quinta-feira, 30 de abril de 2026

DO PALITO À PERDIZ, de PAULO MOREIRAS | CASA DAS LETRAS

 

Sabia que as morcelas são mencionadas nas cantigas medievais portuguesas, tal como as favas, que foram proibidas por Pitágoras aos seus discípulos? Que o escritor Aquilino Ribeiro considerava a perdiz uma das aves mais lindas de Portugal? E que os gregos tinham o hábito de se passearem nas ruas com um palito na boca, como sinal de abastança e mesa farta?

A mesa, de resto, sempre foi ponto de encontro para os portugueses e peça central do seu quotidiano. À mesa estabelecem-se alianças, desenham-se estratégias, desenvolve-se a arte da má-língua. Mas também, curiosamente, se fala muito de comida: O que vai ser o jantar? Quando fazemos um petisco? Vamos comer um leitãozinho? Que tal uma sardinhada?

Do Palito à Perdiz - Sobre a mesa muito se diz é uma obra que reúne mil e uma curiosidades, que vêm a calhar que nem ginjas, sobre coisas que costumam chegar à mesa dos portugueses e que, como a ginjinha, fazem parte da nossa alma e identidade.

Esta é uma viagem à descoberta da nossa gastronomia, na qual a História se cruza com a Tradição, através de manifestações religiosas e culturais, lendas e contos, cantigas populares, adivinhas, provérbios ou superstições, mas também nas páginas dos escritores portugueses, que nunca deixaram de as referir nas suas obras.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

O SUL, de TASH AW | DOM QUIXOTE

A aclamada obra de um dos autores mais notáveis da nova geração, três vezes nomeado para o Booker Prize.

Quando o avô de Jay morre, o adolescente viaja com os pais e as duas irmãs até à propriedade que lhes coube em herança. A quinta, porém, está em ruínas, as árvores estão doentes e os campos áridos devido à seca. Ainda assim, o pai obriga-o a trabalhar na terra. A seu lado está Chuan, o filho do caseiro. Ao longo desses dias de verão, na vastidão dos campos e pelas ruas serpenteantes da cidade, a atração entre os rapazes intensifica-se.

No interior da casa decadente, os outros membros da família debatem-se com os seus próprios fantasmas. Os mais jovens sonham com a promessa de liberdade que Singapura oferece. Os mais velhos, tal como a terra que os rodeia, parecem impotentes para resistir às forças - naturais e humanas - que ameaçam tornar o seu modo de vida obsoleto.

Pela mão de Tash Aw, um dos autores mais aclamados da nova geração, três vezes nomeado para o Booker Prize, O Sul é um romance tenso e melancólico sobre desejo e família, modernidade e tradição.
 

terça-feira, 28 de abril de 2026

CAI BOMBA, de GERRIT KOUWENAAR | DOM QUIXOTE

Cai, Bomba! é um romance de formação comovente e incisivo sobre a arrogância da juventude, o desejo de aventura, a perda da inocência e a assustadora realidade da guerra. Inspirado nas suas vivências durante a invasão alemã, Kouwenaar retrata a ocupação dos Países Baixos com uma honestidade pungente, numa obra que foi comparada à de Sartre e de Gide. Um clássico redescoberto e, ao mesmo tempo, uma narrativa empática e assustadoramente atual.

Maio de 1940. Karel Ruis, de dezassete anos, dedica-se a devaneios para fugir à monotonia do seu quotidiano. Desde que a guerra assola a Europa, parece desejar o bombardeamento do seu país - para ele, qualquer coisa é melhor do que a existência estagnada dos pais. O seu desejo cumpre-se de forma brutal quando as tropas de Hitler invadem os Países Baixos, fazendo a guerra irromper no seu quotidiano e mudando violentamente a sua existência jovem e protegida.

Depois de sobreviver a um ataque aéreo e completar uma missão secreta (a entrega de uma carta à amante judia do seu tio), Karel apaixona-se (pela filha dessa mulher). Mas a alegria desse amor é breve - perante o avanço nazi, mãe e filha veem-se forçadas a fugir - e o futuro parece reservar-lhe apenas perdas e solidão. O que começa como um relato de aventuras, transforma-se num livro antibélico inesquecível, onde o autor capta de forma brilhante os anseios ingénuos do seu jovem protagonista e mostra o que acontece quando um rapaz de dezassete anos é lançado para a cruel maturidade em poucos dias.
 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

FAZER DE ESTÁTUA, de GÜNTER GRASS | DOM QUIXOTE


Quando um dia perguntaram a Umberto Eco que figura histórica feminina, do mundo da arte, ele escolheria, se pudesse, para jantar com ele, o escritor respondeu: Uta de Naumburgo. O mesmo se passa com o narrador desta história. No final da década de 1980, encontrando-se em viagem pela República Democrática Alemã, onde apresentava a sua obra mais recente, o narrador depara, na catedral de Naumburgo, com a mulher mais bela da Idade Média, uma das doze estátuas que representam os fundadores daquela igreja. E como tudo é possível numa folha de papel, convida todos os modelos para um almoço no seu jardim - todas as personagens que um dia haviam inspirado o mestre artesão do século XIII a criar aquelas esculturas tão próximas dos originais.

Pois bem, é durante esse repasto que o narrador se deixa encantar pela filha de certo ourives, precisamente a rapariga que servira de modelo à figura de Uta. A mesma jovem que, num ousado salto cronológico, ganha agora vida, no momento presente, fazendo de estátua nas praças de Colónia, Milão ou Frankfurt. O narrador fica tão obcecado pela jovem que a procura por toda a parte, satisfazendo-lhe até, por fim, um pedido com desfecho fatídico.

Concebida inicialmente para integrar um dos capítulos de Descascando a Cebola, esta narrativa foi descoberta há pouco tempo por Hilke Ohsoling, colaboradora de longa data de Günter Grass. O texto encontrava-se entre os materiais arquivados, não numa gaveta qualquer, esquecida e empoeirada. Já havia, porém, indícios da existência de Fazer de Estátua, referências encontradas em manuscritos do arquivo, em projetos de trabalho ou litografias, num conjunto de esculturas presente na oficina de trabalho de Grass.

Uma narrativa de grande subtileza, até agora desconhecida do público-leitor.

domingo, 26 de abril de 2026

O NOVO AGORA, de MARCELO RUBENS PAIVA | DOM QUIXOTE

A brilhante continuação de Feliz Ano Velho e Ainda Estou Aqui onde o autor constrói uma narrativa envolvente e íntima sobre a paternidade, ao mesmo tempo que recria um momento desafiador da história recente do Brasil.

Escritor, pai depois dos cinquenta anos, cadeirante e considerado inimigo pelo governo de Bolsonaro: assim se descreve Marcelo Rubens Paiva neste livro franco e emotivo, sequência autobiográfica de Feliz Ano Velho e Ainda Estou Aqui.

Nas obras anteriores, o autor fala sobre o acidente que o deixou numa cadeira de rodas aos vinte anos, o desaparecimento do pai, Rubens, durante a ditadura militar, e a luta da mãe, Eunice, para cuidar sozinha dos cinco filhos, se tornar uma defensora dos direitos indígenas e, por fim, enfrentar o Alzheimer.

Desta vez, em O Novo Agora, é o próprio Marcelo quem está no papel de pai. Às vezes bem-humorado, outras melancólico, Marcelo mergulha nas agruras da paternidade, ao mesmo tempo que recorda períodos especialmente duros do país: primeiro, a guinada política à direita que atinge em cheio a sua família e os artistas brasileiros. Depois, a pandemia. E, no meio de tudo isto, a lenta fragmentação do seu casamento.

A escrita avança e recua no tempo, retoma memórias de infância e relatos dos pais, incluindo cartas de Eunice, e, aos poucos, constrói um retrato complexo de uma família que atravessa crises de diferentes níveis, incerta quanto ao futuro, mas que, aos poucos, aprende a sobreviver… e a sair do outro lado refeita.
 

sábado, 25 de abril de 2026

AUTORES NACIONAIS | MANUEL ALBERTO VALENTE

Manuel Alberto Valente (Vila Nova de Gaia, 1945) licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa, cidade onde reside, mas acabou por dedicar grande parte da sua vida à atividade editorial. Como poeta, a sua obra está compilada em Poesia Reunida – O pouco que sobrou de quase nada (Quetzal, 2015).
Traduziu poesia de Juan Vicente Piqueras, Luis García Montero e Yolanda Castaño. Organizou a antologia Poesia, Substantivo Feminino – 25 poetas nascidas depois do 25 de Abril (Dom Quixote, 2025). Em 2008, foi agraciado pelo Governo Francês com o grau de Cavaleiro das Artes e das Letras e, em 2020, pelo Reino de Espanha com a Ordem de Isabel a Católica.
 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

60 ANOS DE POESIA, de MANUEL ALBERTO VALENTE | DOM QUIXOTE

Uma antologia que reúne um poema de cada um dos poetas publicados na Dom Quixote ao longo dos seus 60 anos de livros.

Projectada no âmbito das comemorações do 60.º aniversário das Publicações Dom Quixote, a presente antologia não pretende ser outra coisa senão a demonstração viva de como, desde a sua fundação por Snu Abecassis, em 1965, até ao presente, a Editora tem permanentemente demonstrado um empenhamento sério na divulgação da poesia.

No tempo de Snu (com a ajuda invisível de Fernando Assis Pacheco), os Cadernos de Poesia marcaram uma época da edição portuguesa, tendo neles sido publicados poetas como Carlos de Oliveira, Alexandre O’Neill, Armando Silva Carvalho, David Mourão-Ferreira, Ruy Belo, Egito Gonçalves, Natália Correia, António Ramos Rosa, Sophia de Mello Breyner, Maria Teresa Horta, Herberto Helder, Gastão Cruz ou Nuno Júdice, com a particularidade de este último, com A Noção de Poema, ter aí feito a sua estreia poética.

Mas mesmo depois, ao longo das sucessivas alterações de propriedade, nunca a Dom Quixote deixou de parte a poesia; pelo contrário, foi sempre enriquecendo o seu catálogo, que conta hoje, além de alguns clássicos, com «autores residentes» como Manuel Alegre, Fernando Pinto do Amaral ou Nuno Júdice.

E com o nome deste último criou, em 2025, um Prémio de Poesia que homenageia um poeta que nasceu na casa e que, muitos anos depois, fez dela o seu definitivo porto de abrigo.
 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

AUTORES NACIONAIS | NUNO JÚDICE


Nuno Júdice (1949-2024) nasceu no Algarve. Professor universitário, assumiu em 2009 a direção da revista Colóquio-Letras da Fundação Calouste Gulbenkian. Publicou o primeiro livro em 1972 e foi um dos mais importantes nomes da poesia contemporânea. Recebeu os mais importantes prémios de literários nacionais e internacionais, entre os quais: Pen Clube (1985), Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus (1990), da Associação Portuguesa de Escritores (1995), Bordalo da Casa da Imprensa (1999), Cesário Verde e Ana Hatherly (2003) e Fernando Namora (2004). Em 2013, foi distinguido com o XXII Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana (Espanha); em 2014, com o Prémio de Poesia Poetas del Mundo Latino Víctor Sandoval (México); em 2015, com o Prémio Argana de Poesia, da Maison de la Poésie de Marrocos e o Prémio Literário Fundação Inês de Castro – Tributo de Consagração; e, em 2016, com o El Ojo Crítico Iberoamericano de Radio Nacional de Espanha.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

PRIMEIRO POEMA, de NUNO JÚDICE | DOM QUIXOTE

O último livro de Nuno Júdice, o que o poeta tinha preparado para publicação no ano em que nos deixou.

Conforme nos conta Manuela Júdice na introdução deste livro, Nuno Júdice morre em Março de 2024 deixando três pastas com poemas para o livro que dizia estar preparando. Saem dessas pastas os poemas para este livro, Primeiro Poema, o título que ele revelara ao Ricardo Marques.

O trabalho de completar o livro incompleto foi feito pelo Ricardo Marques, estudioso da obra do poeta e seu amigo, e por Manuela Júdice, a sua mulher de toda a vida. E, neste Primeiro Poema, voltamos a ouvir a voz de Nuno Júdice, os seus temas, a sua poesia.
 

terça-feira, 21 de abril de 2026

AUTORES NACIONAIS | ANTÓNIO TAVARES


António Tavares nasceu no Lobito, Angola, em 1960. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra e é pós-graduado em Direito da Comunicação pela mesma universidade. Foi jornalista e autarca e atualmente é professor. Escreveu peças de teatro e ensaios. Como romancista, foi finalista do Prémio LeYa e do Prémio Literário Fernando Namora com As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia, venceu o Prémio LeYa em 2015 com O Coro dos Defuntos, o seu romance Todos os Dias Morrem Deuses recebeu uma menção honrosa no Prémio Literário Alves Redol e publicou ainda o romance Homens de Pó.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

A ARTE PENDULAR DO BALOIÇO, de ANTÓNIO TAVARES | DOM QUIXOTE


No final de 1980, em vésperas de eleições presidenciais, uma avioneta cai em Camarate logo após levantar voo. Nela seguiam, entre outros, o chefe do governo de Portugal e o seu ministro da Defesa, que morrem carbonizados. Com dez comissões parlamentares de inquérito, ainda hoje, volvidas mais de quatro décadas, não se sabe se foi acidente ou atentado, e ninguém foi a julgamento.

Na mesma altura, um grupo de revolucionários radicais cria uma organização terrorista conhecida por FP-25, cuja missão é matar os inimigos do povo. Setenta e três réus são julgados, mas apenas uns trinta condenados e - entre amnistias e prescrições - poucos cumprem prisão efectiva.

Entretanto, numa aldeia às portas de Lisboa onde não se deixa que nasça nem mais uma criança, uma rapariga morrerá misteriosamente pouco depois de dar à luz. A menina recém-nascida acabará ao colo do mecânico da avioneta acidentada; e o seu pai biológico - amigo do polícia que investiga os casos descritos - procurará durante muitos anos essa filha que passará boa parte da infância em cima de um baloiço.

Estas são as pontas que nunca se atam verdadeiramente em A Arte Pendular do Baloiço, um romance absolutamente fascinante no qual se afirma, não sem alguma razão, que em Portugal nunca há culpados.

domingo, 19 de abril de 2026

AUTORES NACIONAIS | LÍDIA JORGE

Romancista e contista portuguesa. Nasceu em 1946, no Algarve. Viveu os anos mais conturbados da Guerra Colonial em África. Foi membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social. É professora do ensino secundário e publica regularmente artigos na imprensa. O tema da mulher e da sua solidão é uma preocupação central da obra de Lídia Jorge, como, por exemplo, em Notícia da Cidade Silvestre (1984) e A Costa dos Murmúrios (1988). O Dia dos Prodigíos (1979), outro romance de relevo, encerra uma grande capacidade inventiva, retratando o marasmo e a desadaptação de uma pequena aldeia algarvia. O Vento Assobiando nas Gruas (2002) é mais um romance da autora e aborda a relação entre uma mulher branca com um homem africano e o seu comportamento perante uma sociedade de contrastes. Este seu livro venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores em 2003.
Venceu o Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas 2020.
Venceu o Prémio Pessoa de 2025.
 

sábado, 18 de abril de 2026

O CÉU CAIRÁ SOBRE NÓS, de LÍDIA JORGE | DOM QUIXOTE

Um conjunto de crónicas que, pela sua importância e pertinência, não podiam deixar de ser lidas pelos leitores portugueses.

Em Janeiro de 2024, Lídia Jorge iniciou uma colaboração regular nas páginas de opinião do jornal El País, espaço que partilha com os escritores Juan Gabriel Vásquez, Irene Vallejo e Leonardo Padura. O presente volume é uma recolha de trinta dessas crónicas, incluindo cinco das várias que foram sendo publicadas irregularmente, no mesmo periódico, desde 2020, sendo uma das primeiras aquela que dá o título a este livro.

O Céu Cairá Sobre Nós corresponde ao primeiro verso de uma canção popular afegã, mas ao ser transposto para título de um livro de crónicas o seu sentido alarga-se e globaliza-se. Ele corresponde ao espírito de ameaça do nosso tempo, e simultaneamente à força da resistência que a lucidez da análise dos factos permite.

Lucidez e resistência, talvez sejam as duas palavras que emanam destas crónicas de carácter literário. E nada melhor o poderá confirmar do que o discurso proferido pela autora em Lagos, a 10 de Junho de 2025, aquando das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, e que temos o gosto de incluir neste livro. Esse texto provocou uma polémica que de algum modo marca as contingências paradoxais do nosso tempo. Publicamo-lo para que não se esqueça.

Nota do autor
«Encaro o Mundo como um mistério por desvendar. Se escrevo romances é para imaginar que as personagens lançadas num palco, animadas de voz própria, dialogam de tal modo que chegam a conclusões que eu sozinha não alcançaria. Mas com as crónicas é diferente. Eu mesma sou personagem e promovo o inquérito a minhas próprias expensas. Ao publicá-las tenho a ideia de escrever cartas de desafio contra o que a História oculta. E assim, pelos enganos que ela comporta, nada de mais ambicioso e nada de mais humilde do que esta labuta com o tempo que passa e a verdade que voa.»
Lídia Jorge

sexta-feira, 17 de abril de 2026

AUTORES NACIONAIS | CARLA PAIS

Carla Pais, nascida em 1979, é natural da freguesia de Regueira de Pontes e reside atualmente em França.
Autora do romance Mea Culpa, finalista do Prémio APE 2018, tem sido premiada nos vários géneros literários, nomeadamente na poesia, onde venceu a primeira edição do prémio de poesia Francisco Rodrigues Lobo com a obra A Instrumentação do Fogo.
O seu romance Um Cão Deitado à Fossa foi galardoado com o prémio Cidade de Almada 2018 e o Prémio SPA para o melhor livro de ficção narrativa 2023. E o mais recente romance, A Sombra das Árvores no Inverno, venceu o Prémio LeYa 2025.
 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

A SOMBRA DAS ÁRVORES NO INVERNO, de CARLA PAIS | LEYA

Céline, filha de uma prostituta que acabou esfaqueada no Bois de Boulogne, em Paris, passa a adolescência numa instituição e acaba por juntar-se a um imigrante do Mali, que se orgulha de ter uma farda com boné e tudo, mas é atropelado pelo destino e acusado de um crime que não cometeu.

Aïsha - filha de um sábio que entende a linguagem das pedras e lê nos sinais da natureza o presságio da destruição - vive numa cidade prestes a ser invadida pelos jihadistas e vê-se obrigada a esconder os filhos num abrigo improvisado, enquanto o marido permanece no hospital em ruínas, ajudando a salvar vidas Nadia, que carrega uma pesada culpa desde a infância, enfrenta a dor de ter um filho aliciado por redes extremistas. Desesperada, tenta sobreviver à ausência e encontra forças para acolher duas crianças refugiadas que chegam completamente sós, arrastando com elas o peso da guerra.

As vidas de todas estas personagens entrelaçam-se num percurso de separações, de perdas e de reconstrução possível. A Sombra das Árvores no Inverno - vencedor do Prémio LeYa por unanimidade - é um romance sobre famílias quebradas pela violência e pelo fanatismo, mas também sobre a ternura, o instinto de proteção e a coragem silenciosa capazes de renascer no meio do caos.
 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

AUTORES INTERNACIONAIS | IRIS WOLFF


Iris Wolff, nascida no período da Cortina de Ferro, na Transilvânia, em 1977, emigrou para a Alemanha em 1985 e mora em Freiburg im Breisgau. É uma escritora premiada cuja obra transporta o leitor para o coração da sua antiga terra natal. O destino dos que ficam e daqueles que escolhem emigrar é o tema constante e poderoso que permeia seus romances.

Além de Clareiras (2024, agora editado em Portugal), é ainda autora de outros quatro romances.
Bestseller na Alemanha, a sua obra foi traduzida para diversos idiomas, recebeu ampla aclamação e inúmeros prémios literários, incluindo o Prémio Marie-Luise-Kaschnitz; o Prémio Literário de Solothurn; o Prémio Chamisso de Dresden (2023), para uma obra literária baseada na experiência de um migrante que contribui para o intercâmbio europeu; o Prémio de Literatura da Fundação Konrad Adenauer (2025), que homenageia escritores que dão voz à liberdade; o Prémio Spycher e o Prémio Uwe-Johnson, para obras literárias de destaque; e nomeações para o Prémio do Livro da Baviera e o Prémio do Livro Alemão.

terça-feira, 14 de abril de 2026

LANÇAMENTO | LUSITÂNIA, de ANDRÉ SIMÕES | MUSEU DE LISBOA - TEATRO ROMANO


 

CLAREIRAS, de IRIS WOLFF | DOM QUIXOTE

Na Roménia comunista, com o seu legado multiétnico, cuja diversidade é uma riqueza silenciada, o destino aproxima Lev - um rapaz acamado - de Kato, uma rapariga que gosta de desenhar e veste demasiado cedo o casaco da solidão. Kato vai ajudar Lev com a matéria das aulas, mas o que começa como um gesto imposto pela escola torna-se, para ambos, uma amizade inesperada que devolve a Lev a saúde e oferece a Kato um lugar onde finalmente pode repousar.

Anos depois, já adultos, os caminhos de sempre continuam a chamar por Lev, como um pássaro que não tem coragem de sair da gaiola mesmo com esta aberta, enquanto Kato voou e partiu para o Ocidente, à procura de um horizonte mais vasto. O que os une agora são apenas os postais que ela lhe envia - pequenas janelas para vidas que poderiam ter sido partilhadas. Até ao dia em que chega um postal de Zurique, com uma pergunta simples e desarmante: «Quando vens?» E então reabre-se a porta para o passado, vivo, íntimo, incontornável.

Este é um romance luminoso sobre a forma como duas vidas podem tocar-se e transformar-se para sempre, em que a memória se entrelaça com a História, e cada gesto, cada silêncio e cada paisagem - até cada clareira na floresta - transporta a polifonia de um país e as vidas daqueles que sobreviveram aos regimes e às suas fragilidades com a força dos laços humanos e dos reencontros.
 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

CONVITE | SESSÃO DE APRESENTAÇÃO


 

AUTORES INTERNACIONAIS | ANNE SERRE


Anne Serre (1960) é autora de dezoito livros de ficção e recebeu o Prémio Goncourt pela sua coletânea de contos Au cœur d’un été tout en or. Os seus livros estão traduzidos em várias línguas e em mais de quinze países, e a sua obra foi objeto de um colóquio universitário, cujo diretor a definiu como «a fantasia e o nonsense inglês, o grotesco de Fellini, o expressionismo cru e violento de certas escritas masculinas e femininas da Áustria ou da Europa Central, reunidos, com a sensibilidade de Anne Serre, num inconformismo radical, sem quaisquer concessões aos estereótipos da literatura de hoje». A escritora vive e trabalha em Paris.

domingo, 12 de abril de 2026

UM CHAPÉU DE LEOPARDO, de ANNE SERRE | DOM QUIXOTE


Aclamado como o romance mais comovente de Anne Serre até ao momento e uma «obra-prima de simplicidade, emoção e elegância», Um Chapéu de Leopardo é a história de uma intensa amizade entre o Narrador e Fanny, sua amiga de infância, que sofre de doença psíquica.

Vivendo sempre entre a esperança e o desespero, Fanny deixa transparecer, de forma intermitente, várias facetas da sua personalidade, como a Fanny divertida que um dia roubou um chapéu de leopardo. Porém, essa faceta permanece quase sempre oculta, revelando sobretudo uma Fanny que carrega o peso insuportável da tristeza. É uma pessoa diferente - e essa diferença é aquilo que o Narrador questiona incansavelmente, tal como a autora questiona de forma lúdica a própria forma do romance, levando-nos frequentemente a pensar que o Narrador é, no fundo, o seu alter ego.

Escrito após o suicídio da irmã mais nova de Anne Serre, que tinha uma doença mental, Um Chapéu de Leopardo pode ser lido como a celebração de uma vida tragicamente interrompida ou como uma despedida incrivelmente bela e sensível.

sábado, 11 de abril de 2026

AUTORES INTERNACIONAIS, DAVID UCLÉS

David Uclés (Úbeda, 1990), licenciado e mestre em Tradução e Interpretação, é, além disso, escritor, músico e desenhador. Publicou os romances A Península das Casas Vazias (2024), Emilio y Octubre (2020) e El llanto del león (2019; Prémio Complutense de Literatura). A Península das Casas Vazias, narrado em tom de realismo mágico, é fruto de quinze anos de trabalho e de uma exaustiva viagem de documentação e memória pela geografia espanhola. Para a sua criação, recebeu as bolsas Leonardo e Montserrat Roig.
Em 2026, recebeu o Prémio Nadal de Romance pela sua obra mais recente, La ciudad de las luces muertas.
 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

A PENÍNSULA DAS CASAS VAZIAS, de DAVID UCLÉS | DOM QUIXOTE

 

A história de um soldado que retalha a pele para deixar sair a cinza acumulada, de um poeta que cose a sombra de uma menina a seguir a um bombardeamento e de um professor que ensina os seus alunos a fazerem-se de mortos; de um general que dorme junto da mão cortada de uma santa, de um menino cego que recupera a vista durante um apagão e de uma camponesa que pinta de preto todas as árvores do seu quintal; de um fotógrafo estrangeiro que pisa uma mina perto de Brunete e não levanta o pé durante quarenta anos, de um habitante de Guernica que conduz até ao centro de Paris uma furgoneta com os restos fumegantes de um ataque aéreo e de um cão ferido cujo sangue tingirá a última faixa de uma bandeira abandonada em Badajoz.

Estamos, pois, em presença da história total da Guerra Civil espanhola e de uma Ibéria agonizante onde o fantástico escora a crueza do real; onde os anónimos membros de um extenso clã de olivicultores de Jándula cruzam os seus destinos com os de Alberti, Lorca e Unamuno; Rodoreda, Zambrano e Kent; Hemingway, Orwell e Bernanos; Picasso e Mallo; Azaña e Foxá; onde o épico e o costumbrista se entrelaçam para tecer uma portentosa tapeçaria, poética e grotesca, bela e delirante.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

NOTAS SOBRE UM NAUFRÁGIO, de DAVIDE ENIA | DOM QUIXOTE

«Este livro é um romance. Conta o que está a acontecer no Mediterrâneo - as travessias, os salvamentos, os desembarques, as mortes - e fala da relação entre mim e o meu pai, abordando ainda a doença do meu tio, seu irmão.» É assim que Davide Enia apresenta Notas Sobre um Naufrágio, um livro que parte da sua experiência em Lampedusa, lugar de um naufrágio simultaneamente individual e coletivo.

De um lado, estão os que atravessaram vários países, e depois o mar, para chegarem à Europa em condições inimagináveis - rapazes feridos e nus, raparigas estupradas e grávidas, crianças e adultos que viram morrer familiares durante a travessia. Do outro, homens e mulheres que os ajudam a desembarcar - voluntários, mergulhadores, pessoal médico, a Guarda Costeira… No meio, o autor, para os ouvir a todos e contar sem paninhos quentes o que realmente acontece em terra e no mar e como as palavras são manifestamente insuficientes para compreender os paradoxos do presente.
 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

LANÇAMENTO | ÀS VEZES MUDAR É FICAR, de SOFIA CASTRO FERNANDES | PLANETA | FNAC CHIADO


 

AUTORES INTERNACIONAIS | DAVIDE ENIA


Davide Enia (Palermo, 1974) é dramaturgo, encenador, ator e romancista, tendo escrito vários livros de ficção e não-ficção e realizado um drama radiofónico. Recebeu os mais importantes prémios de teatro em Itália. Escreveu Notas sobre Um Naufrágio, um texto absolutamente notável e comovente sobre os desembarques de migrantes na ilha de Lampedusa, que venceu o Premio Anima Letteratura 2017, o Premio SuperMondello e Mondello Giovani 2018 e está publicado nas Publicações Dom Quixote. Autorretrato é também uma peça de teatro que estreou em 2025 e conta a sua experiência desde criança com a máfia em Palermo.

terça-feira, 7 de abril de 2026

AUTORRETRATO, de DAVIDE ENIA | DOM QUIXOTE

Ao regressar a casa depois da escola, um menino de oito anos vê a sua primeira vítima assassinada pela máfia, enquanto as bolas dos colegas batem nas persianas fechadas e os cromos de futebol passam de mão em mão. Esses «encontros» acabam por tornar-se quase banais - e é só como adolescente que descobre, em conversa com um colega que foi a Londres, que as mortes da Cosa Nostra são um exclusivo da cidade onde cresceu. Num passeio organizado pelo professor de Religião e Moral, decide então escrever as suas instruções para sobreviver a Palermo e entrega-as ao padre que, pouco depois, acabará morto com um tiro na nuca. No ano em que faz os exames de admissão à universidade, Davide fica sozinho na cidade, e a família, de férias nas Dolomitas, ouve a notícia da bomba que matou o juiz cuja vivenda fica mesmo em frente da sua casa e apanha o maior susto da sua vida.

Davide Enia conta-se a si próprio neste texto belíssimo, que já foi levado à cena no seu país e no qual ele empresta a voz a três investigadores policiais que, como uma obsessão, uma vocação, um dever, lutaram e derrotaram o braço armado da máfia. As suas palavras correm por estas páginas como pelas ruas e vielas de uma cidade tão acostumada ao silêncio quanto ao rugido das bombas e onde o reflexo numa poça de sangue é o seu autorretrato.
 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

AUTORES NACIONAIS | CARLA LOURO


Carla Louro nasceu em Santarém, em 1969.

É licenciada em Arquitetura e trabalha atualmente como arquiteta no Município de Abrantes.
Quis ser bailarina, mas nunca foi.
Gosta de linhas, mas nunca soube desenhar bem.
Não gosta de escrever com uma caneta qualquer.
Entra-se na casa pelo pátio marca a sua estreia literária.

domingo, 5 de abril de 2026

ENTRA-SE NA CASA PELO PÁTIO, de CARLA LOURO | DOM QUIXOTE

Entra-se na casa pelo pátio venceu por unanimidade a primeira edição do Prémio de Poesia Nuno Júdice.

É um livro íntimo, feminino e muito emotivo, embora nunca sentimental, com uma poesia clara, mas não simplista. Um texto de extraordinária contenção, sobretudo tendo em conta a sua grande profundidade.

Destacam-se temas como a maternidade, a importância do espaço doméstico e o refúgio da cozinha como lugar de intimidade e criação (num quotidiano tratado sempre sem vulgaridade), o luto, a relação entre as casas e os poemas, entre a construção do texto e a construção da casa.

É também um livro sobre a escrita em si mesma, assim homenageando o patrono do prémio, Nuno Júdice.
 

sábado, 4 de abril de 2026

UMA CONVERSA ENTRE DAVID UCLÉS e PILAR DEL RIO


 

AUTORES NACIONAIS | NUNO MAULIDE

 

Nuno Maulide nascido em Lisboa em 1979, é professor catedrático premiado e diretor do Instituto de Química Orgânica da Universidade de Viena. Eleito Cientista do Ano na Áustria em 2018, Nuno Maulide traçou um percurso de excelência que passou pelas universidades de Louvain, Paris e Stanford, além do prestigiado Instituto Max Planck. Estudou piano e Química, uma dualidade que moldou a sua visão do mundo. Comunicador nato, Nuno Maulide acredita que a ciência, tal como a música, é uma forma de arte capaz de explicar os maiores mistérios da vida. Os seus livros, já sucessos de vendas, transformaram a forma como o público encara a Química, revelando o lado apaixonante e humano das moléculas.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

A QUÍMICA DAS EMOÇÕES, de NUNO MAULIDE | PLANETA


Acredita que é um ser racional? Que as suas decisões são fruto de uma lógica apurada e de uma vontade soberana? A verdade é muito mais fascinante e o prestigiado cientista e divulgador científico Nuno Maulide explica-lhe porquê. Neste exato momento, o seu cérebro é o palco de uma sinfonia invisível. Cada explosão de euforia, o peso de uma perda, a fúria de um desentendimento ou a paralisia da procrastinação não são apenas sentimentos; são o resultado de coreografias moleculares precisas. Somos, em grande medida, governados por uma química que não vemos, mas que dita quem somos e o que sentimos. Nesta viagem pelas nossas emoções, descobrimos como moléculas como as endorfinas, a serotonina, a dopamina, a oxitocina ou o cortisol assumem o papel de maestros da nossa existência.

O autor best-seller Nuno Maulide desvenda como este equilíbrio químico influencia fenómenos tão distintos como a mentira, o exercício físico, o jejum e, claro, o amor. Está finalmente na hora de compreender as moléculas que moldam, influenciam e determinam a sua vida.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

AUTORES NACIONAIS | ANDRÉ SIMÕES

André Simões é professor e investigador em Estudos Clássicos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Ao longo de três décadas, tem lecionado várias disciplinas nas áreas de Língua e Literatura Latinas, Cultura Romana, Cultura Clássica e Vida Quotidiana na Grécia e em Roma. Na sua investigação, dedica-se sobretudo à literatura em língua latina do período humanístico e também à receção dos autores clássicos na literatura portuguesa, com várias publicações e participações em congressos nacionais e internacionais.
 

quarta-feira, 1 de abril de 2026

LUSITÂNIA, de ANDRÉ SIMÕES | PLANETA

André Simões, professor e investigador em Estudos Clássicos, convida-nos a fazer uma viagem extraordinária até à Olisipo do início do século II d. C. ao longo destas páginas vamos conhecer Marco Cássio Arriano, a sua mulher Árria Avita e os seus filhos, uma família a viver na Lisboa romana.

Vamos acompanhar Marco Cássio no seu dia de trabalho, entrar na sua casa e jantar com a sua família no triclínio, acompanhar Quinto, Cássia e Gaio à escola e ver com que brincavam, além de visitarmos as termas e os tempos e assistirmos aos rituais religiosos, numa reconstituição rigorosa, viva e envolvente do quotidiano romano.

Com base em fontes literárias, arqueológicas e epigráficas, esta obra mostra que o Império Romano não foi apenas feito de imperadores e grandes monumentos, mas sobretudo de pessoas comuns, com preocupações muito próximas das nossas. Como nasciam, o que vestiam, como era a sua higiene, o que comiam, como se entretinham, como educavam os seus filhos e como festejavam os aniversários: um livro divertido e fascinante para todos os que querem descobrir como se vivia na Lisboa romana.