O rei que quer recuperar
a própria história
Há figuras históricas que
pertencem ao passado. E há outras que continuam a disputar, muitos anos depois,
o modo como serão recordadas. Juan Carlos I pertence claramente à segunda
categoria.
Durante quase quatro
décadas, o seu nome esteve associado à transformação política de Espanha: à
morte de Francisco Franco, à restauração da monarquia, à Transição democrática
e à consolidação de um regime que encontrou no rei uma figura de equilíbrio num
dos períodos mais delicados da história contemporânea espanhola. Mais tarde,
porém, a imagem construída ao longo desses anos começou a degradar-se sob o
peso de escândalos, suspeitas financeiras, controvérsias familiares e do
crescente afastamento da vida pública. Em 2020, Juan Carlos deixou Espanha e
instalou-se em Abu Dhabi.
É a partir desse momento
de ruptura que surge Reconciliación.
Mais do que uma
autobiografia convencional, o livro pode ser lido como uma tentativa de
recuperar o controlo sobre uma narrativa que o antigo rei sente ter deixado de
lhe pertencer. A intenção é evidente desde o princípio: Juan Carlos escreve
para contrariar aquilo que considera ser uma versão incompleta — ou injusta —
da sua história.
E é precisamente aí que
reside o principal interesse da obra.
Quem tem autoridade para
contar a História? O protagonista que a viveu ou aqueles que, décadas depois, a
investigam e interpretam?
No caso de Juan Carlos I,
a pergunta ganha particular importância. Não estamos perante um antigo chefe de
Estado que ocupou o poder durante alguns anos, mas perante o homem que foi rei
de Espanha durante 39 anos e que desempenhou um papel decisivo na passagem do
franquismo para a democracia.
As suas memórias
percorrem a infância, os anos de formação, a relação com Franco, a chegada ao
trono, a Transição, a tentativa de golpe de Estado de 23 de fevereiro de 1981,
a relação com a rainha Sofía, os filhos, os episódios familiares e os últimos
anos marcados pelo afastamento de Espanha.
É uma narrativa
simultaneamente política e pessoal. Mas também é uma narrativa cuidadosamente
construída.
É uma obra escrita sem
filtros nem tabus aparentes, na qual o rei emérito procura revelar-se sobretudo
na sua dimensão humana e não apenas institucional. Fala dos seus sentimentos,
das suas relações, das suas escolhas e dos seus erros, procurando mostrar o
homem que existia por detrás da coroa.
Essa é uma das principais
contradições de Reconciliación: o homem decide finalmente falar quando
já não exerce o poder, mas continua a falar como alguém que conhece
profundamente o valor político da palavra.
O antigo rei procura
apresentar-se antes de mais como homem. Como o filho, o marido, o pai, o amigo,
o homem apaixonado, mas também o homem que envelheceu e que olha para trás
procurando compreender as escolhas que fez.
A morte do irmão Alfonso,
ainda durante a sua juventude, surge como uma das feridas mais profundas da sua
vida. Já a relação com Franco constitui uma das questões politicamente mais
complexas das memórias. Juan Carlos foi educado dentro do sistema franquista.
Foi designado por Franco como seu sucessor a título de rei. E, depois da morte
do ditador, tornou-se uma das figuras centrais da transição para um sistema
democrático.
É nesta aparente
contradição que se encontra uma das partes mais relevantes do livro. Juan
Carlos procura explicar como recebeu um poder criado pelo franquismo e como
utilizou esse mesmo poder para contribuir para a transformação política de
Espanha. A Transição surge, por isso, menos como um processo inevitável do que
como uma operação política delicada, marcada por negociações, receios e riscos.
Nesta parte, o rei deixa de contar apenas a sua vida e passa a defender uma
determinada interpretação do seu reinado.
O título é, por si só,
uma declaração de intenções. Mas reconciliação com quem? Com Espanha? Com a
família? Com o filho? Com a monarquia? Com a própria História? Ou consigo
próprio? Provavelmente, com todos eles.
Juan Carlos escreve a
partir de Abu Dhabi, longe do país que governou e afastado da família que
durante décadas representou publicamente. A distância geográfica adquire,
inevitavelmente, uma dimensão política e simbólica. O homem que durante anos
esteve no centro da vida pública espanhola encontra-se agora fora dela. É desse
lugar que procura regressar à narrativa nacional. Não necessariamente para
recuperar o poder, que já não possui, mas para recuperar a memória do papel que
desempenhou.
O leitor sabe, desde o
início, que não está perante uma testemunha imparcial. Está perante o
protagonista. Essa circunstância não diminui o interesse das memórias. Pelo
contrário. Obriga a lê-las com atenção redobrada.
Juan Carlos procura
revelar-se na sua dimensão humana e não apenas institucional. Fala de
sentimentos, relações, escolhas e erros. A coroa deixa, em vários momentos, de
ocupar o centro da narrativa para dar lugar ao homem que existia por detrás
dela. Essa dimensão torna-se especialmente evidente quando aborda a família e,
sobretudo, a relação com o filho, Filipe VI. O antigo rei não esconde a mágoa
perante a forma como o seu afastamento foi conduzido pela família próxima e, em
particular, pelo atual monarca. A frieza dessa decisão é sentida pelo homem,
embora reconheça que o distanciamento público se tornou necessário para
proteger a instituição e preservar o reinado do filho.
É uma das contradições
mais fortes do livro: compreender racionalmente uma decisão política não
significa necessariamente aceitar emocionalmente as consequências dessa
decisão.
Quando a narrativa chega,
porém, aos episódios que contribuíram para a queda da sua reputação, o tom
torna-se mais cauteloso. As relações extraconjugais são abordadas de forma
relativamente breve. As controvérsias financeiras e alguns dos acontecimentos
que determinaram a sua saída de Espanha não recebem, pelo menos na perceção de
muitos leitores, o mesmo grau de exposição que a dimensão política do reinado.
Uma autobiografia não tem
de ser uma confissão integral. Mas um livro intitulado Reconciliación
cria uma expectativa particular: a de confronto com o passado, incluindo com
aquilo que é menos confortável.
Reconhecer
responsabilidades é uma parte essencial de qualquer tentativa de reconciliação.
E é precisamente nesse ponto que a obra pode deixar algumas perguntas em
aberto. A principal dificuldade de Juan Carlos I parece ser separar o rei do
homem. O rei pretende ser avaliado pelo papel histórico que desempenhou. O
homem procura ser compreendido pelas circunstâncias, pelas relações e pelas
decisões que marcaram a sua vida. Mas as duas dimensões não podem ser
completamente separadas.
Reconciliación
é, um livro marcado pela melancolia. Juan Carlos escreve quando já não possui o
poder que durante décadas definiu a sua existência. Escreve quando o filho
ocupa o trono, quando a sua permanência em Espanha se tornou politicamente
incómoda e quando a imagem da monarquia já não é aquela que prevaleceu durante
os primeiros anos da democracia. Escreve, sobretudo, num momento em que o
silêncio deixou de funcionar como mecanismo de proteção.
Mas memória não é
sinónimo de verdade absoluta.
Toda a autobiografia é
uma construção. Seleciona acontecimentos, organiza lembranças, estabelece
causalidades e define aquilo que deve ser contado — e aquilo que pode
permanecer fora da narrativa. Juan Carlos I conta a História a partir do fim. É,
por isso, mais interessante como documento de memória política e pessoal do que
como tentativa definitiva de encerrar a discussão sobre Juan Carlos I.
O antigo rei procura
reconciliar-se com Espanha, com a família, com a instituição que representou
durante quase quatro décadas e, provavelmente, consigo próprio. Não oferece uma
reconciliação concluída. Oferece o testemunho de um homem envelhecido que
percebe que já não pode controlar a forma como a História o julgará, mas ainda
pode tentar influenciar a forma como será lembrado.
É essa a verdadeira
questão que permanece depois da última página.
Reconciliación é
uma leitura que recomendo aos leitores interessados em biografias e memórias de
figuras historicamente relevantes. Mais do que uma autobiografia pessoal,
constitui um documento importante para compreender a história da monarquia
espanhola e a perspetiva de um dos seus protagonistas sobre quase quatro
décadas de vida política e institucional.
A decisão sobre o lugar
que essa história merece ocupar cabe agora ao leitor — e, em última instância,
à própria História.
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