sábado, 28 de março de 2020

A AGONIA DO ARGUS, de Fernando Teixeira















Faz hoje 50 anos que o Argus partiu para a sua última campanha de pesca no Atlântico Norte.

Sendo um dos mais notáveis lugres-motor bacalhoeiros da célebre White Fleet, a Frota Branca portuguesa de navios de pesca de bacalhau à linha, é conhecido pelos protagonistas da Faina Maior, essa epopeia marítima que levou milhares de pescadores aos mares da Terra Nova e da Gronelândia até meados dos anos setenta, do século XX, como um dos três cisnes, o “irmão” mais novo dos navios gémeos Creoula e Santa Maria Manuela, pela elegância e velocidade de navegação.

Construído pelos estaleiros holandeses Dehaan & Oerlemans, em 1939, para a Parceria Geral de Pescarias Lda, com um desenho muito idêntico ao dos outros dois “irmãos”, o Argus, ligeiramente mais longo, comportava algumas alterações, como um porão de maior capacidade, e melhoramentos na sua estrutura que o tornavam mais “valente” para o mar.

Em 1949, o capitão australiano Alan Villiers, conhecido pelas suas reportagens sobre outras frotas para a National Geographic, é convidado pelo embaixador Pedro Teotónio Pereira, em Washington, em nome do governo português, para documentar a faina a bordo dos navios bacalhoeiros portugueses, a fim de que ficasse registada uma arte que tendia a desaparecer, a da pesca de bacalhau à linha em dóris, de um homem só por bote no caso dos portugueses, com óbvio intuito propagandístico do regime político vigente. Assim, na Primavera de 1950, o comandante Alan Villiers embarcaria no navio Argus e, da viagem, resultaria um filme e o livro A Campanha do Argus, no original The Quest Of The Schooner Argus, publicado no ano seguinte, o qual viria a ser traduzido em dezasseis idiomas.

Tendo deixado a pesca em 1970, havendo participado em todas as campanhas da pesca do bacalhau desde 1939, ininterruptamente, o Argus foi vendido a uma fundação canadiana, quatro anos depois, a qual, na impossibilidade de custear a sua recuperação, vendeu o veleiro a uma empresa americana que lhe mudou o nome para Polynesia. Ficou a operar com fins turísticos nas Caraíbas até 2006, ano em que morre o seu proprietário, facto que levou ao abandono posterior do navio, em Aruba. Então, as autoridades arrestaram o navio para ser vendido em leilão. Sabendo disso, e temendo que o antigo Argus e a sua rica história se perdessem para sempre, a empresa portuguesa Pascoal & Filhos S.A. comprou o navio, em 2008, para o recuperar e pôr a navegar como pretendia com o Santa Maria Manuela.

Hoje ainda, o Argus jaz acostado ao cais da Gafanha da Nazaré, moribundo, sucata à espera que lhe devolvam os dias gloriosos de navegação no mar. À espera de se juntar aos seus “irmãos” entretanto recuperados: o Creoula, tutelado pelo Ministério da Defesa Nacional e ao serviço da Marinha Portuguesa, e o Santa Maria Manuela, agora pertencente à Sociedade Francisco Manuel dos Santos, principal accionista do Grupo Jerónimo Martins, desde Novembro de 2016. E os portugueses, nomeadamente os nossos bravos pescadores bacalhoeiros felizmente ainda vivos, anseiam pelo dia em que possam voltar a ver os três cisnes sulcar os mares, juntos.

Os actuais proprietários muito fizeram para trazer este navio para Portugal, operação que foi bastante dispendiosa, e estima-se que o custo da sua recuperação fique entre 15 e 20 milhões de euros. Apesar de pertencer a uma entidade privada, o Argus precisa do interesse de mecenas ou do próprio Estado, que parece ter dinheiro para tudo menos para o que realmente importa. Nem é necessário mencionar os milhares de milhões de euros que o Estado português já injectou na Banca, para cobrir gestões danosas, basta referir que foram gastos 200 milhões em projectos para o TGV, sem que se construísse um metro de linha férrea de alta velocidade. Lembram-se? E não há dinheiro para salvar o Argus...

O mítico Argus faz parte da nossa História Marítima. Respeitar o passado deste navio e o dos homens que nele arduamente pescaram deveria ser um desígnio nacional. Os nossos pescadores dos dóris continuam à espera que a nação os reconheça como merecem.

O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

sexta-feira, 20 de março de 2020

PERDIDA, de Anita Dos Santos















Há uma característica, que muitas pessoas terão, ou pelo menos eu assim penso.

É o facto de se aperceberem de que há algo errado perto de si, ou com alguém perto de si, antes de que outras pessoas, aparentemente vejam algo errado ou até o percebam de todo.

Hoje, numa loja de pronto a vestir, um grande espaço comercial, dei com os olhos numa criança, uma menina com uns cinco anos, de chupa-chupa na mão, que deambulava sozinha pelos corredores.

Fiquei parada por momentos, e depois comecei a segui-la.  Ela olhava para todos os lados, calmamente, e de vez em quando chamava pela mãe…

As pessoas passavam por ela e simplesmente ignoravam a criança. Estive uns momentos parada de parte, de olhos postos em cima dela, para ver se aparecia alguém em resposta aos chamamentos regulares, embora calmos. Mas não, não apareceu ninguém. Ela não estava assustada, dava mais uns passos, olhava para todos os lados, e chamava. Seria aquilo uma situação usual?

Aproximei-me dela com um sorriso, e perguntei-lhe:

- Não sabes da mãe? – Abanou a cabeça.

- Não, não sei.

- Sabes o que vamos fazer? Vens comigo, e vamos à procura de uma das meninas da loja para ela chamar a tua mãe ao microfone. – E ela foi comigo.

Lá encontrámos uma funcionária, muito simpática e atenta, a quem disse o que se estava a passar, e a garota foi com ela.

Nesta situação, fiquei a pensar em duas coisas: primeiro, o facto de a criança se ter perdido e não estar ninguém, aos gritos, a chamar por ela (era o que eu faria!)

Segundo, a facilidade com que ela me acompanhou e a calma que manteve sempre.

Bem sei que eu estava a ajudar, mas podia não ser o caso.

Lembrei-me de os meus filhos serem pequenos e ter um perfeito terror quando tínhamos de ir ao supermercado, mesmo sem que eles saíssem do carro das compras.

Uma das coisas que lhes ensinei, foi que quando estávamos no supermercado se houvesse alguém que não eu e o pai, quisesse que eles os acompanhassem, deviam fazer o maior berreiro, gritar o mais alto que conseguissem para chamar a atenção de toda a gente, e dizer o que se estava a passar. Felizmente, tal nunca foi necessário.

Quando saí a porta da loja, lá estava a funcionária a acompanhar a menina, bem como o segurança, e a mãe ainda não tinha aparecido. “Minha senhora, infelizmente isto sucede todos os dias”. Esta foi a resposta do segurança.

Definitivamente algo está errado com a maneira como a sociedade está a evoluir.


A autora escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.


quinta-feira, 19 de março de 2020

MARIA (continuação), de Mafalda Pascoal

 



A senhora que estava a pôr a mesa, com a cabeça, aponta para Maria, a senhora V fez uma cara diferente e com uma voz totalmente diferente, chega-se ao pé de Maria e diz:
-Meu docinho, anda para a mesa que tens que comer muito para ficares mais bonita para o teu pai que chega hoje!
 Maria pergunta logo de seguida:
- Não posso ir já ter com ele?
- Não querida, só depois de comeres!
Maria foi a correr para a mesa, comeu, comeu e comeu até não caber nem ter fôlefo para mais. Com a boca cheia e quase sem fôlego perguntou-lhe se já podia ir e ela respondeu:
- Sim, mas espera, que eu vou contigo até à entrada da floresta!
Assim foi. Chegaram à entrada da floresta, Maria entrou sempre a correr, sem ter medo de nada , sem olhar para trás, sempre a correr...
Os dias foram passando, pouco diferentes uns dos outros.
Maria começava a habituar-se àquele sítio. Por enquanto não havia muito frio, aquela árvore continuava a dar-lhe frutos e Maria começou a aventurar-se a fazer umas caminhadas, mas sempre decorando o caminho para poder regressar à árvore-mãe como ela passou a chamar-lhe. Começou a provar bagas diferentes para saber quais gostava mais e que poderia comer.
A cada dia que passava fazia uma caminhada maior.
Numa dessas caminhadas, começou ouvir um barulho estranho, olhou para trás, nada...olhou para o céu, nada... então atreveu-se a ir mais à frente ao encontro daquele barulho cada vez mais intenso.
Ficou maravilhada com o que se deparou à sua frente... parecia as páginas do livro de histórias que seu pai lhe lia todos os dias, quando estava com ela, antes de dormir...
Tudo era tão lindo... tudo era céu aberto e muitos fios de água a correr até lá abaixo, tudo era muito verde, havia muitas flores e árvores com frutos... mas Maria tinha que procurar um caminho para lá chegar e o sol estava a esconder-se e depressa ficaria escuro, por isso seria melhor regressar à árvore-mãe.
Voltou a correr e depressa chegou ao seu ninho debaixo da árvore-mãe. Quando Maria chegou ao seu  ninho, este estava coberto por coelhos que, ao senti-la, todos fugiram, Maria ficou cheia de pena por eles terem fugido, sempre eram uma companhia, pois ela adorava todos os animais, desde que não fossem maiores do que ela
Aninhou-se e, antes de adormecer, pensou que de manhã quando acordasse, comeria os seus frutos e iria até àquele sítio lindo, para procurar um caminho para ir até lá abaixo.Com tanta água deveria poder banhar-se, coisa que já não fazia desde que ali chegara.
O seu querido pai como estaria, tantas saudades do seu pai, tantas tantas que quase arrebentavam o seu peito, na sua tenra idade, fez beicinho e soluçou baixinho...
Quando acordou, espreguiçou-se, esfregou os olhos e reparou que os coelhos estavam por ali novamente em volta dela e desta vez não fugiram, andavam por ali, cheiravam-na, punham-se em pé... Maria começou a dar-lhes frutos na palma da sua mão a fazer-lhes festas e eles ficaram por ali já sem medo dela... Maria respirou fundo e sentiu-se reconfortada... entreteu-se com os coelhos, havia coelhos brancos, pretos, malhados, castanhos... havia tantos de tantas cores... depois começaram a aparecer coelhos pequeninos, tão pequeninos atrás das mães e a virem para o pé da Maria, o tempo foi passando e Maria ficou ali entretida com os coelhos esquecendo do propósito desse dia, mas iria no outro dia, com tantos amiguinhos novos que fez, não teve coragem para ir embora e deixá-los, quem sabe não lhe fariam companhia até àquele sítio lindo. A noite veio e ali ficaram todos aninhados uns nos outros à volta de Maria.
A noite passou sem sobressaltos para Maria, foi até a melhor noite que teve desde que está na floresta.
Maria acordou, ficou feliz ao verificar que os seus amiguinhos coelhos pululavam em seu redor. Sentou-se a observá-los... eram todos tão lindos... Maria sentiu o seu coraçãozinho tão cheio de satisfação, de felicidade...

(Continua)

A autora escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.


quarta-feira, 18 de março de 2020

UM APLAUSO MERECIDO, de Fernando Teixeira















Um aplauso de alguém, de um grupo de pessoas ou de uma multidão, é sempre uma manifestação de regozijo por um acontecimento, uma reacção a um sucesso ou o reconhecimento do mérito de alguém. Observamos, frequentemente, ovações efusivas pela ocasião de aniversários e casamentos, em celebrações comemorativas, em concertos musicais, em eventos desportivos… Um bruaá de palmas que explode subitamente em sinal de alegria ou de que a alma se nos encheu de contentamento, por algo que nos agradou ou aconteceu, correspondendo às nossas expectativas.
Nos últimos dias, em várias cidades de Portugal, de Espanha e de Itália, provavelmente noutras por esse mundo fora, numa acção concertada e em resultado do confinamento requerido pela situação de pandemia, milhares de pessoas têm assomado às janelas de suas casas, aplaudindo conjuntamente, durante largos minutos, em sinal de reconhecimento pelo trabalho que as equipas médicas e pessoal hospitalar têm desenvolvido na luta contra o surto de COVID-19.
Não aplaudem uma jogada brilhante da sua equipa ou jogador preferido, um golo que aconteceu, uma peça musical tocada com mestria, nem tão-pouco alguém que conhecem. Batem palmas a pessoas anónimas, palmas de agradecimento, apoio e solidariedade, convictos de que esses profissionais da saúde estão a exercer a sua actividade em condições dificílimas, sujeitos a uma enorme exigência, e expostos na linha da frente à ameaça que combatem, obrigando-os a cuidados extremos de protecção individual, correndo o risco de serem eles também vítimas.
Esses profissionais, médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar, não cedem, não desanimam, não pensam em si, antes continuam firmes numa luta contra o tempo e contra um inimigo silencioso e invisível, letal nos casos mais graves em que esperam conseguir operar milagres.
A população, em geral, já se consciencializou da ameaça que paira sobre si, nos dias que correm, nas próximas semanas e ainda durante alguns meses, provavelmente. As pessoas sentem-se inseguras e impotentes contra esta nova ameaça, tentando contrariá-la seguindo as recomendações das autoridades de saúde, no sentido de se protegerem e não serem alvo de contágio. Contudo, sabem que, se tiverem o infortúnio de serem contagiadas por este vírus, com gravidade, serão aqueles profissionais hospitalares a sua tábua de salvação, a sua única esperança. Por isso, aplaudem a sua competência, mas sobretudo a sua tenacidade, a persistência perante o esforço e a exaustão.
Poderão estes médicos e enfermeiros dizer que não precisam de palmas, que precisam é de que a população se mantenha fechada em casa, a única forma de contrariar a propagação deste vírus insidioso e maldito. Talvez! Porém, tenho a certeza de que não foram, e não são, indiferentes a estas manifestações de solidariedade e de reconhecimento por parte da população, e que isso os motiva e fortalece ainda mais.
Este aplauso da população é extensível aos profissionais de outros ramos de actividade, como sejam a produção de alimentos, o transporte de mercadorias, a indústria farmacêutica, os bombeiros e forças de segurança, e tantos outros cujo trabalho é imprescindível para que a nossa vida continue e para que esta travessia por águas tumultuosas chegue a bom porto. Todos merecem o nosso aplauso!   
Cabe-nos fazer também a nossa parte, no nosso próprio interesse, para lhes facilitar a missão: mantermo-nos confinados às nossas casas, abstendo-nos de contacto social, saindo apenas para as actividades estritamente indispensáveis e no menor número possível, como a aquisição de bens essenciais, observando os procedimentos e as normas de higiene recomendadas, a fim de que o número de vítimas seja igualmente o menor possível, no termo desta crise pandémica.
Que o aplauso à janela das nossas casas seja também um aplauso aos que vivem em edifícios vizinhos, como expressão do reconhecimento de cada um pelo esforço de todos, em espírito de comunidade, pois só sairemos disto se nos mantivermos firmes e unidos nesse objectivo.

(O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.)

domingo, 15 de março de 2020

NA CABANA, JUNTO À PRAIA..., de Maria Cecília Garcia















Quando o conheci pareceu-me interessante, tinha acabado de chegar de Caracas, era culto e conversador, mas havia na sua expressão qualquer coisa pungente, uma tristeza escondida que lhe escurecia o semblante.

Engraçámos um com o outro. Ele achava graça à costureirinha da aldeia que também era bibliotecária e encarregada da cooperativa de consumo do lugar. As suas visitas não se fizeram esperar e passaram a ser frequentes, como quem não quer a coisa, aparecia lá em casa apenas para dizer olá, mas acabávamos por ficar horas esquecidas na conversa.

-Gosto muito do teu irmão… - dizia eu à minha amiga, com a esperança de que ela pudesse fazer de Cupido. Pouco a pouco comecei a desejar que ele viesse, olhava ansiosa para a estrada para ver se via aparecer o seu Volkswagen preto.

Delirei quando ele, se não me encontrasse em casa, começou a meter debaixo da porta uma folha com um poema, ou parte de um poema. Cada dia me sentia mais atraída por ele, era tão romântico, tão delicado, tão respeitador…. Admirava o homem que nunca fazia provocações, que nunca tentava aproveitar-se, nem um bocadinho…era tão diferente dos outros, sempre prestes a roubar qualquer coisa, a tentar aproveitar o momento…

À medida que o tempo passava impacientava-me, não chegava só o romantismo e o respeito extremo. Algo mais devia acontecer! Numa noite, durante uma das nossas intermináveis conversas, eu só pensava que ele devia dar-me um beijo. Desejava tanto que isso acontecesse! Mas ele não se decidiu e então fui eu, fui eu que lhe roubei um beijo. Mais valia que não o ter feito. Ele ficou tão ofendido, tão consternado, que eu quase morri de vergonha. Senti-me uma descarada, e na verdade até fui, mas alguém tinha que romper o gelo! Desapareceu durante algum tempo, deixando-me afogada de arrependimento e vergonha.

Mais tarde, encontramo-nos num baile de garagem e depois de um gin tónico, ele dançou comigo. Abraçou-me e até me beijou à frente de toda gente.

Então eu pensei: agora sim, a coisa vai andar! Mas não andou. Algumas amigas presentes na festa aproximaram-se de mim: - com que então…quem havia de dizer! Dizem que ele é gay (nos anos 80 não se usava esse termo.) mas pelo visto isso não passa de mexericos…namoras com ele? Eu não sabia se namorava, mas lá que alguma coisa tinha acontecido, tinha!

Eu sentia-me eufórica, cada dia mais ansiosa por voltar a vê-lo cada gesto de carinho por parte dele era como uma massagem no meu coração. Depois dos beijos dados na festa, passou-se algum tempo até que eu voltasse a encontrar poemas, sempre escritos numa bela caligrafia e assinados por ele, debaixo da minha porta.

Entretanto chegou o momento em que ele devia regressar para a Venezuela e, por pura coincidência, eu tinha que voltar também, por motivos de saúde. Eu sofrera derrames pré-retinianos que me estavam causando cegueira, era um caso sério e raro para alguém da minha idade. Eu pretendia efectuar uma consulta com o Dr. Barraquer, o mais famoso oftalmologista desse tempo. Ele tinha uma clínica em Bogotá, e a minha família já tinha feito marcação. Eu tinha mesmo que ir.

Depois desses derrames nunca mais pude ver uma linha direita, as linhas estavam sempre tortas, assim como a minha vida.

Apetrechada de razões, lá fui eu, de regresso à Venezuela. Pensar que iria encontrar o meu amor quase platónico nesse país, minorou a angústia de deixar a minha ilha.

Atrevida como era, precisava vê-lo e para isso tinha que arranjar um pretexto para ir a Caracas. A melhor justificação que consegui foi uma consulta com o melhor oftalmologista da capital, antes de ir a Bogotá. Se este médico, que era uma sumidade naquele país, considerasse que o meu caso não tinha cura, nem valia a pena ir à Colômbia.

Senti-me justificada para telefonar ao meu amor platónico. Pedi-lhe que me recomendasse um hotel decente para eu passar a noite, uma vez que teria de ir de véspera. Ele aceitou com agrado, até com alegria, segundo me pareceu. Reservou um para mim um hotel relativamente próximo da clínica onde eu devia ir.

Tinha ficado combinado que ele passaria a buscar-me para irmos dar uma volta pela cidade e terminar a noite no piano-bar de um grande amigo dele.

Em realidade passeamos pouco pois ele tinha pressa de chegar ao bar. O piano-bar era excelente, requintado, com bom ambiente e o amigo dele, filho de espanhóis, muito simpático, Muito jovem e belo também. A barra do bar rodeava o pianista que tocava música pedida. O M. pediu uma música romântica, já não me lembro qual era, mas julguei fosse dedicada a mim. Tudo corria às mil maravilhas!  Boa conversa, bom ambiente, boa música…

Mas a bebida causou um efeito estranho no M. Ficou macambúzio, deprimido, começou a chorar, a dizer coisas incoerentes… Eu não entendia o que se passava, o amigo tentava acalmá-lo, mas parecia ser cada vez pior.

Já não sabia o que fazer da minha vida. Ele tinha um balão de whiskey que apertava cada vez com mais força, com intenção de o estilhaçar nas mãos, eu tentei de todos os modos tirar-lhe o copo, mas senti que ele começava a ceder, o copo, e tive medo de ferir-me. Então dei-lhe um estalo, surpreendido ele largou o copo. Olhou para mim horrorizado e saiu porta fora…
E agora, que faço eu nesta cidade que mal conheço, a esta hora da noite? – interrogava-me.-
O jovem espanhol tranquilizou-me: - Deixa lá, não te preocupes, eu levo-te ao hotel - E assim o fez.

Quando cheguei ao hotel, lá estava o M. Pediu desculpa… e eu, ok, tudo bem. Esqueçamos. Pensei que seria uma noite decisiva, e na verdade foi.

Poucos minutos depois ele estendeu-se na cama e, acto seguido, começou a roncar como um motor. Eu, bem à beirinha da cama, tentei dormir, mas não consegui.

Pela manhã, bem cedinho ele acordou, olhou para mim como um zombie, viu que eu parecia feliz, satisfeita, como se tivesse passado a melhor noite da minha vida.

- O que é que aconteceu? - Perguntou.

Decidi ser má. Sorri beatificamente e não respondi imediatamente.

- Mas diz-me – Parecia aterrorizado - aconteceu alguma coisa? Diz-me!

Mas eu continuei com o meu ar feliz…

- Não te lembras? Não me digas que não te lembras de nada… - respondi maldosamente.
Ele desesperou

- És igual a todas! Pensei que eras diferente! Aproveitaste-te de mim!  Não tinhas esse direito! -E saiu porta fora, com a roupa amarrotada e os óculos tortos encavalitados no nariz, e quase posso assegurar que tinha remelas e restos de baba nos cantos da boca. E eu nem me tinha aproveitado de nada, mas ele parecia uma virgem ofendida!

Fui à consulta, tive que fazer dilatação em ambos os olhos, e isso resultou numa tortura quando saí à rua sob o sol incandescente do meio-dia. Estava como cega e a luz fazia doer imenso. Senti medo, não conseguia orientar-me.

A minha intenção era, logo depois da consulta, dirigir-me ao terminal rodoviário e regressar a casa, mas em vez disso, apanhei um táxi e dirigi-me ao hotel. Eu sabia que estava reservado por dois dias, embora eu só precisasse de uma noite. Estendi-me na cama e decidi esperar até que o efeito do dilatador passasse a minha visão voltasse ao normal.

Ainda estava no meu descanso quando senti a porta do quarto abrir-se, levantei-me logo, pronta a dar explicações, só podia ser M. E era. Mas não vinha só, acompanhava-o um jovem moreno com ar de morador de rua. Olharam para mim, olharam um para o outro e, desorientados, escapuliram-se corredor fora.

Eu agora já via melhor, e não era só dos olhos…

Saí daquele lugar e corri pelas ruas até chegar ao piano-bar. Por sorte estava lá o espanholito. Quando me viu chegar aproximou-se de mim e sentámo-nos os dois a conversar.

- Já percebeste o que aconteceu com o M, estou a ver… olha, aquela cena de ontem foi por minha causa. Nós tivemos um caso, eu era muito jovem, tinha catorze anos e muita curiosidade, ele não me deixava em paz. Enfim… coisas da adolescência, ao menos para mim. Mas para ele foi um caso sério: apaixonou-se. Não havia maneira de o afastar, e eu não queria que a minha família e amigos percebessem, sabes como é… Depois encontrei uma miúda por quem me apaixonei e ele não suportou.

Foi embora para Portugal, julgo que na tentativa de me esquecer. Agora que regressou tem-me rondado outra vez, todas as noites aparece cá, com ar de cão abandonado. Suplica… Ontem não te deste conta, mas eu disse-lhe algumas palavras, disse-lhe que me esquecesse porque vou casar em breve com a mulher que amo. Daí a figura que ele fez …

Admirei aquele rapaz que se abriu comigo com confiança, que falou de coisas tão íntimas que eram tabus para a época. Nos anos 80 pouco se falava de homossexualidade, nem se aceitava com a mesma naturalidade de hoje.

Foi tão querido que me levou até a estação das camionetas e me fez companhia até sair no autocarro. Durante a viajem muito pensei no assunto. Afinal, que parvoíce tinha sido a minha?

Como me apaixonei assim? Vendo bem, ele nem era tão interessante… era escuro esverdeado, magro como um pau de virar tripas, usava uns óculos que mais pareciam o fundo de uma garrafa, o nariz parecia o bico de uma águia… sou mesmo palerma!

Mas o que não lhe perdoo foi ter-me enganado, descobri que os poemas dele não eram dele, eram apenas alguns versos da canção de José Cid, na Cabana Junto à Praia…eu devia ter percebido, pois na minha praia há canaviais, mas não há dunas, apenas calhaus.

Que idiota que eu fui!  Esse dia jurei nunca mais me apaixonar por um gay!


Maria Cecília

sábado, 14 de março de 2020

O MUNDO EM “STAND-BY”, de Fernando Teixeira















Vivemos tempos conturbados e de incerteza desde que o mundo acordou, no final de 2019, para uma ameaça nova, contundente, letal… Já se experimentaram várias dessas ameaças num passado recente, relacionadas com doenças epidémicas, algumas delas ocorrendo em regiões geográficas distantes, mas esta, mais recente, a do novo coronavírus designado Covid-19, foi declarada “pandemia” pela Organização Mundial da Saúde, por se constatar que este problema afecta quase todo o planeta.

Este mundo tornado “aldeia global” e a facilidade com que milhares e milhares de pessoas viajam diariamente para outras paragens, seja por motivos profissionais ou de lazer, fazem com que a propagação de doenças altamente contagiosas se processe de forma célere e assertiva. Por esse motivo, também Portugal se vê sob esta ameaça, ainda que, no dia em que esta crónica é escrita, de modo ainda não tão grave como acontece noutros países.

Os governos e as autoridades de saúde das nações afectadas têm vindo a implementar medidas de contenção e de combate a este novo coronavírus, tentando limitar o número de pessoas contaminadas e o número de vítimas mortais. Tais medidas, pela sua amplitude e pela forma como condicionam o modo de vida dos cidadãos e o funcionamento das empresas, obrigam a um compromisso individual de responsabilização e de civismo por parte de cada um de nós, e a uma alteração temporária do nosso modo de vida. A livre circulação de pessoas encontra-se condicionada, escolas são encerradas, a indústria é afectada, empresas poderão soçobrar, anuncia-se uma nova crise económica, talvez sem precedentes…

O progresso está em modo “pausa”, o mundo em “stand-by”.

Uma situação como a que se vive nos dias de hoje obriga-nos a repensar a fragilidade do ser humano, que nos torna um alvo destes microorganismos patogénicos, aos quais sucumbimos facilmente, sem apelo nem agravo. Este vírus maldito já roubou milhares de vidas e infelizmente continuará a fazer vítimas, cegamente, sem olhar a quem, até que seja finalmente debelado. O Covid-19 não distingue classes sociais nem diferencia as vítimas pelo seu estatuto, conhecimento ou poder. Ao invés, tem-nos reduzido a todos, ricos e pobres, poderosos ou fracos, à mesma condição de humanos frágeis perante este ataque silencioso e implacável, mostrando o ridículo das nossas guerras, politiquices e manigâncias pela conquista desenfreada de poder, influência, riqueza, estatuto e supremacia de toda a espécie sobre os demais. Tudo isso se torna insignificante e se esfuma perante este inimigo invisível. Esta é uma conclusão inevitável!

Cabe aqui uma homenagem a Li Wenliang, o médico oftalmologista chinês que primeiro alertou para a existência deste novo coronavírus, tendo até sido acusado pelas autoridades policiais de lançar um boato, e que, vítima igualmente de contágio, veio a sucumbir durante a sua luta contra a epidemia. Também Zhong Jinxing, director de uma clínica na cidade chinesa de Lingfeng, merece uma palavra de louvor pelo altruísmo de se ter voluntariado e disposto a trabalhar mais de um mês seguido, 33 dias sem descanso, o que lhe provocou um ataque cardíaco e a morte, deixando mulher e uma filha de seis anos.

Uma última palavra para todos aqueles que lutam na linha da frente contra as consequências deste coronavírus, procurando salvar vidas: os médicos, enfermeiros e pessoal hospitalar que directamente intervém junto dos doentes contagiados, expondo-se também eles à possibilidade forte de contágio, exigindo-lhes máximo esforço e cuidado na sua protecção. Pela sua competência, abnegação, generosidade e dedicação, pela exaustão a que estão sujeitos, ultrapassando inúmeras dificuldades e insuficiência de meios, merecem um inequívoco reconhecimento do seu valor e um profundo agradecimento de cada um de nós.

(O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.)




sexta-feira, 6 de março de 2020

DE PARTIDA, de Anita Dos Santos















Quando Nela e Nanda acabaram de despedir-se dos filhos, Bosques acercou-se delas e pediu-lhes:

- E eu também quero falar com as Escolhidas. Temos coisas para conversar.

Assim dizendo, afastou-se com ambas a fim de ter privacidade para a conversa que pretendia ter.

Quando por fim voltaram, as duas mulheres permaneceram muito caladas, falando somente para fazer novas recomendações aos filhos, de semblantes fechados e preocupados.

- Muito bem, Bosques. Disse que sabia que caminho que devíamos seguir. Pois então, indique lá o rumo para nos pormos a caminho.

Vicente, com o Bosques num ombro, onde ele gostava de seguir, e o Cotovia no outro, parecia um candelabro.

A seu lado, André acompanhado pelo Traquinas, ouvia a tirada do amigo com um sorriso nos lábios.

- E “tá” claro que sei! Não tem dúvida aí! Vamos pelo meu caminho. O mais rápido e o mais curto.

- Então vai ser num abrir e fechar de olhos. – Exclamou o Traquinas, a esfregar as mãos com um sorriso matreiro e divertido.

- Não! – O André ainda soltou um lamento, de olhos bem cerrados, ao som das gargalhadas do Traquinas e do Cotovia para, em seguida, abrir os olhos e encontrar-se em Debaixo do Monte, ainda ao som das gargalhadas dos dois travessos feéricos.

O Bosques tinha a sua forma muito própria de se locomover, só precisava conhecer o local para onde queria ir e, num abrir a fechar de olhos, deslocava-se para onde queria levando consigo, se preciso fosse, quem muito bem entendia.

Este meio de locomoção, de um lado para o outro num salto intemporal, trazia, no entanto, alguns contratempos aos dois jovens humanos…. Ficavam nauseados que nem uns foliões depois de dois dias de farra a beber cidra com dois anos de casco!

Está claro que esta situação era caso de grande divertimento para os feéricos, que aproveitavam estas ocasiões para se divertir com os jovens.

- Que saudades das Pedras Redondas! – Exclamou o Cotovia, a arrulhar para as ditas pedras.

- Não me lembrava de as Pedras Redondas serem seis… - Disse o Vicente, com voz arrastada.

- Seis? – Perguntou o André, a olhar para as ditas pedras com um olho aberto e o outro fechado. – Daquele lado estão quatro…

O Traquinas não aguentou as gargalhadas, agarrado às costelas, com um braço sobre os ombros do Cotovia para se aguentar de pé. Este, por sua vez, também ria como um louco.

- E se já acabaram com a risota, levem o André e o Vicente para Debaixo do Monte para eles descansarem. – Aconselhou o Bosques, um olho nos jovens, que estavam sentados no chão e o outro nos dois feéricos.

- Meu Senhor, para os levarmos…

- Sim, sim, fiquem no tamanho antigo. – Atalhou o Bosques, sem mais delongas encaminhando-se, por sua vez, para o local para onde os mandou ir.

Cotovia e Traquinas esfregaram as mãos, de olhos brilhantes enquanto sacudiam os ombros, ficando da altura de Vicente e André.

- Ponto! Lá encolhi outra vez! – Exclamou Vicente, em tom de lamuria, ao olhar para o Cotovia com os olhos vidrados.


A autora escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.



quinta-feira, 5 de março de 2020

NOTURNO ARCO-ÍRIS - ZÉ DO GARDANHO E O DIMAS
















Este caso que vos vou contar não é limpinho.
Trata de um assunto um bocado sujo. Aviso já, para que as pessoas mais sensíveis possam seguir com a vidinha e não percam o vosso tempo a ler porcarias.
Mas tenho que partilhar convosco, meus resistentes heróis leitores e leitoras, porque há mistérios que não devem ficar encobertos. Além do mais, os segredos são para serem revelados, porque se não forem revelados, não são segredos, são apenas coisas que nos enchem a memória.
Eu conheço um rapaz que é ladrão. Se calhar conheço outros, mas que não sei que andam nessa vida. São os incógnitos, aqueles que depois dizemos: “é pá, nunca imaginei, conheço-o há tantos anos e nunca pensei!” Este caso é diferente. Eu sei, é ladrão mesmo.
Ou melhor, era ladrão. O Zé do Gardanho cresceu aqui na rua. Brincámos juntos e sempre nos demos bem. Mas lá está, cada um faz a sua vida e a vida do Zé era gamar.
Era. Agora o Zé é sério, tem uma panificadora, ficou com o negócio do padrasto.
Mas quando éramos putos, e depois em chavalo novo, já o Zé gamava. Não ganhou a alcunha num concurso de pesca a apanhar alcorrazes. Desde puto sempre lhe deu para gamar.
E fez vida de gamar. Roubava carros, para andar e para vender os auto-rádios. Roubava casas de pessoas que estavam de férias. Roubava relotes em parques de campismo daqueles de campistas sedentários, que têm a relote toda equipada. Roubava lojas de desporto para vender a roupa de marca. Roubava lojas de eletrodomésticos, isto antes de os eletrodomésticos começarem a ser vendidos nas lojas grandes ao lado dos supermercados.
Também é verdade, e justiça lhe seja feita, que nunca roubou a ninguém aqui na rua. E quando alguém se esquecia do carro aberto ou de alguma janela do rés-do-chão escancarada, o Zé era o primeiro a avisar:
-        É pá fecha a janela que anda aqui uma gatunagem que um gajo não está descansado em lado nenhum.
E claro, nós fechávamos!
O que é certo é que o gajo é que era o ladrão, mas todos lhe compravam coisas. Mesmo as pessoas mais sérias, quando precisavam de trocar de televisão, ou de um auto-rádio com leitor de CDs, ou de um computador pró puto, todos, sem exceção iam ter com o Zé. E o Zé facilitava.
Quando foi a epidemia da heroína dos anos noventa e que meio mundo estava agarrado e o outro meio mundo sofria com os consumos da metade dependente, o Zé continuou a gamar, apesar da concorrência desleal. Nessa altura, deixou-se dos eletrodomésticos e passou a trabalhar mais em carros e em peças de carro. Os mecânicos desonestos falavam com ele e encomendavam, ele arranjava o material e cobrava muito menos que na marca.
Até que um dia deixou de gamar. Já lá vão mais de vinte anos.
As pessoas iam falar com o Zé e ele, meio envergonhado, pedia desculpa e dizia que já não fazia essa vida. Empregou-se na panificadora do padrasto, assim como assim, já estava habituado ao turno da noite.
E de repente, da noite pró dia, deixou de gamar.
Sei disto, não foi da boca de ninguém que ouvi contar. Foi o Zé que me disse.
Um amigo próximo, músico, o que quer dizer quase sempre sem dinheiro, um dia perguntou-me se eu conhecia alguém que tivesse algum amplificador para vender... o amplificador dele tinha dado o berro!
Pois nesse próprio dia encontrei o Zé do Gardanho e mandei-lhe a boca:
-        Zé, com respeito ao respeito, tenho de falar contido aí de uma situação.
-        Diz lá mano, sabes que aqui o Zé, só não ajuda se não puder!
-        É Zé, tenho aí um chavalo amigo que precisa de um amplificador para uma guitarra, tu às vezes aparece-te material desse na dispensa, não tens por lá uma coisinha bacana aqui pró amigo do teu amigo?
-        Olha, pra caso, até tive uns quatro que despachei ao desbarato..., mas agora neste momento não tenho nada....
-        E não consegues dar um jeitinho?
-        Não. Não posso. Já não faço essa vida. Arranjei trabalho na panificadora do meu padrasto e agora é só vida honesta. Já não ando no gardanho!
-        A sério? Mas o que é que te deu? Ficaste doente? Foste catado? Eles andam atrás de ti?
-        O quê? A polícia? A mim? Não mano. Nada disso, teve mesmo de ser. Foi de repente. Acabei com essa vida e meti-me a padeiro!
Porque, já todos sabemos, que conversar dá sede, fomos à tasca beber uma. Era no tempo em que eu ainda bebia.
E foi na tasca vazia, que é propícia a confidências que ele me contou.
Deixou de gamar porque teve um sonho.
Um sonho com o pai. O pai dele morreu de desastre de automóvel quando ele tinha três anos... Nem eu nem ele conhecemos o pai dele. Conhecemos a mãe que todos chamavam a Berta do Vizinho Elizeu, mesmo depois de se ter casado com o padeiro. E o pai do Zé era o Vizinho Eliseu. Homem estimado aqui nesta pequena comunidade. Um homem popular no bairro que deixou saudades. Pois foi precisamente o pai do Zé quem lhe apareceu num sonho e lhe disse que ele tinha de deixar de gamar. E o Zé, que acredita no inexplicável, fez o que tinha a fazer: deixou.
-        Pois é natural... um pai não deve gostar que o filho ande a roubar...
Moralizei eu...
Nada disso. O meu pai, quer dizer o espírito do meu pai, sempre me ajudou na vida do gardanho. Foi o espírito do meu pai que me ensinou os truques todos das portas e fechaduras.
Realmente o falecido era serralheiro, pensei eu. Um grande artista, segundo consta aqui na rua. O portão do quintal cá de casa ainda foi o Vizinho Eliseu que fez.
O Zé, com a garganta lubrificada, continuou.
E foi o espírito do meu pai que me ensinou o segredo de nunca ser apanhado. Era segredo, agora  já posso contar. Pois é assim, muito simples. O segredo para nunca ser apanhado é um gajo cagar no sítio que está a roubar.
-        A sério? Mas cagar como? Cagar, cagar mesmo?
-        Sim, fazer cocó. Cagar, obrar, defecar.
Fiquei calado com a mesma cara que vocês, que têm a paciência de me ler, estão a fazer agora: entre o enojado e o surpreendido.
O Zé explicou.
Pois quando se entra num sítio para roubar, a primeira coisa a fazer é ir aliviar a tripa. Tem de se arranjar vontade. Às vezes os nervos ajudam, porque entrar num sítio que não é o nosso, trazer coisas que o dono não se quer desfazer delas... mete nervoso... Outras vezes é preciso fazer um bocado de força. No caso do Zé, já tinha o intestino educado e segundo o que ele me contou, era automático. Tipo sumo de uma laranja, bica da manhã e cigarro: receita infalível.
Se fosse casa ou loja, ia à casa de banho, claro. O Zé era ladrão, mas nunca foi porco. Se fosse carro, e nos últimos tempos só trabalhava em carros, levava um baldinho daqueles de plástico das azeitonas e fazia dentro do balde. Depois mandava ao rio e pronto, assim resolvido. Mas fazia sempre o serviço. Fazia o serviço e dizia uma oração a São Dimas que o pai lhe ensinou, também em sonho e era certo e sabido que não o apanhavam.
– Amigo, estou a dizer-te isto, porque foram mais de vinte anos sempre a gamar e nunca fui apanhado. A única vez que fui chamado à polícia foi por causa daquela vez em que fui às trombas ao Carademuseu e que o merdas foi fazer queixa de mim... tu sabes que tavas lá.
Sabia sim. Estava lá e também eu fiquei com vontade de bater no Carademuseu que por causa da vizinha Berta ter sacudido um tapete à janela, chamou todos os nomes à mulher. Que lhe estava a sujar o carro que tinha acabado de lavar.... Ora, o Zé do Gardanho estava a chegar a casa da mãe, e claro que não gostou de ver destratar assim a progenitora. E não gostando, bateu um bocado no Carademuseu que foi para o hospital concertar as costelas e ser operado ao maxilar que se partiu contra o passeio.
Eu confirmei que estava lá e vi. E se não fosse o Zé a aviar no Carademuseu, seria outro qualquer... porque o gajo estava mesmo a pedir.
Mas o Carademuseu, tem um primo advogado e meteu o caso em tribunal e depois o Zé teve de pagar uma indemnização.
Foi a única vez que teve problemas com a polícia. Antes disso, nunca, depois disso, nunca mais.
Mais de vinte anos a gamar e nunca foi preso, nem sequer chamado ao posto para prestar declarações.
Realmente ali havia coisa.
Voltei ao tema do bruxedo para não ser apanhado.
– Mas que oração era essa? Quem é o São Dimas?
– São Dimas é o Santo dos ladrões. Foi o bacano que foi crucificado ao lado do Cristo... andava a gamar lá na palestina e foi de saco. Depois quando os romanos fizeram a folha ao Cristo, também espetaram o São Dimas na cruz.
Eu sou pouco letrado e da bíblia sei pouco... acreditei na história.
– E que oração é essa que o teu pai te ensinou em sonhos?
O Zé, fez um ar sério e quase em segredo, sussurrou:
– São Dimas, meu Santo padroeiro, foste santo e foste ladrão, deixa-me fazer o meu dinheiro e aqui deixo o cagalhão!
– A sério? Tás a gozar comigo pá!!!
– Não estou mano, juro que não! Juro por tudo o que é mais sagrado, juro pela alminha do meu pai.
Eu não quis que jurasse mais. Acreditei nele.
Passaram duas décadas sobre esta conversa.
Hoje voltei a encontrar-me com o Zé do Gardanho, agora já não rouba, mas as alcunhas aqui no bairro, pegam-se para a vida e às vezes passam de pais para filhos e de filhos para netos.
Encontrei o Zé nas finanças. Estávamos ambos na posição de vítima. Eu a entrar e ele a sair.
Voltou-me tudo à memória porque o senhor que me atendeu, tinha uma placa ao peito onde estava escrito: Dimas.
Agora digam lá que é coincidência.