas.
Resolvi por isso, seguir caminho, acrescentando ritmos, grunhidos, batucadas e guitarradas… - curto o meu vibe, sem farda nem lei!
Viajo na diversidade, como se fossemos uma só ária.
A única marca que conheço bem, é a da minha individualidade – a partitura da vida deve casar esforços, sobretudo contra a desigualdade social, a mais perigosa de todas as pragas, sem cor, credo, nem género.
Somos a larga maioria que encontra pedras no caminho, as mesmas pedras que apenas servem para espantar impossibilidades aos que ousam falar a El Capitan, ou musicalmente pausar no cume das neves outrora eternas do Kilimanjaro…cada um de nós, deve sentir o que busca.
A vida é preciosa, não nos esqueçamos… - mesmo na mais ruidosa paisagem, há sempre uma ilha-montanha por desbravar.
Asas de abutre acompanham o sopro de páginas ascendentes capazes de unir a vida e a morte…viajemos nessa corrente contínua.
Parece que me vejo ontem e amanhã, na rota dos pássaros - procuro ver na lonjura o que olhar próximo não alcança, almejada virtude, sem “longe nem distância”.
Passo dedo em revista, viro páginas e páginas, a catalogados sentidos.
Focada retina viaja agora ao Monte Branco, K2, Cerro Torre… - sempre que posso, resguardo sonhos na paz das altitudes, como quem possa estar a meditar em Mount Temple, ainda que sob forte ameaça de avalanche. – O alerta veio para ficar, o mundo não é cão, pois diz-se que o cão, é o melhor amigo do Homem; “o pagador de promessas” é um homem perverso, logo, o mundo é homem…e mulher.
Por vezes sinto-me Spencer Tracy, o perscrutador de destroços na montanha, à procura de sobreviventes que possa amparar, em mútuo conforto, porque hoje o altruísta é o que espelha melhor, a corrupção do mundo.
O ar da serra que resolvo por agora respirar, é-me bem mais familiar. Nas minhas incursões, reencontrei-me vezes sem conta, com ela: a Serra da Estrela. - A do calor familiar, do meu saudoso tio de cabelo apardalado e riso que inferi em miúdo ser de pintassilgo (confirmei, pela delícia que era escutar aquela música portadora de boa disposição…das tais coisas simples); a mesma Estrela do fumeiro e do amanteigado queijo da serra; das simpáticas faces rosadas de enxada na mão; ou do tiritante rabirruivo-preto…e do cair da neve, no quintal.
Regresso ao florido inicial.
A pernada entusiasmada guiava meu rosto a outras nortadas, sempre que passava pelo túnel, que atravessava o prédio de um lado ao outro. Galgava degraus aos patamares.
No topo daquela montanha, curiosamente o ar jamais seria rarefeito, e o barómetro por ali funcionava na perfeição - acusou sempre propícia atmosfera, a boa amizade.
Aquele era o tempo, em que vulcões ameaçavam disfarçados de pústulas, na chipala de um ou outro amigo. Outros, já estampavam no rosto casamentos ad aeternum, vidas bem menos agitadas, longe dos cumes de Messner. Todavia, a maior das aventuras, tocara a todos (sem excepção): adolescência de escolhas e caminhos, possíveis, impossíveis...e condicionados.
Os sherpas passam pela zona da morte, em trabalho.
Só uma privilegiada minoria de pessoas se predispõem a outros actos heróicos…dessas, uma parte ainda mais ínfima, é a que liberta a psique de amarras, e segue ao sabor do vento - abençoados sejam, pela Mãe Natureza.
Espelhado, é o mundo real, de refulgentes noites de Verão, que amenizam sempre toda e qualquer adversidade no acampamento base, como brinde pela superior vontade dos que teimam vezes sem conta em sujar as botas, antes da escalada à fenda da mais íntima montanha, já de noite…mas guiados pelo calor da luz frontal.
No limite vertical, cada precioso segundo é (in)comum, desde o dia da partida ao ponto final.
Desconsolados, os que choram no leito reticências…pela luz que se lhes escapa, mas também, pelas gotas de orvalho que não cuidaram de caçar.