quinta-feira, 15 de agosto de 2019

DE ONDE NUNCA SAÍ - TEREMOS SEMPRE PARIS, de Helder Menor














Cruzámos os ares esmagados em cadeiras de baixo custo. Aterrámos à noite, mais uma vez carregados de nada e com vontade de pisar o chão sujo de milénios de passos dados.

De novo em Paris, a cidade onde se volta sempre. Os que pariram esta interculturalidade de faz de conta estão prestes a ser devorados pela sua própria cria. A terra onde se inventou o Ocidente prestes a afogar-se na herança do seu próprio colonialismo. Ricos e pobres sobrevivem no medo uns dos outros. Coletes amarelos, jilabas, nudez e alta costura.

À chegada, soldados e polícias de todas as cores armados até aos dentes. Prontinhos a morrer pela França que lhes dá um bilhete de identidade e lhes promete as onze mil virgens ou o paraíso ser protagonista no telejornal.
No aeroporto uma maratona de passadeiras rolantes paradas e vazias que foi preciso palmilhar. Com pressa, sorte e engenho, apanhámos o último comboio para a cidade. Gare du Nord. Seriam umas onze e meia da noite.

Saídos da carruagem sombria e da estação imensa e suja, fomos a pé pela cidade em ebulição. Chegámos nessa hora mágica em que as prostitutas mudam de turno, os chulos brindam com os amigos e os bêbados ainda se conseguem mexer. Ladrões, bandidos, saltimbancos, intrujas, vigaristas e artistas de toda a espécie a tentarem safar-se no momento para pagar mais umas horas de renda na Cidades das Luzes.

Longe, bem longe da Paris de franceses que trabalham nos serviços. Longe daquela Paris que existe, hermeticamente fechada e limpa em prédios de apartamentos com porteiras.

Seguimos de mochila às costas pela cidade. Sempre a pé, desviados dos postais turísticos e do chique. Directos para a Paris real, a terra onde vivem dois milhões de pobres que não são franceses, mas que nunca conheceram outro país que não a França. Putos magrebinos a matarem-se uns aos outros em disputas por pontos de venda de haxe. Outros a vegetar nas escadas dos prédios à espera que aconteça alguma coisa. Quem lhes der um Corão salva-os do mundo.

Entre bebedeiras, pedradas de heroína, propostas comerciais, abordagens religiosas, tentativas de extorsão e ameaças veladas, lá encontrámos o sítio para onde íamos sem grandes dificuldades.

Cinco andares para subir sem elevador e sem casa de banho nos quartos. Tecnicamente ficámos num "hostel". Um antigo bordel, mais ou menos reciclado, mas que alia a santíssima Trindade de um alojamento: limpo, barato e central.

Os proprietários são argelinos da Cabília, boa gente.

Deixamos as mochilas e saímos para a rua. Seriam duas da manhã de sexta-feira. Bares cheios e senhoras a trabalhar pelas esquinas. Entrámos na primeira porta aberta e pedimos dois copos de tinto. Dissemos que não ao dealer oficial da rua, senegalês gigante, que nos veio propor coca. O empregado percebeu e reconheceu a desenrascada e latina forma de dizer que não, com firmeza, sem medos, mas sem arrogâncias nem superioridades. Chegou-se e sentou-se connosco, era argentino, de Buenos Aires e do bairro do Boca. Simpatia legítima. Bebemos juntos. Apareceu uma garrafa de vinho que a casa ofereceu. Continuamos a falar, saudosos da sua América, a Nossa América, a latina. Trocámos números de telefone.

Subimos para o nosso ninho no quinto andar. Com o aquecimento ligado e a janela de vidros triplos, dentro do quarto estava uma noite de verão. Adormecemos como anjinhos aconchegados nos quarenta graus e no borgonha, cinco pisos acima da rua onde as poças no chão gelavam.

Acordámos pelas nove, tomámos o banho possível e descemos. Café e chá no café do marroquino mesmo ao lado do hostel. Andámos com o sol ainda a brilhar baixo e uma temperatura próxima do zero. Fomos à feira da Ladra que aqui se chama das pulgas. O mundo inteiro à venda em tendas, lojas, bancas e panos no chão.... Namorei um jogo de xadrez em pedra, mas deixei ficar. Sem fazer compras, paramos numa roulotte, comemos omelete de cogumelos verdadeiros e bebemos cerveja artesanal.

Depois rumámos à colina de Montmartre. Caminhámos calados e solenes entre os espectros dos camaradas massacrados quando nos esmagaram a Comuna. Subimos ao Sacré Coeur e misturámos com os outros que eram turistas. Música de rua e indianos a vender tubos telescópicos de alumínio para tirar fotografias. Sentámo-nos ao sol no jardim a fumar e a fazer a fotossíntese. Rimos, namoramos e tiramos fotografias a nós mesmos com os telefones.

A fome fez-nos procurar onde comer. Encontramos um café mais ou menos decadente, pedimos pão, queijo e uma garrafa de Bordéus. Sobe-nos bem o tinto, o queijo não era mau, o pão era péssimo.

Nas placas com os nomes das ruas recordámos livros e filmes antigos. Entrámos em várias lojas de discos, sexshops e livrarias. Não comprámos nada, tudo demasiado caro, demasiado datado, demasiado enfadonho, demasiado monótono ou demasiado plastificado. Com a memória da geração perdida, fomos ao Pigale beber um ricard. A Avenida Clichy, espreguiçava-se ao sol de inverno, tudo menos tranquila.

Atracamos numa esplanada, pedimos uma cerveja e café. O mundo passou todo à nossa frente. Excursões de chineses, casais americanos, executivos alemães e rameiras, chulos e mendigos de todas as nacionalidades e cores.

Com o cair da noite, as ruas foram-se enchendo. Numa travessa escondida e escura, na zona mais decrepita do Pigale, o destino e algumas referências prévias, levaram-nos a uma tasca que vende vinho de excelente qualidade e que tem pasta de fígado de ganso. Caseira. Feita com fígado mesmo de ganso, sem iscas de porco misturadas. Estava frio na rua e os ossos doíam só de olhar lá para fora. Pedimos uma garrafa para aquecer, comemos pasta de fígado, presunto, pão e queijo. Tudo bom. Veio mais vinho que bebemos. Fomos ficando na conversa mole sobre vinho e comida com a dona da taberna.

Voltámos ao hostel já tarde e vagamente tocados.

Com o calor do aquecimento sempre ligado, dormi pesado e acordei cedo com boca seca. Era domingo de manhã, na esquina comprei o Libe e fui à padaria buscar duas sandes para levar. Trouxe também uma baguete de sésamo deste tamanho que comi com o chá da manhã no café do marroquino.

Apanhamos o metro até ao arco do Triunfo. Depois, descemos os Champs Elysêes até à Place de la Concorde. Cruzámos o Sena. Finalmente a tal Paris, dos canais de televisão especialistas em viagens. A Paris dos cafés para americanos. Paris das excursões turísticas, das luas de mel e dos casais de meia idade do Japão, Coreia e China a fazer fotos para emoldurar.

Caminhámos pelo Quais D'Orsay até à inevitável Torre do Eiffel. Mais policias e militares de camuflado e uzi. Temperatura entre os zero e os quatro graus. Subimos as escadas de ferro evitando a fila e o pagamento. Lá em cima olhamos à volta, tiramos fotografias, fizemos juras de amor, especulamos sobre distâncias e queixamo-nos do vento gelado. Descemos e comemos as nossas sandes no jardim ao lado da ponte. O sol de inverno fica bonito nas fotografias, mas não aquece, bebemos chá quente do termo envolto numa meia de lã, mas mesmo assim, foi o frio quem nos sacudiu dali.

Andamos mais de uma hora pelas ruas até ao hostel onde no nosso quartinho do quinto piso o verão era eterno e convidava ao descanso.

O argentino do bar acordou-nos com uma mensagem a combinar irmos beber um copo às sete e meia. Eram sete e dez. Vestimo-nos para uma expedição polar e caminhamos cinco minutos até ao lugar de encontro.

Aqui no 18º Bairro, há dez anos atrás só viviam argelinos e senegaleses. Mas o passar do tempo deu poder de compra à geração dos filhos dos que fizeram o Maio de 68... E estes franceses entre os 35 e os 50 anos, que cresceram nos valores da liberdade com padrões de consumo burgueses, sem preconceitos de classe e sem valores religiosos ou nacionalistas, preferem morar no Centro de Paris entre africanos e asiáticos do que nos subúrbios, entre brancos. Chama-se a esta subclasse emergente, Bobo, Boheme Bourgoise. É esta gente, quem alimenta economicamente o bairro e os seus pequenos negócios de cafés, mercearias, remodelações, livrarias, traficantes de drogas, lavandarias, oficinas de bicicletas e uma ou outra galeria de arte que vai aparecendo.

Fomos para um café completamente cheio de bobos, africanos, latinos, e de magrebinos. Mesas compridas e toda a gente misturada. A esplanada virada pró canal do midi. Bebemos tinto e comemos pão com coisas que iam aparecendo: queijos, enchidos, patês e até conservas de peixe. Falámos de vinho, política, livros e viagens. Da Europa e da América. Da Argentina, de Portugal e da Cabília com um argelino de segunda geração que se juntou a nós. As garrafas navegavam ate à nossa mesa a boiar entre o fumo e a música do Fateh Ali Khan que se sobrepunha ao barulho das vozes e dos copos a bater.

A festa acabou relativamente cedo, porque era domingo à noite.

Saímos em clima alegre e descontraído. Voltámos a pé pelas ruas estreitas.

A polícia tinha vedado a rua do nosso hostel. Não podíamos passar. Disseram-nos para esperar um bocadinho. No café do marroquino, minutos antes aconteceu um homicídio. Um adolescente foi esfaqueado e esperava-se a ambulância da morgue.

A morte do miúdo desconhecido no café, cortou o clima de festa em que seguíamos e foi-nos buscar ao Bordeaux onde alegremente planávamos para nos trazer em voo picado para o mundo real.

Estava definitivamente acabado o fim-de-semana.

Voltamos sem mágoas, mas sem vontade de ficar muito mais. Sabemos que mais dia menos dia regressaremos.

Paris é especial. Dá-nos aquele conforto de sabermos que aconteça o que acontecer, façamos nós os que fizermos das nossas vidas, Paris permanecerá. Paris vai lá estar disponível como uma prostituta madura, cansada, ligeiramente alcoólatra e com mau feitio, mas eternamente bela e sedutora.

“Teremos sempre paris”, dizia-se em Casablanca.




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