quarta-feira, 18 de setembro de 2019

BEM-VINDOS, de MBarreto Condado















Existem momentos na nossa vida em que sentimos o destino tecer uma suave teia à nossa volta. Em que nos apercebemos de que os nossos caminhos estão destinados a cruzarem-se. Em que nos sentimos reforçados pelas diferenças que nos unem. Momentos em que desejamos compartilhar as nossas alegrias e tristezas, uns com os outros, e abrir a alma a estranhos que passam a fazer parte do nosso dia-a-dia e a quem, carinhosamente, designamos de “a nossa família literária”.
“Isto, somos nós!”

Num país em que infelizmente se lê cada vez menos, em que o que vem do estrangeiro é que é bom, em que só nomes conhecidos são considerados, muitos perguntam o motivo pelo qual escrevemos.
Sei que falo por todos os fantásticos escritores a quem tenho o privilégio de chamar família, quando digo que o simples facto de passar para uma folha em branco o que nos vai na alma é a maior gratificação que obtemos em todo o processo de escrita.

A verdade é que somos um grupo de autores portugueses com muitas (e diferentes!) histórias para contar!
Ainda desconhecidos de muitos, temos a vontade necessária para chegar longe e de nos fazermos ler. Somos um grupo eclético, porém é nas nossas diferenças que encontramos o elo que nos une. Escrevemos poesia, romances, contos, fantasia, histórias de vida, policiais, artigos de opinião e textos avulsos. Escrevemos porque nos sentimos vivos e queremos transmitir esse mesmo sentimento e as nossas emoções através das palavras. E é com esta força, com as nossas diferenças e com a nossa união que contribuímos todos para a mesma causa, desejando que os nossos livros sejam lidos pelo maior número de leitores.

Gostávamos que passassem algum tempo a ver as nossas capas e os seus títulos sugestivos, que lessem as nossas sinopses, mas acima de tudo que sentissem o que vos queremos transmitir: que cada um dos nossos livros leva nele uma parte de nós! Da nossa vivência! Das nossas viagens! Da nossa imaginação! Dos nossos sonhos! Dos nossos desejos! Das nossas memórias! Das nossas fraquezas! Da nossa força!

Acreditamos que quem nos lê transporta as nossas palavras para lá da nossa própria imaginação. Que vive, que sofre e ama com a mesma intensidade com que escrevemos cuidadosamente cada linha, cada parágrafo, cada página, cada capítulo.

Somos afortunados por vivermos as aventuras enquanto as escrevemos, fazendo parte das vidas das personagens por nós idealizadas e percorrendo os mesmos locais que elas. Ficamos com a sensação de trabalho feito, num misto de emoções em que os nossos sentimentos exultam ao ver essas personagens ganhar vida própria.

Decidimos criar esta página com uma única finalidade: a de divulgar o nosso trabalho, estar mais próximos de todos os que já nos conhecem – os nossos já fiéis leitores –, e que felizmente nos seguem e anseiam pelo que lhes vamos contar a seguir. Mas queremos crescer e contamos com a vossa ajuda para o fazermos em conjunto, pedindo que leiam o que escrevemos e que comentem sem receios o que sentiram com as nossas palavras. Que conversem connosco!

As nossas portas estão sempre abertas!

Gostávamos que, ao aceitarem o nosso pedido para nos seguirem, se sintam também parte da NOSSA alargada família. Afinal, adoramos falar sobre o que fazemos e quando começamos, na maior parte das vezes, parar torna-se o mais difícil.

No dia de hoje, 19 de Julho de 2019, inauguramos este blogue com o mesmo nome da nossa página do Facebook, tendo o único propósito de nos fazermos ouvir cada vez mais através das palavras. Palavras compostas por letras…

Porque Letras em Movimento somos nós!
Ana Ribeiro, Anita Dos Santos, Cristina Das Neves Aleixo, Fernando Teixeira, Mafalda Pascoal, Maria Cecília Garcia, MBarreto Condado, Patrícia Rebelo, Paulo Costa Gonçalves, R.C. Vicente, Reliane de Carvalho e Vanessa Lourenço.

Desafiamos quem ainda não nos conhece a ler-nos, a seguir o nosso percurso, mas acima de tudo a acreditar que ainda temos muito para oferecer, desejando descobrir o nosso trabalho.

Damos as boas-vindas a todos aqueles que amavelmente já nos começaram a seguir, assegurando que as nossas Letras continuarão em permanente Movimento.

Obrigada pela vossa companhia!


SETEMBRO / NOVIDADES LITERÁRIAS DOM QUIXOTE


Livro vencedor do National Book Award.
Nas livrarias a 30 de Setembro

Augustus
de
John Williams
Tradução de Ana Saldanha






















É um idílico fim de dia. Em Apolónia, Octávio goza com os amigos a calma que precede a tempestade. Porque em breve chegará um emissário de Roma – Júlio César foi assassinado.

Octávio tem 19 anos. Frágil, enfermiço, lê a carta e afasta-se. Carre­ga o peso de um nome, o de César, que em testamento fez dele herdeiro e sucessor. A partir de agora, o jovem que um dia será aclamado Impe­rador Augusto tem os senadores romanos como inimigos mortais.

A notícia da morte de César é-nos narrada no diário de um dos seus amigos. É apenas um fragmento da História, ao qual John Williams, com a minúcia de um artífice, junta outros: cartas, biografias, memórias ou até éditos de personagens como Marco António, Cleópatra, Cícero ou Estrabão. Lentamente o retrato ganha contornos, ilumina-se. Sem nunca ouvirmos as palavras de Octávio – essas estão reservadas para o fim do romance –, assistimos à criação do mito.


terça-feira, 17 de setembro de 2019

SETEMBRO / NOVIDADES LITERÁRIAS DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 30 de Setembro

Sem Mentiras
de
 Robert Wilson
Tradução de Jorge Pereirinha Pires






















O multimilionário e político brasileiro Iago Melo sabe o que quer e como consegui-lo. Sem quaisquer escrúpulos. Quando, apesar de todas as precauções, a sua filha Sabrina é sequestrada, ele contrata formalmente um negociador, mas nos bastidores continua a jogar o seu perigoso jogo, mesmo pondo em risco a vida da própria filha. Porque um Iago Melo não pode mostrar fraqueza.

Felizmente para Sabrina, ele não contou com a perícia de Charles Boxer, o especialista em sequestros vindo da Europa, que irá fazer tudo para a libertar – mesmo contra a vontade do seu cliente. O que Boxer não sabe é que está profundamente envolvido numa densa rede de política e vingança. E que, no final, a sua dolorosa história pessoal irá desempenhar um importante papel...

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

SETEMBRO / NOVIDADES LITERÁRIAS DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 30 de Setembro

Hotel Melancólico 
de
María Gainza
Tradução de Artur Lopes Cardoso






















Cansado de a ver desocupada, o tio da narradora arranja-lhe um emprego num banco para trabalhar com uma avaliadora de obras de arte. Mas, contra todas as expectativas, o ofício torna-se absolutamente fascinante para ela, não só pelas incríveis descobertas que faz sobre falsificações, mas sobretudo pelas histórias secretas que a chefe acaba por lhe contar, uma das quais é a do Hotel Melancólico, onde viviam artistas que copiavam quadros para ganhar a vida e por onde passou a misteriosa Negra, figura central deste romance, que se especializara em falsificar a obra de Mariette Lydis, que fazia retratos da alta-sociedade de Buenos Aires. Um belo dia, porém, a chefe estranhamente não aparece para trabalhar e o mais certo é que lhe tenha acontecido algo de grave; mas, se assim for, como continuar a viver sem saber o fim de todas aquelas histórias que ficaram a meio?

Depois do internacionalmente aplaudido O Nervo Ótico, este Hotel Melancólico é, de novo, um romance sobre a relação entre a arte e a vida, mas também sobre o engano e a manipulação, sobre a realidade e a ficção, sobre o vivido e o contado.

domingo, 15 de setembro de 2019

COMIC CON 2019 - "À CONVERSA COM NAOMI NOVIK"

ESTA TARDE ÀS 14h30
AUDITÓRIO SPOTLIGHT 
(PASSEIO MARÍTIMO DE ALGÉS)



Naomi Novik estudou Literatura Inglesa e formou-se em Ciência de Computadores na Columbia University. A autora de "Coração Negro" foi nomeada para o prémio "Hugo" e recebeu os prémios "John W. Campbelle Locus", ambos para Melhor Novo Autor, e o Compton Crook Award para Melhor Romance de Estreia.










Sinopse:
Vencedor do Prémio Nebula para Melhor Romance e do Prémio Locus para Melhor Romance de Fantasia
Coracao_Negro.jpg
Agnieszka adora a sua pacata aldeia no vale, as florestas e o rio cintilante. Mas o maléfico Bosque permanece na fronteira e a sua sombra ameaçadora paira sobre a vida da jovem.
O povo depende do feiticeiro conhecido apenas por Dragão para manter os poderes de Bosque afastados. Mas o Dragão exige um terrível preço pela sua ajuda: uma jovem deve servi-lo durante dez anos, um destino quase tão terrível como perecer a Bosque.
A próxima escolha aproxima-se e Agnieszka tem medo. Todos sabem que o Dragão irá levar a bela, graciosa e corajosa Kasia, tudo aquilo que Agnieszka não é, e a sua melhor amiga no mundo. E não há forma de a salvar. Mas Agnieszka teme as coisas erradas. Porque quando o Dragão chega, a sua escolha surpreende todos...





SETEMBRO / NOVIDADES LITERÁRIAS DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 30 de Setembro

Os Conspiradores 
de
Un-Su Kim
Tradução de Carmo Vasconcelos Romão






















Reseng tem o velho general na mira da sua espingarda. Basta-lhe apertar o gatilho. Mas hesita. 

Talvez porque o sol se esteja a pôr. Ou porque a visão da sua vítima, a regar as flores do jardim, o faça hesitar. Ou talvez porque, aos 32 anos, e depois de 15 como assassino contratado, sinta um inesperado vazio. Poisa portanto a arma. O sol, entretanto, já se pôs. Reseng deita-se à espera de um novo dia. Então matará o general. Ou talvez não. Porque o velho lhe aparece inesperadamente ao cair da noite. E convida-o para um chá.

Os Conspiradores deram a conhecer ao Ocidente o premiado autor coreano Un-su Kim, que deixou a crítica tão rendida como desconcertada. Surgiram as comparações, falou-se muito em Camus, em Murakami e até em Don DeLillo. Mas se nas referências literárias não foi encontrado um denominador comum, sempre que se frisava o fulgor cinematográfico da obra, o nome evocado era o mesmo: Quentin Tarantino.

sábado, 14 de setembro de 2019

COMIC CON 2019 - À CONVERSA COM SIMON SCARROW

ESTA TARDE ÀS 16h15
PRIME THEATRE 
(PASSEIO MARÍTIMO DE ALGÉS)



Simon Scarrow é um autor britânico, conhecido pela sua aclamada série "A Saga da Águia". Antes de se dedicar a tempo inteiro à escrita, foi professor do Colégio de Norwich. É também um especialista na história militar das guerras napoleónicas, tendo escrito uma série de quatro volumes centrada em Wellington e Napoleão. O seu mais recente livro é  O Sangue de Roma”










Sangue_de_Roma.jpgSinopse:
Cato e Macro estão de regresso em mais uma emocionante aventura.
O Império Parto invadiu a província romana da Arménia, derrubando o rei Rhadamistus. Este é um monarca ambicioso e impiedoso, mas é leal a Roma. O general Corbulo tem como missão recuperar o poder, ao mesmo tempo que prepara as tropas para a guerra com o poderoso Império Parto.
Mas o exército que lidera não está preparado para um conflito tão violento, e a chegada de Cato e Macro, veteranos de várias campanhas, é saudada por Corbulo.

Restaurar um rei deposto é um jogo perigoso. E a brutalidade de Rhadamistus para com os que o derrubaram é a faísca para uma rebelião que irá testar até ao limite a bravura e a vontade do exército romano. Mas, neste jogo de sombras e interesses, nem todos os inimigos estão no campo de batalha…


SETEMBRO / NOVIDADES LITERÁRIAS DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 24 de Setembro

José e os Seus Irmãos (II) O Jovem José
de
Thomas Mann
Tradução de Gilda Lopes Encarnação






















Thomas Mann considerou esta monumental história bíblica de José como a sua magnum opus. Concebeu-a em quatro partes – As Histórias de Jaacob, O Jovem José, José no Egito e José, o Provedor – como uma narrativa unificada, um «romance mitológico» da queda de José na escravidão e da sua ascensão a senhor do Egito. Baseado num profundo estudo da História, e utilizando detalhes pródigos e convincentes, Mann evoca o mundo mítico dos patriarcas e dos faraós, as antigas civilizações do Egito, da Mesopotâmia e da Palestina – com as suas divindades e rituais religiosos –, e a força universal do amor humano em toda a sua beleza, desespero, absurdo e dor. O resultado é uma brilhante amálgama de ironia, humor, emoção, perceção psicológica e grandeza épica.

Pela primeira vez traduzido diretamente do alemão, e respeitando as opções de Thomas Mann – como se pode constatar na grafia do nome Jaacob –, esta tradução notável da professora Gilda Lopes Encarnação revela a exuberante polifonia de antigas e modernas vozes do romance de Mann, uma música rica que é, ao mesmo tempo, elegante, rude e sublime.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

SETEMBRO / NOVIDADES LITERÁRIAS DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 17 de Setembro

 Quotidiano Instável Crónicas (1968-1972)
de
Maria Teresa Horta






















Quotidiano Instável é o título da coluna publicada por Maria Teresa Horta no suplemento «Literatura & Arte» do jornal A Capital, entre 1968 e 1972.


Inicialmente concebida como um espaço de crónica, a coluna assumiu progressivamente um carácter ficcional, especialmente notório no formato de livro que agora é editado.

A belíssima prosa poética de Maria Teresa Horta acaba assim por ser lida como uma unidade ficcional, a prenunciar o primeiro romance da escritora, Ambas as Mãos sobre o Corpo, que Eduardo Prado Coelho incensou como uma obra-prima.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

CRÍTICA LITERÁRIA | " Possessão", de J.R. Ward | Quinta Essência | Grupo LeYa


Texto: Isabel de Almeida | Jornalista | Crítica Literária

Foto: Grupo LeYa

 Possessão, de J. R. Ward, corresponde ao quinto romance da saga dos Anjos Caídos, onde iremos reencontrar algumas personagens já nossas conhecidas, e descobrir a história ou histórias de novos protagonistas de mais este "episódio", desta deliciosa saga do género fantástico da consagrada autora.

  Tendo por cenário a Cidade Norte-Americana de Caldwell, iremos acompanhar o Anjo Caído Jim Heron em mais um momento decisivo na disputa entre as forças do bem (anjos) e do mal (novamente representadas pela ardilosa e atormentada Devina, um demónio que esconde a sua podridão e feeladade sob a capa de uma mulher bela, sexy e sedutora, mas que ironicamente continua a apresentar características bem humanas, como um distúrbio obsessivo-compulsivo que a leva a sessões de psicoterapia; ou o forte desejo e paixão que inegavelmente acalenta por Jim, o seu eterno adversário), e o Anjo Adrian.

   Este quinto romance da série assume-se como um importante marco na narrativa globalmente considerada desde o início da série, na medida em que tudo parece estar em jogo, mais do que nunca, e se é certo que iremos encontrar os habituais novos protagonistas, sendo um deles a alma que Jim deverá salvar (ou não) da perdição, conseguindo assim mais um ponto a seu favor na sua disputa com Devina, denota-se que a autora volta a conferir um acentuado protagonismo a Jim na economia da narrativa neste episódio, porquanto tudo poderá ser posto em causa, muito por força da luta interna que Jim trava consigo mesmo.

Também Devina, uma das nossas personagens preferidas, muito pela ironia que transporta, e pela sua componente de por em evidência alguns retratos da sociedade moderna, apresenta uma nítida evolução psicológica, deixando-se envolver em emoções que, à partida, lhe seriam estranhas, atenta a sua natureza demoníaca e perversa, sendo esta ambiguidade um dos pontos mais interessantes da construção desta personagem.

  Os fortes sentimentos que Jim nutre pela jovem Sissy Barton, a qual fez questão de salvar do inferno onde sofria às mãos de Devina (muito embora a jovem, efectivamente, mude de dimensão e tenha de defrontar-se com essa perda da vida terrena e do contacto com familiares e amigos) poderão redundar numa total mudança de rumo na guerra entre os anjos e o demónio, e a autora consegue manter os leitores em permanente tensão quanto a este aspecto fundamental da trama, o que vem conferir à saga um novo colorido dramático.

   A nova heroína do mundo terreno será Caitlyn Douglass, uma artista e professora educada por pais que veem na religião o cerne da conduta a seguir, encontra-se numa fase da sua vida em que que renova a sua imagem, numa tentativa de alterar também o seu percurso pessoal, encontrando-se a recuperar de um desaire amoroso grave, acaba por se ver envolvida num triângulo amoroso - sentindo-se dividida entre dois homens fascinantes por motivos diferentes, mas que levam a jovem a despertar a sua sensualidade e energia sexual, há algum tempo deixadas de parte. Quem irá Cait escolher para parceiro? : o sensual e carismático cantor G.B., ou o tremendamente intenso e arrebatador Duke Phillips? Será a escolha a mais correcta?

Intenso, tremendamente sensual e escaldante, abrindo novos e inesperados rumos na trama, Possessão  é um romance que revela o quão equilibrada e apelativa se mantém esta deliciosa saga fantástica! Ward volta a dar cartas sem desiludir!

FICHA TÉCNICA:


Título: Possessão

Autora: J. R. Ward

Série: Anjos Caídos #5

1ª Edição: Setembro de 2014

Editora: Quinta Essência | Grupo LeYa

Páginas: 524

Género: Fantasia Urbana

Classificação: 5/5 estrelas


DE ONDE NUNCA SAÍ - PROIBIDO ESQUECER SANTIAGO, de Helder Menor














Mini comida de plástico, num mini prato de plástico, comidas com mini talheres de plástico e digeridas num mini assento de espuma plastificada. O som do motor abafado pelo zumbido do ar condicionado. Os pés apertados e inchados na ponta das pernas encolhidas.

A grande noite atlântica. Horas intermináveis de noite. Horas e horas intermináveis de atlântico. Horas depois de sucessivos adormeceres e acordares incomodados, o amanhecer lento de quem viaja com o sol por trás. Chegou um mini pequeno-almoço de plástico e lá ao fundo, pela mini janela, o vulto do continente debaixo das nuvens.

A primeira coisa que vi da América do Sul foram os cumes nevados dos Andes. E gostei.

Depois foram mais umas duas ou três horas de voo sobre montanhas amareladas com pontas brancas. Os planaltos desertos de vegetação e de casas.

Por fim, anunciaram que estávamos a chegar.

Santiago lá estava como me tinham descrito.

Catorze horas depois de Madrid. Saímos a precisar de ar e de chão na sola dos pés. Mas os deuses das viagens deram-nos mais duas horas de uma interminável fila para controlo de passaportes.

Aprovada a entrada e após sucessivas tentativas, cada vez mais desesperadas, de levantar pesos chilenos nas máquinas de levantamento automático no aeroporto, através de um esquema de legalidade duvidosa, depois de apurada negociação, foi possível “levantar dinheiro” pagando uma percentagem numa loja que tinha sistema multibanco a funcionar.

Saímos para a rua com um táxi pré-negociado e o papel da morada escrita. Estava sol e o ar seco. À volta do aeroporto, o habitual das construções que nascem à volta dos aeroportos. Seguimos até à cidade.

Avenidas largas e arborizadas. Transportes públicos e gente jovem pelas ruas. Muitos jovens. A primeira sensação que tive do Chile, é que é um país de gente jovem. Ficámos numa coisa tipo sandes mista de pensão barata com residência de estudantes. Limpinho e no centro da cidade. Seriam umas dez da manhã quando chegámos.

De banho tomado, saímos para conhecer a cidade.

Comemos uma empanada cada um e decidimos ir caminhar. Errado. Não tínhamos mais descanso do que as horas que cabeceámos no avião. Caminhar ao sol não dá saúde. Sobretudo numa cidade que não se conhece e onde as distâncias relativas são numa escala gigantesca. Demorámos duas horas a ligar dois pontos que pareciam colados no mapa. Voltámos tontos e com vertigens. Acordámos ao final da tarde. Saímos refeitos para as ruas cheias de gente. Fui comprar um canivete que não pude levar no avião e me faz muita falta para mil e uma coisas que seria fastidioso dizer-vos agora, mas que fico desamparado sempre que não trago um no bolso. Andámos pelas ruas antigas entre drogarias, funileiros e lojas de ferragens.

Depois, jantar. Passámos por várias esplanadas a comer e a beber. Vinho, empanadas, frango frito e pisco souer. O café, segundo a apreciação de quem gosta será fraquito. O vinho e o pisco, excelentes e baratos.

Foi Santiago versão alegre. Ruas movimentadas gente jovem animada. Chegámos já tarde à pensão, mas a festa também ali seguia animada. No quintal criámos uma espécie de nações unidas versão latina. Um mexicano, um peruano, uma venezuelana, uma chilena, uma colombiana, um brasileiro, um português e uma portuguesa. Vinhos e cerveja, anedotas e canções numa guitarra que apareceu. O vinho do porto fez sucesso.

A cama recebeu-nos generosa, mas o jet-leg acordou-nos por volta das seis e meia da manhã. Todos dormiam. Procurámos o pequeno almoço possível num frigorífico mais ou menos coletivo e saímos para a rua na manhã luminosa.

“Queremos ir ao Museu dos Direitos Humanos e da Memória.” - dissemos ao primeiro polícia que encontrámos. Recebemos umas indicações formais e precisas e fomos.

Animados pela primeira manhã de um novo continente, percorremos os dois ou três quarteirões em passo ligeiro. Chegámos cedo. Fizemos tempo num jardim florido a ver as pessoas passarem, seguindo para o trabalho e para a escola. Às nove horas entrámos no museu.

Então a coisa deu-se. A brutal puta da realidade a bater-nos em cheio na cara, no peito e nas tripas. E ficou aquela angústia contagiosa, aquela raiva impotente, aquela dor e aquele vazio que nunca passam.

Cinquenta Mil mortos. Estavam ali os cinquenta mil desaparecidos, torturados e assassinados pelo Pinochet de má memória. Todos à nossa espera. Alinhados para nos cumprimentarem e nos mostrarem que a terra da América é amassada com sangue e ossos. Os mortos deram-nos as suas boas-vindas e fizeram-no à sua maneira. Brancos, pretos, mestiços e índios mineiros, pastores, camponeses, jornalistas, operários, topógrafos, ferroviários, comerciantes, tipógrafos, estudantes, músicos revolucionários de barbas, adolescentes com calças à boca de sino, todos todos. Todos ali alinhados.

Pode acontecer que a culpa seja apenas do museu que está bem feito. Talvez demasiado bem-feito. Ou então somos nós que somos demasiado sensíveis. Pode ser paranoia e frescura da nossa parte. Ou então foram as emoções a caírem na fraqueza das noites pouco dormidas.

A história que eu conhecia dos livros, dos documentários e dos testemunhos sobre o golpe e sobre o terror do 11 de Setembro em Santiago, toda ali à minha frente. Tão real que se pode morder. Tudo numa visita de uma hora. Toda a angústia, toda a esperança destruída, todas as dores, todos os gritos, todos os prantos, toda a tortura está lá, documentada.

Os sons. As imagens. As cartas das crianças para os pais já assassinados na tortura a combinarem passeios nos parques. O testemunho das estudantes violadas, dos sindicalistas queimados a maçarico, dos professores assassinados.

Numa parede de três andares, milhares de fotografias com o rosto das vítimas. Gente assassinada a olhar para nós através das fotografias amareladas do passe, do casamento, da ficha policial ou do folheto para as eleições do sindicato.

Os bilhetes de identidade manchados de sangue. Os textos e manifestos fotocopiados amarrotados. As máquinas fotográficas apreendidas e partidas. Os instrumentos de tortura. As roupas rasgadas. E, a mostrar-nos tudo isto os mortos, os cinquenta mil mortos, os cinquenta mil nomes.

Gente como nós. Gente como tu e como eu.

Saímos do museu desfeitos. Arrasados. Não falámos durante uma hora. Não conseguimos olhar um para o outro. Menos ainda para as pessoas com que nos cruzávamos. Em cada rosto de um mais velho que víamos, a incógnita do posicionamento: e tu? Terás sido carrasco ou terás sido vítima?

As paredes do La Moneda não respondem, por isso pegámos nas mochilas e fugimos.

Fugimos literalmente de Santiago.

Uma pena.

Uma cidade que me caiu tão bem. Uma terra tão bonita, aberta, jovem e luminosa...

Mas não foi possível fazer de maneira diferente.

Só passado mais de um mês conseguimos falar um com o outro sobre o que sentimos em Santiago.

Mas um destes dias voltaremos.

Voltarei a Santiago do Chile, para cumprimentar os vivos, beber pelos mortos e resgatar a parte de mim que lá ficou.