Há livros que utilizam a violência como elemento narrativo , ao passo que outros forçam o leitor a presenciar a violência como elemento chave da existência, digamos que Cêntimos pertence indubitavelmente à segunda categoria. Pepper Winters escreve dentro dos códigos do dark romance, mas fá-lo sem procurar suavizar a brutalidade do universo em que coloca a protagonista. O resultado é uma leitura viciante e profundamente desconfortável, que exige do leitor disponibilidade para enfrentar violência física e psicológica, trauma, isolamento e relações marcadas por uma enorme assimetria de poder.
Pim é uma personagem particularmente inolvidável. Raptada e transformada em prisioneira de um mundo que lhe roubou a liberdade, a voz e a própria perceção de identidade, aprende a sobreviver através de mecanismos de defesa que lhe permitem preservar aquilo que ainda pode considerar seu. A sua resistência não é apresentada como uma força ostensiva ou heroica no sentido convencional. Estamos perante uma resistência silenciosa, construída através da capacidade de suportar, observar, esconder e conservar dentro de si um espaço que o agressor não consegue dominar completamente.
Sob o ponto de vista do perfil psicológico da protagonista feminina, destaca-se a sua invulgar resiliência e o recurso à dissociação como mecanismo de defesa protetor em relação à extrema violência a que se vê sujeita. Pim deixa a sua mente vagar para um plano mental alternativo, afastando-se internamente da experiência imediata quando a realidade se torna insuportável. É esta dissociação que, efetivamente, a ajuda a suportar a dor que lhe é infligida. A mente transforma-se, paradoxalmente, no último reduto de liberdade de uma personagem a quem praticamente todas as formas externas de autonomia foram extirpadas.
Esta dimensão psicológica é uma das mais interessantes do romance, porque permite compreender a sobrevivência de Pim não apenas como uma sucessão de atos de resistência física, mas como um processo interno de preservação do self. A personagem não deixa de sentir a violência; encontra, antes, uma forma de se distanciar dela para conseguir continuar a existir. A dissociação assume, destarte, uma função narrativa que ultrapassa o mero recurso estilístico: torna visível a fragmentação psicológica provocada pelo trauma e a extraordinária capacidade adaptativa de uma mente colocada perante circunstâncias extremas.
É também através deste mecanismo que o romance proporciona ao leitor uma experiência particularmente claustrofóbica. O leitor sabe que Pim está presa, mas percebe progressivamente que a sua prisão não é apenas física. O espaço exterior é controlado por outros; o espaço interior é aquele que ela tenta desesperadamente preservar a todo o custo. A pergunta fundamental deixa então de ser apenas «como conseguirá fugir?» para passar a ser «quanto de si conseguirá preservar?».
O mundo criado por Pepper Winters é hostil, isolado e intencionalmente perturbador. A violência, gráfica ou apenas sugerida, constitui uma presença permanente e não é adequada a todos os leitores. O livro deve, por isso, ser lido tendo em devida conta as advertências de conteúdo e a sensibilidade individual perante temas relacionados com abuso, violência e trauma.
Quando neste contexto isolado surge Elder Prest, esta personagem, o nosso anti-herói confere uma nova e inesperada dinâmica na narrativa. Misterioso, frio e moralmente ambíguo, Elder não corresponde à figura convencional do herói romântico, assumidamente um anti-herói cuja presença acrescenta uma nova aura de mistério e de incerteza à história. Prest assume uma posição ambígua e transporta as suas próprias sombras, denotando-se que terá experienciado também situações extremas, e irá firmar com Pim uma relação que apresenta alguma ambivalência, deixando o leitor curioso perante os futuros desenvolvimentos que esta relação venha a assumir.
A ligação entre ambos é deveras complexa. Não se trata de um romance convencional entre duas pessoas livres para escolher. A relação nasce dentro de um contexto de violência, vulnerabilidade e desequilíbrio de poder, o que obriga o leitor a questionar continuamente a natureza dos sentimentos que se desenvolvem entre as personagens. É precisamente essa ambiguidade que impede Elder de se tornar uma figura romântica previsível.
A autora constrói-o como uma personagem densa, misteriosa e fascinante, e a sua ligação inesperada com Pim constitui um dos elementos que mais alimentam a curiosidade narrativa. Há nele qualquer coisa de deliberadamente indecifrável, suficientemente forte para sustentar a expectativa relativamente aos títulos seguintes da série.
Se há uma fragilidade estrutural em Cêntimos, ela encontra-se no ritmo. O desenvolvimento inicial é algo desigual e existem momentos em que determinadas pontas da ação e aspetos do percurso de Pim parecem receber menos atenção do que seria desejável. Em contrapartida, o último terço ganha uma intensidade muito superior: a narrativa acelera, as perguntas acumulam-se e a curiosidade do leitor torna-se progressivamente mais difícil de controlar.
Essa opção acaba por produzir um efeito paradoxal. Alguns elementos permanecem deliberadamente sem resposta, mas o vazio não é forçosamente um defeito. A ausência de explicações sobre a família de Pim, os amigos e os esforços eventualmente realizados para a encontrar é, em si mesma, perturbadora. O leitor é levado a perguntar repetidamente: onde está a família? Onde estão os amigos? O que fizeram para a localizar? A inexistência imediata de respostas reforça a sensação de abandono e isolamento da protagonista.
E é precisamente nesse vazio que o romance encontra uma das suas maiores forças. Pim não está apenas fisicamente afastada do mundo: parece ter sido apagada dele. A sua sobrevivência torna-se, por isso, ainda mais impressionante, porque acontece num contexto em que praticamente nenhuma rede exterior de proteção parece funcionar.
Cêntimos é, em última análise, um livro de violência, mas também um livro sobre sobrevivência. A sua maior força não reside apenas na capacidade de chocar ou perturbar: assenta na construção psicológica de uma protagonista que encontra dentro de si mecanismos para continuar a existir quando tudo à sua volta parece concebido para a destruir.
Não é uma leitura para qualquer leitor, nem pretende sê-lo. É emocionalmente pesada, contém violência física e psicológica e aborda situações potencialmente perturbadoras, pelo que leitores particularmente sensíveis deverão considerar as advertências de conteúdo antes de iniciar a obra.
Mas para quem procura dark romance numa das suas expressões mais intensas, Cêntimos oferece uma experiência narrativa difícil de abandonar. Pepper Winters não apresenta uma história de amor confortável nem personagens facilmente classificáveis entre bons e maus. A obra arrasta o leitor para um território assumidamente desconfortável em termos morais e humanos.
Pim é, claramente, a personagem que permanece. Não porque seja invulnerável, mas precisamente pelo contrário: porque a sua extraordinária resiliência resulta da vulnerabilidade e da capacidade de encontrar, mesmo no seio da violência extrema, um lugar mental onde ainda consegue ser ela própria.
Elder Prest deixa muitas perguntas sem resposta. Pim deixa uma certeza: uma pessoa pode ser privada de quase tudo e, ainda assim, encontrar dentro da própria mente o último espaço que ninguém conseguiu conquistar, a preservação da sua identidade, da sua essência frágil mas, ainda assim, humana.
Texto: Isabel de Almeida | Crítica Literária | Jornalista
Foto: Nova Gazeta - D.R.


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