quarta-feira, 28 de outubro de 2020

COMEMOROU-SE A 27 DE SETEMBRO, O DIA MUNDIAL DO TURISMO (WTD), de Paulo Landeck









Comemorou-se a 27 de Setembro, o Dia Mundial do Turismo (WTD), apontando o tema deste ano para o Turismo e desenvolvimento rural - Precisamos novos rumos.
O Turismo de Portugal, refere a capacidade única do turismo, em “impulsionar o desenvolvimento económico” e não deixa esquecer possível oportunidade para as comunidades rurais, fora dos grandes centros urbanos.
Infelizmente, só depois de voltar a insistir na economia, refere a página alusiva à malfadada data, “a capacidade de promover e proteger” o” património natural e cultural”, sem esquecer a importância diferenciadora da identidade/autenticidade. Pois…é por aqui, que gostaria de ver sobretudo o Estado, mais empenhado!
Vou procurar não me perder em números nem estudos, que em larga medida, têm servido como cosmética, ou para justificar todo o tipo de atentados ao património natural e cultural, em nome do turismo, colocando-nos perante novos desafios e ameaças, até para com a referida “indústria”, como alguns gostam de lhe chamar (essa é precisamente a perversa lógica que podemos e devemos evitar, se quisermos tirar o máximo proveito do que os recursos têm para oferecer à sociedade).
A organização atribuída este ano pela OMT, a um grupo de países, e não a um Estado-Membro, espelha a importância internacional e carácter transfronteiriço do turismo. Eu gostaria de acrescentar, a tremenda responsabilidade, nestes tempos pandémicos, mas sobretudo de crescente crise ambiental, social, e humanitária.
O turismo, tem de ser útil ferramenta, não um cancro como revelado até aqui, instrumentalizado por mentes obscuras que exploram os recursos em benefício próprio (muitas vezes promovendo evasão fiscal, branqueamento de capital, precaridade, e por aí fora…), sem olhar aos serviços de ecossistemas, nem à forma como podemos melhorar a qualidade de vida das comunidades a quem, em última análise, os referidos recursos mais deveriam interessar/favorecer.
O turismo pode ser vital para as metas do milénio, se, e somente se, for orientado pelo prisma da sustentabilidade.
Já se percebeu há muito, que a economia só por si, promove: degradação, desigualdade, atraso, desperdício…entre outros erros que já estamos a pagar, e mais tarde pagaremos da pior forma.
Não podemos continuar com chavões de dois tostões, como sustentabilidade, ou planos e estudos atrás de mais planos e estudos, sem verdadeiramente trilhar novos caminhos, que sejam promotores do que de melhor possamos oferecer, cujos maiores benefícios possam ser alargados à maioria.
Falar de turismo sem politizar, é como ir à bola sem olhar ao esférico, o público, já todos sabemos o que lhe aconteceu, vítima da economia da crise
É por esse motivo, que quero referir a importância que o conhecimento científico possa ter, nas mais variadas áreas, quando aliado ao turismo também assente em sólida base de conhecimentos.
Como é possível, qualquer empresa iniciar actividade turística sem o mínimo de formação adequada na área?
A especulativa selva, sobretudo nos centros de maior afluência, deixou efeitos negativos à vista (alguns por chegar), vale de tudo quando deveríamos promover oferta de produtos e serviços de elevada qualidade, também por parte das PME.
É por essa via que poderemos e deveremos definir estratégias mais balanceadas, sustentáveis, focadas até mesmo no desenvolvimento local, como quem recupera azulejo, parte integrante de painel maior.
A Dark Sky Alqueva, premiada com o Sustainability Leadership Award 2020, ACQ5 Country Awards 2020, The Bizz Awards2020, Europe’s Leading Tourist Destination2020, Europe’s Responsible Tourism Award 2019, e os mais que seguramente se seguirão, representa bem como se ganham boas apostas por via de oferta diversificada assente no conhecimento, e na excelência. Já nos anos 90, eu tinha noção de como o stargazing poderia ser algo a trabalhar, também no turismo, em Portugal. A política de cuidada expansão, soma e segue (com imensas possibilidades, por certo).
Imaginem quantas empresas como esta não possam surgir, a actuar naturalmente em diferentes áreas do conhecimento ou da imaginação. Não copiem, revejam possibilidades, num país cuja maior riqueza deve estar precisamente na sua História, e no vasto património cultural e natural.
A Naturalist – Science&Tourism, surgiu como startup, segue no bom caminho, ao combinar tours culturais, com recolha de dados científicos (fazendo aqui um importante interface entre diferentes áreas, enquanto promove desenvolvimento multidisciplinar). Operam no Faial, com uma equipa multifacetada que combina biólogos/investigadores, com especialistas no turismo. A observação de cetáceos, em particular, conta com alguns bons exemplos, como a Terra Azul, em São Miguel, entre outras distribuídas um pouco por todo o país (de Sagres, a Setúbal, ou à Madeira, felizmente…). Isto, apesar de existirem empresas licenciadas a operar sem o fundamental conhecimento, nem controlo eficaz por parte do Estado (uma vez que lidam com recursos sensíveis, como a biodiversidade). – Facilitar o acesso aos que trabalham mal, é colocar em causa não apenas os recursos, como o bom trabalho feito por todos os outros.
No turismo industrial há muito a fazer, mas também bons exemplos, como o caso de S. João da Madeira, pela elevada qualidade nas visitas guiadas ao seu património histórico sem deixar de fazer a ponte com o turismo de negócios (Museu da Chapelaria, etc), numa região muito activa do país, em que a identidade regional pode até vir a reforçar o papel de qualquer marca.
E não só, os museus eram no contexto pré-pandémico, também crescente fonte de receitas, além de pólos de atractividade para possíveis visitantes. Com renovada museologia, ganha a comunidade em geral (quanto vale a educação e a cultura? Conhecer e preservar, para seguir o melhor caminho, o que se possa chamar de evolução. Sem olhar ao território, à História, à identidade cultural, aos desafios actuais, não iremos a lado algum).
Muitos dos mais positivos exemplos, gozam ou poderão herdar ligações a actividades que nos chegam de mais ou menos distante passado (algumas de boa saúde), das salinas, às termas (saúde), indústria corticeira, pesca, agricultura, ou minas…
Alguma da mais recente diversificada oferta, aproveita singularidade há muito existente (o surf em Portugal tem longos anos, o canhão, ainda mais…), mas refém da necessária evolução de mentalidades, como o caso das ondas da Nazaré, mostradas ao mundo por Garrett 'GMAC' McNamar, hoje uma realidade na Big Wave Tour - World Surf League (eventos). Recordo-me das discussões em Peniche, e como o surf passou de “desporto de miúdos” que nunca foi, para lucrativo negócio, e apelativo chamariz, reunindo hoje consensos e orgulho até por parte de muitos que o atacavam, como hoje dirigem esse mesmo desprezo à pesca, na sua tacanhez.
Quando penso no que temos à porta de casa, resultado de milhares de anos, quando não milhões de anos, ainda por valorizar devidamente, fico assombrado!
Foi muito angustiante para mim, a luta que se travou por Foz Côa quando havia evidências exemplos em Lascaux e por esse mundo fora, de como se pode valorizar o património (quando o dinheiro é entrave e meta para muita gente).
Como é possível, no séc. XXI, travarmos ainda duras batalhas como as de Carenque?! O absurdo do miopismo, ou mais provável conflito de interesses, da classe que nos deveria conduzir ao desenvolvimento sustentável, só é combatido pela educação e civismo, de quem vê na cultura, aliado maior. O Professor catedrático jubilado António Marcos Galopim de Carvalho não deixa que a idade lhe turve ampla visão, dá-nos mais uma, valiosa lição: escutem-no!
Penso novamente em Peniche, na dificuldade inicial que teve em aceitar o surf, na selvajaria que se tornou o turismo em Portugal (com todo o tipo de actores em cena, sem a preparação devida para oferecer o melhor contributo não apenas à economia, como também no campo ambiental e social). Penso como a pesca se tornou em muitos casos, no parente pobre, o que é completamente ilógico.
As nossas identitárias devem ser defendidas, das origens rurais, ao povo com longa história marítima.
O mesmo mar pode oferecer múltiplas valências, em que diversas áreas muitas vezes se encontram.
Se quero ter turismo de qualidade, com presente e futuro, é bom ter uma actividade piscatória saudável, pelo peixe que se quer de qualidade, pelo pitoresco, pela cultura, etc, etc e tal…
Vejo uma ânsia em tributar, deitar mão ao suor de quem se faz à vida, mas não vejo reforçada vontade, em implementar políticas, reforçar equipamentos, promover medidas, para o tão ambicionado desenvolvimento local, de forma homogénea (país descoordenado, de guerrilhas, e intrigas, divide para algumas famílias reinarem).
Quem ganha mais com isto?
Há lutas que devem ser de todos, num país que se diz virado para o turismo e para o mar.
Só a falar de mares e rios (incluindo os de dinheiro), poderia ficar dias a fios.
Como é possível os “grandes argonautas” não terem hoje um museu dos descobrimentos, depois de tanta polémica (e de dimensão mundial inquestionável)l?!
Na primeira vez que visitei a Noruega (apesar de ainda jovem), uma das coisas que mais me marcou foi o Vikingskipshuset, em Oslo. Não me imagino numa terra daquelas, sem pensar no mar…bem sei que em Portugal temos o Museu de Marinha, alguns núcleos dedicados ao mar e muito interessantes de N a S, incluindo ilhas, mas falta atribuir outra dimensão à oferta.
Devo recordar a importância do National Maritime Museum (em Londres) ou de tantos outros por esse mundo fora, como pode Portugal deixar de fora, algo dessa dimensão?
Os suecos deram-se ao trabalho de fazer o Vasa Museet, depois de resgar naufrágio.
Temos o Gil Eanes em viana, O Navio-Museu Santo André do excelente Museu Marítimo de Ílhavo, a Dom Fernando II e Glória em Cacilhas (tem o parente pobre ali ao lado, o submarino Barracuda, entregue apenas a mirones) …sinto que falta, e muito.
Volto aos tempos do bacalhau e recordo a lenta agonia do “Argus”, na Gafanha da Nazaré. O potencial enorme da “faina maior”, dos grande armazéns, como das conservas (com alguns núcleos muito interessantes), e do sal. Só por exemplo, na Grande Lisboa temos longo caminho a percorrer (Barreiro, Seixal, Almada, Lisboa)…o mais recente centro interpretativo, o “Bacalhau Story Centre”, contou com o valioso contributo do professor catedrático Álvaro Garrido, empresta renovado brilho à memória, mas não apaga o imenso património ao abandono por valorizar. O bacalhau da nossa mesa (do turismo gastronómico que há muito deveria ter reclamado parceria entre fornecedores/lojas históricas e a mesa posta ao turista, um pouco por toda a Baixa, onde a tradição mais se fez notar), é o mesmo da nossa História.
E será que o turismo religioso, deve passar quase exclusivamente por Fátima? Não haverá outra visão, até mesmo associada à História? Há um tímido despertar para tantas feiras e romarias, além de outras confissões, ou paganismo, que não deveremos deixar apagar….
Portugal não pode continuar a ser um país inculto, corrupto, promotor da incúria, negligente, que entrega todo o seu ouro a poucos, sem olhar amanhãs.
De que vale ter ideias e conhecimento, se o Estado canaliza fundos de forma leviana?
De que vale continuarmos a insistir nos maus algarves deste país? O Algarve, tem outros encantos, é tempo de os saber valorizar.
O caminho do favorecimento não permite explorar todo o potencial nacional. Gostaria de ver muitos mais casos de sucesso, pois significaria, um país de excelência para se viver, seguro, feliz, verdadeiramente livre, menos permeável a crises de todo o tipo.
É um completo absurdo, qual bala de canhão nos próprios pés, obuses apontados à cabeça, se prosseguirmos entre inverdades, ao sabor do marketing, da economia, dos interesses pessoais, assentes em disparates como a especulação imobiliária, negócios duvidosos como do golfe, dos cruzeiros, ou de todo o tipo de turismo de massas, com ou sem tuks e hostels. Não passam de atraso encapotado de “desenvolvimento” (além dos problemas associados, gentrificação, precaridade, criminalidade, desespero e subsequente violência).
Quando penso em turismo, não me quero perder somente nas páginas do Licínio Cunha, há tanto escrito e estudado, tanto por escrever, nas mais variadas áreas, a que o Turismo com T maior, pode e deve aceder.
O meu turismo é feito pelo património material e imaterial, com o claro propósito de valorizar, seja a saúde, o ambiente, a cultura...
Quantos mundos se entrecruzam no turismo?
Quanto valerá o turismo literário?
Quanto valerá o “dark tourism”(não gosto do termo português. Temos a cabeça de um homem num frasco, o coração dum rei numa igreja…e de fantástico, muito mais)?
Quanto valerá o turismo militar (por Elvas, e outras maravilhas que tais)?
Quanto valerá a paisagem na estação, e a paisagem da estação, o ímpeto criador, a inovação, ou a tradição?
Quanto valem os jardins e “palacetes de toda a espécie” espalhados por esse país fora?
Quanto vale um charco, ou uma rocha, o canto, uma lenda, o instrumento, um cemitério, o barco, uma universidade, ou uma peça e o teatro?
Quanto valem as históricas termas, ou as milhares de possíveis aventuras, em quase todo o território?
Quanto vale o negócio em segurança, a formação, e o congresso?
Quanto valem os moinhos-de-maré da minha terra, uma escultura, ou outra obra de arte?
Quanto vale um rio limpo, ou uma raça/variedade preservada, seja por via da pecuária/agricultura, seja no seu estado mais selvagem?
Quanto vale a biodiversidade constantemente atacada a régua e esquadro (a promessa de aeroporto aos franceses é só mais um exemplo)?
A promoção do consumo desenfreado, o turismo de massas, não entende o meio, deixa pesada factura, efeitos nefastos.
É preciso educar, agir em conformidade (estudos e estudiosos, não faltam). O problema é quando se trocam galhardetes sem valorizar mais que indivíduo A e B.
A comunidade tem de conhecer o seu património. A sucata de uns é o veículo clássico para outros.
Quanto ganharemos, se lavarmos a cara?! – Quem parte no final da corrida, pode ter a vantagem de evitar cometer os mesmos erros de quem segue na frente. Não acredito em falta de conhecimento, e negligência não é rara, mas não justifica tudo, nem de perto.
Quanto poderá valer se tivermos secretários, consultores e auditores íntegros, sem favorecerem os mesmos que nos assaltam os recursos em vez de os proteger, muitas vezes espoliando ainda mais o próprio Estado?! É assim no ambiente, nas pescas, no turismo, por aí fora…quem vai mitigar quando, como, onde e porquê? Quem mais ganha com os recursos de todos e de que forma?
A ética deve impor-se a quem planeia e define estratégias em qualquer área (a porosidade política é inadmissível), como tal, deve haver um quadro alargado, consensual no que respeita a conhecimento científico, que não pode estar entregue a economistas e juristas sem que todas as outras partes sejam ouvidas e tidas em consideração.
Só num país de loucos, Troia “vale mais” que toda a Baía de Setúbal e Arrábida…o mesmo país que pondera a expansão de pedreira num parque natural (mais política de pedra e cimento!).
Só num país dominado por interesses amplamente criminosos, contrários ao apregoado nacional, privatizamos recursos como quem compra um gelado ao amigo; criamos dourados condomínios, longe dos amontoados olhares citadinos; damos cabo do presente, e do futuro, e aplaudimos o sucesso individual de quem se diz empresário, quando em larga medida explora e arruína a coisa pública.
O turismo a todos diz respeito, ou deveria dizer, a bem do país, do novo mundo por alcançar.
Enquanto a maioria de nós é amontoada com vista para o rio, da margem que mais sente o coração, sujeitos a assaltos à mão armado e toda a forma de violência, o pior dos assaltos é consumado a cada dia, de fato e gravata, com a conivência dos mais sábios doutores e engenheiros, políticos e gente muito respeitosa (de sucesso). Neste mundo em convulsão, não se olha a meios para maior conforto…individual.
Não se trata de reforçar abraços ao eixo Rússia-China ou pela América do Norte (enquanto como pipocas e assisto ao filme), mas em que mundo queremos nossas casas, se no maior dos confortos, longe da vista dos pobrezinhos, ou onde se possa viver de forma racional, equilibrada, livre, com sentido de estar, hoje e amanhã.
Portugal precisa fazer a transição para o PRESENTE (com todos os desafios que isso implica), cumprir verdadeiramente Abril, sem olhar a um futuro auspicioso anunciado a monóculo, nem passado envolto em brumas.

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