quinta-feira, 25 de julho de 2019

"NOCTURNO ARCO-IRÍS" - O ÓSCAR ADIANTADO, de Helder Menor
















Eu nunca fui muito de acreditar nelas. Mas que existem, disso não tenho dúvidas. E se não tenho dúvidas, é também porque estou casado com a filha de uma senhora que se quisesse era. Atenção que estou a falar das bruxas, mas das bruxas a sério, senhoras de virtude, não é dessas intrujas que andam praí.

E conto já porque vos digo isto, porque sei de saber que é assim mesmo.

A coisa mais estranha que me aconteceu foi durante aquela época em que o Benfica tinha o Saviola e o Sporting de Braga este quase a mamar-nos o Campeonato.

Isto já foi há mais de dez anos.

Estava eu casado com a minha mulher há já duas ou três épocas e não conseguíamos ter filhos. E isso, era uma coisa que me andava a deixar desanimado.

Naquele domingo cheguei a casa mais cedo porque encontrei o Martinho à saída da Luz e deu-me boleia mesmo até à porta de casa. Não tive de vir de transportes cheguei uma hora antes. Quando vou meter a chave à porta, lembrei-me que a Fatinha, minha esposa, fecha sempre a porta por dentro porque tem medo dessa lodroagem anda aí agora. Nisto, oiço os barulhos de uma espécie de luta e uma voz que parecia da minha Fatinha a queixar-se. Claro que bati logo à porta com toda a força. A Fatinha veio abrir a porta com cara de assustada, a apertar o roupão, ela em casa anda sempre de camisa de dormir, mas para abrir a porta da rua veste o roupão, que eu não gosto que venha mostrar muita carne pás escadas,

-        Ó homem o que é que se passa?

-        Mor, não ouviste, uma espécie de luta e a tua voz a queixar-se?

-    Ó homem não me digas que estás a ficar maluco... então estava eu aqui tão sogadita na cozinha a estender a massa para os pasteis, que em sendo domingo a tarde é o melhor dia para isso...e tu a ouvir vozes? Olha, fecha, mas é a porta que dá para o corredor, para o cheiro do óleo não ir para a sala entranhar-se-me nos reposteiros.

-        Fatinha, juro que ouvi uma voz que parecia a tua, mas mais rouca, a queixar-se!!!!

-       Eu a queixar-me? Mas a queixar-me do quê? As vezes até me assustas homem!!! se estás a brincar, por favor não brinques com essas coisas que tu sabes que eu acredito em tudo o que me contas!

E é verdade. Ainda hoje é assim, a minha esposa é uma moça ingénua... e se eu lhe disser que o céu azul, é preto, ela acredita...

Foi nisto que ouvi claramente a porta da rua, que dá para as escadas a fechar-se. Não fez estrondo. Mas fechou-se e eu ouvi.

Corri para ver quem era. Atrás de mim a correr veio a Fatinha.

Não era ninguém.

-        não ouviste? A porta das escadas?

-        Ai homem, eu não ouvi nada!!! tu não estás bom da cabeça e queres-me por maluca a mim!! o Benfica perdeu foi?

-        Não perdeu nada, ganhou três a zero! Um golo de penálti, um de canto e um golaço de meio campo que é uma obra prima!!!! Havias de ver....

Expliquei-lhe o jogo com os detalhes que ela ouviu com atenção e não voltamos a falar nas portas e nas vozes.

Mas a coisa não ficou por aqui.

No outro dia de manha, o bruxedo voltou a manifestar-se! quando vou pegar no casaco tipo blazer que deixei no cabide atrás da porta do quarto, aí não há dúvida nenhuma, estava la o casaco sim senhor..., mas transformado!... Prova provada que o sobrenatural existe, acontece e entra nas nossas casas, vi eu, visto por mim, que ninguém me contou!!!! O casaco mudou de cor!!!!! A sério, se me contassem nem eu acreditava, que eu não sou gajo para acreditar na primeira tanga que me dão! Mas foi comigo que aconteceu. Eu, que não uso casacos azuis, nem outra roupa azul, por causa dos morcões do Porto, tinha o meu casaco preto que levo para trabalhar na agência, transformado em azul. Está bem que era azul escuro..., mas era azul.

Fiquei em choque!!!

Nesse dia levei outro casaco que tinha la no armário que apesar de ser mais quente, ao menos não era azul... E a cena do casaco azul pesava-me na cabeça!

Falei com a Fatinha disse-lhe da transformação do casaco. Ela assustou-se ainda mais que eu!

Ao final da tarde quando cheguei a casa estava la a Dona Isaura, a minha sogra, estava sentada na sala com cara de caso. A minha sogra, digo já para quem não sabe, é médium e é espírita... 

Eu nunca acreditei nessas coisas..., mas sempre respeitei. A Dona Isaura, pediu-me para eu lhe contar o que tinha ouvido e o que tinha sentido.

Eu contei-lhe tudo.  A Fatinha, ao lado da mãe com cara séria a ouvir calada.

A minha sogra, baixou as persianas, sentou-se na sala com o casaco azul na mão e passados uns segundos já estava em transe. Falou para mim com voz funda que fazia lembrar a do Artur Agostinho aquele que fazia relatos e só tinha um defeito que era ser um grande lagarto.

-        Ricardo, tu tens um espírito agarrado a ti! Precisas de te libertar...

E eu a responder-lhe...

-        Mas ó Dona Isaura, eu não tenho nada agarrado...

Vai daí o espírito entrou logo à bruta de carrinho e em falta:

-        Eu não sou a Isaura, não me chames pelo nome de um vivo! sou o espírito de um antepassado teu que veio aqui a baixo para ajudar. E tu Ricardo, vais fazer exactamente o que te vou mandar!!!..

Eu calado. Só a ouvir. Sem medo, mas com respeito.

      - Para te libertares desse encosto, manda a tua mulher, a Fátima Marina duas semanas para a terra dos pais dela, lá em cima no Minho. Ela que todas as manhãs vá acender uma vela aos pés da Santa Madalena que está na capela do Senhor do Monte. Ao fim de quinze velas, o teu problema estará resolvido e os teus passos abençoados.

Como nessa altura não me dava jeito meter férias, mandei a Fatinha, contrariada é certo, lá para cima para o Minho, que tal como combinado com o espírito. E durante quinze dias, todas as manhãs ela foi acender uma vela lá na tal capela …

E não é que resultou?!?!?!

As coisas entraram logo nos eixos.

Ganhámos logo o campeonato e a taça daquela época!

Até o casaco voltou à cor normal.

Passado uma semana de ter vindo do Minho, tive a melhor noticia que um pai e um benfiquista pode ter... A Fatinha, minha esposa amada, estava grávida.

Oito meses depois do regresso da Fatinha ao Minho nasceu o nosso Óscar, como o Cardoso do Paraguai, que para mim foi dos melhores jogadores que mandámos vir... um rapaz que jogava avançado... o nosso Óscar também gosta de se adiantar e nasceu de oito meses.

Podem ter a certeza que temos um filho lindo e maravilhoso, que já é sócio do Glorioso SLB e joga aqui no bairro na escolinha de futebol do Benfica.

Dois em dois meses a Fatinha vai um fim de semana sozinha ao Minho por lá uma velinha. Sou eu que a mando e até faço gosto e pagar-lhe a viagem no intercidades até ao Porto.

E aos domingos, quinze em quinze dias, quando o Benfica joga na Luz, levo o Óscar comigo ao estádio porque a Fatinha sai cedo e vai passar o dia lá no centro espírita.

Volto a repetir, não sei se acredito nem em bruxas nem em milagres,  mas o que é certo, é que o nosso menino está lindo, já remata tanto com o pé esquerdo como com o direito e desde que a Fatinha vai lá a cena dos espíritos, só perdemos três campeonatos e foi porque o Pinto da Costa nos indrominou com os árbitros.  Eles podem enganar toda a gente, mas a mim??? A mim?! Ao filho da Dona Maria, a minha santa mãezinha?!

A mim, ainda está para nascer o gajo que me há-de enganar....


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