quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

NOTURNO ARCO-IRÍS: OS CAVALOS E O JOÃO CIGANO, de Helder Menor















O João Cigano, antes de se mudar aqui para a vila do Barreiro, viveu como cigano legítimo e maltês. Andando de terra em terra, percorreu todo esse vasto mundo entre o Tejo e o Sul. De Sines a Sevilha, de Santarém a Huelva, de Setúbal a Cáceres. Conheceu os caminhos velhos quando ainda eram só caminhos velhos que ligavam as terras velhas. Aprendeu segredos e bruxedos com a avó que levou com ele para a cova. A avó que o criou e a quem ele sempre conheceu por velha. Dizia que tinha nascido no tempo da Rainha Pia. Também ele nasceu no tempo dos reis, nasceu exatamente no último dia de vida do último rei.
A velha criou-o num berço de pele de égua pendurado como uma cama de rede debaixo da carroça. Aprendeu a montar nu ainda antes de aprender a andar vestido, era por isso que nenhum cavalo o desmontava. Bebeu água dos ribeiros chupando pelo tubo feito da traqueia de um garanhão, que morreu de velho depois de ter coberto mil éguas, por isso da garganta dele saíam vozes a que os outros cavalos obedeciam. Tomou banho com a urina de uma égua virgem com o cio, por isso todos os cavalos o seguiam.
Estas coisas secretas e outras ainda mais secretas, ouvia-as eu a ele, ao João Cigano.
Ouvi-as num tempo remoto em que no mundo os adultos eram gigantes e eu quando olhando em frente vi as pessoas pela altura dos joelhos. Num tempo em que passava a eternidade das tardes de verão sentado no conforto seguro do colo do meu avô. O meu avô era amigo do João Cigano. Naquelas tardes de verão, sentavamo-nos os três no pial da casa, à sombra das paredes, a ver os carros e as pessoas passar. Eles a falarem de coisas antigas e eu a ouvir. Falavam de cavalos, de touros, de contrabando e de fugas à polícia. E eu, menino a beber-lhes as palavras.
Quando o João Cigano, veio para o Barreiro, veio fugido à guarda. Foi por causa de uma situação mal explicada de um cavalo baio em Montemor, que disseram que ele vendeu... e que depois envenenou porque o comprador não lhe pagou o combinado. Sei que é mentira, porque o João Cigano gostava e era irmão de cavalos e nunca faria mal a nenhum deles.
Por isso é mentira que o João Cigano tenha envenenado um cavalo.
A verdade é que chegou ao Barreiro, já passava dos trinta e vinha a fugir do passado e a querer fazer  futuro. Deixou nas estradas perdidas mulheres que ficaram esquecidas e muitos filhos que ao longo do tempo foram chegando e que por cá alguns ficaram.
A sorte travessa deste cigano ditou que dois dias depois de ter chegado, ao final da tarde, se cruzasse com uma patrulha a cavalo da guarda republicana. A guarda passava e o João na rua, desprotegido sem porta para entrar nem sítio para se esconder. Tarrenego!
Para felicidade do João e infelicidade momentânea da guarda, um dos cavalos da guarda, um garanhão negro, lindo imenso e luzídio, que transportava um dos praças ratinhos importados para impor a ordem salazarenta na vila e na fábrica, dá em saltar e espernear. Terá visto bicho ou cheirado cobra ou sentido assombração. Não sabemos porquê e há várias versões. O que é certo é que, o garanhão onde o guarda beirão ia se assustou e deu em pinotear.
O cavalo em si, lindo mas pouco dado a montarias, também não seria de fiar, daí o cabo o ter atribuído a praça novato que vinha lá da escola da guarda ainda a falar axim.
– Para aprender que a vida também dá coices – terá dito o cabo aos praças mais velhos...
Quando o cavalo se assustou, saltou e escoiceou.
O praça da guarda ainda tentou segurar-se em cima da cela e em vez de dar arreata ao cavalo para que corresse, quis travá-lo puxando para trás a cabeça ao mesmo tempo que com as pernas e botas esporadas apertava a barriga do animal. O inevitável aconteceu e não durou cinco segundos lá em cima. O guarda no chão e o cavalo no ar. A assistência a rir, o cabo da guarda zangado a exigir ordem e os outros guardas da patrulha a tentarem acalmar as montadas que o medo, todos sabemos, é um mal contagioso. E todos os cavalos da patrulha se agitaram.
O garanhão solto a saltar depois num furioso galope na direção à Baixa da Banheira. A correr pela estrada em contra-mão. Lindo cavalo negro, que por milagre esquiva uma camioneta de peixe que vinha a virar a esquina em eventual excesso de velocidade. Voltou o cavalo a galope na direção do resto da manada dos cavalos e éguas com GNRs em cima. O pânico foi geral. Com cavalos, éguas e guardas a saltarem a procurar abrigo numa estrada toda aberta só com casas a fechar.
No meio desta confusão toda, o João Cigano, sem saber bem porquê falou... Ou melhor, gritou. Nem sequer gritou. Vocalizou um som gutural que, apesar de bem sonoro, poucos ouviram mas que travou o garanhão instantes antes de chegar à manada. O cavalo em galope solto, travou a quatro patas e parou a escassos metros do ajuntamento desordenado. O bicho olhou para o cigano, baixou a cabeça e veio a andar devagar mas ainda nervoso a bater com as patas no chão. O cigano ainda estava encostado à parede a olhar para o cavalo com os olhos semicerrados e a boca a falar baixinho como que em segredo.
Aí a um metro da parede e do homem, o cavalo parou, levantou a cabeça e relinchou como se falasse ou desafiasse ou o cumprimentasse. O João, que tinha os braços cruzados com as mãos debaixo dos sovacos, sorriu e falou baixinho para o animal. O cavalo ao ouvir o cigano baixou a cabeça e aproximou-se mais. Neste momento, para espanto total de todos os presentes, incluindo pessoas, cavalos e guardas, o João Cigano estendeu as mãos. O cavalo que há minutos era o mais selvagens das feras, veio com a boca de veludo e a língua áspera lamber os dedos do cigano.
Isto foi assim mesmo que aconteceu aqui nas ruas do bairro onde vivo e foram muitas as testemunhas que viram.
O João, constrangido com a situação, pegou na arreata caída do cavalo e a passo foi dá-lo ao praça que ainda se sacudia envergonhado da queda.
Sem uma palavra, passou-lhe o cavalo e desapareceu na esquina.
Mas já estava feito.
O acontecido correu mais depressa pelas ruas da vila do que o galope do cavalo. Nessa mesma noite, o temido sargento da guarda, que não gostava de ninguém a não ser dele próprio, da Nossa Senhora, do Salazar e dos cavalos, deu ordem que queria falar com esse cigano.
-        Sempre quero ver se é como vocês, suas bestas incompetentes me estão a contar. Quero esse cigano amanhã de manhã aqui no posto.
Assim mesmo na delicadeza que sempre o caracterizou, o sargento falou para o cabo e para os dois praças mais velhos.
Passaram-se dois ou três dias e o cigano andou sumido, sabe-se lá por onde...
Mas como o Barreiro é quase uma ilha, e nos anos quarenta do século XX era ainda mais pequeno, o que tinha de acontecer aconteceu: uma manhã de sol, à porta da vinícula, estava o João desprevenido a beber um branco e a conversar sobre as melhores luas para namorar, quando passou um dos guardas, desfardado e de folga. Olhos de informador atentos a tudo, reconheceu o cigano do cavalo. Homem de poucas falas e de menos leituras, pouca coragem física mas de grande virtude moral e alguma esperteza... mal cruzou a esquina, correu direto ao posto da GNR a avisar os que estavam de serviço.
Nem cinco minutos depois, chegava o jipe com o cabo e três praças para levarem o cigano ao posto.
-        Ai a minha vida!!! Que eu nã fiz nada para me levarem preso!
-        Quem é que disse que vais preso. Vem connosco que o sargento Seia quer falar contigo!
-        Ai... mas eu não conheço o senhori! Não tenho nada para falar com eli... deve ser engano... Nós os ciganos somos todos parecidos... Ê tenho um primo que é quase iguali...
-        Não é engano nenhum. É contigo que o sargento quer falar por causa do cavalo.
Ao ouvir falar no cavalo, o João viu a sua vida a andar para trás...
Pensou que fosse por causa do cavalo que vendeu e que depois apareceu morto e que diziam que ele tinha envenendo. Analfabeto, mas inteligente, o cigano fez o que mais sensato há a fazer quando vamos ao posto da guarda sem sermos nós a decidir a que horas vamos: ficar caladinho e esperar que a má hora passe. 
Não esperou muito. O sargento Seia, homem grande e de voz grossa, mal viu o cigano fanzino a entrar com os seus homens, começou logo aos gritos que se ouviam ao longe.
-        Então tu é que és o cigano que fala com os cavalos?!?! Sempre quero ver isso. O Valente, o garanhão preto que desmontou o praça, realmente tem mau feitio mas deixa-se levar... mas quero ver-te a falares com o meu Relâmpago.
O Relâmpago era o cavalo do sargento Seia.
Cavalo lindo e bravo. Todo branco com meias castanhas nas mãos. Todo ele fúria e elegância em estado bruto. Só se deixava montar pelo próprio sargento Seia, que fazia questão de ser ele a alimentar o animal e a escová-lo. Até para limpar a box do cavalo tinha de ser o sargento a levá-lo pela arreata. O sargento Seia não limpava a box que um sargento não limpa merda... mas fazia o favor de tirar de lá o Relâmpago...
Cavalo bravo como um touro de lide e bonito como a mais bonita das mulheres.
O João Cigano, ao contrário do que o sargento esperava, não se assustou com a ideia.
Antes pelo contrário. Quando percebeu que afinal não era por causa do cavalo de Montemor... até respirou de alívio.
Baixou a cabeça e seguiu com o chapéu nas mãos atrás do sargento pelos corredores do posto até à cavalariça.
-        É aquele ali!
Informaram
O João deu a volta evitando passar por trás do animal designado. O cavalo relinchou e bateu com os cascos fortes no chão de pedras. Os guardas e o sargento riram entre si.
O cigano aproximou-se devagar e falou baixinho umas palavras entre o calon, o espanhol e o alentejano. Depois afagou o focinho do Relâmpago. E o Relâmpago baixou a cabeça e lambeu-lhe as mãos. Voltou a falar-lhe baixinho ao ouvido. E o cavalo respondeu com um assentimento e uma cabeçada no cabresto e nas arreatas penduradas na parede.
O cigano enfiou o cabresto e ajustou as correias no cavalo.
-        O senhor guarda quer que o monte ou é só para lhe por cabresto?
-        Não é senhor guarda é senhor sargento. Monte o Relâmpago que eu quero ver!
Ainda sem acreditar no milagre a que assistia, o sargento tentou testar.
-        Monte sem sela, se o cavalo é manso consigo, deixa-o subir...
-        Aí senhor sargento, mas sem sela, faz muita força nas costas do bechinho!
-        Monte sem sela como eu lhe estou a dizer porra!
-        O senhori sargento é que manda...
E assim fez. Com agilidade saltou para cima do cavalo segurando as arreatas e gingango apenas com as ancas, fez o cavalo fazer marcha-atrás na box. Depois, de cima do cavalo, perguntou ao sargento
-        Agora quer que eu vá onde?
-        Saia com ele e dê uma volta aqui no pátio.
Montado no bonito e valioso cavalo, o João Cigano, por momentos ainda pensou em sair a galope pelo portão aberto e só parar em Badajoz para negociar o animal.
Mas aqueles seriam maus tempos para ir a Badajoz... e o João já tinha problemas de sobra para comear outros....
Por isso fez o que lhe mandaram.
Depois desceu e avisou o sargento.
-        O cavalo é lindo, mas tem uma fraqueza no pé esquerdo... ou é jeito antigo que deu ou foi ferradura mal posta... mas como ele está todo bem calçado... deve ser um jeito antigo. Ligue-lhe a pata com malvas frescas por dentro da ligadura que isso passa-lhe!
-        Tens razão cigano. Foi um jeito que deu aqui há duas semans a saltar a ribeira de Coina. Se achas que sabes curar o cavalo, voltas cá amanhã e vem tratar dele.
Foi assim que o João Cigano ficou no Barreiro e se tornou veterinário exclusivo do sargento Seia.
Os anos foram passando e o João não se pode dizer que fosse amigo do sargento da guarda... mas o que é certo é que o homem respeitava o João Cigano e era a única pessoa a quem pedia conselhos.
Também sei que, quando o João Cigano pedia, o sargento Seia lhe fazia favores. Documentação. Passaportes, bilhetes de identidade e papéis desses. O João contava ao sargento uma narrativa com um primo cigano fugido a cavalo e perseguido por marido cornudo… o sargento ria-se e passados uns dias aparecia com os documentos para entregar ao cigano... só era preciso colar a fotografia...
Nem sempre os documentos eram para ciganos. Mas sempre foram para perseguidos e quase sempre perseguidos por cabrões... porque os pides eram todos uns cabrões. Assim aprendi, assim vos conto.
Mas essa seria outra história. O João Cigano, contava ao sargento da guarda metade verdade-metade mentira. Dizia a brincar: sou cinquenta por cento sério.
Quando eu o conheci, o João Cigano tinha mais de oitenta anos.
Ensinou-me que cavalo, navalha e mulher não se emprestam a ninguém.
Já muito velhinho, quase a partir para a terra dos eternos galopes, queixava-se da comida do hospital do Barreiro e dizia “cavalo de campo não bebe água do balde”....
Dias antes de partir, disse: Prá semana já não estou cá. Melhor assim, a morte abre a porta da fama e fecha a janela da inveja!
Era um sábio o João Cigano.



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

A MELHOR MÁQUINA VIVA de José Gardeazabal / COMPANHIA DAS LETRAS

Depois de Meio homem metade baleia, finalista do Prémio Oceanos que conquistou a crítica e os leitores portugueses, José Gardeazabal tem um novo romance, A melhor máquina viva, que chega a 4 de fevereiro às livrarias pela Companhia das Letras. 

José Gardeazabal apresentará este romance no encontro literário Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, a 20 de fevereiro. A de 5 de março, realizar-se-á um lançamento também em Lisboa, na Livraria da Travessa.


Sinopse: Anders Kopf é um jovem aspirante a escritor que decide mergulhar na pobreza por um ano e afastar-se de um passado doloroso. É um exercício temporário cujo objectivo é melhorar a literatura. Com os seus novos companheiros faz um batismo de pobreza, pratica roubos colectivos em matadouros, partilha refeições suspeitas e sofre injustiças pedagógicas. Durante todo esse tempo, reescreve a sua própria história de orfandade e de crime. Eeva Wiseman é uma bela capitalista que herdou do pai um antigo matadouro, relíquia macabra do século XX. Administra com agilidade maternal o seu império de negócios, na sombra voraz da globalização, ao mesmo tempo que ressuscita da ressaca de um grande acidente e de um desaparecimento absoluto. O que têm Kopf e Eeva a oferecer um ao outro? Entre o amor e a amizade, qual a melhor máquina? A liberdade e o sexo; a pobreza e a abundância; o triângulo homem, mulher, animal, são estas as várias máquinas modernas que alimentam a literatura. 

Sobre a obra de José Gardeazabal: «O primeiro romance de José Gardeazabal é um livro profundamente político, alegórico, irónico e aforístico.» José Riço Direitinho, Público «O que mais surpreende é a escala e o fôlego do seu projecto literário.» José Mário Silva, Expresso «O aparecimento de José Gardeazabal no plano literário europeu contribui para uma desconstrução da Europa moderna.» Ana Catarina Anjos, A Europa face à Europa: poetas escrevem a Europa «Um exercício invulgar, notável e vertiginoso que conduz a literatura para um lugar novo.» Júri do Prémio Imprensa Nacional Casa da Moeda/Vasco Graça Moura «Não deixará nenhum leitor indiferente.» José Tolentino de Mendonça 

Sobre o autor: JOSÉ GARDEAZABAL nasceu em Lisboa, onde vive actualmente. Viveu, trabalhou e estudou em Luanda, Aveiro, Boston e Los Angeles. O seu livro de poesia, história do século vinte, distinguido com o Prémio INCM/Vasco Graça Moura, foi editado em 2016, ano em que publicou também Dicionário de ideias feitas em literatura, uma colectânea de prosa curta. Em 2017, editou três peças de teatro, reunidas na obra Trilogia do olhar. Em 2018, a Companhia das Letras lança o seu primeiro romance, Meio homem metade baleia, finalista do Prémio Oceanos, um dos mais importantes da literatura de língua portuguesa. A melhor máquina viva é o seu segundo romance e o primeiro volume da Trilogia dos Pares. 

Excertos do livro: 
O corpo: «Aqui não há alcunhas, está tudo no corpo e somos felizes e é tudo verdadeiro.» 

Humanismo: «Pergunta humanista: os homens do presente são melhores ou piores que os homens do passado? Resposta: perguntem às mulheres. Dos homens, perguntem às mulheres. As mulheres sabem mais sobre os homens que os humanistas.» 

11 de Setembro: «Uma agitação agarrou os cidadãos pelo pescoço puxando-os até à margem do rio, onde vomitaram sem olharem uns para os outros, os corações na água, como espelhos partidos. Tentaram olhar a ilha de fora, examinar o perigoso interior daquela grande mãe americana. Os mais rápidos refugiaram-se em quartos de amigos, os profissionais apressaram- -se, e os coxos correram na direção do acidente e, logo a seguir, na direção contrária, mais depressa. Aconteceu uma segunda queda. Porquê uma segunda queda, não bastou a primeira? Aquele chão seco de paraíso, aquele enjoo de dilúvio. Protegidas por uma poeira cinzenta e fina, as pessoas mascararam-se de desconhecidas, de palhaço, na certeza de este ser um susto novo. Aprenderam rapidamente a respirar lentamente, invocando ao telefone uma salvação impessoal. Ninguém os ouviu. Estavam entre a realidade e a verdade, e a realidade ganhava. A realidade ferro, cimento e vidro transparente, a realidade simultânea de dois desastres, tão improváveis como uma má aposta. Deuses distraídos tinham jogado aos dados e o nosso deus tinha perdido.» 

Capitalismo e Desigualdade: «A desigualdade, no pior dos casos, é uma estratégia de carinho. A escrita é a cura para a introspeção. Não sei se devo escrever isto. Sinto-me como se setenta por cento do meu corpo fosse água da piscina. O menino jesus é um pré-adolescente e saiu de casa. O pai, a mãe, o burro e a vaca não sabem se volta. Tenho pena dos empregados domésticos, a quem antigamente chamavam criados. Já ninguém lhes chama criados, não tenhas pena deles. Quase não existem, o capitalismo acabou com os criados e com a beleza, o capitalismo é pior que a modernidade líquida. O capitalismo é como as galinhas, o capitalismo do vizinho é sempre pior que o nosso.» 

O Futuro: «Um dia, no futuro, tudo aquilo a que hoje chamamos humano será responsabilidade dos pobres: amar, cuidar de um jardim, praticar sexo sem proteção. Os pobres serão atletas, os melhores embaixadores da estação do amor, mais eficientes e mais felizes que a maioria do corpo diplomático.»

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA | "Fala-me de Um dia Perfeito", de Jennifer Niven | Nuvem de Letras - Grupo Penguin Random House


Texto: Isabel de Almeida
Jornalista | Crítica Literária | Editora

Foto: Nuvem de Tinta | D.R.



Fala-me de um dia perfeito, o primeiro romance young adult de Jennifer Niven, que agora chega aos ecrans com a Netflix, é uma obra muito especial por diversas razões, desde logo, pelo carisma e densidade psicológica dos protagonistas, pelos temas difíceis que aborda com sensibilidade mas de uma forma desassombrada e explícita, sendo exemplos destas temáticas: o processo de luto, os comportamentos suicidários na adolescência, a depressão, a violência doméstica e o estigma ou rótulo usualmente ainda hoje associado às perturbações mentais.

Os protagonistas  - Violet Markey e Theodore Finch - são dois adolescentes residentes no Estado do Indiana, nos Estados Unidos , cujos caminhos se cruzam no Liceu Bartlett, no momento em que ambos sobem ao campanário, considerando pôr fim às respectivas vidas, e acabando Theodore por recuar nos seus planos, e impedir que Violet cometa tal acto de loucura.

Theodore é um jovem afectado pelo percurso familiar problemático, filho de um pai egocêntrico, violento e ausente e abandónico [saiu de casa para construir uma nova família, escusando-se à responsabilidade de satisfazer as necessidades afectivas dos três filhos do primeiro casamento - Theo, Kate e Deca, aos quais, apesar de tudo, impõe uma convivência forçada num suposto jantar de família onde são evidentes as tensões entre pai e filhos].


 Também na escola Theo se assume como um aluno problemático, é excluído do ambiente social escolar, sendo mesmo vítima de bullying e é apelidado pelos colegas de "anormal", precisamente por se revelar uma pessoa não convencional, impulsiva e que não se soube ainda encontrar a si mesmo, revelando dificuldades de construção da sua identidade - curioso é o facto de ir mudando de look/estilo, como que acalentando a secreta esperança de, um dia acertar na escolha que corresponda ao seu verdadeiro "eu". 

Habituado a rótulos, Theo sofre de modo solitário [ e sem encontrar apoio na família, também ela desestruturada devido ao abandono da figura paterna] uma perturbação bipolar oscilando entre picos depressivos e de euforia.

Quando se cruza com Violet, encontra a possibilidade e viver a felicidade, ainda que de modo efémero, mas bastante marcante para ambos os jovens.

Violet é uma jovem popular no liceu, oriunda de uma família apoiante e estruturada, mas que atravessa uma fase complicada, ao vivenciar um processo de luto pela perda da sua irmã mais velha - Eleanor, de quem era bastante próxima, sentindo-se culpada quer pelo facto de ser sobrevivente, quer ainda pelo facto de se considerar responsável pelo percurso onde decorreu o acidente rodoviário que se ceifou a vida à irmã.

O livro retrata também, com bastante realismo, a convivência nem sempre fácil dos adolescentes num contexto escolar, com comportamentos que atingem níveis de crueldade, de intolerância e de rebeldia.

Constitui um sério alerta para o estigma das perturbações mentais que afectam os mais jovens, e que nem sempre são diagnosticadas e alvo de intervenções que fariam melhorar a sua qualidade de vida e baixar as taxas de suicídio.

Um livro realista, poético, sensível, comovente e que, assumidamente, nos faz chorar e fica connosco muito para além da Leitura.

Citação:

"As pessoas ou me vêem ou não. Pergunto-me como será andar na rua, seguro e a sentir-me bem na minha pele, e não ser diferente. Sem que as pessoas se desviem, fiquem a olhar, à espera para verem qual será a próxima coisa estúpida e louca que vou fazer."

 Theodore Finch, p. 128
Ficha Técnica da Obra:


Autora: Jennifer Niven

Editora: Nuvem de Tinta [Grupo Penguin Random House]

Reedição: Fevereiro de 2020

Páginas: 360

Género: young adult/romance contemporâneo

Classificação atribuída: 5/5 Estrelas





A MENINA QUE QUERIA DESENHAR O MUNDO de Adélia Carvalho e Sérgio Condeço / NUVEM DE LETRAS

Lançamento a 22 de fevereiro, às 12:30, no encontro literário Correntes d’Escritas,
na Póvoa de Varzim. Apresentação por Valter Hugo Mãe.



Sobre o livro: Uma história sobre o sonho de uma criança que não conhece a palavra "desistir". Um dia, uma menina decide desenhar o mundo. Parecia difícil que tudo coubesse num pedaço de papel. Só que um pequeno risco depressa ganha asas e leva a menina a conhecer terras distantes. 

Sobre os autores: Adélia Carvalho nasceu numa pequena aldeia de Penafiel. Última de sete filhos, cresceu muito influenciada pela figura do avô materno, grande contador de histórias. É licenciada em Educação de Infância pela Escola Superior de Educação do Porto e lecionou em diferentes escolas antes de se dedicar exclusivamente à escrita. Fundadora da livraria Papa-Livros e da editora Tcharan, é autora de vários livros infantis premiados e traduzidos em vários idiomas. Sérgio Condeço nasceu no Estoril, mas foi um erro da cegonha. Cedo foi para Moçambique e passou lá a sua infância. Estudou Design e, durante os últimos vinte anos, trabalhou nesta área. Em 2015, decidiu dedicar-se à ilustração. Foi ilustrador da revista Notícias Magazine (Diário de Notícias e JN) e apresentou trabalhos em exposições individuais em Lisboa e Porto. Ilustrou o livro Porque não dormem os gatos?, de Fernanda Freitas, com chancela da Nuvem de Letras em 2019. Tem atualmente ateliê em Lisboa.

Autora MBarreto Condado


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Autora Anita Dos Santos


NARVAL E O UNICÓRNIO DOS MARES de Ben Clanton / NUVEM DE LETRAS

Vencedor do Prémio Will Eisner Award 2017 para Melhor Publicação para Primeiras Leituras



Sobre o livro: O Narval é um narval sortudo. A Alforreca é uma medusa sem sentido. Os dois podem não ter muito em comum, mas ambos adoram waffles, festas e aventuras. Junta-te ao Narval e à Alforreca enquanto exploram o oceano juntos e descobre as alegrias da amizade, os benefícios de trabalhar em equipa e o poder da imaginação neste delicioso Narval: o Unicórnio dos Mares! Uma nova série de graphic novels com muito humor à mistura. Cada livro contém três histórias.

Sobre o autor: Ben Clanton (também conhecido por Clantoons) é um tritão a tempo parcial e autor e ilustrador a tempo inteiro. Adora inventar histórias como Mo´s Mustache, It Came in the mail, Narval: o unicórnio dos mares, vencedora do prémio Eisner, e Supernarval e Alforreca. Encontra o Ben em: Benclanton.com e descobre mais aventuras do fundo do mar em: Narwhalandjelly.com.


Autor Fernando Teixeira


domingo, 16 de fevereiro de 2020

LUA DE MEL NA CASA DAS TABUINHAS, de Maria Cecília Garcia















Casamos pelo registo no último dia de março. Tivemos que esperar até ao fim do mês para teres dinheiro para os gastos, o pouco que eu tinha levado como "dote" já estava gasto. Foi uma cerimónia simples e animada. Era o primeiro casamento da conservadora e ela enganava-se continuamente. Estava mais nervosa do que nós, que tudo fazíamos para animá-la! Acompanhavam-nos apenas os padrinhos e a tua mãe, mais tarde jantamos todos no restaurante de um amigo teu a quem tinhas encomendado um arroz de marisco. Estava delicioso, foi o melhor que comi até hoje.

À noite, com o mesmo grupo, fomos celebrar para uma discoteca no Estoril, já não recordo o nome… A tua mãe não foi.

Passamos a Lua-de-mel na terra da tua mãe e é claro que ela foi também! Era uma casa horrível, de um familiar, mesmo à frente do cemitério. O marido da nossa anfitriã era o coveiro. Durante os dias que lá ficamos cansei-me de ouvir os gonzos da porta de ferro abrir e fechar, e o som do molho de chaves enormes que ele fazia chocalhar, ao chegar a casa.

A casa era antiga, na verdade era uma daquelas casas que tinham servido para abrigar as cabras, cães ou vacas, o que houvesse, e os quartos ficavam por cima. As habitações eram dividas por finos tabiques de madeira e o chão eram tábuas de madeira também. Uma casa muito frágil e arejada que transmitia todos os sons, todos os ruídos. Nós ocupamos o cubículo do meio, de um lado estava o quarto da tua mãe, o outro era ocupado por um rapazito de dessasse-te anos, algo passado da cabeça. Quando descíamos para tomar o pequeno almoço naquela cozinha escurecida pelo fumo da lareira, ficava envergonhada com os olhares trocistas deles. O rapazinho mais novo lançava-me olhares embaciados.

Mas não havia café melhor, servido em caneca de esmalte lascado, nem queijo mais saboroso feito pela dona da casa. Passávamos o dia pelo no campo, perseguindo, ou fugindo, das cabras, molhando os pés no riacho, ou fazendo uma caminhada até o centro da povoação. Eu era tão feliz e tão simples, quiçá tonta seja o termo, que nada do que acontecia ao me redor me incomodava, tudo me surpreendia.

Mas aqui para nós: diz-me, quem é que leva a mãe para a lua-de-mel? Meu amor, a nossa união foi tudo, menos normal.

De um futuro livro…

A MAIS PRECIOSA MERCADORIA de Jean-Claude Grumberg / DOM QUIXOTE - Tradução de Luísa Benvinda Álvares

Nas livrarias a 29 de Fevereiro


Era uma vez um casal de lenhadores muito pobres que vivia numa floresta, por onde passava um comboio de mercadorias. Como estavam em guerra e era inverno, não tinham quase nada para comer. Por isso, a lenhadora sonhava que um dia alguém lhe atiraria uma coisa boa e deliciosa do comboio. Os lenhadores não tinham filhos, o que para ele era um alívio mas, para ela, um grande desgosto.

Era uma vez um casal de judeus que viajava num comboio com dois bebés praticamente recém-nascidos. O pai sabia que não iam para um lugar nada bonito e, ao atravessar a floresta, teve uma ideia bastante insensata…

Vendido em mais de dez países, finalista de uma série de prémios literários, escolhido pelo realizador Michel Hazanavicius para ser em breve um filme de animação, A Mais Preciosa Mercadoria é uma fábula sobre Auschwitz que se inspira num episódio real e não cessa de perturbar e comover leitores em todo o mundo, sobretudo por ter essa rara qualidade de poder ser lida por pessoas de todas as idades.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

SEM NUNCA CHEGAR AO CIMO de Paolo Cognetti / DOM QUIXOTE - Tradução de Diogo Madre Deus

Nas livrarias a 25 de Fevereiro



O que é ir para a montanha sem a conquista do cimo? Um ato de não violência, um desejo de compreender, uma busca em torno do sentido da própria ação de caminhar.

Na tradição da melhor literatura de viagem, Sem nunca Chegar ao Cimo é muito mais do que um diário de viagem. É a história profunda, terna e estimulante do confronto com os nossos limites físicos, da erosão de muitas certezas antigas, da beleza das pequenas coisas e de como podemos encontrar o equilíbrio interior.

No seu estilo único, poético e elegante, Paolo Cognetti conta-nos esta experiência inesquecível, em que o poder da amizade, a magnificência da natureza, a diversidade dos lugares que descobriu e das pessoas que conheceu, os altos e baixos dos trilhos percorridos e as diferenças de altitude são como uma viagem da mente, do corpo e do espírito.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

A FÁBULA de William Faulkner / DOM QUIXOTE - Tradução de Maria João Freire de Andrade

Nas livrarias a 25 de Fevereiro



A Fábula, uma história alegórica da Primeira Grande Guerra, passada nas trincheiras em França e que retrata um motim num regimento francês, foi originalmente considerada um afastamento vincado das obras anteriores de Faulkner. Nos últimos tempos começou a ser considerado como um dos seus principais romances e uma parte essencial da obra do autor. O próprio Faulkner combateu na guerra, e as descrições que faz dela «ascendem ao magnífico», segundo o New York Times, e incluem, nas palavras de Malcolm Cowley, «algumas das cenas mais poderosas que Faulkner alguma vez concebeu.»

Este romance foi galardoado com o Prémio Pulitzer bem como com o National Book Award em 1955.

SÃO VALENTIM


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA / UMA VOZ PERDIDA NA GUERRA, de Cesca Major / TopSelLer

Uma Voz Perdida na Guerra

“Uma comovente história de amor, perda e inocência roubada, inspirada num episódio verídico da Segunda Guerra Mundial.”

A história é descrita em dois anos distintos, em 1952, com Adeline que se refugiou num convento após a derrota alemã na Segunda Guerra Mundial. Porém, desde que o fez que não fala. As freiras não entendem o seu silêncio, mas Adeline esconde um segredo. Enquanto se apercebe do mundo à sua volta, a sua mente é permanentemente transportada para o inicio da guerra, para a pequena loja que com a sua família gere tranquilamente em Oradour, do dia em que o filho se alistou, na filha, na relação dos dois, no que aconteceu a seguir até à forma como foi encontrada quando fugiu.
Ao mesmo tempo, somos transportados para o ano de 1940, conhecemos Sebastian, um banqueiro judeu que vive na cidade francesa de Limoges e que se apaixona por Isabelle, a filha de Adeline, a descrição do seu primeiro encontro descrito pelas palavras dela numa carta que escreve ao irmão que se encontra no campo de batalha e que nunca chega a enviar. A paixão entre ambos será intensa e mudará o curso das suas vidas.
Conhecemos, Tristan de 9 anos que se muda para Oradour e para a tranquilidade de uma aldeia rural numa zona não ocupada com a família, depois de ter vivido durante a ocupação nazi de Paris.
À medida que a guerra avança, os seus destinos irão cruzar-se até um acontecimento terrível abalar a aldeia...
Este livro é uma descrição real das consequências que a guerra tem sobre o destino das pessoas e uma prova cabal de que nunca nos devemos esquecer que quando pensamos estar em segurança, afastados de perigos, estes podem estar mais perto do que desejamos. O segredo de Adeline consegue manter-nos agarrados até à última página.  

Por: MBarreto Condado

DE ONDE NUNCA SAÍ - NOITES MORNAS DE SANTIAGO, de Helder Menor















Calhou-nos atravessar Cuba durante a noite. Ao contrário do caminho que o sol faz. Fomos de poente para nascente. Do ocidente para o oriente. Direção Santiago.
Saímos ao cair do dia de uma Havana quente e húmida. Choveu no caminho para a estação de camionetas e, na tarde que tinha sido quente, aquela chuva soube-nos bem. Molhou-nos mas soube-nos.
Comemos uma sandes no bar da estação e sentámo-nos na camioneta que arrancou à hora marcada. Seriam oito da noite. Demorámos a sair do centro da cidade. A rádio sintonizada numa estação de notícias apitava a cada três minutos e ia repetindo os boletins noticiosos. O ar condicionado no máximo do frio.
As luzes dos subúrbios foram escasseando à medida que avançámos na estrada. Tentámos dormir, mas o gelo do ar condicionado gelado e a nossa roupa, leve, escassa e húmida, davam-nos a sensação de estarmos no ártico. Os casacos dentro das mochilas no porão. Cá em cima apenas um saco de praia com cigarros, água e uma toalhita que nem sequer era turca...Tapámo-nos com o pano da praia e encostámo-nos um ao outro. Não era confortável mas foi romântico. Romântico e gelado. Na primeira paragem, umas três horas depois de arrancarmos, já sabíamos de cor as notícias, saímos para a noite húmida e quente da beira da estrada.
Os cavalheiros deviam atravessar a estrada para irem à casa de banho que era  a mata do lado de lá da camioneta. Mesmo que não precisassem de ir... todos tivemos de atravessar a estrada, para darmos privacidade às senhoras que ficaram com a mata junto ao autocarro como casa de banho. Fumámos na estrada vazia sentados no alcatrão morno.
Depois voltámos a entrar no frigorífico que era o autocarro e seguimos gelados mais umas horas. O rádio insistia nas notícias. Seriam umas quatro da manhã, parámos em Camaguey. Parámos na estação das camionetas. Havia bar aberto, pessoas a descer e pessoas a entrar. Voltámos a comer sandes e a beber chá quente e confesso que bebi um trago de rum para neutralizar o frio de dentro do autocarro. Pontuais, quinze minutos depois de chegarmos, seguimos viagem.
Chegámos a Santiago eram seis e meia da manhã. A cidade a despertar.
Demasiado cedo para irmos bater à porta da amiga do amigo que nos ia alojar... Todo o comércio ainda fechado. Felizmente já não tínhamos frio. Na rua o calor e a humidade tropical abraçavam-nos com carinho.
Fomos caminhando para o sítio que eu recordava melhor e que me pareceu confortável para esperar: um jardinzinho em frente do quartel-museu- escola Moncada. Era perto dali.
A minha companheira precisava de tomar café.
Quem me conhece sabe que não bebo café... por isso tenho dificuldade em entender aquelas urgências que dão às vezes às pessoas que bebem café... as urgências do “preciso de um café”.
Pois foi uma urgência dessas que deu à minha parceira de viagem.
Tinha sido uma noite longa, fria e desconfortável... agora queria beber café.
Percebi que era preciso e urgente encontrar um sítio que vendesse café.
Estávamos relativamente afastados do centro e não havia nada aberto.
Entretanto, de uma casa próxima, abriu-se uma porta e saíu um senhor vestido de fato de macaco a seguir para o trabalho. Educado, disse-nos bom dia. Respondemos e aproveitei para lhe perguntar onde é que podíamos tomar um café ali à volta uma vez que a minha companheira queria tomar um café.
– Pois, aqui mesmo! Ainda tenho cinco minutos e acabei agora de fazer café para mim. Não vos digo para entrarem que a casa é pequena e estão todos a dormir... mas já vos trago o cafecito!
E assim foi.
Minutos depois, trouxe duas chavenas de café. Eu expliquei que não bebia café... quis oferecer-me um trago de rum... que educadamente recusei.
Não aceitou dinheiro.
Oferecemos-lhe cigarros dos nossos que guardou para fumar depois.
Aguentámos por ali, nos bancos de jardim mais uma hora, depois, já próximo das oito e meia da manhã, seguimos para aquela que seria a nossa casa nos próximos dias.
Chegámos e instalámo-nos num quarto disponível. Comemos o pequeno-almoço que merecíamos e tomámos o duche necessário. Depois saímos para a rua.
Voltámos ao Moncada para ver as crianças na escola onde antes tinha sido um quartel. Comovemo-nos com a memória dos assassinados e torturados. Deambulámos pelas ruas mornas de Santiago.
No dia seguinte, saímos da cidade e subimos ao Cobre. La Virgen del Caridad del Cobre, padroeira de Cuba, nada mais nada menos que a própria Deusa Oxum, Ela mesma! A Oxum atravessou o Atlântico à boleia dos navios negreiros e veio da Nigéria até Cuba, adoçar com beleza e mel este chão quente e molhado. 
Num caminho de cabras perto do santuário, continuámos a subir a montanha. Andámos horas pelos bosques cerrados e fomos aos locais secretos das práticas da Santeria. Vimos as oferendas aos espíritos dos escravos supliciados e aos deuses africanos. Descansámos nas pedras grandes junto a antigas minas de ouro escondidas na mata virgem. Banhámo-nos nas lagoas sagradas.
Comemos churrasco de leitão e de cabra em quintas remotas perdidas na serra.
Depois, voltámos a Santiago. Andámos pelos ginásios das artes marciais e pelas livrarias.
Numa daquelas noites quentes, enquanto folheava livros velhos e falava de política num alfarrabista, a minha parceira descobriu um antepassado gigante das vulgares baratas. O bicho tinha o tamanho de um pardal e asas que, não fossem o peso do papo cheio, a fariam levantar voo. O grito soou na rua em frente ao alfarrabista para espanto do livreiro, susto meu e surpresa da vizinhança.
Juntámo-nos uns quantos e aniquilámos o animal.
Para celebrar a morte do monstro, dançámos e bebemos nos clubes do bairro. Salsa e rum.
Na rua, com a vizinhança, acendemos uma fogueira onde, em coletivo, cozinhámos uma refeição para comemorar uma data qualquer, religiosa ou política. Não recordo nem interessa. Recordo que a festa foi regada a rum e durou até de manhã.
Voltámos a sair da cidade para as matas envolventes. No porto arranjámos um barco que nos levou para uma ilhota com cocos, rum, iguanas, jacarés e a água do mar quente. Voltámos ao final da tarde com um pescador que fez o favor de nos recolher. Na aldeia comemos uma galinha de churrasco assada nas brasas de uma fogueira acesa para nos fazer o jantar. 
Depois voltámos para Santiago.
Quando chegou o dia de apanharmos o autocarro de regresso, lá estávamos, ao cair da noite perto da
estação. Como habitual, estava calor e húmido. Comemos umas sandes e, prevenidos, levámos um termo com chá. Desta vez íamos agasalhados para uma noite polar: casacos, camisolas e as mantas possíveis. Seriam umas oito da noite. O autocarro só saíria às nove e meia.
Santiago completamente anoitecido.
À minha companheira, apeteceu-lhe café.
--- queres ir bater à porta do gajo que nos deu o café quando chegámos? O homem foi tão simpatico da outra vez? É aqui perto...
--- Não, tenho vergonha de ir à casa das pessoas, mas o café era mesmo bom!!!
Pragmática, decidiu-se pelo bar da estação que felizmente ainda estava aberto.
Pedimos um café e um traguito de rum.
Bebemos os dois em copos separados.
Saímos de Santiago embalados pelos buracos da estrada e pelos boleros do rádio da camioneta, que em vez de dar notícias, passava música dos anos cinquenta. O motorista avisou que lamentavelmente o ar condicionado estava avariado e, por isso, se os passageiros quisessem fresco teriam de viajar com as janelas abertas. 
Despimos a roupa até ao limite do pudor. A brisa quente e húmida ajudou-nos a adormecer. Nem demos por parar em Camaguey.
Sabemos ambos que Santiago de Cuba não sairá de dentro de nós.

Autora Vanessa Lourenço


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

A EDUCAÇÃO DOS GAFANHOTOS de David Machado / DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 18 de Fevereiro


No Verão de 2001, David e Marco celebram o fim do curso com uma viagem pelos Estados Unidos, para fugirem das rotinas, das convenções, das famílias, e para, à sua maneira, gozarem a independência.

A Educação dos Gafanhotos é a história dessa marcante aventura: das dificuldades que os dois jovens amigos têm de ultrapassar, das conversas insólitas que travam com quem vão conhecendo, das longas noites passadas em bares da América profunda, das personagens que, a todo o instante, encarnam. É também o relato do abalo provocado neles pelo ataque terrorista do 11 de Setembro.

Na senda da viagem fascinante de Índice Médio de Felicidade, com a maturidade de Debaixo da Pele, o presente romance é um retrato de uma juventude em plena efervescência, para quem a literatura é um passaporte para a liberdade e a quem a realidade por vezes troca as voltas.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

TODOS DEVEMOS SER FEMINISTAS (Edição Infantil Ilustrada) de Chimamanda Ngozi Adichie (texto) e Leire Salaberria (ilustrações) / DOM QUIXOTE - Tradução de Simão Sampaio

Nas livrarias a 18 de Fevereiro


Além de ser uma escritora notável e um modelo para as novas gerações, Chimamanda Ngozi Adichie é uma voz do feminismo e uma defensora da igualdade e dos direitos humanos. A sua palestra Todos Devemos Ser Feministas deu origem a um livro e, agora, a esta edição ilustrada e adaptada ao público mais jovem.

Autora Maria Cecília Garcia


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Autor Fernando Teixeira


APRENDER A FALAR COM AS PLANTAS de Marta Orriols / DOM QUIXOTE - Tradução de Maria João Teixeira Moreno

Nas livrarias a 11 de Fevereiro


Paula Cid é uma neonatologista de 42 anos. Apaixonada pelo seu trabalho e mergulhada na rotina de um relacionamento acomodado, perde o companheiro num acidente poucas horas depois de ele a ter convidado para um almoço em que lhe disse que havia outra mulher na sua vida e ia sair de casa. Juntamente com o choque de uma morte estúpida e prematura, Paula terá, pois, de enfrentar o desgosto de ter sido abandonada e de lidar não apenas com o luto, mas sobretudo com o ressentimento e o rancor.

Aprender a Falar com as Plantas confirmou Marta Orriols, que já tinha publicado contos, como uma das autoras espanholas mais interessantes da atualidade. Vencedor dos prémios Òmnium e L’Illa dels Llibres, o romance reflete os meandros da alma feminina, levando-nos em segundos da dor à ternura, do sorriso à emoção mais dramática.

Autora Anita Dos Santos


domingo, 9 de fevereiro de 2020

FALA-ME DE UM DIA PERFEITO de Jennifer Niven / NUVEM DE TINTA

Mais de 100 000 exemplares vendidos em três meses nos Estados Unidos. Bestseller do New York Times. 
Uma história de amor redentora, agora num filme Netflix, com Elle Fanning como protagonista. Filme estreia a 28 de fevereiro, a nova edição chega a 11 de fevereiro às livrarias.


A história de um rapaz chamado Finch e uma rapariga chamada Violet. Violet Markey vive para o futuro e conta os dias que faltam para acabar a escola e poder fugir da cidade onde mora e da dor que a consome pela morte da irmã. Theodore Finch é o rapaz estranho da escola, obcecado com a própria morte, em sofrimento com uma depressão profunda. Todos os dias pensa em suicidar-se. E todos os dias algo de bom o impede de o fazer. No topo da torre da escola, a um passo de saltar, Finch vê Violet, prestes a fazer o mesmo. E salvam-se um ao outro. Com Violet, Finch consegue finalmente ser ele próprio. Com Finch, Violet deixa de contar os dias para passar a vivê-los, um a um, em pleno. Mas, à medida que Violet se vai abrindo ao mundo e à vida, Finch vai-se fechando e afastando. Agora é a vez de Violet impedir uma tragédia. Será que o amor pode salvar Finch? Através de uma história de amor inesquecível, Jennifer Niven mostra-nos como a vida pode ser simultaneamente tão dura e tão frágil, tão doce e tão amarga. Uma lição de vida comovente sobre uma rapariga que aprende a viver graças a um rapaz que quer morrer. Uma história de amor redentora.

Sobre a autora:
Jennifer Niven sempre quis ser um Anjo de Charlie, mas a sua verdadeira paixão, a escrita, levoua às listas de livros mais vendidos de todo o mundo com o seu primeiro romance juvenil, Falame de Um Dia Perfeito. Publicado em mais de quarenta países, esteve trinta semanas na lista
de bestsellers do New York Times e vendeu mais de 100 000 exemplares nos primeiros três
meses nas livrarias. Além de ter sido distinguido como Melhor Livro do Ano por inúmeros jornais
e revistas, generalistas e literários, como a Time, a Publisher's Weekly e o The Guardian, está em
curso a sua adaptação ao grande ecrã, com estreia marcada para 2018. Ganhou, ainda, o
GoodReads Choice Award for Best Young Adult Fiction of 2015, uma das distinções mais
importantes feita por leitores de todo o mundo. Jennifer Niven vive, actualmente, em Los
Angeles.

Sobre Fala-me de um dia perfeito:
«Uma história de amor brilhante e comovente.»
The Guardian

«Muitos romances juvenis falam do tema do suicídio, mas nenhum o faz de forma tão
memorável.»
Kirkus Reviews, crítica estrelada

«Uma história de amor comovente sobre dois adolescentes divertidos, frágeis e traumatizados
chamados Violet e Finch. Jennifer Niven é uma grande contadora de histórias.»
Entertainment Weekly

«Niven constrói uma história muito fresca e divertida... A confrontação com a tragédia é terna
e romântica.»
Publishers Weekly, crítica estrelada

«Para quem procura o próximo A Culpa É das Estrelas - aqui está ele!»
The Guardian

«Fala-me de um dia perfeito é uma história de amor enternecedora de dois adolescentes,
únicos, sensíveis e encantadores.»
New York Times Book Review