segunda-feira, 11 de novembro de 2019

A PART OF ME, de Ana Ribeiro















Todos vivemos na busca da pessoa que nos completa. Procuramos a outra metade do que somos no cerne de milhões de opções, até ao dia em que o tão esperado momento chega… E tu apareces. E tudo muda e a minha vida deixa automaticamente de ser a mesma porque estás aqui, porque fazes parte dela, porque existes.

Foi exatamente o que aconteceu comigo. Sempre te procurei, não me perguntes como nem porquê, não te sei explicar isto por palavras. Só sei que sempre te procurei, e é só isso que importa acrescentar. Sempre soube que tu existias, sentindo-o. Quando finalmente te encontrei, fiquei desde logo com a forte sensação que tínhamos sido feitos um para o outro, procurava a pessoa que encaixava na perfeição no puzzle que eu sou, e finalmente tinha-a encontrado. Eras tu. Eras mesmo tu. Estávamos destinados. Um ao outro. A ficarmos juntos.
Como eu precisava de uma pessoa assim como tu. A junção perfeita. A felicidade na sua forma mais plena e pura, na sua forma mais simples e pequenina, pedaços felizes de nós.

Estava destinada a cruzar-me com o teu olhar todos os dias, estava destinada a ouvir o teu sorriso e a deixar-me perder. A ter o teu toque só para mim, assim em exclusivo, como se fosse uma preciosidade guardada dentro de um frasquinho, secretamente escondido na minha mesa-de-cabeceira, como se de um tesouro se tratasse. Que eu pudesse abrir quando quisesse e deixares-me envolver em ti.

O que mais me fascina em ti?

Seres parte de mim. Em tudo e para tudo. Acho que acabo de descobrir que o foste desde sempre, mesmo quando não te conhecia, fizeste sempre parte de mim e do meu mundinho. 
Algo me dizia que ia ser assim. És parte de mim nos sonhos, nas escolhas, nas conquistas, e nos objectivos e realizações. És parte de mim em cada fragmento de ti que me ofereces, todos os dias.

O que mais amo em ti?

Ora deixa cá ver…. É difícil escolher, sabes?

Amo tudo. Mesmo tudo. Tu por inteiro. Principalmente aquilo em que me transformaste, como me mudaste, o que sou.

Seres parte de mim, é seres para sempre…

domingo, 10 de novembro de 2019

FÉLIX, de Vanessa Lourenço















Nestes últimos dias, muito se tem falado na tempestade Félix. E, no entanto, apesar de já ter sentido na pele as circunstâncias adversas deste fenómeno meteorológico, não consigo evitar fazer associações positivas no que toca a esta tempestade. Afinal de contas, a minha estreia no mercado literário ficou a dever-se a um gato preto com o mesmo nome, um gato que me ajudou a encontrar o meu caminho porque tive que o perder. E por isso mesmo, esta semana a nossa crónica desenrola-se mais ou menos assim...

Perdoem-me os não crentes, mas os animais que amamos não morrem. Desculpem, serei mais específica: não caem no vazio da não existência quando fecham os olhos pela última vez. Sim, é verdade que custa horrores quando partem e deixamos de os poder ouvir, ou de lhes poder tocar (isto porque no que toca à visão, por vezes se estivermos com atenção conseguimos vê-los pelo canto do olho) ..., mas eles não morrem. Na verdade, a primeira coisa que fazem assim que percebem o que lhes aconteceu é procurar-nos, e quando nos encontram acontecem duas coisas engraçadas: primeiro, percebem que não precisavam de procurar porque fora do corpo, a distância deixou de existir; e depois, que agora é muito mais simples falar-nos de amor, porque a nossa voz agora é a mesma.

Na vida muitas vezes nos cruzamos com frases feitas para amenizar a perda ou a distância, e os mais sensíveis de nós muitas vezes encontram sinais. Claro que na maioria das vezes os ignoramos porque “não é normal”, ou “vão achar que não sou certa da cabeça”, ou ainda porque o nosso cérebro está programado para desvalorizar tudo o que fuja à realidade de todos os dias, essa realidade com a qual a nossa vida em sociedade nos impregnou. Mas acreditem, eles existem.

“Mas se esses sinais são reais, porque são sempre tão subtis e dificeis de comprovar?” Porque, meus caros, o livre arbítrio dita que devemos decidir acreditar neles, mesmo que o resto do mundo teime em os desacreditar. É esse o objectivo da vida, esculpir a pessoa que somos quando chegamos ao mundo, por intermédio de decisões que por vezes desafiam toda a lógica ou conceitos pré-concebidos. E porque existem coisas na vida que são só nossas, não sujeitas à validação ou compreensão dos outros.

E é por conta disto que hoje vos escrevo, porque existe uma tempestade a assolar o nosso país que se chama Félix.

Para terminar, um pequeno aparte que acho importante acrescentar:

Tudo nesta crónica pode estar errado.

E vocês, em que acreditam?



sábado, 9 de novembro de 2019

VELOCIDADES, de Fernando Teixeira















É vê-los, velozes, como que querendo agarrar a vida num mundo a fugir… Com a mesma celeridade, vivem a vida a correr, alcançam objectivos, cumprem metas. Foge-lhes o mundo, num intervalo de tempo que se encurta cada vez mais. Por isso, aceleram na vida, no trabalho, na estrada, procurando chegar antes do tempo previsto, encurtando o tempo da viagem.

Não foi para isso que se fartaram de trabalhar, que cumpriram as metas estabelecidas, quiçá foram além delas? Finalmente, deram a si próprios o prémio mais cobiçado: aquela máquina potente que é a menina dos seus olhos, motivo de orgulho maior! Sorriem ao pensar no olhar de cobiça de colegas, dos vizinhos e de amigos… Ah pois, não é para todos!

Com o mesmo sentimento de exclusividade, fazem-se à estrada, viagem após viagem, sozinhos ou acompanhados. Com a família, muitas vezes. A adrenalina invade-lhes as veias, a potência da sua máquina inebria-lhes o cérebro e sentem-se superiores. Incólumes. E aceleram!

A estrada é deles, sentem-na como sua, como se tivessem mais direitos ou direitos especiais sobre os restantes cidadãos viajantes. E mostram-no. Ainda vêm longe, mas já sinais de luzes anunciam a sua chegada, vertiginosa, a algum condutor mais afoito que tenha ousado fazer uma ultrapassagem e ocupado indevidamente a via esquerda que consideram exclusivamente sua. E, se os sinais de “máximos” não forem suficientes, logo reforçam a intenção e revelam a sua urgência accionando o pisca-pisca esquerdo, muitas vezes ligado durante quilómetros. Para quê desligá-lo?

É vê-los passar, velozes, como que querendo agarrar a vida num mundo a fugir… Mercedes, Audi’s, BMW’s… símbolos das metas que alcançaram no trabalho e na vida. Condutores de primeira, pé pesado! E outros também, aqueles que não se podem dar a tais luxos, mas que os querem imitar, que o português não gosta de ficar atrás! Seguem igualmente velozes, numa correria desenfreada contra o tempo, contra os egos, contra a racionalidade.

Cegos pela adrenalina e pelo prazer de se julgarem superiores, quando não após terem ingerido bebidas alcoólicas, nem se lembram que, se embaterem a 180km/h num veículo que se coloque subitamente à sua frente, circulando a 100km/h, é como se embatessem a 80km/h num obstáculo fixo. Ilusão, é pior! A 80km/h talvez conseguissem travar ou, em caso de um embate ligeiro, controlar a sua viatura. A 180km/h é pouco provável…

Não faltará quem ache que estou a armar-me em moralista. Confesso que também já tive mais sangue na guelra. Já conduzi mais veloz do que conduzo há uns anos a esta parte, desde que há 18 anos fiz uma viagem ao Canadá e reconheci a disciplina e o civismo de um povo que é ensinado a cumprir regras, nomeadamente a não ultrapassar a velocidade máxima de lei nas estradas. Percorri, então, dezenas de quilómetros a ver os mesmos veículos à frente e atrás, tranquilamente, fossem carros topo de gama ou de gama inferior. A lei é igual para todos! Conduzi milhares de quilómetros durante um mês, muitos em faixas de rodagem com quatro vias, e não vi um acidente. Porquê? Porque lá, como noutros países civilizados, obriga-se os cidadãos a cumprir a lei. Porque o civismo tem de se impor. Vim dessa viagem transformado, diferente. Desde então, a minha velocidade de conforto nas auto-estradas é 110km/h (velocidade estabilizada no GPS, talvez mais 4-5km/h no painel de instrumentos).

Em Portugal, os números da sinistralidade rodoviária são alarmantes. Todos os anos! Sei que a velocidade não é a única causa dos acidentes rodoviários; também as manobras perigosas, as distracções, o cansaço, a ingestão de bebidas alcoólicas, o estado de muitas estradas, a falta de civismo são responsáveis por tal sinistralidade. Porém, a velocidade exponencia todos os outros factores.

É vê-los passar, velozes… E de repente acontece, naquele fatídico segundo que ninguém previu. Encurtaram a viagem. O mundo fugiu-lhes debaixo do pé que acelerava! E não agarraram a vida…

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

O TIO JAZIGO, de MBarreto Condado
















Há muitos, muitos anos, num lindo dia de primavera nascia em Lisboa um menino enfesadinho, filho mais velho de um homem que já na altura tinha idade para ser seu avô com uma jovem mulher conformada com o que a sorte lhe reservara na vida. 

Fez os estudos de liceu que não se sabe se terá terminado pois o pequeno tinha tanto de cabeça quanto de envergadura. Era, contudo, dotado de um exagerado ego complementado por uma assumida presunção. Aprendeu a viver de biscates e do charme aplicado a senhoras de avançada idade que além de falta de vista, felizmente para ele, já se contentavam com pouco.

Exigia que todos os que com ele privavam o tratassem por "Tio", sentia que dessa forma atingia o tão almejado estatuto social pelo que ansiava há tanto tempo. Dizia que tinha cursado engenharia e até frequentara direito, algo que nunca se viria a confirmar. A única certeza comprovada por fotografias é que tinha feito o serviço militar em cavalaria, pois essa era a única forma de no alto da sua garupa poder mostrar o porte altivo que lhe faltava no alto do seu parco metro e meio. 

Casou-se com a filha do comandante. Ganhando além de um sogro poderoso o ódio de todos aqueles que lutavam por aquela merecida graduação sem terem que se vender.

Mas também aqui não se sentiu completo, o que o levaria de volta aos seus velhos truques para com as velhas herdeiras.

Seria delas que viria a "herdar" as casas e o seu recheio, sempre em detrimento das suas verdadeiras famílias.  O melhor dos respectivos espólios era delapidado ainda durante a parca vida das velhas senhoras. O que lhe interessava chamava-lhe herança familiar, o que não pretendia manter, vendia e chamava-lhe "antiques". Sim porque com o tempo veio a ficar muito refinado na maneira de vestir e falar. Não saia de casa sem o seu plastron a envolver-lhe o pescoço. E não dispensava a utilização de vocabulário francês, como “restaurant”. Viria a tornar-se num verdadeiro "connaisseur" de todos os aspectos da doação em vida e de heranças.

Tornou-se detentor da maioria dos jazigos no cemitério do Alto de São João. Local onde passava horas tentando decidir em qual deles quereria ser colocado quando o seu momento chegasse. Sim, porque era muito importante manter as aparências mesmo para além da vida, tinha que ter em conta a vista privilegiada de cada um deles bem como os seus futuros vizinhos.

Gostava de afirmar aos poucos que o quisessem ainda ouvir que até o próprio Eça de Queirós, que tratava por tu, teria baseado uma das suas melhores obras se não a melhor, na sua linhagem familiar, tal era a fanfarronice.

Os jantares de natal, esses, eram sempre requintados e inesquecíveis, língua de vaca estufada bem regada com a única garrafa de vinho, também essa oferecida, tudo para dividir pela família contando que ainda tinham que sobrar “les restes” para o almoço do dia seguinte que seria soberbamente acompanhado de muito pão duro e fome.

As férias, essas eram sempre em casa de outros, onde fazia questão de ficar hospedado o tempo que achasse necessário para se recompor de tanta soberba. E era por principio que partia sempre sem se despedir. Afinal era um favor que lhes fazia ao presenteá-los com a sua tão ilustre presença.

Teve três filhos. O mais velho ao qual tratava por asno cedo foi enviado para um colégio interno, sempre era menos uma boca para alimentar. A filha mantinha residência permanente em casa de um primo, mas seria no mais novo que conseguiria ver alguns traços seus. O mesmo uso do plastron, de francesices, e com a mesma destreza de manter sempre a carteira na mão sem nunca a abrir para pagar.  Afinal, o dinheiro não nascia das árvores.

No dia da sua morte deixaria como legado móveis com caruncho, casas alugadas e um elevado espólio de jazigos. Até porque no final seria cremado e as cinzas deitadas em parte incerta.

Os jazigos, esses ficariam desertos apesar da vista sobre o Tejo. E é presumível assumir que no Inferno nem o Diabo gosta dele.  E será certamente lá que se escrevem neste momento os próximos capítulos d’"os ilustres jazigos do Tio".

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

A MISSA, de Anita Dos Santos















Foi a missa de trigésimo dia.

Encontrava-me, uma vez mais, na “minha” igreja, desta vez para pedir por quem já tinha partido.

Tinha chegado cedo, para ter um pouco de tempo para estar como gosto, sozinha com os meus pensamentos.

Deixei-me ficar a admirar o tecto e as paredes daquela que é a igreja que melhor conheço, e onde me sinto mais em casa. Fiquei a ver todos aqueles rosas, dourados lavrados e brancos. Os apainelados bem conservados. Por instantes pareceu-me sentir o aroma antigo das velas a arder nos candelabros antigos.

Sempre gostei de igrejas, de as visitar, de as conhecer. Mas a “minha”, tem para mim um cunho diferente de qualquer outra que tenha conhecido.

Naquele momento, dei comigo a pensar, passaram-se os acontecimentos mais importantes da minha vida, tenha ou não eu tido noção na altura disso, dentro daquelas paredes.
Comecei por ser, eu mesma baptizada ali, muito pequena para ter qualquer lembrança do facto.

Depois, comecei a assistir às missas, ao domingo de manhã, com a minha mãe, a minha irmã e por vezes com a minha avó paterna, que disso lembro-me muito bem… nunca mais terminava… era muito tempo, dava perfeitamente para “sonhar” alguma história com aquelas pessoas todas que estavam nos retábulos das paredes… de tal maneira, a ser chamada à atenção várias vezes…

Não valia de nada, fazia tudo de novo.

Depois cresci. A catequese não a tive por lá, mas fiz ali o exame e a primeira comunhão.

Cresci de novo. Já ia à missa sozinha, e gostava muito de me ir sentar para o antigo lugar do coro, dava-me assim ensejo de calcorrear corredores e escadas estreitas onde poucas pessoas passavam.

Já rapariga, - uma crescida com quinze anos! – deixei-me convencer, ao fim de muita insistência, por uma colega de escola e amiga, a ir a uma missa para jovens, num domingo, onde um grupo que ela integrava, cantava acompanhado por uma viola e com arranjos inovadores. Era na altura a missa mais assistida, por jovens e não só!

E foi assim que conheci um grupo fantástico de gente jovem, onde encontrei amigos para toda a vida. Um grupo de gente extraordinária e amiga.

Foi assim também que conheci aquele que é, ainda hoje, o meu melhor amigo, o meu companheiro de vida, o meu marido e pai dos filhos. Na missa, a ajudar o Senhor Padre Arménio, vestido de acólito. Sim, porque lá cantar, não era com ele!

Anos mais tarde, foi em frente do altar do Sagrado Coração de Maria que deixei correr as minhas lágrimas, a minha dor e a minha mágoa depois de ter perdido o meu primeiro e tão desejado filho.

Ali acompanhei pela última vez a minha avó pequenina, a avó Mariana, a mãe da minha mãe.

Baptizei os meus filhos, ambos aos três meses. Fiz questão de que fosse ali, onde eu e o pai tínhamos sido baptizados.

Acompanhei de igual modo pela última vez os meus avós paternos, com quem vivi até casar. A avó foi a última a partir e já não chegou a conhecer o bisneto mais novo. Eu tinha seis meses de gravidez quando ela partiu.

Voltei em algumas ocasiões, só para me sentar nos bancos, a meio da nave da igreja e aí permanecer só com os meus pensamentos.

Por fim acompanhei a Mãe. E agora o Pai.

Fiquei com a sensação de que fechei um ciclo, ao assistir a esta missa.

Assim terá sido com certeza.


DE ONDE NUNCA SAÍ - CAFECITO NA MONTANHA, de Helder Menor















Quem está acima dos três mil e quinhentos metros de altitude está inevitavelmente bêbado e maldisposto. Acima dos quatro mil, deixamos de estar bêbados para estarmos apenas e muito maldispostos. Pelo menos comigo é assim. Logo eu, criado na borda d’água, nascido com o mar nas veias, a morar no rés-do-chão, eu, que se tenho de subir ao telhado para substituir alguma telha enjoo logo! Ver-me assim nas alturas agonia-me.

Vem isto a propósito das voltas e revoltas que o destino decide dar. O destino, todos já sabemos que é um fado corrido e sem decoro que quanto mais repenicado for, mais voltas dá.

Pois foi este fado andarilho que me levou um dia a pisar o chão antigo das montanhas dos Andes. A coluna vertebral da América do Sul. Os gajos engravatados que vivem nas capitais sul-americanas dizem que os Andes têm dono e dizem que são eles os donos das parcelas dos Andes. Dizem: os Andes do Equador, os Andes do Chile, dizem eles que são os Andes Equatorianos, os Andes Peruanos, os Andes Bolivianos, os Andes Argentinos... Tudo tanga. Conversa para inglês ver e comprar minério arrancado à montanha. Os Andes têm donos sim, mas são aqueles que lá moram em cima, nas alturas onde o ar escapa dos pulmões e onde o vento seco e gelado corta as orelhas.

Um gajo mais distraído, olhando para o mapa, até acredita nessa história dos países serem proprietários dos Andes. Mas subindo à montanha, percebemos que entre o papel impresso no mapa e a montanha vai uma distância tão grande como a imensidão abarcada pelas asas abertas do condor. No rarefeito ar, na estreita berma da estrada estão os verdadeiros donos da montanha. Na curva que se retorce na vertigem das alturas e na agonia do enjoo, é aí em cima que os donos dos Andes moram. Entre alpacas e pedras velhas gretadas pelo gelo, pelo sol e pelo vento. Os donos da montanha estão lá em cima, ao lado de uma cancela ferrugenta que chia quando tem de abrir. Abrigados nuns barracões, vestem-se de lã grossa, de fardas incompletas e variadas de polícias, guardas, militares, pastores, bombeiros ou trabalhadores das estradas. São índios, cholos mestiços e eventuais descendentes de emigrantes europeus. Ficam lá em cima durante meses em intermináveis comissões de serviço à sombra de uma bandeira e dos brasões que representam os estados que lhes pagam mal, tarde e a más horas...

Nos barracões à beira da estrada funcionam as alfândegas e onde as fronteiras vendem vistos, chá, casacos, empanadas, café, água, serviço de banho e posto médico. Lá em cima, onde se alugam prostitutas, carros velhos e mulas. São mecânicos, xamãs, cambistas de moeda e outras coisas que tiverem que ser. Vivem do salário e daquilo que a montanha pode dar a quem tiver os olhinhos abertos e os dedos prontos. Só para quem se consegue adaptar à falta de ar e às tonturas permanentes. São guardas, fiscais alfandegários, militares e outros burocratas e todos os outros. Também de ser obrigatoriamente enfermeiros e médicos. E há taberneiros, bruxos, prostitutas, lenhadores, canalizadores, mecânicos e, às vezes, agentes funerários. A natureza dos Andes ensina a autossuficiência.

A quem por estrada cruza a montanha, impressionado pela majestosidade dos picos nevados, agoniado da vertigem e a asfixiar da altitude, a quem nestas condições, pergunto eu, ocorre queixar-se das mãos untadas do soldado que fecha os olhos e deixa passar contrabando em troca de uma garrafa de bagaço? Quem é que se vai dar ao trabalho de moralizar a fronteira? O soldado que ali está há meses, sem o conforto de uma inspiração profunda e sem uma cama só para ele. O soldado que se aquece agarrado ao púcaro de alumínio do seu chá de coca. Alguém o vai criticar o soldado por virar as costas enquanto uma carga passa? A estrada pertence-lhe, não só ao soldado, mas a todos os que ali vivem isolados nos postos de fronteira. A montanha é terra de ninguém, mas a fronteira é dos que lá estão.

Nós viajámos dois dias e uma noite sempre a subir. De autocarro que até era confortável, diga-se. Sempre a subir cerros e escarpas, cada vez mais altas e despidas. Para trás, o gelado Pacífico, à frente, a montanha. A estrada propícia a enjoos, sonos, conversas, tédio e mais enjoos. E mais sono, cada vez menos conversas e cada vez mais tédio. Do lado de lá do vidro a paisagem majestosa. Durante as paragens obrigatórias para o xixi, para o chá ou café, o ar frio e escasso da alta montanha. Pedras e quase nenhuma vegetação. Às vezes nos vales profundos, ribeiros barrentos a correrem violentos entre as pedras. Poucas pessoas, algumas alpacas misturadas com cabras. Nas paragens, as putas e os militares, os policias, possíveis traficantes, comerciantes, pastores de gados vários e nós. Todos a avaliar-nos uns aos outros e identificando riscos, perigos e oportunidades.

A última paragem em território chileno, foi a mais demorada e mais tensa. Saímos todos do autocarro e o motorista abriu o compartimento das bagagens. Policias e militares vieram dar palpites de arrumação enquanto não chegou um outro autocarro em sentido contrário vindo da Argentina para entrar no Chile. Chegado o autocarro, deixaram de se mostrar interessados na mercadoria, nas mochilas e nos cigarros que eventualmente trazíamos e passaram diretamente ao seu ofício de fiscalizar a entrada da fronteira chilena contra os perigos que podem vir da Argentina.

As pessoas que viajavam connosco no mesmo autocarro atarefaram-se nas suas bagagens. O ar tinha pouco oxigénio e muita tensão nervosa.

Dois camionistas brasileiros, do interior do Mato Grosso, viajavam de regresso depois de levaram uma carga de madeia e sabe-se lá mais o quê de Cuiabá no Brasil para Santiago no Chile. A fumarmos e a bebermos chimarrão cá fora, avisaram. Não se afastem nem baixem as vistas dos vossos troços.... tem muito bandido aqui capaiz de botar um quilo de cocaína no seu malão para passar na fronteira limpinho com seus dez quilos no saco! E cuidado com os cara da polícia, aqui polícia é pior que bandido!!!

Voltámos a entrar advertidos para dentro do autocarro e uma hora depois estávamos na fronteira argentina. Todos saímos de passaporte na mão. Nós os dois, com as nossas mochilas blindadas nas costas, mãos nos bolsos e fechos e as caras fechadas. Estava frio debaixo do telheiro onde parou o autocarro. À nossa frente, uma mesa comprida com o dobro do comprimento do autocarro. A um metro da mesa, uma linha amarela desenhada no chão. A linha devia ser branca cor da neve e da coca que o vento espalha lá fora..., mas como vos estou a contar a verdade, não vos pinto a linha e digo-vos tal e qual como aconteceu.

Três polícias e dois militares. Os polícias de pistola à cintura, os militares de metrelhadora a tiracolo. Os polícias na casa dos ciquenta-sessenta, os militares entre os vinte e os trinta. O motorista depois de falar baixinho com o chefe dos polícias, recolheu os passaportes de toda a gente e informou-nos que era preciso pôr toda a bagagem em cima da mesa e esperar do lado de lá da linha amarela. Para nós foi simples, bastou tirar as mochilas das costas e pôr em cima da mesa. Para o resto dos passageiros, demorou mais um bocado…

O grupo de desconhecidos que éramos há dois dias atrás no Chile, era agora uma família em apuros. Estávamos todos tensos. Muitos de nós com frio. Alguns a sofrerem de tonturas e nauseados. Queríamos todos sair dali e descer depressa a montanha. Eu entre os mais agoniados, a precisar de baixar dos três mil e quinhentos metros para acalmar aquela bebedeira parva que dá tonturas e cansa sem dar satisfação. Meia hora depois, o motorista voltou com os passaportes e veio falar com todos os passageiros:

– Vamos dar qualquer coisa para os senhores guardas que aqui estão ao frio desde a noite passada, vamos dar-lhes algo para irem tomar um cafecito quentinho!

Assim, à cara podre. Com um saco de pano preto, iniciou a coleta. As pessoas iam pondo notas e moedas como no peditório das igrejas.

A minha companheira de viagem, desconfortável no telheiro gelado e preocupada com os pacotes a mais de cigarros e duas ou três garrafas que levávamos nas mochilas, disse-me para não me armar em parvo. Para de uma por uma vez na vida ser tolerante com o currupto. Para lhes dar qualquer coisa que nos pusesse a andar depressa dali para fora. E não sejas agarrado, vê se és generoso, que quero sair daqui.

Fica descansada, vou resolver.

Quando chegou a nossa vez, perguntei com cumplicidade ao motorista:

-        Os guardas aceitam euros?

-        Como não!!! claro que sim!!!!

Até os olhinhos brilharam ao motorista, que devia ter parte no acordo com o guarda.

Fiz as contas, remexi na carteira e nos bolsos e decidi-me por cinquenta.

Acabada a recolha, o motorista entregou o saco ao políca mais velho que entrou no contentor a dizer boa viagem. O motorista satisfeito, esfregava as mãos:

-        Podem arrumar tudo de novo no compartimento de bagagens, vamos seguir viagem enquanto os senhores guardas vão tomar o seu cafecito!

Meia hora depois, no conforto do ar condicionado do autocarro, a descer a montanha na direção das imensas pampas argentinas, perguntou-me ela:

-        Pagaste em euros para passarmos a fronteira?

-        Sim, claro.

-        Quanto deste?

-        Ciquenta.

-        Euros? Estavas generoso!!!

-        Não! Cinquenta cêntimos, para um cafecito dá perfeitamente!!!



quarta-feira, 6 de novembro de 2019

CURVA ESTRADA, de MBarreto Condado















- Espera! Não saias. Temos que conversar.

A sua mão já apertava o manípulo da porta, mas parou.

- Não me amas?

Porque lhe perguntava tal coisa? Será que não sabia que aquilo a que chamava amor era sobreavaliado?

- Olha para mim por favor. Diz-me o que queres que mude.

Não queria que mudasse. Só queria sair.

- Todo este tempo juntos e não consegues pensar em mim? No que sinto?

Já tinha passado realmente muito tempo.

- Existe outra é isso?

Existiria sempre outra, outras, não importava.

- Vais ter com ela?

Ainda não sabia o que faria.

- Investi tanto em ti e agora abandonas-me como a um animal.

Não era certo, quando saísse levava o cão.

- E o nosso projecto de vida, vais deitar tudo a perder?

Aquele projecto não era seu.

- As viagens que planeámos fazer.

Tinha no bolso das calças as chaves do carro.

- A casa que sonhámos comprar.

Queria ir para perto do mar, talvez a Marginal.

- Os filhos que contámos ter.

Para ele o tempo nunca seria uma preocupação.

- Vais deixar tudo para trás?

Tentava há uns bons dez minutos, mas ainda não conseguira.

- O que vou dizer aos meus pais?

O que quisesse.

- Á minha família?

Podia fazer um jantar e comunicava ao mesmo tempo, quem sabe com um bom vinho.

- O que vão os nossos amigos pensar?

Que demorei muito tempo.

- Vamos dividir tudo aquilo que comprámos com tantas dificuldades?

Podia ficar com tudo. Odiava particularmente o sofá.

- Não achas que nos devemos mais uma oportunidade?

Não estava a ficar mais novo.

- Vai então, sai como o cobarde que és.

Abriu a porta, assobiou para o cão que veio a correr a abanar a cauda também ele queria sair dali depressa, tinham que aproveitar aquela oportunidade antes que mudasse de ideias.

O silêncio que reinava atrás de si era ensurdecedor. Voltou-se lentamente para olhá-la pela primeira vez desde que aquela ladainha começara.

- Queres vir passear connosco? Já não faz tanto calor e vamos só um pouco para além da curva da estrada.

Pegou no casaco.

Saíram juntos, de mãos dadas, com o coração aquecido pelas diferenças que os uniam. Mais tarde cairiam na cama onde se amariam, dois corpos suados, saciados sem promessas e o dia seguinte seria um novo recomeço com mais algumas diferenças.



terça-feira, 5 de novembro de 2019

A FAMÍLIA DE ONTEM E A FAMÍLIA DE HOJE, de Cristina Das Neves Aleixo















Comemorou-se o Dia Internacional da Família e, logo que tomei conhecimento desse facto, dei por mim a reflectir no conceito familiar da actualidade – ou não fosse eu dona de uma “mente inquieta”. Os neurónios, frenéticos, alternavam entre o modelo do passado e o do presente e nas suas implicações nas famílias e na sociedade.

Antigamente vivia-se para a família, para a ordem, a harmonia e a paz no lar. Tudo o que se fazia era pensado em termos familiares. Todos os seus elementos tinham papéis bem definidos e a vida decorria de forma tranquila. Os homens saiam de casa e iam prover o sustento, o conforto e travavam todas as lutas necessárias para a protecção e bem-estar daqueles que amavam. As mulheres, na sua maioria, ficavam em casa a construir e a manter a união, a acompanhar e a educar os filhos, a prepará-los para serem gente decente – alguns iriam, mesmo, decidir os destinos de todos nós -, e a acarinhar e a amparar aqueles que, já gastos e sem forças, lhes tinham dado a possibilidade de pisar este mundo. Não havia cá lugar a abandonar os velhos pais num qualquer lugar inumano ou a deixar os filhos entregues à sua sorte, à mão de semear de todas as tentações e perigos.

O resultado era um respeito generalizado, velhos a acabarem os seus dias com conforto e dignidade e crianças a crescerem fortes, felizes, bem preparadas para o futuro e que respeitavam e idolatravam os pais, os seus modelos.

Durante muito tempo viveu-se neste equilíbrio de valores, como uma máquina com várias engrenagens que se encaixam e completam para um único objectivo: funcionar bem, com o mínimo de percalços e esforço. E depois tudo mudou. As mulheres começaram a sair de casa para ocuparem os lugares até então dos homens, mas estes não ocuparam os das mulheres. Elas viram-se sobrecarregadas, forçadas a desempenhar dois papéis distintos em simultâneo, consecutivamente, e as fundações familiares deixaram de ter sustentação e abanaram por todos os lados.

De repente já não havia tempo para um carinho aos velhos, que passaram a morrer no abandono e tristeza, nem para uma formação adequada dos novos, que se afastavam cada vez mais dos progenitores e se tornavam verdadeiros estranhos que apenas partilhavam o mesmo espaço; passaram a crescer “à rédea solta”, com os exemplos e “ensinamentos” dos amigos, vazios de respeito, empatia, honra e espírito de sacrifício, acreditando veementemente que tinham um estatuto igual ao dos seus pais sem nada fazerem para isso.

De repente as pessoas já não tinham paciência umas para as outras, nem respeito, nem vontade e, à mínima contrariedade, divorciavam-se e “mandavam às urtigas” o equilíbrio em prol do recém-descoberto “eu”. Os nossos descendentes passaram a considerar normal que cada um vivesse para seu lado, com as suas necessidades sempre em primeiro lugar, que o individualismo era a base de tudo, fomentando o egocentrismo e egoísmo.

De repente vivíamos numa sociedade que o era só de nome, onde éramos cada vez mais em número mas estávamos cada vez mais distantes, sós e infelizes, mais intolerantes e beligerantes, onde o negrume do caos aumentava dia a dia. Tudo isso estava bem patente nas incompreensíveis guerras, na corrupção instalada em todas as áreas, nos assassinatos pela mais pequena disputa e nas diversas injustiças sociais. Cada vez mais abríamos o mundo a gente sem conteúdo valoroso.

Cheguei à conclusão que é urgente repensarmos os nossos valores, as nossas escolhas. A família é a base de tudo, é o nosso norte. Não pode ser descurada. Se o fizermos corremos o risco de perdermos a nossa identidade e nos tornarmos verdadeiras bestas. Sim, o mundo muda e temos que nos adaptar, mas há coisas que não devem, nunca, perder a importância que na realidade têm. Esta é uma delas.

Ainda me lembro das estórias que a minha mãe me contava tranquilamente, com todo o tempo do mundo, antes de adormecer. Recordo, com carinho, de irmos passeando e conversando até à mercearia para fazer compras a meio do dia. E dos lanches que me dava quando chegava da escola, enquanto me perguntava o que tinha aprendido. Quantos dos nossos filhos poderão, daqui a cinquenta anos, como eu, dizer o mesmo?

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

O QUE HÁ DENTRO DE MIM, de Ana Ribeiro
















… Dentro de ti há vida! – Disse-me o avô.

Foi naquele fim de tarde, no Alentejo, no meio dos campos de trigo que eu e o avô João tivemos uma conversa de homem para homem. Daquelas conversas sérias e francas, de adultos, ou melhor dizendo entre um adulto e uma criança a fazer de conta que era adulta. Um momento de grande reflexão. Mas afinal o que é a Vida? – Perguntei eu ao avô.

A vida é isto, Pedrinho. É estarmos aqui, ao pé um do outro a conversar. É sentir a terra debaixo dos pés, é ouvir o vento à nossa volta, é ver os campos de trigo a crescer, as flores a abrir, o amanhecer do que somos e do que nos rodeia. O avô João sempre foi um sábio, lembro-me perfeitamente das histórias que ele contava, da vida que levava quando era mais novo. Lá está ela outra vez… a Vida. Raios parta à vida que não se explica, não fala, não se mexe, não diz nada, limita-se a passar à nossa frente

E o avô João disse-me de seguida uma coisa que nunca mais me esqueci… A vida é como o Sol, floresce e brilha e de repente… esmorece.

E de facto, o avô João tinha razão, a vida que vivemos é como uma bobine de um filme, num piscar de olhos tudo acaba.

Mas voltando à nossa conversa. Fiquei nitidamente a pensar naquilo, na minha inocência de menino, fiquei sério a olhar para o avô.

Porque é que a vida não tem nome? Chama-se só assim? Vida…

A vida, somos cada um de nós… Por isso pode ter todos os nomes que imaginares.

Mesmo de rapariga? – Perguntei eu.

O avô riu-se – Mesmo de rapariga.

Que coisa tão esquisita, a vida é mesmo estranha. Mas tu já viveste mais do que eu… Tu já tens cabelos brancos e barba rija e eu não.

Não se admirem, eu era mesmo um puto curioso e sem papas na língua, o meu avô via-se à rasca quando se punha a conversar comigo, porque eu fazia sempre com que ele ficasse sem resposta.

Isso não quer dizer nada. Cabelos brancos e barba rija significam mais problemas que vida. Ainda bem que tu ainda não os tens.

E também vou tê-los avô? Assim como os problemas de matemática?

Oh, meu querido. Os problemas da vida não se resolvem só com contas, às vezes é preciso pedir ajuda ao tempo e ao pensamento.

Tu pensas muito avô? Pensas na vida?

Todos os dias… Olha talvez seja por isso que tenho cabelos brancos.

O avô João também tinha bom humor.

O que há dentro de mim?

Dentro de ti, há um coração pequenino e dentro desse coração cabe o mundo inteiro.

E isso tudo é a vida!

Como o tempo passa, agora sou eu que conto esta história à Camila, sentados no jardim, de barba rija e cabelos brancos.

Agora sim… Já fiquei a saber o que é a vida…