terça-feira, 22 de outubro de 2019

O AMIGO, de Anita Dos Santos














Era um dia normal.

Fim da tarde, depois de sair do trabalho. Estava-se no final do Inverno, quando os dias começam a ficar um pouco maiores e, em que aproveitava o resto da luz do dia para ver umas montras e esticar as pernas após um longo dia depois de estar sentado à secretária.

Gostava particularmente daqueles instantes em cada dia, que me permitiam deixar para trás os problemas laborais, tão enfadonhos, e por momentos, não pensar em nada, apreciar simplesmente o ar da rua, o frio no rosto, as luzes nas montras, esta ou aquela novidade.

O caminho levava-me, em muitos dias, até junto da montra de uma livraria, onde ficava a admirar os últimos livros dos autores mais ou menos conhecidos.

Tinha até, a dada altura, começado um manuscrito, ao qual voltava de vez em quando, se sentia inspiração ou necessidade, para acrescentar umas quantas páginas.

Aquele não foi um dia diferente nesse sentido.

Parei em frente da livraria, ensimesmado com as capas que estavam expostas.

Senti um toque nas costas e, virei-me com um sobressalto.

Dei com o Manuel a sorrir para mim, de sorriso rasgado!

- Então António, como tens passado? – Perguntou, com aquele tom gaiato que me recordava sempre de lhe ter ouvido.

Fiquei de costas para a montra, voltado para o meu amigo que não via há anos, e ao no qual não encontrava diferenças, tanto quanto me lembrava.

- Manuel! Mas que bom encontrar-te! – Não me contive, e apertei-o num abraço de urso. – Que é feito de ti? Tens tempo para conversarmos?

- É verdade, não nos víamos há muito tempo… senti saudades daqueles nossos tempos de crianças. 

Não tenho muito tempo, mas vamos andando até uma parte do teu caminho. Eu acompanho-te.

- Diz lá, por onde tens andado, o que tens feito!

- Nada de importante, o mesmo de sempre. Quero é saber de ti, como vai a tua vida. Chegaste a terminar aquele livro que estavas a escrever?

Parei o passo, quase tropeçando. Nem de prepósito, eu ter acabado de pensar no meu livro…

- Não, não o terminei ainda. Acho que ainda falta alguma coisa.

- Não digas isso. Eu penso que deve estar estupendo. Vai ser um bestseller, vais ver.

- Como é que sabes isso? Se calhar não vale nada e ninguém o vai ler…

- Vai por mim, nunca desistas dos teus sonhos. Luta por eles até ao fim!

- Tens razão, é isso que vou fazer. Aliás vinha a pensar mesmo nele! Vou terminá-lo mesmo!

- Muito bem! É assim mesmo!

Olhou para trás, e sorrindo de novo acrescentou:

- Já me demorei demais. Tenho de ir. Gostei muito de voltar a ver-te, António. Nunca desistas dos teus sonhos!

Palavras ditas, vi o Manuel voltar para trás, e desaparecer na esquina seguinte.

As semanas transformaram-se em meses e, eu concluí o meu livro.

E o Manuel estava certo. Depressa se tornou um bestseller, parecia que as edições não saíam com velocidade necessária para corresponder às vendas… Eu nem queria acreditar!

Mais tarde, numa apresentação do livro, encontrei um outro amigo que fazia parte do mesmo grupo de infância a que pertencia o Manuel. Fiquei radiante. Só faltava mesmo o Manuel!

No final, juntamo-nos em volta de uma mesa, com umas chávenas de café e as nossas recordações.

Claro que os amigos ausentes vieram à conversa. Lá lhe contei o estranho encontro que tive com o Manuel, e que ele tinha previsto que o meu livro iria ser um sucesso.

- Oh! António, nem sei como te dizer isto, depois do que te ouvi contar…

- Mas dizer o quê? – Perguntei sem entender.

- António, o Manuel faleceu há cinco anos, num acidente de viação.

- Mas eu estive com ele, abracei-o…

Mais tarde, acabei por entender que o meu amigo se quis despedir, e quis também assegurar-se que eu seguia o caminho que era o melhor para mim.

Naquele dia, além de meu amigo, foi também meu anjo da guarda!


segunda-feira, 21 de outubro de 2019

A VOZ DA VIDA, de Vanessa Lourenço















Perdi-o naquela noite. O meu amigo, o meu companheiro, o meu gato. O único que sempre soube preencher os meus silêncios e a minha incapacidade de lidar com o mundo lá fora, sem me julgar. O único que compreendeu que eu me afastei dos ruídos do mundo, apenas para encontrar os meus silêncios, porque ele sabia que eram os únicos que me podiam salvar.

Perdi-o, e os meus silêncios transbordaram para o mundo lá fora. Uma corrente que não consegui conter, e que me arrastou. Submersa na torrente de emoções descontroladas, fechei os olhos durante muito tempo, e não vi o mundo passar. Ignorei todos os sinais de esperança, todos os gritos de alerta, todas as portas abertas e palavras fáceis, ocas.

Perdi-o. E porque o perdi, recusei encontrar-me. No olho da minha mente, eu via apenas a ausência escura e definitiva da morte. Mal sabia eu... e que ridículo me parece agora, recordar.

Um dia, senti uma brisa leve no rosto, e olhei em volta. Era Outono, e o chão estava coberto por um extenso tapete de folhas secas. As folhas estavam mortas, e, no entanto, as árvores a que pertenciam, estavam vivas. Pensei então na mudança de pêlo dos animais: eles perdem o pêlo morto, e, no entanto, permanecem vivos. A vida insistia em se renovar a todo o instante à minha volta, e isso fez-me pensar.

Porque cremos que a vida se renova apenas até onde conseguimos ver? Porque cremos que tudo o que existe, cabe dentro dos nossos olhos? Porque cremos que algo que faz parte de nós, pode alguma vez ser perdido?

Foi então que ouvi a voz:

- Entendes agora? Nós não somos as folhas secas que caem da árvore, somos a árvore; não somos o pêlo morto que se liberta dos animais, somos o próprio animal. Não somos a lagarta, somos a essência que se liberta da gravidade, e decide voar. Evoluindo sempre, mudando sempre. Mas sobretudo, libertando-nos a cada passo do caminho do que já não nos ajuda a crescer.

Recordando por um momento o imenso gato amarelo que tanto amava, arrisquei:

- Quer dizer que não te perdi?

Uma brisa fresca percorreu o meu cabelo comprido, e senti como se algo se encostasse à minha perna. Ouvi então a voz dizer:

- Quer dizer que neste mundo, nos habituamos a usar corpos que nos definem. Apegamo-nos a eles para criar laços. Mas se olhares para lá do que um corpo te pode oferecer, tudo o que resta é para sempre.


domingo, 20 de outubro de 2019

HOMENS ESQUECIDOS, de Fernando Teixeira















A todos aqueles que trabalharam mais do que os demais, com um esforço e com uma tenacidade maiores do que todos os outros, enfrentando riscos desmedidos nos mares do Atlântico Norte. Em todos eles, o selo da bravura, de uma resistência sobre-humana e persistência inesgotável, colado à pele com dor, suor e sal. Uma hora mais, uma milha mais, um peixe mais…
Foram décadas a caminho dos Grandes Bancos da Terra Nova e da Gronelândia, na busca do “fiel amigo” em pequenos lugres, patachos e navios-motor, debatendo-se nos vagalhões oceânicos, numa dança ao som do sino de nevoeiro, vertigem que faria qualquer humano vomitar as tripas, porém não aqueles bravos homens que mais facilmente enjoariam em terra firme do que no mar.

Nos cais deste país, ficavam as suas esposas e mães, muitas delas vestidas de negro como que pressagiando desgraças, com as cabeças cobertas por lenços e xailes, por tradição e para as proteger da brisa marítima. Todas numa sinfonia de choro, gritos, ansiedade e desespero pela separação forçada, agarradas ao pescoço dos seus maridos e filhos, como se pudessem impedir a sua partida, temendo que fosse a última vez que os viam. Crianças choramingando ao colo dos pais e avôs, um colo que não voltariam a sentir durante meses. Durante a travessia do Atlântico Norte, estas imagens permaneciam na mente daqueles homens, entre lágrimas da alma que só o rosto conseguia conter, enquanto preparavam os seus dóris, frágeis botes a que confiariam a vida durante mais uma campanha.

Chegados aos pesqueiros, centenas de pescadores entregavam-se a uma das mais duras actividades que se possa imaginar. Começando um dia de faina pelas quatro horas da madrugada, arriavam os seus dóris ao mar às ordens do capitão, neles pescando solitariamente durante doze horas, apenas com um magro farnel para se alimentarem. Demoravam duas horas só para iscar as centenas de anzóis das linhas, o trol. Após horas de espera, o trol era alado e o bacalhau capturado era atirado para o fundo do dóri. Quanto mais pescassem, mais recebiam no final da campanha. Quanto mais depressa enchessem o porão de salga do navio, mais depressa regressariam a Portugal e às suas famílias…

Quando o dóri estava composto, por vezes tão carregado que corriam o risco de naufragar, regressavam ao navio-mãe, tendo ainda de remar várias milhas conforme a distância a que se tivessem afastado. Corpos maçados, braços doridos, as mãos numa lástima cortadas pelas linhas… Novo esforço, era preciso garfar todo o bacalhau capturado e atirá-lo sobre a amurada do navio. Só depois, bote e homem podiam ser içados para bordo. E, a seguir, nova tarefa. Era necessário amanhar o peixe todo e cada homem assumia as suas funções a bordo, com destreza e ordenadamente, tornando o navio numa fábrica de processamento de pescado em alto-mar: uns cortavam as cabeças, outros evisceravam, outros escalavam. Só depois de todo o peixe amanhado e enviado para o porão de salga, aquelas almas comiam uma refeição quente, antes de recolherem às camaratas para dormir três ou quatro horas.

Uma vida duríssima, alimentação pobre e água potável racionada, sem condições de higiene, lavando-se a bordo só com água do mar, sujeitos à disciplina rígida dos oficiais e aos constantes perigos, nomeadamente o risco de naufrágio e o de se perderem em densos nevoeiros. Homens simples e valentes a quem essa vida marcou de forma indelével e que a contam como se tivesse sido ontem. Homens cujo trabalho o Estado explorou, esquecendo o seu esforço e como foram então importantes para o desígnio nacional, condenando-os agora a reformas miseráveis.

Foi para relembrar estes homens esquecidos, para honrar os que ainda vivem e homenagear os que já partiram, que eu escrevi o romance Por Entre As Brumas De Newfoundland. Ainda que a pesca de bacalhau à linha em dóris se tenha perdido no tempo, que não se perca da nossa memória! Que não se esqueça o que foi a epopeia da Faina Maior e a Frota Branca portuguesa.

sábado, 19 de outubro de 2019

O BEBÉ E EU, de Anita Dos Santos















O bebé estava doente e, eu também. Normalmente acontecia estarmos ambos bem, ou mal em simultâneo. Havia como que uma simbiose entre ambos, que por vezes ainda hoje sentimos.

Eu tinha febre, por isso não queria que o menino ficasse pior do que já estava. Pedi à minha mãe para ficar com ele durante o dia, enquanto eu me recuperava do que pensava ser uma tremenda gripe.


A meio da tarde recebo uma chamada da mãe, em pânico. O menino estava muito pior, não dava cor de si.


Levantei-me aos tombos, chamei o marido, e fomos os dois com o bebé para o hospital.


Acabou por lá ficar durante vinte e três longos dias, alguns dos quais não sabia se o meu menino iria resistir.


Naquela altura não nos era permitido ficar junto das crianças internadas durante a noite. Ainda hoje tenho nos ouvidos os gritos do meu filho, no primeiro dia em que o deixei, lá, naquela cama estranha, tão sozinho, tão pequeno. O choro dele fazia eco em mim à medida que me afastava pelo corredor, com as lágrimas a correr pela cara.


Vinte e três dias, mais três dígitos do que os meses que ele tinha de idade. Vinte e três dias em que andei quilómetros naquele corredor com ele no colo, pois era a única forma de ele ter algum conforto.


A hora de pavor do dia era quando chegava a equipe médica, rodeavam a pequena cama dele, mandavam-me despi-lo e colocá-lo em pé. Só agarrado… ele não tinha forças, já nem para chorar, por fim. Aos vinte meses chegou ao peso de nove quilos. Não aceitava comer e, o pouco que ingeria soltava pelas pernas a baixo, em líquido. Perdeu o andar, a fala… só me olhava, com aqueles olhos imensos, pedindo que o ajudasse.


Todos os dias lhe eram feitos exames e analises, dentro e fora do hospital, e ainda hoje estou para saber o que foi que o meu filho teve.Houve um dia em que fiz um tremendo escarcéu num dos hospitais onde foi fazer um exame muito complicado, para mais numa criança nas condições em que ele se encontrava. Tinha que ser entubado, mas o médico não o conseguia fazer. O bebé estava sem comer nada desde a véspera. Ao fim de umas poucas de horas, sim porque foram horas, o médico ausentou-se. Ficámos eu, o meu marido e a auxiliar que nos tinha acompanhado, com a criança com um tubo enfiado na boca, semiacordado, deitado na mesa do raio-x. E o tempo a passar…


Por fim, o menino começa a vir a si. O nosso medo era que ele se afligisse e arrancasse o tubo.


Acho que devo ter deixado de pensar, ou de ver. Dei comigo em frente da sala dos médicos, que estava cheia, e desabafei!


Só os vi sair, cada qual para seu lado. Deixaram-me ali sozinha com a minha raiva e frustração.


Quando voltei para a sala, lá vinha o médico que nos estava a assistir, calmamente, depois de ter ido almoçar! Teve de me ouvir, pois é claro!


O bebé foi entubado em cinco minutos, ao colo da auxiliar, sem qualquer problema.


Passados cinco anos, ele necessitou fazer uma radiografia e foi incapaz de se deitar na mesa de raio-x.


Depois começou-se a introduzir alimentação especial, um alimento de cada vez, e ele começou a melhorar. Felizmente.


Saiu do hospital já a andar de novo. Falar foi outro departamento!


Passados anos, houve uma psicóloga que me disse que eu e ele tínhamos um cordão umbilical de aço.


Tomei-o, e ainda hoje assim penso, como um cumprimento. Todas as mães têm uma relação especial com as suas crianças, ainda mais após situações difíceis e traumáticas.

Aos olhos das mães, as suas crianças são sempre especiais!

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

FÉRIAS DE VERÃO, de MBarreto Condado















Dia Quatro


O calor sufoca!

O Verão chegou finalmente!

Fechamos os olhos permitindo que a nossa mente se dirija para o mar salgado. O seu sussurro desperta-nos os sentidos. Conseguimos sentir o seu cheiro, escutar o seu dengoso enrolar na areia, arrastando consigo pedras e conchas vazias que vai depositando suavemente no areal.

De olhos fechados, sentimos a brisa fresca com que nos bafeja, com os pés imersos nas águas aquecidas pelo sol. Perdidos na imensidão que se abre à nossa frente vislumbramos velas brancas no horizonte.

Quando voltamos a abrir os olhos e nos afastamos das memórias das férias, o calor ainda asfixia! Mas a decisão está tomada.

Vamos de férias!

Com tantos locais por onde escolher a maioria dos portugueses ainda prefere o Algarve.

Os motivos são os mais diversos. Há quem diga que o faz por as águas serem mais quentes, porque o sol aquece mais, porque as noites são animadas com festas, feiras, música, jet-set (oito ou nove. dependendo do local), bronzeados dourados, desportos náuticos e, tanto, tanto mais…

Mas os tempos mudam, o clima também e, a verdade é que continua a ser de bom tom dizer que as férias de Verão foram passadas no Algarve. Quem de lá regressa até assobia e bate os dentes de excitação quando fala de tudo o que fez.

A realidade, porém, nunca é contada na sua totalidade.

Os dias são passados a tentar arranjar no meio de um mar de gente, um lugar onde estender as toalhas, evitando a sombra do guarda-sol das famílias circundantes. O som estridente dos gritos das crianças que nos entopem os ouvidos, entorpecendo os sentidos e, impedindo-nos de escutar o tão desejado som do mar. Areia projectada com o sacudir de tolhas na nossa direcção, inadvertidamente ou não, obrigando-nos a cuspir a que nos entra pela boca e a lavar os olhos com a única garrafa de água que levamos para beber. Uma bola desencabrestada que nos vem acertar em cheio na cara, deixando-nos num estado semicomatoso, olhando em volta tentando descobrir o dono de tamanha proeza.

Férias!

Descanso!

Mês de Agosto!

Combinação perigosa mesmo para os mais audaciosos.

Porém, os tempos mudam, as vontades também e as modas, …as modas, …essas acabam por ser a perdição de muitos.

Nos recentes anos, tornou-se muito jet-dez rumar ao Algarve para um qualquer aldeamento, preferencialmente com piscina e bar.

E, é no difícil momento da escolha, que temos a obrigação de dar graças pelas iluminadas almas caridosas que ainda existem na família. Aquelas de que dependemos no momento da escolha.

O que seriamos sem elas?

O auge da nossa felicidade é alcançado, quando nos arranjam um apartamento que supera todas as nossas iniciais expectativas. Três assoalhadas, kitchenette, casa de banho, pequena varanda relvada com abertura para a área da piscina, praticamente encostado à praia.

E, por este pequeno pedaço de paraíso a modesta quantia de quatrocentos e cinquenta euros (duzentos e vinte e cinco euros se conseguirmos convidar alguém para rachar a estadia durante dezassete dias). Com boa vontade ainda convidamos um amigo, que não se importe de dormir na sala.

Maravilhoso! Os milagres acontecem! E, bendita a família que tanto nos acarinha.

Arranjar quem nos acompanhe nas férias torna-se uma tarefa fácil. A dificuldade é rejeitar os inúmeros pretendentes. Afinal são só dois quartos e uma sala.

Já só temos que nos preocupar com as refeições.

E então acontece um novo milagre.

Um dos membros da nossa família ideal faz questão de tomar a seu cargo todas as nossas refeições.

Respiramos de alívio. Até porque cozinhar em férias, ou em qualquer outro momento, é enfadonho e cansativo. E afinal, férias são férias.

Menos gastos…tudo corre de feição.

Seguimos pela A1 para o nosso destino no Algarve, sem nos apercebermos que só em portagens e gasolina, gastamos o suficiente para alimentar uma família durante uma semana e, ainda nem estamos a pensar no regresso.

CHOQUE!

Afinal o apartamento não tem três assoalhadas, kitchenette, casa de banho, pequena varanda relvada com abertura para a área da piscina. O tão almejado palácio não passa de uma sala dividida ao meio por um biombo. A piscina nem se vislumbra. Para chegarmos à praia andamos pelo menos duas horas, onde com o calor começamos passados poucos minutos a ver miragens. Sem falar que ainda temos que regressar.

As refeições diárias, passam de faustosas, a bolachas de água e sal com um copinho de leite frio. Felizmente o minúsculo frigorífico funciona. Apesar dos estranhos ruídos que lembram uma velha locomotiva a carvão, o som que nos embala durante todo o dia e noite.

Quem se responsabiliza por nos encher o bucho, desaparece misteriosamente por motivo de trabalho. Porque como todos sabemos o maior problema das férias é exactamente o excesso de responsabilidade patronal que levamos na bagagem.

E, como com a promessa do paraíso, vem sempre a maçã envenenada. Ao sétimo dia, numa estranha analogia com a criação do Mundo. É-nos apresentada à laia de merceeiro, de lápis gasto e guardanapo de papel, numa das mesas da famosa piscina do aldeamento, a quantia de quatrocentos euros a pagar por cabeça. E, ninguém melhor para fazer a bendita conta com os devidos acertos a pessoa cujo trabalho não lhe dá descanso.

As Férias chegam ao fim. Felizmente, enquanto ainda temos dinheiro para regressar, para as portagens e a gasolina.

Voltamos com o nariz queimado pelo excesso de cloro da piscina. Meios surdos com os gritos das crianças. Com dores em partes que desconhecíamos do nosso próprio corpo, pelas raras vezes que tivemos a felicidade de encontrar cadeiras para nos sentarmos durante o tempo que ali passámos.

O calor sufoca!

Mas nada sufoca tanto como a honestidade e presteza da nossa família ideal.

Bem-haja!

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

VIDA NO CAMPO, de Mafalda Pascoal















Vou começar com um capítulo que se encontra na página 50, de um livro belíssimo que se chama “o Segredo das Crianças Felizes” da autoria de Steve Biddulph.

No final da 2ª Guerra Mundial, muitas crianças ficaram órfãs.


Um médico suíço ficou com a tarefa de descobrir qual a melhor maneira de cuidar dos bebes órfãos.


Após viajar pela Europa “...depararam-se-lhes situações radicalmente diferentes. Em certos lugares os americanos tinham montado hospitais onde os bebés eram aconchegados em berços de aço inoxidável em dormitórios assépticos, onde eram alimentados de quatro em quatro horas por enfermeiras de uniformes impecavelmente limpos.


No outro extremo da escala, em longínquas aldeias de montanha, chegara um camião, o motorista perguntara aos moradores se podiam tomar conta dos bebés e deixara alguns na aldeia. Aqui, rodeados de miúdos, de cães e de cabras e embalados pelas mulheres da aldeia, os bebés ficaram entregues à sua sorte, dependentes de leite de cabra e sopa caseira.


O médico suíço, tinha uma maneira muito simples de comparar o valor das formas de cuidar das crianças. Não foi sequer preciso pesar os bebés, muito menos medir a sua coordenação ou comparar os sorrisos e os olhares. Nesses tempos de disenteria e gripe usou o mais simples de todos os indica estatísticos: a taxa de mortalidade.


O que descobriu surpreendeu-o. À medida que as epidemias iam devastando a Europa e muitas pessoas iam morrendo, as crianças que tinham ficado nas aldeias resistiam melhor que as que tinham ficado nos hospitais sob cuidados cientificamente estudados!


O médico descobrira uma coisa que as idosas há muito sabiam: que os bebés precisam de amor para viver.


As crianças que viviam nos hospitais tinham tudo menos afecto e estímulos. Os bebés que haviam ficado na aldeia tinham abraços, mais colo e mais coisas para ver. Assim, desde que tivessem os cuidados elementares cresciam cheios de saúde.”


Eu nasci em casa, a minha mãe fez o parto quase sozinha, quando uma tia minha chegou já eu estava a nascer. Tinha cinco quilos e oito meses de gestação.


Lembro-me bem de toda a minha infância. Era raro haver crianças por perto para brincar comigo. O sitio onde nasci era e é campo e sem vizinhos, com pinheiros em redor e pequenos caminhos a circundar. Se, por acaso, a minha mãe ia buscar erva para os coelhos, sem eu ou o meu irmão nos apercebermos, seguíamos o rasto até ela, os caminhos eram de areia branca muito fina e os rastos ficavam marcados, e como habitualmente não passavam por ali outras pessoas e nós conhecíamos muito bem o rasto da nossa mãe, era o suficiente para a descobrirmos.


A minha infância foi tão diferente da de hoje em dia. Brinquei com a terra, com as ervas, andava sempre encavalitada nas árvores, procurava ninhos para ver os ovinhos tão pequenininhos e os passarinhos quando já tinham nascido, gostava de observar os ouriços, as lagartixas, as formigas a fazerem os buracos e a carregar cá para fora os grãos de terra, ia apanhar os grilos nos buraquitos para depois os deixar na mesma em liberdade. Quando os coelhinhos nasciam eu e o meu irmão nunca mais os largávamos. Os meus pais tinham uma horta onde havia árvores de fruto, portanto apanhava peras, pêssegos, ameixas amarelas ou roxas, laranjas, também havia limoeiros. Enfim, toda a minha infância foi preenchida por uma amálgama de cores, cheiros, sabores e sons indescritíveis que fizeram de mim um ser humano atento, sensível e muito observador e de quem eu gosto e com quem eu me sinto bem.


É, tive uma infância muito preenchida sem Playstation, sem computador, sem televisão, sem jogos electrónicos. Tínhamos simplesmente um rádio onde ouvíamos música e as rádio novelas.


Quando fui para a escola já sabia fazer o abecedário. A minha adaptação foi fácil, porque sempre gostei muito de aprender.


De casa até à escola eu andava à volta de 4/5 quilómetros, chovesse ou fizesse sol eu lá ia sempre sozinha, e não tinha medo.


Agora nem que a criança more ao lado da escola, lá vão levá-la até à entrada. À hora do lanche lá estão ao pé do portão com o farnel da criança (é claro que os tempos são outros, mas “nem tanto ao mar nem tanto à terra”).


A vivência tão rica da minha infância e juventude, ensinou-me a dar valor a tudo sem excepção, inclusive aos insectos. Hoje, uma criança de cidade não sabe o que é uma aranha ou uma formiga, e se verem um exemplar desses se calhar desatam numa choradeira, como se os bichos os fossem engolir.


Hoje em dia, as crianças começam logo a brincar com jogos electrónicos. Os desenhos animados por vezes são violentos. Desde tenra idade é-lhes dado um telemóvel, um computador, Internet e tudo isto seria muito bom se fosse supervisionado pelos pais, se estivessem mais perto dos seus filhos, se as crianças tivessem bases sólidas e sempre que tivessem duvidas, terem os pais “à mão de semear” para os ajudar na decisão mais correcta para as suas necessidades.


Mas não, são as nossas crianças e as novas tecnologias com tudo de bom e mau que o mundo tem. E se as crianças não tiverem as tais bases sólidas que se começam a construir no berço, com muito amor e carinho, e não com a grande ansiedade, de que passe depressa o tempo, para os deixar num infantário que poderá ter uma EDUCADORA carinhosa, ou talvez uma educadora que não tenha nascido para isso, para deixar de as aturar e ir trabalhar.


Enfim, por isso a juventude de hoje é tão difícil. Reclamam por tudo e por nada. Estão habituados a terem a “papinha toda feita”, e à menor dificuldade, ficam perdidos e não sabem como reagir.


Depois a culpa é sempre dos outros, pois estes jovens habituados a terem tudo o que querem, porque os pais, por não estarem com os seus filhos tentam compensar com dinheiro, ou seja compram-lhes tudo o que eles pedem ou sonham ter, e depois se algum dia esses pais não puderem satisfazer as vontades desses filhos, lá vêm eles com chantagem emocional, se não funcionar, chegam mesmo a “descarrilar” por caminhos menos bons. Começam a ficar violentos na escola ou no seu círculo de amigos, depois esses amigos talvez não gostem dessas atitudes, começam a afastar-se e aí está um jovem propenso a tornar-se amigo do alheio, a refugiar-se nas drogas ou na bebida. Aqui, o mau ou bom caminho vai depender do amigo ou amigos que lhe restarão ou que tenham vindo de novo.


Neste seguimento, temos também aqueles jovens certinhos, tentam fazer tudo o mais normal possível, são estudiosos tiram sempre boas notas, depois sentem-se deslocados no meio dos outros jovens que a nossa sociedade “fabrica”.


Mais tarde, quando são jovens adultos, torna-se difícil encontrar a sua “cara-metade”. Vê-se amiúde, jovens acompanhados por pessoas bem mais velhas porque talvez sejam as que os compreendem melhor, lhes dão mais apoio e mais carinho.


Há um tempo atrás, ouvi uma entrevista com o Dr. Daniel Sampaio na Rádio Clube Português, sobre os relacionamentos amorosos na juventude, em que ele dizia que tinham perguntado a um grupo de rapazes e raparigas todos dentro de uma sala, quais as dificuldades que encontravam no relacionamento amoroso, todos se entreolharam e responderam que não havia dificuldades. Depois fizeram a mesma pergunta em particular, e o Dr. Sampaio ficou surpreendido com o resultado das respostas dos rapazes, porque a maior parte, disse a mesma coisa sem saberem uns dos outros, que foi “nós para arranjar uma rapariga para fazer sexo é com a maior das facilidades, mas arranjar uma rapariga que nos ame, não existe”.


Portanto a nossa juventude está “doente”, precisam de mais acompanhamento por parte dos pais, da família.


Os educadores de infância, os professores não podem fazer grande coisa. Como todos nós sabemos, cada vez é mais usual a falta de respeito dos mais novos pelos mais velhos. Os nossos jovens vivem numa anarquia muito difícil de modificar. Mas eles não têm culpa, ninguém nasce ensinado.

NOCTURNO ARCO-ÍRIS: A IMPORTÂNCIA DE TEMPERAR AS ISCAS, de Helder Menor















Estava calor e humidade. O ar cheirava a gasóleo, a mar ao longe, a estufa, a lixo e ao doce de fruta podre. As baratas do tamanho de pardais, voavam em curvas descendentes à volta do candeeiro da rua que com luz amarela iluminava e o grelhador improvisado.

Na cozinha que dava directamente para a rua, preparava-se o funge e a salada de tomate picado com cebola e gindungo. Cá fora, na rua, velávamos uma galinha a churrascar nas brasas e bebíamos minis tiradas de um bidon com água e icebergues do tamanho de melões.

A dona da casa era uma mulata bonita e gorda, cunhada do meu amigo, irmã mais velha da sua companheira. Uma mulher grande, resistente e dura que não perdeu a ternura, desde os treze anos que tomava conta dos irmãos. Aos vinte já tinha o peso e a postura das grandes matriarcas africanas. Falava calma e severa e toda a gente à sua volta, naturalmente e espontaneamente lhe obedecia.

Arranjava-se para sair. Tomou banho e o cheiro do seu gel de banho perfumado, que se sobrepôs-se ao fumo do fogareiro e da gordura da galinha, chegou-nos antes de a ouvirmos. Falou de longe para o fumo do fogareiro não contaminar o vestido:

-- Vou no aeroporto buscar o Elias. Não deixem chegar o fogo na galinha nem fiquem bêbados antes de chegarmos.

Especialista diplomado em churrascos, o que estava comigo respondeu:

--- Vai na boa que eu mantenho afastados os dois inimigos presentes: não deixo o fogo chegar à galinha nem o branco chegar às cervejas...

Partiu com uma gargalhada inesperada na sua expressão sempre severa e nós abrimos mais duas celebrando as gargalhadas das mulheres e a amizade. Ela foi e eu perguntei:

Mas quem é esse Elias que ela vai buscar?

É o namorado! Namoraram na infância lá no mato, daqueles namoros de putos e não se viram durante uns 12 anos. Quando foi da guerra ela deixou de receber as cartas dele. Depois veio a Internet e reencontraram-se. No ano passado ela foi ter com ele lá à Lunda. E agora, não estão mais de seis meses sem se ver...

Da cozinha veio a irmã, abriu uma cerveja, acendeu um cigarro e acrescentou pormenores românticos à novela do reencontro. Fomos bebendo e falando.

O Elias ainda em rapaz foi raptado pela UNITA que atacou a aldeia onde morava na Lunda. Teria uns quatorze anos quando fizeram dele soldado. Passou um mau bocado, viu morrer de morte matada, familiares e amigos. Ficou com eles muitos anos na mata, terá assistido e sido obrigado a participar em massacres. Depois fugiu e juntou-se às Fapla onde chegou a sargento, posto com que passou à disponibilidade.

Metemos um terceiro cadáver de galinha na grelha e abrimos mais umas para evitar a desidratação.

Não esperamos muito mais.

Ao contrário do Rambo que eu esperava ver chegar, o Elias era um homem muito pequeno. Negro retinto e magrinho, enfezado mesmo, com o peito para dentro. Uns cinquenta e cinco quilos, no máximo dos máximos e pesando calçado com botas de biqueira de aço, mais as duas copias das chaves de um portão grande no bolso. Usava um sorriso meio triste de menino e uma gargalhada escancarada num olhar vagamente sombrio. Saiu do carro e caminhou na nossa direcção um pouco dobrado para a frente e com os braços a abanar. Trazia com um bigodinho ralo, uns ténis Nike brancos e calças de ganga. Vinha a dançar dentro de uma camisola do Futebol Clube do Porto tamanho M que lhe ficava três números acima.

A dona da casa comandou as operações:

-- Fica aí com esses dois a beber uma cerveja. U-M-A! O preto é cabo-verdiano e está com a minha irmã, o pula é amigo da família e está de passagem. São fixes, mas abusados.... Vê se não começas já a ganhar maus hábitos, tá?

Rimo-nos os três uns para os outros.

Abrimos mais cervejas passamos-lhe uma gelada.

-- Xii dói o dente do frio da cerveja... não tem menos fria aí? Desabituei de beber cerveja gelada... Quando tava no mato não tinha água quase nunca e não tinha cerveja quase sempre...

Fui à cozinha e tirei uma mini da última grade que metemos no frigorífico.

Estava praticamente morna. Voltei à rua com a garrafa na mão. Dei-lha.

Como sou descarado, perguntei-lhe à queima roupa:

-- Olha lá Elias, ouvi dizer que estiveste na mata com a UNITA e depois voltaste para as Fapla. Como é que convenceste os cambas do MPLA que não eras um provocador nem um espião infiltrado?

Olhou para mim e sorriu a mostrar os dentes brancos regulares:

-- Não foi fácil maninho. Mas eu fiquei firme. Fiquei sete anos até ter a confiança dos chefes, só faltava conhecer o Savimbi. E quando eles já confiavam tudo em mim, eu trouxe uma patrulha de doze para perto de um quartel dos nossos e capturei eles.

  Capturaste doze homens armados sozinho?

Sozinho não! Foi com a ajuda do feiticeiro que eles tinham a quem eu disse a Fapla pagava mais aos feiticeiros que a UNITA. Ele acreditou. Então o bruxo fez um pó com raízes para por na comida, todos comeram menos eu e o feiticeiro... e todos os que comeram ficaram a dormir. Depois foi só amarrar eles. O bruxo ficou a tomar conta dos inimigo e eu fui chamar as Fapla. Quando as Fapla chegou mandou eu mais o bruxo matar todos para mostrar que não éramos traidor. Então mandei os bandidos cavar um buraco assim de grande (os braços abertos envolvendo a enormidade do buraco) e disse para sentarem lá dentro para esperar na sombra o transporte que os levava para a Luanda para serem trocados por outros prisioneiros... Eles burro, sentaram só. Eu com duas granadas juntas matei e enterrei ao mesmo tempo!!!

Ficamos os três em silencio com o pragmatismo e a simplicidade da solução. Só se ouvia galinha a chiar nas brasas. Para desanuviar, e porque não gostava de silêncios pesados, o meu amigo cabo-verdiano perguntou:

-- E esse feiticeiro que estava contigo? Agora também está em Luanda?

-- Não. Esse eu matei também. Tinha de matar só. Era um feiticeiro ruim. Mau! Invejoso, mentiroso e ruim! Vi fazer muita coisa má, tinha de matar só! Era quimbanda do Zaire. Dei um tiro na nele. E com o facão cortei o pescoço para separar cabeça do corpo e deixei enterrado em sítios diferentes.

Com os dedos compridos fazia gestos de decapitação. Gesticulando, prosseguiu.

Abri o bruxo daqui-aqui, para tirar o coração e deixar para as hienas e tirei o fígado para comer eu. Coisas antigas do mato, mas eu sei que são mesmo assim. E eu tinha que comer-lhe o fígado para tirar-lhe a força! E te digo maninho, este era um bruxo mau mesmo! Tinha o fígado muito amargo, muito amargo, muito amargo. Tché! Amargo, amargo mesmo! Teve que levar bué da sal e bué de gindungo para conseguir comer.... Vocês aqui não sabe, mas eu explica. Nós do mato sabemos dessas coisas. Quando é uma pessoa boa o fígado não sabe amargo, sabe bem, como o fígado de gazela que não tem maldade... Quando é uma pessoa má o fígado é muito amargo, amargo. Porque a maldade e a força do espírito da pessoa estão no fígado. Por isso eu tinha que comer o fígado dele se não o espírito dele ia me empatar a vida toda!

Voltamos a ficar em silencio. A beber e olhar para as brasas a crescer em chama.

A dona da casa, chegou sem avisar. Descompôs-nos aos três por estarmos a deixar queimar a galinha que já estava assada. Levou-nos em coluna para mesa. Na sua autoridade de metro e meio, avisou logo que ao jantar não queria conversas nem de guerra, nem de futebol, nem de política.

O Elias, rebelde e desobediente, ainda antes de se sentar perguntou entusiasmado:

E o Engenheiro Pinta da Costa continua presidente do Porto, verdade?

Porque não lhe respondemos, olhando para as galinhas assadas na travessa, sem pausas e com o mesmo sorriso tímido prosseguiu com um verso:

Carne de galinha é boa,
carne de vaca também,
mas a melhor das carnes
é a carne que agente chama e ela vem!!!!

Rimos todos.

E a sua gargalhada escancarada e sincera afastou definitivamente todos os espíritos malignos e todas as memorias de guerras passadas e futuras.

As mulheres riram da piada que interpretaram como brejeirice de quem tem fome de amor de fêmea.

O jantar continuou animado e não voltamos a falar de guerra, nem de política e nem de futebol.

No dia seguinte, segui viagem. Parece que o Elias e a dona da casa, casaram e estão a viver em Luanda. 

Não voltei a ver o Elias.