quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

DIVULGAÇÃO LITERÁRIA / PALOMAR de Italo Calvino / DOM QUIXOTE

Nas livrarias a 28 de Janeiro


























Homem excêntrico em busca de conhecimento, visionário num mundo sublime e ridículo, Palomar é um observador nato.

«Só depois de ter conhecido a superfície das coisas», acredita ele, «nos podemos aventurar a procurar o que está por baixo.»

Seja contemplando um seio nu, uma loja de queijos em Paris, a barriga de uma osga ou os céus de Roma invadidos por estorninhos, o senhor Palomar oferece-nos uma visão do mundo familiar, mas fragmentada pela perceção individual.

Último livro publicado em vida por Italo Calvino, Palomar é uma narrativa fascinante sobre a vertigem do homem diante dos inexoráveis mistérios do universo. Um autêntico testamento literário de um dos maiores escritores do século xx, que conduz o leitor através de um inquérito de resultados surpreendentes: o senhor Palomar é sem dúvida o autor, mas não só. Somos todos nós, os leitores deste livro empolgante, um dos mais profundos da literatura de todos os tempos.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

CRÍTICA LITERÁRIA | "Uma família quase normal", de Mattias Edvardsson | SUMA DE LETRAS


Texto: Isabel de Almeida
Jornalista | Crítica Literária

Foto: Arquivo Nova Gazeta | D.R.


Uma família quase normal, do autor Sueco Mattias Edvardson, publicado em Janeiro deste ano pela Suma de Letras é uma das boas novidades literárias para iniciar 2020.

Estamos perante um Thriller de leitura verdadeiramente compulsiva, que vai manter o leitor agarrado ao livro a devorar página a página para chegar ao aguardado capítulo final.

A premissa inicial é a acusação de homicídio que recai sobre a filha adolescente de uma banalíssima família da classe média Sueca. As personagens centrais da trama, são precisamente Adam, o pai de família, um recatado, contido, moralista e controlador Pastor da Igreja Sueca, Ulrika, a mãe, advogada criminal com uma carreira já bem construída, é reservada, viciada no trabalho e extremamente focada no sucesso profissional, e é, até ao início da terceira parte da obra a personagem mais misteriosa do trio; por fim temos Stella, a adolescente rebelde, inteligente e determinada, trabalha como empregada numa loja de roupa, e tem como melhor amiga, de quem é inseparável a estudiosa e obediente Amina, cujos pais são amigos dos progenitores de Stella.

A narrativa está organizada em três partes distintas que correspondem, precisamente, ao percurso da trama sob o ponto de vista de cada um dos seus protagonistas: Adam (o pai) ; Stella (a filha) e Ulrika (a mãe).

Com elevada densidade psicológica, um discurso intimista mas fluído que nos transporta para o interior da mente e das emoções cruzadas de cada uma das personagens, revelando ao leitor os seus conflitos internos, apreendemos a dinâmica de uma família que, ao ver-se envolvida num caso de polícia, faz também uma auto-reflexão e auto-crítica, desconstruindo ideias feitas e reconstruindo-se como colectivo perante si mesma.

O Advogado Michel Bloomberg, reconhecido criminalista que irá assegurar a defesa de Stella retrata o sistema judicial e os seus vícios e virtudes. O livro chama também a atenção para a forma como cada um de nós olha para os grandes casos mediáticos da justiça: " O que conta verdadeiramente é o tribunal da opinião pública. Em geral as pessoas não querem saber do que os tribunais decidem(...) Basta uma semana na prisão para que toda a gente te considere culpado." - p. 143

O que faríamos se alguém muito próximo fosse acusado de homicídio? O amor justifica tudo? " O amor é uma das tarefas mais difíceis do homem (...) É possível continuar a amar um assassino?" - p. 71

Uma magistral obra literária que fica connosco muito depois da leitura, e que nos evoca temáticas como o "ser" e o "dever-ser", a cultura da aparência, do politicamente correcto, do parecer bem ou mal. Muito interessante também a alusão a Freud, chegando mesmo Stella a afirmar: "Demasiado Freud põe qualquer pessoa maluca." p. 189. O autor introduz ostensivamente temáticas e conceitos inerentes à teoria Freudiana, tais como a culpa, a vergonha e a negação, explorados através da forma como os protagonistas apresentam a sua perspectiva sobre os factos narrados.

Será que em situações limite estamos sempre dispostos a cumprir à risca as normas sociais em que sempre julgámos acreditar? - "Há valores que não podem ser explicados nem medidos através de normas." p. 403

Mais do que uma história viciante, descrita de forma muito visual e cinematográfica, com uma brilhante caracterização psicológica das personagens, com episódios violentos, temos aqui um thriller que nos faz pensar e que nos coloca o claro desafio de nos imaginarmos no lugar daquelas personagens com as quais é fácil empatizar, precisamente por serem pessoas comuns.

Brilhante, intenso, de leitura compulsiva e a desafiar os leitores! Uma belíssima sugestão de leitura para este início de ano que vivamente recomendamos aos adeptos de thrillers.

FICHA TÉCNICA DO LIVRO:


Autor: Mattias Edvardsson

Editora: Suma de Letras

Edição: Janeiro de 2020

Nº de Páginas: 472

PVP: €19,90

Classificação Nova Gazeta: 5/5 Estrelas







Autora Anita Dos Santos


Autor Fernando Teixeira


domingo, 19 de janeiro de 2020

HIBERNAÇÃO, de Maria Cecília Garcia















A pequena gata branca e surda insiste em vir para o colo dela, exige atenção, quer carinhos e ela sente prazer ao acariciar o pequeno animal.

É bom sentir que alguém, se assim se pode dizer, gosta dela.

Aquela mulher prestes a cumprir sessenta anos apercebe-se que o tempo passa rapidamente e não está a gostar disso.

Não é a idade o que a preocupa, não se sente velha, pelo menos não todos os dias.

Quando se olha ao espelho – já não se olha tanto como antes – descobre os sulcos e pequenas rugas. Às vezes custa-lhe reconhecer-se, mas isso é só quando olha para o espelho. No seu interior continua a sentir-se jovem. Melhor dito, a idade não tem importância, acredita que tem muito ainda por viver. Isto nos dias bons… hoje, não. Hoje, está cansada.

Entristece-se ao ver que os que a rodeiam pensam que ela já cumpriu o seu papel: pariu os filhos, criou-os com todo amor e dedicação, cuidou do marido... Foi a empregada doméstica, a mulher-a-dias, foi o cepo onde se descarregam todas as frustrações, aquela a quem tudo se exige e que não deve exigir nada…

Mas precisa de… amor, carinho, um beijo, coisas que não custam nada e valem tanto!

Mas, o que terá despoletado todo este turbilhão de desejo e ansiedade? Talvez quando decidiu voltar à escola e terminar o secundário.

Durante três anos, todas as tardes, pontualmente às 19:15, entrava na escola, cumprimentava o vigilante com um grande sorriso. Por vezes, pensava que ele a julgava maluquinha! Ninguém vai para a escola tão satisfeita!

Encontrava-se na cafetaria com os colegas, todos muito mais jovens, e sentia-se como eles. Assistia às aulas como se tivesse quinze anos, tratava os professores por Stor, fazia os trabalhos de casa e perdia as noites estudando, pesquisando na internet ou nos livros, seguramente com maior dedicação do que muitos jovens, era competitiva, tentava sempre que os seus trabalhos fossem os mais classificados, os de nota mais alta! Não porque se achasse melhor que os demais, mas porque não queria que houvesse qualquer dúvida sobre as suas capacidades e inteligência. Surpreendia-se com esta sua nova faceta, mas estava a gostar!

Para ela, a escola era o sonho adiado que agora conseguia concretizar. Era, também, um desafio a si mesma, tinha que provar a si e aos outros que ainda era capaz de aprender e fazer as coisas bem-feitas.

Descobriu que tinha opinião própria e nos debates sabia defender a sua posição com argumentos sólidos, descobriu que podia falar sem que a mandassem calar e que, mesmo que desse uma opinião da qual alguém discordava ou quando estava errada, ninguém se ria dela!

Ficava cheia de orgulho, feliz, quando os professores a elogiavam e sentia-se uma criança com as brincadeiras e provocações dos colegas, particularmente nas aulas de História, quando eles se queixavam de concorrência desleal devido à idade dela, pois diziam que ela tinha vivido a Revolução Francesa e a 1.ª República! Ela ria satisfeita e fazia rir todos os demais.

Ficava nervosa nos testes como não sabia que podia ficar e saía da sala com a sensação de não ter respondido a nada, para depois rejubilar ao receber os resultados dos mesmos!

Foi assim durante três anos cheios de ansiedade, alegria e satisfação. Mas foi também uma luta solitária. Ninguém lhe perguntava como iam as aulas, ninguém queria saber como lhe corriam os exames nem se interessavam pelas histórias que ela contava.

Finalizou o secundário com boas classificações, fez o exame de acesso à universidade e ficou preparada para continuar os estudos.

Ainda acredita que vai conseguir fazer um curso universitário! Depois pode morrer tranquila…

Um carro desceu lentamente a rua, o condutor olhou para ela, fez uma vénia e sorriu, continuando a olhar enquanto se afastava.

Olhou à sua volta incrédula!… não, não estava ninguém.... foi mesmo a ela que o homem se dirigiu! Sem dar por isso endireitou-se, relaxou os músculos do rosto e esboçou um sorriso, não para aquele homem de quem nem viu bem a cara, mas para ela! Mentalmente examinou a forma como estava vestida: as cores combinavam, a blusa ficava-lhe bem, o colar dava-lhe uma certa graça e um aspecto mais fashion e, claro, os óculos de sol! Será que se tinha esquecido de olhar à sua volta?

Ao longo de todos estes anos, nunca se interessou em saber se despertava algum interesse. Não que quisesse procurar alguém..., mas faz tão bem ao ego sentir-se apreciada!

Durante tanto tempo tentaram convencê-la de que não valia nada, embora resistisse e lutasse para manter a sua auto-estima, seguramente que não conseguiu tão bem quanto pensava.

Na sua aparente hibernação arranjou mecanismos de defesa: enquanto aspirava, cozinhava ou passava a ferro, continuava a sonhar, tal como quando era criança. Vivia histórias, fazia projectos, planeava crimes, arrependia-se, lia um livro, ou escrevia um…

In: História em Pedacinhos- As casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar



sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O TEMPO, de Anita Dos Santos















Quando falo do tempo, não me refiro ao tempo contado em horas e minutos num relógio, mas sim ao tempo, ao vento, à chuva, ao calor, ao frio…

Tudo coisas que agora estão muito misturadas, apresentando-se cada vez mais como calor e frio, só.

Mas as mudanças climatéricas são fruto de imaginações exacerbadas!

Lembrei-me hoje, ao ver chover, de quando era garota, mas já a trabalhar, e vinha à noite para casa, encharcada de chuva depois de um dia de trabalho, no eléctrico 15, cheio até mais não poder ser. Durante meses a fio!

O Inverno parecia não ter mais fim!

A chuva começava a amainar por volta do mês de Abril. Mas, em Abril águas mil… Ainda tínhamos mais chuva pela frente.

Vinham por fim os meses mais amenos, a Primavera prometia vida nova em Maio, e Junho já nos trazia o tão esperado calor de dos meses de Verão.

Nada se equiparava ao calor do mês de Julho, com o seu cheiro característico de Verão, de praia e de lazer.

Mas Agosto, o tempestuoso mês das trovoadas de veraneio – com os incomparáveis relâmpagos sobre o mar a que tantas vezes assisti! -, era o meu favorito, talvez por irmos de férias nessa altura.

Quando o mês de Setembro se fazia presente, e as folhas das árvores começavam a mudar de cor, a ficar castanhas, comiam-se uvas gordas e doces, prenunciando um Outono que estava a chegar, e os dias já eram mais curtos, mas ainda de boa temperança.

O mês de Outubro vinha já com o cheiro da chuva e das folhas das árvores pisadas, prenunciando um Novembro cinzento, com cheiro a castanhas assadas, a chuva e a braseiras.

E estávamos uma vez mais em Dezembro, no Natal e em pleno Inverno, para enfrentar, outra vez, os terríveis meses de chuva ininterrupta.

Agora, com sorte, se chover uma semana seguida, estranhamos, e dizemos “Credo, já chove há tanto tempo!”

Mas as mudanças climatéricas são fruto de imaginações exacerbadas!

O tempo, é uma coisa muito subjectiva…


A autora escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

DE ONDE NUNCA SAÍ - VERDE BRASIL, de Helder Menor















Uma vez conheci a Vénus, estava ela de empregada de mesa. Foi numa tasca sujita em Salvador da Bahia. Um boteco que fica numa transversal à ladeira do Taboão. Sítio humilde de gente humilde, onde se come o que houver e se paga o possível. Boa comida em ambiente familiar.

Conheci a moça em contexto profissional. Ela em trabalho, eu na vadiagem mas com fome. Mas não se ponham a imaginar estórias de amor e romances canalhas. Nada disso. Nem tal me passou pela cabeça... até porque eu seguia absolutamente bem acompanhado com a mais bela de todas as belas filhas de Oxum que alguma vez pisaram o chão quente da terra brasileira.

Eu conto como foi:

Entrámos no tasco com vontade de comer, pés cansados, olhos deslumbrados e crónico défice de reais no bolso. Sabíamos ao que íamos, fomos indicados por quem sabia onde comer bem e barato. Procurámos por “pêéfi”. Para quem não sabe, PF são as iniciais de Prato Feito, que consiste numa refeição empratada para gosto e carteiras populares.

A empregada estava de trombas. Aquele ar carrancudo que algumas raparigas bonitas usam em permanência, proteção possível contra as doces cantadas de quem enfrenta o público com uma porta aberta. E se há cantadas doces a transbordar de melaço de cana de açúcar são os coros dos malandros da Bahia... por isso, não estranhámos o ar carrancudo da beldade.

Chegámos já tarde para almoçar e ainda cedo para lanchar. Mas como a fome não tem hora, entrámos.

Ela estava a limpar copos com um pano em cima do balcão. Quando lhe perguntei por “pêéfi” mal respondeu. Ou se respondeu, respondeu para dentro de si mesma.

Desapareceu por trás da cortina javarda que separava o balcão de madeira das sombras cheirosas da cozinha.

Tinha “pêéfi” sim. Sem mais palavras, voltou com dois pratos a transbordar. O “pêéfi” era carne seca de alguidar com arroz e feijão tropeiro. O feijão e o arroz servidos com generosidade, a carne cortada em pedaços pequeninos para render mais. A bebida era cerveja ou cola. Pedi Brama. Estava calor e o copo onde me serviram a geladinha devia estar roto.

Depressa tive de pedir outra.

Como não gosto de gritar “ópssete”, perguntei lhe o nome.

Ela esclareceu:

– É Vénus.

E era. Sorrimos para ela, eu e a minha companheira de viagem e de vida concordámos que o nome coincidia com a pessoa. A Vénus, para provar que o era, e vendo que eu só queria mesmo comer o “pêéfi”, desarmada de dureza, sorriu para nós um lindo sorriso de baiana.
A Vénus que conhecemos era, negra e grande. De ancas largas, peito relativamente pequeno e pose de deusa para não dar cunfia aos espertos. O amor é coisa bonita, mas não se serve ao balcão para acompanhar bejecas.

Conhecemos a Vénus em Salvador da Bahia muitos e muitos quilómetros depois de chegar ao Brasil, mas foi como se aquele sorriso tivesse qualquer coisa de boas-vindas.

Entrámos no Brasil num domingo ao amanhecer.

Vínhamos de Assunción e era ainda noite cerrada quando atravessámos o Rio Paraná.

Atrás, a mítica Ciudad de Leste, capital do contrabando e de todos os tráficos, à frente todo o Brasilão a começar ali na Foz de Iguaçu. Mais de metade de um continente e toda esta imensidão à nossa frente antes de chegar ao Atlântico.

Na fronteira falaram-nos em português pela primeira vez depois de semanas em castelhano de muitos e variados sotaques. Mesmo com aquela tensão de fronteira e os guardas armados, foi quase como se nos sentissemos em casa.

Uma hora depois da fronteira entre o verde da estrada, finalmente a chegada à central das camionetas. Na estação dos "ônibus" não havia nem “ônibus” nem autocarros. Nem bilheteiras, nem um quiosque aberto. Não estava niguém. Era domingo. Ninguém.

Para ajudar, começou a chover.

Entrámos no único táxi que ali estava parado. Acordámos o preço e seguimos viagem.

Em conversa de circunstância e porque continuava a chover perguntei:

- Tem chovido muito?

- Pensi em chuva!!! Pensi em chuva bem forti! Pois olhi qui aqui tem chovido mais ainda!

Rimos-nos os três. Estávamos apresentados e seguimos continente adentro.

Do lado de fora do carro, o verde. O imenso verde que veste o continente. Aquele verde que se espalha e cresce em cima de tudo e de todos.

Foram mais dois ou três dias de chuva e o verde a beber a água que caía.

Depois veio o sol. E que sol. E o verde a absorver a luz que fazia.

Entre todo aquele verde seguimos viagem. Para norte e para leste.

Passámos por estados rurais, cidades grandes, cidades pequenas de província. Vales cultivados e selvas virgens, aldeias de boiadeiros e de pescadores. E o verde sempre lá.

Vimos cataratas, que no Brasil são cachoeiras, e dormimos em cabanas de madeira que deixavam passar o ensurdecedor som da selva densa e verde à nossa volta. Nadámos no mar quente e comemos na praia peixe frito, caranguejos, espetadas de queijo, sempre abrigados na sombra do verde que vai até à praia.

O Brasil será tudo aquilo que dizem dele. É tudo isso e muito mais. E, sobretudo, é verde em todos os tons de verde e em todos os sentidos da palavra.

É um imenso e lindo continente verde com duzentos milhões de pessoas a falar português.

Três coisas me impressionaram no Brasil:

Primeiro foi o verde. Aquele verde, verde verde. Verde que atá para mim que sou daltónico, nos entra pelos olhos adentro. Verde como não há outro igual. Verde feito de água e sol em quantidades brutais que permite aquela beleza gritante.

Depois foram as pessoas. Duzentos milhões de pessoas a fazerem pela vida como podem e como sabem. São motoristas, empregadas de limpeza, pedreiros, mecânicos, rececionistas, padeiros, canalizadores, bancários, serralheiros, assalariados agrícolas, polícias, talhantes, funcionários, cabeleireiras, ladrões, costureiras, cozinheiras e prostitutas... Uma imensa massa de gente humilde e trabalhadora, que tem essa secreta e preciosa qualidade de nas piores circustâncias encontrar a alegria necessária para sorrir e ir levando.

Também me impressionou bastante o sorriso da Vénus no boteco esconso de Salvador. Aquele sorriso luminoso e aberto no rosto negro da empregada é o sorriso da própria América Latina que espera ainda a sua vez.

Brasil sou gamado em você!

Autora Vanessa Lourenço



quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

MARIA, de Mafalda Pascoal















Era pequena, branca como a neve e de cabelos negros. Era pequena demais para a situação em que encontrava.

Disseram-lhe que, se fosse sempre em frente encontraria o seu pai.

Ela foi com o seu coraçãozinho cheio de felicidade, correndo tanto quanto as suas pequenas pernas permitiam...começou a ficar cansada...mas tinham-lhe dito que nunca parasse nem olhasse para trás, que logo logo encontraria o seu pai. Correu, correu, correu até que caiu por terra...já não tinha força para mais.

Escureceu muito depressa, a floresta era densa e começaram a ouvir-se barulhos estranhos que ela jamais ouvira. Pensou no pai, porque não o encontrou, já tinha tantas saudades dele, havia muito tempo que não o via.

A senhora V tinha-lhe dito que o seu pai estava de regresso a casa e que se o fosse esperar a meio do caminho ele ficaria muito feliz... e foi o que fez, exactamente como ela indicara... agora, estava sózinha no meio da floresta que o pai sempre lhe dissera para não entrar porque era perigoso... e já era noite!

Agora a menina começava a ter medo. Os barulhos estranhos começaram a ser cada vez mais, pareciam pessoas a gritar e a dar gargalhadas, depois parecia que se ouviam cães muito zangados...e gritos muito fininhos...a menina começou a chorar baixinho e o seu coraçãozinho começou a ficar cada vez mais apertadinho...aninhada junto de uma árvore, cansada de tanto chorar, por fim, o sono venceu.

O sol já ia alto quando a menina acordou, embora dentro desta floresta tão densa isso não se note muito, a criança, um pouco estremunhada sem saber onde estava, acordou lentamente... continuava assustada, agora estava também com fome.

Levantou-se, lembrou-se do pai, se calhar tinham-se desencontrado e agora procuravam-na... susteve a respiração e apurou o ouvido para ver se ouvia o pai a chamar por ela, mas nada, só ouvia o chilrear dos passarinhos...então, encheu de ar, o mais que conseguiu e os seus anos o permitiam e gritou pelo pai com quantas forças tinha... mas nada... não ouviu resposta...

Resolveu começar a andar, podia ser que encontrasse o pai. Havia sempre tantos caminhos. E ela continuava. A fome começou a apertar e ao mesmo tempo que andava ia procurando algo que se pudesse comer. Começava a ficar cansada, cada vez com mais fome e sede. Então, de entre as árvores que havia pela floresta fora, viu uma que lhe parecia igual há que estava junto da sua casa e que dava frutos muito bons. Dirigiu-se para a árvore... os frutos estavam tão altos, a árvore era muito maior que a da casa dela e não tinha o pai para segurá-la no colo e chegar aos frutos... deu uns pulitos a ver se chegava aos ramos e nem sequer lhes tocava. Encaminhou-se para o tronco mas este era muito liso e alto, não havia forma de subir. Olhava para cima... tantos frutos, tanta fome e sede que sentia... as lágrimas vieram... perdida, sem o seu pai que devia estar aflito sem saber dela e a senhora V também... o que fazer, pensava ela, mas na sua tenra idade só podia chorar e chorava, numa mistura de tristeza, fraqueza, cansaço, fome e sede...

De repente caiu um fruto e mais outro que ela mesmo a chorar, correu a apanhá-los. Reparou que havia mais daqueles frutos pelo chão, alguns eram muito bons e outros nem por isso, mas consegiu ficar sem fome e sede. Estes frutos eram igualzinhos aos da árvore da sua casa, mas eram muito maiores, se calhar era a árvore-mãe!

Certo dia, seu pai disse-lhe:


-Vou dizer-te um segredo que fica só para nós dois, esta árvore foi a tua mãe que plantou no dia em que nos casámos, dizendo-me que ela significa o amor que sentimos um pelo outro, forte e seguro, e os frutos que ela dará serão belos e doces como serão os nossos filhos.

domingo, 12 de janeiro de 2020

O ROUXINOL E A SUA CANÇÃO, de Vanessa Lourenço














Visitava-me todos os dias, assim como tantos outros: pardais, melros, corvos, gaivotas, falcões e até, de quando em quando, uma ou outra águia fazia a sua aparição nas imediações da minha casa. Mas ele era diferente: aparecia no jardim todos os dias pela mesma hora, como se provando que a natureza zomba dos nossos ponteiros neuróticos para marcar a passagem do tempo, como que mostrando que o verdadeiro tempo, aquele que realmente importa, se conta pelas visitas que fazemos aos que nos são queridos, pelos momentos em que a nossa alma avança, pelos momentos em que teimamos em escolher os caminhos que nos fazem sorrir.

Adiante.

Surgia no meu jardim todos os dias pela mesma hora e eu nem sempre dava por ele, a não ser quando ele decidia que a sua presença era demasiado significativa para ser ignorada e fazia voos controlados na direcção da janela ampla:  - Estou aqui! – Parecia dizer.

E nesses momentos eu dava por ele e interrompia fielmente os meus afazeres e as minhas deambulações por pensamentos escuros daqueles que nos limitam, e realmente não nos levam a lado nenhum. Ficava apenas ali, sentada e muito quieta com receio de o assustar. E ele voava mais uma vez na direcção da janela, e depois pousava numa das estacas altas colocadas um dia para segurar uma rede que há muito não estava ali, sobre uma luva usada para apanhar as ervas que parecia apontar em todas as direcções, resmungando que aquele não era realmente o seu lugar.

Ela nunca resmungava quando o rouxinol pousava sobre ela as pequenas patas decididas e se espreguiçava longamente, ou apenas parecia dançar sobre a borracha que não estava no seu lugar.

Ele nunca cantou nesses momentos, apesar de eu saber que ele tinha uma canção. Um dia, perguntei-lhe baixinho: - Porque não cantas nestas tuas visitas ao meu jardim?

Ele ajeitou-se na estaca, agarrando firmemente a luva desirmanada, e respondeu: - E quem te disse que não o faço? Por acaso consideras que todas as canções existem apenas para serem ouvidas?


Fiquei confusa, mas tentei não me mexer. Agitou no ar as asas pequeninas e acrescentou, antes de partir subitamente: - Tudo aquilo que é significativo para ti tem uma canção, mesmo que os teus ouvidos não a possam ouvir: as melodias têm uma canção, os sorrisos têm uma canção, as visitas têm uma canção. Mas às vezes, essa canção flutua nas tuas emoções sem emitir qualquer som, ou navega pelas águas turbulentas do teu espírito como uma onda silenciosa que te acalma os sentidos e te faz regressar ao teu centro, à tua luz. Compreende, todas as canções importantes são feitas de luz. E a luz nem sempre precisa de um som para se fazer ouvir. 

sábado, 11 de janeiro de 2020

VINTE-VINTE, de Fernando Teixeira















Decorre a segunda semana deste novo ano que muitos, certamente, imitando a terminologia dos povos anglo-saxónicos, designarão de vinte-vinte. Depois de termos desejado, repetidamente, um Feliz Ano Novo a quantos nos merecem esses votos, eis que esse ano entrou no calendário e nas nossas vidas.

Ano 2020. Novo nas unidades, recomeçando do zero, novo nas dezenas. Entra uma nova década, num milénio a dar ainda os primeiros passos. Um milénio cheio de incertezas, no país e no mundo.

Mais do que um ano mais, desejamos que este seja realmente um novo ano, diferente. Novo, na alimentação da esperança de que novas ideias e novas atitudes, alicerçadas numa consciência renovada, possam colmatar comportamentos antigos, gastos, puídos. Novo, para que nesta transição anual sonhemos com uma sociedade mais justa, mais próspera. Novo, para desejar que os poderes decisores, sejam eles quais forem, tenham uma visão de futuro para o país e pelo progresso e bem-estar dos cidadãos, em vez de apenas para os seus interesses corporativos.

Não obstante, não será fácil. Não o temos visto, década após década. Diziam que iríamos estar no pelotão da frente da Europa, lembram-se? Em alguns aspectos, sim, noutros nem tanto. Mesmo o progresso verificado, em vários campos, parece que só acontece tendo em contrapartida o benefício e lucro de alguns grupos, empresas, lobbies e indivíduos, para lhes dar mais força, para lhes aumentar o poder e a influência. Fica de fora, o cidadão comum. Os métodos e os procedimentos levantam dúvidas, as decisões raramente suscitam consenso e as leis têm alçapões. Não é assim que chegamos lá!

Desfraldam-se bandeiras sobre o Portugal Tecnológico, o Portugal das Web Summit’s, das conferências e seminários disto e daquilo, ninho de startup’s, um país cada vez com mais restaurantes e chef’s detentores de estrelas Michelin… Acenamos com os melhores CEO’s, vendemos empresas de sucesso, sonhos e ilusões. Vaidades…

Do outro lado da vida, há uma imensa mancha de população que preferiria que Portugal tivesse antes uma Justiça em que todos fossem iguais perante a lei, que Portugal tivesse um Sistema Nacional de Saúde sem os problemas conhecidos, que Portugal tivesse um Ensino que cativasse os nossos alunos e reconhecesse a importância dos seus professores. Uma população desejosa de que Portugal fosse um país onde as pessoas auferissem um salário que dignifique o seu trabalho, onde cada um sentisse que pode evoluir e concretizar os seus projectos de vida; um país onde o mérito seja valorizado ao invés de tantos se verem aprisionados por uma política de baixos salários que sufoca não só a economia, mas também as vontades; um país com melhor distribuição de riqueza, que recuperasse a dimensão e a força da sua classe média, enfraquecida na última década, em vez de ser ainda um país com uma percentagem grande demais de portugueses no limiar da pobreza, contrastando com a opulência de quem aufere vencimentos absurdamente elevados.

Oxalá a década que agora se inicia seja o princípio de uma nova era, na qual se dêem passos certeiros no combate à desonestidade, à corrupção, aos esquemas ardilosos, aos jogos de influência, ao compadrio, à politiquice sem nexo, aos desmandos dos dinheiros públicos, a tudo o que mina um país que tem tudo para ser um dos melhores do mundo, assim tivéssemos uma classe dirigente impoluta e com uma visão clara para colocar Portugal, e os portugueses, definitivamente no rumo de um efectivo progresso e bem-estar social.

Oxalá, quando chegarmos ao ano vinte-trinta, não concluamos que se perdeu uma década mais!


O autor escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

NOTURNO ARCO-ÍRIS – ALHINHOS CONTRA OS VAMPIROS, de Helder Menor
















Aqui há dias revi-a.

A Alhinhos, como era secretamente conhecida em alguns círculos fechados.

Está uma senhora com quase cinquenta anos, de bem com a vida. Já não é gótica, está casada com um senhor que é engenheiro civil e trabalha nas finanças, numa pequena cidade de província.

Contou-me uma amiga comum.

Longe vão os tempos das saias pretas e dos cultos satânicos. Provavelmente enterradas nos cemitérios da memória as noites loucas em que nos conhecemos. Limitámo-nos a sorrir um para o outro e a um distante “tudo bem”.

Mas eu lembro-me. Aconteceu nos anos noventa. Foi numa noite de semana, num dos Novembros mais chuvosos de que tenho memória. Estava com um grande e inseparável amigo no bar do costume. Éramos quase irmãos de sangue e de armas. Não sei porque bebíamos naquela noite, se para festejar glórias efémeras, se para afogar mágoas passageiras. Teríamos ambos entre os vinte e cinco e os trinta anos, éramos ambos divorciados, adúlteros e com tendência para beber demais e viver de mais.

Ambos encostados ao balcão do bar discutíamos sobre qualquer coisa. O que quer que fosse que pudéssemos disputar, porque a amizade entre nós os dois era feita de discordâncias e disputas.

Atrás do balcão, estava ela, a vender gelo com whisky. Ia dando conversa. 

O bar ia ficando vazio e ela lá de cima do pedestal dos saltos altos, deu a entender que estaria disposta a adotar um de nós para uma noite de amor no banco de trás do carro. Falo-vos de um tempo remoto em que se podia fumar em todos os bares. O ar cheirava a tabaco, a bebidas, a chuva e a um outro cheiro conhecido que naquele momento, não consegui identificar. Ela era nova na terra e procurava um cicerone que lhe mostrasse os encantos regionais.

Não era feia. Ainda hoje não é feia. Com uma atitude que balançava entre a barbie e a intelectual tinha encanto. Macrobiótica, esotérica e bailarina. De estética e gostos góticos. Tinha uns olhos escuros pintados de preto que brilhavam com alguma graça. Chamava-se a si mesma Bruxinha ou Vampira. Branca, talvez demasiado branca, magra com as pernas compridas e as maminhas pequenas que cabiam em mãos pequenas. Tinha o cabelo de cor extravagante que lhe dava alguma graça apesar do visual monocromático no preto. 

O processo de engate estava já adiantado quando ela se decidiu... Naquela noite, segurou-me nas mãos por cima do balcão, ia falando de íncubos enquanto me massajava a linha da vida com o indicador direito. O meu amigo percebeu, despediu-se e saiu. 

O bar finalmente fechou, saímos os dois para a rua debaixo da chuva-molha-parvos e entrámos no carro dela. Era uma carrinha Renault 4 L amarela que cheirava a borracha e cigarros misturados com perfume. Acima de todos estes odores cheirava a alho. Já no bar me tinha cheirado a alho, mas não tinha identificado o aroma... agora não tinha como ignorar.

Sentado no lugar do morto, reparei que em cima do tabeliê havia uma cabeça de alhos. Meio a brincar perguntei-lhe:

– Então, tens aqui estes alhinhos é para aromatizar o carro?

– Não, respondeu, é para proteção esotérica. Evita vibrações pesadas, afasta espetros de baixa energia e mantém os vampiros espirituais à distância. Além disso, é muito bom para a saúde. Tomo sempre duas cabeças de alho antes das refeições - É um antioxidante natural fortíssimo e excelente tónico em geral. Nunca me constipo e sou super saudável!!!!

Vendo onde estava metido, fiz o que fazem os grandes exércitos quando avançam sobre terreno pantanoso: recuei...

Abri a boca como se tivesse muito sono e disse:

– Podes levar-me a casa? São quase três da manhã! Tou super cansado e amanhã tenho de estar muito cedo em Lisboa.

Ela ficou visivelmente desiludida, mas manteve o sorriso. A conversa foi agradável e durou cinco minutos até à porta da casa onde me deixou. Beijinhos na cara, amigos como dantes.

Passado uns dois ou três dias, voltei a encontrar o meu amigo no mesmo bar de sempre. Sentámo-nos os dois ao balcão a beber e a falar. A empregada, meio fria comigo e desiludida com a noite anterior, não teve indecisões e escolheu imediatamente o meu amigo. Eu ainda o avisei:

-        Vê lá se não te cheira a alho...

Satisfeito com a vida e celebrando a amizade, respondeu-me gingão e gabarolas:

– A mim cheira-me é ao desejo que corre nas entranhas daquela senhora, desejo e curiosidade de conhecer um verdadeiro homem, e eu estou disposto a satisfazer-lhe ambos, o desejo e a curiosidade!!!

Rimos-nos juntos e, nessa noite, fui eu que me despedi e desapareci.

Passaram dois ou três dias sem que nos encontrássemos.

Quando nos revimos, o meu amigo estava com cara de caso.

– Que cara é essa, o que aconteceu? Então a Alhinhos? Tá boa?

  Aconteceu que a tua amiga Alhinhos é um caso clínico. Primeiro é o cheiro a alho que tresanda... depois quis ir parar o carro atrás do muro do cemitério. Ok, fiz-lhe a vontade e fui... A seguir dizia que a lua cheia a deixava tão excitada que sentia que precisava de morder... Depois, depois... olha... Depois daquela noite acordei com as partes sensíveis que parecia que estavam em brasa... a arder como se tivesse uma queimadura... a sério!!! Tive que ir ao médico e tudo... Nunca me tinha acontecido tal coisa!!! Nunca mais!!! Só conheces psicopatas pá!!!

O caso foi sério e não é para rir!!!

E isto são factos. O rapaz foi ao dermatologista, que lhe receitou uma pomadinha para passar pelas partes. Inclusivamente teve de fazer análises. Ao princípio, o médico achou que era alergia a uma determinada marca de preservativos, mas depois de lhe fazerem os testes todos, percebeu-se que não era dos preservativos... aquilo era alergia ao alho....

Precisamente.

A rapariga tinha tal concentração de alho na saliva que por trocaram uns beijinhos mais íntimos o meu pobre amigo ficou com a masculinidade inflamada.

Não consigo deixar de pensar que para poder trabalhar nas finanças, num serviço de vampirismo de estado, um dos requisitos, foi ter deixado definitivamente o consumo desenfreado de alho...






domingo, 5 de janeiro de 2020

A ESCOLA, de Maria Cecília Garcia

 


Para qualquer criança, a mudança de cidade, ou país, é sempre difícil. Uma das situações mais dolorosas é ter que encontrar novos amigos e enfrentar uma nova escola, o lugar onde encontrarão novas amizades. Mas os começos são mais difíceis quando encontram apenas rostos diferentes e indiferentes e uma língua desconhecida que dificulta a comunicação. Para esta criança de temperamento destemido, foi assim:
  
“A minha entrada na escola não foi um sucesso.
Era um grande edifício, inaugurado há pouco tempo pelo General que detinha o poder; tinha o nome de um caudilho índio: Guaicamacuto, que enfrentara até à morte os invasores espanhóis. Era uma escola pública com todas as condições para os alunos que a frequentavam desde o 1.º até ao 6.º ano, o que correspondia à educação primária. Intimidou-me um pouco, habituada como estava a um meio pequeno onde todas as pessoas se conheciam e onde a escola da aldeia tinha apenas uma sala de aula na qual se misturavam os alunos de quatro classes, e cujo ensino era ministrado por uma única professora.

Recém-chegada duma terra distante, pouco conhecia da nova língua, e as poucas palavras que me atrevia a pronunciar saiam de uma forma estranha e quase sempre inapropriada que me tornou alvo fácil da troça dos meus colegas, que se divertiam gozando do meu sotaque e da minha dificuldade em exprimir-me no seu idioma. Não me davam sossego, por vezes eram cruéis como sabem sê-lo as crianças.

Também me provocavam e criavam situações comprometedoras para mim. Em certa ocasião uma das cadeiras da sala, a que estava ao meu lado, apareceu com uma pata partida e quando a professora perguntou quem tinha causado tal estrago, alguns apontaram para mim. Fiquei muito corada sem conseguir pronunciar uma palavra e, desse modo, aceitei uma culpa que não era minha, e o meu pai foi chamado à escola para pagar o prejuízo. Nos dias seguintes, recusei-me voltar lá. Mas voltei, à força, ainda que por pouco tempo

Havia ainda outra razão para eu não querer ir para esta escola. Mary, a filha dos espanhóis que moraram no hotel, aquela que foi a minha primeira amiga naquele país, tinha um irmão a quem chamavam Pituco, embora o nome dele fosse Pedro. Ligeiramente mais velho do que eu, Pituco era baixinho e atarracado. Eu achava-o horroroso e antipático. De facto, comportava-se como um patife.Chocámos desde o primeiro dia! Ele não perdia a oportunidade de me provocar, dizia palavrões e obrigava-me a repetir, aproveitando a minha ignorância naquela linguagem, mas eu também gostava de o desafiar, repetindo as palavras que ele me ensinava, mas ele não gostava, a pesar de rir desbragadamente porque os meus palavrões não soavam igual. Eu tinha muita pena de que a minha amiga Mary tivesse um irmão assim tão mau.

Como Pituco e eu andávamos na mesma escola, fazíamos o mesmo percurso a pé até casa. Nessa época eu ainda tinha umas longas tranças que me chegavam até à cintura e, sempre que tinha oportunidade, o brutamontes divertia-se dando-me fortes puxões de cabelo enquanto ria a bandeiras despregadas. Mais do que uma vez me arrastou puxando por elas, rua abaixo, qual homem das cavernas!

Quando finalmente conseguia soltar-me corria loucamente até casa, onde chegava ofegante e achincalhada, congeminando mil maneiras terríveis de vingança, tão terríveis que nunca as cheguei a concretizar.  Nunca disse nada aos meus pais, pois ele ameaçava fazer-me coisas ainda piores se eu falasse!

Decidida a acabar com aquele sofrimento, peguei na tesoura da minha mãe e cortei a trança... Ao mesmo tempo desenhei uma franja de diferentes tamanhos que a minha mãe, em pânico, tentou remediar, sem grande sucesso, diga-se de passagem…

Poucos dias depois deste meu acto de coragem, foi realizado o baptismo do meu irmão. E é assim que apareço na foto de família, ao lado da minha mãe, meu pai e os padrinhos, de braços cruzados ao peito, com um lindo vestido bordado pela minha tia da aldeia, feito especialmente para ser usado esse dia, com o cabelo muito curto, uma franja irregular e minúscula e um misterioso sorriso de Mona Lisa no rosto...

In: História em Pedacinhos- As casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar.
Chiado Books-2016


A autora escreve segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.