sábado, 8 de agosto de 2020

O REFÚGIO, de Fernando Teixeira



Achou a distância demasiadamente longa para chegar ao terreno que o vendedor lhe ia mostrar. Seis quilómetros desde que se saía da estrada nacional, percorridos por uma outra municipal sinuosa e estreita mas asfaltada, do mal, o menos, pareceu-lhe ser motivo mais do que suficiente para se decidir por uma recusa em comprar aquela porção de terra. E só ainda ia a meio do caminho…

Porém, quando lá chegou, essa impressão negativa desvaneceu-se e nem as palavras do vendedor, a tentar convencê-lo, seriam necessárias para tomar uma decisão. O local era perfeito, aprazível, sem construções à vista, rodeado de alguma floresta variada e de vegetação mais rasteira, alguns afloramentos rochosos dispersos e ligeiro declive para um pequeno riacho, por onde corria água, mesmo em Verões mais secos, disse-lhe o vendedor a quem resolveu dar o benefício da dúvida.

Dúvidas, não tinha ele. Sim, aquele era o local perfeito, tal como imaginara que seria o lugar onde um dia construiria uma casa que seria o Refúgio, assim chamaria ao seu paraíso, longe do bulício da cidade e dos seus habitantes, onde poderia estar em contacto com a natureza, procurando a paz e a simplicidade que idealizava depois de uma vida em permanente correria e convulsão. Com a mesma tranquilidade, fechou o negócio.

Durante dois anos, tratou de conseguir um projecto aprovado pela autarquia e foi construindo, ele próprio, a casa de pedra com que sonhara, tão simples e rústica como acolhedora. Vezes sem conta, fizera então aquela estrada até se tornar familiar como as suas mãos, conhecendo-lhe cada curva, as árvores nas bermas, cada marco ou singularidade que lhe permitia distinguir onde se encontrava e quanto faltava para o destino.

Mês após mês, com a ajuda de antigos companheiros das obras, foi colocando pedra sobre pedra, amassando argamassas para colocar novas pedras, marcando os vãos, vendo as paredes erguerem-se e tornarem-se numa habitação, como fizera tantas vezes para outros proprietários para quem trabalhara. Mas agora, era a sua casa que ele erguia, de sol a sol, metodicamente, vencendo a ansiedade de a ver concluída e pronta, para nela entrar e residir.

Cada pedra de granito assente carregava em si o peso de tantos sacrifícios que fizera no passado, o suor de cada dia de trabalho significava sucessos e fracassos de outrora, cada viagem ao longo dos seis quilómetros da “sua” estrada transportava dentro de si alegrias e tristezas, sendo a viuvez prematura o maior dos infortúnios, cuja lembrança o deixava a cismar por saber que nunca teria, naquela casa, no refúgio ambicionado e concretizado, a companhia de quem tinha partilhado consigo sonhos e dificuldades da vida.

Ao fim da tarde, cansado pelo esforço físico despendido, gostava de bebericar uma cerveja com os homens, ou sozinho se eles já tivessem dispersado, admirando o céu alaranjado logo após o astro-rei se ter ocultado por detrás das serras circundantes, aguardando o anoitecer pejado dos ruídos da natureza envolvente. Só então regressava à cidade.

Depois da casa construída e de finalmente se ter mudado para lá, manteve o mesmo hábito. Quando o ocaso se aproximava nas tardes estivais, descansava o corpo numa espreguiçadeira, com uma cerveja na mão, observando os diversos matizes que metamorfoseavam o céu, desde o azul-celeste a um alaranjado crescente, cada vez mais vivo, até que o firmamento se revestia de tons violeta para depois escurecer, tornando-se breu, iluminado por milhões de estrelas que pareciam subjugá-lo. Chegava a sonhar com tais ocasos quando, adormecendo na espreguiçadeira, o sonho parecia querer substituir-se à realidade.

Um dia, regressava a casa, percorrendo uma vez mais aqueles seis quilómetros de estrada estreita e sinuosa que o separavam do Refúgio. Já era de noite e apenas os faróis da viatura iluminavam o asfalto e as árvores mais próximas, transformadas em fantasmas monocromáticos. Não se vislumbravam estrelas e o breu era total. Só pensava em chegar e deitar-se no conforto da cama, esperando o dia seguinte. Após contornar uma colina, foi surpreendido pela visão de uma espécie de ocaso onde o sol já se pusera há muito. À distância, o contorno negro da serra distinguia-se num clarão alaranjado, cada vez mais vivo à medida que se aproximava. Um clarão maldito e imenso, ameaçando envolver toda a área do seu Refúgio.

Foi então que sentiu o cheiro a madeira queimada.

 

(O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.)


sexta-feira, 7 de agosto de 2020

UM DIA DE CÃO, de Anita dos Santos










Olá! Já uma vez vos contei umas “aventuras” que tive com una livros da minha dona.

Nessa altura eu era muito pequeno, era ainda um cachorro.

Entretanto já passaram alguns anos, cresci, já sou um cão adulto e com juízo. Já sei que não devo brincar com os livros da minha dona!

Muitas coisas se passaram, entretanto, mas a mais importante foi que um dia os meus donos chegaram a casa e traziam com eles uma “coisinha” toda preta. Ela só chiava, mas tinha um cheiro muito agradável, umas orelhas penduradas (as minhas são espetadas!), e acho que ela também gostou de mim. Sim, era uma ela!

Ficámos a ser os melhores companheiros.

De manhã, quando os donos acordam, eles abrem-nos a porta do quarto. Nós vamos à vez, e saltamos para a cama deles. Só depois vimos para baixo, para onde está o resto da casa e o jardim.

É muito bom sair porta fora e ir cheirar tudo, para ver se o malandro do gato do lado veio passar à porta enquanto lá não estávamos para correr com ele. Ou então qualquer outro cheiro de outro bicho que por lá tenha andado. O sapo já não aparece há um tempo…

Entretanto podemos sempre contar com as lagartixas!

A minha dona não gosta que eu ande à procura delas, mas elas são tão divertidas que não consigo resistir. É que nem ouço quando ela ralha comigo de tão entretido que estou na caçada à lagartixa…

É sempre divertido andar a correr atrás da minha amiga, ela não fica nada preocupada. Pelo contrário, muitas vezes é ela que me desafia para brincar, me mostra os dentes ou me rói a orelha. Também gosta de chegar ao pé de mim e bater os pés no chão – isso aprendeu comigo! – para me desafiar. Depois desata a fugir para eu ir atrás dela.

Quando estou com preguiça, fico deitado ao sol com os olhos um pouco fechados, até ficar quentinho, depois vou deitar-me onde a minha dona estiver.

É bom quando vamos passear, mas fico muito esganado com o peitoril e a trela… a minha dona diz que eu puxo muito… não sei o que é que ela quer dizer com isso. Mas gostava mais de ir passear quando íamos ver as cabras – a minha dona dizia que se chamavam assim – mas agora já lá não estão.

Ao serão gostamos de ficar no sofá com a nossa dona.

Quando chega à noite tenho de ter em atenção em ser o primeiro a subir as escadas para escolher a cama para dormir, senão ela escolhe aquela que eu quero…

E pronto, assim se passa um dia divertido, mesmo que pelo meio tenhamos tido ainda tempo para roer uns paus, que tenham vindo da pilha da lenha!




domingo, 2 de agosto de 2020

NÓ NA GARGANTA, de MC Garcia


Os negócios corriam mal, era impossível continuar com o bar. Já não se tratava de amealhar o dinheiro necessário para construir a casa na aldeia, esse sonho estava inevitavelmente, adiado, agora tratava-se de sobrevivência.

Tudo o que tinham estava investido no negócio, e já não havia mais. Fechar o bar foi, com toda a certeza, a decisão mais difícil que meus pais tomaram.

Ainda faltava pagar algumas das letras, acordadas aquando da compra ao sócio. Este não se encontrava no país, mas tinha nomeado um procurador que morava na capital e raramente aparecia por aquelas bandas. Meu pai precisava urgentemente de falar com ele.

Só posso dizer o que vejo ao lembrar esse dia, que nunca vou esquecer e que, ainda hoje, me ata com um nó a garganta.

Anoitecia. Os dois homens encontraram-se na pequena ponte junto ao bar. Sob a luz ténue do candeeiro da rua a figura do meu pai originava uma sombra comprida e amarelada. Sinto que nada mais existe. Não vejo a minha mãe, vejo apenas aqueles dois homens. Um gesticula agitadamente, o meu pai baixa a cabeça, fala baixinho. Não consigo descrever os sentimentos dele naquela hora, mas consegui sentir o desespero que o assaltava interiormente.

Mesmo sem entender o alcance do que estava a acontecer sentia-me apavorada, era como se o chão me fugisse debaixo dos pés! O meu pai estava dando o negócio como liquidação de uma dívida que era muito inferior ao valor do equipamento que havia no bar.

Depois de conversar durante algum tempo, o meu pai colocou nas mãos daquele homem as chaves do bar, mas ele atirou-as ao chão e exigiu, mais uma vez, o pagamento em dinheiro. Só isso lhe interessava.

Ouço o meu pai dizer “Se quiseres, a minha cabeça eu posso dar, mas o dinheiro não, não tenho!” porém, o homem virou as costas e entrou no carro. O meu pai ficou ali, imóvel, amargurado, olhando sem ver, o automóvel que partia, até este desaparecer na noite escura. Naquele momento o meu pai era o homem mais solitário do mundo.

Depois tomou a minha mão e, em silêncio, regressámos para casa. Agora vejo a minha mãe, ela vai connosco. Aperta o peito com as mãos, chora baixinho…

Sofreram toda a vida por não terem conseguido pagar aquela dívida. É em momentos como este que constatamos que o destino não está nas nossas mãos e nos fogem todas as certezas…

Já do avesso virou cada certeza

E o país que procurava não existe

Ainda não existe

Manuel Alegre, in “Um Barco Para Ítaca”

 

Como o bar ainda estava nas suas mãos, ele decidiu saldar as pequenas dívidas com peças de mobiliário. O padeiro, um português grande, daqueles que o sol não bronzeia, mas avermelha, que fazia a distribuição do pão porta a porta numa mota com sidecar, levou a máquina registadora; o fornecedor de bebidas levou a "minha" Rockola…, mas não levou a maior parte dos discos de 45 rotações, esses guardei. O senhorio ficou com tudo o que restava.

Meu pai só vendeu a licença de licores porque esta tinha algum valor comercial e era transmissível. Com essa pequena quantia devia iniciar uma nova vida e sustentar a família, sabia lá, por quanto tempo.

E numa manhã, como outras tantas, o Bar Copacabana fechou as portas para sempre, deixando-nos do lado de fora, ao sabor de um destino incerto.

Muitos anos depois, passei por aquela rua. O edifício ainda existia, mas as portas do antigo bar continuavam fechadas. As pessoas que moravam na rua não sabiam que naquele local tinha existido um bar que se chamava Copacabana. Mais recentemente soube que, durante as grandes inundações, muitos dos lugares onde passei a minha infância foram sepultadas pela pedras e a terra, ou arrastados pelas águas enfurecidas e lançados ao mar. Ficam só as memórias.

Perder o negócio foi, para os meus pais, uma vergonha. Custava-lhes enfrentar os seus conterrâneos e suportar a comiseração de uns e o escárnio de outros. Apenas tinham vontade de sair daquele lugar e começar uma nova vida onde ninguém os conhecesse.

Talvez por isso foi tão fácil aceitar a sugestão de um conterrâneo, um daqueles que tinham esquecido a aldeia e a família,  aventurando-se a ir para o país mais profundo, onde o rio Orinoco se cruza com o Caroní, junto à selva, onde se escondem os tesouros da terra.

Ele falou-lhe da grande siderurgia em construção e da cidade que se desenvolvia ao seu redor, da abundância de trabalho e dos bons ordenados.

Então, o meu pai soube que tinha que começar a trabalhar na construção civil e pôr em prática tudo o que tinha aprendido com o pai.

Com uma magra quantia de dinheiro, talvez menos do que aquela que trazia quando chegou àquele país, decidiu partir, uma vez mais, deixando atrás a mulher e quatro filhos pequenos. Mas agora o que o levava não era o sonho e a esperança, agora era o desalento e a incerteza que o levavam.


sexta-feira, 24 de julho de 2020

ARAUTOS DA MORTE, de MBarreto Condado















Os Arautos podem ter as mais diversas formas, podem ser alguém nosso conhecido, podem ser família.
Como os reconhecemos?
Por norma, são seres amargurados, depressivos, insatisfeitos, mal-amados, agiotas, mentirosos, falsos, rancorosos, de memória curta e selectiva, casos perdidos de solidão interior.
Ocupam o seu tempo das mais variadas maneiras, sempre numa tentativa de colmatar os buracos da sua fragilizada alma.
Os anos que deviam dar-lhes sabedoria e gratidão, transformam-se em enfado e contrariedade.
Tornam-se ásperos na sua ânsia de conseguir o que nunca tiveram, destratam quem sempre os estimou, acarinhou, aceitou como são.
E quando a mente amargurada, escurece e preparam o derradeiro golpe, não entendem que o que tanto desejam os perseguirá para além da morte.
Quando não tiverem a seu lado, a alma responsável pelas suas existências, nesse momento, entenderão que a Morte pela qual ansiavam, lhes levou a base de toda a sua sustentação e a vida como a queriam, deixa de fazer sentido.
E aquele buraco negro do qual julgavam ter saído, vai-se alargando até ao dia em que serão Arautos da própria Morte, entregues aos mesmos cuidados que em tempos proporcionaram, será nesse momento que sentirão na pele, nos seus derradeiros instantes, o vazio, o abandono, a tristeza de estarem sós.

SEMPRE ESTRANGEIRA, de Claudia Durastanti / DOM QUIXOTE - Tradução de Vasco Gato

Finalista do Prémio Strega
Nas livrarias a 28 de Julho























A primeira pergunta que lhe fazem sempre é como aprendeu a falar e, logo a seguir, em que língua sonha. Filha de pai e mãe surdos que se separaram pouco depois de terem os filhos – e sempre recusaram a vitimização, opondo ao isolamento do silêncio um carácter extrema mente combativo e passional –, a protagonista deste livro viveu uma infância verdadeiramente febril, sempre a andar de um lado para o ou tro – de Brooklyn, em Nova Iorque, para Basilicata, uma aldeiazinha em Itália – e da mãe para o pai; mas, tal como uma planta obstinada, foi capaz de criar raízes em todo o lado e, já adulta, acabou por repli car este comportamento migratório, fosse por causa dos estudos, da emancipação, do inescapável amor. Sempre Estrangeira é a história de uma educação sentimental contem porânea, desorientada pelo passado e pela consciência das diferenças físicas, das distinções sociais, da pertença a um lugar. Parte memória, parte narrativa culta e romanesca, é uma viagem fascinante em busca da auto-afirmação, na qual a geografia, a arte e a linguagem são simul taneamente armas de revolta e de redenção.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

PONTO ZERO, de Jørn Lier Horst & Thomas Enger / DOM QUIXOTE - Tradução de João Reis

Primeiro livro de uma série escrita a quatro mãos por dois dos maiores autores de policiais nórdicos.
Nas livrarias a 21 de Julho





















Oslo, 2018. A célebre ex-corredora de longa distância Sonja Nordstrøm não chega a aparecer para o lançamento da sua polémica autobiografia, Para sempre Número Um. Quando, nesse mesmo dia, a obstinada jornalista de celebridades Emma Ramm procura Nordstrøm em sua casa, encontra a porta aberta e sinais de luta no interior. E, estranhamente, um dorsal com o número «um» colado no meio do ecrã da televisão da sala.
O detetive Alexander Blix é nomeado para liderar a investigação do desaparecimento da atleta, porém ele carrega ainda as cicatrizes emocionais de uma situação de refém ocorrida há muito tempo, quando abateu o pai de uma menina de cinco anos. Vestígios de Nordstrøm começam a aparecer em diversos locais inesperados, mas o momento e a maneira como as pistas são descobertas parece ter sido cuidadosamente calculado.
Farão parte de um plano maior que ele ainda não está a conseguir ver?

Autor Fernando Teixeira


domingo, 19 de julho de 2020

CHAMAVA-SE CHRISTOS, de Maria Cecília















Chamava-se Christos Paabola.
Na siderúrgica onde o meu pai trabalhava, havia alguns engenheiros estrangeiros, a maioria era dos países nórdicos, entre eles, um finlandês, com o qual fez amizade. Morava na mesma cidade que nós e quase sempre dava boleia ao meu pai, quando vinha para casa ao fim-de-semana.
Christos Paabola, engenheiro metalúrgico, homem de estatura muito elevada e muitos quilos de peso, era a pessoa mais bonacheirona que conheci. Com aquele aspecto de gigante, de rosto muito rosado, pele grosseira e cabelos frisados, quase vermelhos, e um nariz grosso e esponjoso, tinha uma gargalhada estrondosa e contagiante. Com olhos muito claros, vivos e bondosos, e umas mãos enormes, aquele homem era a mais pura manifestação da alegria e da generosidade.
Todos gostámos dele desde o primeiro dia. Até a minha mãe. Tinha mulher, também finlandesa, chamada Ekaterina. Ao contrário dele, Ekaterina era pequenina, al, quase transparente, com os cabelos lisos e curtos, tão loiros que pareciam um campo de trigo no Outono, e meigos olhos azuis e serenos como um lago. O seu temperamento era muito suave e sorria sempre, diante das explosões destemperadas do marido.
 Tinham sete filhas, todas de idades muito aproximadas. A sensação que ficou em mim, ao lembrar-me delas, era estar diante de um coro de anjinhos loiros e felizes! A filha mais velha chamava-se Jristha e era alguns anos mais velha do que eu. Também era muito amável, e demonstrava uma grande segurança, o que me cativou. Tornou-se a minha heroína.
Recordo que ela estudava um curso de línguas e secretariado e eu insisti muito para que me deixassem ir para a mesma escola. Mas tal não foi possível. Aquela família feliz proporcionou-nos momentos muito agradáveis.
Christos, o finlandês, tinha uma grande carrinha Chevrolet, na qual demos alguns passeios que, de outra forma, nunca teríamos realizado. Com ele chegámos a ir até muito perto da fronteira com o Brasil amazónico, por estradas que rasgavam densas florestas e outras que rasavam a fronteira com a Guiana Francesa. Curiosamente, não recordo nenhum lugar em especial, apenas me lembro do verde da floresta, a estrada, e de um nevoeiro baixo e quente. Habituado a fazer longas viagens, ele conhecia tão bem as estradas que chegava a adormecer durante a condução. Nas viagens que fizemos juntos ele, às vezes, adormecia, porém, a mulher mantinha-se impávida e serena, enquanto a minha, nervosa, procurava mantê-lo acordado falando-lhe continuamente ou dando-lhe pequenos beliscões e safanões. Por sua vez, o meu pai tentava que a minha mãe deixasse o homem em paz, enquanto a mulher, sorria angelicamente.
 Quanto às crianças, que contando connosco eram onze, umas dormiam tranquilamente, outras ainda brincavam, e outras, como eu, tentavam manter-se atentas a tudo o que acontecia no interior daquele veículo. O finlandês contava que, nas ocasiões em que viajava sozinho, durante a noite, sofria ataques de sono. Nessas ocasiões, parava o carro na berma da estrada e estendia-se ao comprido, deixando os pés fora da janela do carro.
contava que, mais do que uma vez, ao acordar, descobria que lhe tinham roubado os sapatos. Ao contar isto dava gargalhadas sonoras e contagiantes, imaginando o desapontamento dos ladrões, ao ver o tamanho dos mesmos!

In História em Pedacinhos -As casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar

sexta-feira, 17 de julho de 2020

CRÓNICA | TODOS AO TRABALHO, de Anita Dos Santos


Texto: Anita dos Santos
Foto da Autora: D.R.

- E eu já disse que era “pra” irmos todos ao trabalho! – O Bosques tremia de impaciência.
- Pois então, digam-me lá como é que vocês fazem para as plantas crescerem. – Perguntou o Vicente encarando Ervilha de Cheiro que era quem se encontrava mais próximo de si.
Este baixou a cabeça, entristecido antes de dar a resposta à questão que lhe fora colocada directamente, e indirectamente a todos os outros.
- Sabes, cada dia se torna mais difícil, porque para que as plantas, as flores ou as árvores cresçam, elas têm de nos ouvir falar com elas, têm de escutar na raiz, nas folhas tudo quanto lhes transmitimos, têm de sentir o nosso amor. Cada dia é mais difícil de conseguir.
Mais uma vez, baixou a cabeça com a voz embargada sem conseguir continuar a falar.
- Só que nós estamos a perder a faculdade de comunicar quer com as plantas quer com os animais. – Desta feita foi o Cotovia a falar. – Eu cada dia tenho mais dificuldade em me fazer entender com voadores, essa é que é a verdade. E no dia em que deixarmos de comunicar totalmente, é o dia em que aquele desgraçado nos venceu.
- Pois, mas isso é que não vai suceder! – Exclama o André. – Porque não vamos deixar, não é assim?
- E eu pergunto-me se vocês sabem como havemos de fazer para sermos entendidos de novo.
O Bosques assentava o olho direito nos dois jovens, enquanto o esquerdo vigiava os pequenos feéricos.
- Temos algumas ideias que acho devemos pôr em prática. – Responde o André esfregando as mãos.
- Desde que não implique cozer ninguém numa panela… - Com um ar descrente o Traquinas, de sobrolhos erguidos, deu uma volta sobre si mesmo.
- Isso agora depende. Se fores tu a ir para dentro da panela… Até que estou de acordo! – E com esta tirada o Cardo tirou a vontade de brincar ao Traquinas, que o encarou com uma carranca.
Desmancharam-se todos a rir, como era de esperar, e a brincadeira e confusão ficou instalada, até que o Vicente soltou um assobio estridente que fez com que as atenções se centrassem nele.

In “Crónicas de André e Vicente – O Bosque dos Murmúrios”

AS SILABAS DE AMÁLIA, de Manuel Alegre / DOM QUIXOTE (Poesia)

Nas livrarias a 21 de Julho





















Um livro que é um tributo de Manuel Alegre ao centenário de Amália Rodrigues. Nele estão incluídos os poemas do autor que a fadista cantou e, para lá desses, dois poemas inéditos dedicados a Amália, entre eles, o que dá nome ao livro – As Sílabas de Amália.
Além de dois textos em prosa e de vários outros poemas sobre o fado. A maioria dos quais nunca antes publicados.
É também um testemunho da relação de convívio e amizade de Manuel Alegre com Amália Rodrigues e com Alain Oulman.
Um livro que será igualmente publicado em formato de audiolivro lido pelo próprio poeta.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

MARIA (CONTINUAÇÃO), de Mafalda Pascoal















Neste dia, Maria ia procurar um caminho que os levasse até à água e às árvores de frutos que se vislumbravam lá de cima. Como agora tinha tantos amigos, seria mais fácil lá chegar, e assim foi. Primeiro foram os passarinhos numa  grande chilreada, seguiram-se os macacos e depois  os coelhos... Maria ficou num sítio alto, de onde poderia ver os animais e as aves. Voaram e saltaram até que pararam num sítio específico, Maria ficou a olhar e a pensar se seria um bom lugar para descer, de repente surgiram dois passaritos por cima da sua cabeça, piavam, chilreavam, voavam na direcção de todos os outros, depois regressavam e fizeram isso até que Maria se resolveu a segui-los até aos outros. Quando lá chegou, verificou que na realidade estava um caminho muito branquinho que descia a fazer curvas. Todos em conjunto começaram a descer. Na descida viam-se muitas flores e começavam a ver-se muitas árvores e diferentes umas das outras. Grande parte delas cheias de frutos, conforme iam descendo, o barulho da água a cair era maior, só pelo barulho, Maria já sentia uma fresquidão tão agradável. Depressa chegaram à cascata, Maria correu para a lagoa, era tão tranparente... depressa entrou e brincou com toda aquela água, todos os animais e aves ficaram a vê-la tal era a sua alegria. Já cansada, Maria saiu da água e recostou-se numa pedra, olhava para o céu, o sol já estava a cair para o outro lado, o que queria dizer que devia regressar à árvor-mãe, a distância hoje era um pouco maior visto ter que subir até lá acima e tomar o caminho de regresso. Sentia-se cansada mas tinha que regressar, começou a subir ao mesmo tempo que apanhava frutos para comer e dar aos seus amigos, e assim quase sem dar por isso, Maria e os seus amiguinhos, já tinham chegado ao topo.
Chegaram à árvore-mãe e lá estavam os pequeninos com as suas mães, daí a nada começaram a chegar os macacos bebés com as suas mães, mais as gazelas com os pequenitos e todos se aninharam em redor daquela árvore majestosa. Maria já ia a dormir quando se recostou no seu ninho de ervas.
Mais uma noite passou e nada demais aconteceu. Maria acordou com todos os animais e aves à sua volta. Todos estavam contentes uns com os outros. Maria sentia-se contente e feliz mas ao mesmo tempo apreensiva porque estava sempre a lembrar-se do pai, deveria estar muito preocupado por não saber dela...
Maria aprontou-se para seguir caminho para a sua nova casa.
Lá foi saltando e cantarolando com todos os animais e aves... os lobos e os ursos cada vez ficavam mais perto dela... não fosse a saudade do pai, Maria sentia-se a pessoa mais feliz do mundo...
Depressa chegaram à cascata, passando pelas árvores de fruto, por aquele caminho forrado de uma fina camada de areia branca, sempre a descer... todos foram pra dentro da água... os passarinhos com toda a chilreada deles também passavam muito perto da água levando com os salpicos em cima, todos estavam felizes...
Depois dos banhos, todos se colocaram ao sol para secarem. Maria já dava voltas à cabeça a pensar como tratar das suas novas instalações... se calhar ainda não é a altura ideal para ficarem a li a morar, pois o coelhinhos ainda eram pequeninos para aquela caminhada, pensava ela... então decidiu que deixaria passar mais alguns dias e noites e ficariam ali definitivamente.
Começou a pesquisar todos os recantos daquele local. Descobriu ninhos de passarinhos, tocas com mais coelhos, e o que era engraçado é que nenhum animal fugia dela, era como se a conhecessem ou estivessem à espera dela...
Enquanto isso, o pai de Maria continuava na sua busca incansável pela filha. Andava desesperado, mas algo lhe dizia que não desistisse, que continuasse a procurá-la, ao contrário do que todos os outros diziam, principalmente a senhora V.
A esta altura, o pai de Maria já começava a sentir uma espécie de aversão à senhora V pois continua sem entender porque não tinha a filha em casa quando ele chegou, sabendo que Maria era uma criança humilde e acatava sempre o que lhe diziam, e ele sempre disse à filha que jamais deveria ir até à floresta, nem se chegasse perto. Entretanto pensou para consigo, irei ficar muito atento à senhora V... se calhar ainda vou descobrir algo que me leve à minha amada filha...
(Continua)

A autora escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.   

terça-feira, 14 de julho de 2020

O LUGAR DAS COISAS PERDIDAS. de Susana Piedade / OFICINA DO LIVRO






















Numa pacata vila de província, uma criança desaparece misteriosamente a caminho da escola, deixando a mãe em estado de choque e os vizinhos incrédulos e alvoroçados.
No início, todos se oferecem para ajudar Mariana a encontrar a filha, mas, como sempre acontece nos meios pequenos, as intrigas, os medos e as desconfianças acabam por desenterrar histórias do passado e segredos que se julgavam a salvo, desencantando um culpado em cada esquina.
O caso torna-se ainda mais enigmático quando, na manhã em que a Alice sumiu, quase todos os que lhe eram próximos tiveram, curiosamente, atitudes estranhas, pelo que, entre tantos rostos conhecidos, talvez ninguém esteja, afinal, completamente inocente. E o pior é que a única pessoa que assistiu a tudo é também a única que não o poderá contar.
Num romance trepidante que mantém o suspense até à última página, Susana Piedade – finalista do Prémio LeYa com o romance As Histórias Que não Se Contam – regressa ao tema
da perda e da culpa, oferecendo-nos uma história profunda e surpreendente, na qual quase nada é o que parece.

Autora Maria Cecília


segunda-feira, 13 de julho de 2020

OS PÁSSAROS CANTAM EM GREGO - DIÁRIO 3, de Rita Ferro / DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 14 de Julho





















Não é só a escrita de Rita Ferro que é imprevisível, a sua vida é um constante renovar de cenários e de forças. Quando a imaginávamos a viver serenamente na casa onde escreveu os diários anteriores, Veneza Pode Esperar e Só Se Morre Uma Vez, troca as voltas ao destino e desafia-se de novo: vende o apartamento, faz as malas e regressa ao campo, desta vez ao berço dos seus bisavós maternos. Aparentemente, perde tudo o que tinha conseguido: a proximidade da família, dos amigos, dos programas culturais, dos desafios profissionais e dos apoios urbanos. O que perde e ganha? Quanto vale agora, sem os expedientes e as distracções da cidade? Tem 65 anos e vive sozinha – conseguirá manter a chama, a alegria, o arroubo criador? E como ficou a sua relação com o amor?
A par dos romances que tem publicado, a escritora mantém a tradição de partilhar com os leitores a sua cronologia pessoal, através de diários que são também a sua forma de analisar os avanços e retrocessos do seu trajecto, as pulsões e contradições da sua alma.
Os Pássaros Cantam em Grego é o terceiro volume do seu diário.

REGRESSO A UM CENÁRIO CAMPESTRE, de Nuno Júdice / DOM QUIXOTE (Poesia)

Nas livrarias a 14 de Julho






















Regresso a um Cenário Campestre é um livro que começou a ser escrito nos últimos meses de 2019 e terminou na transição da epidemia para a pandemia, já em 2020. É um trabalho sobre as transformações resultantes da época que vivemos, em que se inclui uma sátira ao politicamente correcto e ao apagamento ou revisão da História. Os temas do amor e da natureza estão igualmente presentes na linha de livros anteriores, seguindo o jogo entre memória e imagem que é dominante na fase mais recente da poética de Nuno Júdice.

Autor Fernando Teixeira


Autora Anita Dos Santos


sábado, 11 de julho de 2020

A HORTA, de Fernando Teixeira















Tinha as mãos calejadas como qualquer homem do campo, a pele endurecida por anos a manejar enxadas, sachos e forquilhas numa faixa de terra exígua que, por esse motivo, não pedia arado mecânico ou de tracção animal.
Aquela porção de terreno era, então, o seu sustento e a sua razão de viver. Havia-a comprado após se reformar do modesto mas honrado trabalho na cidade, a fim de cultivar o que a terra pudesse dar e, fértil como era, ela dava um pouco de tudo, o suficiente para quem pouco é o bastante para sobreviver. Ficava a cerca de um quilómetro de distância da humilde casa onde vivia com a esposa de sempre, numa aldeia da Beira Baixa.
De início, deslocava-se a pé, sozinho ou na companhia da mulher, carregando o produto do seu trabalho em sacas, às costas. Avançando na idade, tinha resolvido adquirir um triciclo motorizado da Famel, cuja cabina o protegia das intempéries e do cansaço do caminho, permitindo-lhe ao mesmo tempo transportar fruta e legumes para casa, na caixa aberta do veículo. O triciclo era lento, porém, com a idade que tinha, também não precisava de se deslocar depressa, tempo era aquilo de que ele mais dispunha.
Nos meses frios, os pesados cobertores apelavam a que se deixasse ficar mais algum tempo na cama, mas no Verão o dia começava sempre bem cedo. Dirigia-se à horta de manhãzinha, ainda o sol mal ameaçava despontar, para poder dar os trabalhos por concluídos antes da canícula raiana. Ainda era noite, quando se levantava e ia colocar a cafeteira de café ao lume ou preparar uma caneca de leite com um pedaço de pão migado, que os dentes já lhe iam faltando.
Estacionado o triciclo à sombra de uma oliveira, a primeira árvore que encontrava no estreito caminho de terra batida ao sair da estrada municipal, a primeira coisa que fazia era abrir a porta de um velho barracão isolado onde guardava os utensílios da lavoura. A primeira coisa, não. A segunda! Antes, não falhava no gesto de acender um cigarro que retirava do maço meio amachucado de Português Suave, que nunca dispensava ter no bolso das calças. Puxava duas fumaças e, depois de entalar o cigarro por cima da orelha e colocar a boina, lá ia então aos seus afazeres.
Depois da construção da barragem e da implementação do sistema de regadio na região, o trabalho de rega tinha ficado simplificado. Com a enxada, ia movendo pequenos montículos de terra, aqui e ali, desviando o curso de água por diversos canais cavados no terreno, possibilitando que o precioso líquido chegasse às diferentes parcelas da horta. Enquanto esperava, novas passas eram dadas no cigarro. De vez em quando, urgia tirar a boina e voltar a ajeitá-la depois de um breve coçar da nuca.
Verificava com olhar sereno o estado das árvores de fruto, certificava-se de que nenhuma moléstia as tinha atingido, e dava um jeito nas plantas hortícolas como só ele sabia. O ar perfumava-se de aromas a fruta madura, principalmente junto das duas figueiras, cujos figos “Pingo de Mel” faziam a delícia dos sobrinhos que ele adorava, quais filhos que nunca tivera.
Cavava aqui, arrancava ervas daninhas ali, semeava acolá, colhia algumas peças de fruta, escolhia uma alface, dois ou três tomates, ou umas folhas de couve e umas vagens de feijão que a mulher houvesse pedido para a sopa… Quem o visse, andava sempre numa azáfama tranquila, sem pressas, ao ritmo das vezes que levava o cigarro à boca, deixado depois em cima de um torrão de terra até à próxima passa, até aquele não ser mais do que uma beata com a qual acendia o cigarro seguinte.
Maldito tabaco que o haveria de consumir mais do que o trabalho do campo, vício do qual se veria obrigado a largar definitivamente, alguns anos mais tarde, numa manifestação da sua força de vontade e tenacidade, embora os danos já se reflectissem no catarro, cansaço e na falta de ar que o acometia.
Já não está entre nós. Dele, ficou a saudade de muitas tardes passadas a ouvi-lo contar histórias sobre a terra e os locais, seguindo com admiração o seu raciocínio esclarecido, escutando conselhos sábios forjados pela dureza da vida, enquanto bebíamos um café ou uma cerveja, ao entardecer e à volta de uma mesa da esplanada do café da aldeia, depois de ele ter dormido a merecida sesta. Ficar-me-á, para sempre, a imagem de serenidade daquele homem de pele tisnada e mãos calejadas, ajeitando a boina depois de um breve coçar de nuca, hábito que nunca perdeu.  

(O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.)

sexta-feira, 3 de julho de 2020

CRÓNICA | A SEREIA, de Anita Dos Santos


Texto: Anita dos Santos

Foto: D.R.

Os remos cortavam a água de um lado e do outro do bote, calmamente ao ritmo que lhes ía imprimindo.
Não tinha pressa.
Olhou para o céu claro e sem nuvens onde brilhava uma bela lua cheia, e depois para a margem longínqua. Continuou a afastar-se. Não queria deitar a rede perto pois nos últimos dias tinha voltado vazia de peixe todas as vezes que a tinha puxado.
Não entendia o que se estava a passar. Naquela altura do ano devia haver peixe com fartura, mas este ano algo estava a afugentar o pescado.
Afastou-se mais. A margem já mal se via.
A água em volta do bote, translúcida ao cimo, tornava-se negra devido à fundura.
Deitou a rede e ficou à espera.
Acabou por passar pelo sono, as noites anteriores não tinham sido bem dormidas. Acordou com o sacudir do bote.
Endireitou-se de supetão para ir direito à rede.
Mas não lhe chegou a tocar.
Da amurada do barco, uma criatura bela, de imensos olhos verdes, fitava-o intensamente com metade do corpo submerso e os longos cabelos escorridos pela água do mar.
Ficou sem saber o que fazer.
- Olá. Naufragou? – Logo que fez a pergunta viu que era um enorme disparate.
Ela continuava com uma mão agarrada ao bote, sem tirar os olhos dele.
- Precisa de auxílio? – Outro disparate, pensou.
Sabia bem o que ela era de ouvir falar. Nunca pensou foi encontrar uma…
- Vens apanhar os pequenos com a tua rede. – A sua voz era baixa e rouca.
- Foi o que aprendi a fazer para ganhar a vida.
- É mau para nós quando vocês, os de duas penas, apanham os pequenos nas vossas redes.
- Porquê, porque é que é mau?
- Porque as redes não apanham só os pequenos. Destroem também tudo em volta quando as puxam. Matam o que levam e o que fica para trás. Porque já mataram alguns de nós.
Ele ficou sem saber que resposta lhe dar. Baixou os olhos envergonhado.
- Tens razão. Muitos homens usam redes grandes e pesadas, redes que apanham tudo e levam tudo dentro delas. Não deveria ser assim e não é isso que faço.
- A tua rede é pequena, já vi que sim. E tem malhas largas. Os muito pequenos podem fugir. De qualquer maneira não a deves deitar aqui.
- Está bem então. Podes dizer-me onde posso deitar a minha rede para apanhar peixe?
- Do outro lado do Pico Rochoso e só depois da Lua Escura.
- Do lado de lá da baía e depois da lua nova. São essas as tuas condições?
- Sim, são essas as condições.
- E se eu quiser voltar a encontrar-te? – Acabou por perguntar após um momento de silêncio.
- Virei ter contigo na próxima Lua Grande se, entretanto, ensinares aos outros que não devem vir para aqui.
- Farei isso.
A voz dele soou baixa e claramente.
Longos anos se passaram, e os pescadores tomaram outros hábitos de pesca devido aos ensinamentos do pescador.
Mas durante todas as luas cheias, se algum intrépido se aventurasse a ir para os lados do Abismo, podia ver a sombra de um pequeno bote com um pescador debruçado na amurada abraçado a uma bela sereia, que o abraçava também.

domingo, 28 de junho de 2020

DIVULGAÇÂO LITERÁRIA | LIVRO DE VOZES E SOMBRAS, de João de Melo - DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 30 de Junho


Cláudia Lourenço, jornalista, é enviada de Lisboa à ilha de São Miguel ao serviço do Quotidiano. Tem por missão entrevistar um conhecido ex-‑operacional da Frente de Libertação dos Açores e reaver a crónica do independentismo insular durante a Revolução. Depara-se-lhe um homem-‑mistério, voz e sombra do jogador, das suas verdades que mentem, das suas mentiras que dizem a verdade. Ela, que pertence à «geração seguinte», não parece ter memória histórica do país de então: vive no de agora, e o passado é um território longínquo, cuja narração flui no interior de um imaginário algo obscuro. A história da FLA (e a da FLAMA, na Madeira) comporta em si o «país de todos os regressos»: a Ditadura, o fim das guerras em África, a descolonização e o «retorno» à casa europeia pelos caminhos de volta, os mesmos que levaram as naus a perder-se nos mares da partida. O país que a si mesmo se descoloniza vibra na exaltação revolucionária. E é dos avanços e recuos dessa Revolução que nasce a tentação separatista do arquipélago.
Uma narrativa triangular cujos vértices e sequências assentam sobre Lisboa, África e Açores.


sábado, 27 de junho de 2020

O SÓTÃO, de Fernando Teixeira















Entrou, accionou o interruptor de uma lâmpada mortiça e, inexplicavelmente, porque vivia sozinho, fechou a porta à chave pelo interior. Talvez esse gesto, mecânico ou pensado, só ele o poderia dizer, fosse indicativo daquilo que se propunha fazer naquele espaço da casa que fora o seu local de trabalho, mas também de lazer, durante décadas. Como se o rodar da chave, na fechadura da porta, criasse uma barreira de que necessitava para se sentir protegido de olhares invisíveis, isolando-o de censuras ocultas.
À medida que os anos lhe atravessavam a velhice e lhe pesavam nas pernas, cada vez mais evitava subir as escadas de acesso ao sótão, tanto assim que, providencialmente, mudara alguns livros para a salinha térrea, literatura que o ajudava a consumir o tempo quando a meteorologia não lhe permitia dar pequenos passeios pelas ruas empedradas da aldeia, sempre com o propósito de encontrar alguns conterrâneos para dois dedos de conversa.
Abriu as portadas de uma janela, depois as de outra oposta, permitindo que o espaço se inundasse de luz diurna e revelasse melhor duas paredes revestidas de estantes corridas, com tudo o que permanecia ali: obras literárias, revistas antigas, livros técnicos, sebentas, dossiers cheios de legislação e regulamentos, esboços, apontamentos, projectos e trabalhos realizados ao longo de uma vida profissional. Memórias…
Apagou a lâmpada incandescente e, por alguns momentos, deixou-se ficar estático no meio do sótão, olhando uma e outra estante, submergido pela visão de dezenas e dezenas de volumes, uma enorme quantidade de papel, parte dele amarelecido pelo tempo e pelo pó, sem saber muito bem por onde começar. Como se o seu corpo franzino ganhasse outro peso sobre o chão de tábuas corridas, dificultando-lhe o primeiro passo.
Desviou o olhar para uma secretária de madeira escura, num canto junto a uma das janelas, ainda com algumas canetas e utensílios de escritório, ali esquecidos. Com um leve sorriso, apenas um esgar de recordação, lembrou-se de uma vez em que uma das suas namoradas, por sinal uma das mais bonitas e meigas, também algo atrevidota, e como ele gostava disso, se sentara de saia plissada no bordo do tampo e o puxara para si. O que se seguira, não o esquecera nunca, emergia quando ali ia, embora o tempo se tivesse encarregado de tornar esse momento de êxtase numa aguarela esbatida.
A recordação teve o condão de o incentivar. Tinha dedicado essa manhã para iniciar a tarefa a que se propunha, continuá-la-ia durante a tarde e, sabia-o bem, iria necessitar de outras manhãs e tardes para a concluir. Mas a idade ensinara-o a fazer as coisas sem pressa.
Decidiu deixar o que lhe parecia mais fácil para o fim. Reservaria alguns livros de literatura para oferecer à Biblioteca da Junta de Freguesia, inaugurada dois anos antes. Conservaria consigo aqueles que mais estimava, alguns romances “clássicos” e outros que lera mais do que uma vez, ou que tinham algum significado especial para si.
A parte complicada da arrumação era seleccionar o que descartar nesta fase da sua vida. O que já não interessava, aquilo em que nunca mais iria mexer, tudo o que só estava ali para ganhar pó e poder ser atacado pelo bicho do papel, o chamado “peixinho prata”, como é que alguém poderia apelidar simpaticamente aquilo de peixinho?
Hesitante, foi tirando um ou outro livro técnico, um ou outro dossier, abrindo e folheando, pondo de lado, separando em montes na secretária, aqui e ali pelo chão, rasgando folhas então inúteis para o lixo. Em cada gesto, porém, a sensação de que era um pedaço de si que se separava, uma parcela do seu passado, uma parte da sua história a ser rasgada ao ritmo das folhas, a ser posta de lado, apagada da sua vida.
Contudo, alguns dossiers e vários livros irão voltar do chão e da secretária para as estantes, pois desfazer-se disso, mesmo sabendo que deles nunca mais irá precisar, e por muita coragem que possa ter, cortar esse cordão umbilical com a vida passada seria morrer antes do tempo.

(O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.)

DIVULGAÇÃO LITERÁRIA | O ÚLTIMO VERÃO DE KLINGSOR, de Hermann Hess - DOM QUIXOTE / Tradução de Patrícia Lara


Nas livrarias a 30 de Junho

Escrito pouco depois do fim da Grande Guerra, O Último Verão de Klingsor relata a história de um famoso pintor, Klingsor, que vive uma explosão final de criatividade no último verão da sua vida.

Pintor expressionista orientado pela emoção, a entrega de Klingsor à arte é total pois considera que esta corporiza a essência da vida.

Amante dos extremos, opõe-se violentamente à moderação e à mediocridade. Não gosta de planear nada com antecedência pois não acredita no amanhã e vive cada dia como se fosse o último. Na vida tem apenas dois pontos centrais de interesse em que é bem-sucedido: criar arte e amar.

Como Demian, Siddhartha, Goldmund e Joseph Knecht, Klingsor não é uma personagem vulgar. Atingiu um patamar de sucesso fora do comum na arte que escolheu e trabalha intensamente para manter esse nível. E, tal como outros heróis dos livros de Hesse, luta por trilhar o seu percurso individual e único para atingir o fim que se propõe na vida.