quarta-feira, 31 de maio de 2017

ENTREVISTA | Paulo Costa Gonçalves "...só posso ir longe com este género e com o inspetor Alex se for acompanhado."



Texto e Fotos: Madalena Condado


Para quem ainda não o conhece, Paulo Costa Gonçalves é sociólogo e autor, mas acima de tudo um apaixonado pela vida. Bom companheiro de conversas, costuma descrever-se como um aprendiz, uma espécie de escritor que adora a nossa História colocando-a sempre como fio condutor em todos os seus livros.
Através da sua escrita conhecemos e aprendemos a amar o inspector Alexandre Melo, este investigador que tem a singular capacidade de nos entrar pela imaginação como um pensamento tornando-se num vicio difícil de saciar. Se nos seus anteriores livros começámos a acompanhar as aventuras e desventuras deste homem que aprendemos carinhosamente a tratar por Alex, no “Enigma da Mentira”, voltarmos a sentir-nos novamente catapultados para as suas investigações, acompanhando cada momento como se fosse o último, vibrando com as suas decisões, opondo-nos a algumas delas, mas acabando sempre por nos sentirmos parte integrante daquele mundo enquanto devoramos as suas páginas na ânsia de saber mais. Damos por nós a ler como se um filme se desenrolasse na nossa imaginação e começamos a refrear a nossa leitura quando sentimos que nos aproximamos do seu último capítulo. A verdade é que é difícil resistir à escrita criativa do seu criador.
Por saber que o Paulo vende muito bem em países como a Argentina e o Brasil, perguntei-lhe para quando os seus livros em outros idiomas. Garantiu-me que poderá estar para breve apesar de sentir que a sua escrita acabará por perder muito com as traduções. 
O “Enigma da Mentira”, o terceiro livro de Paulo Costa Gonçalves foi apresentado no passado dia 9 de abril no café literário da Chiado Editora, o local ideal para receber mais uma aventura do nosso inspector, numa sala cheia de leitores ávidos onde a conversa fluiu como é habitual com o Paulo. Ficou ainda no ar a possibilidade de enveredar por outro género literário mantendo sempre o nosso apetite saciado no que diz respeito ao inspector Alex Melo.
Mas nada melhor do que falarmos com ele.

MBC - Para os leitores que ainda não te conheces como te apresentarias?
PCG - Apresentar-me-ia como um autor que passo a passo, neste caso livro a livro, tenta singrar no panorama literário português e num género, o romance policial, onde não existem referências nacionais ao nível da ficção o que leva muitos dos leitores a fazerem comparações com autores internacionais e com uma maior incidência no Dan Brown, talvez pelos acontecimentos históricos que uso para criar os enredos das histórias dos meus livros. Ou seja, como costumo dizer: histórias que se cruzam com a História. Sou ainda alguém que tem consciência do panorama literário nacional, distribuição, etc., e por isso com os pés bem assentes no chão e que estranhamente ou talvez não tem inúmeras encomendas de livros vindas dos quatro cantos do mundo. Em suma, por mais estranho que possa parecer tenho mais encomendas via redes sociais do que o que se vende nas lojas.

MBC - Porquê um inspector Alexandre Melo? Foi uma personagem baseada em alguém que conheças? Talvez um pouco em ti mesmo?
PCG - O inspetor Alexandre Melo, Alex para os amigos, foi pensado um pouco como um género de Hercule Poirot contemporâneo. No entanto enquanto o personagem da Agatha Christie era um detective particular, o meu inspetor é um mero agente da polícia judiciária portuguesa, com vida pessoal e o oposto do super-herói, e conjuga a sua intuição com a ciência forense, não deixando, contudo, de mesmo contra todas as provas por vezes bem fundamentadas na ciência forense de seguir a sua intuição e com isso fazer a diferença. Se há nele um pouco de mim? Sim, penso que sim, mas também um pouco de cada um de nós. No meu caso e sendo sociólogo que trabalha muito no terreno e numa contemporaneidade em constante mutação há alturas em que também tenho que sair das ditas “conchas teóricas” onde assenta muita da investigação sociológica para uma melhor obtenção de resultados. No de todos nós, porque o Alex é um homem normal, inspetor da polícia que tem uma vida normal com amores e desamores como qualquer comum mortal com quem nos podemos cruzar na rua, assim como todos os personagens dos meus livros. 


MBC - Fala-nos um pouco do teu processo criativo. O que te inspira, qual o segredo para manteres os teus leitores agarrados à leitura sempre com receio de que a estória tenha um fim.
PCG - Desde criança que sempre gostei muito de ler e as minhas leituras também desde cedo foram transversais a todos os géneros literários, contudo houve sempre alguma preferência pela História e pelos policiais. A História pelo conhecimento mais dos acontecimentos e o que influenciaram o percurso da humanidade e menos do herói, e os policiais pelo entretenimento de horas bem passadas. Digamos que é um misto disso que tento passar nos meus livros. Isto é, dar a conhecer alguns acontecimentos históricos e praticamente desconhecidos de todos e depois o entretenimento de um enredo policial com base nesses mesmos acontecimentos. Por exemplo, em O Herdeiro de Antioquia, e a sequela. Sob estranhos céus, a base foi a conquista da cidade de Antioquia em 1098, durante a primeira cruzada e o que aconteceu e que por muito que não se queira acreditar aconteceu. Já no recente Enigma da Mentira a base é um documento que relata uma incursão viking em 1015 na zona onde se situava e ainda se situa a cidade do Porto e a história de um lavrador que viu as suas três filhas serem raptadas pelos invasores e tudo o que ele passou para as resgatar. Depois pego nesses acontecimentos e em descendentes contemporâneos de quem os viveu e crio uma história onde esses descendentes fazendo uso dos mais diversificados ardis tentam tirar benefícios próprios. Acontece que como tento escrever sobretudo histórias que sejam de fácil leitura e para entretenimentos dos leitores e onde eles passem umas horas, digamos desligados dos problemas da vida, os livros acabam por ter um ritmo que muitos consideram algo cinematográfico. Inclusive muitos dos feedbacks dos leitores sublinham, por um lado, precisamente isso e a sensação que têm de estar a ver um filme e até se esquecerem das horas, de trocarem de transportes ou passarem a noite em branco embrenhados na leitura e, por outro lado, confidenciam que por vezes têm a sensação que conhecem aquele personagem, que têm a ideia de já se terem cruzado com ele na rua, etc.    

MBC - Planos para um futuro próximo. Podes garantir-nos que independentemente de enveredares por outros géneros de escrita continuaremos a vibrar com as fantásticas aventuras do inspector Melo?
PCG - Sim, as histórias do inspetor Alex que se cruzam com a História são para continuar enquanto os leitores assim o desejarem e existam editoras dispostas a apostar, porque como disse anteriormente trata-se de um género sem referencial nacional e pelo que julgo saber existem apenas dois ou três autores, pelo menos com o seu nome real e sem disfarces de pseudónimos anglo-saxónicos, a tentar singrar neste género, inclusive no passado Dinis Machado com o pseudónimo de Dennis McShade também fez algumas incursões no género mas sem grande sucesso. O que quero dizer é que como diz um proverbio africano: se queres ir depressa vai sozinho, mas se quiseres ir longe vai acompanhado. No fundo é isso, só posso ir longe com este género e com o inspetor Alex se for acompanhado tanto pelos leitores, como pelas editoras que queiram apostar num “terreno ainda virgem”. No entanto gostava também de abordar um outro género que embora tenha já o enredo na cabeça e algumas coisas no papel ainda não consegui fazer a abordagem que realmente me satisfaça. Não é um género fácil e tem alguma complexidade porque é algo relacionado com segundas oportunidades que nos podem ser proporcionadas após a morte.


MBC - O próximo passo lógico para quem já leu os livros seria uma série televisiva. Podes adiantar-nos algo acerca disso?
PCG - Bem… é algo que não desdenharia até porque como já referi os leitores referem-se aos meus livros como: terem a sensação de estar a ver um filme. Apenas posso dizer que após o lançamento de O Herdeiro de Antioquia houve alguém bem conhecido no panorama televisivo e das novelas que, após ter lido o livro, me contactou e questionou a minha opinião sobre o assunto, mas foi algo que não passou disso mesmo, de uma mera abordagem, talvez prematura ou talvez como uma ideia de futuro. Honestamente não sei porque a coisa ficou por ali mesmo e já se passaram dois anos. 



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